por Joana de Belém, in Diário de Notícias
Ponto de encontro para todos quer humanizar a urbe. "Um espaço do povo, da rua"
A solidão está espalhada pela cidade, uma doença de que padece o Porto e outras urbes e que enclausura muitos dos seus moradores. "No meio urbano, a vizinhança é essencial, a solidão é mais do que muita", alerta o padre José Maia, que anda há dois anos "a preparar os estaleiros" para a Casa dos Vizinhos, que dentro de oito dias vai abrir portas no número 929 da Rua de Costa Cabral.
O projecto é resultado do trabalho desenvolvido desde 2008 pelos Sentinelas de Rua [um conjunto de voluntários que está alerta às carências da população] e vai ser um ponto de encontro, um local para criar laços de amizade. "Pretende humanizar a cidade. É uma cidade entaipada que deve envergonhar-nos a todos, e devemos tentar que seja cada vez mais humanizada", diz o pároco. Um centro de convívio com actividades de lazer. As pessoas podem fazer trabalhos, vão ser exibidos filmes, há ideias para actuações musicais. "Temos estagiários cujo papel é fazer a animação. E depois as pessoas vão trazendo o registo das ruas e ajudar-nos a identificar problemas."
A árvore de Natal já está montada, e os voluntários ultimam os preparativos para tornar a casa mais acolhedora. "Depois, as próprias pessoas podem dar o seu contributo."
"Queremos um espaço que seja do povo, da rua, não do Estado, da Igreja ou das instituições particulares de solidariedade social", explica o presidente Fundação Filos, que à chegada do DN fazia companhia a um funcionário que instalava na porta uma nova caixa do correio. Será o "Correio dos Vizinhos. A qualquer hora do dia ou da noite qualquer um pode deixar ali a indicação de algum caso. E nós levamos a questão à Segurança Social ao provedor de Justiça ou à Câmara do Porto". "Há muita gente que tem medo de avisar que alguém passa mal", conta.
"Hoje só acredito na economia solidária", diz o padre Maia, que quer uma casa onde se encontrem as diferentes gerações. A Fundação Filo conta com técnicas de acção social que fazem trabalho voluntário, e a intenção do padre Maia é também que este espaço "seja um centro de estágios para pessoal que quer fazer trabalho de rua". O Instituto Superior Politécnico de Gaia, um dos parceiros do projecto, tem sido uma ajuda preciosa.
Há dois anos, o padre Maia lançou o Movimento Comunidades de Vizinhança. "Fizemos um estudo para saber o perfil das ruas. Andámos a tentar mobilizar os Sentinelas de Rua [são aqueles que têm a porta aberta, farmácias, cafés, gente que está alerta e que supostamente cruza muita informação]. Uma espécie de correspondentes... E fomos encontrando um conjunto de dados para fazer uma espécie de laboratório", diz. Na Rua da Alegria, por exemplo, encontraram muitas casas abandonadas, "uma rua deserta, sem gente".
Os voluntários calcorrearam as artérias de Costa Cabral, Bonfim, Alegria e S. João. "Com tantos problemas diagnosticados, decidimos criar algo concreto, a casa dos vizinhos, um movimento de cidadania participativa."
O pároco admite que não sabe "no que vai dar", mas sabe perfeitamente o caminho que quer seguir. "Acredito na causa. Tenho alguma expectativa."


