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2.11.22

A pobreza energética em Portugal e algumas formas de combatê-la

 Catarina Pereira, opinião, in Público

A Coopérnico abriu um Gabinete Local de Apoio Energético para fazer face às necessidades dos consumidores vulneráveis ou em insuficiência energética.

O Observatório da União Europeia para a Pobreza Energética indica-nos que mais de 50 milhões de famílias europeias vivem em pobreza energética, um problema que a União Europeia diz querer resolver. A maioria das nossas habitações não está preparada para o frio, nem para o calor. Estamos ainda muito longe da tão desejada eficiência energética, que nos trará maior conforto térmico e que irá permitir reduzir consideravelmente os níveis de pobreza energética na Europa.


Portugal consta como o quinto país da União Europeia onde as famílias têm menos condições para manter as casas devidamente aquecidas, sendo que, segundo os dados divulgados pelo Eurostat, cerca de 19% dos portugueses estão em situação de pobreza energética.


Com o aproximar do inverno, vemos estes números ganharem vida e fazerem-se notar no que toca à mortalidade nesta altura do ano. Entre outras causas, esta situação está aliada ao frio e à humidade das casas, que agravam as doenças crónicas e outras complicações respiratórias e cardiovasculares.

Assegurar o conforto térmico em casa no inverno é considerado pela União Europeia um indicador básico de caracterização do bem-estar das famílias. No entanto, em Portugal, o aquecimento das habitações é negligenciado, sendo considerado “normal” sentir-se frio dentro de casa. Podemos ainda identificar alguns fatores que alimentam esta realidade:

● 69,5% das habitações avaliadas em Portugal obtiveram uma classificação energética entre C e F – as classes menos eficientes;

● 70% dos edifícios foram construídos antes de 1990;

● Em 2020, Portugal era o 4.º país da União Europeia com uma das maiores percentagens de população (17,5%) com incapacidade de manter a habitação condigna – média da UE era de 8,2%;

● Existe uma cultura de desvalorização do frio, onde o conforto térmico é considerado um luxo face a outras necessidades básicas familiares. Na Coopérnico, reconhecemos a urgência em evidenciar a relevância deste tipo de pobreza e a necessidade de apoiar os cidadãos economicamente vulneráveis e unimos esforços com grandes aliados que nos ajudam nesta luta permanente. Entre estes, o POWERPOOR – um projeto europeu que ambiciona tirar da pobreza energética mais de 22 mil famílias europeias até 2023 – permite a implementação de programas e modelos de apoio a cidadãos nesta situação e incentiva o uso de modelos de financiamento alternativos.

A Coopérnico, que desenvolve e coordena o POWERPOOR em Portugal, abriu um Gabinete Local de Apoio Energético para fazer face às necessidades dos consumidores vulneráveis ou em insuficiência energética, contribuindo para aumentar a literacia energética da população.

Esta iniciativa apoia cooperantes e cidadãos beneficiários da Tarifa Social, com recurso a ferramentas digitais criadas no âmbito do projeto que sugerem mudanças de comportamento no uso da energia. A marcação de visitas domiciliárias para avaliação energética gratuita, o encorajamento para a adesão de ações de pequena escala, como intervenções para a melhoria de eficiência energética, de baixo valor, e de maior escala, como a criação de comunidades de energia ou de financiamentos coletivos, são exemplos de algumas das abordagens deste apoio.

O objetivo é que as pessoas adquiram as ferramentas necessárias para conseguirem, de forma autónoma, aliviar a situação em que se encontram e inspirem outras a fomentar um percurso semelhante, para uma mudança individual e coletiva.

Destacamos também a Câmara Municipal da Figueira da Foz que é um município que se designa por Câmara Piloto POWERPOOR. Depois de vários contactos, foi a autarquia que se mostrou mais disponível, e quis protocolar esta colaboração com a Coopérnico – gestora do projeto POWERPOOR em Portugal – e juntar-se a este compromisso de combate à pobreza energética. Com o apoio do Pacto de Autarcas para o Clima e Energia, que reúne autoridades locais e regionais que se comprometem voluntariamente com a implementação dos objetivos da União Europeia para o clima e energia no seu território, a Figueira da Foz irá incluir um conjunto de ações de mitigação da pobreza energética na reformulação do seu Plano para a Ação na Energia Sustentável e o Clima (PAESC).

São estes e outros projetos que ainda estão por vir um exemplo de como a transparência e a democracia são importantes para que a energia seja um bem acessível a todos os portugueses e toda a população tenha a oportunidade e o conhecimento necessários para a mudança. E essa mudança começa com uma análise e compreensão corretas de documentos de caráter energético, no fácil acesso a candidaturas a programas de financiamento e no apoio à implementação de iniciativas energéticas coletivas.

15.6.21

Estratégia de Combate à Pobreza Energética - Conjunto de entidades propõe melhorias e pede plano de ação

in Rostos on-line

Estratégia negligência subconsumo

É essencial que a Estratégia de Combate à Pobreza Energética reconheça a renovação da envolvente passiva dos edifícios como prioritária (paredes, coberturas e janelas/vãos envidraçados), uma vez que o fraco desempenho destas componentes é apontado como uma das causas principais da pobreza energética.

No passado dia 17 de maio encerrou a consulta pública da “Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética 2021-2050”.

A pobreza energética é um problema muito relevante no contexto nacional e, por isso, o CENSEFCT/NOVA, a Coopérnico, a DECO, o OBSERVA/ICS-ULisboa, a Lisboa E-Nova, a RNAE, a S.ENERGIA, e a ZERO, entidades envolvidas em atividades neste domínio, juntaram-se para, em conjunto, submeterem um parecer com as preocupações comuns e partilha de conhecimento com o objetivo de melhorar a Estratégia apresentada.

A Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética apresentada a consulta pública é um bom ponto de partida para uma reflexão e princípio de atuação, apresenta uma contextualização detalhada do enquadramento político europeu e nacional, bem
como uma caracterização da situação nacional no que diz respeito às principais causas e algumas das consequências da pobreza energética. Desenvolve uma metodologia para a identificação da população em pobreza energética, propõe um conjunto de medidas diversas e abrangentes, incidindo em diferentes áreas de atuação e envolvendo uma rede alargada de intervenientes nacionais. Não obstante as suas valências, identificámos vários pontos passíveis de melhoria:

- Reformulação da definição de Pobreza Energética, que deve incluir outras dimensões que não apenas os rendimentos, desempenho energético das habitações e custo da energia. É necessário que a pobreza energética seja vista como uma situação que pode acontecer para além da pobreza no sentido clássico (monetária), pois a pobreza energética é, para estas entidades (e de acordo com a investigação realizada mais recentemente), “a incapacidade ou dificuldade de manter a habitação com um nível adequado de serviços energéticos essenciais, devido a uma combinação de vários fatores tais como rendimentos, desempenho energético da habitação e custos com energia, entre outros”.

- É essencial que a Estratégia de Combate à Pobreza Energética reconheça a renovação da envolvente passiva dos edifícios como prioritária (paredes, coberturas e janelas/vãos envidraçados), uma vez que o fraco desempenho destas componentes é apontado como uma das causas principais da pobreza energética. Consequentemente, é fundamental uma abordagem que não se limite à fração do edifício mas que, ao invés, considere o edifício no seu todo.

- A Estratégia negligencia problemas de subconsumo, consequência de situações de pobreza energética escondida. Nestes casos, os agregados, apesar de não terem incapacidade financeira para aceder a serviços energéticos adequados (como por exemplo aquecimento,
arrefecimento ou iluminação), poderão ter dificuldade em suportar estas despesas, comprometendo a satisfação de outros serviços essenciais.

- Os objetivos não devem ser definidos pelo montante a gastar, nem pela implementação da medida em si, mas sim associados às metas a atingir e ao impacto na mitigação de pobreza energética.

- A descrição dos objetivos e medidas é, na generalidade, muito vaga e pouco quantificável.
Falta concretizar a efetivação das medidas, avaliando o seu impacto potencial, delinear a metodologia de monitorização, calendário e atribuição de responsabilidade ou áreas de atuação às entidades mencionadas em cada medida. Assim, gostaríamos de ver um maior
nível de detalhe nesta secção da Estratégia por forma a permitir aferir o real valor e impacto potencial de cada uma. Deste modo torna-se fundamental a elaboração de um Plano de Ação para concretizar as medidas orientadoras.

- Consideramos ainda importante a criação de uma plataforma que reúna uma rede de projetos e um centro de conhecimento português - e.g. Observatório Português de Pobreza Energética com participação das principais entidades a trabalhar no tema (universidades,
agentes locais, entidades públicas, ONG, associações) para monitorização da evolução da pobreza energética no país, troca de experiências, divulgação de boas práticas, criação de sinergias e aumento do impacto real na sociedade inserido no modelo de governação
idealizado.

- É importante delinear mecanismos que conjuguem financiamento público, privado e formatos inovadores, para que seja possível comunidades de cidadãos desenvolverem projetos de renovação do edificado, melhoria da eficiência energética e produção de energia
renovável, envolvendo todos os interessados, independentemente da capacidade financeira de cada um.