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10.7.23

Quer apadrinhar uma oliveira abandonada? Há um projecto para recuperar estas árvores

Amanda Faria, in Público

O projecto Apadrinha uma Oliveira chegou a Portugal, com o objectivo de recuperar 10 mil oliveiras – e cada padrinho também recebe azeite. E há uma oliveira com mais de mil anos.


Já pensou baptizar uma árvore centenária com um nome à sua escolha para ajudar na sua preservação? É este o objectivo do projecto Apadrinha uma Oliveira, lançado recentemente em Abrantes, região conhecida pela tradição do olival em Portugal. O objectivo da iniciativa é recuperar oliveiras com centenas – e até milhares – de anos através de um programa de apadrinhamento. Além da conservação, os padrinhos e madrinhas recebem dois litros de azeite da sua oliveira e contribuem para a criação de 27 postos de trabalho no município.

O projecto desembarcou recentemente em Santarém, inspirado pelo enorme sucesso da sua versão espanhola, o Apadrina un Olivo, em Oliete, na região de Teruel. O director-executivo deste projecto em Portugal, João Rijo, disse ao Azul que a decisão de importar a ideia foi “orgânica”, impulsionada pela preocupação com o crescente abandono dos olivais no país.

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“Queremos envolver os portugueses na protecção e conservação do seu património natural e cultural”, afirmou João Rijo. A escolha de Abrantes como local para avançar com a recuperação das árvores deu-se devido a esta região ter as oliveiras mais antigas em território nacional, diz, e de ter mais de 200.000 hectares de olivais abandonados, o equivalente a 2800 campos de futebol. “Decidimos agir e lutar para proteger e cuidar destas oliveiras antigas com o apoio da sociedade e do patrocinador”, acrescentou o director. Tanto a iniciativa espanhola como a portuguesa têm a empresa Endesa como principal patrocinador.​

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O abandono dos olivais aconteceu devido à falta de substituição geracional nos campos por desinteresse ou falta de recursos financeiros, baixa rentabilidade económica quando comparada com outras áreas e o êxodo rural. No entanto, a preservação das oliveiras é essencial para atenuar os riscos de incêndios, fortalecer o ecossistema e promover o desenvolvimento económico local quando as árvores voltarem a ser produtivas. A associação também refere que as oliveiras nos ajudaram “a sobreviver durante muitos séculos” e que também é importante recuperá-las por serem um “símbolo de identidade” português.

A iniciativa visa criar até 27 postos de trabalho em Abrantes para fazer a manutenção das oliveiras. “Começámos por criar um grupo de trabalhadores no terreno, que são responsáveis e especialistas na recuperação do olival, e podem realizar os cuidados necessários para trazê-lo de volta à vida”, explica o responsável João Rijo. Além disso, a associação contratará uma equipa para produzir o azeite e outra para gerir o projecto e as visitas dos padrinhos e madrinhas. Assim, além da preservação e conservação das árvores, o desenvolvimento económico e social também é estimulado.

Para apadrinhar uma oliveira, basta aceder ao site da organização, escolher através das fotografias aquela de que mais gostar, pagar uma contribuição anual de 60 euros e atribuir-lhe um nome. João Rijo conta ao Azul que o projecto encoraja a nomeação da árvore, pois “é essencial poder representar ou simbolizar na oliveira a pessoa que se deseja homenagear.” Os padrinhos ou madrinhas recebem fotos do desenvolvimento da árvore apadrinhada e podem visitá-la fisicamente. Após a colheita, recebem dois litros de azeite das oliveiras recuperadas pelo projecto em garrafas desenhadas por um artista.

Texto editado por Claudia Carvalho Silva

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

4.12.13

Distrito de Beja tem 17 mil desempregados, mas são romenos, nepaleses e vietnamitas que apanham a azeitona

Carlos Dias, in Público on-line

Cidadãos do Leste europeu deambularam sem dinheiro e alojamento até que se iniciassem os trabalhos nos olivais do Alentejo. Associação de Solidariedade Imigrante diz que, nesta altura, há entre dez a 15 mil trabalhadores imigrantes na região.

Tal como aconteceu em anos anteriores, milhares de romenos rumam nesta altura do ano em autocarros, carrinhas e carros utilitários para trabalhar na apanha de azeitona na região alentejana. Acontece que a grande maioria veio antes de a campanha se iniciar (a maturação da azeitona sofreu um atraso de semanas) e foram deixados em vários concelhos do distrito de Beja sem condições para suprir as suas necessidades básicas.

“Não tinham dinheiro, nem onde ficar e estavam a passar fome”, adiantou ao PÚBLICO Teresa Chaves, presidente da Cáritas Diocesana de Beja, frisando que foi necessário recorrer à Cruz Vermelha e à Segurança Social para acudir às situações mais críticas.

Este é o cenário que se repete nos campos do Alentejo desde há três anos. Depois dos ucranianos e brasileiros, chegam agora naturais da Roménia, Nepal e até do Vietname, contratados por indivíduos romenos, espanhóis e israelitas que os sujeitam a situações laborais à margem da lei e que as autoridades portuguesas têm vindo a sancionar desde o início de Novembro.

Alberto Matos, responsável da delegação do Alentejo da Associação de Solidariedade Imigrante, recorda que em 2011 as autoridades assumiam que as denúncias sobre exploração de mão-de-obra romena “eram histórias inventadas pelos jornais” ou admitiam que “não havia nada a fazer” por se tratar de trabalhadores comunitários.

Agora, acrescenta, são várias as entidades que “se meteram ao caminho”: Polícia Judiciária, Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, Autoridade para as Condições de Trabalho e Guarda Nacional Republicana estão a “competir entre si” no combate à exploração de mão-de-obra imigrante. Alberto Matos admite que estarão na apanha de azeitona no Alentejo “entre 10 a 15 mil trabalhadores imigrantes” na sua grande maioria romenos.

“Estamos perante uma situação problemática que envolve tráfico e exploração de pessoas”, assinala, por seu turno, Teresa Chaves.

Acções de fiscalização
As acções de fiscalização que têm sido efectuadas revelam uma repentina preocupação das autoridades portuguesas pela dimensão de um fenómeno que era esperado desde que foi iniciada a plantação maciça de olivais intensivos e superintensivos no território abrangido pelos blocos de rega do Alqueva, em meados da década anterior. O novo modelo agrícola baseado no regadio requer muita mão-de-obra e sempre foi dito, por especialistas, que a região não tinha condições para responder.

No entanto, o Baixo Alentejo apresenta uma das mais elevadas taxas de desemprego do país, cerca de 17.000 desempregados em Outubro. Apesar disso, e de acordo com várias fontes, os empresários agrícolas preferem a mão-de-obra imigrante.

Henrique Coroa, um agricultor de Beja que contrata trabalhadores imigrantes, tem uma explicação para este paradoxo. “A maioria dos desempregados na nossa região não se dispõe a ir trabalhar para o campo por achar que isso representa um desprestígio social”, diz, acrescentando que parte “são pessoas instruídas que não querem desempenhar tarefas na agricultura”.

Por outro lado, os imigrantes “são muito mais rápidos” na execução das tarefas, explica Henrique Coroa. “São a nossa sorte, senão a produção de azeite no Alentejo parava”, observa.

Confrontado com as denúncias que têm sido feitas pelas autoridades sobre o tráfico e exploração da mão-de-obra imigrante, Henrique Coroa reconhece que esta situação não abona a imagem da região, afirmando que no seu caso só contrata imigrantes “dentro da legalidade”.

Exploração, diz PCP
O PÚBLICO deslocou-se ao Centro de Emprego de Beja e pediu dados sobre as ofertas de emprego disponíveis. “Só temos para o estrangeiro”, foi a resposta obtida, referindo-se a cerca de 200 ofertas para os Estados Unidos da América, quase sempre para pessoal qualificado e altamente qualificado com formação superior.

O deputado do PCP João Ramos pediu recentemente à ministra da Agricultura e do Mar, Assunção Cristas, através de um requerimento entregue na Assembleia da República, que explicasse as razões que obrigam a que produção agrícola em Alqueva esteja “dependente de trabalho clandestino” e da “desregulação das relações laborais”.

A ministra respondeu que a “EDIA e os serviços do Ministério da Agricultura e Mar têm mantido uma ligação estreita com as autoridades com responsabilidade na fiscalização das condições de trabalho, sempre pugnando por uma melhoria dessas condições”. Sempre que se verifique “o desrespeito pelas condições de trabalho” as “referidas entidades serão alertadas”, garante Assunção Cristas.

O deputado comunista não ficou satisfeito com a resposta e considerou “inaceitável que numa das mais importantes áreas agrícolas do país, precisamente aquela que tem maiores condições para se modernizar e para se desenvolver, se possa recorrer a formas de exploração do trabalho de há vários séculos atrás”.