Mostrar mensagens com a etiqueta Imigrantes-Irregularidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Imigrantes-Irregularidades. Mostrar todas as mensagens

19.7.23

Imigração com componente irregular coloca imigrantes em situação de vulnerabilidade

Por Lusa,  in RR


Investigadores do ISCTE elaboraram um estudo onde consideram necessárias "pequenas reformas", entre as quais o reforço da rede consular e a concessão de vistos 'online'.


Um estudo divulgado esta quarta-feira adverte que a imigração em Portugal tem uma forte componente de irregularidade, colocando os imigrantes em situação de "grande vulnerabilidade", e refere que há uma "estrutura de custos profundamente desigual" no mercado da habitação.


“Reformas Estruturais” publicado no âmbito dos relatórios anuais sobre o "Estado da Nação e as Políticas Públicas" do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais do ISCTE, foi coordenado pelo economista Ricardo Paes Mamede e traça o estado do país em nove áreas.

No capítulo dedicado à imigração, escrito pelos investigadores Rui Pena Pires, Cláudia Pereira e Alejandra Ortiz, refere-se que a imigração é a "única variável" que tem contrariado as dinâmicas populacionais de envelhecimento na população portuguesa, sendo "instrumentalmente útil" em termos demográficos e económicos.


No entanto, os autores avisam que uma das principais características da imigração atual é o peso da sua irregularidade, apresentando estatísticas segundo as quais, dos 111 mil imigrantes a quem foi concedido título válido de residência em 2021, um quarto eram irregulares.

"Hoje, a maioria dos imigrantes laborais de países terceiros entra no país com visto de turismo, fixa-se e trabalha irregularmente e regulariza, ao fim de um ou mais anos, a sua situação", indicam os autores, que advertem que essa situação deixa "dezenas de milhares de imigrantes com um estatuto de grande vulnerabilidade", defendendo a sua regularização.
Reforço de consulados

Para tal, os autores consideram necessárias "pequenas reformas", entre as quais o reforço da rede consular e a concessão de vistos 'online', ou a criação de um cartão de cidadão estrangeiro que garanta a interoperabilidade dos números de utente do SNS, da Segurança Social e fiscal.

No que se refere à habitação, a professora Teresa Costa Pinto refere que há "uma estrutura de custos profundamente desigual" em Portugal, com as pessoas que já estavam no mercado habitacional a terem "encargos financeiros ou valores de arrendamento comportáveis", ao invés de quem está agora a entrar nesse mercado, que enfrenta "elevadíssimos custos".

Para exemplificar esse contraste, o estudo indica que, de acordo com os Censos de 2021, cerca de 78,5% das pessoas que pagam atualmente rendas superiores a mil euros mensais "residem há quatro ou menos anos na habitação".

Segunda a autora, esta situação deve-se à "enorme escalada de preços de venda e arrendamento, sobretudo desde 2015", e é essencialmente "um problema urbano e não só dos mais pobres, mas das classes médias e gerações mais jovens".

Teresa Costa Pinto adverte que "não há soluções mágicas" para responder a este problema e defende que, mais do que através de "medidas e técnicas", é necessário escolher um "modelo de sociedade" para se responder à crise na habitação.
Dificuldades no acesso à justiça

No capítulo da justiça, elaborado pela deputada do PS Alexandra Leitão, identificam-se quatro problemas estruturais no sistema judiciário, entre os quais a morosidade dos processos - que, segundo a autora, se sente "com mais acuidade nos tribunais administrativos e fiscais" e nos chamados 'megaprocessos' - e a dificuldade de acesso à Justiça.

Para combater a demora processual, Alexandra Leitão sugere que seja definido um "número adequado de processos a tramitar por tribunal ou por magistrado" e se procure evitar a constituição de 'megaprocessos' na condução do inquérito.

Já para responder às dificuldades no acesso à Justiça, a também professora na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa propõe a criação de um Serviço de Defensores Públicos - ou seja, um "corpo de juristas com competências de patrocínio judiciário em matérias a definir" - e a possibilidade de recurso de amparo para o Tribunal Constitucional "quando estiver em causa a violação de direitos fundamentais".