in JN
A Associação Quebrar o Silêncio, de apoio a homens vítimas de abuso sexual, recebeu 371 pedidos de ajuda nos últimos quatro anos, e o número de pedidos aumentou 21% só no último ano, destacando-se os casos com homens adultos.
A associação completa hoje quatro anos e, por ocasião do aniversário, o presidente da Quebrar o Silêncio adiantou à agência Lusa que, desde 2016, recebeu 371 pedidos de ajuda da parte de homens e jovens vítimas de abuso sexual, algo que considera ser "uma evolução positiva".
"No ano passado [2019], registámos 99 pedidos de ajuda de homens, neste ano [2020] registamos 120 e temos notado que apesar de a grande maioria dos casos que chegam até nós serem homens na casa dos 35 anos, também temos notado alguns pedidos por jovens na casa dos 20, o que também para nós é importante perceber porque estamos a chegar a outro público, a outros homens que precisam do nosso apoio", destacou Ângelo Fernandes.
De acordo com o responsável, a maioria dos homens que procura a ajuda da associação tem à volta de 35 anos, o que significa que passou "cerca de 20 anos em silêncio por causa do abuso" de que foi vítima. "Quando vemos que há jovens na casa dos 20 anos que nos pedem ajuda parece-nos positivo porque estamos a encurtar o longo período de silêncio", sublinhou.
Ângelo Fernandes explicou que, na maior parte dos casos dos homens e rapazes que procuram a ajuda da associação, o abuso aconteceu durante a infância, mas há também situações em que o abuso aconteceu já durante a adolescência ou até mesmo na fase adulta.
Casos com homens adultos continuam a ser residuais, andam na "casa dos 5% a 10% dos nossos casos, mas se pensarmos que no primeiro ano não havia sequer essa percentagem, já começa a indicar que há aqui uma mudança", salientou.
De acordo com Ângelo Fernandes, também ele uma vítima deste tipo de crime, quem chega à Quebrar o Silêncio procura vários tipos de ajuda, e se há quem queira partilhar a sua história e confirmar se o seu caso foi ou não de abuso sexual - "porque acreditam que os homens não podem ser vítimas de violência sexual" - outros procuram apoio psicológico para conseguir ultrapassar as consequências traumáticas.
"Nós precisamos cada vez mais de trazer para a conversa, quando falamos de violência sexual, esta dimensão traumática que esta experiência teve nas vítimas e que o apoio psicológico especializado ajuda a ultrapassar as consequências", apontou o responsável.
No global, Ângelo Fernandes considera positiva a evolução que a associação tem feito tendo em conta a diversidade cada vez maior de casos que chegam, apontando que "à medida que os homens vão conhecendo esta realidade" e percebem que existem outros homens que também foram abusados, mais facilmente pedem ajuda.
"É muito positivo porque significa que a nossa mensagem está a passar, a chegar a mais homens, e cada vez mais cedo conseguem perceber que não estão sozinhos e que há alguém que pode ajudá-los a ultrapassar estas consequências", sublinhou.
Na opinião do presidente da associação, também tem ajudado os testemunhos de vítimas que estão no 'site' da Quebrar o Silêncio, graças aos quais há "quase sempre um efeito bola de neve": "Um homem que testemunha ajuda sempre outros a fazer o mesmo porque assim percebem que não estão sozinhos".
Atualmente, a associação ajuda semanalmente 21 homens vítimas de violência sexual com apoio psicológico, registando-se mensalmente uma média de 10 novos pedidos de apoio, que tanto pode ser feito pela própria vítima, como por familiares ou amigos que queiram ajudar.
"Nos últimos meses temos registado mais ou menos cerca de 20 a 24 atendimentos regulares por mês, ou seja, homens que todas as semanas têm apoio psicológico regular connosco. No passado tínhamos 14, 15 apoios regulares por mês, neste momento estamos com entre 20 a 24, portanto é quase o dobro", destacou.
Para 2021, Ângelo Fernandes tem já uma série de projetos em vista, nomeadamente o lançamento de um guia para a comunicação social com orientações para a elaboração de notícias sobre violência sexual, a realização de 'workshops' para pais e mães sobre como prevenir e agir em caso de suspeita, além de uma ação de formação para profissionais educativos, já que, como sublinhou, "uma em cada cinco crianças é vítima de violência sexual".
Apesar do trabalho feito, Ângelo Fernandes não tem dúvidas em afirmar que ainda há muito por fazer: "Em termos sociais ainda falta muito por conquistar, ainda falta muito para reconhecer e aceitar que os homens também podem ser vítima de violência sexual".
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19.1.21
Associação ajudou mais de 300 homens vítimas de abusos sexuais em quatro anos
27.1.17
Associação para homens vítimas de abuso sexual ajuda seis pessoas no primeiro dia
in Público on-line
A vergonha e os mitos associados à masculinidade impedem muitos homens de denunciarem os abusos sexuais de que foram vítimas.
A Associação Quebrar o Silêncio, única no apoio a homens vítimas de abusos sexuais, recebeu seis pedidos de ajuda no primeiro dia de atendimento e pelo menos duas pessoas por dia recorreram à associação na primeira semana de funcionamento.
Em entrevista à agência Lusa, o presidente da associação explicou que a ideia e a vontade de criar um apoio específico para homens e rapazes vítimas de abuso sexual vieram do facto de ele próprio ter sido abusado durante vários meses por um amigo da família, quando tinha 11 anos. "As consequências do abuso foram graves, nomeadamente vergonha intensa, sentimento de culpa, incapacidade, por exemplo, de confiar nos homens e uma série de outros sintomas", adiantou Ângelo Fernandes.
Só muito mais tarde, já adulto e a viver no Reino Unido, encontrou ajuda terapêutica com uma associação que se dedicava a apoiar homens vítimas de abusos sexuais. "No meio desse processo, quando eu senti que estava a ficar melhor, que estava a conseguir ultrapassar o trauma, começou a nascer em mim uma necessidade de voltar a dar toda a ajuda que eu tive, durante esse processo, e foi aí que surgiu a ideia de criar esta associação", acrescentou.
A Associação Quebrar o Silêncio teve o seu lançamento oficial na passada quinta-feira, dia 19 de Janeiro, em Lisboa, tendo recebido no primeiro dia seis pedidos de ajuda, e uma semana depois, até ao dia 26, 15 pessoas tinham recorrido aos serviços da organização.
De acordo com Ângelo Rodrigues, as idades de quem pediu ajuda à associação variam entre os 22 e os 50 anos. "Grande parte das pessoas vem de Lisboa, mas não só. Algumas eram do Norte do país, do Sul, fora do país também", revelou, acrescentando que estão em causa não só abusos recentes, mas também abusos ocorridos na infância.
O responsável adiantou que são poucos os casos em que os homens fizeram queixa à polícia, apontando que é muito difícil para os homens falarem sobre os abusos sexuais de que foram ou são vítimas. No seu entender, são muitas as barreiras actuais que impedem ou dificultam que um homem peça ajuda quando é abusado sexualmente, já para não falar dos vários mitos à volta da masculinidade. "Existe muito a ideia de que um homem não pode ser vítima de abuso sexual: quando é abusado por uma mulher, é porque teve sorte. Também há aquela ideia de que a violação entre homens só acontece nas prisões. Existe uma série de ideias que estão erradas", apontou.
Referiu, por outro lado, tendo por base estudos internacionais, que um em cada seis homens é vítima de abuso sexual antes dos 18 anos. No entanto, os números mostram que apenas 16% consideram terem sido vítimas, havendo também muitos casos que não são considerados crimes ou são mal diagnosticados.
"Se apenas 16% dos homens se consideram vítimas e apenas 3,9% é que realmente vão à polícia e participam, estamos a contar com uma percentagem muito pequena da realidade", sublinhou, ressalvando que existe muita vergonha e muito sentimento de culpa por parte dos homens.
Ângelo Rodrigues adiantou que o propósito da associação é ajudar a vítima a ultrapassar o trauma, havendo, para isso, grupos de apoio e de psicoterapia. Os serviços são gratuitos, anónimos e confidenciais e a associação (www.quebrarosilencio.pt) funciona de segunda a sexta, das 9h00 às 17h30, excepto quando há grupos de apoio, em que os horários são feitos em função dos participantes.
A Quebrar o Silêncio tem também como missão ajudar a desmistificar esta questão junto das escolas, tendo já marcadas várias sessões de esclarecimento, sendo que as crianças e os menores de idade são outras das suas preocupações.
A vergonha e os mitos associados à masculinidade impedem muitos homens de denunciarem os abusos sexuais de que foram vítimas.
A Associação Quebrar o Silêncio, única no apoio a homens vítimas de abusos sexuais, recebeu seis pedidos de ajuda no primeiro dia de atendimento e pelo menos duas pessoas por dia recorreram à associação na primeira semana de funcionamento.
Em entrevista à agência Lusa, o presidente da associação explicou que a ideia e a vontade de criar um apoio específico para homens e rapazes vítimas de abuso sexual vieram do facto de ele próprio ter sido abusado durante vários meses por um amigo da família, quando tinha 11 anos. "As consequências do abuso foram graves, nomeadamente vergonha intensa, sentimento de culpa, incapacidade, por exemplo, de confiar nos homens e uma série de outros sintomas", adiantou Ângelo Fernandes.
Só muito mais tarde, já adulto e a viver no Reino Unido, encontrou ajuda terapêutica com uma associação que se dedicava a apoiar homens vítimas de abusos sexuais. "No meio desse processo, quando eu senti que estava a ficar melhor, que estava a conseguir ultrapassar o trauma, começou a nascer em mim uma necessidade de voltar a dar toda a ajuda que eu tive, durante esse processo, e foi aí que surgiu a ideia de criar esta associação", acrescentou.
A Associação Quebrar o Silêncio teve o seu lançamento oficial na passada quinta-feira, dia 19 de Janeiro, em Lisboa, tendo recebido no primeiro dia seis pedidos de ajuda, e uma semana depois, até ao dia 26, 15 pessoas tinham recorrido aos serviços da organização.
De acordo com Ângelo Rodrigues, as idades de quem pediu ajuda à associação variam entre os 22 e os 50 anos. "Grande parte das pessoas vem de Lisboa, mas não só. Algumas eram do Norte do país, do Sul, fora do país também", revelou, acrescentando que estão em causa não só abusos recentes, mas também abusos ocorridos na infância.
O responsável adiantou que são poucos os casos em que os homens fizeram queixa à polícia, apontando que é muito difícil para os homens falarem sobre os abusos sexuais de que foram ou são vítimas. No seu entender, são muitas as barreiras actuais que impedem ou dificultam que um homem peça ajuda quando é abusado sexualmente, já para não falar dos vários mitos à volta da masculinidade. "Existe muito a ideia de que um homem não pode ser vítima de abuso sexual: quando é abusado por uma mulher, é porque teve sorte. Também há aquela ideia de que a violação entre homens só acontece nas prisões. Existe uma série de ideias que estão erradas", apontou.
Referiu, por outro lado, tendo por base estudos internacionais, que um em cada seis homens é vítima de abuso sexual antes dos 18 anos. No entanto, os números mostram que apenas 16% consideram terem sido vítimas, havendo também muitos casos que não são considerados crimes ou são mal diagnosticados.
"Se apenas 16% dos homens se consideram vítimas e apenas 3,9% é que realmente vão à polícia e participam, estamos a contar com uma percentagem muito pequena da realidade", sublinhou, ressalvando que existe muita vergonha e muito sentimento de culpa por parte dos homens.
Ângelo Rodrigues adiantou que o propósito da associação é ajudar a vítima a ultrapassar o trauma, havendo, para isso, grupos de apoio e de psicoterapia. Os serviços são gratuitos, anónimos e confidenciais e a associação (www.quebrarosilencio.pt) funciona de segunda a sexta, das 9h00 às 17h30, excepto quando há grupos de apoio, em que os horários são feitos em função dos participantes.
A Quebrar o Silêncio tem também como missão ajudar a desmistificar esta questão junto das escolas, tendo já marcadas várias sessões de esclarecimento, sendo que as crianças e os menores de idade são outras das suas preocupações.
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