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5.11.19

A tuberculose veio junto com o aumento da pobreza na Argentina

Magali Druscovich (Reuters), in Público on-line

A “peste branca”, ligada à pobreza, que estava em declínio desde os anos 1980, vem aumentando desde 2013. No ano passado registaram-se mais de dez mil casos.

Num subúrbio pobre de Buenos Aires, os jeans e o casaco de Cristina Molina escondem a sua figura doente, legado de anos de fraca dieta que a deixou susceptível à tuberculose que contraiu no princípio deste ano, uma doença ligada à pobreza que voltou a assolar a Argentina.

Molina, de 26 anos, vive com os pais, seis irmãos e quatro sobrinhos em Lujan, nos subúrbios de Buenos Aires. Os médicos acham que um dos irmãos contraiu a doença na prisão e depois espalhou-a pela família ao voltar para casa.

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Os casos de “peste branca”, ligada à má nutrição e fraca qualidade das casas, têm vindo a aumentar à medida que a terceira maior economia da América Latina se vê afectada por crises económicas.

A recessão actual e a constante subida dos preços está a empurrar cada vez mais gente para baixo do limiar da pobreza, que se mantém acima de 35% desde o princípio do ano. “A tuberculose é o dano colateral da pobreza”, afirma Laura Lagrutta, especialista argentina em doenças respiratórias que trata crianças com a doença.

Segundo os últimos números da Organização Mundial de Saúde, na Argentina registaram-se 10.320 casos de tuberculose, entre novos e recidivas, em 2018.
Marcela Natiello, coordenadora nacional do programa de controlo de tuberculose e lepra, afirma que a tendência de declínio desde os anos 1980 reverteu-se em 2013, devido a “causas múltiplas e complexas”.
“A tuberculose afecta principalmente as populações mais vulneráveis, com baixos recursos económicos, residentes em ambientes pobres, mal ventilados e cheios de gente”, explicou Marcela Natiello, salientando que mais de metade dos casos na Argentina foram diagnosticados nas zonas populosas dos subúrbios de Buenos Aires.

Dizem os médicos que o crescimento do número de infectados com tuberculose está a provocar problemas nas alas dos hospitais usadas para o tratamento de pacientes com a doença,
Patricia Figueroa, assistente social no Hospital Muñiz, destinado ao tratamento de doenças infecto-contagiosas, afirma que a unidade está a passar por dificuldades para atender todos os pacientes com tuberculose, um número que classifica como “um recorde na história recente”.

“Devido à sobrelotação, o hospital está a dar alta a pacientes com baixo risco de contágio por forma a receber os de maior risco, o que é muito perigoso”, diz, acrescentando que o hospital estuda actualmente a forma de instalar mais camas noutras enfermarias para receber mais pessoas.

Na Villa 31, Luli, de 19 anos, esteve a ser tratada durante um ano depois de contrair a doença quando estava grávida, por sorte, a sua bebé não foi infectada. Ela, o companheiro e a criança vivem numa casa de uma assoalhada sem casa de banho. “Estamos sempre a mudar de casa por causa das rendas muito altas”, explica.
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Brigida Simaniz vive em Bajo Flores e acabou o seu tratamento da tuberculose em Maio. Ela e os dois filhos dormem na mesma cama e o medo de infectar as crianças levou-a a muitas vezes “abrir as janelas do quarto para fazer circular o ar”, mesmo no Inverno, quando fazia muito frio. “Segui à risca o tratamento dos médicos com medo de infectar os meus filhos”, disse.

18.7.19

Pobreza na Argentina aumenta e ronda os 35%

in Abril.pt

Um relatório preliminar da Universidade Católica Argentina (UCA) estima que, dos 40,5 milhões de habitantes no país austral, 14 milhões sejam pobres e quase 3 milhões vivam em condições de indigência.

Na campanha eleitoral de 2015, o actual presidente da Argentina, Mauricio Macri, chegou a estabelecer como meta a «Pobreza Zero» para o seu país. Quase quatro anos volvidos, o eleito pela coligação Cambiemos está não só muito longe dessa «promessa» como é cada vez mais responsabilizado, pelos seus concidadãos, pelo actual cenário de ruptura social.

Num relatório preliminar, cujos dados foram revelados este domingo – os dados oficiais só deverão ser conhecidos em Setembro, após as eleições primárias de 11 de Agosto e antes das gerais de 27 de Outubro –, o Observatório da Dívida Social da UCA regista um aumento da pobreza no país, estimando que 35% da população se encontre «em condições de vulnerabilidade».
Em declarações à imprensa argentina, Eduardo Donza, investigador do Observatório, disse existirem «várias razões» para este aumento. «Durante os primeiros meses do ano, o aumento dos preços dos alimentos foi maior que a média geral», afirmou, sublinhando que «ainda não há uma recuperação».

Nas ruas de Buenos Aires, vêem-se todos os dias centenas pessoas – por vezes, famílias inteiras – com colchões estendidos nos passeios, ao relento.

De acordo com o investigador, a subida da inflação, associada à enorme desvalorização da moeda nacional, teve impacto nos preços dos bens essenciais e levou ao aumento da pobreza. «Os preços sobem pelo elevador e os salários pela escada», disse, acrescentando que, «quando há desvalorizações [monetárias], que são muitas vezes bruscas, há subidas de preços muito grandes e um mercado de trabalho que está cada vez mais "precarizado"», lê-se no portal infobae.com.
Em Março, o Instituto Nacional de Estatística revelou que, no final de 2018, 32% da população argentina vivia em situação de pobreza e que mais de 2,7 milhões viviam em situação de indigência ou pobreza extrema.
A recessão económica e o peso (moeda argentina) altamente desvalorizado, o acordo celebrado entre o governo de Macri e o Fundo Monetário Internacional – com os habituais «pedidos» de redução na despesa pública e de aprofundamento das políticas de austeridade –, os aumentos de preços nos serviços básicos, as subidas constantes dos preços da alimentação, os despedimentos, os encerramentos de inúmeras empresas, o elevado desemprego estão entre os factores que contribuíram para que a Argentina atinja, este ano, o número recorde de pessoas em situação de pobreza.