Emídio Fernando, JN/TSF, in Jornal de Notícias
O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, apelou ontem a todos os países "que tenham condições" que acolham refugiados que, por enquanto, estão instalados em campos improvisados na Tunísia, perto da fronteira com a Líbia.
A mensagem de Guterres - seguida de um aviso que pode haver milhares de pessoas a precisar de ajuda na Líbia, sem, no entanto, arriscar números - foi feita durante a visita do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) à fronteira da Tunísia.
Foi uma delegação em peso, de carros alugados pelo governo tunisino, que irrompeu pela fronteira, primeiro, e depois pelos campos de acolhimento de refugiados. Apesar do aparato, a rotina não sofreu um beliscão: lá estava o barulho, intermitente de malas de viagem a enfrentar as estradas e pedras; os altifalantes, amarrados às paredes, mantinham voz roufenha ao chamar, um a um, milhares de refugiados; as enormes filas cruzavam-se umas com as outras: algumas para darem o nome, a maioria para a recolha de comida; e a enorme praça com refugiados disciplinadamente sentados, encostados e apoiados nos outros, mantinha-se inalterável: quando alguém parte, o lugar é imediatamente substituído.
Quase ninguém, dos 15 mil refugiados, deram conta da presença de António Guterres. O Alto Comissário da ONU surgiu de fato, gravata, sapatos de vela, com um sorriso tranquilo e fez logo questão de justificar a ida. Antes de mais, pretendia agradecer o "notável esforço e solidariedade" dos tunisinos que, nos últimos dez dias, receberam mais de 120 mil pessoas.
Mas, à comunicação social, a verdadeira preocupação de Gueterres estava na Líbia. O responsável da organização da ONU ainda passou na linha da fronteira e não se cansou de avisar para aquilo que pode ser um "absoluto" descontrolo. Sem querer "entrar em especulações", Guterres lembrou que desde que passou haver maior controlo da Líbia, o número de refugiados a entrar na Tunísia "diminuiu drasticamente". Mas, mais preocupantes para as Nações Unidas, é a situação interna no país de Kadhafi. António Guterres diz que é "impossível" saber com rigor o que se passa, mas garante que recebe relatos de combates violentos e que isso provoca "uma situação humanitária dramática". Mas evitou, a todo o custo, avançar com números.
"Horrível e absurdo", diz Guterres ao JN/TSF
Aparentemente, António Guterres já não se comove quando visita os campos de refugiados. Já se habituou a assistir a dramas humanos maiores do que vê na Tunísia. Com ar tranquilo, conversando em várias línguas, do inglês ao francês, passando pelo português, cumprimenta em árabe, sorrindo, percorre os caminhos em pedra dos campos. A meio do percurso, aceita abrir a alma, à TSF e JN.
Começa a ficar habituado a estes campos de refugiados?
Muito mais dramático do que isto é chegar a campos com mais de 300 mil pessoas que estão lá há mais de 20 anos.
Ainda fica chocado ou já nada o surpreende?
Infelizmente, quando assistimos ao que se está a passar hoje na Líbia, que é algo de tal forma horrível e absurdo, que não pode deixar de continuar a chocar.
Impressiona-se com estas imagens?
Muito mais do que a imagem, o que impressiona é o sofrimento das pessoas. Cada pessoa tem uma história. Somos confrontados, nas últimas duas semanas, com dramas humanos, através de telefonemas vindos da Líbia, absolutamente terríveis e em relação aos quais não podemos fazer nada.


