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24.8.23

Crédito à habitação: há cada vez menos casas a serem executadas pela banca

Isabel Vicente, in Expresso

Bancos tinham 690 imóveis em carteira no segundo trimestre. Número revela baixo nível de incumprimento no crédito

O número de casas com que os bancos ficam para venda posterior tem vindo a diminuir e no segundo trimestre de 2023 “atingiu o valor mais baixo de toda a série histórica, acumulando um total de apenas 690 unidades”. A conclusão é da empresa Confidencial Imobiliário, que monitoriza todos os trimestres informação facultada pelos principais bancos a operar em Portugal.


Trata-se de imóveis residenciais que entram nos bancos como dação em pagamento. Para o decréscimo de habitações nas carteiras dos bancos contou a “forte descida no fluxo de receção de novas frações por parte dos bancos” (ver gráfico), a par de um volume de vendas superior às novas entradas.

Um cenário que revela que os bancos estão a executar menos imóveis e também a conseguir vender mais, apesar do aumento das taxas de juro no último ano.

No segundo trimestre de 2023, a banca recebeu mais 101 imóveis residenciais devido a incumprimentos dos créditos para habitação, o que face aos 1083 que tinha recebido em igual período de 2013 correspondeu a uma descida de 90,6%.

É igualmente significativo o decréscimo registado no segundo trimestre de 2023 face a igual período de 2022: menos 60%. E se recuarmos para o período antes da pandemia, face a 2019 a queda foi ainda maior, de 89%. É na região centro que há maior concentração de imóveis em posse dos bancos, seguida da área metropolitana de Lisboa e da região norte. Em sentido contrário estão a área metropolitana do Porto, o Algarve e o Alentejo.

No quarto trimestre de 2012, quando pela primeira vez foram contabilizados estes dados junto dos bancos, pela Confidencial Imobiliário, o número de novas casas que chegaram à posse dos bancos ascendia a 2988, consequência da crise financeira iniciada em 2008, durante a qual muitas famílias tiveram de entregar a casa aos bancos. Deu-se depois uma quebra acentuada no número de casas que foram parar aos bancos.

Já se compararmos a carteira global de imóveis na posse dos bancos — e não as entradas — do segundo trimestre de 2013, que era então de 7610 imóveis — a evolução face a igual período deste ano mostra um decréscimo de 90,6%. São estes os dados que constam do Sistema de Informação Residencial — Desinvestimento Bancário facultados pela banca ao Confidencial Imobiliário, desde o final de 2012. Entre os bancos que reportam informação estão a CGD, BCP, Santander, Novo Banco, BPI, Banco Montepio e Crédito Agrícola.

Tendo em conta a carteira global nas mãos do conjunto dos bancos — 690 imóveis —, verifica-se que no segundo trimestre de 2023 se registou uma redução de 46% face a igual período de 2022, quando havia em carteira 1276 imóveis residenciais. E se compararmos com igual período de 2019, antes da pandemia, o decréscimo foi ainda maior: 79%, quando os bancos tinham em carteira 3343 imóveis residenciais para venda.

Os dados recolhidos mostram que “até 2016 o número de casas à venda pelo lado dos bancos esteve entre as 7 mil e as 8 mil unidades, caindo desde então de forma sucessiva, até ao mínimo atual de 690 unidades”.


Para Ricardo Guimarães, responsável da Confidencial Imobiliário, “estes números têm especial relevância no contexto atual” — de subida das taxas de juros e consequentes aumentos nas prestações em créditos de taxa variável —, já que “não há sinais de um aumento da carteira de imóveis na posse dos bancos em resultado de processos de incumprimento de crédito”.

1.8.23

Com escalada das Euribor, 75% da prestação são juros pagos ao banco

Rosa Soares, in Público

Capital amortizado “encolhe” drasticamente com a subida das Euribor. Taxas a seis e a 12 meses dão sinais de estabilização.

Mais um mês que chega ao fim e que significa, para muitas famílias, mais um aumento considerável na prestação da casa. O agravamento é bem mais acentuado para quem tem empréstimos associados à Euribor a 12 meses, prazo que apresenta o valor mais elevado, e que tem revisões mais espaçadas, o que faz com que as actualizações também sejam mais acentuadas. Os contratos a rever em Agosto e os novos empréstimos com esta taxa utilizarão a média mensal de 4,149% verificada em Julho (mais 142 pontos que os 4,007% em Junho), que fica bem acima dos 0,992% registados há um ano.

Nos restantes prazos, as subidas na prestação continuam expressivas, especialmente se tivermos em conta os valores actuais, mas como são revistos mais vezes, a cada três e seis meses, conforme a taxa associada, as actualizações são mais suaves.


A seis meses, a taxa média subiu em Julho para 3,942%, mais 0,117 pontos face ao valor do mês anterior (3,825%). E a três meses avançou para 3,672%, uma subida de 0,136 pontos face aos 3,536% de Junho.

Com os valores actuais, o aumento das prestações é muito significativo e é duplamente penalizador para as famílias, uma vez que o valor pago em juros representa mais de três quartos da prestação, com apenas um quarto a corresponder ao pagamento do capital emprestado. A variação das duas componentes fica mais clara através da simulação de um empréstimo. Assim, a um crédito de 150 mil euros, a 30 anos, associado à Euribor a 12 meses (4,149% da média de Julho), acrescido de 1% de spread (ou margem suplementar aplicada em função do risco da operação), vai corresponder uma prestação de 818,95 euros. Este valor representa um aumento de 265,10 euros face ao pagava com a taxa de Julho de 2022.


Nesta prestação de 818,95 euros, o valor correspondente a juros é de 643,63 euros, ou seja, 78,7% do valor a pagar mensalmente. Já a componente de amortização do capital em dívida representa os restantes 175,32 euros, cerca de 21,3% da prestação.

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Sinais de abrandamento

A subida das taxas Euribor em Julho foi mais suave que nos meses anteriores, mas o nível a que se encontram é elevado, especialmente para quem pediu empréstimos durante os cerca de seis anos em que as Euribor permaneceram em terreno negativo e para quem, por força da subida dos preços das casas, pediu empréstimos de montantes mais elevados.

A simulação, realizada pelo PÚBLICO, para um empréstimo de 150 mil euros, a 30 anos e com um spread de 1%, associado à média mensal da Euribor a 12 meses, revela um agravamento de 265 euros na prestação no espaço de um ano, elevando-a a 818,95 euros. Mas no mesmo cálculo para um empréstimo de 200 mil euros, a prestação já dispara 353,49 euros para 1091,93 euros.

Seguindo o mesmo modelo de cálculo, no caso da Euribor a seis meses, a rever em Agosto, o aumento é bastante inferior, de 96,03 euros, para 799,92 euros. A última revisão aconteceu em Fevereiro do corrente ano, com a média de Janeiro da Euribor a seis meses (2,858%). Neste prazo, a prestação subdivide-se em 617,75 euros de juros (77,3%) e 182,17 euros de capital (22,7%).


Na Euribor a três meses, a última actualização da taxa é bem mais recente, de Maio, e com a revisão em Agosto o valor a pagar sobe 43,7 euros, para 775,43 euros. Deste valor, 584 euros correspondem a juros (75,4%) e 191,43 a pagamento do montante em dívida (24,6%).

Nas últimas sessões diárias, as Euribor têm dado sinais de estabilização, especialmente nos prazos de seis e 12 meses, parecendo indiciar que a subida de taxas por parte do Banco Central Europeu (BCE) possa ter terminado.


A mostrar que o prazo mais longo tem perdido fôlego na subida, o valor diário desta segunda-feira ficou abaixo da média mensal, ao cair para 4,064%, e do máximo (desde Dezembro de 2008) registado a 7 de Julho, quando atingiu 4,193%.
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Os contratos de futuros para este prazo, o único para que há este produto financeiro, apontam para valores ligeiramente acima da média de Julho (3,672%). No caso do contrato de Setembro, o valor apontava, esta segunda-feira, para 3,825%, e do de Dezembro para 3,885%.

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A novidade na última reunião, e que justifica a recente desaceleração das Euribor, está no facto de o banco central ter deixado em aberto a possibilidade de uma pausa na subida das taxas directoras, decisão que dependerá da evolução de vários indicadores económicos, nomeadamente da inflação nos países da zona euro.


Mas nada está garantido, já que a presidente do BCE, Christine Lagarde, se limitou a dizer que “existe a possibilidade de uma subida [de taxas de juro na próxima reunião]. Existe a possibilidade de uma pausa. É um talvez decidido”, repetindo por diversas vezes a ideia de que a decisão do banco central em Setembro dependerá da forma como evoluírem os indicadores económicos nas próximas semanas.

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]