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25.7.19

Solidão compromete saúde dos idosos, revela estudo do CINTESIS

Olga Estrela Magalhães, in notíciasupporto


91% dos idosos seguidos nos Cuidados de Saúde Primários revelam sentir algum grau de solidão, sendo que um terço reporta mesmo níveis graves. A conclusão é de um estudo liderado por investigadores do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, em parceria com a Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte).

O objetivo da investigação foi avaliar o impacto da solidão em idosos que estão a ser seguidos num Centro de Saúde. Para isso, foram entrevistadas 150 pessoas, com 65 anos ou mais, de uma zona urbana do Norte de Portugal.
Os resultados revelaram que a solidão interfere com os cuidados médicos, sendo que os idosos que reportam níveis de solidão elevados estão mais frequentemente polimedicados. “A solidão leva a um aumento do recurso aos serviços de saúde, como comprovamos através da relação desta com o consumo crónico de medicamentos, especialmente entre os idosos com mais de 80 anos de idade”, explicam os investigadores no estudo, que foi publicado na revista científica Family Medicine & Primary Care Review.

Paulo Santos, investigador do CINTESIS e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), e Catarina Rocha-Vieira, da ARS-Norte, defendem que “é importante que se perceba que a solidão nos idosos leva a maior somatização do seu sofrimento e aumenta o risco de serem sobremedicados”. Por isso, apelam para que se definam “estratégias para reduzir a solidão entre os idosos, como forma de melhorar os indicadores individuais de saúde e diminuir o risco de sobrediagnóstico e de polimedicação”.

Atos simples como procurar companhia, participar na vida familiar e manter rotinas diárias ativas, que assegurem o contacto com outras pessoas, são exemplos de estratégias que podem reduzir a solidão e melhorar a saúde da população mais idosa, exemplificam os autores, defendendo que “devem ser tomadas medidas políticas, legislativas, sociais e de saúde que promovam a manutenção de uma vida ativa após a reforma, de modo a estimular o sentido de utilidade dos idosos, protegendo-os da solidão e das suas consequências em termos de saúde”.

Os investigadores concluíram ainda que ter mais de 80 anos de idade, viver sozinho, possuir um baixo nível educacional (menos de 9 anos), estar insatisfeito com os rendimentos e ter uma estrutura familiar disfuncional são os principais fatores que se associam à solidão. Em contrapartida, ser casado ou viver em união de facto, e manter uma atividade profissional surgiram como fatores protetores.
Este estudo foi conduzido numa zona urbana do Norte de Portugal que apresenta uma proporção de população idosa ligeiramente abaixo da média nacional (estimada em 19%). Na realidade do território nacional e sobretudo nas regiões mais envelhecidas, como nos distritos do interior e no Alentejo, o problema pode ser ainda maior.

A solidão é comum na população geriátrica e interfere significativamente com os cuidados de saúde, devendo ser considerada um determinante de saúde. “Incorporar esse fator no raciocínio de decisão clínica é fundamental para melhorar os cuidados de saúde”, concluem os investigadores.

O estudo contou ainda com a participação de Gustavo Oliveira (da Unidade de Saúde Familiar Garcia d’Orta) e Luciana Couto (investigadora do CINTESIS e professora do Departamento Medicina da Comunidade, Informação e Decisão em Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto).

4.10.17

CINTESIS quer pôr tecnologias ao serviço das pessoas mais velhas

Olga Estrela Magalhães, in UP

CINTESIS quer pôr tecnologias ao serviço das pessoas mais velhas

Professora no ICBAS, Constança Paúl lidera um grupo de investigação sobre envelhecimento no CINTESIS

Sabia que há dispositivos tecnológicos que ajudam a prevenir as quedas das pessoas mais idosas? E que há app’s que facilitam a gestão dos indicadores de saúde dos mais velhos? Está familiarizado com os sistemas de prevenção e deteção de fogos? Ou com o uso das tecnologias para apoiar os pacientes que sofrem de demência?

É para dar a conhecer estas e outras soluções que uma equipa de investigadores e empresários está a desenvolver o ActiveAdvice – um projeto, financiado em 1,3 milhões de euros, que disponibilizará uma plataforma europeia onde as pessoas mais velhas e os seus familiares ou outros cuidadores poderão encontrar produtos e serviços especialmente desenhados para responder às suas necessidades e obterem aconselhamento acerca das soluções mais adequadas à situação que vivem.

Os investigadores portugueses, sob a coordenação de Constança Paúl, pertencem ao CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde e defendem que a utilização das “tecnologias pode ter um propósito preventivo (ajudando, por exemplo, a evitar quedas), ou de compensação e assistência em casos de perda de funcionalidade (por exemplo, softwares para reabilitação física ou cognitiva)”.

“Sabemos que a maioria das pessoas mais velhas prefere permanecer na sua casa, na sua comunidade – desde que seja capaz de manter um nível desejado de autonomia e de bem-estar”, explica Constança Paúl, que acredita que “o uso dos dispositivos de comunicação e as tecnologias podem contribuir em larga medida para aumentar o bem-estar dos idosos”.

De acordo com os censos de 2011, a população idosa portuguesa aumentou 19% na última década. Aumenta assim a necessidade perceber, explicar e intervir no processo de envelhecimento, que se traduz na necessidade de se prestar cuidados a um número crescente de pessoas com idade avançada, que apresentam maior probabilidade de sofrerem problemas de saúde, perda de funcionalidade e, consequentemente de passarem pela experiência de institucionalização e/ou institucionalização.

Ainda que seja verdade que a utilização das tecnologias seja menor entre pessoas mais velhas – a reduzida literacia informática é ainda um desafio considerável nesta faixa etária – “dados europeus de 2016 demonstram que 57% das pessoas com idades entre os 55 e os 74 anos utilizavam a Internet pelo menos uma vez por semana, o que representa um aumento significativo face a 2004, ano em que apenas 7% das pessoas deste grupo etário utilizavam a Internet”, explica Soraia Teles, investigadora do CINTESIS envolvida no projeto.

Também em Portugal o Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação pelas Famílias de 2016 (INE) reporta uma taxa de utilização da Internet de 47% para a faixa etária dos 55 aos 64 anos e de 28% para a faixa etária dos 65 aos 74 anos. Atividades como consultar notícias ou pesquisar por informação relacionada com a saúde são as mais desempenhadas online por este grupo etário. Falta agora que esse potencial seja usado para responder de forma mais eficiente aos problemas específicos da população mais idosa.

“Uma maior adesão a estas tecnologias depende da sua adequação às necessidades e requisitos das pessoas mais velhas e dos seus cuidadores. É fundamental que se consciencialize o público em geral para a existência destas soluções e para os seus potenciais efeitos positivos”, salienta Soraia Teles.

Este projeto não é responsável pelo desenvolvimento de soluções para os problemas e limitações que afetam os mais idosos. Na verdade, existem já muitas e boas soluções, desenvolvidas e comercializadas na União Europeia. “O que falta é que essas soluções sejam do conhecimento público e passem a ser usadas pelo grupo da população que precisa delas e pode beneficiar com o seu uso”, esclarece Constança Paúl, investigadora do CINTESIS e professora no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS).

As informações para idosos e cuidadores do projeto ActiveAdvice (http://activeadvice.eu/) estão em fase de desenvolvimento, encontrando-se, neste momento, disponíveis em inglês. Em breve, estarão acessíveis mais conteúdos, em diferentes línguas europeias, incluindo o português.

5.9.17

CINTESIS traça perfil dos “muito idosos” portugueses

Cláudia Azevedo, in UPnotícias

Cerca de 57% dos “muito idosos” (pessoas com mais de 80 anos) em Portugal reportam dificuldades em andar ou subir escadas, 39,1% apontam problemas de visão, 35,1% falam em limitações na audição, 34,4% queixam-se de dificuldades de memória e de concentração e acerca de um quarto indica constrangimentos na comunicação com os outros.

Estes são alguns dos dados publicados no estudo intitulado “Functional, Sensorial, Mobility and Communication Difficulties in the Portuguese Oldest Old (80+)”, da autoria dos investigadores Daniela Brandão, Óscar Ribeiro e Constança Paul, do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (polo do ICBAS – Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto).

O objetivo deste estudo era traçar o perfil sociodemográfico e as capacidades sensoriais, funcionais, cognitivas e de comunicação reportadas pelos “muito idosos” portugueses, visando aumentar o conhecimento sobre este grupo cada vez mais expressivo da população, estabelecer programas de prevenção adequados e implementar intervenções efetivas.

A informação tem por base os dados dos Censos de 2011, fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos a todos os residentes em Portugal com 80 anos ou mais, num total de 534.219 pessoas, das quais 530.693 (99,7%) têm entre 80 e 99 anos e 1.526 (0,3%) são centenários.

O trabalho, publicado na última edição da Acta Médica Portuguesa, mostra que cerca de 65% dos “muito idosos” são mulheres, 54% são viúvos, 46% são analfabetos e 42% têm apenas o 4º ano de escolaridade. Embora a grande maioria destes idosos (88%) viva em casa, 30,7% vivem sozinhos.

As maiores dificuldades reportadas referem-se à locomoção e à visão. Já a memória e a capacidade de entenderem os outros e de se fazerem não são tão afetadas.

A higiene e a locomoção são também as dimensões com uma maior percentagem de incapacidade total: 14,3% dos “muito idosos” são totalmente incapazes de tomarem banho ou de se vestirem sozinhos e 10% não conseguem andar ou subir escadas.

A partir dos 100 anos de idade, todas as incapacidades analisadas assumem números ainda mais expressivos, com cerca 89% dos centenários a referirem que não conseguem ouvir e cerca de 80% sem capacidade ou com muitas dificuldades na realização da sua higiene.

De acordo com os investigadores do CINTESIS, “os muito idosos portugueses apresentam dificuldades significativas nas atividades de vida diária; contudo, as capacidades cognitivas e de comunicação parecem ser comummente mantidas. Estes resultados sugerem a necessidade de assistência funcional, mas que pode ser, em última instância, gerida pelo próprio idoso”.

Tendo em conta as diferenças observadas entre os centenários e os idosos mais jovens, os autores sugerem ainda que sejam “equacionadas intervenções capazes de responder às necessidades potencialmente específicas de cada grupo”.

Em Portugal, os “muito idosos” representam 5,6% da população e 26,5% da população com mais de 65 anos de idade (mais de 2 milhões de pessoas). O número de idosos tem vindo a aumentar nas últimas décadas, juntamente com o aumento da esperança média de vida, esperando-se que, em 2060, esta atinja os 84,21 anos para os homens e os 89,88 anos para as mulheres. A tendência é também para um aumento da esperança de vida aos 80 anos: entre 2045-2050, uma pessoa com 80 anos poderá esperar viver mais 11,5 anos. Em 1980-85 anos, esse número ficava-se pelos 6,5 anos.

Apesar do aumento da longevidade, Portugal ocupa o 21.º lugar no ranking da União Europeia no domínio da independência dos mais idosos, o que sugere a necessidade de dar mais apoio a este grupo da população.