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28.7.23

Inteligência artificial. Os artistas portugueses e as máquinas a imaginar juntos

Mariana Duarte,  in Público


Das artes visuais à música, do cinema à performance, a IA ganha força nas artes portuguesas. Aponta caminhos aos criadores. “As novas experiências são muito estranhas, até deixarem de o ser.”


Em 2003, o artista português Leonel Moura escreveu um manifesto em que afirmava que as máquinas podiam fazer arte. “Na altura fui muito criticado. Vários artistas disseram que eu era louco, que nada disso ia acontecer”, recorda este pioneiro na aplicação da robótica e da inteligência artificial (IA) nas artes. Olhar presciente que se tornou presente, prelúdio de um futuro que ainda está só no começo, mas que já está, avassaladoramente, em todo o lado.


A IA chegou em força às artes visuais, à música, à performance, ao cinema, à literatura, ao design, com uma série de ferramentas que têm permitido aos artistas criar em colaboração com as máquinas, ampliando “as suas possibilidades criativas e estimulando novas formas de expressão”, diz Inês Cardoso, mais conhecida por Carincur, artista multidisciplinar de 30 anos que opera nas intersecções entre música, performance, instalação e tecnologia.


“O interessante no que estamos a viver é que a IA, que agora se chama generativa – porque tem capacidade de gerar coisas que não existiam antes, tem esse aspecto de novidade e criatividade –, entrou no campo artístico e está a provocar uma mudança na história da arte”, observa Leonel Moura, 74 anos. Na década de 90 já fazia experiências com IA (mas que “nada tinha a ver” com a de hoje), concebendo, em 2001, o primeiro dos seus muitos robôs pintores. “A evolução da ciência, da tecnologia e da automação sempre teve implicações nas artes.”


“A arte sempre existiu numa relação complexa, simbiótica e em contínuo desenvolvimento com as capacidades tecnológicas de uma cultura. Essas capacidades compelem a arte que é produzida e informam a maneira como esta é percepcionada pelo público (...) A inteligência das máquinas vai transformar a sociedade de maneiras que são difíceis de imaginar a partir do ponto de vista actual; num futuro próximo vai expandir o nosso entendimento da realidade e dos nossos processos cognitivos”, resume Blaise Agüera y Arcas, engenheiro de software e designer latino-americano, num texto publicado em Atlas of Anomalous AI (2021), livro que explora a nossa relação com vários sistemas de conhecimento, dos ancestrais aos emergentes, cartografando uma espécie de pré-história da IA.


Ferramentas como o ChatGPT, DALL-E, Midjourney, Stable Diffusion ou Overdub estão na ordem do dia. Gritam novidade, possibilidade, futuro. Mas não serão elas “apenas” uma versão mais avançada e poderosa – para o bem e para o mal – do acto de sonhar, através do qual damos vida a coisas que estão na nossa imaginação, como o homem do conto de Jorge Luis Borges, Ruínas Circulares, que tentou criar outro homem através dos sonhos? Ou da ficção científica e especulativa, como a história dos Oankali, a espécie alienígena com habilidades e tecnologias impressionantes de Dawn (1987), da escritora Octavia E. Butler, ou o país subaquático povoado pelos filhos de mulheres africanas escravizadas, que foram lançadas grávidas para fora dos navios negreiros, imaginado pelo duo de música techno Drexciya?


“Estamos numa fase muito inicial desta tecnologia e ainda não conseguimos antecipar todos os perigos. Mas acredito numa coisa, bonita e positiva, que aconteceu com a introdução e expansão da IA: uma nova consciência colectiva sobre a existência de outros tipos de inteligências, lembrando-nos que há outros mundos que se sobrepõem ao nosso, que convivem com o nosso, que apontam outras visões e formas de pensar, o que é particularmente importante no contexto do Antropoceno e da emergência climática”, considera Joana Pestana, designer, investigadora e professora de 36 anos que desenvolve projectos no cruzamento entre tecnologia, design e novas literacias.

Um deles é Eden X: Estrutura Paradisíaca, Organização sem Centro, co-criado em 2022 com Mariana Pestana e Kevin Gallagher, que faz uso da IA para ensaiar, precisamente, um modelo social em que os recursos naturais seriam autogeridos por comunidades humanas e “mais-que-humanas” (depois da apresentação no festival Jardins Efémeros, em Viseu, o projecto terá uma nova iteração na Porto Design Biennale, a acontecer entre Outubro e Dezembro, desta feita com a IA aliada a outras tecnologias, nomeadamente a sequenciação genética).


O meio acha que a tecnologia é uma coisa do capitalismo e da ciência, e os artistas é que são os humanistas. Um disparate profundo: não há coisa mais humanista do que a tecnologia, desde a Idade da Pedra

Leonel Moura


Também para Carincur, a IA funciona como “um catalisador para uma exploração mais profunda da condição humana” – e “como parte integrante do discurso da performance sobre a natureza da consciência e do eu”, como um prolongamento do corpo e uma extrapolação de binómios como realidade vs. ficção. Odete, artista interdisciplinar de 27 anos que está a recorrer à IA para conceber Artifício, a sua primeira exposição individual numa instituição (inaugura a 10 de Outubro nas Galerias Municipais de Lisboa), encara esta tecnologia como “um método historiográfico”. Como “uma ferramenta de análise da sociedade e da visualidade, dos seus significados e das suas falhas”, dando assim continuidade à “obsessão” da artista “com dimensões espectrais da tecnologia”.


Já Gabriel Abrantes, artista visual e cineasta de 39 anos que sempre esteve atento às potencialidades e aos conflitos das novas tecnologias, explorou a relação entre pintura e IA na sua mais recente exposição individual na galeria Francisco Fino, em Lisboa, Nobody Nowhere, para pensar sobre as repercussões existenciais e sociais, emocionais e criativas “da tecnologia, do mundo digital e da IA naquilo que é a prática artística de um pintor ou de um videoartista”.

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Fascínio/ansiedade/negação

Os artistas portugueses presentes nestas páginas – de diferentes gerações e disciplinas, éticas e práticas – falam-nos sobre as suas experiências com IA e as implicações artísticas, políticas, laborais e filosóficas desta tecnologia “que veio para ficar” e cujo veloz desenvolvimento vai ser “impossível de travar”.

O fascínio pela IA é partilhado. Na maioria dos casos, mistura-se com um sentimento de ansiedade e de perplexidade, de “estranhamento” perante algo que, pelo menos por agora, é impossível de ver e agarrar na sua totalidade. Essas inquietações acabam por ser também um dos ímpetos das criações. Um modo de endereçar e inquirir as limitações, as vertigens e as novas tácticas de existência da tecnologia através da própria tecnologia; uma forma de fabular utopias entre as falhas e as forças.

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Apesar de tudo, ou por causa de tudo, é preciso lembrar que a IA não é uma entidade independente, uma criatura fora do controlo dos humanos. Somos nós que a criamos e/ou alimentamos. “As máquinas precisam de nós, e nós precisamos delas”, refere Leonel Moura. “A IA ainda está num plano colaborativo porque continua a precisar do prompt [instruções textuais dadas por quem utiliza]. Ou seja, o artista tem de escrever alguma coisa para obter alguma coisa.”

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“Mesmo antes da Revolução Industrial, sempre existiram tecnologias que foram mediadas e criadas por nós. E sempre que veio um avanço tecnológico, vieram com ele o medo e a ideia de substituição: perda de emprego, competição com habilidades técnicas, perda de significado e propósito, receio de perder a conexão emocional e a empatia que vêm com as interacções humanas. No entanto, trouxe-nos tantas outras coisas com um valor de expansão”, assevera a artista, assinalando que a IA representa “uma série de possibilidades artísticas transformadoras”.

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A artista nota ainda que a IA lhe permitiu potencializar técnicas "que com um sistema tão precário como o do sector da cultura em Portugal – poucos recursos, pouco tempo de investigação, pouco investimento, equipas reduzidas – seriam impossíveis de concretizar". Além disso, "a transversalidade das disciplinas" fez com que aprofundasse e questionasse "novas práticas e dispositivos de apresentação".


“O mais importante é entender que, embora a automação se tenha tornado cada vez mais parte da produção artística desde antes da imprensa de Gutenberg, este novo conjunto de ferramentas é uma categoria totalmente diferente. A principal diferença agora é que temos muito poder de computação para apoiar-nos em tarefas, disponível para muitas pessoas”, sublinha Mat Dryhurst, artista, pensador e investigador britânico. É um dos principais e mais incansáveis pedagogos sobre o uso de IA e outras tecnologias nas artes, percurso que tem sido feito ao lado da sua companheira, a artista e compositora Holly Herndon.



Segundo Leonel Moura, essa desmultiplicação da IA tem deixado “o meio artístico em pânico”, tanto em Portugal como lá fora, porque este “não soube reagir”. Está em negação, declara, e “por isso vai ficar desfeito”. “O meio acha que a tecnologia é uma coisa do capitalismo e da ciência, e os artistas é que são os humanistas. Um disparate profundo, pois não há coisa mais humanista do que a tecnologia, desde a Idade da Pedra. Ela ajuda sobretudo os humanos.”


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“A banalidade de um mundo 100% digital”

Tanto para Leonel Moura como para Mat Dryhurst (sendo o britânico menos cáustico que o português), o que está em causa é uma nova etapa na história da arte, que obrigará a novos pactos sociais e ao desenho de uma nova economia capaz de acompanhar, ou pelo menos de não perder tanto o fio à meada, uma tecnologia em constante mutação. “Há uma tendência lamentável para se ver a arte como algo fixo. Não acho que a história da arte reflicta isso. A nossa definição de distinção artística está sempre a mudar e continuará a mudar”, observa Dryhurst.


Não tenho dúvidas de que a Netflix vai produzir guiões e fazer filmes com IA, pois é um processo mais industrial e onde a parte social e de culto de personalidade é menos forte do que no mundo das artes (...) Os actores estarão a salvo, mas com os guionistas é complicado

Gabriel Abrantes


“As ferramentas de IA serão integradas nas práticas artísticas. Algumas pessoas vão usá-las como meio principal, outras como meio secundário, outras vão evitá-las.” O artista e investigador reconhece que há certas profissões no ecossistema cultural que poderão estar em risco, mas não se alinha com visões apocalípticas. “A IA não pode substituir o papel do artista, pois a arte cumpre um papel social complexo. Se as pessoas dizem que a IA substituirá os artistas, questiono o quanto percebem elas de arte. É claro que a introdução de novas e poderosas ferramentas terá um impacto significativo na economia das artes, isso é inevitável, e novos tipos de práticas artísticas surgirão daí.”


“É importante lembrar que a expressão artística humana continua a ter um valor inestimável”, reforça Carincur. “Nós seguimos os humanos e aspiramos a ser humanos. Vamos continuar a querer saber o que os artistas pensam e como pensam. Pode haver muita excitação inicial com um romance produzido pelo GPT-4 [o mais recente modelo do ChatGPT, da OpenAI], mas essa novidade vai desgastar-se rapidamente”, acrescenta Mat Dryhurst.

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Afinal, as insuficiências humanas são também o que nos fazem relacionar com a arte e os artistas. “Muito do seu valor está no prazer da criação de um discurso estético, político e pessoal em interacção com o mundo social”, aponta Abrantes, para quem o uso de imagens produzidas com o DALL-E, uma ferramenta ainda com uma linguagem “limitada” e uniformizada, serviu também “como um comentário sobre o que seria a banalidade de um mundo 100% digital”.


No entanto, o artista e cineasta acredita que num certo flanco do cinema o cenário “é muito diferente” das artes visuais. “Não tenho dúvidas de que a Netflix vai produzir guiões e fazer filmes com IA, pois é um processo mais industrial e onde a parte social e de culto de personalidade é menos forte do que no mundo das artes”, afirma. “Os actores estarão a salvo, não nos interessa assim tanto ver avatares digitais, mas com os guionistas é complicado: não há um culto de personalidade associado a estes profissionais e é um trabalho que pode ser feito remotamente”, analisa o criador, que tem usado o ChatGPT regularmente não como “output criativo”, mas para utilizações “mais mundanas, e reflexões pessoais e sentimentais”.

“Considero muito acertadas as actuais greves e reivindicações dos guionistas nos EUA, apesar de, infelizmente, achar que vão ter muito pouco sucesso, porque infelizmente todos os exemplos históricos que temos de sindicatos que lutaram contra a inovação tecnológica para proteger trabalhadores nunca tiveram grande eficácia.”


“Considero muito acertadas as actuais greves e reivindicações dos guionistas nos EUA, apesar de, infelizmente, achar que vão ter muito pouco sucesso, porque infelizmente todos os exemplos históricos que temos de sindicatos que lutaram contra a inovação tecnológica para proteger trabalhadores nunca tiveram grande eficácia.”


Tal molda necessariamente o modo como se utiliza e interpreta a tecnologia. Vemos isso em Odete, cuja abordagem à IA é mais um capítulo da sua investigação assente num método de “arqueologia paranóica” e numa historiografia especulativa que conspira contra a escrita hegemónica da história, procurando inscrever nela corpos, práticas e epistemologias que foram obliteradas. “O que me interessou foi olhar para a IA como se fosse uma espécie de arquivo performativo. Não é um arquivo da humanidade, estanque, não é uma sala em que tu entras e procuras, mas um arquivo que vai sendo alimentado e que está constantemente a ‘performar’ os seus significados e suas constantes alterações”, explica a artista.

“Isso tornou-se interessante quando comecei a usar a IA para brincar com ideias do passado. Por exemplo, pedi ao DALL-E para me dar uma pintura a óleo do barroco europeu que retratasse uma comunidade de mulheres trans a experimentar perfumes num laboratório cheio de cores. Comecei a criar estas especulações históricas, a usar a AI para produzir estética do passado, para eu brincar com a própria fiabilidade e as ausências do arquivo.” Há, nesse sentido, uma espécie de ajuste de contas, uma utopia, “uma possibilidade de sonhar”.

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É como quando estamos a subir uma montanha e só vemos um bocado do que vai aparecer. Há momentos que são de encantamento e há outros que nos assustamJoana Pestana


Ao mesmo tempo, o projecto permite um questionamento ético “do que é a corporalidade” da IA. “A IA só existe porque há uma série de explorações de materiais do planeta que permitem que se criem máquinas que sustentam esta tecnologia”, aponta Odete. E isso leva-nos novamente à pré-história da IA. “A narrativa da exposição é também sobre a IA ser uma tecnologia que resulta de uma mais básica, que é o fogo. Os humanos descobriram o fogo, conseguiram dobrar metais com ele, a partir dos metais conseguiram fazer armas, fazer guerras, fazer jóias; a tecnologia avança, surgem os computadores, até que se conseguiu a desmaterialização de uma consciência onde pairam vários fantasmas e espectros dentro do algoritmo, como as personagens trans que a IA me devolveu.”


Neste trabalho ainda em andamento, Odete conseguiu identificar falhas e limitações nas representações “da sexualidade, de certos tipos de violência, como a escravatura, e de certos corpos”. “Quando eu queria produzir personagens trans, a IA tinha sempre uma obsessão com androginia – dava-me uma mulher com barba, ou um homem com saia. A percepção da IA de uma pessoa trans é gender trouble.” O que se tornou num tópico de reflexão “curioso”.


[...]Regulamentar estraga “receita secreta”

Dizíamos, no início desta conversa (que já vai longa e particularmente extenuante para a escriba: nada nestes quase 30 mil caracteres foi produzido com a ajuda do ChatGPT), que a IA é uma ferramenta criada, alimentada e operada por humanos. Mas é uma humanidade parcial, ainda sem controlo real da coisa (se é que alguma vez irá tê-lo).

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“A Meredith Whittaker, CEO da Signal Foundation, diz que a IA é um derivado da vigilância porque depende dos megadados, da extracção de dados. Ou seja, está vinculada à existência de uma rede de observação permanente”, contextualiza Joana Pestana. A vigilância foi, aliás, o ponto de partida da designer para chegar à IA.


“Tem muito a ver com o momento em que eu estou em Londres a fazer o meu projecto final de mestrado, em 2014, no rescaldo do caso Edward Snowden. A minha investigação foi muito inspirada por toda a discussão de então sobre privacidade, dados pessoais e vigilância”, recorda a investigadora e professora sediada no Porto. Este trabalho acabou por conduzir ao desenvolvimento de outros projectos, entre eles a curadoria e co-curadoria de duas exposições entre 2020 e 2021 – respectivamente, Scrolling the Arcane, onde a IA já estava presente, e Omnisciência: Estratégias de Fractura e Fuga – que se debruçaram sobre “a temática da vigilância e os estados de ansiedade, de impotência e de desconhecimento perante a complexidade tecnológica que se tinha vindo a erguer à nossa volta”.


A priori há uma série de práticas que são excluídas porque depende sempre de quem alimenta a IA. Por mais que pareça uma perspectiva universalizante do mundo, nunca o é. Quando uso o DALL-E,

entristece-me não saber quem alimentou e como alimentou. Devia haver transparência

Odete


No ano passado, com Eden X, Joana Pestana fez uso da IA de forma mais directa. “O projecto consistia na criação de uma plataforma online de discussão, que ensaiava um modelo de gestão descentralizado. O objectivo era o desenho de um jardim a partir dessa conversa. Depois houve uma instalação física em Viseu, no âmbito do festival Jardins Efémeros.” Este debate envolveu artistas e investigadores de várias áreas (Joana Rafael, Miguel Teodoro, Patrícia Portela, entre outros), mas também entidades “mais-que-humanas” co-criadas pelo artista luso-venezuelano Nestor Pestana com o ChatGPT-3. Uma delas, o Vento, foi gerada com recurso a textos do povo indígena Selk'nam.

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“Temos feito muito para consciencializar os artistas sobre como o seu trabalho é usado na IA, fornecendo-lhes meios para que estes possam optar por participar ou não participar [o chamado opt-in e op-out] nas bases de dados e entregando essas solicitações às empresas de IA e às plataformas que hospedam conjuntos de dados”, explica Dryhurst.

“Se o nosso padrão for adoptado de forma mais ampla, poderá ser o fundamento para construir algo. Nunca será perfeito, mas achamos que a nossa abordagem pode funcionar na maioria dos ambientes comerciais. Temos defendido esses tipos de direitos de dados há dez anos.” Até ao momento, conseguiram ajudar a retirar 1,4 mil milhões de imagens e a resposta da indústria “tem sido muito positiva”, assinala o artista. “Estamos a abrir caminho e a estabelecer o opt-out como conceito. Vai demorar a espalhar-se.”


Para Dryhurst, mudar o facto de “o trabalho dos artistas não ter sido levado em consideração no treino das bases de dados e no desenvolvimento destes modelos”, nem no desenho de uma nova economia, depende também dos criadores. Joana Pestana sublinha a importância de as entidades governamentais desenharem legislação para “estabelecer limites nas questões de legitimidade e consentimento”, sem “o lobby das entidades corporativas”, mas lembra que a história “não dá grande esperança” nesse sentido. De resto, concorda com o colega britânico quanto “à tomada de responsabilidade” por parte de artistas e designers.


“Temos de pensar sobre como podemos reivindicar um uso crítico desta tecnologia. Assim como um arquitecto sabe em que moldes foi extraído o mármore que utiliza num projecto, nós também não deveríamos ser alheios ao material com o qual estamos a trabalhar” – até porque a possibilidade de as ferramentas de IA emularem cada vez mais linguagens, seja de autores emergentes ou estabelecidos, mortos ou vivos, será cada vez maior “e mais capitalizável” por empresas.

Desmistificar

Este processo de responsabilização implica, por um lado, que os artistas e designers não se alienem dos seus meios de produção, seguindo a velhinha máxima de Marx. “Temos de perceber como podemos construir, ou contribuir para construir, os nossos modelos de treino, de forma a não sermos demovidos de grande parte do processo criativo", assevera Joana Pestana. “A introdução da IA no terreno do design de comunicação, e também do design de produto, acelerou um afastamento que já estava em curso, desde a Revolução Industrial, em relação aos processos, aos modos de produção e de fabricação dos produtos.”

Por outro lado, é necessário deixar de “mistificar” esta tecnologia. “Falar destes sistemas como se fossem magia e como se as máquinas fossem independentes” resulta também numa perda cada vez maior do controlo sobre os processos criativos, nota a designer e investigadora. E serve para alimentar o ruído, o pânico e o desconhecimento em torno da IA. Pestana diz que “é urgente” uma maior literacia sobre este assunto.

“Nós não podemos abster-nos de compreender o que é isto, porque se não tivermos essa literacia podemos, sem querer, reforçar um discurso em que nós não acreditamos, que pode ser um discurso hegemónico vinculado a figuras de poder antidemocráticas, a monopólios e actividades corporativas com as quais nem concordamos. Temos de saber examinar aquilo que cada training set [conjunto de dados usados para treinar um sistema IA] promove ou discrimina, aprova ou rejeita, torna visível ou invisível. Ao utilizar a IA, estamos a contribuir para um discurso cultural contínuo sobre a IA.”


o fundo, cabe aos artistas, e a toda a gente, olhar para a IA não apenas como um recurso tecnológico e criativo, mas como uma peça já totalmente inescapável do “tecido cultural, político, social e económico”. O resto, dos possíveis apocalipses aos muito aguardados saltos da humanidade, ou tudo o que está pelo meio, só o tempo dirá – o que, pela velocidade da coisa, pode ser já amanhã. Terminemos com o optimismo de Mat & Holly: “As novas experiências são muito estranhas, até deixarem de o ser.”

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

16.11.21

“Devido aos discursos xenófobos”, o Lisbon & Sintra Film Festival celebra a cultura cigana

in RR

Um concerto de Emir Kusturica, o filme de Leonor Teles, "Balada de um Batráquio" ou os novos filmes de Jane Campion e Pedro Almodóvar marcam a décima quinta edição do Lisbon & Sintra Film Festival que celebra este ano a chamada cultura Rom.

“Estou orgulhoso por ainda cá estarmos e organizarmos isto com toda a liberdade”. É desta forma que o produtor Paulo Branco se refere à décima quinta edição do Lisbon & Sintra Film Festival que começa esta quarta-feira. O organizador do festival que este ano é dedicado à cultura Rom, mais conhecida entre nós pela expressão do povo cigano, lembra que vão estrear muitos filmes que ficaram por acabar com o estalar da pandemia.

Em entrevista ao programa Ensaio Geral, Paulo Branco começa por assumir a urgência da escolha da temática deste ano do evento. Para o produtor destacar a cultura Rom é uma “afirmação política de um grupo de cidadãos”. Nas suas palavras, a “celebração da cultura Rom” acontece “sobretudo devido aos tempos que se passam e aos discursos xenófobos que cada vez mais há na Europa”.

Através de concertos, debates e cinema esta expressão cultural será destacada. Exemplos disso são a exibição de filmes como “Balada do Batráquio” da portuguesa Leonor Teles, ou “Gato Preto, Gato Branco” de Emir Kusturica. Mas Paulo Branco faz outro destaque. A exibição em sala de filmes de Charlie Chaplin.

Trata-se de “uma atenção muito especial ao Charlot”. A família Chaplin que vai marcar presença no festival, diz Branco, “reivindica de forma militante a origem cigana do pai, avô e bisavô” de Chaplin. Entre os filmes que serão mostrados está “The Kid – O Garoto de Charlot” numa versão restaurada 4K.

De resto no cartaz deste ano do Lisboa & Sintra Film Festival serão feitas cinco homenagens, uma delas a Jane Campion, a realizadora do famoso “O Piano”. No festival, diz Paulo Branco será a oportunidade única de ver em sala o mais recente filme “The Power of the Dog” com que a cineasta é candidata aos Óscares da Academia.

A obra do produtor do filme “Listen” de Ana Rocha, Rodrigo Areias vai também estar em destaque. O público vai poder ver dois filmes inéditos, “Vencidos da Vida” e o mais recente, “Arte da Memória”.

Um dos ciclos temáticos, dedicado à “Morte de Deus”, comissariado por Alexey Artamonov, Denis Ruzaev e Inês Branco López vai contar com filmes como “Maria Madalena”, de Abel Ferrara, “Les Imortelles”, de Caroline Deruas ou “Em Nome do Pai”, de Marco Bellocchio.

O cartaz deste ano do festival conta também com música. O concerto de encerramento está a cargo do músico e realizador Emir Kusturica que se faz acompanhar pela sua banda The No Smoking Orchestra, no dia 20 de novembro, às 21horas, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra.


10.9.21

Artista Miguel Januário (±maismenos±) levou o mundo polarizado para a galeria Underdogs

in JN

O artista Miguel Januário (±maismenos±) inaugura hoje, na galeria Underdogs, em Lisboa, uma exposição em que o visitante é convidado a escolher um lado, acabando por fazer com que haja duas formas diferentes de ver a mostra.

"Yes or No Future" ("Sim ou Não há Futuro", tradução livre em português), que se insere no projeto ±maismenos±, que Miguel Januário desenvolve há vários anos e reflete sobre o modelo de organização política, social e económica que gere a vida nas sociedades atuais, tem duas leituras, ou três para quem quiser ficar confuso, e a escolha é feita logo à entrada.

"O título [da mostra] já traz em si um duplo significado, que é a ideia de um futuro binário, um futuro 'sim ou não', polarizado. Ou a ideia de dizer 'sim', com um sentido que é autoritário, que é 'sim, ou não há futuro'", explicou à agência Lusa, durante uma visita à exposição.

Quem entra na galeria é convidado a escolher entre os dois lados, que estão materializados em óculos, uns com lentes azuis e outros com lentes vermelhas, que permitirão que se faça leituras diferentes das mesmas obras.

Esta escolha faz com que haja "duas formas de ver a exposição". "Ou três, se não escolheres", disse, acrescentando que "quem está no meio das duas perspetivas fica confuso".

Segundo o artista, "quem escolher o sim acaba por ser mais submisso àquilo que é a realidade, ao sistema, a aceitar mais o sistema" e, "quem diz não, vê um pouco o lado de lá da realidade que é proposta hoje em dia, na sociedade".

Nos novos trabalhos que apresenta, o artista e designer gráfico toca "vários temas, do Mercado, da Comunicação, da Publicidade, da Economia e da Política".

"No fundo, isto acaba por ser uma crítica à sociedade polarizada que vivemos, a esta sociedade dos populismos, das divisões, que, do meu ponto de vista, se tem vindo a reforçar, desde o início deste século, até do final do século passado. Mais ou menos desde a queda do Muro de Berlim [em 1989] que isso se tem acentuado", referiu o artista.

Para Miguel Januário, "com a pandemia isso vai ser muito mais presente, muito mais visível".

Em "Yes or No Future", há vários tipo de peças, "com abordagens muito diferentes em termos de linguagens e de materiais", e na maioria estão frases e expressões sobrepostas que dão as tais leituras diferentes de uma mesma obra.

Há um conjunto de obras que refletem mais sobre Comunicação: "Sobre a forma como comunicamos, daí estarem com este aspeto de mupi de rua iluminado, e terem dois lados - um lado mais floreado da Publicidade e da Comunicação, em que todos podemos ser espetaculares se usarmos aquelas marcas; e outro da luta, da intervenção, do compromisso com a transformação social", descreveu.

Em cada uma das peças há "duas realidades que se sobrepõem: uma mais fantasiosa da beleza e da estética e outra mais de luta, de intervenção, também ela muitas vezes transformada em floreado".

Numa outra peça, em cimento, Miguel Januário escreveu a definição de "Entropia Social", que ficou por baixo de uma série de cartazes, que, tal como nas ruas, vão cobrindo muros com várias camadas de papel.

Nessas camadas, cortou as palavras Lei e Ordem, "os mecanismos que impedem a entropia social, através do uso da violência, do exército, das autoridades" e, para conseguir ler-se a definição daquela expressão, é necessário recorrer a um telemóvel.

Uma das paredes da galeria ficou parcialmente ocupada com uma série de palavras -- Liberdade, Esperança, Respeito, Justiça ou Tolerância -, através das quais é feita uma "alusão ao mercado de valores, mas dos valores humanos". "Tudo o que é valor humano transformou-se em valor económico", referiu o artista sobre a peça onde, atrás de cada palavra, estão números que vão mudando, subindo e descendo, tal como quadros nas bolsas de valores de Lisboa ou Nova Iorque.

A mostra inclui também, entre outras, uma peça de vídeo, onde dois vídeos são sobrepostos - um com imagens de publicidade, entretenimento, espetáculo, futebol, desporto e outro de guerra, manifestações, protestos - "com lógica, dando dois lados da realidade", que são distinguidos, mais uma vez, com recursos aos óculos escolhidos à entrada.

No meio da galeria foram colocadas duas peças que deverão fazer as delícias das crianças, um balancé e um pequeno carrossel, e que são "um resumo da exposição": "Os vermelhos e os azuis andam a girar, e enquanto um está em baixo o outro está em cima".

"Yes or No Future", de entrada livre, estará patente até 16 de outubro.

Em simultâneo, pode visitar-se, no espaço cápsula da galeria Underdogs, "Cazzo!", exposição do artista e designer italiano Fiumani, radicado há dez anos em Portugal.

Na Underdogs, Fiumani apresenta uma série de trabalhos novos, "entre eles bastante diferentes em termos de técnicas, mas com um fio condutor que é a temática".

O título da exposição é um palavrão, quando traduzido para português, mas é uma expressão que os italianos utilizam como os portugueses usam 'caraças', explicou o artista à Lusa.

A mostra surgiu numa fase "difícil da vida, tanto pessoal como do mundo". E, nesses tempos, Fiumani andou a perguntar-se "quando é a altura certa para dizer 'caraças, isto não pode andar mais para a frente assim'".

"Quando é que chega o ponto de dizer 'isto não dá mais'? A exposição tem um lado muito sentimental e social e os dois encontram-se nesta exclamação", disse.

Como é habitual no seu trabalho, as obras que Fiumani tem expostas na Underdogs foram criadas com recurso a desperdício.

"Tudo o que está aqui é desperdício: ferro, plástico, borrachas, madeira. Tudo menos os ecrãs", referiu, acrescentando que, nesta exposição, além do desperdício tentou juntar a tecnologia.

"E aqui levanta-se outra questão, que é muito fulcral nos tempos que vivemos: como é que a tecnologia está a transformar-nos enquanto humanos?", explicou.

Fiumani deixa uma reflexão, como está escrito numa das peças: Estará a tecnologia a transformar os humanos numa "cultura de clones robóticos", que "não conseguem passar um dia sem uma app aberta ou ir a lado nenhum sem recorrer ao google maps"?

9.12.20

Modar-te: Catarina quer um “núcleo criativo” do têxtil em Amarante

Marta Sousa Coutinho, in Público on-line

Para pôr Amarante a olhar para a arte e o design do têxtil de outra forma, Catarina Noronha quer abrir um núcleo criativo na cidade onde nasceu. O Modar-te tem uma campanha de crowdfunding até 22 de Dezembro.

Catarina Noronha quer mudar o olhar sobre a moda e criar memórias colectivas. Para isso, a jovem pensou o Modar-te, um núcleo criativo que visa contribuir para uma cidade com um olhar mais aberto para a arte e o design. O projecto pretende criar em Amarante, de onde Catarina é natural, um estúdio de coworking, eventos e oficinas e workshops para todas as idades. O “conceito de estúdio para o mundo digital” através do canal de YouTube vai ser outra das inovações do projecto. Em Fevereiro de 2021 serão lançadas entrevistas e um diário gráfico de quem utiliza o espaço de coworking, que será disponibilizado a partir de Janeiro, e onde haverá oficinas e workshops relacionados com o têxtil. Para tal, a jovem lançou uma campanha de crowdfunding.

Sem esquecer as artes mais antigas, o Modar-te pretende ainda “pegar em técnicas ancestrais de artesanato e revitalizá-las através de um design mais contemporâneo, no qual as gerações mais novas se identifiquem”. Há já vários workshops programados por pessoas mais velhas com conhecimentos em artesanato e direccionados aos mais jovens, ainda que sem limite de idade.

A educação é um dos quatro conceitos pelo qual o projecto se rege. Catarina, de 28 anos, inspirou-se numa experiência do Serviço de Voluntariado Europeu na República Checa, onde trabalhou com crianças na criação de uma colecção de moda conceptual, tendo depois originado um desfile. A promoção do têxtil “enquanto forma de expressão artística” é outro dos conceitos que o projecto pretende abordar, através da venda das peças criadas, do canal no YouTube e de eventos e exposições. A ilustração, o design e respectivo re-design e o up-cycling - a reutilização de objectos que parecem inúteis e a sua transformação criativa - são, também, pilares do projecto.

Catarina Noronha estudou Ciências no ensino secundário e começou a estudar Genética e Biotecnologia na faculdade, mas cedo se apercebeu de que aquilo que queria mesmo fazer a nível profissional era trabalhar na área das artes. Acabou a estudar Design e Marketing de Moda na Universidade do Minho e no fim da licenciatura promoveu desfiles e um evento criativo de moda em Amarante, que durou 12 horas e, mais tarde, se tornou o projecto com o mesmo nome para o qual lançou uma campanha de crowfunding.

Apaixonada pela sua cidade, Catarina quer continuar a viver pelas margens do Tâmega. Não tendo muita oferta de trabalho na área de moda e design, decidiu abrir o próprio espaço. Para tal, tem a decorrer uma campanha de crowdfunding na plataforma PPL: as contribuições podem começar nos cinco euros e ir até aos 1000, recompensados com um busto de gesso. A campanha está online até 22 de Dezembro.


13.9.17

Artistas colocam o dedo nas feridas da crise financeira através de obras em vídeo

in Diário de Notícias

Obras em vídeo de 22 artistas colocam a partir de hoje, em Lisboa, o dedo nas feridas provocadas pela crise financeira global de 2008, agravando os problemas do desemprego, dos refugiados, da pobreza e da contestação social.

A exposição, que inaugura hoje, às 19:00, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), e abre ao público na quarta-feira, apresenta a visão pessoal de criadores provenientes desde os Estados Unidos e América Latina, da Europa ao Médio Oriente.

Numa visita guiada aos jornalistas, Pedro Gadanho, diretor do MAAT, e Luísa Santos, ambos curadores da exposição, apresentaram as "imagens em movimento" que testemunham nesta exposição as tensões e inquietações que marcaram a sociedade desde essa crise financeira global.

"Todos os artistas aqui representados têm uma posição muito ativa na sociedade. Não são necessariamente ativistas, mas acreditam que a arte pode ter um papel de questionamento, intervenção ou mudança social", sublinhou Luísa Santos.

Entre as obras surge uma montagem de Patrícia Almeida com uma sequência de imagens da interrupção, pela ativista Josephine Witt, de um discurso do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi.

"Na altura não foram feitas filmagens deste episódio ativista, no qual a jovem atira 'confetis´ e interrompe o discurso, portanto a artista teve de procurar várias fotografias, e criar uma narrativa em vídeo do que terá acontecido", apontou a curadora.

Outra obra, de Nicolaj Larsen, intitulada "Quicksand", cria uma ficção do que poderia acontecer, em 2023, se um grupo de cidadãos britânicos que querem fugir às dificuldades da vida no Reino Unido, decidindo fazer a travessia do Mediterrâneo de barco, de forma a emigrar para o sul.

"Criei esta ficção porque senti que muitas pessoas que vivem na Europa têm pouca empatia para com os refugiados provenientes do sul, das suas dificuldades e sofrimento, dos riscos que correm na travessia", explicou o artista aos jornalistas.

No vídeo, a imensidão e presença do mar são intensas. Não há corpos visíveis, mas ouve-se as vozes dos britânicos que tentam fazer a travessia num barco que acaba por meter água, e os ocupantes morrem afogados.

Por seu turno, o artista português Paulo Mendes apresenta um vídeo com uma recolha de imagens de atentados terroristas e tumultos de imigrantes ocorridos em França e em Espanha, retirados de vídeos que foram colocados na internet e de imagens de videovigilância.

"Tudo isto mostra que a Europa está em falência devido às opções políticas erradas, e há uma grande necessidade de mudança política, económica e social", defendeu.

Por seu turno, Pedro Gadanho sublinhou que as obras desta exposição exprimem como a crise financeira de 2008 se alastrou a várias áreas, nomeadamente ao racismo, "que já existia, mas acentuou-se com o agravar das desigualdades sociais, como aconteceu nos Estados Unidos, com o caso dos tumultos em Charlotsville".

"Tensão & Conflito - Arte em vídeo após 2008" reúne ainda obras de Halil Altindere, Marila´ Dardot, Bofa da Cara, Burak Delier, Melanie Gilligan, Lola Gonza`lez, Hiwa K, Silvia Kolbowski, Marc Larre´, e Jorge Macchi.

Também estarão representados Mario Pfeifer, Francisco Queiro´s, Anatoly Shuravlev, Federico Solmi, Pilvi Takala, Maria Trabulo, Dragana Zarevac, Artur Zmijewski, e Yorgos Zois.

12.7.17

Gaia. Violência, guerra e fome numa bienal de arte e "de causas"

in RR

A 2ª Bienal Internacional de Gaia, que é inaugruada no sábado, no espaço do Centro Empresarial Fercopor, anuncia-se como uma "bienal de causas".

A iniciativa, que conta com 31 exposições e mais de 1.500 obras de artistas, lança aos 500 autores participantes o desafio de abordarem temas que inquietem e provoquem a sociedade, diz à Renascença um dos organizadores, Agostinho Santos.

"Queremos que esta seja uma bienal de causas, que provoque. Uma bienal que se preocupa com os outros, que está inquieta. Lançámos o desafio aos artistas de 11 países de abordarem questões que nos preocupam todos os dias: a violência, a guerra, a fome, a questão dos refugiados, os atentados terroristas, os sem-abrigo."

O coração da bienal está situado na antiga fábrica de linhas "Coats & Clark", o actual Centro Empresarial Fercopor. O pavilhão, com mais de sei mil metros quadrados recebe 18 exposições, mas a arte vai chegar a outros espaços da cidade - Biblioteca Municipal, Convento Corpus Christi e Mosteiro de Grijó - e da região norte, com exposições em Barcelos, Porto, Gondomar, Cerveira, Viana do Castelo, Monção, Figueira da Foz e Seia.

"Uma das vertentes da nossa bienal é levar a arte ao encontro das pessoas. Não nos vamos limitar apenas ao nosso município. Temos, por exemplo, um acordo com a bienal mais antiga do país, que é a de Vila Nova de Cerveira. Vamos ter uma exposição da Bienal de Gaia - a mais jovem do país - integrada na Bienal de Cerveira e vice-versa. Este tipo de parcerias entre bienais não é muito comum, mas nós queremos lançar este repto", diz Agostinho Santos.

Prémios, homenagens e medalhas

Na sessão de abertura da Bienal, a pintora Graça Morais vai receber a Medalha de Mérito Cultural e Científico, Grau Ouro, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e expor pela primeira vez no município. O Centro Empresarial Fercopor vai receber uma mostra de 42 obras da colecção privada da artista.

"É uma honra. A Graça Morais é uma das maiores artistas contemporâneas. Temos todo o respeito e admiração por ela e vamos ter a sorte de organizar uma exposição antológica onde o público vai perceber o percurso fantástico da nossa artista. É a primeira vez que a Graça Morais expõe em Vila Nova de Gaia, no terceiro maior concelho do país", diz Agostinho Santos.

Os artistas vencedores dos três prémios da Bienal foram escolhidos entre 292 inscritos, 130 pré-selecionados e 88 selecionados e vão receber um prémio monetário no valor de cinco mil euros.

Marta Soutinho Alves venceu o Grande Prémio da Bienal atribuído pela Câmara Municipal de Gaia. João Macedo conquistou o Prémio de Escultura Zulmiro de Carvalho atribuído pela Câmara Municipal de Gondomar e Mariana Poppovic arrecadou o Prémio Águas de Gaia.

O evento vai ainda homenagear o artista Guilherme Camarinha com uma exposição com as obras do pintor, falecido em 1994, na Fundação Escultor José Santos, no Porto.

Expectativas ultrapassadas

O evento ainda não arrancou, mas a organização garante que as expectativas já foram largamente ultrapassadas e a curiosidade do público é notória.

“Estamos muito confiantes, porque a informação que tem chegado do público é muito interessante. As pessoas contactam-nos por e-mail, por carta, por facebook a perguntar informações. Estamos agora na fase final da montagem e já têm vindo cá várias pessoas espreitar. Quer a nível de artistas quer a nível de exposições, quer a nível de obras expostas ultrapassámos todas as nossas expectativas”, refere.

Agostinho Santos garante que a população de Gaia tem vindo a despertar para a arte, mas reafirma que a Bienal não tem barreiras e vai para lá do município: “O público de Vila Nova de Gaia e da Área Metropolitana do Porto e até da região norte começa a estar entusiasmado, porque uma das características desta bienal é a pretender ser uma bienal da Área Metropolitana do Porto e do norte do país."

24.11.14

HeArt, um negócio social para promover artistas com deficiência

Cláudia Bancaleiro, in Público on-line

Site vai funcionar como loja online. Dinheiro reverte a favor dos artistas e vai ajudar o projecto a continuar a crescer.

Sessenta artistas, com idades a partir dos 18 anos, vão ser os primeiros protagonistas de um projecto que arranca online esta terça-feira, o HeArt, que pretende dar visibilidade, promover e vender a arte criada por deficientes que frequentam a CERCICA.

O site www.heart.pt funciona como uma loja online onde estão publicados trabalhos de criadores com deficiência e que podem ser adquiridas inicialmente mediante uma transferência bancária mas que poderão ser pagas em breve através de cartão de crédito.

Cada obra é acompanhada por uma biografia do artista, sem qualquer referência à deficiencia que tem. O objectivo é “valorizar o indivíduo”, sublinhou ao PÚBLICO Sofia Perestrelo, presidente da HeArt, que realça o “entusiasmo” com que a plataforma foi recebida entre as pessoas que a vão integrar nesta fase inicial.

Criado este ano, o projecto social, que também tem uma página no Facebook a partir desta terça-feira, pretende “promover a valorização dos seus artistas dando-lhes visibilidade e oportunidades iguais”. O objectivo é trabalhar com instituições sociais e com estas encontrar potenciais artistas que venham depois a integrar o site.

Para já, arranca com as obras de 60 pessoas da CERCICA, mas o HeArt quer desenvolver parcerias com outras instituições e alargar o número de trabalhos para venda online. Outras das metas do projecto é criar parcerias com criadores nacionais e internacionais, realizar eventos de promoção à arte e exposições.

Sofia Perestrelo explica que com o dinheiro angariado com a venda das peças a plataforma pretende “contribuir para o aumento da capacidade financeira dos artistas” e também que o projecto se torne “auto-sustentável, sem dependências”, já que até aqui tem apenas contado com o apoio financeiro de particulares.

Uma visita ao atelier da CERCICA foi o ponto de partida para o projecto. “No atelier encontrámos um grupo de artistas e talentos artísticos fantásticos e esta é uma realidade nacional. Existem pelo país associações que têm artistas e é uma pena não serem apreciados e terem visibilidade. Porque não fazer uma plataforma, dar estes artistas oportunidades iguais?”, conta Sofia Perestrelo.

A presidente do HeArte diz que a única dificuldade foi escolher entre as obras que foram encontradas. “Há trabalho muito bom. Os artistas têm uma visão do mundo muito própria e conseguem exteriorizar emoções de uma forma que eu não tenho capacidade”, considera.

O projecto HeArt tem como madrinha a jornalista Judite de Sousa e na apresentação desta terça-feira vai contar ainda com a presença do ministro da Solidariedade Trabalho e Segurança Social, Pedro Mota Soares, e Carlos Jesus Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, autarquia que atribuiu à plataforma o primeiro lugar na categoria de Empreendedorismo Social, no 8.º Concurso de Ideias de Negócios de Cascais.

18.11.13

Mais de 600 pessoas vão pôr o Porto a "mexer" durante uma semana

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Segunda edição do Mexe-Encontro de Arte e Comunidade ganhou dimensão.

É dado nesta segunda-feira, na cidade do Porto, o tiro de partida da segunda edição do Mexe–Encontro de Arte e Comunidade, promovido pela Pele-Espaço de Contacto Social e Cultural. Ganhou uma nova dimensão.

“Fizemos uma convocatória aberta”, explica Hugo Cruz, coordenador do Núcleo de Teatro do Oprimido da Pele. Ficou surpreendido. Mais de 600 pessoas de diversas partes do país farão parte das 47 acções previstas – concertos, debates, teatro, instalações, dança, música, fotografia e vídeo.

De 18 a 24 de Novembro, a arte comunitária ocupa parte do espaço público e não cobra bilhete. É só passar à hora certa por três estações da cidade do Porto (São Bento, Bolhão e da Trindade), pela Rua de Santa Catarina, pela Fábrica da Rua da Alegria, pelo CACE(Centro de Apoio à Criação de Empresas)-Cultural do Porto.

“Apareceu muita gente com vontade de participar”, diz Hugo Cruz. “Achámos que no momento actual era mais importante valorizar essa vontade do que a qualidade artística.” Perante tantas propostas, ocorreu-lhe perguntar: “Que energia é esta? Como é que tanta gente se organiza para criar e apresentar espectáculos?” É uma opção política, parece-lhe. “Um acto criativo é, em si, um acto político. Quanto mais qualidade estética, mais força política tem.”

A sessão de abertura está marcada para as 14h30 desta segunda-feira, no Café Concerto da ESMAE-Escola Superior de Música, Artes e Espectáculos. Ficam patentes três exposições fotográficas: uma da autoria de Paulo Pimenta, na estação de metro de S. Bento; outra de Alexandre Sampaio, na Trindade; e uma colectiva na Fábrica da Rua da Alegria. Ainda amanhã, há dança na Trindade às 18h e Teatro Fórum na Fábrica às 19, onde também há, por volta das 22h, “ideias para MEXER com a Comunidade - Pintura ao Vivo por Artistas da Cidade”.

Na Terça-feira, há uma maratona de vídeos a partir das 16h na Trindade. Meia hora depois, começa um concerto na estação de São Bento. O teatro chega mais tarde: primeiro na Fábrica (O Quê? AGE – Grupo de teatro do Oprimido / NTO_PORTO); depois no café concerto da ESMAE (A Menina dança – Viagem ao Centro de Ontem, Oficina de Teatro do Projecto Idade Maior da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha / AlbergAR-TE / Companhia do Jogo). O programa está todo aqui: http://www.apele.org/#!mexe/c1phx.