Por Raquel Almeida Correia, in Jornal Público
Um casal de professores. Uma mulher agricultora e outra desempregada. Uma jovem precária e uma família empreendedora. A partir de hoje, contam-nos como enfrentam os problemas do país
Medidas de austeridade. Desemprego em níveis históricos. Escalada de preços. Falências. FMI. Num ano que se adivinha muito difícil para os portugueses, o PÚBLICO vai mostrar como cinco famílias portuguesas lidam, diariamente, com a crise. Do Porto a Faro, um casal de professores, uma desempregada, uma trabalhadora precária, uma agricultora e uma família de empreendedores vão abrir a porta de casa aos leitores e contar como enfrentam as dificuldades e tentam dar a volta a situações limite.
Este projecto surge numa altura em que todos se questionam sobre o futuro do país. Se a Europa virá em auxílio das contas públicas. Se Portugal resistirá à pressão dos mercados. Se a contenção exigida terá frutos. E quando. O PÚBLICO quis saber que reflexos têm estas preocupações, e as suas consequências reais, no quotidiano das pessoas. E, por isso, escolheu cinco famílias representativas de algumas das maiores fragilidades do país (ver páginas seguintes).
É uma experiência em tempo real, que arranca hoje no site do jornal, em www.publico.pt/cincofamilias/. Haverá actualizações mensais do estado da economia nacional, com análise de indicadores como as inscrições nos centros de emprego ou os pedidos de insolvência. Haverá histórias de sucesso através do relato dos leitores. E, principalmente, um olhar atento e próximo sobre a forma como estas cinco famílias estão a reagir à crise que se instalou em Portugal.
Retratos do país
Os leitores vão conhecer um casal de professores de Coimbra que, por imposição do Orçamento do Estado, viu os salários serem reduzidos, num ano em que o Governo quer reduzir a despesa pública e alcançar um défice de 4,6 por cento. A família Lourenço tem duas filhas a estudar no estrangeiro e pertence a uma das classes em luta contra as medidas de austeridade.
A partir do Alentejo, vão entrar na casa de uma mulher de 42 anos que vive da pequena agricultura, da parte da manhã, e que à tarde serve à mesa num restaurante. O marido é camionista e está muitas vezes em trânsito no estrangeiro. Pelo meio educam um filho em idade escolar.
Mais a Sul, há uma jovem, de 29 anos, que enfrenta os dramas do trabalho precário. Arriscou num negócio por conta própria num café em Faro, mas teve de repensar o futuro e vive agora de um part-time de três horas na Universidade do Algarve, em regime de recibos verdes. Viu-se forçada a voltar para casa dos pais, mesmo tendo já dois filhos.
No Estoril vive a família Magalhães, que, no pico da crise, decidiu investir no negócio da restauração. Têm dois restaurantes e planos para abrir um novo espaço, no centro de Lisboa. Escassez de financiamento e burocracia são duas das dificuldades com que lidam actualmente. Mas, ainda assim, conseguem dar emprego a mais de 20 pessoas e são pais de três crianças.
Finalmente, no Porto, os leitores vão conhecer uma mulher divorciada, com 48 anos, que caiu recentemente no desemprego, numa fase da vida em que é cedo para se reformar mas tarde, aos olhos dos empregadores, para conseguir trabalho. Tem duas filhas, uma das quais dependente, e não está disposta a desistir.
Este projecto surge exactamente porque Portugal atravessa uma fase difícil. Os números do Eurostat confirmaram, recentemente, que a taxa de desemprego continua em níveis históricos, fixando-se em 11,2 por cento. Isto ao mesmo tempo que as falências das empresas nacionais não param de aumentar. O número de insolvências, por incapacidade de pagamento de dívidas, disparou 7,8 por cento em 2010.
Portugal sob pressão
Em termos macroeconómicos, o país está sob pressão dos mercados e anda ao sabor de rumores sobre o resgate europeu e a entrada em cena do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esta semana, o primeiro-ministro esteve reunido com a chanceler alemã Angela Merkel e levava na pasta uma redução de 3,6 por cento da despesa efectiva do Estado. Mas José Sócrates já avisou que, se for necessário, o Governo vai avançar com novas medidas de austeridade para equilibrar as contas públicas.
Portugal está na cauda da Europa no que diz respeito ao crescimento do Produto Interno Bruto, até porque as previsões apontam para uma queda de um por cento em 2011, o que confere ao país o segundo pior cenário da zona euro (a 17 países), ultrapassando apenas a Grécia. E a inflação apresenta uma subida homóloga de 3,6 por cento, enquanto a média da eurolândia foi de 2,3 por cento, em Janeiro.
São indicadores com impacto directo na vida dos portugueses, que, além de menos rendimentos, enfrentam a escalada de preços dos bens alimentares e das matérias-primas, a perda de regalias e o aumento dos impostos. E será a partir de casa destas cinco famílias que os leitores poderão conhecer e identificar-se com o que a crise arrasta, no dia-a-dia.


