Ana Marques Maia, in Público on-line
O fotolivro Non Grata, de Åke Ericson, é um retrato singular do povo cigano realizado ao longo de oito anos, em dez países europeus. "Eles sentem-se discriminados em todos os países que visitei", concluiu, em entrevista ao P3, o autor sueco.
Foi sob o calor de Agosto de 2009, na cidade de Břeclav, na República Checa, que o fotojornalista sueco Åke Ericson tomou conhecimento de uma história que viria a alterar o rumo da sua vida. “O município acabava de relocalizar duas famílias ciganas, após tê-las expulsado das suas casas – onde viviam há várias gerações – para que, no mesmo local, pudesse ser construído um centro comercial”, explicou ao P3, numa entrevista via Skype.
O fotógrafo sueco retratou o quotidiano de várias comunidades ciganas na Europa durante oito anos. França, Sérvia, Kosovo, Roménia, Suécia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Espanha e Suiça são os países que visitou
Ericson conheceu as duas famílias deslocadas. “Eram pessoas muito gentis, amistosas”, relatou. “O município empurrou-as para fora da cidade; passaram a viver a 15 quilómetros de distância do centro de Břeclav, em casas que não dispunham de água canalizada ou aquecimento.” O desrespeito de que foram alvo por parte da instituição governamental checa indignou o sueco, que passaria os oito anos seguintes a documentar o quotidiano deste grupo étnico minoritário em dez países europeus: Roménia, Kosovo, Sérvia, Hungria, Eslováquia, República Checa, Suécia, Suíça, França e Espanha.
“Foram 18 viagens, ao todo”, relembra o fotógrafo. “Oito anos, 18 viagens por dez países.” Mais do dobro dos países que documentou o lendário Josef Koudelka, da Agência Magnum, nos anos 70. Com este projecto, que deu origem ao fotolivro Non Grata, publicado em 2018, Åke pretende desmistificar e deitar por terra os preconceitos que se formaram, na Europa, acerca do modo de vida roma. “Quero revelar a repressão e a miséria de que são vítimas, mas também retratar aqueles que vivem integrados no quotidiano europeu.”
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Lunik IX, Eslováquia
Entre o ponto mais a Ocidente e o mais a Oriente onde esteve em contacto com as comunidades ciganas, grandes diferenças se manifestaram, em termos de discriminação, integração e das condições em que vivem. “Em Espanha, por exemplo”, enuncia Åke, “governo após governo tentou integrá-los". "Trinta anos depois, já se dão casamentos entre roma e não-roma e a maioria das crianças ciganas já frequenta a escola pública. Também existe discriminação, claro, mas eles estão integrados. Há ciganos, na Andaluzia, que já esqueceram a língua romani.”
Viver à margem
Na Suécia, por exemplo, os ciganos “vivem em muito melhores condições” do que no Kosovo, afirma, apesar de referir que existem muitos em situação de sem-abrigo no seu país de origem. “Mas a situação a Leste é radicalmente diferente”, sublinha: “Em Mitrovica [no Kosovo], há ciganos a viver em acampamentos montados sobre solos contaminados por chumbo. Em consequência, nesse local, as crianças nascem com malformações. O estado kosovar não presta qualquer tipo de auxílio a esta população.” Åke é peremptório e não se refere, em exclusivo, ao caso kosovar. “[Os ciganos] vivem à margem da sociedade, sem quaisquer direitos humanos: sociais, políticos, culturais ou económicos.”
A posição longitudinal de cada país não é um indicador fidedigno em matérias de tolerância. Em 2010, o então Presidente francês, Nicolas Sarkozy, expulsou de França mais de mil indivíduos de etnia cigana, de nacionalidades romena e búlgara. Apesar do escândalo que estalou no seio da Comissão e do Parlamento europeus, a medida manteve-se – mesmo que, nos anos seguintes, tenha perdido, consistentemente, tempo de antena nos meios de comunicação social internacionais.
O fotógrafo sueco esteve, em Novembro de 2011, nos arredores de Paris, mais especificamente na comuna de Saint Denis, e assistiu ao desmantelamento de vários acampamentos – prática comum do Governo francês para o combate à habitação ilegal. Visitou um acampamento em particular, onde permaneceu alguns dias. “Nessa altura, não tive muito tempo e as condições eram muito adversas. Quando cheguei a casa e vi as imagens que fiz, fiquei insatisfeito. Quando regressei, por esse motivo, em Junho do ano seguinte, as pessoas que conheci começaram a gritar ‘Mon ami, mon ami’.” “Foi um momento muito emotivo”, recorda.
Sob a máfia kosovar
Em Zurique, na Suíça, o único retrato que incluiu em Non Grata é referente a uma mulher roma vítima de tráfico humano para exploração sexual. “Li sobre o assunto e decidi ir até lá. Tive sorte, porque o bordel que encontrei, onde trabalhavam mulheres ciganas, pertencia à máfia kosovar.” Åke desenvolvera trabalho fotográfico documental sobre o período pós-guerra do Kosovo, entre 1999 e 2009, que deu origem ao fotolivro prefaciado por Kofi Annan, Kosovo In Progress. O domínio da língua albanesa ajudou-o a ganhar a confiança dos donos do estabelecimento, que lhe garantiram a entrada. “Fiz várias imagens, mas apenas uma integrou Non Grata”, disse. Nela figura Victoria, que paga 2360 euros de renda pelo quarto onde vive e trabalha; para trás, numa aldeia romena, deixou a sua família e um filho de cinco anos.
Em Belgrado, na Sérvia, Åke esteve em contacto com uma situação peculiar. “Dos membros da comunidade cigana que visitei, nenhum tinha cidadania sérvia. Vivem numa floresta, dormem, por vezes, sob temperaturas de 20 graus Celsius negativos.” Os roma que vivem na Sérvia foram expulsos do Kosovo pela comunidade albanesa, por terem tomado partido no conflito que marcou o país entre 1998 e 1999. O apoio às forças militares sérvias não garantiu, no pós-guerra, qualquer protecção por parte do país, que os vê como indesejados.
“Fiquei duas semanas com eles, em Julho de 2015. Era Verão, os termómetros marcavam 42 graus Celsius, foi uma experiência difícil. Eu voltava, ao fim do dia, para um quarto de hotel refrigerado, eles não. Mas não se pense que, por isso, eu seja rico. Acho que empobreci para poder realizar o projecto.”
O fotógrafo sueco foi apoiado pelo Instituto de Artes de Estocolmo e beneficiário de algumas bolsas de mérito. “[Esses fundos] foram uma grande ajuda”, ressalvou, ainda que a maior parte das despesas tenha sido suportada por si.
O foco de Non Grata está, sem dúvida, na região da Europa Central e de Leste, assume. Passou, por isso, parte significativa do seu tempo na Eslováquia e na Roménia, onde testemunhou os episódios mais críticos e onde a discriminação é mais evidente. A selecção fotográfica de Åke reflecte isso mesmo: a grande maioria das imagens foram feitas nesses países.
O maior gueto cigano na Europa
Esta escola já não é só para ciganos
Na Eslováquia, Åke Ericson encontrou o maior gueto cigano da Europa: Lunik IX, em Košice. Um conjunto de edifícios construído pelo Governo eslovaco para albergar 2500 pessoas de classe média é agora a residência de 7500 indivíduos de etnia cigana, de acordo com dados obtidos pelo fotógrafo. “Ao longo dos anos, Lunik IX deteriorou-se e transformou-se numa favela onde existe um escoamento de resíduos urbanos deficitário. As condições de vida são muito precárias, as casas não têm gás, água ou electricidade”, descreve. Na Eslováquia, garante, ter um sobrenome cigano ou viver em Lunik IX “é um passaporte para a pobreza e para a marginalização”.
Åke procura entender o motivo pelo qual a comunidade cigana é discriminada na Europa e acredita que a génese está nas conversas que se geram no seio dos lares europeus. “É uma ideia passada de geração em geração”, justifica. “Os pais que têm uma opinião negativa acerca do povo roma transmitem-na aos seus filhos. É algo que passa em conversas corriqueiras que se têm à mesa do jantar. E é verdade que, quando as crianças e jovens saem à rua, também vêem pessoas ciganas a mendigar, o que vem confirmar a tese que lhes foi imputada; mas é um fenómeno circular.”
No caso da Suécia, 80% dos roma que deambulam, sem rumo, pelas ruas de Estocolmo, são provenientes da Roménia e emigraram para escapar às duras condições que enfrentavam no seu país de origem. “Em Janeiro de 2015, a ministra do Trabalho, Família, Protecção Social e do Idoso do Governo da Roménia, Rovana Plumb, visitou Estocolmo”, recorda Åke. “Durante o encontro, a ministra recusou-se a admitir que existe discriminação [contra a etnia cigana] na Roménia. Não foi capaz de assumi-lo.”
Estava um dia muito frio, conta, nevava e as temperaturas rondavam os 15 graus Celsius negativos. “Rovana Plumb recusou encontrar-se com os compatriotas ciganos no exterior.” Para Åke, este é um episódio-modelo, que, acredita, está na génese da relação de mal-estar estabelecida entre ciganos e não-ciganos nos vários países de Leste, onde a tensão é palpável. “A União Europeia tem fundos direccionados para a causa da integração desta minoria que não são usados por estes países, onde a exclusão continua a ser solução”, conclui.
A República não pode desistir dos ciganos
Portugueses ciganos – o escamoteamento da ciganofobia e o discurso institucional
Em busca dos ciganos do Baixo Alentejo - agora já os conhecemos um a um
“Desde os três anos que me lembro de me dizerem que todos os seres humanos têm o mesmo valor, independentemente da sua origem”, recorda o sueco de 57 anos. Foi essa máxima que o guiou ao longo dos 40 anos de carreira, feitos em 2018. “Nos anos 90, trabalhava num famoso jornal escandinavo que me levou até à Ucrânia, onde fotografei uma reportagem. O resultado da peça, quando esta foi publicada, foi uma angariação de fundos que recolheu 300 mil euros em prol de uma causa. Aprendi, nesse momento, que o meu trabalho tem o poder de mudar o rumo dos acontecimentos.”
Åke Ericson acha que Non Grata, expressão que significa “indesejado”, deveria ser visto pelo máximo número de pessoas – mas, sobretudo, pela classe política de Bruxelas. “Eu não fiz este trabalho para mim ou por mim. Fi-lo com o coração, sim, mas pensando nas pessoas que retratei.”
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15.1.19
15.11.18
Teatro - Uma Palmilha na engrenagem a mostrar a vida como ela é
Mariana Correia Pinto (texto) e Paulo Pimenta (fotografia), in Público on-line
Palmilha Dentada abriu portas a todos os artistas que quisessem integrar uma das suas criações. Precariedade, recibos verdes, ausência de políticas culturais. Uma peça-manifesto sobre a crise no teatro que é, na verdade, a crise de um país. Antes de Borla que Mal Pago está em cena até sábado, 17 de Novembro.
Madu leva uma música ensaiada, procura mostrar o timbre afinado. O casting, entra e sai de talento mais ou menos evidente, é um palco de ansiedades e medos, de oportunidade e sonhos. Vítor, o encenador, interrompe a melodia: “Já pagas IVA?”. E perante o desentendimento da actriz, troca por miúdos: “Se já atingiste os dez mil euros?”. “Eu já tenho actividade há cinco anos, mas acho que ainda não”, responde hesitante. “Eu dizia dez mil por ano, não é acumulado”, aponta o encenador. “Dez mil num ano? É possível? Uau!”. A plateia manifesta-se em gargalhada. A seriedade do assunto fica latente. Parece invenção de teatro, a ficção a dar asas ao exagero. Mas em Antes de Borla Que Mal Pago, produção da Palmilha Dentada, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Mesmo quando, por vezes, pareça demasiado absurdo para ser verdade. “É tudo real”, sublinha o encenador Ricardo Alves. E tudo pode ser visto até este sábado, 17 de Novembro, no Armazém 22, em Vila Nova de Gaia.
As políticas culturais do Estado central e das autarquias foram plantando a tristeza nos dias de Ricardo Alves. O encenador, nestas andanças há mais de duas décadas e “pai” da quase maior de idade Palmilha Dentada, estava cansado de ver “tanto talento desperdiçado” e testemunhar a aposta em políticas de cartão. Condenadas a ruir, sem futuro possível. E desse desencanto fez nascer um apelo no Facebook: a “estudantes de artes cénicas, actores profissionais desempregados, criativos que não querem ou não conseguem criar uma estrutura ou companhia, gente a fazer-se à vida, gente que acredita que mais vale fazer de borla do que mal pago e pessoas que não conseguem ou não querem andar a trabalhar três meses numa criação para apresentar uma vez num qualquer teatro municipal”. Em regime de “trabalho intensivo”, a Palmilha convocava artistas para vestirem um manifesto, numa peça politicamente incorrecta. Remédio para gargalhadas instantâneas e depressão pós-visualização.
Ricardo Alves recorda o “melhor elogio” alguma vez recebido para ilustrar o que gostava de produzir com esta “comédia à Palmilha”. Um dia, depois de ver Cidades que Partem, um amigo contou-lhe os efeitos do espectáculo: tinha adorado, dado umas boas risadas e chegado a casa deprimido. “O objectivo da arte é esse”, instrui, “entreter, comunicar, aquecer e levar um lastro para casa que pode não ser tão simpático”.
A peça, em cena desde 25 de Outubro e até sábado (21h46, cinco euros ou 7,5 para amigos), é uma reflexão sobre o actual momento das artes performativas em Portugal e no Porto em particular. Mas boa parte do país corre o risco de se ver ao espelho nas dores da cultura. “Falamos da realidade do teatro, mas é a mesma de outras profissões”, diz Ricardo Alves: “Há uma quantidade de esquemas para atrasar a entrada dos jovens na vida profissional que são atrozes. Estamos fartos de desperdiçar talento. Devemos ter os caixas de supermercado mais qualificados do mundo. Mas não conseguem singrar neste país porque está tudo a construir CCB e ninguém quer construir teatro de bairro.”
A metodologia foi em boa parte o improviso e ergueu um espectáculo num tempo recorde de cerca de três semanas. Nos dois primeiros dias, conversou-se. Ouviram-se as histórias mais surrealistas, as feitas cómicas de tão trágicas que são, as mais comuns. Fizeram-se improvisos à volta da ideia de um casting, baptizou-se a banda que acompanharia a peça de Penhorados, homenagem aos muitos artistas com dívidas à Segurança Social, criou-se uma “solução” de palcos em rotundas por todo o país. O texto, com base nesse “laboratório”, foi depois trabalhado por Ricardo Alves. É trágico e cómico. Às vezes cáustico. A vida como ela é.
A Palmilha volta a dar uma “dentada” na condição humana
“É também de referir a deriva ziguezagueante do poder central no que às políticas de apoio às artes diz respeito. Sem uma visão política estruturada e sem um modelo de apoio que pudesse ser instrumento dessa política, tem-se optado por tornar a ferramenta na própria essência política, assumindo como principal objectivo a longo prazo a navegação em mar tranquilo, tentando ao máximo dar resposta às antiguidades estabelecidas de forma a evitar o mar revolto”, anuncia uma das actrizes numa suposta conferência de imprensa. E, ao lado, alguém traduz: “Diz-nos a Mariana que ninguém pensa na merda que é preciso fazer, e que só querem que não aconteça merda da grande."
Há dívidas à segurança social, castings onde se revelam egos maiores do que palcos, gente a quem o cachet é dado sob a forma de convites para venderem, artistas incrédulos com a possibilidade de atingir 10 mil euros de rendimento num ano, actores que têm de ser cozinheiros, motoristas, promotores, assessores. “Mesmo a situação absurda do político dizer ‘peguem lá as chaves e não me chateiem mais’ é o mais real que acontece na política para a cultura em Portugal”, lamenta o encenador da Palmilha Dentada, companhia com “casa emprestada” no Armazém 22 e sem apoios estatais ou camarários.
Ricardo Alves, entusiasta da comédia e crente da possibilidade de nos rirmos de tudo, não gosta de ver a política para a cultura parecer uma brincadeira de gente grande. Governos e autarquias. O Estado, critica, “tem vindo a demitir-se e a querer que cada grupo seja quase um ministeriozinho da Cultura, com sector educativo, teatro para a infância, reciclagem de actores, preocupação com o público e ainda espectáculos sobre integração das mulheres, deficiência, contra o racismo.”
No Porto, os espaços para as companhias actuarem são cada vez menos. E as estruturas vão caindo, perante a missão impossível de sobreviver sem apoios. O Pé de Vento perdeu recentemente o Teatro da Vilarinha após o fim de uma parceria de mais de vinte anos. As Boas Raparigas fecharam. Muitos grupos perderam a casa depois do fecho da Fábrica, num processo envolto em polémica. Por causa de uma política de apresentação das peças em apenas dois ou três dias, construídas em dois ou três meses de trabalho, Ricardo Alves escreveu há tempos “o elogio da cadeira vazia”, tentativa de combater a “ânsia de encher plateias da forma mais selvagem possível” porque “é preciso haver cadeiras vazias para alguém se decidir a ocupá-las”.
Fechou a Fábrica e “a produção artística da cidade ficou mais pobre”
Uma mudança estrutural é urgente. Mas se não vier a revolução, venha ao menos uma evolução: “1% para a cultura, não sei se serve de muito mas é um salto”, começa Ricardo Alves, a sublinhar a necessidade de uma mudança no olhar: “Temos de parar de encarar a cultura como um gasto, vê-la como se vê a saúde e a educação. A cultura é a única coisa que nos pode salvar da barbárie e da não-civilização, da falta de empatia e solidariedade”. E uma outra estratégia: prescindir das “coisas faraónicas e grandes” e apostar em “trabalho de lapa”, fazendo os políticos implementar “medidas que darão frutos a 30 anos”.
Da plateia informal do A22, com bar aberto durante o intervalo, vêem-se as tristezas, desilusões, angústias e medos. Por três semanas de ensaio e 12 noites de palco, faz-se da tragédia comédia. Dá-se lugar ao riso e ao sonho. No final, conta-se a receita de bilheteira e divide-se entre os 16 em palco e mais uns na retaguarda. É pouco, mas decente. E não é conivência com o mercado, é um manifesto: porque antes de borla do que mal pago.
Palmilha Dentada abriu portas a todos os artistas que quisessem integrar uma das suas criações. Precariedade, recibos verdes, ausência de políticas culturais. Uma peça-manifesto sobre a crise no teatro que é, na verdade, a crise de um país. Antes de Borla que Mal Pago está em cena até sábado, 17 de Novembro.
Madu leva uma música ensaiada, procura mostrar o timbre afinado. O casting, entra e sai de talento mais ou menos evidente, é um palco de ansiedades e medos, de oportunidade e sonhos. Vítor, o encenador, interrompe a melodia: “Já pagas IVA?”. E perante o desentendimento da actriz, troca por miúdos: “Se já atingiste os dez mil euros?”. “Eu já tenho actividade há cinco anos, mas acho que ainda não”, responde hesitante. “Eu dizia dez mil por ano, não é acumulado”, aponta o encenador. “Dez mil num ano? É possível? Uau!”. A plateia manifesta-se em gargalhada. A seriedade do assunto fica latente. Parece invenção de teatro, a ficção a dar asas ao exagero. Mas em Antes de Borla Que Mal Pago, produção da Palmilha Dentada, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Mesmo quando, por vezes, pareça demasiado absurdo para ser verdade. “É tudo real”, sublinha o encenador Ricardo Alves. E tudo pode ser visto até este sábado, 17 de Novembro, no Armazém 22, em Vila Nova de Gaia.
As políticas culturais do Estado central e das autarquias foram plantando a tristeza nos dias de Ricardo Alves. O encenador, nestas andanças há mais de duas décadas e “pai” da quase maior de idade Palmilha Dentada, estava cansado de ver “tanto talento desperdiçado” e testemunhar a aposta em políticas de cartão. Condenadas a ruir, sem futuro possível. E desse desencanto fez nascer um apelo no Facebook: a “estudantes de artes cénicas, actores profissionais desempregados, criativos que não querem ou não conseguem criar uma estrutura ou companhia, gente a fazer-se à vida, gente que acredita que mais vale fazer de borla do que mal pago e pessoas que não conseguem ou não querem andar a trabalhar três meses numa criação para apresentar uma vez num qualquer teatro municipal”. Em regime de “trabalho intensivo”, a Palmilha convocava artistas para vestirem um manifesto, numa peça politicamente incorrecta. Remédio para gargalhadas instantâneas e depressão pós-visualização.
Ricardo Alves recorda o “melhor elogio” alguma vez recebido para ilustrar o que gostava de produzir com esta “comédia à Palmilha”. Um dia, depois de ver Cidades que Partem, um amigo contou-lhe os efeitos do espectáculo: tinha adorado, dado umas boas risadas e chegado a casa deprimido. “O objectivo da arte é esse”, instrui, “entreter, comunicar, aquecer e levar um lastro para casa que pode não ser tão simpático”.
A peça, em cena desde 25 de Outubro e até sábado (21h46, cinco euros ou 7,5 para amigos), é uma reflexão sobre o actual momento das artes performativas em Portugal e no Porto em particular. Mas boa parte do país corre o risco de se ver ao espelho nas dores da cultura. “Falamos da realidade do teatro, mas é a mesma de outras profissões”, diz Ricardo Alves: “Há uma quantidade de esquemas para atrasar a entrada dos jovens na vida profissional que são atrozes. Estamos fartos de desperdiçar talento. Devemos ter os caixas de supermercado mais qualificados do mundo. Mas não conseguem singrar neste país porque está tudo a construir CCB e ninguém quer construir teatro de bairro.”
A metodologia foi em boa parte o improviso e ergueu um espectáculo num tempo recorde de cerca de três semanas. Nos dois primeiros dias, conversou-se. Ouviram-se as histórias mais surrealistas, as feitas cómicas de tão trágicas que são, as mais comuns. Fizeram-se improvisos à volta da ideia de um casting, baptizou-se a banda que acompanharia a peça de Penhorados, homenagem aos muitos artistas com dívidas à Segurança Social, criou-se uma “solução” de palcos em rotundas por todo o país. O texto, com base nesse “laboratório”, foi depois trabalhado por Ricardo Alves. É trágico e cómico. Às vezes cáustico. A vida como ela é.
A Palmilha volta a dar uma “dentada” na condição humana
“É também de referir a deriva ziguezagueante do poder central no que às políticas de apoio às artes diz respeito. Sem uma visão política estruturada e sem um modelo de apoio que pudesse ser instrumento dessa política, tem-se optado por tornar a ferramenta na própria essência política, assumindo como principal objectivo a longo prazo a navegação em mar tranquilo, tentando ao máximo dar resposta às antiguidades estabelecidas de forma a evitar o mar revolto”, anuncia uma das actrizes numa suposta conferência de imprensa. E, ao lado, alguém traduz: “Diz-nos a Mariana que ninguém pensa na merda que é preciso fazer, e que só querem que não aconteça merda da grande."
Há dívidas à segurança social, castings onde se revelam egos maiores do que palcos, gente a quem o cachet é dado sob a forma de convites para venderem, artistas incrédulos com a possibilidade de atingir 10 mil euros de rendimento num ano, actores que têm de ser cozinheiros, motoristas, promotores, assessores. “Mesmo a situação absurda do político dizer ‘peguem lá as chaves e não me chateiem mais’ é o mais real que acontece na política para a cultura em Portugal”, lamenta o encenador da Palmilha Dentada, companhia com “casa emprestada” no Armazém 22 e sem apoios estatais ou camarários.
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Fechou a Fábrica e “a produção artística da cidade ficou mais pobre”
Uma mudança estrutural é urgente. Mas se não vier a revolução, venha ao menos uma evolução: “1% para a cultura, não sei se serve de muito mas é um salto”, começa Ricardo Alves, a sublinhar a necessidade de uma mudança no olhar: “Temos de parar de encarar a cultura como um gasto, vê-la como se vê a saúde e a educação. A cultura é a única coisa que nos pode salvar da barbárie e da não-civilização, da falta de empatia e solidariedade”. E uma outra estratégia: prescindir das “coisas faraónicas e grandes” e apostar em “trabalho de lapa”, fazendo os políticos implementar “medidas que darão frutos a 30 anos”.
Da plateia informal do A22, com bar aberto durante o intervalo, vêem-se as tristezas, desilusões, angústias e medos. Por três semanas de ensaio e 12 noites de palco, faz-se da tragédia comédia. Dá-se lugar ao riso e ao sonho. No final, conta-se a receita de bilheteira e divide-se entre os 16 em palco e mais uns na retaguarda. É pouco, mas decente. E não é conivência com o mercado, é um manifesto: porque antes de borla do que mal pago.
17.9.18
Portugal entre os cinco países da UE que menos investem na cultura
por Jornal de Negócios
O país da União Europeia que mais investe em cultura é a Hungria, com a República da Irlanda a ocupar o fundo da tabela.
Os países da União Europeia investiram, em 2016, 1% do produto interno bruto (PIB) em lazer, cultura e religião, um valor idêntico ao verificado no ano anterior, revelou esta quarta-feira, 12 de Setembro, o Eurostat. Na Zona Euro esta percentagem aumenta para 1,1%.
A liderar a lista dos países que mais investem nestas áreas está a Hungria (3,3%), seguindo-se Estónia (2,1%) e a Croácia e a Dinamarca (ambos com 1,8%). Do lado oposto está a Irlanda (0,5%), o Reino Unido (0,6%) e três países periféricos em ex-aequo (0,8%): Grécia, Itália e Portugal.
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Ministro diz que 1% do orçamento para a cultura é "objectivo"
Ministério da Cultura anuncia vontade de reformular modelo de apoio às artes
Costa: "PSD acordou para Cultura no dia em que a Cultura protestou”
O Eurostat explica que neste indicador são incluídos os gastos com desporto e espaços de lazer, bibliotecas, museus, teatros, serviços de transmissão e espaços religiosos, entre outros.
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A liderar a lista dos países que mais investem nestas áreas está a Hungria (3,3%), seguindo-se Estónia (2,1%) e a Croácia e a Dinamarca (ambos com 1,8%). Do lado oposto está a Irlanda (0,5%), o Reino Unido (0,6%) e três países periféricos em ex-aequo (0,8%): Grécia, Itália e Portugal.
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13.9.17
Liliana Rodrigues nomeada para relatório da Comissão de Cultura e Educação
in Dnotícias
A eurodeputada Liliana Rodrigues foi hoje nomeada pelo Grupo Socialista do Parlamento Europeu para acompanhar a elaboração do relatório da Comissão de Cultura e Educação sobre barreiras estruturais e financeiras no acesso à cultura.
Sendo a inclusão um dos princípios fundamentais da União Europeia, a deputada socialista acolheu com agrado esta nomeação para trabalhar num relatório que “permitirá não só identificar os obstáculos no acesso e usufruto de todos aos bens culturais como, ao mesmo tempo, sugerir medidas que contribuam para a remoção dos mesmos”. São vários os obstáculos que, de acordo com Liliana Rodrigues, impedem o acesso de todos à cultura, “referimo-nos obviamente aos obstáculos físicos, que enfrentam as pessoas portadoras de deficiência, mas também aos financeiros, relacionados com a percentagem do orçamento familiar que pode ser reservada para esse fim, aos geográficos, sentidos por todos aqueles que vivem em áreas mais isoladas, e ainda a outros que podem assumir um carácter mais intangível e que têm que ver com barreiras linguísticas, escolhas de vida, tradições e interesses pessoais”.
A defesa da cultura como elemento privilegiado para promover a inclusão social, a cidadania e o respeito pela diversidade é um dos objectivos de Liliana Rodrigues, que destaca ainda o papel que a mesma pode ter na redução da pobreza por meio da criação de emprego nas indústrias criativas e no incentivo ao turismo cultural.
Também hoje foi aprovada uma missão a Lisboa dos deputados socialistas da Comissão da Educação e Cultura, em data a definir, iniciativa que partiu de uma sugestão da deputada madeirense após a eleição da capital portuguesa como a melhor cidade Erasmus de 2017.
A eurodeputada Liliana Rodrigues foi hoje nomeada pelo Grupo Socialista do Parlamento Europeu para acompanhar a elaboração do relatório da Comissão de Cultura e Educação sobre barreiras estruturais e financeiras no acesso à cultura.
Sendo a inclusão um dos princípios fundamentais da União Europeia, a deputada socialista acolheu com agrado esta nomeação para trabalhar num relatório que “permitirá não só identificar os obstáculos no acesso e usufruto de todos aos bens culturais como, ao mesmo tempo, sugerir medidas que contribuam para a remoção dos mesmos”. São vários os obstáculos que, de acordo com Liliana Rodrigues, impedem o acesso de todos à cultura, “referimo-nos obviamente aos obstáculos físicos, que enfrentam as pessoas portadoras de deficiência, mas também aos financeiros, relacionados com a percentagem do orçamento familiar que pode ser reservada para esse fim, aos geográficos, sentidos por todos aqueles que vivem em áreas mais isoladas, e ainda a outros que podem assumir um carácter mais intangível e que têm que ver com barreiras linguísticas, escolhas de vida, tradições e interesses pessoais”.
A defesa da cultura como elemento privilegiado para promover a inclusão social, a cidadania e o respeito pela diversidade é um dos objectivos de Liliana Rodrigues, que destaca ainda o papel que a mesma pode ter na redução da pobreza por meio da criação de emprego nas indústrias criativas e no incentivo ao turismo cultural.
Também hoje foi aprovada uma missão a Lisboa dos deputados socialistas da Comissão da Educação e Cultura, em data a definir, iniciativa que partiu de uma sugestão da deputada madeirense após a eleição da capital portuguesa como a melhor cidade Erasmus de 2017.
14.8.17
Observar a humanidade através do cinema
António Loja Neves, in Expresso
Da paixão de um historiador francês da arte cinematográfica pela região minhota melgacense nasceu um Museu do Cinema e a ideia de um festival internacional de documentários que vingou em Melgaço e ali cresce há quatro anos, fadado para desenvolver-se. Todos os anos, cinema com gente dentro
O festival Filmes do Homem, na vila de Melgaço, no extremo norte minhoto de Portugal, é organizado pela Associação de Viana do Castelo AO NORTE e dirigida por uma atrevida equipa coordenada por Carlos Eduardo Viana e por Rui Ramos, propõe um significativo lote de obras e premeia três documentários, dois portugueses e um estrangeiro de longa-metragem. Este ano foram contemplados a longa-metragem portuense “Tarrafal”, de Pedro Neves, e “Cidade Pequena”, a curta de Diogo Costa Amarante, já destacada em Berlim, bem como a melhor longa-metragem internacional “La Chambre Vide”, de Jasna Krajinovic.
Pedro Neves venceu o prémio de melhor documentário português com um trabalho em torno da memória de um dos antigos bairros da periferia da cidade do Porto, famigerado pela fama da sua carga de exclusão, e certamente por isso denominado Tarrafal. Tem uma história tumultuosa, mas o seu momento crucial terá sido a decisão de o abater ao efetivo, o que o transformou num monte de lixo e de escombros, por onde vagueiam surpreendentes personagens que fazem parte da sua história e não conseguem separar-se definitivamente daquele espaço e das suas recordações, mesmo quando é suposto não serem as melhores…
Entre a resistência dos que permanecem naquele território juncado de fantasmas e de restos putrefactos de edificações entretanto esmagadas por maquinarias a mando da câmara municipal, vamos conhecendo as confidências de antigos habitantes, “agarrados” nas memórias antigas e que deambulam perdidos como se lhes arrancassem a alma e parte importante da razão de viver. Anos depois da demolição do casario, dispersados os habitantes por outras localidades, ali persiste ainda a relação inesperada, quase umbilical, de um punhado de gente excluída que não consegue recuperar a vida que, dizem, lhes foi roubada quando o bairro se desmoronou e deixou de fazer parte da sua existência. Duro, quase fantasmagórico, o filme dá voz aos que ainda por ali vão relembrando outros tempos que não há maneira de salvar das ruínas…
Já a obra vencedora de melhor documentário de curta ou média-metragem internacional, trabalho de fim de mestrado de Diogo Costa Amarante num instituto norte-americano, discorre sobre o imaginário e os receios de Frederico, uma criança de seis anos que acaba de descobrir na escola que as pessoas morrem quando o coração para de bater. Naquele dia não consegue dormir e a mãe tem que cumprir, com ele, um longo fadário até à reconquista da serenidade e do almejado equilíbrio. Deste filme se pode dizer ser o de um “one man show”, pois Andrade, para além da cumplicidade familiar no apoio ao financiamento, foi realizador, produtor, argumentista, diretor de fotografia, de montagem e de som. Resultado deste esforço, conquistou o Urso de Ouro da Berlinale deste ano, para uma curta-metragem. A ousadia do formato pelo que optou, pouco comum em cinema, e para mais com referências a período clássico da pintura, valeu-lhe o destaque em Berlim, e a conquista da ‘torre de menagem’ em Melgaço.
“Quarto Vazio”, uma obra em torno as famílias desfeitas por causa da fuga de filhos para se incorporarem nas fileiras do Daesh
“Quarto Vazio”, uma obra em torno as famílias desfeitas por causa da fuga de filhos para se incorporarem nas fileiras do Daesh
A melhor longa-metragem internacional, “O Quarto Vazio”, foi entregue à eslovena Jasna Krajinovic, para a sua co-produção fanco-belga “O Quarto Vazio”, que regista a dor, a surpresa e o estupor de uma mãe, Saliha, quando percebe que o filho partiu abruptamente para a Síria, a fim de incorporar-se nos exércitos que fazem a jihad. Ainda mal refeita da notícia, três meses depois a família é informada da sua morte. Destroçada, Saliha decide intervir e juntar-se ao movimento de outros pais cujos filhos um dia, sem deixarem notícia disso ou qualquer rasto, partiram para a Síria e integraram os combates islâmicos.
Caminhos (quase) desconhecidos da vida do cantor José Afonso…
Além dos vencedores, houve filmes que possibilitaram o visionamento de obras em torno de temáticas candentes, aproveitadas para debates e acesa troca de ideias entre cineastas e público. Destaquemos “Rosas de Ermera”, um trabalho muito sensível a propósito da separação da família do cantor José Afonso, quando a Segunda Guerra Mundial a dividiu, e que teve que deslocar-se de Lourenço Marques, onde o pai era juiz, para Timor, regressando os dois irmãos mais velhos – entre eles Zeca Afonso, na altura com 10 anos – a Portugal, para casa de familiares, já que em Díli não havia condições para continuarem os estudos. Dessa difícil separação, alimentada pelos trágicos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial e pela invasão japonesa daquele território colonial português, Luís Filipe Rocha tece uma delicada teia de memórias entre a irmã, que acompanhou o pai na ida para Timor, e o irmão que sobreviveu após o falecimento de Zeca Afonso, uma renda precisa, que Rocha respeita com sensibilidade e escrúpulo, aproveitando a surpreendente capacidade de memória vivaz dos dois ‘narradores’ que vão construindo os episódios das suas vidas naquela época conturbada, independentes um do outro. Um filme a não perder e a merecer cuidada divulgação, por um lado porque quase nada se sabe daquela fase da história pessoal do cantor, e por outro porque se trata de um testemunho histórico de testemunhos de uma fase da Grande Guerra de que quase ninguém fala ou analisa.
“Terceiro Andar”, de Luciana Fina, aborda o cruzamento de culturas e de sentimentos em plena cidade de Lisboa
“Terceiro Andar”, de Luciana Fina, aborda o cruzamento de culturas e de sentimentos em plena cidade de Lisboa
…e histórias do Bairro das Colónias
A italiana Luciana Fina veio viver para Lisboa há mais de 20 anos, passando a habitar na cidade do Tejo antes de ela ser moda para os europeus, e quando os estrangeiros aqui estabelecidos no velho centro histórico da cidade, à freguesia de Arroios, começavam a estruturar uma comunidade heterogénea, multicolor e multicultural. Luciana vive num clássico edifício de quatro andares do denominado Bairro das Colónias, e ali foi criando laços sociais que hoje são já de amizade. Num cruzamento de culturas ancestrais e hábitos quotidianos, num tributo coletivo pelas formas diversas de encarar sentimentos, a realizadora decide trabalhar um filme em torno destas descobertas transportadas por línguas diversificadas. Afinal, nesta ‘babilónia’ intercontinental, em que língua se escreve uma declaração de amor?
“Ilha dos Ausentes” refere uma viagem entre a França e Portugal num carro com emigrantes portugueses, em período de férias
“Ilha dos Ausentes” refere uma viagem entre a França e Portugal num carro com emigrantes portugueses, em período de férias
Do filósofo parisiense e a guerra…
… até ao emigrante português e a viagem ao país
Sempre polémico, o filósofo e escritor francês Bernard-Henri Lévy desloca-se com uma equipa de operadores de câmara até o Oriente. A viagem, complexa, decorre entre julho e dezembro de 2015. Percorrem os 1000 quilómetros da linha da frente que separa o Curdistão iraquiano da região onde estão estacionadas as tropas do Daesh. O filme apresentado em Melgaço é uma espécie incomum de um diário de bordo em imagens, privilegiada de um conflito de que muito se fala mas é muito mal estudada e onde se jogam decisivas páginas da História global da humanidade.
José Vieira, emigrante em França desde 1965, é um dos principais realizadores que foram registando o fenómeno da emigração, e não apenas o êxodo português, desde os tempos dos ‘bidonvilles’ de barracas atoladas no meio da lama, até ao novo período dos grandes carros, as vistosas ‘bagnoles’, testemunho mais recente da riqueza e do progresso acumulados, tantas vezes menos verdadeiros mas alugados pelo período de férias para impressionar os que por aqui decidiram ficar na terreola. Ele realizou cerca de trinta documentários incidindo neste particular, que ficam como importante testemunho, insubstituível, da saga da emigração portuguesa.
Este ano trouxe “A Ilha dos Ausentes”, registo que dura uma hora sobre a viagem que traz de volta ao país de nascimento os que fugiram à miséria e à guerra colonial, em demanda de quimeras. Trata-se de um filme ‘fechado’, dentro de um carro “onde se permanece, ao longo dos quilómetros de estrada, sob custódia da nossa memória, num dia único estafante”, um percurso que serve perfeitamente para “nos interrogarmos sobre a relação que nos une ao país da nossa infância”.
Os filmes apresentados no Minho concorrem ao Prémio Jean Loup Passek, reconhecido historiador e crítico francês falecido no ano passado, que se apaixonou pela paisagem de Melgaço e à vila doou grande parte do seu espólio, constituído por livros, fotografias e cartazes temáticos, documentos, câmaras e outros aparelhos cinematográficos históricos que estão na origem da constituição do pequeno mas interessante Museu de Cinema local. A Câmara Municipal, dirigida por Manoel Calçada Pombal, cuida e mantém aberto o estabelecimento, e do entusiasmo do presidente da edilidade e sua compreensão sobre o interesse de registar e debater temáticas que respeitam à região, nasceu e tem crescido o Festival de Cinema Documentário Filmes do Homem, privilegiando tês vetores: identidade, memória, fronteira. Num território português dos mais marcados pela emigração e, outrora, pelo contrabando, estes temas são cruciais e trazem anualmente novas abordagens, até pelo olhar dos jovens que frequentam as experiências da residência cinematográfica coordenada pelo cineasta Pedro Sena Nunes, e que a cada ano permitem a aumento do acervo do arquivo de imagens sobre Melgaço e paragens limítrofes.
Esta iniciativa, que conjuga visionamento de filmes e amplos debates, é um laborioso trabalho que garante um olhar plural sobre o mundo contemporâneo, não deixando de parte a importância da preservação da memória da vida melgacense, dos hábitos e das festividades dos seus habitantes.
Da paixão de um historiador francês da arte cinematográfica pela região minhota melgacense nasceu um Museu do Cinema e a ideia de um festival internacional de documentários que vingou em Melgaço e ali cresce há quatro anos, fadado para desenvolver-se. Todos os anos, cinema com gente dentro
O festival Filmes do Homem, na vila de Melgaço, no extremo norte minhoto de Portugal, é organizado pela Associação de Viana do Castelo AO NORTE e dirigida por uma atrevida equipa coordenada por Carlos Eduardo Viana e por Rui Ramos, propõe um significativo lote de obras e premeia três documentários, dois portugueses e um estrangeiro de longa-metragem. Este ano foram contemplados a longa-metragem portuense “Tarrafal”, de Pedro Neves, e “Cidade Pequena”, a curta de Diogo Costa Amarante, já destacada em Berlim, bem como a melhor longa-metragem internacional “La Chambre Vide”, de Jasna Krajinovic.
Pedro Neves venceu o prémio de melhor documentário português com um trabalho em torno da memória de um dos antigos bairros da periferia da cidade do Porto, famigerado pela fama da sua carga de exclusão, e certamente por isso denominado Tarrafal. Tem uma história tumultuosa, mas o seu momento crucial terá sido a decisão de o abater ao efetivo, o que o transformou num monte de lixo e de escombros, por onde vagueiam surpreendentes personagens que fazem parte da sua história e não conseguem separar-se definitivamente daquele espaço e das suas recordações, mesmo quando é suposto não serem as melhores…
Entre a resistência dos que permanecem naquele território juncado de fantasmas e de restos putrefactos de edificações entretanto esmagadas por maquinarias a mando da câmara municipal, vamos conhecendo as confidências de antigos habitantes, “agarrados” nas memórias antigas e que deambulam perdidos como se lhes arrancassem a alma e parte importante da razão de viver. Anos depois da demolição do casario, dispersados os habitantes por outras localidades, ali persiste ainda a relação inesperada, quase umbilical, de um punhado de gente excluída que não consegue recuperar a vida que, dizem, lhes foi roubada quando o bairro se desmoronou e deixou de fazer parte da sua existência. Duro, quase fantasmagórico, o filme dá voz aos que ainda por ali vão relembrando outros tempos que não há maneira de salvar das ruínas…
Já a obra vencedora de melhor documentário de curta ou média-metragem internacional, trabalho de fim de mestrado de Diogo Costa Amarante num instituto norte-americano, discorre sobre o imaginário e os receios de Frederico, uma criança de seis anos que acaba de descobrir na escola que as pessoas morrem quando o coração para de bater. Naquele dia não consegue dormir e a mãe tem que cumprir, com ele, um longo fadário até à reconquista da serenidade e do almejado equilíbrio. Deste filme se pode dizer ser o de um “one man show”, pois Andrade, para além da cumplicidade familiar no apoio ao financiamento, foi realizador, produtor, argumentista, diretor de fotografia, de montagem e de som. Resultado deste esforço, conquistou o Urso de Ouro da Berlinale deste ano, para uma curta-metragem. A ousadia do formato pelo que optou, pouco comum em cinema, e para mais com referências a período clássico da pintura, valeu-lhe o destaque em Berlim, e a conquista da ‘torre de menagem’ em Melgaço.
“Quarto Vazio”, uma obra em torno as famílias desfeitas por causa da fuga de filhos para se incorporarem nas fileiras do Daesh
“Quarto Vazio”, uma obra em torno as famílias desfeitas por causa da fuga de filhos para se incorporarem nas fileiras do Daesh
A melhor longa-metragem internacional, “O Quarto Vazio”, foi entregue à eslovena Jasna Krajinovic, para a sua co-produção fanco-belga “O Quarto Vazio”, que regista a dor, a surpresa e o estupor de uma mãe, Saliha, quando percebe que o filho partiu abruptamente para a Síria, a fim de incorporar-se nos exércitos que fazem a jihad. Ainda mal refeita da notícia, três meses depois a família é informada da sua morte. Destroçada, Saliha decide intervir e juntar-se ao movimento de outros pais cujos filhos um dia, sem deixarem notícia disso ou qualquer rasto, partiram para a Síria e integraram os combates islâmicos.
Caminhos (quase) desconhecidos da vida do cantor José Afonso…
Além dos vencedores, houve filmes que possibilitaram o visionamento de obras em torno de temáticas candentes, aproveitadas para debates e acesa troca de ideias entre cineastas e público. Destaquemos “Rosas de Ermera”, um trabalho muito sensível a propósito da separação da família do cantor José Afonso, quando a Segunda Guerra Mundial a dividiu, e que teve que deslocar-se de Lourenço Marques, onde o pai era juiz, para Timor, regressando os dois irmãos mais velhos – entre eles Zeca Afonso, na altura com 10 anos – a Portugal, para casa de familiares, já que em Díli não havia condições para continuarem os estudos. Dessa difícil separação, alimentada pelos trágicos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial e pela invasão japonesa daquele território colonial português, Luís Filipe Rocha tece uma delicada teia de memórias entre a irmã, que acompanhou o pai na ida para Timor, e o irmão que sobreviveu após o falecimento de Zeca Afonso, uma renda precisa, que Rocha respeita com sensibilidade e escrúpulo, aproveitando a surpreendente capacidade de memória vivaz dos dois ‘narradores’ que vão construindo os episódios das suas vidas naquela época conturbada, independentes um do outro. Um filme a não perder e a merecer cuidada divulgação, por um lado porque quase nada se sabe daquela fase da história pessoal do cantor, e por outro porque se trata de um testemunho histórico de testemunhos de uma fase da Grande Guerra de que quase ninguém fala ou analisa.
“Terceiro Andar”, de Luciana Fina, aborda o cruzamento de culturas e de sentimentos em plena cidade de Lisboa
“Terceiro Andar”, de Luciana Fina, aborda o cruzamento de culturas e de sentimentos em plena cidade de Lisboa
…e histórias do Bairro das Colónias
A italiana Luciana Fina veio viver para Lisboa há mais de 20 anos, passando a habitar na cidade do Tejo antes de ela ser moda para os europeus, e quando os estrangeiros aqui estabelecidos no velho centro histórico da cidade, à freguesia de Arroios, começavam a estruturar uma comunidade heterogénea, multicolor e multicultural. Luciana vive num clássico edifício de quatro andares do denominado Bairro das Colónias, e ali foi criando laços sociais que hoje são já de amizade. Num cruzamento de culturas ancestrais e hábitos quotidianos, num tributo coletivo pelas formas diversas de encarar sentimentos, a realizadora decide trabalhar um filme em torno destas descobertas transportadas por línguas diversificadas. Afinal, nesta ‘babilónia’ intercontinental, em que língua se escreve uma declaração de amor?
“Ilha dos Ausentes” refere uma viagem entre a França e Portugal num carro com emigrantes portugueses, em período de férias
“Ilha dos Ausentes” refere uma viagem entre a França e Portugal num carro com emigrantes portugueses, em período de férias
Do filósofo parisiense e a guerra…
… até ao emigrante português e a viagem ao país
Sempre polémico, o filósofo e escritor francês Bernard-Henri Lévy desloca-se com uma equipa de operadores de câmara até o Oriente. A viagem, complexa, decorre entre julho e dezembro de 2015. Percorrem os 1000 quilómetros da linha da frente que separa o Curdistão iraquiano da região onde estão estacionadas as tropas do Daesh. O filme apresentado em Melgaço é uma espécie incomum de um diário de bordo em imagens, privilegiada de um conflito de que muito se fala mas é muito mal estudada e onde se jogam decisivas páginas da História global da humanidade.
José Vieira, emigrante em França desde 1965, é um dos principais realizadores que foram registando o fenómeno da emigração, e não apenas o êxodo português, desde os tempos dos ‘bidonvilles’ de barracas atoladas no meio da lama, até ao novo período dos grandes carros, as vistosas ‘bagnoles’, testemunho mais recente da riqueza e do progresso acumulados, tantas vezes menos verdadeiros mas alugados pelo período de férias para impressionar os que por aqui decidiram ficar na terreola. Ele realizou cerca de trinta documentários incidindo neste particular, que ficam como importante testemunho, insubstituível, da saga da emigração portuguesa.
Este ano trouxe “A Ilha dos Ausentes”, registo que dura uma hora sobre a viagem que traz de volta ao país de nascimento os que fugiram à miséria e à guerra colonial, em demanda de quimeras. Trata-se de um filme ‘fechado’, dentro de um carro “onde se permanece, ao longo dos quilómetros de estrada, sob custódia da nossa memória, num dia único estafante”, um percurso que serve perfeitamente para “nos interrogarmos sobre a relação que nos une ao país da nossa infância”.
Os filmes apresentados no Minho concorrem ao Prémio Jean Loup Passek, reconhecido historiador e crítico francês falecido no ano passado, que se apaixonou pela paisagem de Melgaço e à vila doou grande parte do seu espólio, constituído por livros, fotografias e cartazes temáticos, documentos, câmaras e outros aparelhos cinematográficos históricos que estão na origem da constituição do pequeno mas interessante Museu de Cinema local. A Câmara Municipal, dirigida por Manoel Calçada Pombal, cuida e mantém aberto o estabelecimento, e do entusiasmo do presidente da edilidade e sua compreensão sobre o interesse de registar e debater temáticas que respeitam à região, nasceu e tem crescido o Festival de Cinema Documentário Filmes do Homem, privilegiando tês vetores: identidade, memória, fronteira. Num território português dos mais marcados pela emigração e, outrora, pelo contrabando, estes temas são cruciais e trazem anualmente novas abordagens, até pelo olhar dos jovens que frequentam as experiências da residência cinematográfica coordenada pelo cineasta Pedro Sena Nunes, e que a cada ano permitem a aumento do acervo do arquivo de imagens sobre Melgaço e paragens limítrofes.
Esta iniciativa, que conjuga visionamento de filmes e amplos debates, é um laborioso trabalho que garante um olhar plural sobre o mundo contemporâneo, não deixando de parte a importância da preservação da memória da vida melgacense, dos hábitos e das festividades dos seus habitantes.
12.7.17
Gaia. Violência, guerra e fome numa bienal de arte e "de causas"
in RR
A 2ª Bienal Internacional de Gaia, que é inaugruada no sábado, no espaço do Centro Empresarial Fercopor, anuncia-se como uma "bienal de causas".
A iniciativa, que conta com 31 exposições e mais de 1.500 obras de artistas, lança aos 500 autores participantes o desafio de abordarem temas que inquietem e provoquem a sociedade, diz à Renascença um dos organizadores, Agostinho Santos.
"Queremos que esta seja uma bienal de causas, que provoque. Uma bienal que se preocupa com os outros, que está inquieta. Lançámos o desafio aos artistas de 11 países de abordarem questões que nos preocupam todos os dias: a violência, a guerra, a fome, a questão dos refugiados, os atentados terroristas, os sem-abrigo."
O coração da bienal está situado na antiga fábrica de linhas "Coats & Clark", o actual Centro Empresarial Fercopor. O pavilhão, com mais de sei mil metros quadrados recebe 18 exposições, mas a arte vai chegar a outros espaços da cidade - Biblioteca Municipal, Convento Corpus Christi e Mosteiro de Grijó - e da região norte, com exposições em Barcelos, Porto, Gondomar, Cerveira, Viana do Castelo, Monção, Figueira da Foz e Seia.
"Uma das vertentes da nossa bienal é levar a arte ao encontro das pessoas. Não nos vamos limitar apenas ao nosso município. Temos, por exemplo, um acordo com a bienal mais antiga do país, que é a de Vila Nova de Cerveira. Vamos ter uma exposição da Bienal de Gaia - a mais jovem do país - integrada na Bienal de Cerveira e vice-versa. Este tipo de parcerias entre bienais não é muito comum, mas nós queremos lançar este repto", diz Agostinho Santos.
Prémios, homenagens e medalhas
Na sessão de abertura da Bienal, a pintora Graça Morais vai receber a Medalha de Mérito Cultural e Científico, Grau Ouro, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e expor pela primeira vez no município. O Centro Empresarial Fercopor vai receber uma mostra de 42 obras da colecção privada da artista.
"É uma honra. A Graça Morais é uma das maiores artistas contemporâneas. Temos todo o respeito e admiração por ela e vamos ter a sorte de organizar uma exposição antológica onde o público vai perceber o percurso fantástico da nossa artista. É a primeira vez que a Graça Morais expõe em Vila Nova de Gaia, no terceiro maior concelho do país", diz Agostinho Santos.
Os artistas vencedores dos três prémios da Bienal foram escolhidos entre 292 inscritos, 130 pré-selecionados e 88 selecionados e vão receber um prémio monetário no valor de cinco mil euros.
Marta Soutinho Alves venceu o Grande Prémio da Bienal atribuído pela Câmara Municipal de Gaia. João Macedo conquistou o Prémio de Escultura Zulmiro de Carvalho atribuído pela Câmara Municipal de Gondomar e Mariana Poppovic arrecadou o Prémio Águas de Gaia.
O evento vai ainda homenagear o artista Guilherme Camarinha com uma exposição com as obras do pintor, falecido em 1994, na Fundação Escultor José Santos, no Porto.
Expectativas ultrapassadas
O evento ainda não arrancou, mas a organização garante que as expectativas já foram largamente ultrapassadas e a curiosidade do público é notória.
“Estamos muito confiantes, porque a informação que tem chegado do público é muito interessante. As pessoas contactam-nos por e-mail, por carta, por facebook a perguntar informações. Estamos agora na fase final da montagem e já têm vindo cá várias pessoas espreitar. Quer a nível de artistas quer a nível de exposições, quer a nível de obras expostas ultrapassámos todas as nossas expectativas”, refere.
Agostinho Santos garante que a população de Gaia tem vindo a despertar para a arte, mas reafirma que a Bienal não tem barreiras e vai para lá do município: “O público de Vila Nova de Gaia e da Área Metropolitana do Porto e até da região norte começa a estar entusiasmado, porque uma das características desta bienal é a pretender ser uma bienal da Área Metropolitana do Porto e do norte do país."
A 2ª Bienal Internacional de Gaia, que é inaugruada no sábado, no espaço do Centro Empresarial Fercopor, anuncia-se como uma "bienal de causas".
A iniciativa, que conta com 31 exposições e mais de 1.500 obras de artistas, lança aos 500 autores participantes o desafio de abordarem temas que inquietem e provoquem a sociedade, diz à Renascença um dos organizadores, Agostinho Santos.
"Queremos que esta seja uma bienal de causas, que provoque. Uma bienal que se preocupa com os outros, que está inquieta. Lançámos o desafio aos artistas de 11 países de abordarem questões que nos preocupam todos os dias: a violência, a guerra, a fome, a questão dos refugiados, os atentados terroristas, os sem-abrigo."
O coração da bienal está situado na antiga fábrica de linhas "Coats & Clark", o actual Centro Empresarial Fercopor. O pavilhão, com mais de sei mil metros quadrados recebe 18 exposições, mas a arte vai chegar a outros espaços da cidade - Biblioteca Municipal, Convento Corpus Christi e Mosteiro de Grijó - e da região norte, com exposições em Barcelos, Porto, Gondomar, Cerveira, Viana do Castelo, Monção, Figueira da Foz e Seia.
"Uma das vertentes da nossa bienal é levar a arte ao encontro das pessoas. Não nos vamos limitar apenas ao nosso município. Temos, por exemplo, um acordo com a bienal mais antiga do país, que é a de Vila Nova de Cerveira. Vamos ter uma exposição da Bienal de Gaia - a mais jovem do país - integrada na Bienal de Cerveira e vice-versa. Este tipo de parcerias entre bienais não é muito comum, mas nós queremos lançar este repto", diz Agostinho Santos.
Prémios, homenagens e medalhas
Na sessão de abertura da Bienal, a pintora Graça Morais vai receber a Medalha de Mérito Cultural e Científico, Grau Ouro, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e expor pela primeira vez no município. O Centro Empresarial Fercopor vai receber uma mostra de 42 obras da colecção privada da artista.
"É uma honra. A Graça Morais é uma das maiores artistas contemporâneas. Temos todo o respeito e admiração por ela e vamos ter a sorte de organizar uma exposição antológica onde o público vai perceber o percurso fantástico da nossa artista. É a primeira vez que a Graça Morais expõe em Vila Nova de Gaia, no terceiro maior concelho do país", diz Agostinho Santos.
Os artistas vencedores dos três prémios da Bienal foram escolhidos entre 292 inscritos, 130 pré-selecionados e 88 selecionados e vão receber um prémio monetário no valor de cinco mil euros.
Marta Soutinho Alves venceu o Grande Prémio da Bienal atribuído pela Câmara Municipal de Gaia. João Macedo conquistou o Prémio de Escultura Zulmiro de Carvalho atribuído pela Câmara Municipal de Gondomar e Mariana Poppovic arrecadou o Prémio Águas de Gaia.
O evento vai ainda homenagear o artista Guilherme Camarinha com uma exposição com as obras do pintor, falecido em 1994, na Fundação Escultor José Santos, no Porto.
Expectativas ultrapassadas
O evento ainda não arrancou, mas a organização garante que as expectativas já foram largamente ultrapassadas e a curiosidade do público é notória.
“Estamos muito confiantes, porque a informação que tem chegado do público é muito interessante. As pessoas contactam-nos por e-mail, por carta, por facebook a perguntar informações. Estamos agora na fase final da montagem e já têm vindo cá várias pessoas espreitar. Quer a nível de artistas quer a nível de exposições, quer a nível de obras expostas ultrapassámos todas as nossas expectativas”, refere.
Agostinho Santos garante que a população de Gaia tem vindo a despertar para a arte, mas reafirma que a Bienal não tem barreiras e vai para lá do município: “O público de Vila Nova de Gaia e da Área Metropolitana do Porto e até da região norte começa a estar entusiasmado, porque uma das características desta bienal é a pretender ser uma bienal da Área Metropolitana do Porto e do norte do país."
7.1.16
Cultura contra a pobreza
Patrícia Tadeia, in "Metro"
O objetivo do projeto não passa tanto pela empregabilidade direta, mas pela formação de crianças de risco e do seu acompanhamento para a construção de um futuro melhor
O TraditionalMusic já criou duas escolas de música com estúdios de gravação: uma em São Tomé e Príncipe e outra em Cabo Verde. Objetivo? Mudar a vida de crianças.
Tudo começou em 2011 com uma parceria entre organizações culturais e recreativas de Portugal, Cabo Verde, São Tomé e Timor-Leste. O TraditionalMusic, um projeto desenvolvido pela associação portuguesa Oficina da Courela, “surge da vontade de aprofundar as relações culturais através de projetos estruturantes (...), através da criação de estruturas que sirvam de base para o desenvolvimento cultural, como são as escolas de música ou os estúdios de gravação (...), e através da formação e criação de eventos culturais”, começa por explicar Elza Neto, coordenadora geral do projeto. Tudo de forma a poder contribuir para o desenvolvimento profissional, a inclusão social e a criação de novas oportunidades a crianças dos países envolvidos. As ações concretas do projeto tiveram início em 2014, sendo que o mesmo terminará em 2016. Neste momento, as duas escolas e estúdio de Cabo Verde e São Tomé “estão em pleno funcionamento e contam com 2 professores cada uma, 1 técnico de som e 50 alunos”.
“Além da criação das escolas, o projeto desenvolveu também um trabalho de campo com o objetivo de fazer um levantamento dos instrumentos tradicionais de cada um destes países, e juntou ainda os músicos das diferentes nacionalidades, por exemplo, numa residência artística em Cabo Verde , desta, desenvolvida em outubro, saíram músicas conjuntas e encontraram-se pontos comuns que foram apresentados num concerto no Festival 7 sóis 7 luas em Cabo Verde”, revela ainda a responsável. Mas afinal, como é que a música pode mudar a vida destas crianças? “A música, ou as artes em geral, é extremamente importante para o desenvolvimento intelectual e social do indivíduo. No entanto, além desta função, as escolas estão inseridas em países onde os níveis de pobreza permanecem alarmantes. Assim, tem-se trabalhado no sentido de tornar estas escolas em locais de acolhimento e de inserção, retirando crianças e adolescentes das ruas e proporcionando uma atividade de tempos livres que contribui para o seu desenvolvimento, ao mesmo tempo que se passa valores sociais e se estimula a autoestima”, explica Elza Neto. “A curto prazo, o objetivo é acabar as escolas e estúdios de som em Timor-Leste e fazer as respetivas formações com vista à sua utilização e gestão. A longo prazo, pretende-se criar parcerias com entidades públicas e privadas locais que possam garantir o funcionamento dos equipamentos criados além do ciclo de vida do projeto”, conclui.
O objetivo do projeto não passa tanto pela empregabilidade direta, mas pela formação de crianças de risco e do seu acompanhamento para a construção de um futuro melhor
O TraditionalMusic já criou duas escolas de música com estúdios de gravação: uma em São Tomé e Príncipe e outra em Cabo Verde. Objetivo? Mudar a vida de crianças.
Tudo começou em 2011 com uma parceria entre organizações culturais e recreativas de Portugal, Cabo Verde, São Tomé e Timor-Leste. O TraditionalMusic, um projeto desenvolvido pela associação portuguesa Oficina da Courela, “surge da vontade de aprofundar as relações culturais através de projetos estruturantes (...), através da criação de estruturas que sirvam de base para o desenvolvimento cultural, como são as escolas de música ou os estúdios de gravação (...), e através da formação e criação de eventos culturais”, começa por explicar Elza Neto, coordenadora geral do projeto. Tudo de forma a poder contribuir para o desenvolvimento profissional, a inclusão social e a criação de novas oportunidades a crianças dos países envolvidos. As ações concretas do projeto tiveram início em 2014, sendo que o mesmo terminará em 2016. Neste momento, as duas escolas e estúdio de Cabo Verde e São Tomé “estão em pleno funcionamento e contam com 2 professores cada uma, 1 técnico de som e 50 alunos”.
“Além da criação das escolas, o projeto desenvolveu também um trabalho de campo com o objetivo de fazer um levantamento dos instrumentos tradicionais de cada um destes países, e juntou ainda os músicos das diferentes nacionalidades, por exemplo, numa residência artística em Cabo Verde , desta, desenvolvida em outubro, saíram músicas conjuntas e encontraram-se pontos comuns que foram apresentados num concerto no Festival 7 sóis 7 luas em Cabo Verde”, revela ainda a responsável. Mas afinal, como é que a música pode mudar a vida destas crianças? “A música, ou as artes em geral, é extremamente importante para o desenvolvimento intelectual e social do indivíduo. No entanto, além desta função, as escolas estão inseridas em países onde os níveis de pobreza permanecem alarmantes. Assim, tem-se trabalhado no sentido de tornar estas escolas em locais de acolhimento e de inserção, retirando crianças e adolescentes das ruas e proporcionando uma atividade de tempos livres que contribui para o seu desenvolvimento, ao mesmo tempo que se passa valores sociais e se estimula a autoestima”, explica Elza Neto. “A curto prazo, o objetivo é acabar as escolas e estúdios de som em Timor-Leste e fazer as respetivas formações com vista à sua utilização e gestão. A longo prazo, pretende-se criar parcerias com entidades públicas e privadas locais que possam garantir o funcionamento dos equipamentos criados além do ciclo de vida do projeto”, conclui.
14.12.15
Circo, a “máquina da felicidade” onde os animais já não entram
Texto de Mariana Correia Pinto, in Público on-line (P3)
Em Portugal, apenas o Funchal proíbe formalmente a utilização de animais nos circos. Mas há mais autarquias a darem passos nesse sentido e no programa de Governo, por influência do PAN, já se fala de “bem-estar animal”. No Coliseu do Porto, pela primeira vez, o circo de Natal não tem animais. Está o circo a transformar-se?
Depois da estranheza, o progresso. Eduardo Paz Barroso não perdeu muito tempo a imaginar possíveis perdas de bilheteira ou lamentos. Para o presidente do Coliseu do Porto, a decisão era tomada num binómio certo-errado e, por isso, não havia dúvida possível: pela primeira vez, a icónica instituição da cidade apresenta um circo onde os animais não entram. No Funchal foi decretada formalmente a proibição de utilização de animais nestes espectáculos há um ano. Lisboa, Cascais, Évora e Faro também seguem recomendações das respectivas assembleias municipais nesse sentido. Está o circo em Portugal a transformar-se?
Quando assumiu a presidência do Coliseu, em Setembro de 2014, o programa do circo de Natal desse ano estava fechado. E tinha cães e tigres como “trabalhadores”. Fascinado pelos “lindíssimos tigres”, Eduardo Paz Barroso escreveu na sua página do Facebook que aqueles animais lhe lembravam os desenhados por Júlio Pomar. Só mais tarde, “num exercício de auto-pedagogia”, se pôs a pensar nas “restrições” impostas aos bichos — e em como tudo isso estava errado e era contraditório com o conceito de circo que defendia. A reviravolta deu-se este ano, com o Coliseu a assumir, pela primeira vez, a responsabilidade exclusiva da programação do circo de Natal, banindo automaticamente os animais: um “sinal de contemporaneidade” (espreita a fotogaleria).
A 300 quilómetros de distância, o recém eleito deputado do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), André Lourenço e Silva, aplaudiu o “exemplo bastante progressista” do Coliseu do Porto. O caminho da evolução, acredita, está já a ser feito — e teve a grande demonstração no passado 4 de Outubro, quando o PAN elegeu seu o primeiro representante no Parlamento. De resto, é olhar para a televisão ou ver o que se passa nas ruas: “Começa a ser unânime esta tendência de se abolir a utilização de animais para divertimento, o caso dos circos e das touradas”, disse ao PÚBLICO.
Nas 262 páginas do programa de Governo de António Costa, aparece apenas um bloco com cinco medidas “no domínio do bem-estar animal” — propostas que não constavam do programa inicial e foram incluídas no seguimento de conversações com o PAN. Mas em nenhuma se fala directamente do circo. André Lourenço e Silva acredita ainda assim que “o Partido Socialista, tal como outros movimentos políticos com assento na Assembleia da República, sentem já esta questão como um passo que devemos dar na evolução do bem-estar e protecção animal”. Um caminho, sublinha, já iniciado pelo PS “na gestão do município de Lisboa”.
Faltam poucos minutos para o início do espectáculo e o Coliseu do Porto vai-se compondo. A família Silva, fiel seguidora do circo de Natal da cidade, faz o aquecimento de balde de pipocas nas mãos e ignora questões de programa. “A gente quer divertir-se, com ou sem animais”, profetizam. A questão do bem-estar dos bichos foi coisa que não lhes passou pela cabeça noutros anos, admite Cristina, mãe de dois. A resposta está-lhe, ainda assim, na ponta da língua: “Se me dizem que os animais sofrem digo já que sou contra, gosto muito de bichos. Mas também já ouvi dizer que nem sempre é assim.” Junto ao palco circular montado no centro da sala de espectáculos até ao dia 3 de Janeiro, Carolina, quatro anos, está prestes a estrear-se como espectadora de circo. António e Mónica, os pais, consideram a questão do bem-estar animal “importante” mas querem os “extremismos” fora da equação: “Se formos para extremos nem um cavalo podemos montar”, diz o pai de Carolina. A formula podia ser qualquer coisa como: “Retirar os animais do seu ‘habitat’ natural, não. Mas se já nascem em cativeiro e forem bem tratados, sim.”
Cresce a ansiedade nos bastidores. Enquanto uns ensaiam exercícios de aquecimento ou fazem malabarismos em tom de brincadeira e relaxamento, Rosa Sáez, palhaça da companhia Los Quixotes, tenta adormecer o filho de um ano num carrinho de bebé. Por ali, mas longe do palco, há um caniche branco a marcar presença. “Apenas Cão de companhia”, viajante desde Madrid com o trio de palhaços do qual Rosa faz parte. Em Espanha, como em Portugal, não há um regra única sobre a utilização de animais em espectáculos de diversão — numas regiões é permitido, noutras não. É um “tema delicado”, consideram. Palavra a Ramón Merlo: “Está a desaparecer e penso que deve desaparecer, sobretudo quando falamos de animais selvagens. Mas um cãozinho a fazer uma participação não me choca.”
A mudar desde 2009
A sobrevivência de famílias onde tradicionalmente o circo se fez sempre com animais não é alheia à posição dos espanhóis. “Vemos gente a viver disso e pensamos: e agora, como vão sobreviver?”, verbaliza Joshean Mauleón. A questão põe em cima da mesa as preocupações manifestadas por várias companhias portuguesas ao longo dos últimos anos — sem animais, dizem, o negócio não corre da mesma forma e as portas do circo hão-de fechar. Há sete anos, em 2009, uma nova portaria proibiu a aquisição de animais selvagens pelos circos e a reprodução dos mesmos. Todas as espécies de primatas, de ursos e de felinos (excepto o gato), otárias, focas, hipopótamos, pinguins ou crocodilos levaram um carimbo de “protegidos”. Mas quem já tinha animais selvagens teve autorização para os manter.
Os animais utilizados nos circos “vivem anos de encarceramento, confinados em espaços exíguos”, lamenta André Lourenço e Silva. E o facto de nunca terem conhecido outra realidade não lhes diminuiu o sofrimento: “A observação do comportamento destes animais, como por exemplo os movimentos repetitivos e distúrbios psicológicos diversos, estudados por médicos veterinários e biólogos, demonstra a vida de escravidão forçada a que são sujeitos.”
Durante muitos anos, na Madeira, viram-se circos com animais no Natal e como companhia permanente das campanhas eleitorais de Alberto João Jardim. Ironicamente, em Novembro de 2014, a capital madeirense deu um passo inédito no país: o independente Paulo Cafôfo aceitou a proposta do PAN e inscreveu na lei: sim aos circos, não aos animais nos circos. O “efeito dominó” pretendido acabou por não ocorrer completamente, mas, sem o proibir formalmente, algumas autarquias (Lisboa, Cascais, Évora e Faro) deram passos no sentido da não utilização, a partir de recomendações das respectivas Assembleias Municipais.
O trabalho de activistas um pouco por todo o mundo tem contribuído de forma significativa para a mudança. Áustria, Holanda, Suécia, Índia, Finlândia, Suíça, Dinamarca, Argentina e algumas zonas dos Estados Unidos — para citar apenas alguns exemplos — proibiram a utilização de animais em circos.
A família de Alberto Zavatta começou a fazer circo em 1815. O bisavô, o avô e o pai nasceram e cresceram no circo e levaram o italiano, agora com 40 anos, para dentro desse mundo (como Alberto levará provavelmente o filho, que completa um ano nesta segunda-feira, dia 14). Uma "tradição bonita”, diz o mágico e equilibrista e a única tradição aceitável em matéria de circo. “Vivi neste universo a vida toda e sei que as pessoas se habituaram a ver animais. Mas o futuro deve ser sem eles. Em Itália isso é uma dor de cabeça. Mas a mentalidade tem de mudar. Vai demorar mas o caminho deve ser nesse sentido.”
E se o público estranhar? “É bom que estranhem. Se não estranhássemos não havia progresso nem desenvolvimento”, responde assertivo Eduardo Paz Barroso. Nesta “pequena máquina da felicidade” chamada circo quer-se, mais do que tudo, “manter o espírito Flâneur” — “olhar para cima e sentirmo-nos parte desta realidade”, diz o presidente, olhos postos na imponente sala portuense. Contribuir para “mudar mentalidades” deve ser uma missão do circo, mais não seja pelo vasto público infantil que o segue: “Não é educativo trazer crianças a um circo onde se vêem animais em jaulas. É um estereótipo pobre. Ao contrário do circo, um mundo riquíssimo. Podia sem qualquer esforço, construir cinco ou dez alinhamentos sem precisar de animais.”
Durante duas horas, houve uma trupe sincronizada de equilibristas do Circo Nacional de Xangai, actuações impressionantes e vertiginosas dos australianos The Flying Aces, magia e equilibrismo pela dupla italiana Alberto e Nancy Zavatta, acrobacias das americanas Nicole Burgio, do Cirque du Soleil, e Shannon Mc Kenna e, claro, palhaços, com os espanhóis Los Quixotes. Depois de várias rondas de actuações e a apenas uma do final, o apresentador do circo do Coliseu arriscou uma pergunta de onde podia ter saído uma resposta incómoda como “leões” ou “tigres”. “O que falta agora, para fechar em grande?”. E os pequenos responderam num grito o que Coliseu queria ouvir: “Os palhaços!”
Em Portugal, apenas o Funchal proíbe formalmente a utilização de animais nos circos. Mas há mais autarquias a darem passos nesse sentido e no programa de Governo, por influência do PAN, já se fala de “bem-estar animal”. No Coliseu do Porto, pela primeira vez, o circo de Natal não tem animais. Está o circo a transformar-se?
Depois da estranheza, o progresso. Eduardo Paz Barroso não perdeu muito tempo a imaginar possíveis perdas de bilheteira ou lamentos. Para o presidente do Coliseu do Porto, a decisão era tomada num binómio certo-errado e, por isso, não havia dúvida possível: pela primeira vez, a icónica instituição da cidade apresenta um circo onde os animais não entram. No Funchal foi decretada formalmente a proibição de utilização de animais nestes espectáculos há um ano. Lisboa, Cascais, Évora e Faro também seguem recomendações das respectivas assembleias municipais nesse sentido. Está o circo em Portugal a transformar-se?
Quando assumiu a presidência do Coliseu, em Setembro de 2014, o programa do circo de Natal desse ano estava fechado. E tinha cães e tigres como “trabalhadores”. Fascinado pelos “lindíssimos tigres”, Eduardo Paz Barroso escreveu na sua página do Facebook que aqueles animais lhe lembravam os desenhados por Júlio Pomar. Só mais tarde, “num exercício de auto-pedagogia”, se pôs a pensar nas “restrições” impostas aos bichos — e em como tudo isso estava errado e era contraditório com o conceito de circo que defendia. A reviravolta deu-se este ano, com o Coliseu a assumir, pela primeira vez, a responsabilidade exclusiva da programação do circo de Natal, banindo automaticamente os animais: um “sinal de contemporaneidade” (espreita a fotogaleria).
A 300 quilómetros de distância, o recém eleito deputado do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), André Lourenço e Silva, aplaudiu o “exemplo bastante progressista” do Coliseu do Porto. O caminho da evolução, acredita, está já a ser feito — e teve a grande demonstração no passado 4 de Outubro, quando o PAN elegeu seu o primeiro representante no Parlamento. De resto, é olhar para a televisão ou ver o que se passa nas ruas: “Começa a ser unânime esta tendência de se abolir a utilização de animais para divertimento, o caso dos circos e das touradas”, disse ao PÚBLICO.
Nas 262 páginas do programa de Governo de António Costa, aparece apenas um bloco com cinco medidas “no domínio do bem-estar animal” — propostas que não constavam do programa inicial e foram incluídas no seguimento de conversações com o PAN. Mas em nenhuma se fala directamente do circo. André Lourenço e Silva acredita ainda assim que “o Partido Socialista, tal como outros movimentos políticos com assento na Assembleia da República, sentem já esta questão como um passo que devemos dar na evolução do bem-estar e protecção animal”. Um caminho, sublinha, já iniciado pelo PS “na gestão do município de Lisboa”.
Faltam poucos minutos para o início do espectáculo e o Coliseu do Porto vai-se compondo. A família Silva, fiel seguidora do circo de Natal da cidade, faz o aquecimento de balde de pipocas nas mãos e ignora questões de programa. “A gente quer divertir-se, com ou sem animais”, profetizam. A questão do bem-estar dos bichos foi coisa que não lhes passou pela cabeça noutros anos, admite Cristina, mãe de dois. A resposta está-lhe, ainda assim, na ponta da língua: “Se me dizem que os animais sofrem digo já que sou contra, gosto muito de bichos. Mas também já ouvi dizer que nem sempre é assim.” Junto ao palco circular montado no centro da sala de espectáculos até ao dia 3 de Janeiro, Carolina, quatro anos, está prestes a estrear-se como espectadora de circo. António e Mónica, os pais, consideram a questão do bem-estar animal “importante” mas querem os “extremismos” fora da equação: “Se formos para extremos nem um cavalo podemos montar”, diz o pai de Carolina. A formula podia ser qualquer coisa como: “Retirar os animais do seu ‘habitat’ natural, não. Mas se já nascem em cativeiro e forem bem tratados, sim.”
Cresce a ansiedade nos bastidores. Enquanto uns ensaiam exercícios de aquecimento ou fazem malabarismos em tom de brincadeira e relaxamento, Rosa Sáez, palhaça da companhia Los Quixotes, tenta adormecer o filho de um ano num carrinho de bebé. Por ali, mas longe do palco, há um caniche branco a marcar presença. “Apenas Cão de companhia”, viajante desde Madrid com o trio de palhaços do qual Rosa faz parte. Em Espanha, como em Portugal, não há um regra única sobre a utilização de animais em espectáculos de diversão — numas regiões é permitido, noutras não. É um “tema delicado”, consideram. Palavra a Ramón Merlo: “Está a desaparecer e penso que deve desaparecer, sobretudo quando falamos de animais selvagens. Mas um cãozinho a fazer uma participação não me choca.”
A mudar desde 2009
A sobrevivência de famílias onde tradicionalmente o circo se fez sempre com animais não é alheia à posição dos espanhóis. “Vemos gente a viver disso e pensamos: e agora, como vão sobreviver?”, verbaliza Joshean Mauleón. A questão põe em cima da mesa as preocupações manifestadas por várias companhias portuguesas ao longo dos últimos anos — sem animais, dizem, o negócio não corre da mesma forma e as portas do circo hão-de fechar. Há sete anos, em 2009, uma nova portaria proibiu a aquisição de animais selvagens pelos circos e a reprodução dos mesmos. Todas as espécies de primatas, de ursos e de felinos (excepto o gato), otárias, focas, hipopótamos, pinguins ou crocodilos levaram um carimbo de “protegidos”. Mas quem já tinha animais selvagens teve autorização para os manter.
Os animais utilizados nos circos “vivem anos de encarceramento, confinados em espaços exíguos”, lamenta André Lourenço e Silva. E o facto de nunca terem conhecido outra realidade não lhes diminuiu o sofrimento: “A observação do comportamento destes animais, como por exemplo os movimentos repetitivos e distúrbios psicológicos diversos, estudados por médicos veterinários e biólogos, demonstra a vida de escravidão forçada a que são sujeitos.”
Durante muitos anos, na Madeira, viram-se circos com animais no Natal e como companhia permanente das campanhas eleitorais de Alberto João Jardim. Ironicamente, em Novembro de 2014, a capital madeirense deu um passo inédito no país: o independente Paulo Cafôfo aceitou a proposta do PAN e inscreveu na lei: sim aos circos, não aos animais nos circos. O “efeito dominó” pretendido acabou por não ocorrer completamente, mas, sem o proibir formalmente, algumas autarquias (Lisboa, Cascais, Évora e Faro) deram passos no sentido da não utilização, a partir de recomendações das respectivas Assembleias Municipais.
O trabalho de activistas um pouco por todo o mundo tem contribuído de forma significativa para a mudança. Áustria, Holanda, Suécia, Índia, Finlândia, Suíça, Dinamarca, Argentina e algumas zonas dos Estados Unidos — para citar apenas alguns exemplos — proibiram a utilização de animais em circos.
A família de Alberto Zavatta começou a fazer circo em 1815. O bisavô, o avô e o pai nasceram e cresceram no circo e levaram o italiano, agora com 40 anos, para dentro desse mundo (como Alberto levará provavelmente o filho, que completa um ano nesta segunda-feira, dia 14). Uma "tradição bonita”, diz o mágico e equilibrista e a única tradição aceitável em matéria de circo. “Vivi neste universo a vida toda e sei que as pessoas se habituaram a ver animais. Mas o futuro deve ser sem eles. Em Itália isso é uma dor de cabeça. Mas a mentalidade tem de mudar. Vai demorar mas o caminho deve ser nesse sentido.”
E se o público estranhar? “É bom que estranhem. Se não estranhássemos não havia progresso nem desenvolvimento”, responde assertivo Eduardo Paz Barroso. Nesta “pequena máquina da felicidade” chamada circo quer-se, mais do que tudo, “manter o espírito Flâneur” — “olhar para cima e sentirmo-nos parte desta realidade”, diz o presidente, olhos postos na imponente sala portuense. Contribuir para “mudar mentalidades” deve ser uma missão do circo, mais não seja pelo vasto público infantil que o segue: “Não é educativo trazer crianças a um circo onde se vêem animais em jaulas. É um estereótipo pobre. Ao contrário do circo, um mundo riquíssimo. Podia sem qualquer esforço, construir cinco ou dez alinhamentos sem precisar de animais.”
Durante duas horas, houve uma trupe sincronizada de equilibristas do Circo Nacional de Xangai, actuações impressionantes e vertiginosas dos australianos The Flying Aces, magia e equilibrismo pela dupla italiana Alberto e Nancy Zavatta, acrobacias das americanas Nicole Burgio, do Cirque du Soleil, e Shannon Mc Kenna e, claro, palhaços, com os espanhóis Los Quixotes. Depois de várias rondas de actuações e a apenas uma do final, o apresentador do circo do Coliseu arriscou uma pergunta de onde podia ter saído uma resposta incómoda como “leões” ou “tigres”. “O que falta agora, para fechar em grande?”. E os pequenos responderam num grito o que Coliseu queria ouvir: “Os palhaços!”
13.4.15
Comunidade cigana atua na Casa da Música
Catarina Ferreira, in Jornal de Notícias
"Amo-te, amo-te, amo o teu amor...." Artur, guitarrista de serviço, canta o refrão celebrizado por Xano, enquanto rasgueia a guitarra por rumba. Sónia Baptista, professora do Balleteatro, e Diogo, adolescente cigano, arrancam palmas e olés dos demais, enquanto dançam no ensaio do projeto "Romani", no bairro da Biquinha.
Este domingo, a cena repetiu-se no ensaio aberto, na Casa da Música (CdM), às 15 horas. A estreia está marcada para 29 de Abril, dia Mundial da Dança.
Iara balanceia os cabelos longos e negros e abre as mãos em leque, consegue arrancar Melissa e o seu meio sorriso para que dance com ela. Passada a improvisação, Sónia Baptista passa a comandar as técnicas e a comunidade cigana, repetindo o sapateado originalmente criado por uma bailarina do Seixo. Ao seu lado está Andreia que sabe a sequência de cor, mas num segundo falha-lhe um pé e corre porta fora nervosa. As amigas saem com ela, responde irritada "Achas que eu vou dançar na Casa da Música?".
A volatilidade deste coletivo de quase 90 pessoas, entre as comunidades ciganas do Seixo e da Biquinha, os músicos da CdM e os alunos finalistas do Balleteatro é "muito interessante e traz adrenalina", explica Isabel Barros, diretora do Balleteatro.
Lilia Pinto, da divisão de promoção social da Câmara de Matosinhos, explicou que " há uma série de regras da comunidade que é preciso respeitar. Por exemplo, este domingo, um membro da comunidade foi operado e há um défice significativo do número de pessoas presentes. Estão todos no hospital, há um sentido de comunidade muito forte".
O objetivo deste trabalho é aceitar, valorizar e dignificar a cultura cigana. Quando lhes foi proposta a ideia de fazer uma coisa com o Balleteatro para ser apresentada na Casa da Música, foram feitas reuniões com os grupos. "No Seixo, como a igreja Filadélfia está associada, foi mais fácil. Na Biquinha, ainda é um processo em construção, eles são bastante imprevisíveis. Mas é preciso ter um número certo para a Casa da Música poder fechar a folha de sala", contou Lurdes Queirós, vereadora de ação social da Câmara da Matosinhos.
Quanto à apresentação na Biquinha, ficou com a parte do projeto das danças do Mundo. No Seixo, como a comunidade faz parte da Igreja Filadélfia, farão músicas e danças exclusivamente relativas ao culto, concluiu a vereadora.
"Amo-te, amo-te, amo o teu amor...." Artur, guitarrista de serviço, canta o refrão celebrizado por Xano, enquanto rasgueia a guitarra por rumba. Sónia Baptista, professora do Balleteatro, e Diogo, adolescente cigano, arrancam palmas e olés dos demais, enquanto dançam no ensaio do projeto "Romani", no bairro da Biquinha.
Este domingo, a cena repetiu-se no ensaio aberto, na Casa da Música (CdM), às 15 horas. A estreia está marcada para 29 de Abril, dia Mundial da Dança.
Iara balanceia os cabelos longos e negros e abre as mãos em leque, consegue arrancar Melissa e o seu meio sorriso para que dance com ela. Passada a improvisação, Sónia Baptista passa a comandar as técnicas e a comunidade cigana, repetindo o sapateado originalmente criado por uma bailarina do Seixo. Ao seu lado está Andreia que sabe a sequência de cor, mas num segundo falha-lhe um pé e corre porta fora nervosa. As amigas saem com ela, responde irritada "Achas que eu vou dançar na Casa da Música?".
A volatilidade deste coletivo de quase 90 pessoas, entre as comunidades ciganas do Seixo e da Biquinha, os músicos da CdM e os alunos finalistas do Balleteatro é "muito interessante e traz adrenalina", explica Isabel Barros, diretora do Balleteatro.
Lilia Pinto, da divisão de promoção social da Câmara de Matosinhos, explicou que " há uma série de regras da comunidade que é preciso respeitar. Por exemplo, este domingo, um membro da comunidade foi operado e há um défice significativo do número de pessoas presentes. Estão todos no hospital, há um sentido de comunidade muito forte".
O objetivo deste trabalho é aceitar, valorizar e dignificar a cultura cigana. Quando lhes foi proposta a ideia de fazer uma coisa com o Balleteatro para ser apresentada na Casa da Música, foram feitas reuniões com os grupos. "No Seixo, como a igreja Filadélfia está associada, foi mais fácil. Na Biquinha, ainda é um processo em construção, eles são bastante imprevisíveis. Mas é preciso ter um número certo para a Casa da Música poder fechar a folha de sala", contou Lurdes Queirós, vereadora de ação social da Câmara da Matosinhos.
Quanto à apresentação na Biquinha, ficou com a parte do projeto das danças do Mundo. No Seixo, como a comunidade faz parte da Igreja Filadélfia, farão músicas e danças exclusivamente relativas ao culto, concluiu a vereadora.
10.3.14
Nos grandes museus de arte, as mulheres ainda estão atrás dos homens
Cláudia Carvalho, in Público on-line
Google disponibiliza exposição virtual sobre o papel da mulher na Cultura.
As mulheres dirigem apenas um quarto dos maiores museus nos Estados Unidos e Canadá e ganham menos do que os homens que ocupam o mesmo lugar. As conclusões são do relatório da Associação de Directores de Museus de Arte, uma organização profissional, divulgado esta sexta-feira.
As conclusões deste relatório, que se baseou nos dados dos 217 membros da Associação de Directores de Museus de Arte, avaliando pela primeira vez, segundo o New York Times, a questão do género, foram conhecidas na véspera do Dia da Mulher, que se celebra este sábado. Estes são apenas mais uns números que vêm mostrar como, apesar dos avanços feitos no feminino a nível económico, social e político, ainda existem bastantes desigualdades entre géneros.
De acordo com este estudo, no que diz respeito à direcção de pequenos e médios museus, com orçamentos abaixo dos 15 milhões de dólares (10,8 milhões de euros), as mulheres estão em pé de igualdade com os homens, mantendo quase metade das direcções e ganhando praticamente o mesmo salário. No entanto, é quando saltamos para museus e instituições culturais maiores, que a desigualdade salta à vista.
Apenas 24% das instituições com orçamentos acima dos 15 milhões de dólares é dirigida por uma mulher. E dos 33 museus de arte mais proeminentes, só cinco têm mulheres ao leme. Como museus de arte mais proeminentes, entende-se aqueles com orçamentos superiores a 20 milhões de dólares (14,4 milhões de euros), como é o caso do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), liderado por Glenn D. Lowry, ou do Museu Metropolitan de Nova Iorque (Met), que é dirigido por Thomas P. Campbell.
O estudo, realizado em parceira com o National Center for Arts Research, foi feito através de uma intensa pesquisa à situação actual dos museus, assim como à sua história, e ainda recorrendo a várias entrevistas a muitos dos responsáveis das instituições culturais. Os dados foram depois analisados por investigadores da área, que tentaram traçar a situação geral.
Apesar das desigualdades detectadas, o estudo nota que a situação é hoje melhor do que há 25 anos, assistindo-se a uma mudança no paradigma cultural, com o aparecimento da primeira geração de mulheres directoras. Resta perceber porque é que os números ainda são tão baixos, se por falta de oportunidade ou por falta de interesse das mulheres nestes cargos de topo.
A situação nas direcções dos museus não é porém muito diferente daquela que se encontra nas próprias colecções dos museus, constituídas maioritariamente por obras de arte assinadas por homens.
Mas este tema não é novo. Já no passado, Gemma Rolls-Bentley, uma curadora independente britânica, debruçou-se no top dos 100 artistas que mais venderam em 2012 e percebeu que nesta centena não surgia uma única mulher. Num estudo mais aprofundado, Rolls-Bentley chegou à conclusão de que, por exemplo, na Tate Modern, em Londres, 83% dos artistas representados são homens. E o seu estudo vai mais longe: estima-se que apenas cerca de 5% do trabalho apresentado nas principais colecções permanentes de todo o mundo é de mulheres.
Google destaca o papel da mulher na Cultura
Foi neste sentido que, assinalando o Dia da Mulher, o Google Cultural Institute, plataforma online da Google para a divulgação de conteúdos culturais, disponibiliza online a exposição O Papel da Mulher na Cultura. O objectivo é mostrar como a mulher teve ao longo dos séculos um papel determinante na evolução da Cultura, admitindo a empresa que tantas vezes os relatos históricos das mulheres foram ignorados.
Esta exposição está assim dividida em 12 núcleos, ou 12 exposições, criados a partir de conteúdos de novos parceiros do Google Cultural Institute e de parceiros já presentes neste serviço. A partir deste sábado podemos então mergulhar na vida de Frida Kahlo ou ficar a saber mais sobre a luta pelo direito das mulheres ao voto no Reino Unido.
Google disponibiliza exposição virtual sobre o papel da mulher na Cultura.
As mulheres dirigem apenas um quarto dos maiores museus nos Estados Unidos e Canadá e ganham menos do que os homens que ocupam o mesmo lugar. As conclusões são do relatório da Associação de Directores de Museus de Arte, uma organização profissional, divulgado esta sexta-feira.
As conclusões deste relatório, que se baseou nos dados dos 217 membros da Associação de Directores de Museus de Arte, avaliando pela primeira vez, segundo o New York Times, a questão do género, foram conhecidas na véspera do Dia da Mulher, que se celebra este sábado. Estes são apenas mais uns números que vêm mostrar como, apesar dos avanços feitos no feminino a nível económico, social e político, ainda existem bastantes desigualdades entre géneros.
De acordo com este estudo, no que diz respeito à direcção de pequenos e médios museus, com orçamentos abaixo dos 15 milhões de dólares (10,8 milhões de euros), as mulheres estão em pé de igualdade com os homens, mantendo quase metade das direcções e ganhando praticamente o mesmo salário. No entanto, é quando saltamos para museus e instituições culturais maiores, que a desigualdade salta à vista.
Apenas 24% das instituições com orçamentos acima dos 15 milhões de dólares é dirigida por uma mulher. E dos 33 museus de arte mais proeminentes, só cinco têm mulheres ao leme. Como museus de arte mais proeminentes, entende-se aqueles com orçamentos superiores a 20 milhões de dólares (14,4 milhões de euros), como é o caso do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), liderado por Glenn D. Lowry, ou do Museu Metropolitan de Nova Iorque (Met), que é dirigido por Thomas P. Campbell.
O estudo, realizado em parceira com o National Center for Arts Research, foi feito através de uma intensa pesquisa à situação actual dos museus, assim como à sua história, e ainda recorrendo a várias entrevistas a muitos dos responsáveis das instituições culturais. Os dados foram depois analisados por investigadores da área, que tentaram traçar a situação geral.
Apesar das desigualdades detectadas, o estudo nota que a situação é hoje melhor do que há 25 anos, assistindo-se a uma mudança no paradigma cultural, com o aparecimento da primeira geração de mulheres directoras. Resta perceber porque é que os números ainda são tão baixos, se por falta de oportunidade ou por falta de interesse das mulheres nestes cargos de topo.
A situação nas direcções dos museus não é porém muito diferente daquela que se encontra nas próprias colecções dos museus, constituídas maioritariamente por obras de arte assinadas por homens.
Mas este tema não é novo. Já no passado, Gemma Rolls-Bentley, uma curadora independente britânica, debruçou-se no top dos 100 artistas que mais venderam em 2012 e percebeu que nesta centena não surgia uma única mulher. Num estudo mais aprofundado, Rolls-Bentley chegou à conclusão de que, por exemplo, na Tate Modern, em Londres, 83% dos artistas representados são homens. E o seu estudo vai mais longe: estima-se que apenas cerca de 5% do trabalho apresentado nas principais colecções permanentes de todo o mundo é de mulheres.
Google destaca o papel da mulher na Cultura
Foi neste sentido que, assinalando o Dia da Mulher, o Google Cultural Institute, plataforma online da Google para a divulgação de conteúdos culturais, disponibiliza online a exposição O Papel da Mulher na Cultura. O objectivo é mostrar como a mulher teve ao longo dos séculos um papel determinante na evolução da Cultura, admitindo a empresa que tantas vezes os relatos históricos das mulheres foram ignorados.
Esta exposição está assim dividida em 12 núcleos, ou 12 exposições, criados a partir de conteúdos de novos parceiros do Google Cultural Institute e de parceiros já presentes neste serviço. A partir deste sábado podemos então mergulhar na vida de Frida Kahlo ou ficar a saber mais sobre a luta pelo direito das mulheres ao voto no Reino Unido.
30.1.14
Contra a cultura da crise, a cultura da resistência
Vítor Belanciano, in Público on-line
Intelectuais e cientistas apresentaram esta quarta-feira um manifesto contra a crise, na Fundação Gulbenkian, pela afirmação da cultura, das artes e da ciência.
A canção Para os braços de minha mãe, de Pedro Abrunhosa, com colaboração vocal de Camané, que reflecte a fuga para o estrangeiro de massa crítica, deu o mote para a apresentação, esta quarta-feira, no auditório 3 da Fundação Gulbenkian, do Manifesto Contra a Crise – Compromisso com a Ciência, Artes e Cultura em Portugal, um documento que foi já assinado por mais de centena e meia de intelectuais, artistas ou cientistas.
O contexto alargado da sessão era a crise portuguesa e europeia, embora a recente polémica da queda do número de bolsas de doutoramento atribuídas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia tenha estado presente ao longo das intervenções.
Ou, como afirmou um dos primeiros oradores, o historiador José Eduardo Franco, e um dos obreiros do manifesto: “Queremos aqui lançar um alerta sobre a actual sangria” de talentos, ao mesmo tempo que avisou que o país tem de passar da “solidariedade da manutenção”, conectada com as necessidades básicas, para a “solidariedade da criatividade”, aproveitando a relevância estratégica da ciência, da cultura e das artes para desenhar o futuro.
Na sala, intelectuais como Rui Vieira Nery, catedráticos como Viriato Soromenho-Marques e Annabela Rita, cantores como Pedro Abrunhosa, cineastas como António Pedro Vasconcelos, escritores como Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Miguel Real ou Jaime Rocha e cientistas como Carlos Fiolhais. Políticos, apenas se viu, discreta, a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins.
Não surpreende. O encontro assumia-se apartidário e transdisciplinar. Poderia ter sido também transgeracional, mas sentiu-se falta das gerações mais novas. Fez-se um diagnóstico negro do país. Disse-se que o manifesto não era contra ninguém, embora, quase inevitavelmente, o governo actual e o Presidente da República tivessem sido nomeados em algumas intervenções, como aconteceu com o escritor Miguel Leal, que mostrou repúdio pela actual “cultura individualista, do salve-se quem puder”.
“Julgados pelo nosso silêncio”
A escritora Teolinda Gersão disse que é imperativo rejeitar o “capitalismo selvagem”, citando um estudo recente onde se concluiu que o pequeno grupo das 85 pessoas mais ricas do mundo concentra a mesma riqueza que 3500 milhões de pobres.
“O poder político tem governado em compadrio com o poder económico, para uma minoria”, disse, reforçando que uma transformação só acontecerá com mudança de mentalidades, onde o primado da economia possa ser substituído pela cultura.
Coube a Carlos Fiolhais o papel de mostrar que “a ciência é também uma forma de cultura”, apontando que entre os dois universos existem mais pontos de contacto do que o senso comum tende a pensar e destacando que “o esforço científico” tem essa faculdade de “iluminar o mundo”, acabando por citar o filósofo Sócrates: “Uma vida sem ciência é uma espécie de morte”.
O cantor Pedro Abrunhosa foi taxativo: “Portugal só se afirmará economicamente se antes se afirmar culturalmente”. Ou seja, a identidade cultural é determinante na afirmação do mundo actual.
Não é apenas uma realidade tangível. Os números também o asseveram, disse, recordando que o contributo das Indústrias Criativas em Portugal para o Produto Interno Bruto é de 3,2%. Depois disse que todos éramos culpados de passividade e exortou à rebelião: “Seremos julgados pelo nosso silêncio se não o fizermos”.
Lídia Jorge lembrou que no pós-25 de Abril existiu um esforço no sentido de aproximar o país da contemporaneidade. Hoje o retrocesso está a ser visível, disse, porque a base de sustentação que foi sendo erguida revela-se frágil. E comparou com outras realidades culturais europeias: “Hoje temos uma TV tão má como a inglesa, mas o impacto desse facto aqui é muito maior”.
A Europa foi o tema principal da intervenção de Viriato Soromenho-Marques, porque é aí que ele identifica a génese da crise, nessa “promessa traída da construção europeia”. Hoje o que temos é o despotismo dos mercados e das instituições. “Uma Europa monstruosa”, nas suas palavras. Uma Europa que corre riscos de autodestruição, se a marcha não for interrompida. “A cultura da crise é cega. Devora as pessoas. E o ambiente”, disse.
A única possibilidade é opor uma “cultura da resistência”, com a ideia em mente de que a mudança é lenta e que não podemos ser reactivos uns contra os outros, salientando que os laços entre europeus se têm diluído nos últimos anos, em vez de se reafirmarem, porque essa é a única solução viável para todos.
E lançou o desafio: “Porque não estender este manifesto aos nossos colegas europeus?”. Ao que José Eduardo Franco respondeu que essa iniciativa já está a ser concretizada. Mas, para já, ainda existe o território português. Nesta quinta-feira o manifesto é colocado na Internet, para poder ser assinado por quem assim o desejar. E no próximo sábado será apresentado no Funchal.
Intelectuais e cientistas apresentaram esta quarta-feira um manifesto contra a crise, na Fundação Gulbenkian, pela afirmação da cultura, das artes e da ciência.
A canção Para os braços de minha mãe, de Pedro Abrunhosa, com colaboração vocal de Camané, que reflecte a fuga para o estrangeiro de massa crítica, deu o mote para a apresentação, esta quarta-feira, no auditório 3 da Fundação Gulbenkian, do Manifesto Contra a Crise – Compromisso com a Ciência, Artes e Cultura em Portugal, um documento que foi já assinado por mais de centena e meia de intelectuais, artistas ou cientistas.
O contexto alargado da sessão era a crise portuguesa e europeia, embora a recente polémica da queda do número de bolsas de doutoramento atribuídas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia tenha estado presente ao longo das intervenções.
Ou, como afirmou um dos primeiros oradores, o historiador José Eduardo Franco, e um dos obreiros do manifesto: “Queremos aqui lançar um alerta sobre a actual sangria” de talentos, ao mesmo tempo que avisou que o país tem de passar da “solidariedade da manutenção”, conectada com as necessidades básicas, para a “solidariedade da criatividade”, aproveitando a relevância estratégica da ciência, da cultura e das artes para desenhar o futuro.
Na sala, intelectuais como Rui Vieira Nery, catedráticos como Viriato Soromenho-Marques e Annabela Rita, cantores como Pedro Abrunhosa, cineastas como António Pedro Vasconcelos, escritores como Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Miguel Real ou Jaime Rocha e cientistas como Carlos Fiolhais. Políticos, apenas se viu, discreta, a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins.
Não surpreende. O encontro assumia-se apartidário e transdisciplinar. Poderia ter sido também transgeracional, mas sentiu-se falta das gerações mais novas. Fez-se um diagnóstico negro do país. Disse-se que o manifesto não era contra ninguém, embora, quase inevitavelmente, o governo actual e o Presidente da República tivessem sido nomeados em algumas intervenções, como aconteceu com o escritor Miguel Leal, que mostrou repúdio pela actual “cultura individualista, do salve-se quem puder”.
“Julgados pelo nosso silêncio”
A escritora Teolinda Gersão disse que é imperativo rejeitar o “capitalismo selvagem”, citando um estudo recente onde se concluiu que o pequeno grupo das 85 pessoas mais ricas do mundo concentra a mesma riqueza que 3500 milhões de pobres.
“O poder político tem governado em compadrio com o poder económico, para uma minoria”, disse, reforçando que uma transformação só acontecerá com mudança de mentalidades, onde o primado da economia possa ser substituído pela cultura.
Coube a Carlos Fiolhais o papel de mostrar que “a ciência é também uma forma de cultura”, apontando que entre os dois universos existem mais pontos de contacto do que o senso comum tende a pensar e destacando que “o esforço científico” tem essa faculdade de “iluminar o mundo”, acabando por citar o filósofo Sócrates: “Uma vida sem ciência é uma espécie de morte”.
O cantor Pedro Abrunhosa foi taxativo: “Portugal só se afirmará economicamente se antes se afirmar culturalmente”. Ou seja, a identidade cultural é determinante na afirmação do mundo actual.
Não é apenas uma realidade tangível. Os números também o asseveram, disse, recordando que o contributo das Indústrias Criativas em Portugal para o Produto Interno Bruto é de 3,2%. Depois disse que todos éramos culpados de passividade e exortou à rebelião: “Seremos julgados pelo nosso silêncio se não o fizermos”.
Lídia Jorge lembrou que no pós-25 de Abril existiu um esforço no sentido de aproximar o país da contemporaneidade. Hoje o retrocesso está a ser visível, disse, porque a base de sustentação que foi sendo erguida revela-se frágil. E comparou com outras realidades culturais europeias: “Hoje temos uma TV tão má como a inglesa, mas o impacto desse facto aqui é muito maior”.
A Europa foi o tema principal da intervenção de Viriato Soromenho-Marques, porque é aí que ele identifica a génese da crise, nessa “promessa traída da construção europeia”. Hoje o que temos é o despotismo dos mercados e das instituições. “Uma Europa monstruosa”, nas suas palavras. Uma Europa que corre riscos de autodestruição, se a marcha não for interrompida. “A cultura da crise é cega. Devora as pessoas. E o ambiente”, disse.
A única possibilidade é opor uma “cultura da resistência”, com a ideia em mente de que a mudança é lenta e que não podemos ser reactivos uns contra os outros, salientando que os laços entre europeus se têm diluído nos últimos anos, em vez de se reafirmarem, porque essa é a única solução viável para todos.
E lançou o desafio: “Porque não estender este manifesto aos nossos colegas europeus?”. Ao que José Eduardo Franco respondeu que essa iniciativa já está a ser concretizada. Mas, para já, ainda existe o território português. Nesta quinta-feira o manifesto é colocado na Internet, para poder ser assinado por quem assim o desejar. E no próximo sábado será apresentado no Funchal.
21.1.14
Mais de cem intelectuais lançam "Manifesto contra a crise"
in Jornal de Notícias
Um grupo de mais de cem intelectuais, como a escritora Lídia Jorge e o investigador Carlos Fiolhais, apresenta, dia 29, na Fundação Calouste Gulbenkian, o "Manifesto contra a Crise -- Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes".
Os 131 signatários, entre os quais se contam Mendo de Castro Henriques, professor da Universidade Nova, e a investigadora Anabela Rita, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, afirmam que "uma política (inter)nacional contabilística, que se prolongará nos tempos próximos, está a arruinar o presente e o futuro de uma geração de estudiosos e de artistas".
Segundo os signatários, estes estudiosos e artistas prometiam "tornar-se uma autêntica 'geração de ouro' para a investigação nas ciências experimentais e nas ciências sociais e humanas, possibilitando que Portugal atingisse e consolidasse um patamar de relevo nos circuitos internacionais da arte, da ciência e das letras".
Os signatários, entre eles a escritora Alice Vieira e o médico Amadeu Prado de Lacerda, salientam não estarem "contra ninguém", afirmando desconhecer qual o efeito deste Manifesto, mas "sentem que não é possível permanecer em silêncio, e desejam afirmar a sua revolta e indignação contra uma situação" que lamentam.
Os subscritores, como Mário Assis Ferreira, editor da revista Egoísta, criticam o "desinvestimento nas criações culturais e na conservação e restauro do património [que] fere a necessária inovação estética e a memória vivas de que uma identidade aberta em constante renovação não pode prescindir, sob pena de empenhamento do futuro".
"A nossa consciência cívica e cultural faz-nos estar a favor de uma política que conceba as Letras, nas Artes e nas Ciências, áreas profundamente inovadoras e criativas de uma sociedade aberta, plural e cosmopolita, como parceiras estratégicas do Estado e atividade social relevante, podendo contribuir decisivamente para o desenvolvimento do país, correspondendo ao investimento nelas realizado e à lição da História", escrevem os subscritores, como o atual diretor do Museu do Chiado, David Manuel dos Santos.
Entre as 131 personalidades que apoiam este Manifesto, contam-se, entre outros, a pintora Alice Valente Alves, a poetisa e professora universitária Ana Paula Tavares, o cineasta António Macedo, o psicólogo e catedrático António Sampaio da Nóvoa, anterior reitor da Universidade de Lisboa, Daniel Pires, do Centro de Estudos Bocageanos, o escritor Gonçalo M. Tavares, José Manuel Esteves, titular da cátedra Lindley Cintra na Universidade de Nanterre, em Paris, Mafalda Ferro, da Fundação António Quadros, a editora Maria João Martins, o ensaísta Paulo Loução e músico Pedro Abrunhosa.
O "Manifesto contra a Crise", sobre a situação global nas artes, na ciência e na cultura, foi posto a subscrição em data anterior à divulgação dos resultados do concurso de 2013 da Fundação para a Ciência e Tecnologia.
Um grupo de mais de cem intelectuais, como a escritora Lídia Jorge e o investigador Carlos Fiolhais, apresenta, dia 29, na Fundação Calouste Gulbenkian, o "Manifesto contra a Crise -- Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes".
Os 131 signatários, entre os quais se contam Mendo de Castro Henriques, professor da Universidade Nova, e a investigadora Anabela Rita, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, afirmam que "uma política (inter)nacional contabilística, que se prolongará nos tempos próximos, está a arruinar o presente e o futuro de uma geração de estudiosos e de artistas".
Segundo os signatários, estes estudiosos e artistas prometiam "tornar-se uma autêntica 'geração de ouro' para a investigação nas ciências experimentais e nas ciências sociais e humanas, possibilitando que Portugal atingisse e consolidasse um patamar de relevo nos circuitos internacionais da arte, da ciência e das letras".
Os signatários, entre eles a escritora Alice Vieira e o médico Amadeu Prado de Lacerda, salientam não estarem "contra ninguém", afirmando desconhecer qual o efeito deste Manifesto, mas "sentem que não é possível permanecer em silêncio, e desejam afirmar a sua revolta e indignação contra uma situação" que lamentam.
Os subscritores, como Mário Assis Ferreira, editor da revista Egoísta, criticam o "desinvestimento nas criações culturais e na conservação e restauro do património [que] fere a necessária inovação estética e a memória vivas de que uma identidade aberta em constante renovação não pode prescindir, sob pena de empenhamento do futuro".
"A nossa consciência cívica e cultural faz-nos estar a favor de uma política que conceba as Letras, nas Artes e nas Ciências, áreas profundamente inovadoras e criativas de uma sociedade aberta, plural e cosmopolita, como parceiras estratégicas do Estado e atividade social relevante, podendo contribuir decisivamente para o desenvolvimento do país, correspondendo ao investimento nelas realizado e à lição da História", escrevem os subscritores, como o atual diretor do Museu do Chiado, David Manuel dos Santos.
Entre as 131 personalidades que apoiam este Manifesto, contam-se, entre outros, a pintora Alice Valente Alves, a poetisa e professora universitária Ana Paula Tavares, o cineasta António Macedo, o psicólogo e catedrático António Sampaio da Nóvoa, anterior reitor da Universidade de Lisboa, Daniel Pires, do Centro de Estudos Bocageanos, o escritor Gonçalo M. Tavares, José Manuel Esteves, titular da cátedra Lindley Cintra na Universidade de Nanterre, em Paris, Mafalda Ferro, da Fundação António Quadros, a editora Maria João Martins, o ensaísta Paulo Loução e músico Pedro Abrunhosa.
O "Manifesto contra a Crise", sobre a situação global nas artes, na ciência e na cultura, foi posto a subscrição em data anterior à divulgação dos resultados do concurso de 2013 da Fundação para a Ciência e Tecnologia.
22.7.13
Crise mudou hábitos dos visitantes do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian
in Sol
Os visitantes do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian mudaram de hábitos devido à crise económica do país, e passaram a escolher os domingos de manhã, quando a entrada é gratuita, para verem as exposições.
Numa entrevista à agência Lusa sobre os 30 anos do CAM, que se celebram a 25 de Julho com o lançamento de uma programação de seis meses, Isabel Carlos, directora da entidade, indicou que a crise não provocou uma diminuição do número de visitantes no centro.
"Ao nível dos visitantes não perdemos, mas reparamos que o público vem mais ao domingo de manhã, porque a entrada é grátis. O público de domingo aumentou imenso e, de terça a sábado, diminuiu", indicou a responsável do CAM, que recebe anualmente uma média de 100 mil visitas.
Para Isabel Carlos "é compreensível" a opção pelo domingo de manhã, "sobretudo no caso das famílias, porque pesa nos seus orçamentos". No CAM, as crianças não pagam até aos 12 anos, e os adultos pagam cinco euros.
Sobre o impacto da crise na própria gestão do CAM, a responsável indicou que "não foi muito", e que este ano até houve um reforço do orçamento para aquisições de obras de arte.
Em vez dos 150 mil euros investidos dos últimos anos, o valor subiu para 300 mil euros em 2013.
"Isto permitiu-nos fazer uma aquisição substancial de três esculturas da Doris Salcedo", criadas pela artista colombiana para a exposição "Plegaria Muda", apresentada no CAM em 2012.
Isabel Carlos explicou a filosofia do centro relativamente à colecção: "Tentamos ter uma memória das exposições que por aqui passam. O CAM deve continuar a ser a melhor colecção de arte portuguesa destes dois séculos, e com pontuações internacionais que são a memória da programação".
"Nesse sentido, o orçamento não foi afectado, mas como houve alguns cortes nos últimos anos, e temos mais despesas porque o IVA subiu, e tudo subiu, temos então, no fundo, menos dinheiro disponível. Vamos experimentar para o ano abrandar a programação", revelou.
Esse abrandamento, segundo a responsável, significa que, "em vez de fazer uma rotação de exposições de três em três meses, cada exposição vai passar a rodar quatro meses".
Isabel Carlos revelou à agência Lusa que, no início de 2014, estão previstas duas retrospectivas antológicas de artistas portugueses - Rui Chafes e João Tabarra - e a primeira exposição em Portugal da artista tunisina Nadia Kaabi Linke, nascida em 1978, que tem vindo a abordar nos seus trabalhos questões como a emigração, a guerra e a relação entre ocidente e oriente.
A directora diz ter uma filosofia muito clara da programação e dos objectivos do CAM: "Deve ser a casa onde os artistas portugueses têm a possibilidade de fazer a sua primeira antológica, ou então, ainda jovens, fazer a sua primeira exposição em museu".
"Os artistas não podem é, sobretudo num momento como este, ficar isolados, a falar sozinhos. A ideia é sempre manter uma programação de um diálogo entre artistas internacionais, que não são conhecidos em Portugal, com artistas portugueses", sustentou.
Isabel Carlos observou que existe uma "tendência para esquecer que o CAM inaugurou em 1983, muito antes de haver um Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, e um MACBA [Museu de Arte Contemporânea de Barcelona]. O CAM foi o primeiro museu de arte moderna da Península Ibérica".
"A decisão de construir o centro aconteceu em 1979. O Centro Georges Pompidou, em Paris, inaugurou em 1977. Por aqui vemos que a administração da Fundação Gulbenkian, na altura, estava em sintonia com o tempo, e teve muita visão ao decidir construir este segundo museu na fundação, em Lisboa", apontou.
Nos trinta anos que passaram desde essa altura, tanto em Espanha como em Portugal, abriram muitos museus e centros culturais, mas Isabel Carlos volta a sublinhar a importância da colecção do CAM, com mais de 10 mil peças, da qual saem milhares de empréstimos todos os anos.
"Muitos museus não têm acervo e recorrem muito à colecção do CAM. É com base nela que montam muitas exposições", lembrou, apontando que esses empréstimos passam frequentemente despercebidos aos olhos do público.
O dia do aniversário do CAM será celebrado a 25 de Julho, com várias iniciativas, culminando com um concerto no anfiteatro, às 22:00, de entrada livre, com a cantora Maria João, que apresentará o seu mais recente projecto, OGRE.
Lusa/SOL
Tags: Fundação Calouste Gulbenkian, Gulbenkian, Centro de Arte Moderna (CAM), Sociedade, Arte, Crise
Os visitantes do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian mudaram de hábitos devido à crise económica do país, e passaram a escolher os domingos de manhã, quando a entrada é gratuita, para verem as exposições.
Numa entrevista à agência Lusa sobre os 30 anos do CAM, que se celebram a 25 de Julho com o lançamento de uma programação de seis meses, Isabel Carlos, directora da entidade, indicou que a crise não provocou uma diminuição do número de visitantes no centro.
"Ao nível dos visitantes não perdemos, mas reparamos que o público vem mais ao domingo de manhã, porque a entrada é grátis. O público de domingo aumentou imenso e, de terça a sábado, diminuiu", indicou a responsável do CAM, que recebe anualmente uma média de 100 mil visitas.
Para Isabel Carlos "é compreensível" a opção pelo domingo de manhã, "sobretudo no caso das famílias, porque pesa nos seus orçamentos". No CAM, as crianças não pagam até aos 12 anos, e os adultos pagam cinco euros.
Sobre o impacto da crise na própria gestão do CAM, a responsável indicou que "não foi muito", e que este ano até houve um reforço do orçamento para aquisições de obras de arte.
Em vez dos 150 mil euros investidos dos últimos anos, o valor subiu para 300 mil euros em 2013.
"Isto permitiu-nos fazer uma aquisição substancial de três esculturas da Doris Salcedo", criadas pela artista colombiana para a exposição "Plegaria Muda", apresentada no CAM em 2012.
Isabel Carlos explicou a filosofia do centro relativamente à colecção: "Tentamos ter uma memória das exposições que por aqui passam. O CAM deve continuar a ser a melhor colecção de arte portuguesa destes dois séculos, e com pontuações internacionais que são a memória da programação".
"Nesse sentido, o orçamento não foi afectado, mas como houve alguns cortes nos últimos anos, e temos mais despesas porque o IVA subiu, e tudo subiu, temos então, no fundo, menos dinheiro disponível. Vamos experimentar para o ano abrandar a programação", revelou.
Esse abrandamento, segundo a responsável, significa que, "em vez de fazer uma rotação de exposições de três em três meses, cada exposição vai passar a rodar quatro meses".
Isabel Carlos revelou à agência Lusa que, no início de 2014, estão previstas duas retrospectivas antológicas de artistas portugueses - Rui Chafes e João Tabarra - e a primeira exposição em Portugal da artista tunisina Nadia Kaabi Linke, nascida em 1978, que tem vindo a abordar nos seus trabalhos questões como a emigração, a guerra e a relação entre ocidente e oriente.
A directora diz ter uma filosofia muito clara da programação e dos objectivos do CAM: "Deve ser a casa onde os artistas portugueses têm a possibilidade de fazer a sua primeira antológica, ou então, ainda jovens, fazer a sua primeira exposição em museu".
"Os artistas não podem é, sobretudo num momento como este, ficar isolados, a falar sozinhos. A ideia é sempre manter uma programação de um diálogo entre artistas internacionais, que não são conhecidos em Portugal, com artistas portugueses", sustentou.
Isabel Carlos observou que existe uma "tendência para esquecer que o CAM inaugurou em 1983, muito antes de haver um Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, e um MACBA [Museu de Arte Contemporânea de Barcelona]. O CAM foi o primeiro museu de arte moderna da Península Ibérica".
"A decisão de construir o centro aconteceu em 1979. O Centro Georges Pompidou, em Paris, inaugurou em 1977. Por aqui vemos que a administração da Fundação Gulbenkian, na altura, estava em sintonia com o tempo, e teve muita visão ao decidir construir este segundo museu na fundação, em Lisboa", apontou.
Nos trinta anos que passaram desde essa altura, tanto em Espanha como em Portugal, abriram muitos museus e centros culturais, mas Isabel Carlos volta a sublinhar a importância da colecção do CAM, com mais de 10 mil peças, da qual saem milhares de empréstimos todos os anos.
"Muitos museus não têm acervo e recorrem muito à colecção do CAM. É com base nela que montam muitas exposições", lembrou, apontando que esses empréstimos passam frequentemente despercebidos aos olhos do público.
O dia do aniversário do CAM será celebrado a 25 de Julho, com várias iniciativas, culminando com um concerto no anfiteatro, às 22:00, de entrada livre, com a cantora Maria João, que apresentará o seu mais recente projecto, OGRE.
Lusa/SOL
Tags: Fundação Calouste Gulbenkian, Gulbenkian, Centro de Arte Moderna (CAM), Sociedade, Arte, Crise
6.5.13
Cultura no interior sofre efeitos "desastrosos"
por Lusa, publicado por Luís Manuel Cabral, in Diário de Notícias
Passados dois anos sobre a entrada da 'troika' em Portugal muita coisa mudou na vida dos portugueses, mas não foi só o aperto financeiro das famílias, também no país cultural ficaram marcas.
A presença da 'troika' refletiu-se na produção cultural do país, com os efeitos a serem particularmente visíveis nalgumas zonas do interior, mas também em grandes cidades.
Na Guarda, o programa de ajustamento teve efeitos "negativos" no Teatro Municipal local (TMG), segundo o seu diretor, Américo Rodrigues.
"O TMG passou a ter um orçamento muito mais baixo, uma programação com menos iniciativas e foi perdendo público, porque as pessoas deixaram de ter capacidade económica", disse à agência Lusa.
Segundo Américo Rodrigues, estes dois anos "têm sido tempos terríveis na área da cultura e das artes, trazendo muitos prejuízos a salas como o TMG, que estavam afirmadas na sua região".
"Os tempos da 'troika' são tempos de retrocesso total, tempos perdidos. Na Guarda sentimos uma redução substancial do número de espetadores e, como consequência, uma redução do número de propostas", sublinhou.
"O TMG estava a progredir na afirmação a nível nacional e internacional, com a ligação a Espanha, e essa progressão não só foi atalhada como perdeu características que faziam do TMG um teatro de referência", lamentou.
No distrito vizinho de Viseu, o diretor da Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) considerou que "as medidas que vêm sendo aplicadas estão a ter um reflexo desastroso na cultura".
José Rui Martins recordou que, em "devido tempo", alertou para o facto de a cultura "nem sequer figurar no memorando da 'troika'".
Segundo este responsável, "a política de recessão e austeridade obrigou também a uma diminuição das verbas das autarquias para a cultura", além de "o poder de compra por parte dos espetadores ser cada vez menor".
Depois de ver um quarto do seu financiamento desaparecer, cerca de 100 mil euros, a ACERT tenta resistir redobrando os espetáculos.
"Em 2012 tivemos o dobro dos trabalhos, mas a receita passou para metade", lamentou.
Mais a sul, o diretor do Centro Dramático de Évora (Cendrev), José Russo, não tem dúvidas: os últimos dois anos foram "devastadores" em matéria de cultura em Portugal.
"Não posso garantir que isto se deva à 'troika' (...), mas as políticas do Governo têm tido um efeito devastador" e "aceleraram o processo que estava em curso de desativação da atividade cultural no país", criticou.
Neste período, "quatro ou cinco funcionários" do Cendrev saíram e outros, embora sem se desligarem da companhia, "suspenderam os contratos de trabalho para poderem receber o subsídio de desemprego", disse.
"Os valores destinados à cultura têm tido uma redução drástica", criticou, acrescentando que, há quatro anos, o Cendrev recebia "cerca de 300 mil euros anuais" da Direção-Geral das Artes e para o próximo quadriénio vai ter "pouco mais de 100 mil euros por ano".
"Estamos a tentar perceber como é que vamos conseguir funcionar, mas (...) é impossível manter a atual estrutura de 14 pessoas. Temos de esvaziar a companhia para sobreviver e vão ter de sair mais umas nove ou dez pessoas", admitiu.
Se as câmaras, que são "quem compra os espetáculos", não tivessem sido afetadas pelos cortes do Orçamento do Estado "ainda teria havido uma escapatória", mas "toda a gente sabe que a esmagadora maioria das autarquias está na penúria".
Em 2012, o Cendrev reduziu para metade o preço dos bilhetes nos espetáculos -- de oito para quatro euros -, pelo que José Russo, apesar de tudo, não se queixa da afluência de público.
Os cortes para a Cultura sentem-se, também, em muitas fundações, com o que se passa no Porto a ser um exemplo.
Na cidade, o caso mais mediático foi o da Casa da Música, que viu a administração demitir-se em protesto contra o corte de 30% dos apoios para o ano de 2012.
Reclamava a administração liderada por Nuno Azevedo que Francisco José Viegas, ex-secretário de Estado da Cultura, prometera que o corte seria de 20%, mas o Governo, sem nunca o desmentir, manteve o corte em 30%.
A Casa da Música, em 2012, fez ajustes à programação, mantendo os agrupamentos residentes e a aposta na música clássica, mas recuando em áreas como o jazz ou o pop-rock.
Uma adaptação do género foi feita na Avenida da Boavista, por outra fundação, para também ajustar o corte de 30%.
Em Serralves, a aposta foi ocupar parte do espaço expositivo com peças do seu acervo, poupando no pagamento aos artistas, seguros e comissários.
As duas instituições têm procurado junto dos parceiros privados as verbas que escasseiam por parte do Estado.
No Porto, também se assistiu à extinção de fundações, como a Fundação Ciência e Desenvolvimento, uma parceria entre a Câmara e a Universidade do Porto, que geria o Teatro de Campo Alegre e o Planetário. A autarquia optou pela sua extinção, dividindo com a Universidade os equipamentos e integrando no universo camarário o seu pessoal.
Passados dois anos sobre a entrada da 'troika' em Portugal muita coisa mudou na vida dos portugueses, mas não foi só o aperto financeiro das famílias, também no país cultural ficaram marcas.
A presença da 'troika' refletiu-se na produção cultural do país, com os efeitos a serem particularmente visíveis nalgumas zonas do interior, mas também em grandes cidades.
Na Guarda, o programa de ajustamento teve efeitos "negativos" no Teatro Municipal local (TMG), segundo o seu diretor, Américo Rodrigues.
"O TMG passou a ter um orçamento muito mais baixo, uma programação com menos iniciativas e foi perdendo público, porque as pessoas deixaram de ter capacidade económica", disse à agência Lusa.
Segundo Américo Rodrigues, estes dois anos "têm sido tempos terríveis na área da cultura e das artes, trazendo muitos prejuízos a salas como o TMG, que estavam afirmadas na sua região".
"Os tempos da 'troika' são tempos de retrocesso total, tempos perdidos. Na Guarda sentimos uma redução substancial do número de espetadores e, como consequência, uma redução do número de propostas", sublinhou.
"O TMG estava a progredir na afirmação a nível nacional e internacional, com a ligação a Espanha, e essa progressão não só foi atalhada como perdeu características que faziam do TMG um teatro de referência", lamentou.
No distrito vizinho de Viseu, o diretor da Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) considerou que "as medidas que vêm sendo aplicadas estão a ter um reflexo desastroso na cultura".
José Rui Martins recordou que, em "devido tempo", alertou para o facto de a cultura "nem sequer figurar no memorando da 'troika'".
Segundo este responsável, "a política de recessão e austeridade obrigou também a uma diminuição das verbas das autarquias para a cultura", além de "o poder de compra por parte dos espetadores ser cada vez menor".
Depois de ver um quarto do seu financiamento desaparecer, cerca de 100 mil euros, a ACERT tenta resistir redobrando os espetáculos.
"Em 2012 tivemos o dobro dos trabalhos, mas a receita passou para metade", lamentou.
Mais a sul, o diretor do Centro Dramático de Évora (Cendrev), José Russo, não tem dúvidas: os últimos dois anos foram "devastadores" em matéria de cultura em Portugal.
"Não posso garantir que isto se deva à 'troika' (...), mas as políticas do Governo têm tido um efeito devastador" e "aceleraram o processo que estava em curso de desativação da atividade cultural no país", criticou.
Neste período, "quatro ou cinco funcionários" do Cendrev saíram e outros, embora sem se desligarem da companhia, "suspenderam os contratos de trabalho para poderem receber o subsídio de desemprego", disse.
"Os valores destinados à cultura têm tido uma redução drástica", criticou, acrescentando que, há quatro anos, o Cendrev recebia "cerca de 300 mil euros anuais" da Direção-Geral das Artes e para o próximo quadriénio vai ter "pouco mais de 100 mil euros por ano".
"Estamos a tentar perceber como é que vamos conseguir funcionar, mas (...) é impossível manter a atual estrutura de 14 pessoas. Temos de esvaziar a companhia para sobreviver e vão ter de sair mais umas nove ou dez pessoas", admitiu.
Se as câmaras, que são "quem compra os espetáculos", não tivessem sido afetadas pelos cortes do Orçamento do Estado "ainda teria havido uma escapatória", mas "toda a gente sabe que a esmagadora maioria das autarquias está na penúria".
Em 2012, o Cendrev reduziu para metade o preço dos bilhetes nos espetáculos -- de oito para quatro euros -, pelo que José Russo, apesar de tudo, não se queixa da afluência de público.
Os cortes para a Cultura sentem-se, também, em muitas fundações, com o que se passa no Porto a ser um exemplo.
Na cidade, o caso mais mediático foi o da Casa da Música, que viu a administração demitir-se em protesto contra o corte de 30% dos apoios para o ano de 2012.
Reclamava a administração liderada por Nuno Azevedo que Francisco José Viegas, ex-secretário de Estado da Cultura, prometera que o corte seria de 20%, mas o Governo, sem nunca o desmentir, manteve o corte em 30%.
A Casa da Música, em 2012, fez ajustes à programação, mantendo os agrupamentos residentes e a aposta na música clássica, mas recuando em áreas como o jazz ou o pop-rock.
Uma adaptação do género foi feita na Avenida da Boavista, por outra fundação, para também ajustar o corte de 30%.
Em Serralves, a aposta foi ocupar parte do espaço expositivo com peças do seu acervo, poupando no pagamento aos artistas, seguros e comissários.
As duas instituições têm procurado junto dos parceiros privados as verbas que escasseiam por parte do Estado.
No Porto, também se assistiu à extinção de fundações, como a Fundação Ciência e Desenvolvimento, uma parceria entre a Câmara e a Universidade do Porto, que geria o Teatro de Campo Alegre e o Planetário. A autarquia optou pela sua extinção, dividindo com a Universidade os equipamentos e integrando no universo camarário o seu pessoal.
14.10.12
Poesia, palavras de ordem e música de norte a sul contra a austeridade
in Jornal de Notícias
Poesia, palavras de ordem, Zeca Afonso e Beethoven passaram pelo palco montado na Praça de Espanha, em Lisboa, numa manifestação cultural contra a austeridade, à qual muitos pais levaram os filhos por temerem o futuro que terão. O cenário repetiu-se em várias cidades de norte a sul do país.
Cerca de 10 mil pessoas assistem pacificamente aos concertos do protesto "Cultura é Resistência", na Praça de Espanha, em Lisboa, que já levou ao palco também a música de José Afonso, a poesia de Álvaro de Campos e apelos à demissão do Governo.
O maestro Claudio Hochman classificou a iniciativa como "uma manifestação cultural, suprapartidária, suprassindical". Entre a assistência, estava o músico Luís Varatojo, fundador de A Naifa, que disse à agência Lusa que participará no protesto para "correr com os incompetentes que governam cá dentro e lá fora". E acrescentou: "nunca fomos dependentes de subsídios do Estado e o que o Governo está a fazer é a destruição total da economia e a matar a iniciativa provada".
Ana Bacalhau e José Pedro Leitão, dos Deolinda, afirmaram à Lusa que sentiram necessidade de mostrar o descontentamento, tal como qualquer outro cidadão. "O que o Governo está a fazer é mais um golpe à criação. Para tomar atitudes é preciso ter ideias e criatividade e magoar o menos possível as pessoas", disse a vocalista do grupo.
Pedro Gonçalves, contrabaixista dos Dead Combo, alertou para o facto de a situação estar a tornar-se "insustentável". "Eu não vejo isto hoje como uma manifestação de artistas. É um projeto e é essa a maneira de nos expressarmos, disse o músico dos Dead Combo, que irá interpretar hoje com o fadista Camané os temas "Inquietação", de José Mário Branco, e "Vendaval", de Tony de Matos.
Artistas portugueses saíram à rua, este sábado, em Lisboa e em mais de duas dezenas de localidades no país para protestar contra as medidas de austeridade.
No Porto, centenas de manifestantes juntaram-se na Praça D. João I, no Porto, entre os quais apoiantes do movimento internacional "Global Noise", com recurso a tachos e panelas para tornar o protesto mais ruidoso.
Em Braga, cerca de 600 pessoas estiveram na manifestação contra os cortes na Cultura que teve início com a voz de Adolfo Luxúria Canibal a dar o alerta, "sem cultura o homem transforma-se em cão".
Centenas de pessoas animaram as ruas de Coimbra e uma praça da Baixa da cidade com canções, coreografias e "tacholadas", integrando-se no protesto nacional "Que se lixe a Troika! Queremos as Nossas Vidas!".
Em Viseu, mais de 150 pessoas, através da música, poesia, ou de megafone em punho, manifestaram a indignação para com os "Robins do século XXI, que roubam aos pobres".
A canção "Grândola, Vila Morena", de Zeca Afonso, marcou o "pontapé de saída" da manifestação cultural contra as medidas de austeridade em Beja, que, a meio da tarde, contava com a adesão de cerca de 200 pessoas.
No Algarve, cerca de 300 pessoas juntaram-se na Doca de Faro, depois de uma concentração no Jardim da Alameda e marcha por várias artérias da cidade. O palco está montado na Doca para atores, cantores e músicos protestarem contra as medidas de austeridade.
"Chega de desemprego, queremos as nossas vidas" foram algumas das palavras de ordem entoadas pelos manifestantes, alguns dos quais munidos de tachos, panelas e caçarolas.
Em Viana dos Castelo, a iniciativa teve a adesão de cerca de 350 pessoas. Na Praça da República ouviram-se várias intervenções e discursos de trabalhadores, desempregados e jovens que subiram ao "palco", improvisado no secular chafariz que ali existe, também para declamar poesia e cantar.
O protesto foi organizado pelo "Movimento cívico Vianense - Manif. com vassoura na mão!", que simbolicamente afirma querer dar uma "vassourada no Governo", o que levou várias pessoas a participarem empunhando vassouras.
As críticas às medidas de austeridade e gritos de ordem exigindo a saída do Governo e contra a 'troika' foram a tónica dominante, mas as declarações do cardeal patriarca de Lisboa, que afirmou que "não se resolve nada contestando", tiveram forte eco na principal praça de Viana do Castelo. "Fez-me lembrar o senhor cardeal Cerejeira, que na ditadura benzia navios com jovens que partiam para a guerra", afirmou José Carlos Barbosa, numa das intervenções mais ovacionadas da tarde.
Poesia, palavras de ordem, Zeca Afonso e Beethoven passaram pelo palco montado na Praça de Espanha, em Lisboa, numa manifestação cultural contra a austeridade, à qual muitos pais levaram os filhos por temerem o futuro que terão. O cenário repetiu-se em várias cidades de norte a sul do país.
Cerca de 10 mil pessoas assistem pacificamente aos concertos do protesto "Cultura é Resistência", na Praça de Espanha, em Lisboa, que já levou ao palco também a música de José Afonso, a poesia de Álvaro de Campos e apelos à demissão do Governo.
O maestro Claudio Hochman classificou a iniciativa como "uma manifestação cultural, suprapartidária, suprassindical". Entre a assistência, estava o músico Luís Varatojo, fundador de A Naifa, que disse à agência Lusa que participará no protesto para "correr com os incompetentes que governam cá dentro e lá fora". E acrescentou: "nunca fomos dependentes de subsídios do Estado e o que o Governo está a fazer é a destruição total da economia e a matar a iniciativa provada".
Ana Bacalhau e José Pedro Leitão, dos Deolinda, afirmaram à Lusa que sentiram necessidade de mostrar o descontentamento, tal como qualquer outro cidadão. "O que o Governo está a fazer é mais um golpe à criação. Para tomar atitudes é preciso ter ideias e criatividade e magoar o menos possível as pessoas", disse a vocalista do grupo.
Pedro Gonçalves, contrabaixista dos Dead Combo, alertou para o facto de a situação estar a tornar-se "insustentável". "Eu não vejo isto hoje como uma manifestação de artistas. É um projeto e é essa a maneira de nos expressarmos, disse o músico dos Dead Combo, que irá interpretar hoje com o fadista Camané os temas "Inquietação", de José Mário Branco, e "Vendaval", de Tony de Matos.
Artistas portugueses saíram à rua, este sábado, em Lisboa e em mais de duas dezenas de localidades no país para protestar contra as medidas de austeridade.
No Porto, centenas de manifestantes juntaram-se na Praça D. João I, no Porto, entre os quais apoiantes do movimento internacional "Global Noise", com recurso a tachos e panelas para tornar o protesto mais ruidoso.
Em Braga, cerca de 600 pessoas estiveram na manifestação contra os cortes na Cultura que teve início com a voz de Adolfo Luxúria Canibal a dar o alerta, "sem cultura o homem transforma-se em cão".
Centenas de pessoas animaram as ruas de Coimbra e uma praça da Baixa da cidade com canções, coreografias e "tacholadas", integrando-se no protesto nacional "Que se lixe a Troika! Queremos as Nossas Vidas!".
Em Viseu, mais de 150 pessoas, através da música, poesia, ou de megafone em punho, manifestaram a indignação para com os "Robins do século XXI, que roubam aos pobres".
A canção "Grândola, Vila Morena", de Zeca Afonso, marcou o "pontapé de saída" da manifestação cultural contra as medidas de austeridade em Beja, que, a meio da tarde, contava com a adesão de cerca de 200 pessoas.
No Algarve, cerca de 300 pessoas juntaram-se na Doca de Faro, depois de uma concentração no Jardim da Alameda e marcha por várias artérias da cidade. O palco está montado na Doca para atores, cantores e músicos protestarem contra as medidas de austeridade.
"Chega de desemprego, queremos as nossas vidas" foram algumas das palavras de ordem entoadas pelos manifestantes, alguns dos quais munidos de tachos, panelas e caçarolas.
Em Viana dos Castelo, a iniciativa teve a adesão de cerca de 350 pessoas. Na Praça da República ouviram-se várias intervenções e discursos de trabalhadores, desempregados e jovens que subiram ao "palco", improvisado no secular chafariz que ali existe, também para declamar poesia e cantar.
O protesto foi organizado pelo "Movimento cívico Vianense - Manif. com vassoura na mão!", que simbolicamente afirma querer dar uma "vassourada no Governo", o que levou várias pessoas a participarem empunhando vassouras.
As críticas às medidas de austeridade e gritos de ordem exigindo a saída do Governo e contra a 'troika' foram a tónica dominante, mas as declarações do cardeal patriarca de Lisboa, que afirmou que "não se resolve nada contestando", tiveram forte eco na principal praça de Viana do Castelo. "Fez-me lembrar o senhor cardeal Cerejeira, que na ditadura benzia navios com jovens que partiam para a guerra", afirmou José Carlos Barbosa, numa das intervenções mais ovacionadas da tarde.
13.10.12
"Sem cultura o homem transforma-se em cão"
por Lusa, texto publicado por Paula Mourato, in Diário de Notícias
As ações de protesto já marcham por Portugal. Artistas portugueses manifestam-se em mais de 20 cidades. A manifestação cultural contra os cortes na Cultura arrancou em Braga com a voz de Adolfo Luxúria Canibal. Em Lisboa arranca às 17:00, na Praça de Espanha. Também decorre em Lisboa, a manifestação contra o desemprego "Por um Portugal com Futuro" organizada pela CGTP - com manifestantes que percorreram todo o País.O protesto parte da Praça da Figueira em direção à Assembleia da República. No Porto, centenas estão concentrado na Praça da Batalha.
A manifestação de artistas e população contra os cortes na Cultura arrancou em Braga com a voz de Adolfo Luxúria Canibal a dar o alerta, "sem cultura o homem transforma-se em cão".
Do palco, uma voz ecoa, "oh da Guarda", ouve-se. Adolfo Lúxuria Canibal e o ator António Durães lançam o mote da tarde, um "alerta" para a "razia" nos apoios à Cultura.
Da plateia, cerca de 600 pessoas aplaudem, gritam palavras de ordem e incentivam quem no palco mostra que Portugal "é mais do que números" e sem Cultura "não se vive".
Em declarações à Lusa, um dos organizadores da manifestação, José Barbosa, explica o que no palco se passa.
"Respondemos ao apelo lançado pelo Carlos Mendes. Músicos, atores e gente da cultura vai subir ao palco porque a cultura é fundamental como o pão e por ação deste governo está-nos a faltar o pão", afirmou.
No palco, uma das vozes mais conhecidas e reconhecidas de Braga, a voz dos Mão Morta, junta-se ao som das palavras de António Durães, da Companhia de Teatro do S. João.
"A Cultura padece", afirmam.
Segundo disse à Lusa Lúxuria Canibal, "a cultura é dos primeiros setores da sociedade a sentir a crise".
Segundo o cantor, "quando se chega ao ponto em que se está, em que até no estomago já se sente a crise é porque já passámos por muitos lados. É nesta altura em que o homem se transforma em cão".
António Pacheco, de 25 anos, não é artista mas aderiu ao protesto. "Tiram-nos tudo e ainda querem que nos esqueçamos da crise sem Cultura, o único escape para isso", justificou.
Ao lado, Camila Silva, de 65 anos, concordou. "Aumentaram o preço dos bilhetes, dos espetáculos. Ir a um cinema, ao teatro é só para ricos. E ricos são cada vez menos. Os pobres e remediados também têm direito", reclamou.
Aos 13 anos, Joana Paula reconheceu que nunca foi ao teatro, "é caro", dizem-lhe os pais. "Ao cinema vou uma vez por mês e já não é mau. Tenho pena, sinto que estou a perder conhecimento", lamentou.
Pelo palco montado na Avenida Central vão passar artistas como os Cão Danado, Coro de País da Companhia da Música, o Grupo de Teatro Oprimido de Braga, Jonhy Sem Dente e a atriz Carla Sequeira.
O protesto estará no palco até as 19:00 horas.
A cultura sai hoje à rua contra a austeridade
Artistas portugueses saem hoje à rua, em Lisboa e em mais de duas dezenas de localidades no país, para protestar contra as medidas de austeridade, mas o dia ficará ainda marcado por outras manifestações e concentrações.
A manifestação cultural que se associa ao apelo "Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!" concentrará mais de 30 bandas e artistas, que atuarão a partir das 17:00 num palco junto à Praça de Espanha, em Lisboa, na qual estarão ainda atores, realizadores, produtores e promotores.
A esta manifestação em Lisboa, que contará, por exemplo, com Dead Combo, Camané, Diabo na Cruz, Deolinda, Vitorino e Coro Acordai, associam-se outras em mais de 20 cidades, como Porto, Coimbra, Faro, Braga, Santarém, Évora e Caldas da Rainha.
" manifestação cultural de hoje vai juntar-se o movimento internacional Global Noise, com recursos a tachos e panelas.
Hoje está igualmente prevista, segundo o Facebook, a manifestação "contra as políticas de austeridade -- devolvam-nos a dignidade", em 24 cidades portuguesas. Em Lisboa, os manifestantes vão marchar pela avenida da Liberdade até ao Marquês de Pombal, juntando-se depois ao protesto da Praça de Espanha.
A marcha da CGTP contra o desemprego, que tem estado a percorrer o país, também termina hoje em Lisboa, com um desfile entre a Praça da Figueira e a Assembleia da República.
Além dos protestos de hoje, estão previstas ações no domingo e na segunda-feira.
Para domingo, véspera da apresentação do Orçamento do Estado para 2013, estão marcadas duas vigílias junto ao parlamento.
Uma delas é convocada no Facebook pelo movimento "Ocupar Lisboa", para um almoço em São Bento. A outra é marcada pelos indignados de Lisboa e tem início às 00:00 de domingo, prolongando-se até às 18:00 de segunda-feira.
Nesta segunda-feira, realiza-se a concentração "Cerco a São Bento! Este não é o nosso orçamento", marcada para as 18:00, organizada pelo Movimento Sem Emprego e Plataforma 15 de Outubro.
Setor das farmácias realiza hoje desfile até ao Ministério da Saúde
Cerca de 3.500 pessoas do setor das farmácias vão hoje realizar um cortejo desde o Campo Pequeno até ao Ministério da Saúde, em Lisboa, onde pretendem entregar a petição que defende a alteração da política do medicamento.
Segundo o presidente da Associação Nacional de Farmácias (ANF), João Cordeiro, várias organizações ligadas às farmácias estarão hoje numa reunião magna no Campo Pequeno, para debater a situação do setor.
Depois do encontro, os cerca de 3.500 a 4.000 participantes vão ser convidados a deslocarem-se, numa marcha, ao Ministério da Saúde, onde contam entregar a petição que, neste momento, já tem mais de 100 mil assinaturas.
A petição, lançada no final de setembro, ao mesmo tempo que as farmácias entravam "em luto", pede uma alteração da política do medicamento, de forma a evitar o encerramento estimado de 600 farmácias.
No texto, os signatários pedem ao Governo que tome as medidas adequadas para que os portugueses tenham um acesso de qualidade aos medicamentos, e para que as farmácias disponham de condições necessárias a um normal funcionamento.
As ações de protesto já marcham por Portugal. Artistas portugueses manifestam-se em mais de 20 cidades. A manifestação cultural contra os cortes na Cultura arrancou em Braga com a voz de Adolfo Luxúria Canibal. Em Lisboa arranca às 17:00, na Praça de Espanha. Também decorre em Lisboa, a manifestação contra o desemprego "Por um Portugal com Futuro" organizada pela CGTP - com manifestantes que percorreram todo o País.O protesto parte da Praça da Figueira em direção à Assembleia da República. No Porto, centenas estão concentrado na Praça da Batalha.
A manifestação de artistas e população contra os cortes na Cultura arrancou em Braga com a voz de Adolfo Luxúria Canibal a dar o alerta, "sem cultura o homem transforma-se em cão".
Do palco, uma voz ecoa, "oh da Guarda", ouve-se. Adolfo Lúxuria Canibal e o ator António Durães lançam o mote da tarde, um "alerta" para a "razia" nos apoios à Cultura.
Da plateia, cerca de 600 pessoas aplaudem, gritam palavras de ordem e incentivam quem no palco mostra que Portugal "é mais do que números" e sem Cultura "não se vive".
Em declarações à Lusa, um dos organizadores da manifestação, José Barbosa, explica o que no palco se passa.
"Respondemos ao apelo lançado pelo Carlos Mendes. Músicos, atores e gente da cultura vai subir ao palco porque a cultura é fundamental como o pão e por ação deste governo está-nos a faltar o pão", afirmou.
No palco, uma das vozes mais conhecidas e reconhecidas de Braga, a voz dos Mão Morta, junta-se ao som das palavras de António Durães, da Companhia de Teatro do S. João.
"A Cultura padece", afirmam.
Segundo disse à Lusa Lúxuria Canibal, "a cultura é dos primeiros setores da sociedade a sentir a crise".
Segundo o cantor, "quando se chega ao ponto em que se está, em que até no estomago já se sente a crise é porque já passámos por muitos lados. É nesta altura em que o homem se transforma em cão".
António Pacheco, de 25 anos, não é artista mas aderiu ao protesto. "Tiram-nos tudo e ainda querem que nos esqueçamos da crise sem Cultura, o único escape para isso", justificou.
Ao lado, Camila Silva, de 65 anos, concordou. "Aumentaram o preço dos bilhetes, dos espetáculos. Ir a um cinema, ao teatro é só para ricos. E ricos são cada vez menos. Os pobres e remediados também têm direito", reclamou.
Aos 13 anos, Joana Paula reconheceu que nunca foi ao teatro, "é caro", dizem-lhe os pais. "Ao cinema vou uma vez por mês e já não é mau. Tenho pena, sinto que estou a perder conhecimento", lamentou.
Pelo palco montado na Avenida Central vão passar artistas como os Cão Danado, Coro de País da Companhia da Música, o Grupo de Teatro Oprimido de Braga, Jonhy Sem Dente e a atriz Carla Sequeira.
O protesto estará no palco até as 19:00 horas.
A cultura sai hoje à rua contra a austeridade
Artistas portugueses saem hoje à rua, em Lisboa e em mais de duas dezenas de localidades no país, para protestar contra as medidas de austeridade, mas o dia ficará ainda marcado por outras manifestações e concentrações.
A manifestação cultural que se associa ao apelo "Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!" concentrará mais de 30 bandas e artistas, que atuarão a partir das 17:00 num palco junto à Praça de Espanha, em Lisboa, na qual estarão ainda atores, realizadores, produtores e promotores.
A esta manifestação em Lisboa, que contará, por exemplo, com Dead Combo, Camané, Diabo na Cruz, Deolinda, Vitorino e Coro Acordai, associam-se outras em mais de 20 cidades, como Porto, Coimbra, Faro, Braga, Santarém, Évora e Caldas da Rainha.
" manifestação cultural de hoje vai juntar-se o movimento internacional Global Noise, com recursos a tachos e panelas.
Hoje está igualmente prevista, segundo o Facebook, a manifestação "contra as políticas de austeridade -- devolvam-nos a dignidade", em 24 cidades portuguesas. Em Lisboa, os manifestantes vão marchar pela avenida da Liberdade até ao Marquês de Pombal, juntando-se depois ao protesto da Praça de Espanha.
A marcha da CGTP contra o desemprego, que tem estado a percorrer o país, também termina hoje em Lisboa, com um desfile entre a Praça da Figueira e a Assembleia da República.
Além dos protestos de hoje, estão previstas ações no domingo e na segunda-feira.
Para domingo, véspera da apresentação do Orçamento do Estado para 2013, estão marcadas duas vigílias junto ao parlamento.
Uma delas é convocada no Facebook pelo movimento "Ocupar Lisboa", para um almoço em São Bento. A outra é marcada pelos indignados de Lisboa e tem início às 00:00 de domingo, prolongando-se até às 18:00 de segunda-feira.
Nesta segunda-feira, realiza-se a concentração "Cerco a São Bento! Este não é o nosso orçamento", marcada para as 18:00, organizada pelo Movimento Sem Emprego e Plataforma 15 de Outubro.
Setor das farmácias realiza hoje desfile até ao Ministério da Saúde
Cerca de 3.500 pessoas do setor das farmácias vão hoje realizar um cortejo desde o Campo Pequeno até ao Ministério da Saúde, em Lisboa, onde pretendem entregar a petição que defende a alteração da política do medicamento.
Segundo o presidente da Associação Nacional de Farmácias (ANF), João Cordeiro, várias organizações ligadas às farmácias estarão hoje numa reunião magna no Campo Pequeno, para debater a situação do setor.
Depois do encontro, os cerca de 3.500 a 4.000 participantes vão ser convidados a deslocarem-se, numa marcha, ao Ministério da Saúde, onde contam entregar a petição que, neste momento, já tem mais de 100 mil assinaturas.
A petição, lançada no final de setembro, ao mesmo tempo que as farmácias entravam "em luto", pede uma alteração da política do medicamento, de forma a evitar o encerramento estimado de 600 farmácias.
No texto, os signatários pedem ao Governo que tome as medidas adequadas para que os portugueses tenham um acesso de qualidade aos medicamentos, e para que as farmácias disponham de condições necessárias a um normal funcionamento.
19.6.12
Berardo defende aposta na cultura para criar emprego
in Diário de Notícias
O colecionador e empresário Joe Berardo defendeu, em declarações à Lusa, que a cultura deveria ser uma prioridade para o Governo porque "é uma forma mais económica de criar emprego" no país.
Joe Berardo falava a propósito do quinto aniversário do museu, instalado em 2007 no Centro Cultural de Belém (CCB), na sequência de um acordo com o Estado, no qual cedeu parte da sua coleção de arte moderna e contemporânea por dez anos.
Passados cinco anos de vida do museu, o empresário madeirense diz que é "gratificante" a quantidade de visitantes alcançada - cerca de 3,4 milhões - no espaço expositivo, desde a abertura.
"Está provado que o museu é um sucesso para os portugueses e estrangeiros", salientou o comendador, defendendo uma maior aposta na cultura, no país.
Berardo considera que "uma das melhores maneiras de criar emprego, e de forma mais económica, é pela via cultural, abrindo mais museus, renovando museus", e que Portugal, "por ter tanta cultura num espaço tão pequeno", pode potenciar esses valores para atrair turistas.
Sobre a "difícil situação económica do país", que se refletiu nos cortes do orçamento do museu, obrigando à redução das exposições temporárias em dois terços, o colecionador opta por uma postura "realista".
"Não se pode continuar com os mesmos orçamentos. Há cortes em todas as áreas, e as pessoas da equipa do museu têm de ser flexíveis, e mostrar ao público aquilo que está guardado", avaliou o colecionador, referindo-se ao acervo de 862 peças da coleção cedida ao Estado até 2016.
Apesar dos cortes no financiamento das exposições, sente-se "orgulhoso, como português, por existir em Portugal um museu de arte moderna e contemporânea que cobre todo o século XX, até à atualidade".
Joe Berardo sublinhou ainda que, passados cinco anos, o objetivo do seu projeto continua a ser o mesmo: "Mostrar a coleção, e promover os artistas portugueses".
Recordou, como exemplo, a artista Joana Vasconcelos, que agora inaugurou uma exposição no Palácio de Versailles, em Paris, alvo de uma retrospetiva no Museu Berardo em 2010.
Questionado sobre a continuidade das entradas gratuitas - que assim se mantiveram ao longo dos cinco anos - o presidente da Fundação Berardo de Arte Moderna e Contemporânea indicou que o conselho de administração da entidade vai analisar a questão ainda este ano.
Desde a inauguração do museu que a manutenção das entradas gratuitas foi defendida por Joe Berardo, mas, devido aos cortes no orçamento, que ascendem a 50 por cento, a entidade pondera a possibilidade de cobrar as visitas às exposições temporárias, "as que acarretam maiores custos".
"Vamos avaliar e também estudar quanto custa introduzir um sistema de cobrança de bilhetes. Mas nada está ainda decidido", indicou o colecionador.
O colecionador e empresário Joe Berardo defendeu, em declarações à Lusa, que a cultura deveria ser uma prioridade para o Governo porque "é uma forma mais económica de criar emprego" no país.
Joe Berardo falava a propósito do quinto aniversário do museu, instalado em 2007 no Centro Cultural de Belém (CCB), na sequência de um acordo com o Estado, no qual cedeu parte da sua coleção de arte moderna e contemporânea por dez anos.
Passados cinco anos de vida do museu, o empresário madeirense diz que é "gratificante" a quantidade de visitantes alcançada - cerca de 3,4 milhões - no espaço expositivo, desde a abertura.
"Está provado que o museu é um sucesso para os portugueses e estrangeiros", salientou o comendador, defendendo uma maior aposta na cultura, no país.
Berardo considera que "uma das melhores maneiras de criar emprego, e de forma mais económica, é pela via cultural, abrindo mais museus, renovando museus", e que Portugal, "por ter tanta cultura num espaço tão pequeno", pode potenciar esses valores para atrair turistas.
Sobre a "difícil situação económica do país", que se refletiu nos cortes do orçamento do museu, obrigando à redução das exposições temporárias em dois terços, o colecionador opta por uma postura "realista".
"Não se pode continuar com os mesmos orçamentos. Há cortes em todas as áreas, e as pessoas da equipa do museu têm de ser flexíveis, e mostrar ao público aquilo que está guardado", avaliou o colecionador, referindo-se ao acervo de 862 peças da coleção cedida ao Estado até 2016.
Apesar dos cortes no financiamento das exposições, sente-se "orgulhoso, como português, por existir em Portugal um museu de arte moderna e contemporânea que cobre todo o século XX, até à atualidade".
Joe Berardo sublinhou ainda que, passados cinco anos, o objetivo do seu projeto continua a ser o mesmo: "Mostrar a coleção, e promover os artistas portugueses".
Recordou, como exemplo, a artista Joana Vasconcelos, que agora inaugurou uma exposição no Palácio de Versailles, em Paris, alvo de uma retrospetiva no Museu Berardo em 2010.
Questionado sobre a continuidade das entradas gratuitas - que assim se mantiveram ao longo dos cinco anos - o presidente da Fundação Berardo de Arte Moderna e Contemporânea indicou que o conselho de administração da entidade vai analisar a questão ainda este ano.
Desde a inauguração do museu que a manutenção das entradas gratuitas foi defendida por Joe Berardo, mas, devido aos cortes no orçamento, que ascendem a 50 por cento, a entidade pondera a possibilidade de cobrar as visitas às exposições temporárias, "as que acarretam maiores custos".
"Vamos avaliar e também estudar quanto custa introduzir um sistema de cobrança de bilhetes. Mas nada está ainda decidido", indicou o colecionador.
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