6.3.11

Crise leva portugueses a cortar nas férias e a vigiar orçamento das viagens

Por Raquel Almeida Correia, in Jornal Público

Mais de metade não viajou em 2009 por questões económicas. Os que o fizeram gastaram menos, ficando em Portugal, com estadias curtas

Para mais de metade dos portugueses, viajar não faz, actualmente, parte dos seus planos. Em 2009, apenas 40,1 por cento da população se deslocou, pelo menos uma vez, em férias ou em negócios, dentro e fora do país.

Um estudo do Turismo de Portugal mostra que as questões económicas são a principal razão a levar as pessoas a evitar viagens. E que, mesmo os que se deslocam, escolhem ficar em território nacional, em casa de familiares e amigos. Quando optam pelo estrangeiro, a maioria não vai além de Espanha e França.

O turismo português viveu, em 2009, um ano negro. Penalizado pela crise, e consequente redução dos gastos com viagens, viu as receitas caírem 7,2 por cento, para 6,9 mil milhões de euros. Também as despesas dos turistas nacionais no exterior desceram 7,7 por cento, atingindo o valor mais baixo desde 2006 (2,7 mil milhões de euros). No ano passado, o cenário inverteu-se. O sector atingiu proveitos recorde de 7,6 mil milhões e os portugueses despenderam mais dinheiro lá fora - praticamente três mil milhões.

O estudo divulgado agora pelo Turismo de Portugal mostra como 2009 teve um impacto real na organização de viagens dos portugueses. Nesse ano, apenas 40,1 por cento da população se deslocou em férias ou em negócios, deixando 6,4 milhões de pessoas confinadas à categoria de não turistas. Destes, 53,9 por cento justificaram o facto de não terem via- jado com questões económicas, seguindo-se a saúde (10,1 por cento) e motivos familiares (7,8).

Dos que efectivamente viajaram, 78,4 por cento escolheram Portugal e apenas 7,9 por cento optaram por destinos no estrangeiro, havendo uma fatia de 13,7 por cento das pessoas que se deslocaram a ambos. Dentro do território nacional, foram efectuadas 16 milhões de viagens, lideradas pela Região Centro (30,7 por cento). Seguiram-se o Norte do país (19,6 por cento) e a área de Lisboa (17,8). Estas deslocações foram maioritariamente feitas através de transporte terrestre (97,3 por cento), com o automóvel a liderar as escolhas.

Férias curtas

Além da primazia de Portugal, face a destinos estrangeiros, o estudo revela que os turistas nacionais optaram, em 2009, por soluções mais económicas, já que 42,9 por cento ficou em casa de familiares e amigos, o que faz com que a maioria das viagens (80 por cento) tenha sido realizada sem efectuar reservas, deixando apenas quatro por cento do total para a intermediação das agências de viagens. A segunda escolha recaiu sobre as segundas residências (24,1 por cento), deixando uma menor percentagem para os estabelecimentos hoteleiros (14,5 por cento).

Quando se deslocaram em lazer, os portugueses ficaram uma média de 4,9 dias de férias. E apenas três dias no caso de viagens de negócios ou visita a familiares e amigos. E foi nas deslocações por motivos profissionais que mais gastos fizeram, com uma média de 99,90 euros por dia. Em lazer, o valor baixou para 52,09 euros, descendo para 33,45 euros nas visitas a pessoas da família e amigos, releva o estudo do Turismo de Portugal, com base em indicadores do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Uma minoria dos portugueses deslocou-se, em 2009, ao estrangeiro, realizando um total de dois milhões de viagens ao exterior. Os países da zona euro foram os principais eleitos nestas viagens, com primazia para Espanha e França, que, em conjunto, representaram 73,1 por cento das deslocações totais. Reino Unido, Alemanha e Itália foram os destinos que se seguiram na lista de preferências, com um peso de 6,9, 4,9 e 4,5 por cen- to, respectivamente.

Nestes casos, o avião ganha mais relevância, passando a representar 65,5 por cento das opções de meio de transporte. Seguiu-se o automóvel (19,1 por cento) e, com apenas 1,4 por cento, o barco. O papel das agências de viagens também saiu reforçado, aumentando para 46 por cento o re- curso a intermediários na organização das deslocações. No entanto, houve também uma fatia importante de portugueses (40 por cento) que fez as marcações directamente junto das companhias de aviação e dos hotéis, por exemplo, o que confirma a tendência de autonomia dos consumidores face ao turismo.

O facto de estarem no estrangeiro também aumentou para 46,3 por cento a percentagem de pessoas que optou por ficar alojada em estabelecimentos hoteleiros. A segunda opção recaiu sobre alojamento fornecido por familiares e amigos (37,6 por cento), que mantém, ainda assim, um peso considerável.

Os gastos dos portugueses, quando se deslocam para o estrangeiro, são mais elevados do que quando viajam dentro de território nacional. Também a duração da estadia aumenta, fixando-se, respectivamente, em 5,9, 7,3 e 16 dias.

Estes dados surgem numa altura em que o Governo colocou a fasquia do turismo alta, com a revisão do plano estratégico do turismo. Até 2015, pretende-se que as receitas passem dos actuais 7,6 mil milhões para 12,22, no cenário mais optimista. E que o sector passe a representar 15,8 por cento das exportações, quando, actualmente, representa 14 por cento. Apesar da importância dos turistas estrangeiros, os portugueses são vistos, novamente este ano, como uma tábua de salvação, prevendo-se que, por dificuldades de orçamento, optem por ficar em casa, beneficiando as empresas que vivem desta actividade em território nacional.