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30.1.18

Feminismo cigano na vanguarda artística da Roménia

Ana Marques Maia, in Público on-line

A palavra "feminismo" não existe na língua romani – pelo menos, não no dialecto balcânico utilizado pelos ciganos romenos — motivo por que o único grupo de teatro cigano da Roménia, que é composto exclusivamente por mulheres, decidiu inventar uma designação: giuvlipen. Além de significar feminismo, a palavra é também o nome de baptismo da companhia artística sediada em Cluj, na zona noroeste do país, que alberga mais de dois milhões de pessoas de etnia cigana. Gadjo Dildo — que significa “estranho louco” em romani — é o nome da peça que têm em cena, presentemente, e que é inspirada “em histórias reais sobre o sexismo e o racismo de que muitas mulheres ciganas são vítimas nos dias de hoje”.
 
Mihaela Dragan, mulher cigana, romena, actriz e co-fundadora de Giuvlipen, "não encontrou outra alternativa senão fundar a companhia de teatro". Não concorda com a forma como o povo cigano é representado no mundo artístico romeno. “Queremos que os artistas ciganos tenham voz. A arte cigana foi marginalizada, subvalorizada, sempre estereotipada”, disse à Reuters. “Acredito que o nosso papel é tornar a arte cigana num tipo de arte mainstream e vibrante, para que as pessoas tenham vontade de vir ver os nossos espectáculos e de falar sobre eles.” As performances abordam temas como a discriminação, o casamento infantil, a falta de acesso a educação pelos membros da comunidade, questões LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero) dentro da comunidade, entre outros. “As pessoas conhecem apenas o lado sensacionalista da cultura cigana que é apresentada nas televisões”, declara Zita Moldovan, actriz da Giuvlipen. “O teatro cigano pode contar histórias, o que é útil tanto para nós como para a população romena.”
 
Durante os meses de Outono, o grupo percorreu a Roménia sob o lema “O Teatro Cigano Não É Nómada”. O objectivo foi sensibilizar para a necessidade de o Estado romeno financiar o teatro cigano — à semelhança do que faz com outros grupos minoritários no país, como é o caso das comunidades judaica, húngara e alemã. Embora ainda não tenham submetido o pedido oficialmente, têm convidado continuamente vários membros do Governo para assistir aos espectáculos, na esperança de afectar positivamente a sua decisão.
 
Embora não exista uma contagem oficial, estima-se que existam entre dez a 12 milhões de ciganos em todo o mundo — e que mais de metade resida na Europa, em território comunitário. Apenas na Roménia, nove em cada dez ciganos vivem “em situação de privação material extrema”. O grupo infantil é o mais afectado, segundo o World Bank; as dificuldades no acesso aos sistemas de educação e saúde são justificadas por situações de exclusão social e preconceito racial. Apesar dos programas de inclusão e anti-discriminação que se encontram actualmente em vigor na Roménia, o racismo contra esta minoria étnica remota há vários séculos. Por exemplo, no século XIX os ciganos era mantidos como escravos em mosteiros e em casas senhoriais. Durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 25 mil ciganos foram expulsos de Roménia, então aliada da Alemanha nazi; aproximadamente metade desse grupo não resistiu e acabou por morrer.

22.2.16

in Correia da Manhã

Roménia: 150 mil ciganos "não existem" para o Estado Autoridades com falta de interesse. Cerca de 150 mil romenos, na sua maioria de etnia cigana, vivem num limbo legal: não existem para o Estado, um resultado da falta de interesse das autoridades. Uma dessas pessoas é Stelian, um romeno de etnia cigana com 15 anos e que vive em Bucareste, capital da Roménia. Stelian não existe para as autoridades, nem para o sistema de saúde e nem para os serviços sociais. Não existe porque não tem e nem pode ter obter um cartão de identidade. "Tiram-me os meus direitos, como o acesso aos cuidados de saúde. E, pior ainda, a possibilidade de conseguir um trabalho decente com o qual possa sobreviver", disse Stelian à agência de notícias EFE, que se protege inverno duro dormindo num salão de cabeleireiro. Stelian mora nas ruas há dois anos.

Abandonado pela sua mãe, que era pedinte, quando tinha quatro anos, foi criado por uma vizinha até ter morrido. Ao completar 14 anos, tentou obter o cartão de identidade mas não conseguiu, por não dispor de uma certidão de nascimento ou de um morada fixa. Legislação exige morada A legislação romena exige uma morada para expedir o documento nacional de identidade. Mas sem um documento de identificação não é possível arrendar legalmente uma casa. "Chego a pensar que não nos dão um documento de identidade para assim sermos marginais e poderem economizar dinheiro com as ajudas sociais", acusou o jovem. A agência nacional para os ciganos, um organismo estatal, disse que há 621 mil romenos de etnia cigana (ainda que o Conselho da Europa estime que esse número seja três vezes maior). Um terço deles vive em casas ilegais, muitas vezes em bairros pobres, sobre as quais não tem títulos de propriedade. Segundo Adina Linca, assessora da agência, os trâmites para regularizar as casas são muito caros e os residentes não querem ou não podem custeá-los, deixando assim o problema nas mãos dos municípios. "Durante a época comunista, muitas famílias compraram casas, mas não chegaram a completar todos os trâmites de propriedade e nem a pagar os impostos. E assim perderam as suas casas depois da queda do regime em 1989", disse à EFE Gabriela Ene, assessora do distrito 1 do município de Bucareste. Falta uma fórmula Vinte e seis anos depois da chegada da democracia, ainda não foi encontrada uma fórmula para romper o círculo vicioso que mantém 150 mil pessoas como "não cidadãos". Essa número, aceite pelas autoridades, pode chegar a ser o dobro, segundo as estimativas de algumas organizações não-governamentais (ONG). Sem certidão de nascimento, sem morada registada ou se os próprios pais não têm documentos de identidade, o processo de identificação torna-se tão complexo que é necessário recorrer a uma instância judicial. Até 2006, o registo de cidadãos mencionava a etnia, algo que poderia dificultar a procura de trabalho num país com graves problemas de racismo. Não dispor de documento de identidade impede o direito ao voto ou ao trabalho legal, bem como receber subsídios e ajudas sociais, além de não terem acesso ao sistema de saúde. De acordo com as ONG, a falta do documento de identidade faz com que "a exclusão social se perpetue".

4.3.13

Roménia: Comunidade cigana é isolada do resto da cidade

Por Valter Marques, in Sábado

O presidente da câmara mandou erguer um muro que os separa do resto dos moradores


Numa pequena cidade no noroeste da Roménia, o presidente da câmara municipal decidiu realojar a comunidade cigana do bairro de Craica para Baia Mare, uma zona com dezenas de edifícios antigos com poucas condições. Em Junho, mandou erguer um muro que os separa do resto dos moradores locais. Catalin Chereches está a ser acusado de racismo pelas organizações de defesa dos direitos humanos, que o acusam de querer “aprisionar a comunidade cigana num gueto.”

Segundo o economista que lidera a câmara, o muro de Baia Mare, com 1.80 metros de altura e mais de cem de comprimento, foi construído para “proteger as crianças da estrada principal”, acrescentando que este pode ser “um passo em frente para a civilização e a emancipação” da comunidade cigana.

As fotografias recolhidas no interior do gueto mostram as condições desumanas em que vivem milhares de ciganos, e as dificuldades porque passam num local sem as mínimas condições de habitabilidade – e onde as temperaturas podem chegar aos 26 graus negativos. Moram cerca de 500 famílias neste lugar onde falta espaço e só existem duas casas de banho para dezenas de apartamentos.

Contudo, há quem esteja agradecido ao líder do executivo municipal por este realojamento. É o caso de Sandu, que trabalha na construção civil. No bairro onde habitava, vivia com a mulher e seis crianças numa barraca. Agora, tem um pequeno apartamento mobilado, e até conseguiu comprar uma televisão LCD. “A minha mulher está desempregada. Agradeço ao presidente por me dar este lugar.”

No antigo bairro onde moravam, a comunidade não tinha água canalizada, rede de esgotos ou energia eléctrica. Eram barracas rodeadas de lixo.

Nem todos os habitantes do bairro de Craica foram realojados em Baia Mare. Trandafir Varga, um dos líderes da comunidade cigana, afirma que quer continuar em Craica. Foi ali que sempre viveu, foi naquele lugar que a sua mulher faleceu e é nele que quer, também ele, acabar os seus dias. “Lá [em Baia Mare] estaríamos isolados. É como um campo de concentração, nós não vamos para lá.”

Apesar da polémica, a decisão de erguer o muro contribuiu para tornar o presidente Catalin Chereches no político mais popular da região. Em Junho de 2012, o autarca voltou a vencer as eleições locais com a esmagadora margem de 86% dos votos. “Ele fez um muito bem em erguer o muro”, afirma Michael Szinn, cidadão local. “Os miúdos ciganos antes andavam pelas ruas, e atiravam pedras aos carros.”

Apesar das acusações por parte das organizações de defesa dos direitos humanos, o presidente continua a garantir que é melhor assim. “O realojamento é apenas uma solução temporária”, acrescenta. “Pretendemos construir moradias térreas de betão com um pequeno jardim.” E remata: “Eu quero apenas integrar essas pessoas. Não tenho nada a perder, estou apenas interessado em integrá-las num sistema baseado em três componentes: trabalho, educação e habitação. É só isso.”