Inês Amado, in Jornal Económico
Até 2030, estima-se que 1,1 biliões de postos de trabalho sejam transformados pela tecnologia, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) citados pela Experis em comunicado de imprensa divulgado a propósito do estudo.
Sete em dez empresas já implementam Inteligência Artificial (IA) ou Realidade Virtual (RV) no seu processo recrutamento ou admitem vir a fazê-lo em três anos, de acordo com o estudo “Immersive Tech Report” da Experis.
Até 2030, estima-se que 1,1 biliões de postos de trabalho sejam transformados pela tecnologia, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) citados pela Experis em comunicado de imprensa divulgado a propósito do estudo.
De acordo com o documento, a maioria dos empregadores acredita que a Inteligência Artificial e a Realidade Virtual criarão mais empregos.
“Face aos receios frequentemente enunciados de que a automação resultará na perda de empregos em larga escala, o estudo “Immersive Tech Report” da Experis conclui, pelo contrário, que a adoção das novas tecnologias tende a gerar um aumento líquido do número de empregos, com 58% das empresas inquiridas a anteciparem que as tecnologias imersivas irão levá-las a contratar mais profissionais, face a 24% que refere que não terão impacto na dimensão das suas equipas e apenas 13% que assume que estas tecnologias levarão à diminuição do seu número de profissionais”, é explicado na mesma nota emitida a propósito do estudo.
Segundo Pedro Amorim, Managing Director da Experis, “tal como noutras esferas da sociedade, o mundo do trabalho começa já a sentir o impacto de tecnologias como a Inteligência Artificial Generativa, o Machine Learning ou a Realidade Virtual” e, “apesar do receio de que estas possam eliminar postos de trabalho, é preciso olhar também para as oportunidades que irão surgir em indústrias e sectores emergentes, nomeadamente, em funções que exigem competências humanas como a criatividade, o pensamento crítico, a resolução de problemas ou a empatia, algo que as máquinas não são capazes de demonstrar”.
O mesmo responsável entende que os “empregadores e profissionais devem mostrar-se, assim, cada vez mais abertos à introdução destas inovações, aproveitando os benefícios que advêm da sua utilização, ao mesmo tempo que reforçam as interações e o fator humano na experiência de trabalho para potenciar a criação de maior valor”.
O estudo “Immersive Tech Report” foi redigido com base em dados recolhidos através de entrevistas a quase 39 mil empregadores de 41 países no ManpowerGroup Employment Outlook Survey mais recentes.
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20.9.23
15.9.23
Site do Governo indisponível devido a problema técnico, que “em nada se relaciona com cibersegurança”
Por Lusa, in Expresso
As equipas técnicas do executivo estão a resolver esta falha “logo que possível”
O 'site' do Governo está indisponível desde as 12:43 de hoje devido a problemas técnicos, disse à Lusa fonte governamental.
Fonte do gabinete do secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campolargo, disse que o problema "em nada se relaciona com cibersegurança".
As equipas técnicas do executivo estão a resolver esta falha para que o 'site' volte a funcionar "logo que possível", acrescentou a mesma fonte.
Desde as 12:43 que não é possível aceder à página do Governo na Internet (www.portugal.gov.pt), aparecendo a informação de que surgiu um erro (Error 20).
As equipas técnicas do executivo estão a resolver esta falha “logo que possível”
O 'site' do Governo está indisponível desde as 12:43 de hoje devido a problemas técnicos, disse à Lusa fonte governamental.
Fonte do gabinete do secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campolargo, disse que o problema "em nada se relaciona com cibersegurança".
As equipas técnicas do executivo estão a resolver esta falha para que o 'site' volte a funcionar "logo que possível", acrescentou a mesma fonte.
Desde as 12:43 que não é possível aceder à página do Governo na Internet (www.portugal.gov.pt), aparecendo a informação de que surgiu um erro (Error 20).
6.9.23
Mais rápido, mais potente: o novo supercomputador é instalado (finalmente) em Portugal
Tiago Ramalho (texto) e Nelson Garrido (fotografia), in Público
Supercomputador português só começará a receber projectos científicos no próximo ano. O Deucalion é inaugurado esta quarta-feira, em Guimarães, com a presença do primeiro-ministro, António Costa.
Passados quatro anos desde a assinatura do contrato, o Deucalion vai ser inaugurado pelo Governo português. É o novo supercomputador, o mais rápido e eficiente (dez vezes mais do que o anterior), e pode significar um salto para a ciência portuguesa na capacidade de cálculo e na velocidade com que analisa dados ou problemas. A equação é simples: um supercomputador demora uma hora a analisar um problema que um computador portátil demorará 20 ou 30 anos.
Depois de vários anúncios de entrada em funcionamento, a inauguração está marcada para esta quarta-feira, às 14h30, no Campus de Azurém da Universidade do Minho, em Guimarães, onde está instalado o Deucalion – e conta inclusive com a presença do primeiro-ministro, António Costa. O tiro de partida deste supercomputador começou por ser anunciado para o final de 2020, depois adiado para o início de 2022 e, ainda, para o início de 2023, até ser finalmente agendado para esta quarta-feira.
Mas o que é um supercomputador? A construção da própria palavra ajuda. Os supercomputadores permitem analisar um conjunto enorme de dados num período de tempo bastante mais curto (que pode reduzir o tempo de uma análise em anos) ou fazer enormes quantidades de cálculos.
Geralmente, podemos encontrar exemplos do seu uso na física, transformando os dados recolhidos em imagens do Universo, por exemplo, ou mesmo na biologia, criando modelos de um vírus que demorariam meses sem a capacidade de processamento destes computadores. Um exemplo quotidiano são as previsões meteorológicas: os modelos actuais de meteorologia são cada vez mais certeiros (mesmo que achemos o contrário) porque conseguem analisar muito mais dados e em muito menos tempo. Em Janeiro deste ano, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera inaugurou também um novo supercomputador que duplica a cobertura e a rapidez das suas análises – importante não só para conhecermos o tempo antes de sair de casa, mas também para prever mais eficazmente o risco de incêndio, por exemplo.
Antes do Deucalion, Portugal já teve outros supercomputadores, como o Bob, instalado em 2019, em Riba de Ave (Vila Nova de Famalicão), o supercomputador mais potente até esta instalação (ainda assim, dez vezes inferior ao Deucalion), e que cessou o seu funcionamento no início deste ano.
“A rede de computação nacional é agora reforçada dez vezes com este novo supercomputador. Hoje, este é um instrumento que qualquer área de investigação tem para poder, de forma mais rápida, simular e calcular dados”, defende ao PÚBLICO Elvira Fortunato, ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, acrescentando que este é um projecto para todas as disciplinas científicas – e não só para quem usa programação. E é também para qualquer investigador em Portugal, dado que não é necessário estar ao lado do Deucalion para o utilizar: o acesso é totalmente remoto.
Anteciparia que, ao longo dos próximos cinco anos, estes custos [operacionais] poderão ser por volta de 13 a 15 milhões de euros
João Nuno Ferreira
Apesar de a inauguração estar marcada, o supercomputador Deucalion ainda não está em pleno funcionamento. Depois das obras no espaço onde está acomodado e da configuração da máquina, ainda há passos por cumprir. Nos próximos dois meses, avançará a última etapa de instalação do supercomputador e, depois disso, seguem-se os testes finais. “Entre o final deste ano e o início do próximo, esperamos ter a máquina em velocidade de cruzeiro a receber as centenas de projectos que estou certo que serão submetidos”, afirma João Nuno Ferreira, coordenador da Unidade de Computação Científica da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Atrasos provocados pelas condições do espaço
“A primeira experiência com o Bob foi importante para perceber o potencial que a supercomputação oferecia ao nosso país, quer às universidades, quer às empresas – e a resposta foi interessante. Todos olhamos agora com confiança para o sucesso desta nova máquina”, afiança Rui Vieira de Castro, reitor da Universidade do Minho. As expectativas para o Deucalion são elevadas. “É um salto muito significativo face ao Bob”, nota Francisco Santos, vice-presidente da FCT. “[Este supercomputador] permitirá ter projectos em Portugal de uma dimensão que não era possível antes”, acrescenta João Nuno Ferreira. Desde 2019 que as virtudes do Deucalion são elencadas, mas os atrasos na instalação desta máquina de 26 toneladas, distribuídas por 26 armários com dois metros de altura que estão arrumados numa sala da Universidade do Minho, adiaram a entrada em acção deste supercomputador.
A complexidade da instalação do Deucalion e os requisitos necessários para o acomodar são a justificação para os sucessivos adiamentos da instalação. “Passámos por uma sucessão de locais possíveis que não se revelaram viáveis. Ao fim de vários meses, a conclusão que nos diziam era ‘para um equipamento destes, mais vale construir de raiz’”, conta João Nuno Ferreira. Um supercomputador como o Deucalion exige não só espaço físico, mas também um acesso energético enorme, já que consome muita electricidade, e também um sistema de refrigeração com um caudal de cerca de 50 litros de água por segundo – condições que dificultaram a definição de um espaço. “O local foi o maior factor. Depois de identificado este local, os atrasos que se verificaram foram os expectáveis no contexto do fornecimento de equipamentos especializados neste tipo de instalações”, acrescenta. Apesar do esforço energético, o Deucalion tem maior eficiência do que o Bob, por exemplo: consegue dez vezes mais eficiência, com apenas o triplo do consumo energético, avança João Nuno Ferreira.
“Quando cheguei, tinha um problema para resolver e o que fiz foi arregaçar as mangas, constituir um grupo de trabalho, ter uma reunião com todos e dizer: ‘Temos um computador para instalar e temos de o instalar o mais rapidamente possível’. E foi isso que nós fizemos”, diz Elvira Fortunato.
A Empresa Comum Europeia para a Computação de Alto Desempenho (EuroHPC, no acrónimo em inglês), organização da União Europeia criada para conjugar os esforços nesta área, justificava a demora, ao PÚBLICO, em Outubro de 2022, com os próprios processos de contratação pública. À época, Portugal e Espanha eram os únicos dos oito países a quem foram atribuídos supercomputadores em 2019 que não tinham instalado estas máquinas, de acordo com o EuroHPC – agora, sobram apenas os espanhóis.
Será criado um centro de computação avançada
A gestão do supercomputador será feita através da FCT, mas no próximo ano será criado o Centro Nacional de Computação Avançada, como referiu Francisco Santos. Esta organização nasce com o intuito também de “apoiar os investigadores na utilização do Deucalion e, ao mesmo tempo, fazer crescer o financiamento para esta área da computação avançada”, explica o vice-presidente da FCT. Este centro formalizará a Rede Nacional de Computação Avançada, uma plataforma colaborativa de infra-estruturas e pessoas ligadas a esta área, num organismo capaz de concorrer a financiamento europeu ou de atrair projectos internacionais para se desenvolverem no Deucalion, por exemplo.
O concurso a financiamento e a projectos ajudará também a arcar com as despesas associadas ao Deucalion. O fornecimento do supercomputador, assinado com a Fujitsu em Setembro de 2020, assume uma despesa inicial de 20 milhões de euros, ficando a empresa originária do Japão com a responsabilidade de fornecer a tecnologia que dá vida ao Deucalion. As verbas dividem-se entre dinheiro da FCT e verba europeia (65% da responsabilidade da instituição portuguesa). Além dos 20 milhões de euros de investimento inicial, há custos de operação. “Têm uma componente grande de energia, bem como a formação de uma equipa de oito a nove pessoas especializadas. Anteveria que, ao longo dos próximos cinco anos, estes custos poderão ser por volta de 13 a 15 milhões de euros”, orçamenta João Nuno Ferreira, deixando um asterisco para os custos de energias, sempre “voláteis”.
Estes custos serão pagos com o financiamento adquirido através de projectos, que podem ser científicos ou industriais. A gestão diária da máquina será um encargo da FCT, apesar de Francisco Santos confiar que poderão existir contributos de várias fontes, desde protocolos com instituições de ensino superior para a utilização do supercomputador a projectos de inovação quer industrial, quer da administração pública.
Deucalion disponível para todos os cientistas
Tal como a repartição de custos, a utilização do novo supercomputador também é 65%-35%. Neste caso, 65% do tempo de uso será dedicado aos projectos portugueses ou atraídos pelo futuro Centro Nacional de Computação Avançada, enquanto os restantes 35% serão para usufruto de cientistas europeus que pretendam utilizar o Deucalion – uma divisão que também acontece nos outros países que receberam supercomputadores.
Os cientistas portugueses serão, ainda assim, o destinatário principal deste supercomputador. “Esta infra-estrutura é transversal, todas as áreas disciplinares podem tirar partido de uma infra-estrutura como esta”, diz Francisco Santos. As oportunidades para concorrer à utilização deste equipamento serão feitas através do concurso de projectos de computação avançada da FCT, que nas candidaturas deste ano já incluirá o Deucalion, mas também nos concursos gerais de projectos científicos – algo que não existia. “O investigador pode dizer que vai fazer isto e aquilo, mas que, além disso, precisa de x horas de tempo de cálculo num computador nacional – e esse tempo de cálculo é atribuído juntamente com o financiamento e, assim, não tem de submeter duas candidaturas”, explica.
As competências nesta área por parte dos investigadores são uma das principais preocupações, mas Francisco Santos descarta que seja um problema. “Do ponto de vista técnico, não é necessário que a pessoa seja informática e a dificuldade estará relacionada com o tipo de aplicação que se pretende fazer. Exige alguma capacidade de utilizar recursos computacionais completos, mas não é algo que invalide ou ponha de parte investigadores fora destas áreas”, diz. É também por isso que existem, em várias universidades do país, centros de competências em computação avançada que dão apoio em matérias como esta.
A visão é similar a Miguel Avillez, astrofísico e responsável pelo supercomputador Oblivion, da Universidade de Évora, que utiliza outras máquinas europeias e norte-americanas no seu trabalho. “Haverá sempre uma aprendizagem por parte do utilizador, mas, para quem está habituado a trabalhar com isto, será simples. Para os que não têm os conhecimentos aprofundados, aí poderão existir alguns problemas – mas também aprenderão rapidamente”, sublinha.
“Nunca conseguimos ter o Bob com a potência máxima”
O Deucalion surge como substituto natural do Bob, o supercomputador mais potente que Portugal teve – antes da entrada em funcionamento deste Deucalion. Apesar de participar numa centena de projectos científicos, o Bob, instalado num centro da empresa Redes Energéticas Nacionais (REN) em Riba de Ave, nunca chegou à sua potência máxima.
“O Bob ajudou-nos a aprender e a crescer rapidamente antes da chegada do Deucalion”, explica João Nuno Ferreira, coordenador da Unidade de Computação Científica da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. No entanto, este era um equipamento doado pela Universidade de Austin (Estados Unidos) e cujos requisitos técnicos não se coadunavam com os centros de dados existentes em Portugal. “A potência e a refrigeração necessária esbarraram nessas limitações [dos centros portugueses], o que nos obrigou a nunca o ter forçado ao limite. Nunca conseguimos ter o Bob com a potência máxima”, lamenta.
Em Março deste ano, o supercomputador Bob marcou o fim da sua produção, como anunciou o Centro de Computação Avançada do Minho, ligado à Universidade do Minho. Este supercomputador tinha começado as operações em Portugal em Julho de 2019.
A “substituição” pelo novo supercomputador Deucalion, que será inaugurado esta quarta-feira, marca um aumento da capacidade portuguesa. “Vamos reforçar em muito a rede de computação avançada a nível nacional. Precisamos de sistemas de supercomputação porque temos cada vez mais dados. Mesmo a emergência da inteligência artificial e a digitalização irão necessitar de computadores que consigam tratar um volume maior de dados e, em simultâneo, uma capacidade de processar esses dados mais rapidamente”, nota a ministra da Ciência, Elvira Fortunato.
A contratualização europeia de supercomputadores coincide também com a aposta em microelectrónica, com o investimento na produção de processadores e semicondutores, presentes em grande parte da tecnologia (como computadores e telemóveis), no espaço europeu – para contrariar a dependência externa, de países como a China ou os Estados Unidos. “É importante que a Europa não fique atrás nestas áreas fundamentais. Como tivemos problemas de energia com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia, nos semicondutores é igual: se a China cortar [o acesso], o mundo pára”, refere a ministra.
Passados quatro anos desde a assinatura do contrato, o Deucalion vai ser inaugurado pelo Governo português. É o novo supercomputador, o mais rápido e eficiente (dez vezes mais do que o anterior), e pode significar um salto para a ciência portuguesa na capacidade de cálculo e na velocidade com que analisa dados ou problemas. A equação é simples: um supercomputador demora uma hora a analisar um problema que um computador portátil demorará 20 ou 30 anos.
Depois de vários anúncios de entrada em funcionamento, a inauguração está marcada para esta quarta-feira, às 14h30, no Campus de Azurém da Universidade do Minho, em Guimarães, onde está instalado o Deucalion – e conta inclusive com a presença do primeiro-ministro, António Costa. O tiro de partida deste supercomputador começou por ser anunciado para o final de 2020, depois adiado para o início de 2022 e, ainda, para o início de 2023, até ser finalmente agendado para esta quarta-feira.
Mas o que é um supercomputador? A construção da própria palavra ajuda. Os supercomputadores permitem analisar um conjunto enorme de dados num período de tempo bastante mais curto (que pode reduzir o tempo de uma análise em anos) ou fazer enormes quantidades de cálculos.
Geralmente, podemos encontrar exemplos do seu uso na física, transformando os dados recolhidos em imagens do Universo, por exemplo, ou mesmo na biologia, criando modelos de um vírus que demorariam meses sem a capacidade de processamento destes computadores. Um exemplo quotidiano são as previsões meteorológicas: os modelos actuais de meteorologia são cada vez mais certeiros (mesmo que achemos o contrário) porque conseguem analisar muito mais dados e em muito menos tempo. Em Janeiro deste ano, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera inaugurou também um novo supercomputador que duplica a cobertura e a rapidez das suas análises – importante não só para conhecermos o tempo antes de sair de casa, mas também para prever mais eficazmente o risco de incêndio, por exemplo.
Antes do Deucalion, Portugal já teve outros supercomputadores, como o Bob, instalado em 2019, em Riba de Ave (Vila Nova de Famalicão), o supercomputador mais potente até esta instalação (ainda assim, dez vezes inferior ao Deucalion), e que cessou o seu funcionamento no início deste ano.
“A rede de computação nacional é agora reforçada dez vezes com este novo supercomputador. Hoje, este é um instrumento que qualquer área de investigação tem para poder, de forma mais rápida, simular e calcular dados”, defende ao PÚBLICO Elvira Fortunato, ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, acrescentando que este é um projecto para todas as disciplinas científicas – e não só para quem usa programação. E é também para qualquer investigador em Portugal, dado que não é necessário estar ao lado do Deucalion para o utilizar: o acesso é totalmente remoto.
Anteciparia que, ao longo dos próximos cinco anos, estes custos [operacionais] poderão ser por volta de 13 a 15 milhões de euros
João Nuno Ferreira
Apesar de a inauguração estar marcada, o supercomputador Deucalion ainda não está em pleno funcionamento. Depois das obras no espaço onde está acomodado e da configuração da máquina, ainda há passos por cumprir. Nos próximos dois meses, avançará a última etapa de instalação do supercomputador e, depois disso, seguem-se os testes finais. “Entre o final deste ano e o início do próximo, esperamos ter a máquina em velocidade de cruzeiro a receber as centenas de projectos que estou certo que serão submetidos”, afirma João Nuno Ferreira, coordenador da Unidade de Computação Científica da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Atrasos provocados pelas condições do espaço
“A primeira experiência com o Bob foi importante para perceber o potencial que a supercomputação oferecia ao nosso país, quer às universidades, quer às empresas – e a resposta foi interessante. Todos olhamos agora com confiança para o sucesso desta nova máquina”, afiança Rui Vieira de Castro, reitor da Universidade do Minho. As expectativas para o Deucalion são elevadas. “É um salto muito significativo face ao Bob”, nota Francisco Santos, vice-presidente da FCT. “[Este supercomputador] permitirá ter projectos em Portugal de uma dimensão que não era possível antes”, acrescenta João Nuno Ferreira. Desde 2019 que as virtudes do Deucalion são elencadas, mas os atrasos na instalação desta máquina de 26 toneladas, distribuídas por 26 armários com dois metros de altura que estão arrumados numa sala da Universidade do Minho, adiaram a entrada em acção deste supercomputador.
A complexidade da instalação do Deucalion e os requisitos necessários para o acomodar são a justificação para os sucessivos adiamentos da instalação. “Passámos por uma sucessão de locais possíveis que não se revelaram viáveis. Ao fim de vários meses, a conclusão que nos diziam era ‘para um equipamento destes, mais vale construir de raiz’”, conta João Nuno Ferreira. Um supercomputador como o Deucalion exige não só espaço físico, mas também um acesso energético enorme, já que consome muita electricidade, e também um sistema de refrigeração com um caudal de cerca de 50 litros de água por segundo – condições que dificultaram a definição de um espaço. “O local foi o maior factor. Depois de identificado este local, os atrasos que se verificaram foram os expectáveis no contexto do fornecimento de equipamentos especializados neste tipo de instalações”, acrescenta. Apesar do esforço energético, o Deucalion tem maior eficiência do que o Bob, por exemplo: consegue dez vezes mais eficiência, com apenas o triplo do consumo energético, avança João Nuno Ferreira.
“Quando cheguei, tinha um problema para resolver e o que fiz foi arregaçar as mangas, constituir um grupo de trabalho, ter uma reunião com todos e dizer: ‘Temos um computador para instalar e temos de o instalar o mais rapidamente possível’. E foi isso que nós fizemos”, diz Elvira Fortunato.
A Empresa Comum Europeia para a Computação de Alto Desempenho (EuroHPC, no acrónimo em inglês), organização da União Europeia criada para conjugar os esforços nesta área, justificava a demora, ao PÚBLICO, em Outubro de 2022, com os próprios processos de contratação pública. À época, Portugal e Espanha eram os únicos dos oito países a quem foram atribuídos supercomputadores em 2019 que não tinham instalado estas máquinas, de acordo com o EuroHPC – agora, sobram apenas os espanhóis.
Será criado um centro de computação avançada
A gestão do supercomputador será feita através da FCT, mas no próximo ano será criado o Centro Nacional de Computação Avançada, como referiu Francisco Santos. Esta organização nasce com o intuito também de “apoiar os investigadores na utilização do Deucalion e, ao mesmo tempo, fazer crescer o financiamento para esta área da computação avançada”, explica o vice-presidente da FCT. Este centro formalizará a Rede Nacional de Computação Avançada, uma plataforma colaborativa de infra-estruturas e pessoas ligadas a esta área, num organismo capaz de concorrer a financiamento europeu ou de atrair projectos internacionais para se desenvolverem no Deucalion, por exemplo.
O concurso a financiamento e a projectos ajudará também a arcar com as despesas associadas ao Deucalion. O fornecimento do supercomputador, assinado com a Fujitsu em Setembro de 2020, assume uma despesa inicial de 20 milhões de euros, ficando a empresa originária do Japão com a responsabilidade de fornecer a tecnologia que dá vida ao Deucalion. As verbas dividem-se entre dinheiro da FCT e verba europeia (65% da responsabilidade da instituição portuguesa). Além dos 20 milhões de euros de investimento inicial, há custos de operação. “Têm uma componente grande de energia, bem como a formação de uma equipa de oito a nove pessoas especializadas. Anteveria que, ao longo dos próximos cinco anos, estes custos poderão ser por volta de 13 a 15 milhões de euros”, orçamenta João Nuno Ferreira, deixando um asterisco para os custos de energias, sempre “voláteis”.
Estes custos serão pagos com o financiamento adquirido através de projectos, que podem ser científicos ou industriais. A gestão diária da máquina será um encargo da FCT, apesar de Francisco Santos confiar que poderão existir contributos de várias fontes, desde protocolos com instituições de ensino superior para a utilização do supercomputador a projectos de inovação quer industrial, quer da administração pública.
Deucalion disponível para todos os cientistas
Tal como a repartição de custos, a utilização do novo supercomputador também é 65%-35%. Neste caso, 65% do tempo de uso será dedicado aos projectos portugueses ou atraídos pelo futuro Centro Nacional de Computação Avançada, enquanto os restantes 35% serão para usufruto de cientistas europeus que pretendam utilizar o Deucalion – uma divisão que também acontece nos outros países que receberam supercomputadores.
Os cientistas portugueses serão, ainda assim, o destinatário principal deste supercomputador. “Esta infra-estrutura é transversal, todas as áreas disciplinares podem tirar partido de uma infra-estrutura como esta”, diz Francisco Santos. As oportunidades para concorrer à utilização deste equipamento serão feitas através do concurso de projectos de computação avançada da FCT, que nas candidaturas deste ano já incluirá o Deucalion, mas também nos concursos gerais de projectos científicos – algo que não existia. “O investigador pode dizer que vai fazer isto e aquilo, mas que, além disso, precisa de x horas de tempo de cálculo num computador nacional – e esse tempo de cálculo é atribuído juntamente com o financiamento e, assim, não tem de submeter duas candidaturas”, explica.
As competências nesta área por parte dos investigadores são uma das principais preocupações, mas Francisco Santos descarta que seja um problema. “Do ponto de vista técnico, não é necessário que a pessoa seja informática e a dificuldade estará relacionada com o tipo de aplicação que se pretende fazer. Exige alguma capacidade de utilizar recursos computacionais completos, mas não é algo que invalide ou ponha de parte investigadores fora destas áreas”, diz. É também por isso que existem, em várias universidades do país, centros de competências em computação avançada que dão apoio em matérias como esta.
A visão é similar a Miguel Avillez, astrofísico e responsável pelo supercomputador Oblivion, da Universidade de Évora, que utiliza outras máquinas europeias e norte-americanas no seu trabalho. “Haverá sempre uma aprendizagem por parte do utilizador, mas, para quem está habituado a trabalhar com isto, será simples. Para os que não têm os conhecimentos aprofundados, aí poderão existir alguns problemas – mas também aprenderão rapidamente”, sublinha.
“Nunca conseguimos ter o Bob com a potência máxima”
O Deucalion surge como substituto natural do Bob, o supercomputador mais potente que Portugal teve – antes da entrada em funcionamento deste Deucalion. Apesar de participar numa centena de projectos científicos, o Bob, instalado num centro da empresa Redes Energéticas Nacionais (REN) em Riba de Ave, nunca chegou à sua potência máxima.
“O Bob ajudou-nos a aprender e a crescer rapidamente antes da chegada do Deucalion”, explica João Nuno Ferreira, coordenador da Unidade de Computação Científica da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. No entanto, este era um equipamento doado pela Universidade de Austin (Estados Unidos) e cujos requisitos técnicos não se coadunavam com os centros de dados existentes em Portugal. “A potência e a refrigeração necessária esbarraram nessas limitações [dos centros portugueses], o que nos obrigou a nunca o ter forçado ao limite. Nunca conseguimos ter o Bob com a potência máxima”, lamenta.
Em Março deste ano, o supercomputador Bob marcou o fim da sua produção, como anunciou o Centro de Computação Avançada do Minho, ligado à Universidade do Minho. Este supercomputador tinha começado as operações em Portugal em Julho de 2019.
A “substituição” pelo novo supercomputador Deucalion, que será inaugurado esta quarta-feira, marca um aumento da capacidade portuguesa. “Vamos reforçar em muito a rede de computação avançada a nível nacional. Precisamos de sistemas de supercomputação porque temos cada vez mais dados. Mesmo a emergência da inteligência artificial e a digitalização irão necessitar de computadores que consigam tratar um volume maior de dados e, em simultâneo, uma capacidade de processar esses dados mais rapidamente”, nota a ministra da Ciência, Elvira Fortunato.
A contratualização europeia de supercomputadores coincide também com a aposta em microelectrónica, com o investimento na produção de processadores e semicondutores, presentes em grande parte da tecnologia (como computadores e telemóveis), no espaço europeu – para contrariar a dependência externa, de países como a China ou os Estados Unidos. “É importante que a Europa não fique atrás nestas áreas fundamentais. Como tivemos problemas de energia com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia, nos semicondutores é igual: se a China cortar [o acesso], o mundo pára”, refere a ministra.
[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]
25.8.23
Primeiras regras do mundo para plataformas digitais entram em vigor na UE
Por Lusa, in SIC
Após alguns meses de adaptação, plataformas de grande dimensão têm de começar agora a cumprir as obrigações impostas pela nova Lei dos Serviços Digitais da União Europeia.
A União Europeia (UE) torna-se desde esta sexta-feira, após um período de adaptação, a primeira jurisdição do mundo com regras para plataformas digitais como X (anterior Twitter) e Facebook, que passarão a ser obrigadas a remover conteúdos ilegais.
Após alguns meses de adaptação, plataformas de grande dimensão como X (anteriormente designada Twitter) e Facebook (do grupo Meta) têm de começar agora a cumprir as obrigações impostas pela nova Lei dos Serviços Digitais da UE.
Estas obrigações devem-se à entrada hoje em vigor da Lei dos Serviços Digitais na UE, no âmbito da qual a Comissão definiu 19 plataformas em linha de muito grande dimensão, com 45 milhões de utilizadores ativos mensais, que terão de cumprir as novas regras, entre as quais:AliExpress;
Amazon;
Apple AppStore;
Booking.com;
Facebook;
Google Play;
Google Maps;
Google Shopping;
Instagram;
LinkedIn;
Pinterest;
Snapchat;
TikTok;
Twitter;
Wikipedia;
YouTube;
Zalando.
Acrescem dois motores de pesquisa de muito grande dimensão, como Bing e a ferramenta de busca da Google.
Em novembro passado, foi oficialmente adotada a nova Lei dos Serviços Digitais, criada para proteger os direitos fundamentais dos utilizadores online e tornando-se numa legislação inédita para o espaço digital que responsabiliza plataformas por conteúdos ilegais e prejudiciais.
A União Europeia (UE) torna-se desde esta sexta-feira, após um período de adaptação, a primeira jurisdição do mundo com regras para plataformas digitais como X (anterior Twitter) e Facebook, que passarão a ser obrigadas a remover conteúdos ilegais.
Após alguns meses de adaptação, plataformas de grande dimensão como X (anteriormente designada Twitter) e Facebook (do grupo Meta) têm de começar agora a cumprir as obrigações impostas pela nova Lei dos Serviços Digitais da UE.
Estas obrigações devem-se à entrada hoje em vigor da Lei dos Serviços Digitais na UE, no âmbito da qual a Comissão definiu 19 plataformas em linha de muito grande dimensão, com 45 milhões de utilizadores ativos mensais, que terão de cumprir as novas regras, entre as quais:AliExpress;
Amazon;
Apple AppStore;
Booking.com;
Facebook;
Google Play;
Google Maps;
Google Shopping;
Instagram;
LinkedIn;
Pinterest;
Snapchat;
TikTok;
Twitter;
Wikipedia;
YouTube;
Zalando.
Acrescem dois motores de pesquisa de muito grande dimensão, como Bing e a ferramenta de busca da Google.
Em novembro passado, foi oficialmente adotada a nova Lei dos Serviços Digitais, criada para proteger os direitos fundamentais dos utilizadores online e tornando-se numa legislação inédita para o espaço digital que responsabiliza plataformas por conteúdos ilegais e prejudiciais.
31.7.23
Manuel Castells: “Os sistemas dos países não mudam por escolha, mudam por necessidade”
Erika Stael von Holstein e Luca de Biase/Re-Imagine Europa, Público online
O sociólogo espanhol Manuel Castells aborda a crise da democracia liberal e a forma como os meios digitais e as redes sociais mudaram a nossa relação com o poder e com as instituições que o dirigem.
Manuel Castells moldou o nosso entendimento de dinâmicas políticas numa sociedade em rede. Professor universitário e Wallis Annenberg Chair em Comunicação, Tecnologia e Sociedade na Universidade da Califórnia do Sul, a carreira académica de Castells envolve a maioria das principais universidades do mundo. É autor de 35 livros e é ex-ministro das Universidades do Governo espanhol. O seu trabalho alterou a forma como pensamos a organização da sociedade na complexa realidade em rede. Nesta conversa discorre sobre a forma como podemos re-imaginar o poder.
Talvez devêssemos começar com uma das questões fundamentais. O que se entende por “poder”? E é tão importante porquê?
Mesmo que não pensem sobre poder, as pessoas estão numa relação de poder. A maioria delas numa posição subordinada de poder. Como tal, é importante saber o que é, especialmente se não estamos satisfeitos com o facto de nos encontrarmos sob uma estrutura específica de poder e se gostaríamos de a mudar. É importante saber o que queremos mudar porque, sem saber o que queremos mudar, não conseguimos mudar nada. Portanto, se me perguntarem o que é poder... Bem, poder, tradicionalmente, não é uma inovação. Poder é a capacidade que alguns seres humanos têm de forçar ou influenciar o comportamento de outros para que eles se comportem de acordo com os interesses e os valores dos detentores do poder.
E por que razão é tão importante compreender o papel do poder na nossa sociedade hoje?
Não é só hoje. Ao longo da história da Humanidade, poder tem sido aquilo a que eu chamaria ADN das sociedades. Porque quem quer que seja que tenha poder, seja uma pessoa, sejam instituições nas quais uma pessoa ou várias pessoas são fundamentais, quem quer que seja que tenha poder tem a capacidade de estabelecer as regras, as normas e as instituições da sociedade, bem como a forma como vivemos. Portanto, é o ADN das sociedades e o nosso código de comportamento que é reforçado pelas instituições.
Nós somos livres. Sim, nós somos livres dentro das condições que aqueles no poder consideram aceitáveis ou inaceitáveis. Felizmente, este poder não é absoluto — poder absoluto com algumas excepções na história, mesmo em momentos de um regime absolutista —, existe sempre alguma resistência. Existe sempre alguém a dizer: “Nem pensar”. Por norma, eles são mortos, mas, em princípio, existe sempre e sempre existiu: onde há poder, há resistência a esse poder.
De facto, onde há dominação, em termos de poder, a relação pode ser aceite, rejeitada ou contrariada. E por isso eu digo que, de facto, as instituições da sociedade são construídas através das dinâmicas e da relação entre poder e contrapoder.
Contrapoder é a tentativa daqueles que não se sentem representados nas instituições da sociedade, e sob as condições de poder existentes no momento, de tentar alterar o panorama. Para alterar aquelas que são as regras da sociedade. E há diferentes formas de o fazer, desde esforços e mesmo, em alguns casos, desafios em termos evolutivos, para capacitar as nossas democracias através de mobilização para tentar vencer novas eleições.
Portanto, o resultado entre poder e contrapoder é um conjunto de normas e instituições sob as quais nós vivemos e pelas quais nós vivemos. E isso, em certa medida, significa que estão sempre a mudar, constantemente. Todos os dias. Todos os dias há tentativas de impor poder de acordo com normas estabelecidas e de desafio a esse mesmo poder.
No segundo episódio da ReImagine Talks é discutido o que significa ter poder nas sociedades contemporâneas.
Nós estamos, neste momento, a assistir a grandes agitações sociais. Existem dinâmicas de poder e contrapoder a trabalhar neste momento. Como vê esta mudança? Como é que isso está a mudar a relação entre estes dois diferentes tipos de poder, numa sociedade em rede, depois de tantos anos com a Internet a ser algo central no nosso mundo?
Para perceber isto, é preciso relembrar que existiram duas formas fundamentais de exercer poder ao longo da história e, de facto, todas as teorias de poder podem ser reduzidas a estas duas: poder por coerção e poder por persuasão.
Apesar de o poder por coerção ser mais decisivo — por exemplo, “tu fazes isto ou eu mato-te ou eu mando-te para a prisão”, o poder por persuasão é, na verdade, mais eficaz, porque influencia as nossas mentes. Agora, na era da Internet, o que tem acontecido é que a comunicação tem sido largamente descentralizada no mundo das redes sociais, que é muito mais autónoma em termos de mensagens, não em termos de domínio das grandes empresas, mas em termos de mensagens.
Existem muito mais pessoas a intervir neste diálogo e nesta oposição e nestas controvérsias do que num mundo em que os media tradicionais teriam, de facto, a capacidade de moldar grande parte da comunicação.
É o que eu chamo “nós não mudámos para a liberdade digital; passámos de comunicação em massa para comunicação pessoal em massa”. Porquê pessoal? Porque as pessoas constroem as suas próprias redes desde o princípio, elas produzem as suas próprias mensagens e, ao mesmo tempo, são remetentes de mensagens e receptores de mensagens.
Existe uma constante interacção e uma constante descentralização do sistema de comunicação. Mas e depois? Bem, as pessoas que têm poder mobilizam os seus recursos também nas redes sociais para prevalecerem na modelação de comportamento.
E esta é a razão fundamental pela qual as redes sociais, ao invés de serem uma ágora electrónica, são um campo de batalha entre projectos, ideias e manipulações que ocorrem em simultâneo.
Sem saber o que queremos mudar, não conseguimos mudar nadaManuel Castells
Num dos seus livros, O Poder da Comunicação, realçou a importância da comunicação para o poder, o facto de o poder ser transformado de alguma forma através de redes de comunicação. Tornou-se bastante popular nos últimos anos culpar as redes sociais e a Internet pela maioria dos problemas que vemos hoje em dia. Como é que vê a relação entre a chegada das novas tecnologias e, ao mesmo tempo, o tipo de fragmentação que vemos na sociedade e o descontentamento crescente nas sociedades democráticas por todo o mundo?
Bem, primeiro lembrem-se de que estamos a falar sobre o poder das ideias, mas ideias são, em termos de comunicação e em sistemas de comunicação alargados, tão poderosas a influenciar comportamentos como a desencadear emoções — lembrem-se que a neurociência tem demonstrado que nós somos animais emocionais. São as nossas emoções, os nossos sentimentos que determinam o nosso comportamento.
Um dos principais erros que têm tido enormes consequências práticas na democracia liberal é pensar que políticas racionais, melhores políticas em termos racionais, vão convencer as pessoas. De forma nenhuma. De forma nenhuma. É bom para os governos e as instituições terem políticas razoáveis. Definitivamente. Mas não é dessa forma que conseguem convencer as pessoas se elas tiverem emoções muito fortes. O simples facto de ter uma política económica sensível e boa, um controlo da dívida, uma boa gestão do trânsito nas cidades não vai mudar os preceitos fundamentais. Portanto, a verdadeira questão é saber como vamos desencadear emoções positivas, ao invés de emoções negativas. E isso não tem a ver com a criação de políticas; tem a ver com comunicação.
Agora, será que as tecnologias digitais e as redes sociais hoje são as culpadas pela perturbação que tem sido observada na sociedade? De maneira nenhuma. Porque a tecnologia não determina. A tecnologia modera. O que a Internet faz é favorecer uma comunicação sem impedimentos entre as pessoas. E essa capacidade expressa a variedade humana em qualquer sociedade, bem como a variedade de ideias e projectos. Hoje, a Internet é um espelho das nossas sociedades, um espelho de nós mesmos. Se nós não somos boas pessoas, isso será reflectido na Internet. Nós, na verdade, aceitamos uma ideia que muita gente aceitou: o advento da Internet como uma tecnologia de liberdade e uma tecnologia libertadora. É mesmo. Nós apenas nos esquecemos de que “livre” nem sempre significa “boa”.
Existe um paradoxo entre o facto de a Internet ter nascido como uma ferramenta de liberdade, que permite a qualquer indivíduo expressar-se, e, ao mesmo tempo, existir uma concentração de poder nas mãos de um pequeno número de grandes empresas. Como é que explica isto?
Nós temos de fazer uma diferenciação entre o controlo de posse, o controlo de conteúdo e o controlo de substância da comunicação, o que significa que é preciso que nos lembremos de que o modelo de negócio de base de todas essas empresas ou de todas as empresas ligadas à Internet é tráfego, densidade do tráfego, porque eles vivem dos nossos dados. E de vender os nossos dados ou de usar os nossos dados para publicidade. 91% das receitas da Google vem de publicidade indirecta — 91%, de acordo com a própria Google.
Por isso mesmo, as empresas não estão interessadas em criar qualquer barreira a uma comunicação sem obstáculos. Eu prefiro “sem obstáculos” a “livre”. “Livre” depende de um contexto mais alargado. Por isso, as empresas estão interessadas em mais e mais tráfego. É por isso que a polarização as ajuda. Porque polarização significa que você diz uma coisa, eu vou dizer o contrário e vou lutar consigo até ao fim. Lutar até ao fim significa comunicar até ao fim. E isso é tráfego. Portanto, nem em termos de modelos de negócio nem na possibilidade de monopolizar o conteúdo e o tráfego as empresas param a chamada comunicação sem obstáculos na Internet. Monopólio de propriedade? Sim. Monopólio de comunicação? Não.
Mencionou que as redes sociais não podem ser culpabilizadas, que não são a causa daquilo a que estamos a assistir, mas podem ser vistas mais como um catalisador. Ainda assim, vemos um aumento da falta de confiança por todo o mundo. Se olharmos para os barómetros, vemos que os níveis de confiança nos Governos e nas instituições tradicionais de poder têm descido por todo o mundo. Isto não é apenas um problema europeu, é um problema global. Como explica esta tendência sistémica?
A democracia liberal está a perder as suas bases sociais de representação política devido a causas profundas como as pessoas se sentirem totalmente excluídas de qualquer processo de decisão, à excepção de colocarem o seu voto numa caixa uma vez em cada quatro anos. À excepção disso, elas não têm qualquer outro meio de representação política ou qualquer controlo. Como tal, o que é que fazem? Quando podem, protestam. Quando conseguem, apoiam partidos que se colocam fora do sistema para, então, entrarem no sistema. Logo que entram no sistema, pouco tempo depois, estes são integrados nas regras do sistema, mesmo a extrema-direita e ainda mais as pessoas à esquerda, porque são mais democráticas. E, assim que entram no sistema, são considerados iguais aos outros.
A ligação de confiança tem sido quebrada na maioria das sociedades para a maioria das pessoas. E reparar essa ligação é algo muito sério porque lembrem-se: emoções. É ditado por emoções. Como tal, a não ser que sejamos capazes de desenvolver emoções positivas de maneira real e assim participar num processo de comunicação que seja efectivo, toda a tendência vai continuar a acelerar.
Nós, na verdade, aceitamos uma ideia que muita gente aceitou: o advento da Internet como uma tecnologia de liberdade e uma tecnologia libertadora. É mesmo. Nós apenas nos esquecemos de que 'livre' nem sempre significa 'boa'Manuel Castells
Mas neste novo mundo que é criado pela arquitectura em rede da sociedade, é essa uma nova ideia de poder a emergir, ou é possível um novo balanço de poder?
Em princípio, nós também estamos agora num mundo de poder em rede, porque existem estruturas de poder que, ao contrário de estarem historicamente separadas ou concentradas num só lugar, agora existem tanto a nível nacional como internacional.
Os nós principais nas redes de poder são finanças, empresas de tecnologia, partidos políticos tradicionais, burocracias estatais tradicionais, a indústria dos meios de comunicação e as grandes empresas. Todos estes, tudo isto, fazem parte da rede. Assim, cada nó de poder tem a sua própria dinâmica e o seu próprio objectivo. Mas tudo isto faz parte da rede.
Disse que as pessoas têm perdido a confiança nas actuais formas de poder, quer sejam políticas, quer financeiras. E com todo o direito, tendo em conta o que disse até agora. Consegue ver algumas novas formas de poder a emergir pelo mundo?
Eu vejo. A minha esperança que vem da observação que fiz ao longo da minha vida de muitos países tem sido sempre os movimentos sociais, o que não quer dizer movimentos políticos, apesar de terem sempre consequências políticas.
Mas eu considero movimentos sociais aqueles movimentos, movimentos autónomos, que não estejam ligados a qualquer opção ou partido político, que sejam movimentos culturais. Eles tentam mudar os valores da sociedade.
Agora, pensando amplamente na Europa. Eu penso que o principal problema é que os sistemas políticos têm tido pouca capacidade de traduzir a energia gerada pelos movimentos sociais em novas políticas e em possibilidades que voltem a legitimar as instituições.
O movimento ambientalista, Greta [Thunberg] na Suécia… Bem, não é só a Greta que está desapontada, mas grande parte dos seus seguidores está desapontada. Eles não consideram que a Europa esteja a encarar seriamente a crise climática, que é fundamental, é claro. Esse é o problema.
O problema não é tanto se eles são fontes de mudança. As fontes de mudança, no fim, necessitam de apoio ao nível das instituições políticas. E isso não está a acontecer. Portanto, eu ainda estou optimista porquê? Porque a história nunca acaba. E porque as lições de História nos mostram que mesmo quando não vemos o embrião de algo novo, quando não vemos os movimentos sociais ou tendências culturais diferentes, eles estão lá. Eles estão lá. E eles podem unir-se a dada altura e provocar um movimento social que vai desenvolver novas formas de democracia descentralizada. Penso que os sistemas dos países não mudam por escolha. Eles mudam por necessidade. Quando estamos à beira da catástrofe, aí existe alguma reacção. No meu livro Rupture, a conclusão é aquilo que eu prevejo, visto que não vejo forma de a democracia mudar nesses aspectos, a minha previsão é caos, é caos. Mas, acrescentei, o caos pode vir em diferentes formatos e a minha esperança é que seja um caos criativo, o que significa que, numa situação de caos, as coisas que aparentam ser impossíveis tornam-se possíveis. As pessoas encontram alguma abertura, alguma janela para o futuro e as coisas podem mudar nesse sentido.
A série de conversas ReImagine Talks é uma iniciativa do think tank Re-Imagine Europa, em colaboração com os jornais Der Standard, Il Sole 24 Ore, La Vanguardia, LeSoir, Rzeczpospolita e
O sociólogo espanhol Manuel Castells aborda a crise da democracia liberal e a forma como os meios digitais e as redes sociais mudaram a nossa relação com o poder e com as instituições que o dirigem.
Manuel Castells moldou o nosso entendimento de dinâmicas políticas numa sociedade em rede. Professor universitário e Wallis Annenberg Chair em Comunicação, Tecnologia e Sociedade na Universidade da Califórnia do Sul, a carreira académica de Castells envolve a maioria das principais universidades do mundo. É autor de 35 livros e é ex-ministro das Universidades do Governo espanhol. O seu trabalho alterou a forma como pensamos a organização da sociedade na complexa realidade em rede. Nesta conversa discorre sobre a forma como podemos re-imaginar o poder.
Talvez devêssemos começar com uma das questões fundamentais. O que se entende por “poder”? E é tão importante porquê?
Mesmo que não pensem sobre poder, as pessoas estão numa relação de poder. A maioria delas numa posição subordinada de poder. Como tal, é importante saber o que é, especialmente se não estamos satisfeitos com o facto de nos encontrarmos sob uma estrutura específica de poder e se gostaríamos de a mudar. É importante saber o que queremos mudar porque, sem saber o que queremos mudar, não conseguimos mudar nada. Portanto, se me perguntarem o que é poder... Bem, poder, tradicionalmente, não é uma inovação. Poder é a capacidade que alguns seres humanos têm de forçar ou influenciar o comportamento de outros para que eles se comportem de acordo com os interesses e os valores dos detentores do poder.
E por que razão é tão importante compreender o papel do poder na nossa sociedade hoje?
Não é só hoje. Ao longo da história da Humanidade, poder tem sido aquilo a que eu chamaria ADN das sociedades. Porque quem quer que seja que tenha poder, seja uma pessoa, sejam instituições nas quais uma pessoa ou várias pessoas são fundamentais, quem quer que seja que tenha poder tem a capacidade de estabelecer as regras, as normas e as instituições da sociedade, bem como a forma como vivemos. Portanto, é o ADN das sociedades e o nosso código de comportamento que é reforçado pelas instituições.
Nós somos livres. Sim, nós somos livres dentro das condições que aqueles no poder consideram aceitáveis ou inaceitáveis. Felizmente, este poder não é absoluto — poder absoluto com algumas excepções na história, mesmo em momentos de um regime absolutista —, existe sempre alguma resistência. Existe sempre alguém a dizer: “Nem pensar”. Por norma, eles são mortos, mas, em princípio, existe sempre e sempre existiu: onde há poder, há resistência a esse poder.
De facto, onde há dominação, em termos de poder, a relação pode ser aceite, rejeitada ou contrariada. E por isso eu digo que, de facto, as instituições da sociedade são construídas através das dinâmicas e da relação entre poder e contrapoder.
Contrapoder é a tentativa daqueles que não se sentem representados nas instituições da sociedade, e sob as condições de poder existentes no momento, de tentar alterar o panorama. Para alterar aquelas que são as regras da sociedade. E há diferentes formas de o fazer, desde esforços e mesmo, em alguns casos, desafios em termos evolutivos, para capacitar as nossas democracias através de mobilização para tentar vencer novas eleições.
Portanto, o resultado entre poder e contrapoder é um conjunto de normas e instituições sob as quais nós vivemos e pelas quais nós vivemos. E isso, em certa medida, significa que estão sempre a mudar, constantemente. Todos os dias. Todos os dias há tentativas de impor poder de acordo com normas estabelecidas e de desafio a esse mesmo poder.
No segundo episódio da ReImagine Talks é discutido o que significa ter poder nas sociedades contemporâneas.
Nós estamos, neste momento, a assistir a grandes agitações sociais. Existem dinâmicas de poder e contrapoder a trabalhar neste momento. Como vê esta mudança? Como é que isso está a mudar a relação entre estes dois diferentes tipos de poder, numa sociedade em rede, depois de tantos anos com a Internet a ser algo central no nosso mundo?
Para perceber isto, é preciso relembrar que existiram duas formas fundamentais de exercer poder ao longo da história e, de facto, todas as teorias de poder podem ser reduzidas a estas duas: poder por coerção e poder por persuasão.
Apesar de o poder por coerção ser mais decisivo — por exemplo, “tu fazes isto ou eu mato-te ou eu mando-te para a prisão”, o poder por persuasão é, na verdade, mais eficaz, porque influencia as nossas mentes. Agora, na era da Internet, o que tem acontecido é que a comunicação tem sido largamente descentralizada no mundo das redes sociais, que é muito mais autónoma em termos de mensagens, não em termos de domínio das grandes empresas, mas em termos de mensagens.
Existem muito mais pessoas a intervir neste diálogo e nesta oposição e nestas controvérsias do que num mundo em que os media tradicionais teriam, de facto, a capacidade de moldar grande parte da comunicação.
É o que eu chamo “nós não mudámos para a liberdade digital; passámos de comunicação em massa para comunicação pessoal em massa”. Porquê pessoal? Porque as pessoas constroem as suas próprias redes desde o princípio, elas produzem as suas próprias mensagens e, ao mesmo tempo, são remetentes de mensagens e receptores de mensagens.
Existe uma constante interacção e uma constante descentralização do sistema de comunicação. Mas e depois? Bem, as pessoas que têm poder mobilizam os seus recursos também nas redes sociais para prevalecerem na modelação de comportamento.
E esta é a razão fundamental pela qual as redes sociais, ao invés de serem uma ágora electrónica, são um campo de batalha entre projectos, ideias e manipulações que ocorrem em simultâneo.
Sem saber o que queremos mudar, não conseguimos mudar nadaManuel Castells
Num dos seus livros, O Poder da Comunicação, realçou a importância da comunicação para o poder, o facto de o poder ser transformado de alguma forma através de redes de comunicação. Tornou-se bastante popular nos últimos anos culpar as redes sociais e a Internet pela maioria dos problemas que vemos hoje em dia. Como é que vê a relação entre a chegada das novas tecnologias e, ao mesmo tempo, o tipo de fragmentação que vemos na sociedade e o descontentamento crescente nas sociedades democráticas por todo o mundo?
Bem, primeiro lembrem-se de que estamos a falar sobre o poder das ideias, mas ideias são, em termos de comunicação e em sistemas de comunicação alargados, tão poderosas a influenciar comportamentos como a desencadear emoções — lembrem-se que a neurociência tem demonstrado que nós somos animais emocionais. São as nossas emoções, os nossos sentimentos que determinam o nosso comportamento.
Um dos principais erros que têm tido enormes consequências práticas na democracia liberal é pensar que políticas racionais, melhores políticas em termos racionais, vão convencer as pessoas. De forma nenhuma. De forma nenhuma. É bom para os governos e as instituições terem políticas razoáveis. Definitivamente. Mas não é dessa forma que conseguem convencer as pessoas se elas tiverem emoções muito fortes. O simples facto de ter uma política económica sensível e boa, um controlo da dívida, uma boa gestão do trânsito nas cidades não vai mudar os preceitos fundamentais. Portanto, a verdadeira questão é saber como vamos desencadear emoções positivas, ao invés de emoções negativas. E isso não tem a ver com a criação de políticas; tem a ver com comunicação.
Agora, será que as tecnologias digitais e as redes sociais hoje são as culpadas pela perturbação que tem sido observada na sociedade? De maneira nenhuma. Porque a tecnologia não determina. A tecnologia modera. O que a Internet faz é favorecer uma comunicação sem impedimentos entre as pessoas. E essa capacidade expressa a variedade humana em qualquer sociedade, bem como a variedade de ideias e projectos. Hoje, a Internet é um espelho das nossas sociedades, um espelho de nós mesmos. Se nós não somos boas pessoas, isso será reflectido na Internet. Nós, na verdade, aceitamos uma ideia que muita gente aceitou: o advento da Internet como uma tecnologia de liberdade e uma tecnologia libertadora. É mesmo. Nós apenas nos esquecemos de que “livre” nem sempre significa “boa”.
Existe um paradoxo entre o facto de a Internet ter nascido como uma ferramenta de liberdade, que permite a qualquer indivíduo expressar-se, e, ao mesmo tempo, existir uma concentração de poder nas mãos de um pequeno número de grandes empresas. Como é que explica isto?
Nós temos de fazer uma diferenciação entre o controlo de posse, o controlo de conteúdo e o controlo de substância da comunicação, o que significa que é preciso que nos lembremos de que o modelo de negócio de base de todas essas empresas ou de todas as empresas ligadas à Internet é tráfego, densidade do tráfego, porque eles vivem dos nossos dados. E de vender os nossos dados ou de usar os nossos dados para publicidade. 91% das receitas da Google vem de publicidade indirecta — 91%, de acordo com a própria Google.
Por isso mesmo, as empresas não estão interessadas em criar qualquer barreira a uma comunicação sem obstáculos. Eu prefiro “sem obstáculos” a “livre”. “Livre” depende de um contexto mais alargado. Por isso, as empresas estão interessadas em mais e mais tráfego. É por isso que a polarização as ajuda. Porque polarização significa que você diz uma coisa, eu vou dizer o contrário e vou lutar consigo até ao fim. Lutar até ao fim significa comunicar até ao fim. E isso é tráfego. Portanto, nem em termos de modelos de negócio nem na possibilidade de monopolizar o conteúdo e o tráfego as empresas param a chamada comunicação sem obstáculos na Internet. Monopólio de propriedade? Sim. Monopólio de comunicação? Não.
Mencionou que as redes sociais não podem ser culpabilizadas, que não são a causa daquilo a que estamos a assistir, mas podem ser vistas mais como um catalisador. Ainda assim, vemos um aumento da falta de confiança por todo o mundo. Se olharmos para os barómetros, vemos que os níveis de confiança nos Governos e nas instituições tradicionais de poder têm descido por todo o mundo. Isto não é apenas um problema europeu, é um problema global. Como explica esta tendência sistémica?
A democracia liberal está a perder as suas bases sociais de representação política devido a causas profundas como as pessoas se sentirem totalmente excluídas de qualquer processo de decisão, à excepção de colocarem o seu voto numa caixa uma vez em cada quatro anos. À excepção disso, elas não têm qualquer outro meio de representação política ou qualquer controlo. Como tal, o que é que fazem? Quando podem, protestam. Quando conseguem, apoiam partidos que se colocam fora do sistema para, então, entrarem no sistema. Logo que entram no sistema, pouco tempo depois, estes são integrados nas regras do sistema, mesmo a extrema-direita e ainda mais as pessoas à esquerda, porque são mais democráticas. E, assim que entram no sistema, são considerados iguais aos outros.
A ligação de confiança tem sido quebrada na maioria das sociedades para a maioria das pessoas. E reparar essa ligação é algo muito sério porque lembrem-se: emoções. É ditado por emoções. Como tal, a não ser que sejamos capazes de desenvolver emoções positivas de maneira real e assim participar num processo de comunicação que seja efectivo, toda a tendência vai continuar a acelerar.
Nós, na verdade, aceitamos uma ideia que muita gente aceitou: o advento da Internet como uma tecnologia de liberdade e uma tecnologia libertadora. É mesmo. Nós apenas nos esquecemos de que 'livre' nem sempre significa 'boa'Manuel Castells
Mas neste novo mundo que é criado pela arquitectura em rede da sociedade, é essa uma nova ideia de poder a emergir, ou é possível um novo balanço de poder?
Em princípio, nós também estamos agora num mundo de poder em rede, porque existem estruturas de poder que, ao contrário de estarem historicamente separadas ou concentradas num só lugar, agora existem tanto a nível nacional como internacional.
Os nós principais nas redes de poder são finanças, empresas de tecnologia, partidos políticos tradicionais, burocracias estatais tradicionais, a indústria dos meios de comunicação e as grandes empresas. Todos estes, tudo isto, fazem parte da rede. Assim, cada nó de poder tem a sua própria dinâmica e o seu próprio objectivo. Mas tudo isto faz parte da rede.
Disse que as pessoas têm perdido a confiança nas actuais formas de poder, quer sejam políticas, quer financeiras. E com todo o direito, tendo em conta o que disse até agora. Consegue ver algumas novas formas de poder a emergir pelo mundo?
Eu vejo. A minha esperança que vem da observação que fiz ao longo da minha vida de muitos países tem sido sempre os movimentos sociais, o que não quer dizer movimentos políticos, apesar de terem sempre consequências políticas.
Mas eu considero movimentos sociais aqueles movimentos, movimentos autónomos, que não estejam ligados a qualquer opção ou partido político, que sejam movimentos culturais. Eles tentam mudar os valores da sociedade.
Agora, pensando amplamente na Europa. Eu penso que o principal problema é que os sistemas políticos têm tido pouca capacidade de traduzir a energia gerada pelos movimentos sociais em novas políticas e em possibilidades que voltem a legitimar as instituições.
O movimento ambientalista, Greta [Thunberg] na Suécia… Bem, não é só a Greta que está desapontada, mas grande parte dos seus seguidores está desapontada. Eles não consideram que a Europa esteja a encarar seriamente a crise climática, que é fundamental, é claro. Esse é o problema.
O problema não é tanto se eles são fontes de mudança. As fontes de mudança, no fim, necessitam de apoio ao nível das instituições políticas. E isso não está a acontecer. Portanto, eu ainda estou optimista porquê? Porque a história nunca acaba. E porque as lições de História nos mostram que mesmo quando não vemos o embrião de algo novo, quando não vemos os movimentos sociais ou tendências culturais diferentes, eles estão lá. Eles estão lá. E eles podem unir-se a dada altura e provocar um movimento social que vai desenvolver novas formas de democracia descentralizada. Penso que os sistemas dos países não mudam por escolha. Eles mudam por necessidade. Quando estamos à beira da catástrofe, aí existe alguma reacção. No meu livro Rupture, a conclusão é aquilo que eu prevejo, visto que não vejo forma de a democracia mudar nesses aspectos, a minha previsão é caos, é caos. Mas, acrescentei, o caos pode vir em diferentes formatos e a minha esperança é que seja um caos criativo, o que significa que, numa situação de caos, as coisas que aparentam ser impossíveis tornam-se possíveis. As pessoas encontram alguma abertura, alguma janela para o futuro e as coisas podem mudar nesse sentido.
A série de conversas ReImagine Talks é uma iniciativa do think tank Re-Imagine Europa, em colaboração com os jornais Der Standard, Il Sole 24 Ore, La Vanguardia, LeSoir, Rzeczpospolita e
29.6.23
As crianças também podem ser “criadores de tecnologia”, é como ter um superpoder
Clara Viana, in Público online
Conseguir que os mais novos deixem de ser meros consumidores de tecnologia é um dos objectivos do ensino de programação que a Academia de Código está a desenvolver em centenas de escolas.[artigo na íntegra disponível apenas para assinantes]
26.5.23
Governo lança novo chatbot inteligente para ensinar a usar chave móvel digital
Karla Pequenino, in Público
A assistente virtual, que usa a tecnologia do ChatGPT, é o segundo programa de inteligência artificial generativa lançada pelo Governo este ano, numa altura em que vários países debatem a tecnologia.
O portal dos serviços públicos (eportugal.gov.pt) vai ter uma nova assistente virtual que usa a mesma tecnologia do ChatGPT para ajudar os cidadãos a criar e utilizar a chave móvel digital (CMD), o meio de autenticação do Estado português que permite aceder a vários serviços públicos e assinar documentos digitais. Trata-se do segundo programa de conversa com inteligência artificial (IA) generativa lançada pelo Governo no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), numa altura em que vários países debatem como regulamentar a tecnologia que é capaz de produzir conteúdo novo a partir de enormes quantidades de dados.
[Artigo exclusivo para assinantes]
12.5.23
Manuel Dias: “Não vamos ser substituídos por IA, mas talvez por humanos que sabem usar IA”
Karla Pequenino, in Público
Manuel Dias, responsável de tecnologia da Microsoft Portugal, fala com o PÚBLICO sobre a explosão de ferramentas com IA generativa e das vantagens e riscos associados aos novos chatbots.
Os novos chatbots com inteligência artificial generativa estão a transformar a forma como interagimos com a tecnologia. Em Portugal, várias empresas e organizações estão a adoptar estas ferramentas para melhorar a experiência do utilizador. Nesta entrevista, falamos com Manuel Dias, National Technology Officer da Microsoft em Portugal, para saber mais sobre o impacto da IA generativa no país. Manuel Dias é um grande fã do chatbot do Bing e pode fornecer informações valiosas sobre como a IA generativa está a ser usada.
A introdução acima foi escrita com a ajuda do chatbot do Bing, o programa de inteligência artificial que a Microsoft lançou em Fevereiro para responder e resumir informação como um ser humano. A tecnologia é a mesma do ChatGPT, que surgiu no final de 2022 pela mão da OpenAI, só que a versão da Microsoft, que é uma das grandes financiadoras do projecto, identifica as fontes da informação. É uma das grandes vantagens da ferramenta, salienta Manuel Dias, em conversa com o PÚBLICO (desta vez, sem ajuda do Bing). O responsável pela estratégia tecnológica da Microsoft Portugal fala-nos sobre o rápido desenvolvimento da IA generativa, os receios associados e a forma como pode ser usada para promover a aceleração digital das empresas portuguesas.
Há cada vez mais empresas e startups a anunciar novos produtos com programas que respondem e resumem informação como um ser humano. O que está por trás deste salto?
Bom, a inteligência artificial não é nova. É algo que está a ser explorado há mais de 50 anos. Na realidade, cerca de 70 anos, com a criação do teste de Turing [prova criada pelo matemático britânico Alan Turing para avaliar se um ser humano sabe que está a falar com uma máquina]. O que vemos agora é a massificação da inteligência artificial generativa. As pessoas tiveram mais contacto por causa do chatGPT, mas o desenvolvimento começou em 2017 impulsionado por um tipo específico de redes neuronais que são os transformers.
O sucesso acontece porque é fácil perceber esta forma de IA. Todos podemos utilizar a interface em linguagem natural. Não é uma coisa demasiado técnica. E a tecnologia vem com um conjunto de capacidades que antes só estavam associadas aos seres humanos, como a capacidade de resumir informação.
Tornou-se mais fácil implementar a tecnologia?
Sem dúvida. Estamos num ponto de inflexão da infra-estrutura tecnológica. Os modelos da OpenAI foram treinados com a infra-estrutura Azure, da Microsoft. Estamos a falar de quase cinco milhões de euros para os treinar, mas, a partir daqui, a forma como qualquer empresa, ou startup, do sector público ou privado, consegue pegar nestes modelos, através da API [Programação de Interface de Aplicações] é muito simples. E não é preciso treinar os modelos com mais dados: como a sigla GPT indica, Generative Pretrained Model, estes modelos são pré-treinados. Posso usá-los como estão.
Em 2020, a Microsoft Portugal estabeleceu um memorando de entendimento com o Governo para reforçar a estratégia de transição digital do país. Como é que os chatbots podem ajudar?
Há quatro grandes cenários. O primeiro é a geração de respostas a partir de uma pergunta. Isto pode ser usado para responder a perguntas sobre uma base de conhecimento, como se fez com o novo chatbot do Ministério da Justiça.
Outro cenário é a sumarização. Estamos a trabalhar nisto com a EDP. Pode-se, por exemplo, sumarizar informação em centenas de PDF escritos à mão. Também podemos usar a tecnologia para criar um resumo de tudo o que é dito sobre uma empresa nas redes sociais. Ou pegar num processo judicial que tem oito milhões de documentos e resumir para que seja humanamente possível conseguir fazer essa análise.
O terceiro cenário é a geração de código que permite que equipas de programadores possam ser mais eficientes. E depois há a procura semântica, que se aplica em tudo o que seja serviço ao cliente ou ao cidadão, porque permite navegar uma base de dados sem "legalês". Como queixas ou informações sobre processos judiciais.
Quais os cuidados a ter?
Nós sabemos que estes modelos linguísticos têm alguma capacidade para a alucinação.
A alucinação em IA refere-se à geração de resultados que podem parecer plausíveis, mas que são factualmente incorrectos ou saem do contexto da pergunta.
Às vezes os modelos são criativos. Em alguns casos, como no chatbot do Ministério da Justiça, foi criadas restrições para o modelo só responder com base na informação no site da Justiça. Há um
As organizações em Portugal estão preparadas para a tecnologia? Quais são os desafios?
Não é tanto a capacitação. Os desafios têm muito que ver com explicar às pessoas o potencial deste tipo de tecnologia, que é a inteligência artificial generativa. Ou seja, explicar o que é possível fazer, quais são os limites e quais são as restrições. E trazer para o mercado soluções concretas.
Quais são os limites destes modelos?
Eu gosto de desmistificar o que é que são os grandes modelos de linguagem. Na verdade, são modelos probabilísticos que prevêem a próxima palavra tendo em conta a frase e todas as palavras que estão atrás. Não são como calculadoras e também não há ninguém por detrás, a pensar ou a fazer uma análise crítica.
A alucinação vem daí. Do facto de o modelo poder, por vezes, encontrar uma palavra que faz sentido depois de outra, mas não faz sentido no contexto real da frase.
Depois, é importante ter noção de que estes modelos podem ser usados para criar notícias falsas e conteúdos ofensivos ou racistas. Na Microsoft, tentamos colocar filtros de IA responsável para que perguntas que incluam conteúdo xenófobo, racista, ou informação pessoal, não sejam respondidas.
Há quem diga que estamos perto da inteligência artificial geral.
Estamos numa fase em que a tecnologia está a melhorar incrementalmente. Não gosto de fazer previsões porque estamos numa fase muito inicial, mas creio que alguns cientistas dizem que estamos no início da inteligência artificial geral. Para mim, estamos num ponto de transição. E os grandes modelos de linguagem, como o GPT-4 [sucessor do GPT-3.5, usado na primeira versão do ChatGPT], apresentam comportamentos emergentes.
O que se entende por comportamento emergente?
Podemos usar a metáfora da água a ferver: quando estamos a ferver água, a temperatura aumenta gradualmente até que chega aos 100 graus e a água passa para o estado gasoso. Com uma pequena alteração na temperatura há uma mudança de fase brutal. Aqui é a mesma coisa, temos algoritmos que vão melhorando o desempenho, e depois há comportamentos que não percebemos como foram adquiridos. Por exemplo, resolver uma função matemática, ou analisar um texto. O potencial vai ser desvendado nos próximos meses à medida que estes modelos crescem.
As empresas têm a capacidade de implementar a tecnologia? Há profissionais para isso?
É uma pergunta complicada. Falta mais gente capacitada nesta área de inteligência artificial, de ciência de dados. Recordo-me de ter dito em 2012 que cientista de dados era a profissão mais sexy do mundo. E o que é facto é que passaram 11 anos e nós continuamos a ver muita falta destes profissionais. Acho que esta tecnologia simplifica muito o processo. Como muitos modelos são pré-treinados, é quase só ir buscar a base de conhecimento e integrar muitas destas API numa solução. Já não é preciso desenvolver o modelo do zero.
A Microsoft é uma das protagonistas nos despedimentos em massa das empresas de tecnologia. Qual é a sua visão do impacto da inteligência artificial no emprego nas grandes tecnológicas?
Estamos num ponto de inflexão tecnológica – seja na Microsoft, seja no mercado em geral – e acredito que vamos ver o aparecimento de novos empregos à volta da implementação destes modelos linguísticos. Fala-se muito da ideia de engenheiros de “prompts” [ideias/estímulos], que eu acho muita piada porque sempre defendi que é muito importante saber fazer as perguntas certas quando falamos de dados. Na inteligência artificial é muito importante saber fazer as perguntas certas.
Não nos vejo [humanos] a sermos substituídos pela inteligência artificial, mas talvez sejamos substituídos por alguém que sabe tirar partido destas ferramentas de inteligência artificial. E eu acho que esse é o ponto-chave. Em todas as revoluções industriais, algumas profissões deixaram de existir e outras foram criadas.
Desta vez, há empregos diferentes afectados.
Vivemos numa altura em que a inteligência artificial começa a entrar nas áreas em que o conhecimento é um ponto importante. Não é só automatizar. O que não deixa de ser bom, porque quem perde meia hora a escrever um email pode perder apenas um minuto, desde que mantenha o sentido crítico sobre o que é produzido. O que nos dá mais tempo para nos dedicarmos a coisas mais avançadas.
Recentemente um grupo de especialistas em IA assinou uma petição que pede uma pausa no desenvolvimento da IA. Qual é a visão da Microsoft?
Temos acompanhado a situação. Sem comentar [directamente], mas falando da nossa visão: na Microsoft não somos a favor de inovar por inovar. Defendemos a inovação com propósito e sabemos que é preciso ter regulamentação na utilização da tecnologia para que seja feita em benefício da sociedade. Obviamente que existem riscos, como em todas as tecnologias, por isso é preciso definir balizas na utilização dessa tecnologia.
A legislação pode ajudar?
Na Microsoft defendemos isso e a Europa está a trabalhar nessa área, tal como trabalhou no RGPD [Regulamento Geral para a Protecção dos Dados].
Tem notado um aumento dos utilizadores da Microsoft e do Bing em Portugal, no resto do mundo?
Mundialmente, sim. Temos cerca de 100 milhões de utilizadores activos diários. Aquilo que eu posso dizer sobre o Bing em Portugal, com base na minha percepção, é que vejo um aumento todos os dias, especialmente depois de explicar como pode ser utilizado. As pessoas conhecem o ChatGPT, mas o Bing é diferente. Tem as fontes de informação, ou seja, é mais transparente, e tem informação actualizada porque [a] tira a partir dos resultados da pesquisa. O chatGPT ficou parado no final de 2021.
A Microsoft Bing não é a única empresa a desenvolver estas tecnologias. A Google, por exemplo, já tem o Bard.
E surgirão outros. A nossa missão, na Microsoft, é facilitar o acesso à tecnologia. A concorrência é boa para nós estarmos constantemente a avançar, mas o nosso foco é pensar em formas de a sociedade e as empresas poderem tirar partido da tecnologia.
Manuel Dias, responsável de tecnologia da Microsoft Portugal, fala com o PÚBLICO sobre a explosão de ferramentas com IA generativa e das vantagens e riscos associados aos novos chatbots.
Os novos chatbots com inteligência artificial generativa estão a transformar a forma como interagimos com a tecnologia. Em Portugal, várias empresas e organizações estão a adoptar estas ferramentas para melhorar a experiência do utilizador. Nesta entrevista, falamos com Manuel Dias, National Technology Officer da Microsoft em Portugal, para saber mais sobre o impacto da IA generativa no país. Manuel Dias é um grande fã do chatbot do Bing e pode fornecer informações valiosas sobre como a IA generativa está a ser usada.
A introdução acima foi escrita com a ajuda do chatbot do Bing, o programa de inteligência artificial que a Microsoft lançou em Fevereiro para responder e resumir informação como um ser humano. A tecnologia é a mesma do ChatGPT, que surgiu no final de 2022 pela mão da OpenAI, só que a versão da Microsoft, que é uma das grandes financiadoras do projecto, identifica as fontes da informação. É uma das grandes vantagens da ferramenta, salienta Manuel Dias, em conversa com o PÚBLICO (desta vez, sem ajuda do Bing). O responsável pela estratégia tecnológica da Microsoft Portugal fala-nos sobre o rápido desenvolvimento da IA generativa, os receios associados e a forma como pode ser usada para promover a aceleração digital das empresas portuguesas.
Há cada vez mais empresas e startups a anunciar novos produtos com programas que respondem e resumem informação como um ser humano. O que está por trás deste salto?
Bom, a inteligência artificial não é nova. É algo que está a ser explorado há mais de 50 anos. Na realidade, cerca de 70 anos, com a criação do teste de Turing [prova criada pelo matemático britânico Alan Turing para avaliar se um ser humano sabe que está a falar com uma máquina]. O que vemos agora é a massificação da inteligência artificial generativa. As pessoas tiveram mais contacto por causa do chatGPT, mas o desenvolvimento começou em 2017 impulsionado por um tipo específico de redes neuronais que são os transformers.
O sucesso acontece porque é fácil perceber esta forma de IA. Todos podemos utilizar a interface em linguagem natural. Não é uma coisa demasiado técnica. E a tecnologia vem com um conjunto de capacidades que antes só estavam associadas aos seres humanos, como a capacidade de resumir informação.
Tornou-se mais fácil implementar a tecnologia?
Sem dúvida. Estamos num ponto de inflexão da infra-estrutura tecnológica. Os modelos da OpenAI foram treinados com a infra-estrutura Azure, da Microsoft. Estamos a falar de quase cinco milhões de euros para os treinar, mas, a partir daqui, a forma como qualquer empresa, ou startup, do sector público ou privado, consegue pegar nestes modelos, através da API [Programação de Interface de Aplicações] é muito simples. E não é preciso treinar os modelos com mais dados: como a sigla GPT indica, Generative Pretrained Model, estes modelos são pré-treinados. Posso usá-los como estão.
Em 2020, a Microsoft Portugal estabeleceu um memorando de entendimento com o Governo para reforçar a estratégia de transição digital do país. Como é que os chatbots podem ajudar?
Há quatro grandes cenários. O primeiro é a geração de respostas a partir de uma pergunta. Isto pode ser usado para responder a perguntas sobre uma base de conhecimento, como se fez com o novo chatbot do Ministério da Justiça.
Outro cenário é a sumarização. Estamos a trabalhar nisto com a EDP. Pode-se, por exemplo, sumarizar informação em centenas de PDF escritos à mão. Também podemos usar a tecnologia para criar um resumo de tudo o que é dito sobre uma empresa nas redes sociais. Ou pegar num processo judicial que tem oito milhões de documentos e resumir para que seja humanamente possível conseguir fazer essa análise.
O terceiro cenário é a geração de código que permite que equipas de programadores possam ser mais eficientes. E depois há a procura semântica, que se aplica em tudo o que seja serviço ao cliente ou ao cidadão, porque permite navegar uma base de dados sem "legalês". Como queixas ou informações sobre processos judiciais.
Quais os cuidados a ter?
Nós sabemos que estes modelos linguísticos têm alguma capacidade para a alucinação.
A alucinação em IA refere-se à geração de resultados que podem parecer plausíveis, mas que são factualmente incorrectos ou saem do contexto da pergunta.
Às vezes os modelos são criativos. Em alguns casos, como no chatbot do Ministério da Justiça, foi criadas restrições para o modelo só responder com base na informação no site da Justiça. Há um
As organizações em Portugal estão preparadas para a tecnologia? Quais são os desafios?
Não é tanto a capacitação. Os desafios têm muito que ver com explicar às pessoas o potencial deste tipo de tecnologia, que é a inteligência artificial generativa. Ou seja, explicar o que é possível fazer, quais são os limites e quais são as restrições. E trazer para o mercado soluções concretas.
Quais são os limites destes modelos?
Eu gosto de desmistificar o que é que são os grandes modelos de linguagem. Na verdade, são modelos probabilísticos que prevêem a próxima palavra tendo em conta a frase e todas as palavras que estão atrás. Não são como calculadoras e também não há ninguém por detrás, a pensar ou a fazer uma análise crítica.
A alucinação vem daí. Do facto de o modelo poder, por vezes, encontrar uma palavra que faz sentido depois de outra, mas não faz sentido no contexto real da frase.
Depois, é importante ter noção de que estes modelos podem ser usados para criar notícias falsas e conteúdos ofensivos ou racistas. Na Microsoft, tentamos colocar filtros de IA responsável para que perguntas que incluam conteúdo xenófobo, racista, ou informação pessoal, não sejam respondidas.
Há quem diga que estamos perto da inteligência artificial geral.
Estamos numa fase em que a tecnologia está a melhorar incrementalmente. Não gosto de fazer previsões porque estamos numa fase muito inicial, mas creio que alguns cientistas dizem que estamos no início da inteligência artificial geral. Para mim, estamos num ponto de transição. E os grandes modelos de linguagem, como o GPT-4 [sucessor do GPT-3.5, usado na primeira versão do ChatGPT], apresentam comportamentos emergentes.
O que se entende por comportamento emergente?
Podemos usar a metáfora da água a ferver: quando estamos a ferver água, a temperatura aumenta gradualmente até que chega aos 100 graus e a água passa para o estado gasoso. Com uma pequena alteração na temperatura há uma mudança de fase brutal. Aqui é a mesma coisa, temos algoritmos que vão melhorando o desempenho, e depois há comportamentos que não percebemos como foram adquiridos. Por exemplo, resolver uma função matemática, ou analisar um texto. O potencial vai ser desvendado nos próximos meses à medida que estes modelos crescem.
As empresas têm a capacidade de implementar a tecnologia? Há profissionais para isso?
É uma pergunta complicada. Falta mais gente capacitada nesta área de inteligência artificial, de ciência de dados. Recordo-me de ter dito em 2012 que cientista de dados era a profissão mais sexy do mundo. E o que é facto é que passaram 11 anos e nós continuamos a ver muita falta destes profissionais. Acho que esta tecnologia simplifica muito o processo. Como muitos modelos são pré-treinados, é quase só ir buscar a base de conhecimento e integrar muitas destas API numa solução. Já não é preciso desenvolver o modelo do zero.
A Microsoft é uma das protagonistas nos despedimentos em massa das empresas de tecnologia. Qual é a sua visão do impacto da inteligência artificial no emprego nas grandes tecnológicas?
Estamos num ponto de inflexão tecnológica – seja na Microsoft, seja no mercado em geral – e acredito que vamos ver o aparecimento de novos empregos à volta da implementação destes modelos linguísticos. Fala-se muito da ideia de engenheiros de “prompts” [ideias/estímulos], que eu acho muita piada porque sempre defendi que é muito importante saber fazer as perguntas certas quando falamos de dados. Na inteligência artificial é muito importante saber fazer as perguntas certas.
Não nos vejo [humanos] a sermos substituídos pela inteligência artificial, mas talvez sejamos substituídos por alguém que sabe tirar partido destas ferramentas de inteligência artificial. E eu acho que esse é o ponto-chave. Em todas as revoluções industriais, algumas profissões deixaram de existir e outras foram criadas.
Desta vez, há empregos diferentes afectados.
Vivemos numa altura em que a inteligência artificial começa a entrar nas áreas em que o conhecimento é um ponto importante. Não é só automatizar. O que não deixa de ser bom, porque quem perde meia hora a escrever um email pode perder apenas um minuto, desde que mantenha o sentido crítico sobre o que é produzido. O que nos dá mais tempo para nos dedicarmos a coisas mais avançadas.
Recentemente um grupo de especialistas em IA assinou uma petição que pede uma pausa no desenvolvimento da IA. Qual é a visão da Microsoft?
Temos acompanhado a situação. Sem comentar [directamente], mas falando da nossa visão: na Microsoft não somos a favor de inovar por inovar. Defendemos a inovação com propósito e sabemos que é preciso ter regulamentação na utilização da tecnologia para que seja feita em benefício da sociedade. Obviamente que existem riscos, como em todas as tecnologias, por isso é preciso definir balizas na utilização dessa tecnologia.
A legislação pode ajudar?
Na Microsoft defendemos isso e a Europa está a trabalhar nessa área, tal como trabalhou no RGPD [Regulamento Geral para a Protecção dos Dados].
Tem notado um aumento dos utilizadores da Microsoft e do Bing em Portugal, no resto do mundo?
Mundialmente, sim. Temos cerca de 100 milhões de utilizadores activos diários. Aquilo que eu posso dizer sobre o Bing em Portugal, com base na minha percepção, é que vejo um aumento todos os dias, especialmente depois de explicar como pode ser utilizado. As pessoas conhecem o ChatGPT, mas o Bing é diferente. Tem as fontes de informação, ou seja, é mais transparente, e tem informação actualizada porque [a] tira a partir dos resultados da pesquisa. O chatGPT ficou parado no final de 2021.
A Microsoft Bing não é a única empresa a desenvolver estas tecnologias. A Google, por exemplo, já tem o Bard.
E surgirão outros. A nossa missão, na Microsoft, é facilitar o acesso à tecnologia. A concorrência é boa para nós estarmos constantemente a avançar, mas o nosso foco é pensar em formas de a sociedade e as empresas poderem tirar partido da tecnologia.
11.5.23
Num encontro sobre metaverso, inteligência artificial e outras disrupções, Marcelo lembra que "não se pode esquecer as pessoas"
Hugo Séneca, in Expresso
Arrancou esta terça-feira o 32º Congresso dos Negócios Digitais. A disrupção é o tema dominante dos dois dias de trabalhos, que terminam com os habituais debates com os maiores operadores de telecomunicações e TV. O evento pode ser acompanhado pela Internet
Dificilmente Ernest Hemingway poderia prever que as suas palavras haveriam de marcar a abertura de um congresso organizado por empresas de telecomunicações, mas Pedro Siza Vieira, advogado e ex-ministro da economia, não desperdiçou a oportunidade de lembrar um célebre personagem do escritor americano, que explica como foi à falência em dois momentos: “Primeiro foi gradualmente, e depois foi de repente”. Estava dado o mote para a disrupção – o tema que levou o presidente Marcelo Rebelo de Sousa a deixar um alerta e que marca o 32º Congresso dos Negócios Digitais (ou Digital Business Congress, no original), que decorre entre terça-feira e quarta-feira de manhã, em Lisboa.
Antes de Pedro Siza Vieira, que preside a este Congresso, já Rogério Carapuça, responsável máximo da da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), havia passado pelo palco para anunciar ao que vinha – e, como muita gente em circunstâncias similares, leu o primeiro discurso do evento com recurso às competências redatoriais da Inteligência Artificial do ChatGPT. O que permitiu confirmar rapidamente a existência de uma grande oportunidade de negócio, que também levanta incógnitas sobre os efeitos gerados na sociedade.
Longe de ser inédito, o uso do ChatGPT revelou-se certeiro para ilustrar a mudança acelerada que se perfila para os próximos tempos. Na breve apresentação do evento, Carapuça, fundador da Novabase e um dos veteranos das tecnologias portuguesas, não deixou de evocar o recém-malogrado Gordon Moore, fundador da Intel e nome maior da microeletrónica, e lembrou que o evento não iria deixar de passar pela economia dos tokens (representações digitais), pelo metaverso, ou pelas transformação na Administração Pública.
Em tom premonitório, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a marcar presença na abertura do Congresso organizado pela APDC com um vídeo gravado de antecipação. Na resumida palestra, alertou para a necessidade de garantir que a evolução tecnológica “não nos leva a esquecer as pessoas”. E o presidente fez mesmo questão de recordar que, desta vez, com a expansão da Inteligência Artificial, não são só os infoexcluídos que serão afetados.
Por outras palavras: também os muitos trabalhadores e empresas que fizeram o esforço para acompanhar a evolução das tecnologias durante os últimos anos podem ficar em risco - ou serem tirados das novas equações que suportam o mundo dos negócios e do trabalho.
E por isso Hemingway continua certeiro – até na leitura de um quadro económico que não viveu. Siza Vieira recorda que as disrupções que se prenunciam não são de agora, e resultam antes de um fator cumulativo de vários anos que pode ter beneficiado centenas de milhões de pessoas, mas também levou a que dezenas de milhões de pessoas sentissem que “o sistema não estava a funcionar para elas”.
O fim de alguma barreiras ao comércio internacional trouxe paz e prosperidade, mas pôs em causa alguns dos princípios políticos e económicos das sociedades ocidentais, como a ideia de que o Estado não intervém na economia ou as políticas protecionistas, que de súbito passam a não saber como lidar com multinacionais com diferentes sedes.
Siza Vieira não tem dúvidas em considerar que Portugal foi um dos “perdedores da globalização” que chegou na viragem do século, mas também enalteceu o esforço coletivo de adaptação, com especial incidência no ensino, que permitiu que o portugueses ficassem “mais bem preparados para fazer coisas mais complexas”. O crescimento dos negócios e exportações tecnológicas, que já supera o do Turismo, foi outro dos indicadores mencionados pelo ex-ministro da Economia.
Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, retomou a defesa da capital, enquanto centro agregador de inovação e empreendedorismo, que tem na recente fábrica de unicórnios o mais recente capítulo estratégico.
Sendo antigo Comissário Europeu com a pasta da Inovação, Moedas não deixou de lembrar a origem alentejana ao mesmo tempo que evocou no Dia da Europa (esta terça-feira) e o primeiro acordo do aço e do carvão entre França e Alemanha que trouxe, por fim, paz ao Continente poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial.
“Às vezes nem sequer sentimos as maiores disrupções das nossas vidas”, porque “vêm de homens que mudam a vida de pessoas sem repararem”, disse o presidente da câmara.
Depois de recordar que Lisboa vale pelo tríptico que junta diversidade, identidade e uma noção muito própria do tempo, Moedas aproveitou para insuflar a audiência de algum otimismo. E retomou às palavras que Rogério Carapuça leu e que tinham sido redigidas pelo ChatGPT, mas que no entender de Moedas “não tinham alma”. “Não devemos ter medo do ChatGPT”, sugeriu o presidente da Câmara, para depois lembrar que é alma que diferencia os humanos.
Por quanto tempo mais será assim? A questão eventualmente haverá de ser abordada ao longo do Congresso da APDC, que decorre em formato híbrido e aberto para todas as pessoas em videoconferência, através da Internet (apenas se exige registo).
Além de várias sessões dominadas pela disrupção, o Congresso conta com debates e palestras dedicados ao metaverso, às comunicações quânticas, ao euro digital e à cibersegurança, e conta ainda como momentos altos os dois debates do “Estado da Nação”: um primeiro, com os representantes dos três maiores canais de TV, que decorre ao final da tarde de terça-feira; e um segundo com os representantes dos três maiores operadores de telecomunicações em Portugal, que decorre no final da tarde de quarta-feira.
Dificilmente Ernest Hemingway poderia prever que as suas palavras haveriam de marcar a abertura de um congresso organizado por empresas de telecomunicações, mas Pedro Siza Vieira, advogado e ex-ministro da economia, não desperdiçou a oportunidade de lembrar um célebre personagem do escritor americano, que explica como foi à falência em dois momentos: “Primeiro foi gradualmente, e depois foi de repente”. Estava dado o mote para a disrupção – o tema que levou o presidente Marcelo Rebelo de Sousa a deixar um alerta e que marca o 32º Congresso dos Negócios Digitais (ou Digital Business Congress, no original), que decorre entre terça-feira e quarta-feira de manhã, em Lisboa.
Antes de Pedro Siza Vieira, que preside a este Congresso, já Rogério Carapuça, responsável máximo da da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), havia passado pelo palco para anunciar ao que vinha – e, como muita gente em circunstâncias similares, leu o primeiro discurso do evento com recurso às competências redatoriais da Inteligência Artificial do ChatGPT. O que permitiu confirmar rapidamente a existência de uma grande oportunidade de negócio, que também levanta incógnitas sobre os efeitos gerados na sociedade.
Longe de ser inédito, o uso do ChatGPT revelou-se certeiro para ilustrar a mudança acelerada que se perfila para os próximos tempos. Na breve apresentação do evento, Carapuça, fundador da Novabase e um dos veteranos das tecnologias portuguesas, não deixou de evocar o recém-malogrado Gordon Moore, fundador da Intel e nome maior da microeletrónica, e lembrou que o evento não iria deixar de passar pela economia dos tokens (representações digitais), pelo metaverso, ou pelas transformação na Administração Pública.
Em tom premonitório, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a marcar presença na abertura do Congresso organizado pela APDC com um vídeo gravado de antecipação. Na resumida palestra, alertou para a necessidade de garantir que a evolução tecnológica “não nos leva a esquecer as pessoas”. E o presidente fez mesmo questão de recordar que, desta vez, com a expansão da Inteligência Artificial, não são só os infoexcluídos que serão afetados.
Por outras palavras: também os muitos trabalhadores e empresas que fizeram o esforço para acompanhar a evolução das tecnologias durante os últimos anos podem ficar em risco - ou serem tirados das novas equações que suportam o mundo dos negócios e do trabalho.
E por isso Hemingway continua certeiro – até na leitura de um quadro económico que não viveu. Siza Vieira recorda que as disrupções que se prenunciam não são de agora, e resultam antes de um fator cumulativo de vários anos que pode ter beneficiado centenas de milhões de pessoas, mas também levou a que dezenas de milhões de pessoas sentissem que “o sistema não estava a funcionar para elas”.
O fim de alguma barreiras ao comércio internacional trouxe paz e prosperidade, mas pôs em causa alguns dos princípios políticos e económicos das sociedades ocidentais, como a ideia de que o Estado não intervém na economia ou as políticas protecionistas, que de súbito passam a não saber como lidar com multinacionais com diferentes sedes.
Siza Vieira não tem dúvidas em considerar que Portugal foi um dos “perdedores da globalização” que chegou na viragem do século, mas também enalteceu o esforço coletivo de adaptação, com especial incidência no ensino, que permitiu que o portugueses ficassem “mais bem preparados para fazer coisas mais complexas”. O crescimento dos negócios e exportações tecnológicas, que já supera o do Turismo, foi outro dos indicadores mencionados pelo ex-ministro da Economia.
Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, retomou a defesa da capital, enquanto centro agregador de inovação e empreendedorismo, que tem na recente fábrica de unicórnios o mais recente capítulo estratégico.
Sendo antigo Comissário Europeu com a pasta da Inovação, Moedas não deixou de lembrar a origem alentejana ao mesmo tempo que evocou no Dia da Europa (esta terça-feira) e o primeiro acordo do aço e do carvão entre França e Alemanha que trouxe, por fim, paz ao Continente poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial.
“Às vezes nem sequer sentimos as maiores disrupções das nossas vidas”, porque “vêm de homens que mudam a vida de pessoas sem repararem”, disse o presidente da câmara.
Depois de recordar que Lisboa vale pelo tríptico que junta diversidade, identidade e uma noção muito própria do tempo, Moedas aproveitou para insuflar a audiência de algum otimismo. E retomou às palavras que Rogério Carapuça leu e que tinham sido redigidas pelo ChatGPT, mas que no entender de Moedas “não tinham alma”. “Não devemos ter medo do ChatGPT”, sugeriu o presidente da Câmara, para depois lembrar que é alma que diferencia os humanos.
Por quanto tempo mais será assim? A questão eventualmente haverá de ser abordada ao longo do Congresso da APDC, que decorre em formato híbrido e aberto para todas as pessoas em videoconferência, através da Internet (apenas se exige registo).
Além de várias sessões dominadas pela disrupção, o Congresso conta com debates e palestras dedicados ao metaverso, às comunicações quânticas, ao euro digital e à cibersegurança, e conta ainda como momentos altos os dois debates do “Estado da Nação”: um primeiro, com os representantes dos três maiores canais de TV, que decorre ao final da tarde de terça-feira; e um segundo com os representantes dos três maiores operadores de telecomunicações em Portugal, que decorre no final da tarde de quarta-feira.
28.4.23
Noam Chomsky: “Esta inteligência artificial é o ataque mais radical ao pensamento crítico”
Ivo Neto e Karla Pequenino, in Público online
Um dos maiores intelectuais do nosso tempo, Noam Chomsky, alerta para os problemas de sistemas como o ChatGPT. Uma entrevista em que também fala de redes sociais, luta de classes e neofascismo.
Há um mês, o reputado filósofo e linguista Noam Chomsky co-assinou um artigo no New York Times em que condena a “falsa promessa do ChatGPT”, criticando o rumo que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) levou. Ao Ípsilon, numa videochamada, o especialista do MIT reforçou o desassossego com a forma como a tecnologia está a evoluir, com algoritmos que nos dão conteúdo à nossa medida e chatbots que simulam a comunicação humana e contribuem para a inércia analítica e criativa.
“Este é o ataque mais radical ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu alguma vez vi”, diz o pensador, com 94 anos, apontando a forma como as ferramentas assumem cada vez mais uma dimensão “corporativa”. “A ideia de que podemos aprender alguma coisa com este tipo de IA é um erro”, atira.
Questionado sobre o que fazer com esta mudança tecnológica, que aconteceu de forma tão brusca, destaca o papel da educação. “É impossível travar os sistemas”, avisa Chomsky, que não assinou a carta em que especialistas de todo o mundo pediram uma moratória no desenvolvimento de IA. Explica porquê: “A única maneira [de controlar a evolução tecnológica] é educar as pessoas para a autodefesa. Levar as pessoas a compreender o que isto é e o que não é.” Atribui um significado político a ferramentas como o ChatGPT: “É basicamente como qualquer outra ideologia ou doutrina. Como é que se defende alguém contra a doutrina neofascista? Educando as pessoas.”
O especialista, que tem várias obras traduzidas em Portugal, como As Consequências do Capitalismo, Requiem para um Sonho Americano e Quem Governa o Mundo?, diz que o cenário actual representa “a longa luta de classes”. “É outro caso em que se tenta subordinar, marginalizar as pessoas, ao levá-las a olhar para o Instagram, ou falar com um chatbot sem pensar no que está a acontecer no mundo”, defende.
Quando nos confirmou a disponibilidade para esta entrevista, fomos ao ChatGPT, que se tornou uma das ferramentas mais associadas à IA, e perguntámos que questões colocar a Noam Chomsky. Vamos, então, começar com uma dessas perguntas. Seria possível criar uma inteligência artificial capaz de compreender e utilizar a linguagem humana da mesma forma que os seres humanos o fazem?
Há um campo de estudo que se liga a essas questões: é a ciência cognitiva. A IA não lida com isso, centra-se noutros aspectos. Actualmente é um dos elementos do movimento anticiência. Preocupa-se, sobretudo, com simulação e não com o entendimento. O ChatGPT é, assim, um exercício inteligente de simulação. Percorre quantidades astronómicas de dados, através de programas inteligentes, para produzir resultados semelhantes à informação que encontra. Não diz nada sobre linguagem, aprendizagem, inteligência. E isso é muito fácil de provar.
Como é que se mostra que o ChatGPT é só um simulador?
Estes sistemas, se olharmos para eles, funcionam para linguagens impossíveis. Funcionam com linguagens que as crianças não conseguem aprender, assim como as linguagens existentes. Seria o mesmo que um físico chegasse e dissesse: está aqui um conjunto de possibilidades que podem acontecer e outras que não podem acontecer e não identifico qualquer diferença entre elas. Isto não é ciência.
O que vê então como inteligência artificial?
Se olharmos para o que Alan Turing [1912-1954] disse, há já muito tempo, a IA é descrita como a capacidade para utilizar computadores e programação para ver se conseguimos alguma compreensão sobre o que é a inteligência humana. Isso é ciência pura. Só que a IA, tal como é entendida actualmente, é um projecto corporativo que visa reunir conteúdos para serem usados por sistemas de simulação em grande escala. A ideia de que podemos aprender alguma coisa com este tipo de IA é um erro. Elas [as tecnologias de IA] criam uma atmosfera onde a explicação e a compreensão não têm qualquer valor. O que se faz é tentar simular um ataque profundo à natureza não só da ciência, mas também da investigação racional no seu conjunto.
Como é que os especialistas deveriam estar a tratar de questões relacionadas com a IA?
Não há nada de errado no que estão a fazer, se o interesse for a simulação. Pode ser positivo. Eu uso [programas de inteligência artificial] nas legendas durante as entrevistas porque já tenho dificuldades auditivas. Mas a investigação de IA acontece, por exemplo, nos estudos sobre a forma como os bebés pensam. O livro What Babies Know, de Elizabeth Spelke, inclui uma análise detalhada sobre a forma como os bebés adquirem a linguagem e a compreensão do ambiente que os rodeia durante o primeiro ano de vida. Isto é feito usando experimentação científica e outros métodos, como análises estatísticas dos exemplos disponíveis para as crianças [aprenderem]. Estes métodos de investigação convergem para se descobrir como é que os humanos desenvolveram as capacidades intelectuais. É como estudar uma colónia de formigas para perceber como operam. Para isso, é preciso ciência, não simulação.
O desenvolvimento das plataformas de IA generativa, como o ChatGPT ou o Dall-E, tem suscitado receios devido à desinformação. Há umas semanas, uma imagem, em que o Papa aparecia vestido com roupa diferente da que habitualmente usa, foi partilhada por muitos como se fosse verdadeira. A mente humana está preparada para lidar com o que é falso ou verdadeiro?
Vamos pegar num caso concreto e possível, com o qual estamos bastante familiarizados há centenas de anos: um hábil estudante de Arte vai ao museu e cria uma cópia muito sofisticada do auto-retrato de Rembrandt. É preciso um historiador de arte sofisticado para dizer a diferença entre o original e a cópia. Hoje em dia, os historiadores de arte utilizam alta tecnologia para tentar distinguir as cópias das obras originais. E é muito difícil.
Isso é a natureza da simulação. Pode ser tão sofisticada que uma pessoa que não esteja tão bem preparada não nota a diferença. É o caso da imagem do Papa. Isso abre portas a outras questões.
Como roubo de identidade ou difamação.
Exactamente. Estes novos sistemas são uma ferramenta fantástica para a difamação e serão certamente utilizados para isso. O exemplo [do Papa] que mencionou é uma espécie de piada e pretendia, certamente, ser uma piada. Mas muito em breve, podem ter a certeza, haverá uma utilização maciça da simulação de vozes, de rostos, de elementos, que, combinados, pretenderão atribuir algo a uma pessoa que, na verdade, não tem responsabilidade nisso. Podem ser criados conteúdos, atribuídos a pessoas credíveis, dando credibilidade aos maiores disparates imagináveis.
Os desenvolvimentos na inteligência artificial são “o mais radical ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e à ciência que alguma vez" Chomsky viu
Mas há outro tipo de riscos. Como as pessoas que olham para estes programas como reais. E fazem perguntas como: devo deixar a minha mulher? As pessoas são extremamente ingénuas. Já há casos [em que foram feitas perguntas como estas] com sistemas como a Alexa ou a Siri… As pessoas desenvolvem relações [com as máquinas] e até se podem apaixonar. Isto é muito perigoso. Há casos de suicídio em que as pessoas seguiram os conselhos dos dispositivos de simulação.
A capacidade de danos é extraordinária. Há algumas semanas, um grande número de especialistas de todo o espectro pediu uma moratória no desenvolvimento desta tecnologia, devido aos enormes danos que podem ser causados.
Há forma de travar o desenvolvimento de uma tecnologia deste tipo?
[A desinformação] já acontecia com a Internet. Há artigos publicados online em que eu apareço como autor principal e não foram escritos por mim. E depois de chegarem à Internet, é impossível parar a sua propagação. E, depois, há outra pergunta: o que resulta desse esforço tecnológico é tão útil, como acontece com as legendas desta entrevista? Isso não é assim tão óbvio.
Então concorda com as pessoas que assinaram a petição pedindo calma na evolução da tecnologia de IA?
Pois. De facto, estávamos à espera de ver lá o seu nome.
Não assinei por duas razões. Primeiro, porque exagerou muito o que os sistemas de facto estão a fazer e são capazes de fazer – e, portanto, contribui para estas ilusões e mal-entendidos. A outra razão é que é impossível travar os sistemas. Não se pode impedir os actores maliciosos de inundar a Internet com todo o tipo de lixo.
A única maneira de ajudar é educar as pessoas para a autodefesa. Podemos levar as pessoas a compreender o que IA é e o que não é. Acabar com a euforia e olhar para a realidade como ela é. É basicamente como qualquer outra ideologia ou doutrina. Como é que se defende alguém contra a doutrina neofascista? Educando as pessoas. Não há maneira de a impedir, não vai acabar nem desaparecer. Pode educar-se a população para compreender como realmente são as coisas.
E como é que se deve educar? Pode dar exemplos mais concretos?
Pegue num demagogo como Trump. É um actor muito hábil. Ele sabe como carregar nos botões certos. Sabe falar para as pessoas com um cartão numa mão a dizer “amo-te” enquanto as apunhala nas costas com a outra.
Não podemos dizer às pessoas: "Olha, ele não te ama." É preciso dizer: "Olha, estão a apunhalar-te pelas costas." Deve-se apontar para o programa legislativo [destes políticos] e mostrar o que realmente é – um serviço abjecto à riqueza privada e ao poder empresarial. Mas a verborreia [de Trump] não fala disso. Pelo contrário, diz que é do partido das pessoas, das pessoas que trabalham. E safa-se. Basta olhar para as sondagens. Falta educação, e essa educação, essa protecção, era o que se fazia quando se tinham organizações que representavam as pessoas.
Os movimentos sindicais.
Ronald Reagan e Margaret Thatcher, quando inauguraram o assalto neoliberal, tiveram, eles ou os assessores, uma primeira ideia-chave: acabar com os sindicatos. Porque é o meio de defesa que as pessoas têm para se reunir, deliberar, e trabalhar em conjunto. Portanto, o primeiro passo das administrações de Reagan e Thatcher foi destruir os sindicatos e abrir a porta para que o sector empresarial avançasse com todo o tipo de meios, na sua maioria ilegais, de trabalho.
Os chamados libertários, como Milton Friedman, odiavam os sindicatos. O próprio Mussolini foi elogiado por ter destruído os sindicatos em Itália porque interferiram com a economia. Este é o cerne da ideologia. Se está a servir grandes riquezas ou poder, assegure-se de que não há oposição.
Acredita que as novas ferramentas de IA também podem contribuir para uma realidade ainda mais polarizada?
Vão certamente ser usadas com esse propósito, basta olharmos para o mundo em que vivemos. Estes movimentos anticiência começaram há várias gerações. A indústria do tabaco, há 70 anos, foi uma das propulsoras, com um amplo programa de desinformação. Quando se descobriu que o tabaco era letal, a indústria do tabaco não se limitou a negar esses factos: tentou denegrir as provas científicas, explicando que a ciência não é definitiva. Mais recentemente, temos a indústria dos combustíveis fósseis. A estratégia é influenciar o público a ponto de negar a objectividade da ciência, ao semear dúvidas, ao dizer que a ciência não é fiável, ao alertar para o desemprego.
Todos estão sozinhos, a perseguir as suas próprias fantasias. É o sistema ideal para controlar as pessoas. A longa luta de classes está sempre em curso. O cenário actual, com a tecnologia e a IA, é outro caso em que se tenta subordinar, marginalizar as pessoas, ao levá-las a olhar para o Instagram ou a falar com um chatbot sem pensar no que está a acontecer no mundoNoam Chomsky
E penso que a chamada inteligência artificial enquadra-se muito bem nisto. [As ferramentas de IA] estão a induzir no público uma sensibilidade que nega fundamentalmente o objectivo da ciência. De que vale compreender o que quer que seja quando se pode analisar um sem fim de dados e prever o que vai acontecer? Este é o mais radical ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu alguma vez vi.
A azáfama em torno da IA faz com que as pessoas também comecem a estar dessensibilizadas em relação aos riscos. Como é que se luta contra isto?
Pensemos nos direitos das mulheres. Se perguntassem à minha avó, quando ela estava na cozinha a tomar conta da família, “Estás privada dos teus direitos?”, ela não saberia do que estavam a falar. As mentalidades começaram a mudar por causa de mulheres jovens em movimentos activistas que começaram a questionar-se: “Porque é que temos de fazer isso? Porque é que temos de estar subordinadas?” Essas dúvidas propagaram-se e conduziram àquele que é provavelmente o principal movimento da história moderna em termos de consequências e resultados.
Não há forma de parar estas coisas, excepto pela forma como foi feito ao longo da História por pessoas que se organizam e lutam por direitos, conquistando-os ao longo dos anos.
Alguns países começaram a avançar com legislação nesta área. Concorda com este modus operandi?
A legislação não ajuda. Não podemos proibir o Mein Kampf [livro de Adolf Hitler]. O que se tem de fazer é encorajar as pessoas a lê-lo e a descobrir o que é. Quer viver neste tipo de mundo? Isso é o que se faz.
Não nos podemos esquecer de uma coisa: há imenso capital investido nestas tecnologias. Há instituições e organizações poderosas que se vão envolver nestas tecnologias e encontrarão inúmeras formas de contornar a legislação. Especialmente se as pessoas realmente quiserem isto [IA], criando uma lógica de procura e oferta. Aí as grandes organizações vão, certamente, encontrar uma forma de contornar a lei.
E há alguma forma de mitigar essa procura? Vivemos numa sociedade inteiramente digital. Já não deve faltar muito tempo para termos os nativos digitais em órgãos de decisão.
A verdadeira forma de controlar o processo é acabar com a procura. Fazer com que as pessoas compreendam que há mais coisas no mundo além das fantasias na Internet. Há situações cada vez mais preocupantes. Recentemente foi publicado um estudo, aqui nos EUA, sobre a Geração Z, crianças que nasceram depois de 1997, e a forma como encontram informação sobre o mundo. Quase ninguém lê jornais ou vê televisão. Muito poucos vão ao Facebook, porque já é antiquado. Imaginem o que é ter uma geração inteira a criar a sua visão do mundo através do que se vê no TikTok? Estamos a falar da possibilidade de perdermos uma geração. E a legislação aqui não vai ter grande poder. Não se pode banir o Instagram ou o TikTok.
Gostávamos de voltar atrás, ao facto de as pessoas confiarem e procurarem respostas em tecnologias de IA, como os chatbots, mesmo não se tratando de humanos, o chamado “efeito Eliza”. Porque é que as pessoas confiam nas máquinas?
Porque é que uma criança de três anos fala para os seus brinquedos? Há algo nestas tecnologias que lembra a nossa infância e todos podemos ser apanhados nisso.
A confiança que damos à IA vem de uma necessidade de continuarmos a ter amigos imaginários?
Há uma possibilidade de desenvolvermos o nosso próprio mundo, como se fossemos avatares. Pode ser um acto de criatividade. Outro exemplo é a literatura. Se passar grande parte do tempo a ler romances, vai conhecer melhor as pessoas desses romances do que as pessoas que realmente conhece. Porque sabe aquilo em que acreditam. Não temos esse tipo de informação sobre os nossos melhores amigos. Não há nada de errado [com a criatividade], é uma das mais importantes conquistas da inteligência do ser humano. Mas se alguém se apaixona verdadeiramente por uma personagem de um romance, então isso é um problema.
Esse é um dos problemas da IA? A ideia de que nos pode dar a verdade que queremos?
Pode dar algo tranquilizante, confortável, alguma coisa de que o utilizador gosta e encaminhá-lo para este tipo de mundo. Dar essa ilusão. E isto vai ser utilizado por actores maliciosos.
Se continuarmos a desenvolver estes simuladores, corremos o risco de estar presos em visões distintas do mundo com máquinas que repetem aquilo que queremos ouvir?
É como doutrina e ideologia. Pensemos em Itália: durante o período fascista, as pessoas aceitavam, acreditavam e apoiavam ideologia fascista. Não vale a pena fingir que não o fizeram. Mussolini era muito popular e, na Alemanha, Hitler era ainda mais popular. As pessoas acreditavam neles e queriam-nos.
O que se faz, nestes casos, é criar meios de autodefesa. E, como disse, algo que Mussolini, Hitler e também Thatcher compreendiam todos muito bem é que se tem de destruir a principal forma de as pessoas se defenderem – é preciso eliminar os sindicatos, impedir as pessoas de falarem umas com as outras. É preciso deixá-las separadas. Isto é o mercado ideal. Todos estão sozinhos, a perseguir as suas próprias fantasias, sejam elas quais forem. É o sistema ideal para controlar as pessoas. A longa luta de classes está sempre em curso. O cenário actual, com a tecnologia e a IA, é outro caso em que se tenta subordinar, marginalizar as pessoas, ao levá-las a olhar para o Instagram ou a falar com um chatbot sem pensar no que está a acontecer no mundo.
Já vimos alguns comentadores e políticos de direita a dizer que a IA generativa é enviesada e privilegia opiniões de esquerda e que precisam de criar a “sua” versão das ferramentas. É o começo de um novo tipo de guerra cultural?
Bom, a direita adora falar sobre como é vitimizada. São donos de tudo, gerem tudo, mas argumentam que são vítimas. Lembra a teoria da Grande Substituição. É a ideia de que a raça branca, que tem todas as vantagens, é a vítima porque sente que está a ser substituída. Que o dono dos escravos é a vítima se o escravo não consegue fazer o seu trabalho. E, provavelmente, o dono dos escravos acredita mesmo nisso.
Muitos economistas dizem que não vai demorar muito tempo para que estas máquinas substituam os trabalhadores humanos em algumas actividades.
Actualmente há uma grande preocupação quanto a escritores, arquitectos e engenheiros perderem os seus empregos. Isso é bastante interessante. A classe operária tem vindo a perder os postos de trabalho há muito tempo devido à automação. Quem se preocupa com isso? Mas se os trabalhos de colarinho branco, detidos por homens, estiverem em risco, então é uma catástrofe... Desde o século XVII que a automatização eliminou empregos, com o fim dos tecelões na Índia.
Acredita que as máquinas vão mesmo substituir as pessoas no trabalho?
Não creio que seja provável que muitas destas pessoas percam o emprego. Mas, se o fizerem, bem, isso tem sido o curso da História durante muito tempo. Agora está apenas a atingir algumas pessoas privilegiadas, em vez das vítimas habituais.
E será que as grandes empresas tecnológicas como o Google e a Meta terão mais poder político porque estão por detrás da tecnologia que as pessoas começam a precisar de usar?
As grandes empresas têm poder político por uma razão muito simples: dinheiro, capital. Podem comprar congressistas, podem comprar senadores, podem comprar eleições. Chama-se a isso poder. Não é nada de novo.
Suponha que é eleito para o Congresso nos Estados Unidos. A primeira coisa que faz é telefonar aos financiadores para se certificar de que eles o ajudarão nas próximas eleições. Quando o congressista desliga o telefonema, vai ao seu escritório e assina a nova legislação sobre aquilo que precisam. Estou a fazer uma caricatura, mas é basicamente assim que o sistema legislativo funciona. Com isto, cerca de 70% da população dos Estados Unidos não é representada. Não há uma correlação entre as suas atitudes e preferências e a legislação que é aprovada pelo seu representante no Congresso. Ou seja, eles não estão representados. São os poderosos que escrevem a legislação. Isto é um problema que existe nas sociedades capitalistas.
Um dos maiores intelectuais do nosso tempo, Noam Chomsky, alerta para os problemas de sistemas como o ChatGPT. Uma entrevista em que também fala de redes sociais, luta de classes e neofascismo.
Há um mês, o reputado filósofo e linguista Noam Chomsky co-assinou um artigo no New York Times em que condena a “falsa promessa do ChatGPT”, criticando o rumo que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) levou. Ao Ípsilon, numa videochamada, o especialista do MIT reforçou o desassossego com a forma como a tecnologia está a evoluir, com algoritmos que nos dão conteúdo à nossa medida e chatbots que simulam a comunicação humana e contribuem para a inércia analítica e criativa.
“Este é o ataque mais radical ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu alguma vez vi”, diz o pensador, com 94 anos, apontando a forma como as ferramentas assumem cada vez mais uma dimensão “corporativa”. “A ideia de que podemos aprender alguma coisa com este tipo de IA é um erro”, atira.
Questionado sobre o que fazer com esta mudança tecnológica, que aconteceu de forma tão brusca, destaca o papel da educação. “É impossível travar os sistemas”, avisa Chomsky, que não assinou a carta em que especialistas de todo o mundo pediram uma moratória no desenvolvimento de IA. Explica porquê: “A única maneira [de controlar a evolução tecnológica] é educar as pessoas para a autodefesa. Levar as pessoas a compreender o que isto é e o que não é.” Atribui um significado político a ferramentas como o ChatGPT: “É basicamente como qualquer outra ideologia ou doutrina. Como é que se defende alguém contra a doutrina neofascista? Educando as pessoas.”
O especialista, que tem várias obras traduzidas em Portugal, como As Consequências do Capitalismo, Requiem para um Sonho Americano e Quem Governa o Mundo?, diz que o cenário actual representa “a longa luta de classes”. “É outro caso em que se tenta subordinar, marginalizar as pessoas, ao levá-las a olhar para o Instagram, ou falar com um chatbot sem pensar no que está a acontecer no mundo”, defende.
Quando nos confirmou a disponibilidade para esta entrevista, fomos ao ChatGPT, que se tornou uma das ferramentas mais associadas à IA, e perguntámos que questões colocar a Noam Chomsky. Vamos, então, começar com uma dessas perguntas. Seria possível criar uma inteligência artificial capaz de compreender e utilizar a linguagem humana da mesma forma que os seres humanos o fazem?
Há um campo de estudo que se liga a essas questões: é a ciência cognitiva. A IA não lida com isso, centra-se noutros aspectos. Actualmente é um dos elementos do movimento anticiência. Preocupa-se, sobretudo, com simulação e não com o entendimento. O ChatGPT é, assim, um exercício inteligente de simulação. Percorre quantidades astronómicas de dados, através de programas inteligentes, para produzir resultados semelhantes à informação que encontra. Não diz nada sobre linguagem, aprendizagem, inteligência. E isso é muito fácil de provar.
Como é que se mostra que o ChatGPT é só um simulador?
Estes sistemas, se olharmos para eles, funcionam para linguagens impossíveis. Funcionam com linguagens que as crianças não conseguem aprender, assim como as linguagens existentes. Seria o mesmo que um físico chegasse e dissesse: está aqui um conjunto de possibilidades que podem acontecer e outras que não podem acontecer e não identifico qualquer diferença entre elas. Isto não é ciência.
O que vê então como inteligência artificial?
Se olharmos para o que Alan Turing [1912-1954] disse, há já muito tempo, a IA é descrita como a capacidade para utilizar computadores e programação para ver se conseguimos alguma compreensão sobre o que é a inteligência humana. Isso é ciência pura. Só que a IA, tal como é entendida actualmente, é um projecto corporativo que visa reunir conteúdos para serem usados por sistemas de simulação em grande escala. A ideia de que podemos aprender alguma coisa com este tipo de IA é um erro. Elas [as tecnologias de IA] criam uma atmosfera onde a explicação e a compreensão não têm qualquer valor. O que se faz é tentar simular um ataque profundo à natureza não só da ciência, mas também da investigação racional no seu conjunto.
Como é que os especialistas deveriam estar a tratar de questões relacionadas com a IA?
Não há nada de errado no que estão a fazer, se o interesse for a simulação. Pode ser positivo. Eu uso [programas de inteligência artificial] nas legendas durante as entrevistas porque já tenho dificuldades auditivas. Mas a investigação de IA acontece, por exemplo, nos estudos sobre a forma como os bebés pensam. O livro What Babies Know, de Elizabeth Spelke, inclui uma análise detalhada sobre a forma como os bebés adquirem a linguagem e a compreensão do ambiente que os rodeia durante o primeiro ano de vida. Isto é feito usando experimentação científica e outros métodos, como análises estatísticas dos exemplos disponíveis para as crianças [aprenderem]. Estes métodos de investigação convergem para se descobrir como é que os humanos desenvolveram as capacidades intelectuais. É como estudar uma colónia de formigas para perceber como operam. Para isso, é preciso ciência, não simulação.
O desenvolvimento das plataformas de IA generativa, como o ChatGPT ou o Dall-E, tem suscitado receios devido à desinformação. Há umas semanas, uma imagem, em que o Papa aparecia vestido com roupa diferente da que habitualmente usa, foi partilhada por muitos como se fosse verdadeira. A mente humana está preparada para lidar com o que é falso ou verdadeiro?
Vamos pegar num caso concreto e possível, com o qual estamos bastante familiarizados há centenas de anos: um hábil estudante de Arte vai ao museu e cria uma cópia muito sofisticada do auto-retrato de Rembrandt. É preciso um historiador de arte sofisticado para dizer a diferença entre o original e a cópia. Hoje em dia, os historiadores de arte utilizam alta tecnologia para tentar distinguir as cópias das obras originais. E é muito difícil.
Isso é a natureza da simulação. Pode ser tão sofisticada que uma pessoa que não esteja tão bem preparada não nota a diferença. É o caso da imagem do Papa. Isso abre portas a outras questões.
Como roubo de identidade ou difamação.
Exactamente. Estes novos sistemas são uma ferramenta fantástica para a difamação e serão certamente utilizados para isso. O exemplo [do Papa] que mencionou é uma espécie de piada e pretendia, certamente, ser uma piada. Mas muito em breve, podem ter a certeza, haverá uma utilização maciça da simulação de vozes, de rostos, de elementos, que, combinados, pretenderão atribuir algo a uma pessoa que, na verdade, não tem responsabilidade nisso. Podem ser criados conteúdos, atribuídos a pessoas credíveis, dando credibilidade aos maiores disparates imagináveis.
Os desenvolvimentos na inteligência artificial são “o mais radical ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e à ciência que alguma vez" Chomsky viu
Mas há outro tipo de riscos. Como as pessoas que olham para estes programas como reais. E fazem perguntas como: devo deixar a minha mulher? As pessoas são extremamente ingénuas. Já há casos [em que foram feitas perguntas como estas] com sistemas como a Alexa ou a Siri… As pessoas desenvolvem relações [com as máquinas] e até se podem apaixonar. Isto é muito perigoso. Há casos de suicídio em que as pessoas seguiram os conselhos dos dispositivos de simulação.
A capacidade de danos é extraordinária. Há algumas semanas, um grande número de especialistas de todo o espectro pediu uma moratória no desenvolvimento desta tecnologia, devido aos enormes danos que podem ser causados.
Há forma de travar o desenvolvimento de uma tecnologia deste tipo?
[A desinformação] já acontecia com a Internet. Há artigos publicados online em que eu apareço como autor principal e não foram escritos por mim. E depois de chegarem à Internet, é impossível parar a sua propagação. E, depois, há outra pergunta: o que resulta desse esforço tecnológico é tão útil, como acontece com as legendas desta entrevista? Isso não é assim tão óbvio.
Então concorda com as pessoas que assinaram a petição pedindo calma na evolução da tecnologia de IA?
Pois. De facto, estávamos à espera de ver lá o seu nome.
Não assinei por duas razões. Primeiro, porque exagerou muito o que os sistemas de facto estão a fazer e são capazes de fazer – e, portanto, contribui para estas ilusões e mal-entendidos. A outra razão é que é impossível travar os sistemas. Não se pode impedir os actores maliciosos de inundar a Internet com todo o tipo de lixo.
A única maneira de ajudar é educar as pessoas para a autodefesa. Podemos levar as pessoas a compreender o que IA é e o que não é. Acabar com a euforia e olhar para a realidade como ela é. É basicamente como qualquer outra ideologia ou doutrina. Como é que se defende alguém contra a doutrina neofascista? Educando as pessoas. Não há maneira de a impedir, não vai acabar nem desaparecer. Pode educar-se a população para compreender como realmente são as coisas.
E como é que se deve educar? Pode dar exemplos mais concretos?
Pegue num demagogo como Trump. É um actor muito hábil. Ele sabe como carregar nos botões certos. Sabe falar para as pessoas com um cartão numa mão a dizer “amo-te” enquanto as apunhala nas costas com a outra.
Não podemos dizer às pessoas: "Olha, ele não te ama." É preciso dizer: "Olha, estão a apunhalar-te pelas costas." Deve-se apontar para o programa legislativo [destes políticos] e mostrar o que realmente é – um serviço abjecto à riqueza privada e ao poder empresarial. Mas a verborreia [de Trump] não fala disso. Pelo contrário, diz que é do partido das pessoas, das pessoas que trabalham. E safa-se. Basta olhar para as sondagens. Falta educação, e essa educação, essa protecção, era o que se fazia quando se tinham organizações que representavam as pessoas.
Os movimentos sindicais.
Ronald Reagan e Margaret Thatcher, quando inauguraram o assalto neoliberal, tiveram, eles ou os assessores, uma primeira ideia-chave: acabar com os sindicatos. Porque é o meio de defesa que as pessoas têm para se reunir, deliberar, e trabalhar em conjunto. Portanto, o primeiro passo das administrações de Reagan e Thatcher foi destruir os sindicatos e abrir a porta para que o sector empresarial avançasse com todo o tipo de meios, na sua maioria ilegais, de trabalho.
Os chamados libertários, como Milton Friedman, odiavam os sindicatos. O próprio Mussolini foi elogiado por ter destruído os sindicatos em Itália porque interferiram com a economia. Este é o cerne da ideologia. Se está a servir grandes riquezas ou poder, assegure-se de que não há oposição.
Acredita que as novas ferramentas de IA também podem contribuir para uma realidade ainda mais polarizada?
Vão certamente ser usadas com esse propósito, basta olharmos para o mundo em que vivemos. Estes movimentos anticiência começaram há várias gerações. A indústria do tabaco, há 70 anos, foi uma das propulsoras, com um amplo programa de desinformação. Quando se descobriu que o tabaco era letal, a indústria do tabaco não se limitou a negar esses factos: tentou denegrir as provas científicas, explicando que a ciência não é definitiva. Mais recentemente, temos a indústria dos combustíveis fósseis. A estratégia é influenciar o público a ponto de negar a objectividade da ciência, ao semear dúvidas, ao dizer que a ciência não é fiável, ao alertar para o desemprego.
Todos estão sozinhos, a perseguir as suas próprias fantasias. É o sistema ideal para controlar as pessoas. A longa luta de classes está sempre em curso. O cenário actual, com a tecnologia e a IA, é outro caso em que se tenta subordinar, marginalizar as pessoas, ao levá-las a olhar para o Instagram ou a falar com um chatbot sem pensar no que está a acontecer no mundoNoam Chomsky
E penso que a chamada inteligência artificial enquadra-se muito bem nisto. [As ferramentas de IA] estão a induzir no público uma sensibilidade que nega fundamentalmente o objectivo da ciência. De que vale compreender o que quer que seja quando se pode analisar um sem fim de dados e prever o que vai acontecer? Este é o mais radical ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu alguma vez vi.
A azáfama em torno da IA faz com que as pessoas também comecem a estar dessensibilizadas em relação aos riscos. Como é que se luta contra isto?
Pensemos nos direitos das mulheres. Se perguntassem à minha avó, quando ela estava na cozinha a tomar conta da família, “Estás privada dos teus direitos?”, ela não saberia do que estavam a falar. As mentalidades começaram a mudar por causa de mulheres jovens em movimentos activistas que começaram a questionar-se: “Porque é que temos de fazer isso? Porque é que temos de estar subordinadas?” Essas dúvidas propagaram-se e conduziram àquele que é provavelmente o principal movimento da história moderna em termos de consequências e resultados.
Não há forma de parar estas coisas, excepto pela forma como foi feito ao longo da História por pessoas que se organizam e lutam por direitos, conquistando-os ao longo dos anos.
Alguns países começaram a avançar com legislação nesta área. Concorda com este modus operandi?
A legislação não ajuda. Não podemos proibir o Mein Kampf [livro de Adolf Hitler]. O que se tem de fazer é encorajar as pessoas a lê-lo e a descobrir o que é. Quer viver neste tipo de mundo? Isso é o que se faz.
Não nos podemos esquecer de uma coisa: há imenso capital investido nestas tecnologias. Há instituições e organizações poderosas que se vão envolver nestas tecnologias e encontrarão inúmeras formas de contornar a legislação. Especialmente se as pessoas realmente quiserem isto [IA], criando uma lógica de procura e oferta. Aí as grandes organizações vão, certamente, encontrar uma forma de contornar a lei.
E há alguma forma de mitigar essa procura? Vivemos numa sociedade inteiramente digital. Já não deve faltar muito tempo para termos os nativos digitais em órgãos de decisão.
A verdadeira forma de controlar o processo é acabar com a procura. Fazer com que as pessoas compreendam que há mais coisas no mundo além das fantasias na Internet. Há situações cada vez mais preocupantes. Recentemente foi publicado um estudo, aqui nos EUA, sobre a Geração Z, crianças que nasceram depois de 1997, e a forma como encontram informação sobre o mundo. Quase ninguém lê jornais ou vê televisão. Muito poucos vão ao Facebook, porque já é antiquado. Imaginem o que é ter uma geração inteira a criar a sua visão do mundo através do que se vê no TikTok? Estamos a falar da possibilidade de perdermos uma geração. E a legislação aqui não vai ter grande poder. Não se pode banir o Instagram ou o TikTok.
Gostávamos de voltar atrás, ao facto de as pessoas confiarem e procurarem respostas em tecnologias de IA, como os chatbots, mesmo não se tratando de humanos, o chamado “efeito Eliza”. Porque é que as pessoas confiam nas máquinas?
Porque é que uma criança de três anos fala para os seus brinquedos? Há algo nestas tecnologias que lembra a nossa infância e todos podemos ser apanhados nisso.
A confiança que damos à IA vem de uma necessidade de continuarmos a ter amigos imaginários?
Há uma possibilidade de desenvolvermos o nosso próprio mundo, como se fossemos avatares. Pode ser um acto de criatividade. Outro exemplo é a literatura. Se passar grande parte do tempo a ler romances, vai conhecer melhor as pessoas desses romances do que as pessoas que realmente conhece. Porque sabe aquilo em que acreditam. Não temos esse tipo de informação sobre os nossos melhores amigos. Não há nada de errado [com a criatividade], é uma das mais importantes conquistas da inteligência do ser humano. Mas se alguém se apaixona verdadeiramente por uma personagem de um romance, então isso é um problema.
Esse é um dos problemas da IA? A ideia de que nos pode dar a verdade que queremos?
Pode dar algo tranquilizante, confortável, alguma coisa de que o utilizador gosta e encaminhá-lo para este tipo de mundo. Dar essa ilusão. E isto vai ser utilizado por actores maliciosos.
Se continuarmos a desenvolver estes simuladores, corremos o risco de estar presos em visões distintas do mundo com máquinas que repetem aquilo que queremos ouvir?
É como doutrina e ideologia. Pensemos em Itália: durante o período fascista, as pessoas aceitavam, acreditavam e apoiavam ideologia fascista. Não vale a pena fingir que não o fizeram. Mussolini era muito popular e, na Alemanha, Hitler era ainda mais popular. As pessoas acreditavam neles e queriam-nos.
O que se faz, nestes casos, é criar meios de autodefesa. E, como disse, algo que Mussolini, Hitler e também Thatcher compreendiam todos muito bem é que se tem de destruir a principal forma de as pessoas se defenderem – é preciso eliminar os sindicatos, impedir as pessoas de falarem umas com as outras. É preciso deixá-las separadas. Isto é o mercado ideal. Todos estão sozinhos, a perseguir as suas próprias fantasias, sejam elas quais forem. É o sistema ideal para controlar as pessoas. A longa luta de classes está sempre em curso. O cenário actual, com a tecnologia e a IA, é outro caso em que se tenta subordinar, marginalizar as pessoas, ao levá-las a olhar para o Instagram ou a falar com um chatbot sem pensar no que está a acontecer no mundo.
Já vimos alguns comentadores e políticos de direita a dizer que a IA generativa é enviesada e privilegia opiniões de esquerda e que precisam de criar a “sua” versão das ferramentas. É o começo de um novo tipo de guerra cultural?
Bom, a direita adora falar sobre como é vitimizada. São donos de tudo, gerem tudo, mas argumentam que são vítimas. Lembra a teoria da Grande Substituição. É a ideia de que a raça branca, que tem todas as vantagens, é a vítima porque sente que está a ser substituída. Que o dono dos escravos é a vítima se o escravo não consegue fazer o seu trabalho. E, provavelmente, o dono dos escravos acredita mesmo nisso.
Muitos economistas dizem que não vai demorar muito tempo para que estas máquinas substituam os trabalhadores humanos em algumas actividades.
Actualmente há uma grande preocupação quanto a escritores, arquitectos e engenheiros perderem os seus empregos. Isso é bastante interessante. A classe operária tem vindo a perder os postos de trabalho há muito tempo devido à automação. Quem se preocupa com isso? Mas se os trabalhos de colarinho branco, detidos por homens, estiverem em risco, então é uma catástrofe... Desde o século XVII que a automatização eliminou empregos, com o fim dos tecelões na Índia.
Acredita que as máquinas vão mesmo substituir as pessoas no trabalho?
Não creio que seja provável que muitas destas pessoas percam o emprego. Mas, se o fizerem, bem, isso tem sido o curso da História durante muito tempo. Agora está apenas a atingir algumas pessoas privilegiadas, em vez das vítimas habituais.
E será que as grandes empresas tecnológicas como o Google e a Meta terão mais poder político porque estão por detrás da tecnologia que as pessoas começam a precisar de usar?
As grandes empresas têm poder político por uma razão muito simples: dinheiro, capital. Podem comprar congressistas, podem comprar senadores, podem comprar eleições. Chama-se a isso poder. Não é nada de novo.
Suponha que é eleito para o Congresso nos Estados Unidos. A primeira coisa que faz é telefonar aos financiadores para se certificar de que eles o ajudarão nas próximas eleições. Quando o congressista desliga o telefonema, vai ao seu escritório e assina a nova legislação sobre aquilo que precisam. Estou a fazer uma caricatura, mas é basicamente assim que o sistema legislativo funciona. Com isto, cerca de 70% da população dos Estados Unidos não é representada. Não há uma correlação entre as suas atitudes e preferências e a legislação que é aprovada pelo seu representante no Congresso. Ou seja, eles não estão representados. São os poderosos que escrevem a legislação. Isto é um problema que existe nas sociedades capitalistas.
24.1.23
Tecnologia garante segurança de idosos que vivem sozinhos
Eduardo Pinho, in TSF
Sistema de vigilância não invasivo gera alertas no caso de alteração de rotinas, da temperatura da casa, fugas de gás ou entrada de estranhos em casa. Projeto abrange 20 idosos de Murça, Tabuaço e São João da Pesqueira.
Três municípios da região da região do Douro estão a desenvolver um projeto que utiliza vários sensores instalados em casa de idosos para prevenir acidentes ou, mesmo, assaltos. Chama-se "Idoso(@) Ativo(@)" e abrange 60 pessoas mais velhas, que vivem sozinhas ou isoladas, nos municípios de Tabuaço, São João da Pesqueira e Murça.
O Município de Murça foi o que coordenou o arranque da iniciativa que foi classificada como um "vigilante digital" dos seniores e envolve também os centros sociais e paroquiais de Trevões e Castanheiro do Sul, no concelho de São João da Pesqueira.
Um exemplo das pessoas abrangidas no concelho de Murça é Maria da Luz Ribeiro, residente em Varges. As visitas da assistente social Aida Nunes à mulher de 81 anos, que vive sozinha, são frequentes, mesmo que agora a habitação tenha nas paredes vários sensores ligados à Internet que monitorizam o seu dia a dia e disparam alertas no caso de haver alguma situação anormal.
Maria da Luz não fez ainda disparar os alarmes e espera tardar a fazê-lo. Mas como os sensores também servem para detetar a entrada de intrusos, considera que são uma mais-valia para a sua segurança. "Basta gritar "socorro"" para vir alguém em meu auxílio", diz a idosa, que tem sete filhos, mas que vive sozinha a maior parte do tempo, já que eles foram governar a vida para outras bandas.
Aida Nunes é responsável pela execução no terreno do projeto "Idoso(@) Ativo(@)" da Câmara de Murça. Explica que os alarmes são acionados se houver alteração às rotinas e hábitos de cada idoso, bem como situações anómalas relacionadas com "eletricidade, fugas de gás e entrada de estranhos na habitação", além de ajudar na "prevenção de quedas". "São aparelhos que estão ligados à Internet e emitem alertas para familiares ou para a pessoa que esteja responsável pelos idosos", realça.
Ativado o alerta, o primeiro procedimento é o contacto telefónico com a pessoa que está a precisar de ajuda. No caso de ninguém atender, elementos da equipa municipal de acompanhamento do projeto deslocam-se a casa da pessoa para perceber o que aconteceu.
Apesar das vantagens deste sistema de vigilância não invasivo da privacidade dos idosos, o vice-presidente da Câmara de Murça, António Marques, garante que "não invalida o acompanhamento humano" por parte de uma equipa multidisciplinar, porque "há outras debilidades na população mais velha". Uma boa parte, salienta, "precisa de medicação permanente, já que sofre de doenças crónicas".
Os aparelhos instalados nas casas dos idosos fazem parte de um sistema de domótica desenvolvido pela empresa Dótima Technologies. O objetivo da domótica passa por centralizar o controlo das funções de vários sistemas como a iluminação, a climatização, o aquecimento ou controlo de eletrodomésticos num único local como um smartphone ou tablet.
Três municípios da região da região do Douro estão a desenvolver um projeto que utiliza vários sensores instalados em casa de idosos para prevenir acidentes ou, mesmo, assaltos. Chama-se "Idoso(@) Ativo(@)" e abrange 60 pessoas mais velhas, que vivem sozinhas ou isoladas, nos municípios de Tabuaço, São João da Pesqueira e Murça.
O Município de Murça foi o que coordenou o arranque da iniciativa que foi classificada como um "vigilante digital" dos seniores e envolve também os centros sociais e paroquiais de Trevões e Castanheiro do Sul, no concelho de São João da Pesqueira.
Um exemplo das pessoas abrangidas no concelho de Murça é Maria da Luz Ribeiro, residente em Varges. As visitas da assistente social Aida Nunes à mulher de 81 anos, que vive sozinha, são frequentes, mesmo que agora a habitação tenha nas paredes vários sensores ligados à Internet que monitorizam o seu dia a dia e disparam alertas no caso de haver alguma situação anormal.
Maria da Luz não fez ainda disparar os alarmes e espera tardar a fazê-lo. Mas como os sensores também servem para detetar a entrada de intrusos, considera que são uma mais-valia para a sua segurança. "Basta gritar "socorro"" para vir alguém em meu auxílio", diz a idosa, que tem sete filhos, mas que vive sozinha a maior parte do tempo, já que eles foram governar a vida para outras bandas.
Aida Nunes é responsável pela execução no terreno do projeto "Idoso(@) Ativo(@)" da Câmara de Murça. Explica que os alarmes são acionados se houver alteração às rotinas e hábitos de cada idoso, bem como situações anómalas relacionadas com "eletricidade, fugas de gás e entrada de estranhos na habitação", além de ajudar na "prevenção de quedas". "São aparelhos que estão ligados à Internet e emitem alertas para familiares ou para a pessoa que esteja responsável pelos idosos", realça.
Ativado o alerta, o primeiro procedimento é o contacto telefónico com a pessoa que está a precisar de ajuda. No caso de ninguém atender, elementos da equipa municipal de acompanhamento do projeto deslocam-se a casa da pessoa para perceber o que aconteceu.
Apesar das vantagens deste sistema de vigilância não invasivo da privacidade dos idosos, o vice-presidente da Câmara de Murça, António Marques, garante que "não invalida o acompanhamento humano" por parte de uma equipa multidisciplinar, porque "há outras debilidades na população mais velha". Uma boa parte, salienta, "precisa de medicação permanente, já que sofre de doenças crónicas".
Os aparelhos instalados nas casas dos idosos fazem parte de um sistema de domótica desenvolvido pela empresa Dótima Technologies. O objetivo da domótica passa por centralizar o controlo das funções de vários sistemas como a iluminação, a climatização, o aquecimento ou controlo de eletrodomésticos num único local como um smartphone ou tablet.
21.5.21
Critical Software quer formar e dar emprego em tecnologias de informação a pessoas com autismo
in Público on-line
“Se as pessoas pensam todas da mesma maneira, não vai haver muita inovação”, acredita o co-fundador e director executivo da empresa. Por isso, a empresa quer apostar na neurodiversidade e contratar pessoas autistas. Candidaturas estão abertas até 9 de Julho.
Um programa pioneiro em Portugal, desenvolvido pela Critical Software, quer formar e dar emprego em tecnologias de informação a pessoas com autismo ou síndrome de Asperger, disse à agência Lusa o director executivo da empresa sediada em Coimbra.
O programa de talentos Neurodiversidade aceita, até 9 de Julho, candidaturas de portugueses maiores de 18 anos com diagnóstico de autismo/Asperger e procura candidatos com motivação para a área das tecnologias de informação (TI) e conhecimentos de inglês de nível médio. “É um programa de empregabilidade, dirigido a pessoas que estão no espectro do autismo ou de Asperger. E a motivação é muito simples: a Critical é uma empresa de pessoas, dependemos muitíssimo do talento. Para nós, a criatividade, a inovação e construir conhecimento são a chave para o nosso sucesso e esta é uma oportunidade para ter pessoas com características especiais envolvidas nesse processo de criação de inovação”, afirmou João Carreira, co-fundador e director executivo (CEO) da Critical Software.
“Acredito que em todas as áreas, mas especialmente na nossa, em TI, a inovação, as ideias diferentes, vêm das zonas de fronteira, não vêm do mainstream [do convencional]. Se as pessoas pensam todas da mesma maneira, eventualmente não vai haver muita inovação. E, portanto, pessoas neurodiversas vão trazer essa riqueza para dentro de empresa”, acrescentou João Carreira.
O CEO da Critical insistiu que a “grande motivação” é levar talento à empresa de sistemas de informação e recusou que se trate de caridade para com as pessoas no espectro do autismo. “Não é uma caridade que estamos a fazer, não queremos este programa com essa mentalidade, mas sim para integrar as pessoas por aquilo que elas são. São pessoas com competências por vezes extraordinárias, que são incompreendidas e dificilmente aceites, e nós estamos a fazer este esforço para identificar e enquadrar essas pessoas”, argumentou João Carreira.
O programa da Critical Software é feito em parceria com a fundação dinamarquesa Specialisterne (que se traduz, em português, como “os especialistas"), uma entidade que está actualmente em 13 países e que tem como objectivo criar um milhão de empregos para pessoas com autismo. “Eles estão a fazer um trabalho muito interessante já há bastantes anos, também na área de TI. E, entretanto, também nos apercebemos que em Portugal há outros programas de empregabilidade para pessoas com autismo ou pessoas neurodiversas, mas este programa da Critical é o primeiro dirigido essencialmente a esta área específica”, explicou. “Neste domínio [das tecnologias de informação] não há [em Portugal] nenhum programa específico com este foco”, enfatizou João Carreira.
A selecção e avaliação dos candidatos ao programa Neurodiversidade vão ser realizadas com o apoio da Specialisterne. A formação decorrerá, depois, durante cinco semanas, em áreas “relevantes para a empresa”, como o teste e desenvolvimento de software, cibersegurança e consultoria operacional de tecnologia de informação.
Neste primeiro projecto, João Carreira revelou que serão seleccionadas nove pessoas, para serem integrados, após a formação e a partir de Outubro, na Critical Software em Lisboa, Porto e Coimbra: “É a primeira vez, estamos a ver como funciona, mas, claramente, é um programa que, correndo bem, é para continuar”, garantiu.
Em paralelo à formação dos candidatos ao programa, a Critical Software vai também formar alguns dos seus quadros, especialmente os gestores de projecto, para saberem como lidar com o autismo. “Vão saber como estar atentos a sinais de pessoas que são neurodiversas, como perceber a diferença e como tirar partido dessa diferença. Como perceber que essa diferença não é um problema, mas pode ser uma grande vantagem para os projectos em que eles estão envolvidos”, explicou João Carreira, definindo a formação dos colaboradores como “um efeito colateral muito interessante”.
“Os nossos gestores vão estar expostos a esta questão, que será uma nova realidade. Esta capacidade de olhar para o outro, olhar para a diferença, que num autista, muitas vezes, é muito evidente, pelas dificuldades que tem em termos interpessoais, ver para além disso e conseguir integrar as pessoas na equipa, é um desafio extraordinário, mas também enriquecedor e fonte de crescimento pessoal para as pessoas. E vai ajudá-las a tornarem-se melhores gestores e melhores líderes”, observou.
“Se as pessoas pensam todas da mesma maneira, não vai haver muita inovação”, acredita o co-fundador e director executivo da empresa. Por isso, a empresa quer apostar na neurodiversidade e contratar pessoas autistas. Candidaturas estão abertas até 9 de Julho.
Um programa pioneiro em Portugal, desenvolvido pela Critical Software, quer formar e dar emprego em tecnologias de informação a pessoas com autismo ou síndrome de Asperger, disse à agência Lusa o director executivo da empresa sediada em Coimbra.
O programa de talentos Neurodiversidade aceita, até 9 de Julho, candidaturas de portugueses maiores de 18 anos com diagnóstico de autismo/Asperger e procura candidatos com motivação para a área das tecnologias de informação (TI) e conhecimentos de inglês de nível médio. “É um programa de empregabilidade, dirigido a pessoas que estão no espectro do autismo ou de Asperger. E a motivação é muito simples: a Critical é uma empresa de pessoas, dependemos muitíssimo do talento. Para nós, a criatividade, a inovação e construir conhecimento são a chave para o nosso sucesso e esta é uma oportunidade para ter pessoas com características especiais envolvidas nesse processo de criação de inovação”, afirmou João Carreira, co-fundador e director executivo (CEO) da Critical Software.
“Acredito que em todas as áreas, mas especialmente na nossa, em TI, a inovação, as ideias diferentes, vêm das zonas de fronteira, não vêm do mainstream [do convencional]. Se as pessoas pensam todas da mesma maneira, eventualmente não vai haver muita inovação. E, portanto, pessoas neurodiversas vão trazer essa riqueza para dentro de empresa”, acrescentou João Carreira.
O CEO da Critical insistiu que a “grande motivação” é levar talento à empresa de sistemas de informação e recusou que se trate de caridade para com as pessoas no espectro do autismo. “Não é uma caridade que estamos a fazer, não queremos este programa com essa mentalidade, mas sim para integrar as pessoas por aquilo que elas são. São pessoas com competências por vezes extraordinárias, que são incompreendidas e dificilmente aceites, e nós estamos a fazer este esforço para identificar e enquadrar essas pessoas”, argumentou João Carreira.
O programa da Critical Software é feito em parceria com a fundação dinamarquesa Specialisterne (que se traduz, em português, como “os especialistas"), uma entidade que está actualmente em 13 países e que tem como objectivo criar um milhão de empregos para pessoas com autismo. “Eles estão a fazer um trabalho muito interessante já há bastantes anos, também na área de TI. E, entretanto, também nos apercebemos que em Portugal há outros programas de empregabilidade para pessoas com autismo ou pessoas neurodiversas, mas este programa da Critical é o primeiro dirigido essencialmente a esta área específica”, explicou. “Neste domínio [das tecnologias de informação] não há [em Portugal] nenhum programa específico com este foco”, enfatizou João Carreira.
A selecção e avaliação dos candidatos ao programa Neurodiversidade vão ser realizadas com o apoio da Specialisterne. A formação decorrerá, depois, durante cinco semanas, em áreas “relevantes para a empresa”, como o teste e desenvolvimento de software, cibersegurança e consultoria operacional de tecnologia de informação.
Neste primeiro projecto, João Carreira revelou que serão seleccionadas nove pessoas, para serem integrados, após a formação e a partir de Outubro, na Critical Software em Lisboa, Porto e Coimbra: “É a primeira vez, estamos a ver como funciona, mas, claramente, é um programa que, correndo bem, é para continuar”, garantiu.
Em paralelo à formação dos candidatos ao programa, a Critical Software vai também formar alguns dos seus quadros, especialmente os gestores de projecto, para saberem como lidar com o autismo. “Vão saber como estar atentos a sinais de pessoas que são neurodiversas, como perceber a diferença e como tirar partido dessa diferença. Como perceber que essa diferença não é um problema, mas pode ser uma grande vantagem para os projectos em que eles estão envolvidos”, explicou João Carreira, definindo a formação dos colaboradores como “um efeito colateral muito interessante”.
“Os nossos gestores vão estar expostos a esta questão, que será uma nova realidade. Esta capacidade de olhar para o outro, olhar para a diferença, que num autista, muitas vezes, é muito evidente, pelas dificuldades que tem em termos interpessoais, ver para além disso e conseguir integrar as pessoas na equipa, é um desafio extraordinário, mas também enriquecedor e fonte de crescimento pessoal para as pessoas. E vai ajudá-las a tornarem-se melhores gestores e melhores líderes”, observou.
27.4.21
“As reuniões virtuais ocuparam o tempo do pensamento inovador”
Victor Ferreira, in Público on-line
Sobreviver às reuniões tornou-se um objectivo em si mesmo, constata o autor de Liderar sem Autoridade, cuja edição portuguesa chegou ao mercado.
O mundo está cheio de oportunidades. E de gente cansada e insatisfeita. “É uma dicotomia dickensiana – o melhor e o pior dos tempos”, escreve Keith Ferrazzi logo no arranque do seu último livro, Liderar sem Autoridade – e fazer a diferença, que co-assina com Noel Weyrich.
Consulte aqui uma lista de mais de 1100 cursos para executivos
Estreada em 2017, esta obra conhece agora uma edição portuguesa, editada em Março, pela chancela Actual.
O digital instalou entre nós a sensação de que o poder e a autoridade estão mais difusos. No mundo do trabalho, isso implica novas competências, defende Ferrazzi. Quando as empresas derrubam silos, as cadeias de comando deixam de ser nítidas e temos de mudar a forma de trabalhar.
Liderar sem Autoridade, o título do livro, é baseado no modelo da co-elevação. Que conceito é esse?
É uma dinâmica de relacionamento em que duas ou mais pessoas formam uma ligação baseada na troca mútua de valor. Cada pessoa compromete-se com o sucesso dos outros, em vez de estar apenas focada no próprio sucesso. Co-elevação significa “ir mais além, juntos”.
É uma dinâmica de grupo muito distinta daquela que se pratica na maior parte das empresas, onde o foco é o trabalho e o sucesso individual. Se um colega está em dificuldade ou um departamento está longe dos objectivos, isso é visto como problema deles.
Com a co-elevação, ninguém ganha até que todos cortem a meta. A equipa não ganha enquanto houver alguém a ficar para trás.
Mas o que significa liderar sem autoridade?
Escrevi um livro inteiro sobre esse tema porque a capacidade de liderar sem autoridade se está a transformar na mais valiosa competência que qualquer pessoa pode ter no local de trabalho. Liderar sem autoridade significa que cada pessoa parte do princípio de que “tudo depende de mim” [“it’s all on me”]. Claro que isso não significa que elas estão sozinhas num projecto. Pelo contrário, significa aderir a uma mudança de mentalidade. Cada pessoa nomeia-se líder. Esta mudança gera resultados mais rapidamente. E fomenta a construção de equipas.
Os empregadores têm de tomar a iniciativa, porque toda a transformação está nas mãos de equipas multifuncionais em que a autoridade está de tal forma dispersa que torna a liderança sem autoridade uma competência indispensável.
Como damos início a esse processo de co-elevação?
Cada um deve conhecer os colegas e fazer um esforço para construir relações que os liguem aos pares de uma forma mais profunda. Isso vai autorizá-los a assumirem a liderança.
Exemplifico com dois mecanismos básicos que podem ser usados nas reuniões: o agridoce – um momento em que partilhamos um detalhe “doce” pelo qual estamos gratos e uma coisa amarga que nos está a causar problemas no plano profissional ou pessoal; e a verificação pessoal profissional – uma partilha mais profunda em que cada membro da equipa fala de forma franca sobre as questões com que tem de lidar em casa ou no trabalho, coisas que os restantes poderão desconhecer. Esta vulnerabilidade ajuda a unir a equipa, seja qual for a distância física que a separe.
O que diria a quem insiste que trabalha melhor sozinho?
Há muitas funções que requerem trabalho isolado, em sossego. Porém, para verdadeiramente ter impacto em grande escala, ou conduzir a mudança, temos de colaborar. Grandes pensadores ou as mentes mais brilhantes nos negócios são co-criadores.
Como se pode vestir o manto de líder quando isso não faz parte das funções ou do cargo?
Quem quiser fazer isto tem de reclamar primeiro a total responsabilidade sobre a sua capacidade de liderar, aceitando que ninguém precisa de autorizar que ela lidere. Todos somos líderes.
Quem não está numa posição de liderança, mas quer estar, pode suscitar a mudança numa equipa ou numa organização estabelecendo relações de co-elevação.
Faça a pergunta: “Quem está na minha equipa?”, para identificar as relações-chave que têm de ser criadas para impulsionar os planos de trabalho que tem. Depois, foque-se em construir ligações com valor de troca mútuo. Comprometa-se em ter um impacto positivo no trabalho de outras pessoas sem a necessidade de exigir algo em troca.
Quando estas ligações se formam onde há confiança e respeito, então qualquer pessoa, independentemente do seu título, ganha permissão para liderar.
Liderar sem Autoridade e fazer a diferença
Autoria: Keith Ferrazzi
Editora: Actual
216 págs., 17,90€
Nas livrarias desde Março
Como podemos aplicar a co-elevação quando se trabalha remotamente?
O ano de 2020 ensinou-nos muito sobre colaboração virtual em equipas. As nossas pesquisas mostram que demasiadas equipas tiveram desempenhos muito pobres em termos de colaboração remota e, por isso, agora estão a pensar em regressar às soluções antigas, que já não funcionavam antes.
Porém, a pandemia foi um ponto de inflexão em que muitas empresas finalmente decidiram rever sistemas de gestão antigos. Infelizmente, a maioria apenas transferiu as práticas habituais das reuniões físicas para as reuniões virtuais.
No treino de executivos que fazemos na Ferrazzi Greenlight concluímos que as reuniões simplesmente ocuparam o tempo e o espaço que deveria ser do pensamento inovador. “Sobreviver às reuniões” é um objectivo em si mesmo.
A comunicação virtual é diferente, e quando usada de forma eficiente, pode formar laços mais profundos.
Em equipa, o recurso à colaboração assíncrona usando email, Google, Slack, Teamwork e outros, deve ser o primeiro método de colaboração. Agendar reuniões só quando for impossível a comunicação assíncrona, que é uma comunicação aberta; todos contribuem, podem ver o feedback e questionar com franqueza. As decisões ficam gravadas e arquivadas. Com um vasto leque de aplicações, como painéis de discussão, voto sim/não ou ferramentas de recolha de feedback, este tipo de trabalho remoto pode decorrer de forma veloz e em grande escala em toda a organização.
As nossas pesquisas, ao longo de 20 anos, mostram que 74% dos membros de uma equipa não dão a sua opinião com coragem e franqueza nas reuniões presenciais. Isso não promove o pensamento audaz que gera inovação.
Seremos capazes de construir relações duradouras em teletrabalho?
A maioria das pessoas pensa que as reuniões físicas têm uma química social que desaparecerá com a colaboração assíncrona e a comunicação virtual.
Mas as nossas pesquisas, ao longo de 20 anos, mostram que 74% dos membros de uma equipa não dão a sua opinião com coragem e franqueza nas reuniões presenciais. Fazem isso para evitar conflitos. Mas isso também não promove o pensamento audaz que gera inovação.
Recorrer a estratégias como o agridoce, ou mesmo à função Zoom breakout, é básico mas eficiente para qualquer líder que procure comunicação com autenticidade. As pessoas tendem a falar de forma mais corajosa em pequenos grupos, porque a segurança psicológica aumenta.
Também vimos, demasiadas vezes, que grandes debates sobre inovação de processos ou na identificação de novos mercados se transformam num monólogo, em que os líderes perguntam e respondem a todas as questões. O papel do líder é fazer perguntas inteligentes e partir a equipa em grupos mais pequenos para assim poder ouvir todas as vozes.
O papel do líder é fazer perguntas inteligentes e partir a equipa em grupos mais pequenos para assim poder ouvir todas as vozes
O espaço de trabalho está em transformação? Como vê o futuro?
Estou optimista. A pandemia foi um ponto de inflexão. Tantas empresas estavam desesperadas por uma oportunidade para rever a gestão. A covid-19 acelerou esse processo.
Com as câmaras ligadas, o novo ambiente virtual de trabalho tem o potencial de unir ainda mais as pessoas, muito mais do que qualquer sala de reuniões alguma vez poderia. Podemos ver o interior da casa de cada um, e somos capazes de trazer o nosso eu autêntico para o trabalho.
Temos de usar esta oportunidade para criar novas normas sociais no trabalho, mais produtivas. Este é o momento para os líderes terem reuniões virtuais com as equipas confinadas em casa e perguntar-lhes: “Que comportamentos e práticas recentes devemos reconfigurar?”
Em Março do ano passado, estabelecemos uma parceria com a escola de negócios de Harvard para lançar o instituto de pesquisa Go Forward to Work, dedicado a desenvolver pesquisa sobre o futuro do trabalho. As conclusões estarão no meu próximo livro (Competing in a New World of Work: How Radical Adaptability Separates the Best from the Rest), que será publicado pela Harvard Press no Outono.
Reúne as conclusões do que temos recolhido em empresas como a Delta, a GM e a Uber, a par das lições e das ideias de respeitados especialistas em gestão de negócios ou de gestores de topo. Tem também histórias que mostram equipas de alto rendimento e as suas boas práticas. Explora ainda as prioridades actuais dos líderes empresariais que são: 1) Prever; 2) Incluir; 3) Agilidade; 4) Resiliência.
Sobreviver às reuniões tornou-se um objectivo em si mesmo, constata o autor de Liderar sem Autoridade, cuja edição portuguesa chegou ao mercado.
O mundo está cheio de oportunidades. E de gente cansada e insatisfeita. “É uma dicotomia dickensiana – o melhor e o pior dos tempos”, escreve Keith Ferrazzi logo no arranque do seu último livro, Liderar sem Autoridade – e fazer a diferença, que co-assina com Noel Weyrich.
Consulte aqui uma lista de mais de 1100 cursos para executivos
Estreada em 2017, esta obra conhece agora uma edição portuguesa, editada em Março, pela chancela Actual.
O digital instalou entre nós a sensação de que o poder e a autoridade estão mais difusos. No mundo do trabalho, isso implica novas competências, defende Ferrazzi. Quando as empresas derrubam silos, as cadeias de comando deixam de ser nítidas e temos de mudar a forma de trabalhar.
Liderar sem Autoridade, o título do livro, é baseado no modelo da co-elevação. Que conceito é esse?
É uma dinâmica de relacionamento em que duas ou mais pessoas formam uma ligação baseada na troca mútua de valor. Cada pessoa compromete-se com o sucesso dos outros, em vez de estar apenas focada no próprio sucesso. Co-elevação significa “ir mais além, juntos”.
É uma dinâmica de grupo muito distinta daquela que se pratica na maior parte das empresas, onde o foco é o trabalho e o sucesso individual. Se um colega está em dificuldade ou um departamento está longe dos objectivos, isso é visto como problema deles.
Com a co-elevação, ninguém ganha até que todos cortem a meta. A equipa não ganha enquanto houver alguém a ficar para trás.
Mas o que significa liderar sem autoridade?
Escrevi um livro inteiro sobre esse tema porque a capacidade de liderar sem autoridade se está a transformar na mais valiosa competência que qualquer pessoa pode ter no local de trabalho. Liderar sem autoridade significa que cada pessoa parte do princípio de que “tudo depende de mim” [“it’s all on me”]. Claro que isso não significa que elas estão sozinhas num projecto. Pelo contrário, significa aderir a uma mudança de mentalidade. Cada pessoa nomeia-se líder. Esta mudança gera resultados mais rapidamente. E fomenta a construção de equipas.
Os empregadores têm de tomar a iniciativa, porque toda a transformação está nas mãos de equipas multifuncionais em que a autoridade está de tal forma dispersa que torna a liderança sem autoridade uma competência indispensável.
Como damos início a esse processo de co-elevação?
Cada um deve conhecer os colegas e fazer um esforço para construir relações que os liguem aos pares de uma forma mais profunda. Isso vai autorizá-los a assumirem a liderança.
Exemplifico com dois mecanismos básicos que podem ser usados nas reuniões: o agridoce – um momento em que partilhamos um detalhe “doce” pelo qual estamos gratos e uma coisa amarga que nos está a causar problemas no plano profissional ou pessoal; e a verificação pessoal profissional – uma partilha mais profunda em que cada membro da equipa fala de forma franca sobre as questões com que tem de lidar em casa ou no trabalho, coisas que os restantes poderão desconhecer. Esta vulnerabilidade ajuda a unir a equipa, seja qual for a distância física que a separe.
O que diria a quem insiste que trabalha melhor sozinho?
Há muitas funções que requerem trabalho isolado, em sossego. Porém, para verdadeiramente ter impacto em grande escala, ou conduzir a mudança, temos de colaborar. Grandes pensadores ou as mentes mais brilhantes nos negócios são co-criadores.
Como se pode vestir o manto de líder quando isso não faz parte das funções ou do cargo?
Quem quiser fazer isto tem de reclamar primeiro a total responsabilidade sobre a sua capacidade de liderar, aceitando que ninguém precisa de autorizar que ela lidere. Todos somos líderes.
Quem não está numa posição de liderança, mas quer estar, pode suscitar a mudança numa equipa ou numa organização estabelecendo relações de co-elevação.
Faça a pergunta: “Quem está na minha equipa?”, para identificar as relações-chave que têm de ser criadas para impulsionar os planos de trabalho que tem. Depois, foque-se em construir ligações com valor de troca mútuo. Comprometa-se em ter um impacto positivo no trabalho de outras pessoas sem a necessidade de exigir algo em troca.
Quando estas ligações se formam onde há confiança e respeito, então qualquer pessoa, independentemente do seu título, ganha permissão para liderar.
Liderar sem Autoridade e fazer a diferença
Autoria: Keith Ferrazzi
Editora: Actual
216 págs., 17,90€
Nas livrarias desde Março
Como podemos aplicar a co-elevação quando se trabalha remotamente?
O ano de 2020 ensinou-nos muito sobre colaboração virtual em equipas. As nossas pesquisas mostram que demasiadas equipas tiveram desempenhos muito pobres em termos de colaboração remota e, por isso, agora estão a pensar em regressar às soluções antigas, que já não funcionavam antes.
Porém, a pandemia foi um ponto de inflexão em que muitas empresas finalmente decidiram rever sistemas de gestão antigos. Infelizmente, a maioria apenas transferiu as práticas habituais das reuniões físicas para as reuniões virtuais.
No treino de executivos que fazemos na Ferrazzi Greenlight concluímos que as reuniões simplesmente ocuparam o tempo e o espaço que deveria ser do pensamento inovador. “Sobreviver às reuniões” é um objectivo em si mesmo.
A comunicação virtual é diferente, e quando usada de forma eficiente, pode formar laços mais profundos.
Em equipa, o recurso à colaboração assíncrona usando email, Google, Slack, Teamwork e outros, deve ser o primeiro método de colaboração. Agendar reuniões só quando for impossível a comunicação assíncrona, que é uma comunicação aberta; todos contribuem, podem ver o feedback e questionar com franqueza. As decisões ficam gravadas e arquivadas. Com um vasto leque de aplicações, como painéis de discussão, voto sim/não ou ferramentas de recolha de feedback, este tipo de trabalho remoto pode decorrer de forma veloz e em grande escala em toda a organização.
As nossas pesquisas, ao longo de 20 anos, mostram que 74% dos membros de uma equipa não dão a sua opinião com coragem e franqueza nas reuniões presenciais. Isso não promove o pensamento audaz que gera inovação.
Seremos capazes de construir relações duradouras em teletrabalho?
A maioria das pessoas pensa que as reuniões físicas têm uma química social que desaparecerá com a colaboração assíncrona e a comunicação virtual.
Mas as nossas pesquisas, ao longo de 20 anos, mostram que 74% dos membros de uma equipa não dão a sua opinião com coragem e franqueza nas reuniões presenciais. Fazem isso para evitar conflitos. Mas isso também não promove o pensamento audaz que gera inovação.
Recorrer a estratégias como o agridoce, ou mesmo à função Zoom breakout, é básico mas eficiente para qualquer líder que procure comunicação com autenticidade. As pessoas tendem a falar de forma mais corajosa em pequenos grupos, porque a segurança psicológica aumenta.
Também vimos, demasiadas vezes, que grandes debates sobre inovação de processos ou na identificação de novos mercados se transformam num monólogo, em que os líderes perguntam e respondem a todas as questões. O papel do líder é fazer perguntas inteligentes e partir a equipa em grupos mais pequenos para assim poder ouvir todas as vozes.
O papel do líder é fazer perguntas inteligentes e partir a equipa em grupos mais pequenos para assim poder ouvir todas as vozes
O espaço de trabalho está em transformação? Como vê o futuro?
Estou optimista. A pandemia foi um ponto de inflexão. Tantas empresas estavam desesperadas por uma oportunidade para rever a gestão. A covid-19 acelerou esse processo.
Com as câmaras ligadas, o novo ambiente virtual de trabalho tem o potencial de unir ainda mais as pessoas, muito mais do que qualquer sala de reuniões alguma vez poderia. Podemos ver o interior da casa de cada um, e somos capazes de trazer o nosso eu autêntico para o trabalho.
Temos de usar esta oportunidade para criar novas normas sociais no trabalho, mais produtivas. Este é o momento para os líderes terem reuniões virtuais com as equipas confinadas em casa e perguntar-lhes: “Que comportamentos e práticas recentes devemos reconfigurar?”
Em Março do ano passado, estabelecemos uma parceria com a escola de negócios de Harvard para lançar o instituto de pesquisa Go Forward to Work, dedicado a desenvolver pesquisa sobre o futuro do trabalho. As conclusões estarão no meu próximo livro (Competing in a New World of Work: How Radical Adaptability Separates the Best from the Rest), que será publicado pela Harvard Press no Outono.
Reúne as conclusões do que temos recolhido em empresas como a Delta, a GM e a Uber, a par das lições e das ideias de respeitados especialistas em gestão de negócios ou de gestores de topo. Tem também histórias que mostram equipas de alto rendimento e as suas boas práticas. Explora ainda as prioridades actuais dos líderes empresariais que são: 1) Prever; 2) Incluir; 3) Agilidade; 4) Resiliência.
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