18.10.11

A pobreza na Europa

Costa Guimarães, in Correio do Minho

Na mesma Europa em que se fazem filas nas lojas ‘Vuiton’, cerca de 43 milhões de pessoas estão em risco de carência alimentar na Europa e não têm meios para pagar uma refeição completa.

Perante este número, é legítimo perguntar se os pobres podem esperar mais até que os ricos abdiquem de um pouco da sua riqueza para lhes matar a fome. Se tardar muito, a conquista tem de ser pela força, mas a nível mundial, seguindo o lema da bolsa: “agarra o que puderes e foge”.

Ecoa ainda o ano 2010 — Ano Europeu de Luta contra a Pobreza — e quase oitenta milhões vivem abaixo do limiar de pobreza, conforme dizem os dados do Programa Europeu de Apoio Alimentar.
No momento em que o Lehman Brothers faliu, em Setembro de 2008, os governos europeus apressaram-se a declarar que não havia hipótese do Velho Continente ser afectado.
Três anos depois, não só a crise ainda não foi superada como a Europa redescobre os seus pobres e, pela primeira vez desde o pós-guerra, regista um aumento real no número de pobres.

Os estudos da União Europeia revelam a “nova pobreza”:
centenas de empresas fecharam as portas, mas foram os cortes drásticos nos investimentos dos governos que aprofundaram ainda mais a recessão social.
O desemprego oficial em Portugal atinge a maior taxa em 30 anos e sufoca 600 mil portugueses. Com os novos cortes de gastos, apenas metade tem direito a algum tipo de seguro social de 528,56 por mês.

O desempregado português tinha um re ndimento mínimo garantido por três anos e o novo pacote de austeridade limita a ajuda a 18 meses.
Hoje, um quinto dos portugueses — quase dois milhões de pessoas — vive com menos de 360 euros por mês.

Quatro por cento dos portugueses não tem condições financeiras para fazer uma refeição a cada dois dias com carne ou peixe e os dados oficiais da UE apontam que o risco de pobreza em Portugal, que em 2008 atingia 18% da população, hoje já é de 23%.
A lado, a expansão da pobreza é uma realidade para os espanhóis. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística da Espanha, a pobreza relativa chega a 20,8% da população, quase 10 milhões de espanhóis.

A crise na Grécia fez o país perder dez anos do seu progresso social e o rendimento de um grego é metade do que ganha um norueguês.
Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial para o combate à pobreza, aponta um cenário pouco animador para a Europa nos próximos anos: “o número de pessoas abaixo da linha da pobreza aumentará em 2011 e talvez por alguns anos mais”.
Segundo o Eurostat, 79 milhões de pessoas vivem na Europa abaixo do limiar de pobreza e 30 milhões sofrem de subnutrição.

Embrulhados nestes números estão pessoas mas as políticas europeias deliciam-se mais com os números e inquietam-se menos com as pessoas. Até quando?

Até quando dos líderes europeus deixarem de pensar que a Pobreza é o efeito — e não a causa — da imoralidade obscena das políticas económicas e financeiras.