in Jornal Público
O abandono escolar no primeiro ciclo quase desapareceu, o insucesso diminuiu e o número de adolescentes grávidas caiu na Quinta da Princesa
O projecto dos Tutores de Bairro está há dez anos em actividade para que o bom exemplo seja contagioso na Quinta da Princesa, um bairro do concelho do Seixal considerado pela Polícia de Segurança Pública como uma "zona urbana sensível".
O projecto, que foi "desenhado à medida do terreno" em que intervém, está integrada no programa de policiamento de proximidade e no programa Escolhas, e é coordenado pela psicóloga Sofia Peyssonneau.
A iniciativa abrangeu um total de 173 participantes entre 2001 e 2003. Já no período de 2006 a 2009 chegou a 610 crianças e jovens, enquanto desde Dezembro do ano passado até agora contemplou mais de 300.
"Vejo muita evolução. Os jovens do bairro aprenderam que podem ser tudo. Não mudámos a vida de todos, mas muitos seguiram destinos diferentes dos que normalmente associamos a pessoas que vivem num ambiente de exclusão. Viram aqui uma oportunidade de seguir um caminho educativo e profissional diferente", afirmou Sofia Peyssonneau à agência Lusa, mostrando-se satisfeita com os resultados obtidos.
Os Tutores de Bairro, explicou a coordenadora do projecto, são uma figura-chave no trabalho desenvolvido. "O tutor é integrado no contexto escolar e comunitário, e funciona como agente activo e de prevenção, modelo de referência positiva, e elo de ligação privilegiado entre o triângulo família-escola-comunidade".
O papel de tutor é desempenhado por jovens do próprio bairro, que cresceram "no mesmo contexto" em que crescem as crianças com quem trabalham, conhecem os miúdos, falam crioulo, são tutores 24 horas por dia.
Os resultados, diz a psicóloga, "são muito bons". O efeito, garante, "tem sido de contágio". A primeira geração de crianças com que este projecto trabalhou tem já 15 ou 16 anos e é responsável pela dinamização da associação juvenil Esperança.
"Os jovens do bairro são mais capazes, mais pró-activos, empreendedores, mais atentos ao que os rodeia, mais preocupados com os outros", afirma, acrescentando que o abandono escolar no primeiro ciclo praticamente desapareceu e o insucesso diminuiu.
"A responsabilidade não é toda do projecto mas o contributo é significativo", afirma. Para ilustrar, Sofia Peyssonneau conta que "há dez anos era expressivo o número de adolescentes grávidas. Agora não. As mulheres ganharam consciência. Os projectos de vida acabaram por mudar. Os objectivos são diferentes. E as famílias estão também cada vez mais conscientes" da importância da escola antes do trabalho".
"É claro que temos ainda problemas. É claro que não conseguimos resolvê-los todos, e que os problemas também vão mudando. O trabalho é contínuo e os desafios grandes. Por isso, vamos desenhando o projecto à medida do terreno", acrescentou.


