11.3.11

"Famílias não vão poupar, porque não conseguem"

in Jornal Público

Para Leonor Modesto, a poupança nacional está em "queda livre". Com o desemprego em níveis elevados, cortes salariais e mais impostos, poupar não é viável.

O indicador que ajudou a coordenar mostra que a poupança tem caído. Porquê?

As famílias tentam sempre não sofrer quebras ao nível do consumo e, portanto, quando o rendimento disponível sofre oscilações, é na poupança que se corta. Só que, em Portugal, a poupança tem subjacente um problema de desigualdade grande: os 20 por cento mais ricos contribuem para 70 por cento da poupança. Portanto, os mais pobres não poupam de todo. Pelo contrário, estão cada vez mais endividados.

O Governo está confiante num aumento da poupança este ano. Vê isso como viável?

O Governo queria isso porque, junto das famílias, financia-se mais barato que nos mercados. Mas, com os níveis de desemprego actuais e as medidas de austeridade, é natural que a poupança desça mais. Além disso, esta crise é tão grande que não é só a poupança que cai, o consumo também. Estamos numa altura de restrições de liquidez e grande parte das famílias não vai poupar, porque não consegue.

Qual a origem deste défice da poupança a nível nacional?

Antes da entrada na União Europeia e no euro, a poupança era muito elevada. Eram tempos de inflação e, como isso destruía o valor dos activos, poupava-se mais para garantir o mesmo nível de riqueza. Com a entrada no euro, a inflação veio por aí abaixo e a taxa de poupança também. Ao mesmo tempo, as taxas de juro desceram e o crédito tornou-se mais fácil. As pessoas deixaram de poupar para se endividar. Do mesmo modo, o Estado passou ele próprio a gastar mais e a endividar-se mais. E, com as famílias a poupar menos, teve de ir buscar esse dinheiro lá fora. Foi uma bola de neve, que fez com que nós estivéssemos, de facto, a viver acima das nossas possibilidades.

O que pode o Estado fazer para incentivar a poupança?

O Estado fez um grande erro ao destruir os certificados de aforro. Quando, em 2008, mudou a rentabilidade dos certificados, Portugal inteiro desistiu deste instrumento e aumentaram os custos de financiamento do Estado. No ano passado, o Governo lançou os certificados do tesouro, que é uma tentativa de voltar a captar as poupanças das famílias - mas não na melhor altura.