Por Lusa, in Expresso
Comunidade internacional preocupada com os conflitos em Nagorno-Karabakh, onde uma ofensiva do Azerbaijão já causou 29 mortos. António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, apelou ao “fim imediato dos combates”
O secretário-geral das Nações Unidas (ONU) apelou ao "fim imediato dos combates" em Nagorno-Karabakh, onde o Azerbaijão lançou na terça-feira uma nova ofensiva que já causou 29 mortos, suscitando preocupações na comunidade internacional.
Três anos depois de uma guerra que terminou com uma derrota militar da Arménia, o conflito recomeçou na terça-feira, com a França a pedir uma reunião de "emergência" do Conselho de Segurança da ONU face a uma ofensiva "ilegal" e "injustificável" de Baku em Nagorno-Karabakh.
A reunião poderá ter lugar quinta-feira, disseram duas fontes diplomáticas à agência de notícias France-Presse (AFP).
O chefe da ONU, o português António Guterres, apelou, "com toda a veemência, ao fim imediato dos combates (...) e ao cumprimento mais rigoroso do cessar-fogo de 2020 e dos princípios do direito internacional humanitário", segundo um comunicado divulgado na terça-feira à noite pelo seu porta-voz, Stéphane Dujarric.
A Rússia também apelou, na manhã de quarta-feira, ao "fim imediato do derramamento de sangue, ao fim das hostilidades e ao fim das vítimas civis", numa declaração emitida pelo seu Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Na terça-feira à noite, a presidência do Azerbaijão apelou às tropas de Nagorno-Karabakh - um território separatista do Azerbaijão com uma população maioritariamente arménia - para deporem as armas, como condição para o início das negociações.
"As forças armadas arménias ilegais devem hastear a bandeira branca, entregar todas as armas e o regime ilegal deve ser dissolvido. Caso contrário, as operações antiterroristas continuarão até ao fim", declarou.
Desde terça-feira, pelo menos 29 pessoas morreram nos combates. Os separatistas comunicaram 27 mortos, incluindo dois civis, e mais de 200 feridos, enquanto cerca de sete mil residentes de 16 localidades foram deslocados.
O Azerbaijão informou que dois civis tinham morrido em zonas sob o seu controlo.
Os separatistas afirmam que várias cidades de Nagorno-Karabakh, incluindo a capital, Stepanakert, estão a ser alvo de "fogo intenso", que visa também infraestruturas civis.
Baku anunciou que 60 posições arménias tinham sido conquistadas.
A Arménia, por seu lado, denunciou uma "agressão em grande escala" com vista a uma "limpeza étnica", mas afirmou não ter tropas em Nagorno-Karabakh, sugerindo que os separatistas estavam sozinhos a lutar contra os soldados azeris.
A Arménia considera que cabe à Rússia, garante de um cessar-fogo que data de 2020, com forças de paz no terreno, agir para "travar a agressão do Azerbaijão".
O conflito de 2020 resultou numa derrota militar para a Arménia, forçada a ceder terreno ao Azerbaijão.
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3.5.22
Não vão faltar alimentos na Europa - pelo menos por causa da guerra
Tiago Luís, opinião, in Expresso
Áreas anteriormente vedadas à prática agrícola e que têm sido importantes para a natureza e biodiversidade já receberam autorizações para a produção agrícola. Tiago Luís, técnico de Ciências do Ambiente e especialista em Alimentação na Associação Natureza Portugal/World Wild Fund, analisa a questão alimentar neste artigo de opinião
Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.
Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.
Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.
Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.
Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:
1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.
Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.
Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.
Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.
Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.
Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:
1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.
Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.
Na verdade, uma das formas de tornar o nosso sistema alimentar mais autónomo, resiliente e sustentável, salvaguardando também a saúde dos europeus, seria através da redução do consumo de alimentos de origem animal e do incentivo a formas de produção animal menos dependentes de rações e fertilizantes.
2. “As alterações climáticas não podem ser uma prioridade.”
Os enormes desafios ambientais que enfrentamos não começaram com este conflito, e os seus efeitos não só são duradouros como não ficarão suspensos a aguardar a resolução dos desafios que, entretanto, surgem. Antes pelo contrário: quanto mais tempo demorarmos a agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, mais depressa se agravarão estes efeitos, colocando em risco as oportunidades para os resolver. O último relatório do IPCC é um alerta para o facto de os riscos serem superiores ao que estava inicialmente previsto, com alguns efeitos negativos a ocorrerem a níveis de aquecimento global mais baixos do que se previa. Uma das conclusões preocupantes do relatório é que com as alterações climáticas se torna cada vez mais difícil satisfazermos as necessidades humanas de calorias e proteínas, estando previstas perdas não só de produtividade mas também dos nutrientes presentes num vasto grupo de plantas .
Assim, é importante (e urgente) repensar o PEPAC para que este possa contribuir positivamente para a promoção da biodiversidade, a mitigação e adaptação às alterações climáticas e para o bom estado dos recursos água e solo, assim como o desenvolvimento das comunidades rurais de forma inclusiva.
3. “São necessárias medidas excepcionais, devido às circunstâncias”.
Todos os argumentos parecem ser bons para não cumprir os compromissos ambientais firmados pela Comissão Europeia. Durante o período de negociações do PEPAC, à semelhança do que aconteceu anteriormente noutras reformas da Política Agrícola Comum, muitas foram as pressões e cedências às tentativas de enfraquecimento dos objetivos e metas ambientais e climáticas deste plano. De referir que as ONGAs, a sociedade civil, e as autoridades ambientais nacionais foram completamente ignoradas no processo de construção deste PEPAC - e tememos que este registo persista no futuro. Uma parte importante do financiamento da Rede Natura 2000 provém da PAC, e se as medidas para aplicar este dinheiro forem desenhadas sem o envolvimento do ICNF (responsável pela Rede Natura 2000), dificilmente irão cumprir a sua função.
Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.
Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.
Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.
Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:
1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.
Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.
Na verdade, uma das formas de tornar o nosso sistema alimentar mais autónomo, resiliente e sustentável, salvaguardando também a saúde dos europeus, seria através da redução do consumo de alimentos de origem animal e do incentivo a formas de produção animal menos dependentes de rações e fertilizantes.
2. “As alterações climáticas não podem ser uma prioridade.”
Os enormes desafios ambientais que enfrentamos não começaram com este conflito, e os seus efeitos não só são duradouros como não ficarão suspensos a aguardar a resolução dos desafios que, entretanto, surgem. Antes pelo contrário: quanto mais tempo demorarmos a agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, mais depressa se agravarão estes efeitos, colocando em risco as oportunidades para os resolver. O último relatório do IPCC é um alerta para o facto de os riscos serem superiores ao que estava inicialmente previsto, com alguns efeitos negativos a ocorrerem a níveis de aquecimento global mais baixos do que se previa. Uma das conclusões preocupantes do relatório é que com as alterações climáticas se torna cada vez mais difícil satisfazermos as necessidades humanas de calorias e proteínas, estando previstas perdas não só de produtividade mas também dos nutrientes presentes num vasto grupo de plantas .
Assim, é importante (e urgente) repensar o PEPAC para que este possa contribuir positivamente para a promoção da biodiversidade, a mitigação e adaptação às alterações climáticas e para o bom estado dos recursos água e solo, assim como o desenvolvimento das comunidades rurais de forma inclusiva.
3. “São necessárias medidas excepcionais, devido às circunstâncias”.
Todos os argumentos parecem ser bons para não cumprir os compromissos ambientais firmados pela Comissão Europeia. Durante o período de negociações do PEPAC, à semelhança do que aconteceu anteriormente noutras reformas da Política Agrícola Comum, muitas foram as pressões e cedências às tentativas de enfraquecimento dos objetivos e metas ambientais e climáticas deste plano. De referir que as ONGAs, a sociedade civil, e as autoridades ambientais nacionais foram completamente ignoradas no processo de construção deste PEPAC - e tememos que este registo persista no futuro. Uma parte importante do financiamento da Rede Natura 2000 provém da PAC, e se as medidas para aplicar este dinheiro forem desenhadas sem o envolvimento do ICNF (responsável pela Rede Natura 2000), dificilmente irão cumprir a sua função.
4. “O adiamento das metas do Pacto Ecológico Europeu é absolutamente necessário”.
Maria do Céu Antunes, então Ministra da Agricultura, defendeu em março no Conselho de Agricultura e Pescas o adiamento do cumprimento das metas do PEE para um futuro incerto mas decidiu, no mesmo dia, apoiar a proposta da Áustria de incentivar o potencial das proteínas vegetais em linha com os objetivos do mesmo PEE. Contudo, esta proposta não se refere explicitamente ao consumo humano destas proteínas, o que poderá significar que esta visa apenas o incentivo da utilização para produção de rações e não para contribuir para uma dieta mais saudável e sustentável dos europeus e consequentemente, contribuir para uma maior resiliência a choques futuros. O cumprimento do PEE é absolutamente necessário, nomeadamente da sua Estratégia Do Prado Ao Prato, começando pela promoção do aumento da disponibilidade de alternativas proteicas vegetais para consumo humano.
A produção agroalimentar tem contribuído para a crise ambiental que vivemos: globalmente, a forma como nos alimentamos é responsável por 80% da desflorestação, 70% do uso de água doce, cerca de 30% de emissão de Gases de Efeito Estufa, degradação de 52% das terras agrícolas e 70% da perda de biodiversidade terrestre. Negá-lo é recusar a realidade e tem um efeito pouco útil na medida em que não resolve nenhum destes problemas e não reconhece o enorme potencial que a produção agroalimentar tem para impactar positivamente a nossa saúde e a do nosso planeta desde que se opere uma transformação do sistema de produção virada para as pessoas e para o planeta. Sobre este ponto, a comunidade científica tem sido clara sobre a necessidade de assegurar alimentos suficientes para a população mundial, e simultaneamente transformar a forma como produzimos e consumimos estes alimentos - a degradação da natureza e do clima afetam diretamente a nossa capacidade de produção alimentar já que os efeitos combinados da perda de biodiversidade e do aquecimento global reduzam o rendimento das culturas e a densidade nutricional.
Assim, mais importante do que disseminar ideias nem sempre rigorosas sobre a eventual escassez de alimentos, é urgente repensarmos as nossas prioridades - será que queremos (mais uma vez) colocar em causa a resiliência dos nossos sistemas alimentares a médio-longo prazo e contribuir para a destruição da natureza? Não estaremos a ignorar o facto de, pelo menos em parte, estas perturbações do mercado serem consequência da falta dessa mesma resiliência? A construção e defesa de um sistema alimentar resiliente e que respeita os limites do nosso planeta deve ser a prioridade de todos, agora e no futuro.
Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.
Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.
Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.
Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.
Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:
1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.
Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.
Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.
Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.
Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.
Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:
1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.
Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.
Na verdade, uma das formas de tornar o nosso sistema alimentar mais autónomo, resiliente e sustentável, salvaguardando também a saúde dos europeus, seria através da redução do consumo de alimentos de origem animal e do incentivo a formas de produção animal menos dependentes de rações e fertilizantes.
2. “As alterações climáticas não podem ser uma prioridade.”
Os enormes desafios ambientais que enfrentamos não começaram com este conflito, e os seus efeitos não só são duradouros como não ficarão suspensos a aguardar a resolução dos desafios que, entretanto, surgem. Antes pelo contrário: quanto mais tempo demorarmos a agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, mais depressa se agravarão estes efeitos, colocando em risco as oportunidades para os resolver. O último relatório do IPCC é um alerta para o facto de os riscos serem superiores ao que estava inicialmente previsto, com alguns efeitos negativos a ocorrerem a níveis de aquecimento global mais baixos do que se previa. Uma das conclusões preocupantes do relatório é que com as alterações climáticas se torna cada vez mais difícil satisfazermos as necessidades humanas de calorias e proteínas, estando previstas perdas não só de produtividade mas também dos nutrientes presentes num vasto grupo de plantas .
Assim, é importante (e urgente) repensar o PEPAC para que este possa contribuir positivamente para a promoção da biodiversidade, a mitigação e adaptação às alterações climáticas e para o bom estado dos recursos água e solo, assim como o desenvolvimento das comunidades rurais de forma inclusiva.
3. “São necessárias medidas excepcionais, devido às circunstâncias”.
Todos os argumentos parecem ser bons para não cumprir os compromissos ambientais firmados pela Comissão Europeia. Durante o período de negociações do PEPAC, à semelhança do que aconteceu anteriormente noutras reformas da Política Agrícola Comum, muitas foram as pressões e cedências às tentativas de enfraquecimento dos objetivos e metas ambientais e climáticas deste plano. De referir que as ONGAs, a sociedade civil, e as autoridades ambientais nacionais foram completamente ignoradas no processo de construção deste PEPAC - e tememos que este registo persista no futuro. Uma parte importante do financiamento da Rede Natura 2000 provém da PAC, e se as medidas para aplicar este dinheiro forem desenhadas sem o envolvimento do ICNF (responsável pela Rede Natura 2000), dificilmente irão cumprir a sua função.
Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.
Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.
Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.
Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:
1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.
Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.
Na verdade, uma das formas de tornar o nosso sistema alimentar mais autónomo, resiliente e sustentável, salvaguardando também a saúde dos europeus, seria através da redução do consumo de alimentos de origem animal e do incentivo a formas de produção animal menos dependentes de rações e fertilizantes.
2. “As alterações climáticas não podem ser uma prioridade.”
Os enormes desafios ambientais que enfrentamos não começaram com este conflito, e os seus efeitos não só são duradouros como não ficarão suspensos a aguardar a resolução dos desafios que, entretanto, surgem. Antes pelo contrário: quanto mais tempo demorarmos a agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, mais depressa se agravarão estes efeitos, colocando em risco as oportunidades para os resolver. O último relatório do IPCC é um alerta para o facto de os riscos serem superiores ao que estava inicialmente previsto, com alguns efeitos negativos a ocorrerem a níveis de aquecimento global mais baixos do que se previa. Uma das conclusões preocupantes do relatório é que com as alterações climáticas se torna cada vez mais difícil satisfazermos as necessidades humanas de calorias e proteínas, estando previstas perdas não só de produtividade mas também dos nutrientes presentes num vasto grupo de plantas .
Assim, é importante (e urgente) repensar o PEPAC para que este possa contribuir positivamente para a promoção da biodiversidade, a mitigação e adaptação às alterações climáticas e para o bom estado dos recursos água e solo, assim como o desenvolvimento das comunidades rurais de forma inclusiva.
3. “São necessárias medidas excepcionais, devido às circunstâncias”.
Todos os argumentos parecem ser bons para não cumprir os compromissos ambientais firmados pela Comissão Europeia. Durante o período de negociações do PEPAC, à semelhança do que aconteceu anteriormente noutras reformas da Política Agrícola Comum, muitas foram as pressões e cedências às tentativas de enfraquecimento dos objetivos e metas ambientais e climáticas deste plano. De referir que as ONGAs, a sociedade civil, e as autoridades ambientais nacionais foram completamente ignoradas no processo de construção deste PEPAC - e tememos que este registo persista no futuro. Uma parte importante do financiamento da Rede Natura 2000 provém da PAC, e se as medidas para aplicar este dinheiro forem desenhadas sem o envolvimento do ICNF (responsável pela Rede Natura 2000), dificilmente irão cumprir a sua função.
4. “O adiamento das metas do Pacto Ecológico Europeu é absolutamente necessário”.
Maria do Céu Antunes, então Ministra da Agricultura, defendeu em março no Conselho de Agricultura e Pescas o adiamento do cumprimento das metas do PEE para um futuro incerto mas decidiu, no mesmo dia, apoiar a proposta da Áustria de incentivar o potencial das proteínas vegetais em linha com os objetivos do mesmo PEE. Contudo, esta proposta não se refere explicitamente ao consumo humano destas proteínas, o que poderá significar que esta visa apenas o incentivo da utilização para produção de rações e não para contribuir para uma dieta mais saudável e sustentável dos europeus e consequentemente, contribuir para uma maior resiliência a choques futuros. O cumprimento do PEE é absolutamente necessário, nomeadamente da sua Estratégia Do Prado Ao Prato, começando pela promoção do aumento da disponibilidade de alternativas proteicas vegetais para consumo humano.
A produção agroalimentar tem contribuído para a crise ambiental que vivemos: globalmente, a forma como nos alimentamos é responsável por 80% da desflorestação, 70% do uso de água doce, cerca de 30% de emissão de Gases de Efeito Estufa, degradação de 52% das terras agrícolas e 70% da perda de biodiversidade terrestre. Negá-lo é recusar a realidade e tem um efeito pouco útil na medida em que não resolve nenhum destes problemas e não reconhece o enorme potencial que a produção agroalimentar tem para impactar positivamente a nossa saúde e a do nosso planeta desde que se opere uma transformação do sistema de produção virada para as pessoas e para o planeta. Sobre este ponto, a comunidade científica tem sido clara sobre a necessidade de assegurar alimentos suficientes para a população mundial, e simultaneamente transformar a forma como produzimos e consumimos estes alimentos - a degradação da natureza e do clima afetam diretamente a nossa capacidade de produção alimentar já que os efeitos combinados da perda de biodiversidade e do aquecimento global reduzam o rendimento das culturas e a densidade nutricional.
Assim, mais importante do que disseminar ideias nem sempre rigorosas sobre a eventual escassez de alimentos, é urgente repensarmos as nossas prioridades - será que queremos (mais uma vez) colocar em causa a resiliência dos nossos sistemas alimentares a médio-longo prazo e contribuir para a destruição da natureza? Não estaremos a ignorar o facto de, pelo menos em parte, estas perturbações do mercado serem consequência da falta dessa mesma resiliência? A construção e defesa de um sistema alimentar resiliente e que respeita os limites do nosso planeta deve ser a prioridade de todos, agora e no futuro.
24.2.22
“Um fracasso para a própria humanidade”, diz bispo das Forças Armadas
Henrique Cunha
D. Rui Valério acalenta a esperança de que o Papa Francisco possa demover "os propósitos daqueles que querem fazer a guerra".
D. Rui Valério acalenta a esperança de que o Papa Francisco possa demover "os propósitos daqueles que querem fazer a guerra".
O bispo das Forças Armadas e de Segurança declara "desencanto e desilusão" pelos acontecimentos na Ucrânia.
Em declarações à Renascença, D. Rui Valério diz que esta guerra significa um fracasso para a própria humanidade, e deixa também uma mensagem de esperança e de confiança "no Deus da paz".
“Em primeiro lugar um profundo sentimento de um certo desencanto e até desilusão pelo percurso e pelas novas etapas que estão a ser trilhadas pela humanidade. Quando pensávamos que todos estavam mobilizados pela paz, eis que surge este contraditório que é de certa forma um fracasso para a própria humanidade que não é capaz de viver em harmonia e em concórdia. Mas dito isto é necessário também elevar daqui um profundo grito de esperança e de confiança. De confiança em Deus, no Deus da Paz que é capaz de nos sugerir os caminhos da concórdia que todos nós devemos trilhar”, afirma.
O bispo manifesta, por outro, lado a esperança de que o Papa - "um arauto da paz" - possa demover "os propósitos daqueles que querem fazer a guerra".
"Neste momento sintamo-nos juntos ao Papa Francisco que é um obreiro e arauto da paz e da fraternidade para que com o seu exemplo, para que com o seu testemunho e também com a sua intervenção pessoal ele consiga demover os propósitos daqueles que querem fazer a guerra”, pede o prelado.
D. Rui Valério lembra a tradição cristã dos povos, agora, envolvidos no conflito, realçando que estes acontecimentos "nos entristecem o coração" e essa tristeza "adensa-se particularmente no coração do Papa”.
“Não haja dúvidas de que estamos a falar de nações que têm uma tradição cristã. Nações, cujo povo se reconhece nos valores do evangelho, na mensagem de Jesus, da concórdia, da fraternidade. De darmos as mãos para construir o bem. A verdade para construirmos a justiça, para construirmos a paz; e não haja dúvidas que estes acontecimentos a que assistimos em direto nos entristecem profundamente o coração. E essa tristeza adensa-se particularmente no coração do Papa", refere.
Nestas declarações à Renascença, o bispo das Forças Armadas partilha um testemunho pessoal, e que resulta do contato com as chefias militares umas semanas antes dos acontecimentos das últimas horas.
“Eu vou aqui dar este testemunho pessoal. Nas semanas precedentes contactando com as chefias militares eu sempre lhes perguntei, sugeri e questionei qual a nossa postura - e quando digo nossa, digo a nossa de Igreja, a nossa de assistência religiosa - face a todos estes acontecimentos, e de todos eles a primeira resposta que veio foi senhor bispo rezem pela paz.”
“E a oração é uma suplica, um pedido, um confiar na grandeza e nas mãos de um outro aquilo que são os destinos do presente da humanidade, mas é também sinónimo de uma grande confiança. Ao mesmo tempo quero manifestar toda a nossa disponibilidade para que com a nossa presença, com a nossa palavra, com a nossa comunhão e solidariedade estarmos com aqueles que são mobilizados e vão agir em nome da paz. E esses são os nossos fortes, os nossos braços, são os nossos soldados”, conclui.
Em declarações à Renascença, D. Rui Valério diz que esta guerra significa um fracasso para a própria humanidade, e deixa também uma mensagem de esperança e de confiança "no Deus da paz".
“Em primeiro lugar um profundo sentimento de um certo desencanto e até desilusão pelo percurso e pelas novas etapas que estão a ser trilhadas pela humanidade. Quando pensávamos que todos estavam mobilizados pela paz, eis que surge este contraditório que é de certa forma um fracasso para a própria humanidade que não é capaz de viver em harmonia e em concórdia. Mas dito isto é necessário também elevar daqui um profundo grito de esperança e de confiança. De confiança em Deus, no Deus da Paz que é capaz de nos sugerir os caminhos da concórdia que todos nós devemos trilhar”, afirma.
O bispo manifesta, por outro, lado a esperança de que o Papa - "um arauto da paz" - possa demover "os propósitos daqueles que querem fazer a guerra".
"Neste momento sintamo-nos juntos ao Papa Francisco que é um obreiro e arauto da paz e da fraternidade para que com o seu exemplo, para que com o seu testemunho e também com a sua intervenção pessoal ele consiga demover os propósitos daqueles que querem fazer a guerra”, pede o prelado.
D. Rui Valério lembra a tradição cristã dos povos, agora, envolvidos no conflito, realçando que estes acontecimentos "nos entristecem o coração" e essa tristeza "adensa-se particularmente no coração do Papa”.
“Não haja dúvidas de que estamos a falar de nações que têm uma tradição cristã. Nações, cujo povo se reconhece nos valores do evangelho, na mensagem de Jesus, da concórdia, da fraternidade. De darmos as mãos para construir o bem. A verdade para construirmos a justiça, para construirmos a paz; e não haja dúvidas que estes acontecimentos a que assistimos em direto nos entristecem profundamente o coração. E essa tristeza adensa-se particularmente no coração do Papa", refere.
Nestas declarações à Renascença, o bispo das Forças Armadas partilha um testemunho pessoal, e que resulta do contato com as chefias militares umas semanas antes dos acontecimentos das últimas horas.
“Eu vou aqui dar este testemunho pessoal. Nas semanas precedentes contactando com as chefias militares eu sempre lhes perguntei, sugeri e questionei qual a nossa postura - e quando digo nossa, digo a nossa de Igreja, a nossa de assistência religiosa - face a todos estes acontecimentos, e de todos eles a primeira resposta que veio foi senhor bispo rezem pela paz.”
“E a oração é uma suplica, um pedido, um confiar na grandeza e nas mãos de um outro aquilo que são os destinos do presente da humanidade, mas é também sinónimo de uma grande confiança. Ao mesmo tempo quero manifestar toda a nossa disponibilidade para que com a nossa presença, com a nossa palavra, com a nossa comunhão e solidariedade estarmos com aqueles que são mobilizados e vão agir em nome da paz. E esses são os nossos fortes, os nossos braços, são os nossos soldados”, conclui.
15.9.20
Cada hora conta porque por dia há 400 mil crianças que não comem nada: uma tragédia em curso
Ana França, in Expresso
Desvio de ajuda humanitária para o mercado negro, burocracia incontornável e escolhas ideológicas sobre quem pode ou não receber esses mantimentos vitais: o estrangulamento à entrada de ajuda no Iémen, onde 80% da população não sobrevive sem ela, está a provocar um congelamento de doações. Os rebeldes houthi são o alvo da maioria das críticas mas não há inocentes no mais recente relatório da Human Rights Watch sobre a maior crise humanitária do mundo
No Iémen, 24 milhões de pessoas, 80% de toda a população, precisam de ajuda humanitária todos os dias para conseguirem sobreviver, não para viver, e metade desse número refere-se a crianças: ferimentos de guerra, subdesenvolvimento devido à falta de nutrição contínua e sequelas de doenças que nos países desenvolvidos já nem se registam são apenas três dos cenários que estas crianças têm de ultrapassar todos os dias.
Cada hora conta porque por dia há 400 mil crianças que não comeram nada nesse dia e é por isso que o último relatório da organização não-governamental Human Rights Watch, publicado esta segunda-feira, se debruça sobre os obstáculos que ambos os lados do conflito estão a impor à entrada e distribuição de ajuda internacional numa altura em o sistema de saúde, já fortemente debilitado por cinco anos de guerra civil (2015-) colapsou sob o peso da pandemia. Os números apresentados neste momento, oficialmente, mostram 1950 casos, mas as organizações no terreno não os levam em conta porque sabem que a verdade é um número muito mais elevado.
Todos os atores internacionais presentes na guerra do Iémen sabem que situação não pode melhorar sem o fim da guerra que desde 2015 opõe os rebeldes houthis, xiitas e próximos do regime iraniano, ao governo aceite pela comunidade internacional, do presidente sunita Abd Rabbu Mansour Hadi, que foi deposto precisamente numa rebelião de houthis que começou em 2014 com um protesto contra o preço dos combustíveis. Mas tudo pode piorar se acabar a ajuda que ainda vai entrando.
“É UMA ENCENAÇÃO DE KAFKA”
“Este relatório foca-se principalmente nas ações dos houthi, que constantemente impedem a ajuda de chegar a quem mais precisa, de todas as formas possíveis: quando ela entra, eles ficam com uma parte, grande ou pequena depende dos locais, mas também muitas vezes impedem a ajuda de ser distribuída porque o nível de burocracia é quase impossível de navegar - são centenas de diretivas, centenas de formulários, assinaturas, papéis que vão até ao topo do comando de determinada área e não voltam, é uma encenação de Kafka”, diz Amhed Benchemsi. E oferece um exemplo concreto: “Por exemplo, uma agência humanitária chega ao terreno com material médico para ajudar uma determinada área. Antes de poder ser distribuída, os houthi mas não só, querem saber que tipo de material as agências vão usar para construir o armazém onde vão guardar as provisões. Para quê e porquê?”, pergunta Benchemsi para si mesmo.
Essas respostas não estão no relatório porque “apesar de o porquê ser importante, o que fazemos é expor um problema e recomendar ações, não exatamente entender todas as ramificações de uma guerra civil com centenas de atores com inclinações ideológicas que diferem de homem para homem - quem sabe de facto quem são os houthi e o que querem?”.
Entre 2015 e 2019, doadores internacionais contribuíram com 8,35 mil milhões de euros para o esforço humanitário no Iémen, incluindo 3,6 mil milhões em 2019, um valor que ajudou a alimentar, agasalhar e tratar quase 14 milhões de pessoas por mês. Em 2018, esse número tinha sido menor - 7,5 milhões por mês e por isso havia algum otimismo em relação a este ano. No entanto, os 35 representantes de agências de ajuda humanitária que foram entrevistados para este relatório não têm muitas dúvidas: em 2019 e nos primeiros meses de 2020 estas agências gastaram grande parte de seu tempo numa luta burocrática para obter aprovações em todo o país para poderem então prestar assistência de acordo com os princípios humanitários de imparcialidade e sem a interferência das autoridades. O impacto nas redes de assistência alimentar e médica que estavam montadas foi gigantesco.
Os sistemas abastecimento de água e de escoamento sanitário sofreram um revés para níveis próximos do que se passava em 2017 e 2018. Até 28 de agosto, as agências humanitárias tinham recebido apenas 24% dos 3,4 mil milhões solicitados para o ano porque os financiadores não gostam de ouvir que o seu dinheiro pode estar a ir parar às mãos de milícias, em forma de alimentos ou medicamentos. Na grande maioria das cidades e aldeias a ajuda internacional é a única “luzinha de esperança que milhões e milhões de pessoas têm”. Estes obstáculos à entrega de ajuda, diz Benchemsi, são “apenas mais uma parte do museu de horrores que está à vista de todos no Iémen”.
Depois de estar estabelecido o local onde vão ficar guardadas as mercadorias, continua Benchemsi a explicar, é preciso explicar às autoridades locais como vão ser transportadas, que tipo de veículos serão usados, onde serão distribuídas. “Depois de todos os atrasos que isto causa, e cada hora no Iémen é preciosa para quem não sabe quando será a próxima refeição, essa é parte mais grave, a escolha dos beneficiários.”
ESCOLHER QUEM É AJUDADO
As listas de potenciais beneficiários da ajuda só podem ser preparadas no terreno porque só no terreno é que os funcionários das agências humanitárias podem saber quantas pessoas estão em cada localidade, quantas precisam de medicamentos e de que medicamentos precisam, se em determinado local a comida é ou não um problema prioritário, ou se é o abastecimento de água o maior problema da zona.
Mas as várias facções, conta o responsável, “exigem saber a lista de beneficiários, que muitas vezes modificam, eles querem controlar quem recebe ajuda, politicamente cada comandante tem uma ideia diferente de quem deveria receber a ajuda e então muitas vezes mudam a lista de beneficiários, o que é grave porque podem estar a divergir a ajuda para locais que não precisam de tanta ajuda ou daquele tipo específico de ajuda”, exemplifica. “E mesmo escrever esta lista de beneficiários que eles depois podem mudar é complicado porque não é fácil andar pelo Iémen, nem sempre os vários atores permitem que determinada organização investigue as necessidades das populações. Nós há muito que não conseguimos entrar, este relatório foi feito pelo telefone porque é demasiado perigoso.”
No relatório há outros episódios como o que Benchemi descreve. “Os houthi têm um histórico particularmente flagrante de impedir que agências humanitárias cheguem às pessoas mais necessitadas e, pelo menos em parte, desviam a ajuda para oficiais houthi, seus apoiantes e combatentes. Em 2019 e 2020, os trabalhadores humanitários tiveram que reagir contra as autoridades houthi, que insistiram em várias ocasiões para que os grupos humanitários entregassem bens, como carros, computadores e telefones aos houthi, no final dos projetos. No entanto, a obstrução nas áreas controladas pelo governo no sul e no leste também está a aumentar”, lê-se no relatório.
Uma investigação da Associated Press, publicada a 31 de dezembro de 2018, descobriu que "facções e milícias em todos os lados do conflito desviaram ajuda alimentar para unidades de combate da linha de frente ou venderam-nas para o lucro no mercado negro”. Os houthi são referidos como os que mais recorrerem a estas práticas mas, “em menor medida, também as forças que lutam pelo Governo do Iémen o fazem”. A investigação cita um ex-ministro da Educação houthi confirmando o desvio de 15.000 cabazes por mês em 2018 com provisões básicas, vendidos no mercado negro ou usadas para alimentar soldados da linha de frente.
COLIGAÇÃO TAMBÉM ESTÁ A DIFICULTAR AJUDA
Mas também a coligação liderada pela Arábia Saudita (com a ajuda de países como França, Reino Unido ou Estados Unidos, todos acusados de vender armas usadas para ataques selvagens contra civis conduzidos pelos sauditas) é acusada de usar a burocracia para impedir a entrada de ajuda: “A coligação liderada pela Arábia Saudita impôs um bloqueio naval e aéreo ao Iémen em março de 2015 que restringiu severamente o fluxo de alimentos, combustível e remédios dos quais a grande maioria da população civil depende - uma violação às leis de guerra”.
O caso incluiu uma proibição não oficial aos importadores de utilizarem contentores normais (de 6 a 12 metros de comprimento) para embarcar mercadorias, o que forçou os importadores a ter de recorrer tanto a métodos de transporte como métodos de descarga mais caros, “resultando num aumento significativo no preço dos bens essenciais”, lê-se no relatório publicado esta segunda-feira.
As autoridades houthi responderam a este relatório, negando as acusações, mas nem o Governo internacionalmente reconhecido nem o Conselho Transitório do Sul (um movimento separatista que quer um sul independente e que ocupa a área perto de Aden desde o início de 2018) responderam.
O relatório recomenda o estabelecimento de uma comissão independente da ONU para investigar quem exatamente decide os torniquetes impostos à ajuda internacional e, no seguimento das conclusões, a imposição de sanções individuais. “Essas normalmente doem mais e resultam mais do que as que são impostas a um grupo ou a um país.”
Desvio de ajuda humanitária para o mercado negro, burocracia incontornável e escolhas ideológicas sobre quem pode ou não receber esses mantimentos vitais: o estrangulamento à entrada de ajuda no Iémen, onde 80% da população não sobrevive sem ela, está a provocar um congelamento de doações. Os rebeldes houthi são o alvo da maioria das críticas mas não há inocentes no mais recente relatório da Human Rights Watch sobre a maior crise humanitária do mundo
No Iémen, 24 milhões de pessoas, 80% de toda a população, precisam de ajuda humanitária todos os dias para conseguirem sobreviver, não para viver, e metade desse número refere-se a crianças: ferimentos de guerra, subdesenvolvimento devido à falta de nutrição contínua e sequelas de doenças que nos países desenvolvidos já nem se registam são apenas três dos cenários que estas crianças têm de ultrapassar todos os dias.
Cada hora conta porque por dia há 400 mil crianças que não comeram nada nesse dia e é por isso que o último relatório da organização não-governamental Human Rights Watch, publicado esta segunda-feira, se debruça sobre os obstáculos que ambos os lados do conflito estão a impor à entrada e distribuição de ajuda internacional numa altura em o sistema de saúde, já fortemente debilitado por cinco anos de guerra civil (2015-) colapsou sob o peso da pandemia. Os números apresentados neste momento, oficialmente, mostram 1950 casos, mas as organizações no terreno não os levam em conta porque sabem que a verdade é um número muito mais elevado.
Todos os atores internacionais presentes na guerra do Iémen sabem que situação não pode melhorar sem o fim da guerra que desde 2015 opõe os rebeldes houthis, xiitas e próximos do regime iraniano, ao governo aceite pela comunidade internacional, do presidente sunita Abd Rabbu Mansour Hadi, que foi deposto precisamente numa rebelião de houthis que começou em 2014 com um protesto contra o preço dos combustíveis. Mas tudo pode piorar se acabar a ajuda que ainda vai entrando.
“É UMA ENCENAÇÃO DE KAFKA”
“Este relatório foca-se principalmente nas ações dos houthi, que constantemente impedem a ajuda de chegar a quem mais precisa, de todas as formas possíveis: quando ela entra, eles ficam com uma parte, grande ou pequena depende dos locais, mas também muitas vezes impedem a ajuda de ser distribuída porque o nível de burocracia é quase impossível de navegar - são centenas de diretivas, centenas de formulários, assinaturas, papéis que vão até ao topo do comando de determinada área e não voltam, é uma encenação de Kafka”, diz Amhed Benchemsi. E oferece um exemplo concreto: “Por exemplo, uma agência humanitária chega ao terreno com material médico para ajudar uma determinada área. Antes de poder ser distribuída, os houthi mas não só, querem saber que tipo de material as agências vão usar para construir o armazém onde vão guardar as provisões. Para quê e porquê?”, pergunta Benchemsi para si mesmo.
Essas respostas não estão no relatório porque “apesar de o porquê ser importante, o que fazemos é expor um problema e recomendar ações, não exatamente entender todas as ramificações de uma guerra civil com centenas de atores com inclinações ideológicas que diferem de homem para homem - quem sabe de facto quem são os houthi e o que querem?”.
Entre 2015 e 2019, doadores internacionais contribuíram com 8,35 mil milhões de euros para o esforço humanitário no Iémen, incluindo 3,6 mil milhões em 2019, um valor que ajudou a alimentar, agasalhar e tratar quase 14 milhões de pessoas por mês. Em 2018, esse número tinha sido menor - 7,5 milhões por mês e por isso havia algum otimismo em relação a este ano. No entanto, os 35 representantes de agências de ajuda humanitária que foram entrevistados para este relatório não têm muitas dúvidas: em 2019 e nos primeiros meses de 2020 estas agências gastaram grande parte de seu tempo numa luta burocrática para obter aprovações em todo o país para poderem então prestar assistência de acordo com os princípios humanitários de imparcialidade e sem a interferência das autoridades. O impacto nas redes de assistência alimentar e médica que estavam montadas foi gigantesco.
Os sistemas abastecimento de água e de escoamento sanitário sofreram um revés para níveis próximos do que se passava em 2017 e 2018. Até 28 de agosto, as agências humanitárias tinham recebido apenas 24% dos 3,4 mil milhões solicitados para o ano porque os financiadores não gostam de ouvir que o seu dinheiro pode estar a ir parar às mãos de milícias, em forma de alimentos ou medicamentos. Na grande maioria das cidades e aldeias a ajuda internacional é a única “luzinha de esperança que milhões e milhões de pessoas têm”. Estes obstáculos à entrega de ajuda, diz Benchemsi, são “apenas mais uma parte do museu de horrores que está à vista de todos no Iémen”.
Depois de estar estabelecido o local onde vão ficar guardadas as mercadorias, continua Benchemsi a explicar, é preciso explicar às autoridades locais como vão ser transportadas, que tipo de veículos serão usados, onde serão distribuídas. “Depois de todos os atrasos que isto causa, e cada hora no Iémen é preciosa para quem não sabe quando será a próxima refeição, essa é parte mais grave, a escolha dos beneficiários.”
ESCOLHER QUEM É AJUDADO
As listas de potenciais beneficiários da ajuda só podem ser preparadas no terreno porque só no terreno é que os funcionários das agências humanitárias podem saber quantas pessoas estão em cada localidade, quantas precisam de medicamentos e de que medicamentos precisam, se em determinado local a comida é ou não um problema prioritário, ou se é o abastecimento de água o maior problema da zona.
Mas as várias facções, conta o responsável, “exigem saber a lista de beneficiários, que muitas vezes modificam, eles querem controlar quem recebe ajuda, politicamente cada comandante tem uma ideia diferente de quem deveria receber a ajuda e então muitas vezes mudam a lista de beneficiários, o que é grave porque podem estar a divergir a ajuda para locais que não precisam de tanta ajuda ou daquele tipo específico de ajuda”, exemplifica. “E mesmo escrever esta lista de beneficiários que eles depois podem mudar é complicado porque não é fácil andar pelo Iémen, nem sempre os vários atores permitem que determinada organização investigue as necessidades das populações. Nós há muito que não conseguimos entrar, este relatório foi feito pelo telefone porque é demasiado perigoso.”
No relatório há outros episódios como o que Benchemi descreve. “Os houthi têm um histórico particularmente flagrante de impedir que agências humanitárias cheguem às pessoas mais necessitadas e, pelo menos em parte, desviam a ajuda para oficiais houthi, seus apoiantes e combatentes. Em 2019 e 2020, os trabalhadores humanitários tiveram que reagir contra as autoridades houthi, que insistiram em várias ocasiões para que os grupos humanitários entregassem bens, como carros, computadores e telefones aos houthi, no final dos projetos. No entanto, a obstrução nas áreas controladas pelo governo no sul e no leste também está a aumentar”, lê-se no relatório.
Uma investigação da Associated Press, publicada a 31 de dezembro de 2018, descobriu que "facções e milícias em todos os lados do conflito desviaram ajuda alimentar para unidades de combate da linha de frente ou venderam-nas para o lucro no mercado negro”. Os houthi são referidos como os que mais recorrerem a estas práticas mas, “em menor medida, também as forças que lutam pelo Governo do Iémen o fazem”. A investigação cita um ex-ministro da Educação houthi confirmando o desvio de 15.000 cabazes por mês em 2018 com provisões básicas, vendidos no mercado negro ou usadas para alimentar soldados da linha de frente.
COLIGAÇÃO TAMBÉM ESTÁ A DIFICULTAR AJUDA
Mas também a coligação liderada pela Arábia Saudita (com a ajuda de países como França, Reino Unido ou Estados Unidos, todos acusados de vender armas usadas para ataques selvagens contra civis conduzidos pelos sauditas) é acusada de usar a burocracia para impedir a entrada de ajuda: “A coligação liderada pela Arábia Saudita impôs um bloqueio naval e aéreo ao Iémen em março de 2015 que restringiu severamente o fluxo de alimentos, combustível e remédios dos quais a grande maioria da população civil depende - uma violação às leis de guerra”.
O caso incluiu uma proibição não oficial aos importadores de utilizarem contentores normais (de 6 a 12 metros de comprimento) para embarcar mercadorias, o que forçou os importadores a ter de recorrer tanto a métodos de transporte como métodos de descarga mais caros, “resultando num aumento significativo no preço dos bens essenciais”, lê-se no relatório publicado esta segunda-feira.
As autoridades houthi responderam a este relatório, negando as acusações, mas nem o Governo internacionalmente reconhecido nem o Conselho Transitório do Sul (um movimento separatista que quer um sul independente e que ocupa a área perto de Aden desde o início de 2018) responderam.
O relatório recomenda o estabelecimento de uma comissão independente da ONU para investigar quem exatamente decide os torniquetes impostos à ajuda internacional e, no seguimento das conclusões, a imposição de sanções individuais. “Essas normalmente doem mais e resultam mais do que as que são impostas a um grupo ou a um país.”
29.7.20
Mais de meio milhão de crianças lutam pela sobrevivência em Beirute
in Público on-line
Pandemia do novo coronavírus amplificou a pior crise económica e financeira de sempre na história do país.
Mais de meio milhão de crianças em Beirute lutam pela sobrevivência quando o Líbano está em pleno naufrágio económico, lamentou esta quarta-feira a organização não-governamental (ONG) Salvem as Crianças (Save the Children).
O país está a atravessar a sua pior crise económica e financeira, amplificada pela pandemia do novo coronavírus e marcada pela desvalorização acentuada da moeda nacional, subida do desemprego e hiperinflação.
Na região metropolitana de Beirute, que inclui a capital libanesa e os seis arredores, 910 mil pessoas, entre as quais 564 mil crianças, sofrem na procura da satisfação das suas necessidades mais elementares, incluindo alimentação, segundo a ONG.
Desde Setembro, os preços dos produtos de base subiram 169%, o desemprego 35% no sector formal e o poder de compra das famílias 85%.
O Líbano acolhe cerca de 1,5 milhões de refugiados sírios, dos quais menos de um milhão inscritos na ONU, e cerca de 174 mil refugiados palestinianos.
Pandemia do novo coronavírus amplificou a pior crise económica e financeira de sempre na história do país.
Mais de meio milhão de crianças em Beirute lutam pela sobrevivência quando o Líbano está em pleno naufrágio económico, lamentou esta quarta-feira a organização não-governamental (ONG) Salvem as Crianças (Save the Children).
O país está a atravessar a sua pior crise económica e financeira, amplificada pela pandemia do novo coronavírus e marcada pela desvalorização acentuada da moeda nacional, subida do desemprego e hiperinflação.
Na região metropolitana de Beirute, que inclui a capital libanesa e os seis arredores, 910 mil pessoas, entre as quais 564 mil crianças, sofrem na procura da satisfação das suas necessidades mais elementares, incluindo alimentação, segundo a ONG.
Desde Setembro, os preços dos produtos de base subiram 169%, o desemprego 35% no sector formal e o poder de compra das famílias 85%.
O Líbano acolhe cerca de 1,5 milhões de refugiados sírios, dos quais menos de um milhão inscritos na ONU, e cerca de 174 mil refugiados palestinianos.
No Sudão, um quarto da população está a passar fome
Pedro Bastos Reis, in Público on-line
Escalada de conflito no Darfur, crise económica e impacto da pandemia de covid-19 estão a devastar o país. Se nada for feito, os sudaneses podem cair na “insegurança alimentar crónica e na pobreza”.
Numa altura em que se intensifica o conflito na região do Darfur, mais de 9,6 milhões de pessoas – um quarto da população – estão a passar fome no Sudão e a situação pode agravar-se nos próximos tempos, alertam as Nações Unidas. As situações mais complicadas vivem-se na região de Cordofão do Sul e no estado do Nilo Azul. No entanto, a fome é transversal aos 18 estados do país, inclusive na capital, Cartum.
“Se nenhuma medida for tomada, as pessoas podem cair na insegurança alimentar crónica e na pobreza”, alertou Woo Jung Kim, do Programa Alimentar Mundial, ao The Guardian.
A fome severa no país tem sido potenciada por vários factores, desde o conflito no Darfur, que se agravou nos últimos dias, até ao impacto da crise económica e da pandemia de covid-19.
Segundo as Nações Unidas, parte da população sudanesa já tinha dificuldades no acesso a alimentos e medicamentos. Com a chegada da pandemia ao país, que levou ao encerramento de vários sectores da economia, a crise agravou-se e apenas 15% dos medicamentos essenciais estão disponíveis para a população.
O Fundo Monetário Internacional estima que a inflação do Sudão atinja os 10% e que a dívida do país chegue aos 258% do PIB. O primeiro-ministro sudanês, Abdalla Hamdok, considera que o país necessita de pelo menos oito mil milhões de dólares no curto prazo para enfrentar.
Além disso, a pandemia – que já infectou 11.424 pessoas e causou a morte de 720 no país –, levou a um aumento do preço dos alimentos, e milhões ficaram privados de acesso a comida.
“Por vezes, temos duas refeições por dia, mas, muitas vezes apenas uma”, afirmou ao Guardian Wisal Abu-Sham, que luta para conseguir alimentar os 13 filhos. “Preparámos a nossa terra para plantar sésamo, mas ainda não choveu e, por isso, temos de comer algumas das nossas sementes que deveriam ser plantadas.”
Gwi-Yeop Son, coordenadora das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Assuntos Humanitários no Sudão, afirmou que o país precisa de ajuda imediata – pelo menos 283 milhões de dólares, só para gerir o impacto da covid-19 –, porque, caso contrário, é toda a região que fica em risco. “A covid-19 chegou ao Sudão numa altura em que grande parte da população já tinha dificuldades em satisfazer as suas actividades básicas e o sistema de saúde já estava sob enorme pressão”, afirmou Son, numa conferência virutal na semana passada.” Se o Sudão não estiver seguro, ninguém na região estará”, alertou.
Violência no Darfur
A juntar-se a estas dificuldades, a violência no Darfur aumentou substancialmente nos últimos dias, o que levou o primeiro-ministro a anunciar o envio de mais tropas para a região.
No sábado passado, segundo a ONU, 500 homens armados invadiram a cidade de Masteri, a cerca de 50 quilómetros da província de Geneina, e assassinaram 60 pessoas. Dezenas de casas foram assaltadas e queimadas, assim como mercados da região.
Os ataques ainda não foram reivindicados, mas foram dirigidos a agricultores de tribos africanas que estão em conflito com tribos árabes pelo controlo de terras naquela região, numa altura em que começou a época agrícola, fundamental para o país conseguir produzir alimentos até final do ano.
“A escalada de violência em diferentes partes da região do Darfur está a levar a um aumento dos deslocados, comprometendo a época agrícola, e a causar perdas de vidas e de meios de subsistência, bem como a impulsionar a necessidade de ajuda humanitária”, alertou o Gabinete para a Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA), em comunicado citado pela BBC.
Tendo em conta o aumento da violência, o chefe do Governo de transição, Abdalla Hamdok, garantiu que vai proteger os cidadãos da região, bem como as plantações agrícolas.
O Darfur tem sido palco de uma violenta guerra nas últimas décadas e estima-se que pelo menos 300 mil pessoas tenham morrido, num conflito que causou ainda cerca de três milhões de deslocados.
No ano passado, Omar al-Bashir, que liderou o país durante 30 anos, depois de ter chegado ao poder através de um golpe militar, foi deposto e é acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de crimes de guerra cometidos entre 2003 e 2008 no Darfur, durante uma revolta contra o seu regime.
De acordo com a acusação, o seu Governo, armou milícias de tribos árabes que levaram a cabo campanhas de limpeza étnica das comunidades de origem africana. O Governo provisório de Abdalla Hamdok, enquanto tenta negociar a paz no Darfur, já abriu a porta à entrega de Omar al-Bashir ao TPI, para que o ex-presidente possa ser julgado.
Escalada de conflito no Darfur, crise económica e impacto da pandemia de covid-19 estão a devastar o país. Se nada for feito, os sudaneses podem cair na “insegurança alimentar crónica e na pobreza”.
Numa altura em que se intensifica o conflito na região do Darfur, mais de 9,6 milhões de pessoas – um quarto da população – estão a passar fome no Sudão e a situação pode agravar-se nos próximos tempos, alertam as Nações Unidas. As situações mais complicadas vivem-se na região de Cordofão do Sul e no estado do Nilo Azul. No entanto, a fome é transversal aos 18 estados do país, inclusive na capital, Cartum.
“Se nenhuma medida for tomada, as pessoas podem cair na insegurança alimentar crónica e na pobreza”, alertou Woo Jung Kim, do Programa Alimentar Mundial, ao The Guardian.
A fome severa no país tem sido potenciada por vários factores, desde o conflito no Darfur, que se agravou nos últimos dias, até ao impacto da crise económica e da pandemia de covid-19.
Segundo as Nações Unidas, parte da população sudanesa já tinha dificuldades no acesso a alimentos e medicamentos. Com a chegada da pandemia ao país, que levou ao encerramento de vários sectores da economia, a crise agravou-se e apenas 15% dos medicamentos essenciais estão disponíveis para a população.
O Fundo Monetário Internacional estima que a inflação do Sudão atinja os 10% e que a dívida do país chegue aos 258% do PIB. O primeiro-ministro sudanês, Abdalla Hamdok, considera que o país necessita de pelo menos oito mil milhões de dólares no curto prazo para enfrentar.
Além disso, a pandemia – que já infectou 11.424 pessoas e causou a morte de 720 no país –, levou a um aumento do preço dos alimentos, e milhões ficaram privados de acesso a comida.
“Por vezes, temos duas refeições por dia, mas, muitas vezes apenas uma”, afirmou ao Guardian Wisal Abu-Sham, que luta para conseguir alimentar os 13 filhos. “Preparámos a nossa terra para plantar sésamo, mas ainda não choveu e, por isso, temos de comer algumas das nossas sementes que deveriam ser plantadas.”
Gwi-Yeop Son, coordenadora das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Assuntos Humanitários no Sudão, afirmou que o país precisa de ajuda imediata – pelo menos 283 milhões de dólares, só para gerir o impacto da covid-19 –, porque, caso contrário, é toda a região que fica em risco. “A covid-19 chegou ao Sudão numa altura em que grande parte da população já tinha dificuldades em satisfazer as suas actividades básicas e o sistema de saúde já estava sob enorme pressão”, afirmou Son, numa conferência virutal na semana passada.” Se o Sudão não estiver seguro, ninguém na região estará”, alertou.
Violência no Darfur
A juntar-se a estas dificuldades, a violência no Darfur aumentou substancialmente nos últimos dias, o que levou o primeiro-ministro a anunciar o envio de mais tropas para a região.
No sábado passado, segundo a ONU, 500 homens armados invadiram a cidade de Masteri, a cerca de 50 quilómetros da província de Geneina, e assassinaram 60 pessoas. Dezenas de casas foram assaltadas e queimadas, assim como mercados da região.
Os ataques ainda não foram reivindicados, mas foram dirigidos a agricultores de tribos africanas que estão em conflito com tribos árabes pelo controlo de terras naquela região, numa altura em que começou a época agrícola, fundamental para o país conseguir produzir alimentos até final do ano.
“A escalada de violência em diferentes partes da região do Darfur está a levar a um aumento dos deslocados, comprometendo a época agrícola, e a causar perdas de vidas e de meios de subsistência, bem como a impulsionar a necessidade de ajuda humanitária”, alertou o Gabinete para a Coordenação de Assuntos Humanitários das Nações Unidas (OCHA), em comunicado citado pela BBC.
Tendo em conta o aumento da violência, o chefe do Governo de transição, Abdalla Hamdok, garantiu que vai proteger os cidadãos da região, bem como as plantações agrícolas.
O Darfur tem sido palco de uma violenta guerra nas últimas décadas e estima-se que pelo menos 300 mil pessoas tenham morrido, num conflito que causou ainda cerca de três milhões de deslocados.
No ano passado, Omar al-Bashir, que liderou o país durante 30 anos, depois de ter chegado ao poder através de um golpe militar, foi deposto e é acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de crimes de guerra cometidos entre 2003 e 2008 no Darfur, durante uma revolta contra o seu regime.
De acordo com a acusação, o seu Governo, armou milícias de tribos árabes que levaram a cabo campanhas de limpeza étnica das comunidades de origem africana. O Governo provisório de Abdalla Hamdok, enquanto tenta negociar a paz no Darfur, já abriu a porta à entrega de Omar al-Bashir ao TPI, para que o ex-presidente possa ser julgado.
28.7.20
Moçambique: em Cabo Delgado não há memória de uma crise humanitária como esta
in Expresso
Há 250.000 pessoas afetadas, que fogem da violência armada. Responsável do Programa Alimentar Mundial diz que quem está em fuga junta-se a “famílias de acolhimento que têm muitos desafios para responder à situação alimentar”
Felisberto Amade tem 67 anos, é chefe de bairro em Pemba, capital provincial de Cabo Delgado e diz que não tem memória de uma crise humanitária como esta.
"Nunca tinha visto uma situação como esta", refere, à porta da Casa da Cultura, o local escolhido para mais uma distribuição de ajuda alimentar de emergência do Programa Alimentar Mundial (PAM) a deslocados pela violência armada em Cabo Delgado
Há 250.000 pessoas afetadas e Pemba é o porto seguro de muitos, em casas de familiares e amigos que de repente passaram a acolher mais de dez, às vezes 20 ou trinta pessoas.
"Só num dia recebi 49 famílias" no bairro, diz Felisberto, natural de Chiúre, Cabo Delgado, líder da Unidade C de Cariacó, no centro da capital de província.
Hoje, o PAM está a distribuir ajuda a dezenas de famílias de uma lista que ajudou a elaborar, mas "o que recebem para comer não chega para nada", lamenta, dizendo que há quem saia dali a chorar.
Cada agregado familiar recebe 50 quilos de cereais (este domingo foi distribuído milho), seis quilos de feijão ou lentilhas e cinco litros de óleo, quantidade estimada para 30 dias, por cada cinco pessoas - sendo que famílias mais numerosas recebem na devida proporção.
Só que Cristina Graziani, chefe de escritório do PAM em Cabo Delgado, diz que "os números de deslocados são grandes, as necessidades são muitas" e quem está em fuga junta-se a "famílias de acolhimento que têm muitos desafios para responder à situação alimentar".
Tudo agravado num cenário económico de contração por causa da covid-19.
A maré de deslocados é tal que o PAM "vai mudar seu apoio para incluir um número maior de famílias deslocadas. Estamos à espera de apoiar 200 mil pessoas no próximo mês e incluir famílias de acolhimento" no processo de ajuda.
Em junho foram assistidas 112.000 famílias em Cabo Delgado, valor que deverá subir até 176.000 até final deste mês e ascender a 200.000 em agosto.
O auxílio já se estende à província de Nampula, a sul, e à do Nissa, a poente, que também recebem deslocados.
"Em cooperação com o Governo, estamos a tentar reabrir a operação no norte", área de maior insegurança e onde existem ainda muitos deslocados.
Ao mesmo tempo, a partir de setembro, será introduzido em Pemba o sistema de apoio através de 'voucher', usado pelo PMA noutras regiões e que permitirá às famílias de acolhimento a troca por alimentos ou produtos de higiene no comércio local.
Na distribuição no espaço aberto da Casa da Cultura, em Pemba, em cooperação com o governo, algumas centenas de membros de famílias juntaram-se, identificaram-se um a um e receberam a senha que lhes deu acesso ao recinto de atribuição do 'kit' de ajuda alimentar.
Antes recebem informação sobre as formas de prevenção da covid-19 e as filas são marcadas de acordo com as normas de distanciamento social.
Belinha Raimundo, 30 anos, sai com um saco de milho na cabeça e pede ajuda para carregar o resto da ajuda.
"Tenho cinco filhos, uma é bebé e tenho muita dificuldade em ter alimentos. Aqui não é a minha casa, estou com os meus pais, perdi as minhas coisas", explica, depois de ter fugido dos ataques armados de abril em Mocímboa da Praia.
"Tudo o que construi virou cinza. Imagine, vir para a cidade com as mãos a abanar", descreve.
Bacar Fernando, 37 anos, deslocado de Macomia, leva o 'kit' de assistência alimentar para a casa de família onde foi acolhido e onde vivem agora 18 crianças.
Os produtos são bem-vindos para este deslocados que passou três dias escondido no mato, depois do ataque à vila no fim de maio, juntamente com vizinhos.
"Comíamos mandioca e raízes. Água era pouco a pouco", recorda.
Beatriz Maurício, 29 anos, tem quatro filhos e passa por uma nova provação, a fuga forçada para Pemba, depois de já ter visto a sua casa danificada com o ciclone Kenneth, em 2019.
"Sofremos muito mesmo com o Kenneth", diz, de olhos postos na saca de milho que recebeu.
"Se gostamos? Sim, a ajuda é importante", conclui.
Aos poucos, o átrio esvazia-se e em cerca de hora e meia a entrega fica concluída.
"Temos de pensar numa maneira de integrar este apoio a médio e longo prazo, mas, para já, a assistência alimentar de emergência é a prioridade", conclui, já a pensar na próxima distribuição, numa cidade cujos bairros estão repleto de deslocados.
Os ataques de grupos armados que desde 2017 aterrorizam Cabo Delgado já fizeram pelo menos mil mortos, entre civis, militares moçambicanos e vários rebeldes.
As Nações Unidas estimam que haja 250.000 pessoas em fuga dos distritos mais afetados, mais de 10% da população da província, que tem cerca de 2,3 milhões de habitantes.
Há 250.000 pessoas afetadas, que fogem da violência armada. Responsável do Programa Alimentar Mundial diz que quem está em fuga junta-se a “famílias de acolhimento que têm muitos desafios para responder à situação alimentar”
Felisberto Amade tem 67 anos, é chefe de bairro em Pemba, capital provincial de Cabo Delgado e diz que não tem memória de uma crise humanitária como esta.
"Nunca tinha visto uma situação como esta", refere, à porta da Casa da Cultura, o local escolhido para mais uma distribuição de ajuda alimentar de emergência do Programa Alimentar Mundial (PAM) a deslocados pela violência armada em Cabo Delgado
Há 250.000 pessoas afetadas e Pemba é o porto seguro de muitos, em casas de familiares e amigos que de repente passaram a acolher mais de dez, às vezes 20 ou trinta pessoas.
"Só num dia recebi 49 famílias" no bairro, diz Felisberto, natural de Chiúre, Cabo Delgado, líder da Unidade C de Cariacó, no centro da capital de província.
Hoje, o PAM está a distribuir ajuda a dezenas de famílias de uma lista que ajudou a elaborar, mas "o que recebem para comer não chega para nada", lamenta, dizendo que há quem saia dali a chorar.
Cada agregado familiar recebe 50 quilos de cereais (este domingo foi distribuído milho), seis quilos de feijão ou lentilhas e cinco litros de óleo, quantidade estimada para 30 dias, por cada cinco pessoas - sendo que famílias mais numerosas recebem na devida proporção.
Só que Cristina Graziani, chefe de escritório do PAM em Cabo Delgado, diz que "os números de deslocados são grandes, as necessidades são muitas" e quem está em fuga junta-se a "famílias de acolhimento que têm muitos desafios para responder à situação alimentar".
Tudo agravado num cenário económico de contração por causa da covid-19.
A maré de deslocados é tal que o PAM "vai mudar seu apoio para incluir um número maior de famílias deslocadas. Estamos à espera de apoiar 200 mil pessoas no próximo mês e incluir famílias de acolhimento" no processo de ajuda.
Em junho foram assistidas 112.000 famílias em Cabo Delgado, valor que deverá subir até 176.000 até final deste mês e ascender a 200.000 em agosto.
O auxílio já se estende à província de Nampula, a sul, e à do Nissa, a poente, que também recebem deslocados.
"Em cooperação com o Governo, estamos a tentar reabrir a operação no norte", área de maior insegurança e onde existem ainda muitos deslocados.
Ao mesmo tempo, a partir de setembro, será introduzido em Pemba o sistema de apoio através de 'voucher', usado pelo PMA noutras regiões e que permitirá às famílias de acolhimento a troca por alimentos ou produtos de higiene no comércio local.
Na distribuição no espaço aberto da Casa da Cultura, em Pemba, em cooperação com o governo, algumas centenas de membros de famílias juntaram-se, identificaram-se um a um e receberam a senha que lhes deu acesso ao recinto de atribuição do 'kit' de ajuda alimentar.
Antes recebem informação sobre as formas de prevenção da covid-19 e as filas são marcadas de acordo com as normas de distanciamento social.
Belinha Raimundo, 30 anos, sai com um saco de milho na cabeça e pede ajuda para carregar o resto da ajuda.
"Tenho cinco filhos, uma é bebé e tenho muita dificuldade em ter alimentos. Aqui não é a minha casa, estou com os meus pais, perdi as minhas coisas", explica, depois de ter fugido dos ataques armados de abril em Mocímboa da Praia.
"Tudo o que construi virou cinza. Imagine, vir para a cidade com as mãos a abanar", descreve.
Bacar Fernando, 37 anos, deslocado de Macomia, leva o 'kit' de assistência alimentar para a casa de família onde foi acolhido e onde vivem agora 18 crianças.
Os produtos são bem-vindos para este deslocados que passou três dias escondido no mato, depois do ataque à vila no fim de maio, juntamente com vizinhos.
"Comíamos mandioca e raízes. Água era pouco a pouco", recorda.
Beatriz Maurício, 29 anos, tem quatro filhos e passa por uma nova provação, a fuga forçada para Pemba, depois de já ter visto a sua casa danificada com o ciclone Kenneth, em 2019.
"Sofremos muito mesmo com o Kenneth", diz, de olhos postos na saca de milho que recebeu.
"Se gostamos? Sim, a ajuda é importante", conclui.
Aos poucos, o átrio esvazia-se e em cerca de hora e meia a entrega fica concluída.
"Temos de pensar numa maneira de integrar este apoio a médio e longo prazo, mas, para já, a assistência alimentar de emergência é a prioridade", conclui, já a pensar na próxima distribuição, numa cidade cujos bairros estão repleto de deslocados.
Os ataques de grupos armados que desde 2017 aterrorizam Cabo Delgado já fizeram pelo menos mil mortos, entre civis, militares moçambicanos e vários rebeldes.
As Nações Unidas estimam que haja 250.000 pessoas em fuga dos distritos mais afetados, mais de 10% da população da província, que tem cerca de 2,3 milhões de habitantes.
5.7.20
No Líbano deixou de ser possível comprar carne e já nem o pão é garantido
Pedro Bastos Reis, in Público on-line
Preço da carne vermelha e do frango triplicou e muitas famílias nem sequer têm dinheiro para comprar pão ou vegetais. Desespero sente-se nas ruas do Líbano, com a classe política a ser posta em causa.
Na gastronomia libanesa, a carne vermelha assume um lugar privilegiado, desde o tradicional kibbeh (pastéis de bulgur recheados com carne) aos pratos de cordeiro assado, assim como a carne de frango, utilizada em pratos como o jawaneh (asas marinadas em alho) ou o farrouj (frango grelhado com sumo de limão). No entanto, para milhões de libaneses, o acesso a proteína é, hoje em dia, um luxo acessível a poucos.
“Já não conseguimos comprar carne vermelha ou frango. O mais perto que ficamos dessas comidas é o que vemos nas revistas e nos jornais”, lamentou à Reuters Amer al Dahn, 55 anos, residente em Trípoli (a segunda maior cidade do Líbano), e que ficou sem dinheiro para comprar comida e precisa de recorrer ao crédito de uma loja para alimentar a mulher e os quatros filhos.
Amer al Dahn é um dos milhões de libaneses que lutam diariamente para conseguir ter acesso a alimentação básica, num país onde o pão não está garantido.
Para sobreviveram, muitos libaneses têm vendido as suas posses, sobretudo mobília, o que nem sempre é suficiente – muitos dependem da ajuda de vizinhos para comer. “Se não fossem os vizinhos a darem comida, as pessoas estariam a morrer à fome”, afirmou à Reuters Omar al-Hakim, que vive num apartamento de uma divisão em Trípoli com a mulher e os seis filhos.
Em Novembro do ano passado, o Banco Mundial alertou que o número de libaneses a viverem na pobreza podia aumentar 50% caso a economia do país não conseguisse recuperar. Meses depois, a covid-19 espalhou-se pelo mundo e obrigou o Líbano a impor medidas de quarentena, agravando ainda mais a debilidade económica do país.
O Líbano atravessa uma crise sem precedentes, considerada a mais grave desde o final da guerra civil em 1990, que devastou o país durante 15 anos. Desde Outubro do ano passado, a libra libanesa caiu mais de 80%, uma tendência que se tem agravado nas últimas semanas – segundo o Guardian, são precisas dez mil libras para perfazer um dólar.
Com esta desvalorização da moeda, o preço dos bens essenciais disparou, destruindo completamente a frágil economia de um país que importa 80% da sua comida.
Perante este cenário catastrófico, o preço da carne vermelha e do frango triplicou. As restrições chegaram ao Exército, onde a carne vermelha foi retirada da ementa, enquanto muitos restaurantes decidiram retirar os pratos de carne vermelha dos menus, substituindo-a por vegetais ou frango, quando há dinheiro para isso. Mesmo o grão-de-bico, o feijão e as lentilhas, utilizados abundantemente na gastronomia do país, estão fora do alcance de muitas famílias.
Desespero
O desespero é tão grande que, na passada sexta-feira, um homem de 61 anos suicidou-se em Hamra, um bairro da capital, segundo os media locais devido à crise económica e financeira. Junto ao seu corpo estava uma bandeira do Líbano, com uma carta que dizia “não sou herege, mas a fome é heresia”.
“Ele matou-se por causa da fome”, afirmou o primo, citado pelo Le Monde. Horas depois, segundo o mesmo jornal francês, um motorista suicidou-se no sul da capital, devido a problemas financeiros.
Estas duas mortes deixaram o país em choque e geraram grande indignação, levando a um uma subida de tom nos protestos contra o Governo e a classe política.
“As pessoas estão a passar a fome, estão falidas, na miséria”, disse à Reuters Lina Boubes, residente do bairro de Hamra, em Beirute. “Eles [políticos] roubaram os nossos sonhos, o nosso dinheiro, o nosso pão, e estão sentados nos seus castelos enquanto nos oprimem”, rematou.
O Governo de Hassan Diab tomou posse no início deste ano, depois da queda de Saad Hariri, que não resistiu aos protestos contra o aumento do custo de vida e do desemprego, no final do ano passado.
Apesar da tomada de posse de um novo Executivo, que contou com o apoio dos xiitas do Hezbollah, a situação financeira do país não melhorou e os protestos voltaram rapidamente, na chamada “revolta do pão”, pausada temporariamente devido à covid-19. Em Junho, as manifestações voltaram em força à capital, com manifestantes a queimarem pneus e a cortarem estradas, envolvendo-se em confrontos com a polícia.
Negociações falhadas
No final do passado mês de Maio, depois de Hassan Diab ter lançado um alerta internacional para a crise alimentar que o país está a atravessar, o Parlamento aprovou um pacote de ajuda financeira no valor equivalente a 272 milhões de euros para as famílias com baixos rendimentos e para os sectores vitais na economia, medidas que, contudo, não chegam.
Em paralelo, o Governo de Diab começou as negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para um pacote de resgate financeiro. No entanto, as conversas estão suspensas, com o FMI a exigir reformas com que o Governo não concorda, e a persistirem dúvidas quanto ao valor real da dívida de um país fortemente marcado pela corrupção.
“Nós temos implorado para que se comportem como um Estado normal, mas eles estão a agir como se estivessem a vender um tapete”, disse ao Guardian, sob anonimato, um diplomata europeu envolvido nas negociações. “O Líbano parece um Estado falhado”, acrescentou outra fonte ao mesmo jornal britânico.
Preço da carne vermelha e do frango triplicou e muitas famílias nem sequer têm dinheiro para comprar pão ou vegetais. Desespero sente-se nas ruas do Líbano, com a classe política a ser posta em causa.
Na gastronomia libanesa, a carne vermelha assume um lugar privilegiado, desde o tradicional kibbeh (pastéis de bulgur recheados com carne) aos pratos de cordeiro assado, assim como a carne de frango, utilizada em pratos como o jawaneh (asas marinadas em alho) ou o farrouj (frango grelhado com sumo de limão). No entanto, para milhões de libaneses, o acesso a proteína é, hoje em dia, um luxo acessível a poucos.
“Já não conseguimos comprar carne vermelha ou frango. O mais perto que ficamos dessas comidas é o que vemos nas revistas e nos jornais”, lamentou à Reuters Amer al Dahn, 55 anos, residente em Trípoli (a segunda maior cidade do Líbano), e que ficou sem dinheiro para comprar comida e precisa de recorrer ao crédito de uma loja para alimentar a mulher e os quatros filhos.
Amer al Dahn é um dos milhões de libaneses que lutam diariamente para conseguir ter acesso a alimentação básica, num país onde o pão não está garantido.
Para sobreviveram, muitos libaneses têm vendido as suas posses, sobretudo mobília, o que nem sempre é suficiente – muitos dependem da ajuda de vizinhos para comer. “Se não fossem os vizinhos a darem comida, as pessoas estariam a morrer à fome”, afirmou à Reuters Omar al-Hakim, que vive num apartamento de uma divisão em Trípoli com a mulher e os seis filhos.
Em Novembro do ano passado, o Banco Mundial alertou que o número de libaneses a viverem na pobreza podia aumentar 50% caso a economia do país não conseguisse recuperar. Meses depois, a covid-19 espalhou-se pelo mundo e obrigou o Líbano a impor medidas de quarentena, agravando ainda mais a debilidade económica do país.
O Líbano atravessa uma crise sem precedentes, considerada a mais grave desde o final da guerra civil em 1990, que devastou o país durante 15 anos. Desde Outubro do ano passado, a libra libanesa caiu mais de 80%, uma tendência que se tem agravado nas últimas semanas – segundo o Guardian, são precisas dez mil libras para perfazer um dólar.
Com esta desvalorização da moeda, o preço dos bens essenciais disparou, destruindo completamente a frágil economia de um país que importa 80% da sua comida.
Perante este cenário catastrófico, o preço da carne vermelha e do frango triplicou. As restrições chegaram ao Exército, onde a carne vermelha foi retirada da ementa, enquanto muitos restaurantes decidiram retirar os pratos de carne vermelha dos menus, substituindo-a por vegetais ou frango, quando há dinheiro para isso. Mesmo o grão-de-bico, o feijão e as lentilhas, utilizados abundantemente na gastronomia do país, estão fora do alcance de muitas famílias.
Desespero
O desespero é tão grande que, na passada sexta-feira, um homem de 61 anos suicidou-se em Hamra, um bairro da capital, segundo os media locais devido à crise económica e financeira. Junto ao seu corpo estava uma bandeira do Líbano, com uma carta que dizia “não sou herege, mas a fome é heresia”.
“Ele matou-se por causa da fome”, afirmou o primo, citado pelo Le Monde. Horas depois, segundo o mesmo jornal francês, um motorista suicidou-se no sul da capital, devido a problemas financeiros.
Estas duas mortes deixaram o país em choque e geraram grande indignação, levando a um uma subida de tom nos protestos contra o Governo e a classe política.
“As pessoas estão a passar a fome, estão falidas, na miséria”, disse à Reuters Lina Boubes, residente do bairro de Hamra, em Beirute. “Eles [políticos] roubaram os nossos sonhos, o nosso dinheiro, o nosso pão, e estão sentados nos seus castelos enquanto nos oprimem”, rematou.
O Governo de Hassan Diab tomou posse no início deste ano, depois da queda de Saad Hariri, que não resistiu aos protestos contra o aumento do custo de vida e do desemprego, no final do ano passado.
Apesar da tomada de posse de um novo Executivo, que contou com o apoio dos xiitas do Hezbollah, a situação financeira do país não melhorou e os protestos voltaram rapidamente, na chamada “revolta do pão”, pausada temporariamente devido à covid-19. Em Junho, as manifestações voltaram em força à capital, com manifestantes a queimarem pneus e a cortarem estradas, envolvendo-se em confrontos com a polícia.
No final da semana passada, depois das mortes na capital, os manifestantes voltaram a sair às ruas de Beirute, onde se viram cartazes a acusar o Governo de ter “sangue dos cidadãos” nas mãos.
No final do passado mês de Maio, depois de Hassan Diab ter lançado um alerta internacional para a crise alimentar que o país está a atravessar, o Parlamento aprovou um pacote de ajuda financeira no valor equivalente a 272 milhões de euros para as famílias com baixos rendimentos e para os sectores vitais na economia, medidas que, contudo, não chegam.
Em paralelo, o Governo de Diab começou as negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para um pacote de resgate financeiro. No entanto, as conversas estão suspensas, com o FMI a exigir reformas com que o Governo não concorda, e a persistirem dúvidas quanto ao valor real da dívida de um país fortemente marcado pela corrupção.
“Nós temos implorado para que se comportem como um Estado normal, mas eles estão a agir como se estivessem a vender um tapete”, disse ao Guardian, sob anonimato, um diplomata europeu envolvido nas negociações. “O Líbano parece um Estado falhado”, acrescentou outra fonte ao mesmo jornal britânico.
17.6.20
Casas queimadas, centenas de mortos e deslocados. Bispo relata terror no norte de Moçambique
in RR
D. Luiz Fernando Lisboa revela que os ataques terroristas em Cabo Delgado têm crescido em cadência e gravidade.
O cenário em Cabo Delgado, província de Moçambique, é de terror e cada vez mais grave, conforme relata o bispo de Pemba, D. Luíz Fernando Lisboa, em entrevista ao portal "Plataforma".
Grupos armados, de cara tapada, já terão matado mais de 1.100 pessoas, em cerca de dois anos e meio, e há mais de 200 mil deslocados a precisar de ajuda humanitária. Mais recentemente, tem havido “vários ataques em simultâneo”, em aldeias distantes umas das outras, “o que dificulta ainda mais” a ação das forças de segurança.
O método é sempre o mesmo, "desde o começo": "Queimar as casas, matar pessoas e decepar as cabeças." O bispo de Pemba assume que aquilo por que a população de Cabo Delgado tem passado "é uma coisa inominável".
"Está toda a população assustada e com medo. Os deslocados, os diretamente envolvidos, estão numa situação de pesadelo. Muitos fugiram, aqueles que permaneceram nas suas aldeias dormem no mato porque têm medo de ser atacados, e os que estão noutros distritos estão a receber deslocados. As famílias vivem em sobressalto, porque quem tinha seis ou sete pessoas na família agora tem 20, 25, porque acolheu outras famílias", conta.
D. Luíz Fernando admite que, por trás dos ataques, pode estar a conjugação de interesses económicos, étnicos e religiosos. Contudo, prefere não alimentar o conflito religioso: "Nem falamos nesse assunto, isso não nos interessa."
Cabo Delgado, província onde avança o maior investimento privado de África para exploração de gás natural, está sob ataque desde outubro de 2017 por insurgentes, classificados desde o início do ano pelas autoridades moçambicanas e internacionais como uma ameaça terrorista.
O bispo de Pemba não esconde o medo com que vive todos os dias. As autoridades de vários distritos e as Organizações Não Governamentais já abandonaram Cabo Delgado. Assim como os missionários, por ordem do próprio bispo. A população abandonou a região e "só ficou quem não pôde sair".
Em abril, D. Luíz Fernando declarou, em entrevista à Renascença, que a Organização das Nações Unidas (ONU) tinha "obrigação de ajudar" Cabo Delgado.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, já contactou o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, sobre a violência armada em Cabo Delgado. Os dois mantiveram uma "breve conversa telefónica" sobre o assunto, de acordo com nota oficial da Presidência da República de Moçambique.
Guterres e Nyusi terão discutiram as medidas que o Governo moçambicano tem adotado na assistência às populações afetadas, assim como o "papel importante" das agências da ONU, nomeadamente o Programa Alimentar Mundial.
Além da violência armada em Cabo Delgado, António Guterres e Filipe Nyusi abordaram o acordo de paz entre o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), um processo que registou progressos nos últimos dias, com a entrega de armas de um total de 38 guerrilheiros do braço armado do principal partido de oposição no âmbito dos entendimentos assinados em agosto de 2019.
"Os dois dirigentes reafirmaram o seu empenho em aprofundar a cooperação multilateral no enfrentamento dos desafios globais, com impacto em Moçambique e no mundo", concluiu a nota.
Moçambique. Amnistia Internacional apela às tropas para "proteger civis"
Cabo Delgado, província onde avança o maior invest(...)
D. Luiz Fernando Lisboa revela que os ataques terroristas em Cabo Delgado têm crescido em cadência e gravidade.
O cenário em Cabo Delgado, província de Moçambique, é de terror e cada vez mais grave, conforme relata o bispo de Pemba, D. Luíz Fernando Lisboa, em entrevista ao portal "Plataforma".
Grupos armados, de cara tapada, já terão matado mais de 1.100 pessoas, em cerca de dois anos e meio, e há mais de 200 mil deslocados a precisar de ajuda humanitária. Mais recentemente, tem havido “vários ataques em simultâneo”, em aldeias distantes umas das outras, “o que dificulta ainda mais” a ação das forças de segurança.
O método é sempre o mesmo, "desde o começo": "Queimar as casas, matar pessoas e decepar as cabeças." O bispo de Pemba assume que aquilo por que a população de Cabo Delgado tem passado "é uma coisa inominável".
"Está toda a população assustada e com medo. Os deslocados, os diretamente envolvidos, estão numa situação de pesadelo. Muitos fugiram, aqueles que permaneceram nas suas aldeias dormem no mato porque têm medo de ser atacados, e os que estão noutros distritos estão a receber deslocados. As famílias vivem em sobressalto, porque quem tinha seis ou sete pessoas na família agora tem 20, 25, porque acolheu outras famílias", conta.
D. Luíz Fernando admite que, por trás dos ataques, pode estar a conjugação de interesses económicos, étnicos e religiosos. Contudo, prefere não alimentar o conflito religioso: "Nem falamos nesse assunto, isso não nos interessa."
Cabo Delgado, província onde avança o maior investimento privado de África para exploração de gás natural, está sob ataque desde outubro de 2017 por insurgentes, classificados desde o início do ano pelas autoridades moçambicanas e internacionais como uma ameaça terrorista.
O bispo de Pemba não esconde o medo com que vive todos os dias. As autoridades de vários distritos e as Organizações Não Governamentais já abandonaram Cabo Delgado. Assim como os missionários, por ordem do próprio bispo. A população abandonou a região e "só ficou quem não pôde sair".
Em abril, D. Luíz Fernando declarou, em entrevista à Renascença, que a Organização das Nações Unidas (ONU) tinha "obrigação de ajudar" Cabo Delgado.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, já contactou o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, sobre a violência armada em Cabo Delgado. Os dois mantiveram uma "breve conversa telefónica" sobre o assunto, de acordo com nota oficial da Presidência da República de Moçambique.
Guterres e Nyusi terão discutiram as medidas que o Governo moçambicano tem adotado na assistência às populações afetadas, assim como o "papel importante" das agências da ONU, nomeadamente o Programa Alimentar Mundial.
Além da violência armada em Cabo Delgado, António Guterres e Filipe Nyusi abordaram o acordo de paz entre o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), um processo que registou progressos nos últimos dias, com a entrega de armas de um total de 38 guerrilheiros do braço armado do principal partido de oposição no âmbito dos entendimentos assinados em agosto de 2019.
"Os dois dirigentes reafirmaram o seu empenho em aprofundar a cooperação multilateral no enfrentamento dos desafios globais, com impacto em Moçambique e no mundo", concluiu a nota.
Moçambique. Amnistia Internacional apela às tropas para "proteger civis"
Cabo Delgado, província onde avança o maior invest(...)
4.12.18
Quase toda a população do Iémen precisa de ajuda
in SicNotícias
A ONU reconheceu esta terça-feira, no apelo humanitário global para 2019, que quase toda a população do Iémen precisa de ajuda e proteção, estando à beira da fome,De acordo com estimativas da ONU, quase 80% da população (agora cifrada em cerca de 25 milhões de pessoas) precisa de alguma forma de proteção e de assistência humanitária.
Mark Lowcock, sub-secretário-geral da ONU para os Assuntos Humanitários, afirmou esta terça-feira, numa conferência de imprensa em Genebra, para apresentação do plano humanitário global para 2019, que “O país com maiores problemas em 2019 será o Iémen".
A Fome em todo o país
A ONU considera que "o Iémen nunca esteve tão perto da fome", depositando esperança nas negociações de paz marcadas para esta semana na Suécia, que procurarão uma solução para um conflito que já tem quatro anos e que matou milhares de pessoas.
Em todo o país, 18 milhões de pessoas estão em situação de "insegurança alimentar", dos quais 8,4 milhões sofrem de "fome extrema", segundo um relatório da ONU.
Se as negociações de paz em Estocolmo tiverem sucesso, "é possível que no segundo semestre do próximo ano" os iemenitas possam ver o seu sofrimento reduzido, afirmou Mark Lowcock.
A ONU diz que precisa de quatro mil milhões de dólares (cerca de 3,5 mil milhões de euros), para ajudar 15 milhões de pessoas no Iémen, ao longo do próximo ano.
O Conflito militar
O confito no Iémen opõe os Houthis, alinhados com o Irão, contra as outras forças iemenitas apoiadas por uma coligação leal ao Presidente Abd-Rabbu Hadi, liderada pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos.
Desde a intervenção da coligação militar sob comando saudita, os combates já mataram cerca de dez mil pessoas e feriram mais de 56 mil, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Mas as organizações não-governamentais acreditam que o número real de vítimas diretas e indiretas será muito maior.
A insegurança na região de Hodeida, por onde passa 70% da ajuda do Programa Alimentar Mundial, tem deteriorado a situação humanitária no Iémen.
A ONU reconheceu esta terça-feira, no apelo humanitário global para 2019, que quase toda a população do Iémen precisa de ajuda e proteção, estando à beira da fome,De acordo com estimativas da ONU, quase 80% da população (agora cifrada em cerca de 25 milhões de pessoas) precisa de alguma forma de proteção e de assistência humanitária.
Mark Lowcock, sub-secretário-geral da ONU para os Assuntos Humanitários, afirmou esta terça-feira, numa conferência de imprensa em Genebra, para apresentação do plano humanitário global para 2019, que “O país com maiores problemas em 2019 será o Iémen".
A Fome em todo o país
A ONU considera que "o Iémen nunca esteve tão perto da fome", depositando esperança nas negociações de paz marcadas para esta semana na Suécia, que procurarão uma solução para um conflito que já tem quatro anos e que matou milhares de pessoas.
Em todo o país, 18 milhões de pessoas estão em situação de "insegurança alimentar", dos quais 8,4 milhões sofrem de "fome extrema", segundo um relatório da ONU.
Se as negociações de paz em Estocolmo tiverem sucesso, "é possível que no segundo semestre do próximo ano" os iemenitas possam ver o seu sofrimento reduzido, afirmou Mark Lowcock.
A ONU diz que precisa de quatro mil milhões de dólares (cerca de 3,5 mil milhões de euros), para ajudar 15 milhões de pessoas no Iémen, ao longo do próximo ano.
O Conflito militar
O confito no Iémen opõe os Houthis, alinhados com o Irão, contra as outras forças iemenitas apoiadas por uma coligação leal ao Presidente Abd-Rabbu Hadi, liderada pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos.
Desde a intervenção da coligação militar sob comando saudita, os combates já mataram cerca de dez mil pessoas e feriram mais de 56 mil, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Mas as organizações não-governamentais acreditam que o número real de vítimas diretas e indiretas será muito maior.
A insegurança na região de Hodeida, por onde passa 70% da ajuda do Programa Alimentar Mundial, tem deteriorado a situação humanitária no Iémen.
24.8.18
Depois de o Daesh lhe ter matado os filhos, uma avó resiste pelos 22 netos
Reuters, in Público on-line
“Quando os militantes do Daesh [Estado Islâmico] reivindicaram as nossas terras, destruíram-nos. Por Deus, os militantes humilharam-nos. Mataram os nossos filhos e não ficou nada”, disse al-Taee.
Num apartamento apertado e contando com pouca ajuda estatalUma avó iraquiana, Sana Ibrahim al-Taee, tem como trabalho a tempo inteiro alimentar e vestir 22 netos, depois de o grupo jihadista Daesh ter matado os pais — os seus filhos.
Uma mulher marcou um encontro com cem homens para mostrar quão “mesquinhos” somos no Tinder
Al-Taee e o marido, que tem Alzheimer, partilham o apartamento de quatro assoalhadas a Este de Mossul com as crianças, com idades entre os dois anos e os 16, a filha e duas noras viúvas. Renda, comida, roupas e despesas com educação dependem de doações e apoio de associações de ajuda humanitária.
Al-Taee espera a decisão do Governo, que irá dar pensões de 500 mil dinares (361 euros) por mês por todos os filhos de militares e polícias. “Espero que as autoridades dêem pensões e casa para estes órfãos, porque eu não vou viver 100 anos”, disse a mulher, 60 anos, à Reuters.
Al-Taee, que está doente e tem as cordas vocais paralisadas, conseguiu certificados de óbitos para os três filhos, mas diz que os outros dois foram enterrados em valas comuns, não identificadas, e que por isso não conseguiu encontrar os seus corpos.
Isso quer dizer que estão a ser classificados como desaparecidos em vez de mortos. Por isso, não tem certidões de óbito para eles e não se pode candidatar a pensões — um problema comum às famílias do Norte e Oeste do país, onde o Daesh controlou grandes porções do território em 2014.
Os jihadistas foram expulsos em Dezembro por tropas iraquianas, apoiadas pelos Estados Unidos, mas o Governo admitiu que ia precisar de mais de 100 mil milhões de dólares (quase 87 mil milhões de euros) para reconstruir as cidades como Mossul, com mesquitas, igrejas, mercados e outros pontos fulcrais deixados na ruína.
Ler mais
O que é o Estado Islâmico?
A vida no Estado Islâmico
“Quando os militantes do Daesh reivindicaram as nossas terras, destruíram-nos. Os combatentes humilharam-nos. Mataram os nossos filhos e não ficou nada”, disse al-Taee.
As duas viúvas que vivem na casa apertada têm estado a trabalhar com organizações civis, mas abandonaram por não terem sido pagas. Agora estão à procura de trabalho.
“Quando os militantes do Daesh [Estado Islâmico] reivindicaram as nossas terras, destruíram-nos. Por Deus, os militantes humilharam-nos. Mataram os nossos filhos e não ficou nada”, disse al-Taee.
Num apartamento apertado e contando com pouca ajuda estatalUma avó iraquiana, Sana Ibrahim al-Taee, tem como trabalho a tempo inteiro alimentar e vestir 22 netos, depois de o grupo jihadista Daesh ter matado os pais — os seus filhos.
Uma mulher marcou um encontro com cem homens para mostrar quão “mesquinhos” somos no Tinder
Al-Taee e o marido, que tem Alzheimer, partilham o apartamento de quatro assoalhadas a Este de Mossul com as crianças, com idades entre os dois anos e os 16, a filha e duas noras viúvas. Renda, comida, roupas e despesas com educação dependem de doações e apoio de associações de ajuda humanitária.
Al-Taee espera a decisão do Governo, que irá dar pensões de 500 mil dinares (361 euros) por mês por todos os filhos de militares e polícias. “Espero que as autoridades dêem pensões e casa para estes órfãos, porque eu não vou viver 100 anos”, disse a mulher, 60 anos, à Reuters.
Al-Taee, que está doente e tem as cordas vocais paralisadas, conseguiu certificados de óbitos para os três filhos, mas diz que os outros dois foram enterrados em valas comuns, não identificadas, e que por isso não conseguiu encontrar os seus corpos.
Isso quer dizer que estão a ser classificados como desaparecidos em vez de mortos. Por isso, não tem certidões de óbito para eles e não se pode candidatar a pensões — um problema comum às famílias do Norte e Oeste do país, onde o Daesh controlou grandes porções do território em 2014.
Os jihadistas foram expulsos em Dezembro por tropas iraquianas, apoiadas pelos Estados Unidos, mas o Governo admitiu que ia precisar de mais de 100 mil milhões de dólares (quase 87 mil milhões de euros) para reconstruir as cidades como Mossul, com mesquitas, igrejas, mercados e outros pontos fulcrais deixados na ruína.
Ler mais
O que é o Estado Islâmico?
A vida no Estado Islâmico
“Quando os militantes do Daesh reivindicaram as nossas terras, destruíram-nos. Os combatentes humilharam-nos. Mataram os nossos filhos e não ficou nada”, disse al-Taee.
As duas viúvas que vivem na casa apertada têm estado a trabalhar com organizações civis, mas abandonaram por não terem sido pagas. Agora estão à procura de trabalho.
8.8.18
Mediterrâneo é escolha de quem não tem outra escolha
in Dnotícias
Milhares de pessoas arriscam a vida na travessia do Mediterrâneo para chegar à Europa e Sium Yimeaghen foi uma delas, preferindo trocar o seu país, a Eritreia, pela incerteza de quem não tem nada a perder.
Foi aos 29 anos que decidiu tentar a sua sorte e sair da Eritreia. O professor, natural de Adi Keih (região sul), fartou-se da “repressão do governo” e conseguiu escapar da prisão, onde esteve cerca de um ano, iniciando uma viagem que o levou até Malta, onde se encontra ainda, cinco anos depois.
“Vim à procura de protecção e segurança. Não saí do meu país para ter melhores oportunidades económicas, saí porque fui obrigado a sair, devido ao tratamento a que os cidadãos são sujeitos, a quem é negada liberdade de movimento, de expressão ou de religião. Estas coisas estão ausentes na Eritreia. As pessoas sentem-se reprimidas”, contou à agência Lusa.
A Eritreia, governada com mão de ferro pelo Presidente Isaias Afwerki, declarou a independência da vizinha Etiópia em 1993 e é descrita pela Amnistia Internacional como um dos regimes mais repressivos do continente africano.
Sium Yimeaghen, que foi preso “por suspeitas” de que estaria a tentar deixar ilegalmente a Eritreia quando foi encontrado pelos militares na fronteira com a Etiópia, conseguiu fugir para o Sudão, em 2013.
Daí prosseguiu viagem para a Líbia, onde chegou um mês depois. Saiu da capital líbia, Tripoli, em 01 de julho de 2013, numa embarcação precária, com mais 299 pessoas.
Durante o percurso, o controlo sobre a sua vida foi entregue aos contrabandistas.
“Sendo imigrantes ilegais estamos nas mãos dos contrabandistas. Não escolhemos o quabdi trazer, o que comprar, o que podemos levar. Tudo é preparado por eles. Tínhamos muito pouca água para beber e muito pouco que comer, não o suficiente para sobreviver nesta viagem tão perigosa”, onde seguiam quatro crianças, descreve o antigo professor.
Sium Yimeaghen admite que a rede de contrabandistas que o ajudou a passar do Sudão para a Líbia possa estar ligado à guarda costeira líbia porque nessa altura “era muito difícil chegar até à praia” e passar pela segurança apertada dos postos de controlo.
Os perigos da viagem afastam-se do pensamento de quem aposta tudo numa vida melhor.
“Sabíamos as circunstâncias, sabíamos que as coisas são más nas mãos dos contrabandistas, [os riscos da] viagem e sobretudo o mar, mas não tínhamos outra opção senão tentar a nossa sorte. Quando fugimos de um país e decidimos fazer isto [atravessar o Mediterrâneo] pensamos que só temos uma vida, mas acreditamos que não temos outra opção a não ser chegar a um sítio melhor em vez de ficar a sofrer o que estávamos a sofrer”, resume, em tom pausado.
A partir daqui a história foi igual a tantas outras.
Navegaram três dias até que o barco ficou à deriva porque o motor deixou de funcionar, mas não foram informados sobre o que estava a acontecer “para evitar o pânico”.
Acabaram por ser socorridos por patrulhas italiana e maltesa, depois de contactarem activistas através do telefone satélite que alguém levava a bordo.
Mas as dificuldades não acabaram ao chegar a Malta. Passou por dois centros de detenção e esteve oito meses num centro aberto até ter documentos e licença para trabalhar. Entretanto iniciou um lento processo de pedido de asilo, ao abrigo do qual lhe foi atribuída protecção subsidiária (estatuto que concede protecção a cidadãos que não possam ser considerados refugiados, mas em relação aos quais existem motivos significativos para acreditar que, caso voltem para o seu país de origem, correm risco de sofrer ofensa grave).
“Estou muito grato ao governo de Malta por nos resgatarem e darem uma segunda oportunidade na vida, mas se pudesse escolher queria um país que me desse oportunidades melhores do que estou a ter aqui”, diz, explicando que lhe falta o sentimento de pertença.
“Sinto que não pertenço aqui. Esta protecção mantém-me num limbo (...) mesmo se trabalhar e pagar impostos não vou beneficiar de pensão se entrar na reforma vivendo em Malta. Este estatuto é estático e infrutífero, não sentimos que somos parte do país anfitrião onde vivemos, não importa quantos anos vivemos aqui. Não posso planear o meu futuro porque tenho limitações básicas”, lamenta.
Já passou por vários empregos e desde finais de 2016 trabalha como profissional de saúde num hospital.
Considera que a Europa devia ter “uma abordagem mais compreensiva” do fenómeno das migrações e lembra que os refugiados “pagam muito dinheiro” por uma viagem que não lhes dá quaisquer garantias e que os obriga a deixar para trás a família.
“Se pudéssemos encontrar uma forma de as pessoas que precisam de protecção viajarem legalmente para a Europa isso seria muito melhor. Os migrantes estavam mais seguros e não iam gastar dinheiro com os contrabandistas, não precisavam de embarcar numa viagem perigosa e alimentar o negócio do tráfico” de pessoas, sugere
Sium Yimeaghen gastou 3.600 dólares: pagou 1.200 dólares para viajar desde o Sudão num camião com 180 pessoas. Em Benghazi, na Líbia, foram-lhe cobrados mais 200 dólares e daí para Tripoli mais 600. Pela viagem de barco pediram mais 1.600 dólares.
Um negócio muito lucrativo para os contrabandistas que não vai ter fim se as regras não mudarem, pois “o problema da imigração nunca vai acabar”, antecipa.
O ex-professor da Eritreia garante que, se pudesse, voltaria ao seu país.
“A emigração não foi uma escolha, nunca seria nem nos meus sonhos mais loucos. Deixei o meu país porque fui obrigado e enquanto o actual governo se mantiver no poder não posso voltar”, diz, entristecido.
Milhares de pessoas arriscam a vida na travessia do Mediterrâneo para chegar à Europa e Sium Yimeaghen foi uma delas, preferindo trocar o seu país, a Eritreia, pela incerteza de quem não tem nada a perder.
Foi aos 29 anos que decidiu tentar a sua sorte e sair da Eritreia. O professor, natural de Adi Keih (região sul), fartou-se da “repressão do governo” e conseguiu escapar da prisão, onde esteve cerca de um ano, iniciando uma viagem que o levou até Malta, onde se encontra ainda, cinco anos depois.
“Vim à procura de protecção e segurança. Não saí do meu país para ter melhores oportunidades económicas, saí porque fui obrigado a sair, devido ao tratamento a que os cidadãos são sujeitos, a quem é negada liberdade de movimento, de expressão ou de religião. Estas coisas estão ausentes na Eritreia. As pessoas sentem-se reprimidas”, contou à agência Lusa.
A Eritreia, governada com mão de ferro pelo Presidente Isaias Afwerki, declarou a independência da vizinha Etiópia em 1993 e é descrita pela Amnistia Internacional como um dos regimes mais repressivos do continente africano.
Sium Yimeaghen, que foi preso “por suspeitas” de que estaria a tentar deixar ilegalmente a Eritreia quando foi encontrado pelos militares na fronteira com a Etiópia, conseguiu fugir para o Sudão, em 2013.
Daí prosseguiu viagem para a Líbia, onde chegou um mês depois. Saiu da capital líbia, Tripoli, em 01 de julho de 2013, numa embarcação precária, com mais 299 pessoas.
Durante o percurso, o controlo sobre a sua vida foi entregue aos contrabandistas.
“Sendo imigrantes ilegais estamos nas mãos dos contrabandistas. Não escolhemos o quabdi trazer, o que comprar, o que podemos levar. Tudo é preparado por eles. Tínhamos muito pouca água para beber e muito pouco que comer, não o suficiente para sobreviver nesta viagem tão perigosa”, onde seguiam quatro crianças, descreve o antigo professor.
Sium Yimeaghen admite que a rede de contrabandistas que o ajudou a passar do Sudão para a Líbia possa estar ligado à guarda costeira líbia porque nessa altura “era muito difícil chegar até à praia” e passar pela segurança apertada dos postos de controlo.
Os perigos da viagem afastam-se do pensamento de quem aposta tudo numa vida melhor.
“Sabíamos as circunstâncias, sabíamos que as coisas são más nas mãos dos contrabandistas, [os riscos da] viagem e sobretudo o mar, mas não tínhamos outra opção senão tentar a nossa sorte. Quando fugimos de um país e decidimos fazer isto [atravessar o Mediterrâneo] pensamos que só temos uma vida, mas acreditamos que não temos outra opção a não ser chegar a um sítio melhor em vez de ficar a sofrer o que estávamos a sofrer”, resume, em tom pausado.
A partir daqui a história foi igual a tantas outras.
Navegaram três dias até que o barco ficou à deriva porque o motor deixou de funcionar, mas não foram informados sobre o que estava a acontecer “para evitar o pânico”.
Acabaram por ser socorridos por patrulhas italiana e maltesa, depois de contactarem activistas através do telefone satélite que alguém levava a bordo.
Mas as dificuldades não acabaram ao chegar a Malta. Passou por dois centros de detenção e esteve oito meses num centro aberto até ter documentos e licença para trabalhar. Entretanto iniciou um lento processo de pedido de asilo, ao abrigo do qual lhe foi atribuída protecção subsidiária (estatuto que concede protecção a cidadãos que não possam ser considerados refugiados, mas em relação aos quais existem motivos significativos para acreditar que, caso voltem para o seu país de origem, correm risco de sofrer ofensa grave).
“Estou muito grato ao governo de Malta por nos resgatarem e darem uma segunda oportunidade na vida, mas se pudesse escolher queria um país que me desse oportunidades melhores do que estou a ter aqui”, diz, explicando que lhe falta o sentimento de pertença.
“Sinto que não pertenço aqui. Esta protecção mantém-me num limbo (...) mesmo se trabalhar e pagar impostos não vou beneficiar de pensão se entrar na reforma vivendo em Malta. Este estatuto é estático e infrutífero, não sentimos que somos parte do país anfitrião onde vivemos, não importa quantos anos vivemos aqui. Não posso planear o meu futuro porque tenho limitações básicas”, lamenta.
Já passou por vários empregos e desde finais de 2016 trabalha como profissional de saúde num hospital.
Considera que a Europa devia ter “uma abordagem mais compreensiva” do fenómeno das migrações e lembra que os refugiados “pagam muito dinheiro” por uma viagem que não lhes dá quaisquer garantias e que os obriga a deixar para trás a família.
“Se pudéssemos encontrar uma forma de as pessoas que precisam de protecção viajarem legalmente para a Europa isso seria muito melhor. Os migrantes estavam mais seguros e não iam gastar dinheiro com os contrabandistas, não precisavam de embarcar numa viagem perigosa e alimentar o negócio do tráfico” de pessoas, sugere
Sium Yimeaghen gastou 3.600 dólares: pagou 1.200 dólares para viajar desde o Sudão num camião com 180 pessoas. Em Benghazi, na Líbia, foram-lhe cobrados mais 200 dólares e daí para Tripoli mais 600. Pela viagem de barco pediram mais 1.600 dólares.
Um negócio muito lucrativo para os contrabandistas que não vai ter fim se as regras não mudarem, pois “o problema da imigração nunca vai acabar”, antecipa.
O ex-professor da Eritreia garante que, se pudesse, voltaria ao seu país.
“A emigração não foi uma escolha, nunca seria nem nos meus sonhos mais loucos. Deixei o meu país porque fui obrigado e enquanto o actual governo se mantiver no poder não posso voltar”, diz, entristecido.
20.2.18
Os piores países do mundo para ser criança
in TSF
Perto de 360 milhões de crianças em todo o mundo, ou seja, uma em seis, vivem em zonas afetadas por conflitos, segundo um relatório da Save the Children.
Seis nações africanas estão entre as 10 piores do mundo para se ser uma criança numa zona de guerra, indica um relatório da organização Save the Children divulgado esta quinta-feira.
A Síria encabeça a lista, seguida do Afeganistão, Somália, Iémen, Nigéria, Sudão do Sul, Iraque, República Democrática do Congo, Sudão e República Centro Africana.
O relatório, baseado em dados do Instituto Internacional para a Investigação da Paz de Estocolmo, analisa fatores como ataques contra escolas, o recrutamento de crianças soldados, violações, assassínios e falta de acesso humanitário.
Perto de 360 milhões de crianças em todo o mundo, ou seja, uma em seis, vivem em zonas afetadas por conflitos, segundo o relatório divulgado na véspera da Conferência de Segurança de Munique, no âmbito da qual líderes globais vão discutir políticas de segurança até domingo.
A Save the Children apela aos dirigentes mundiais para fazerem mais no sentido de responsabilizar os autores dos crimes contra as crianças.
"Crimes como estes contra crianças são o pior tipo de abuso imaginável e são uma violação flagrante do direito internacional", disse Carolyn Miles, presidente da Save the Children.
Perto de 360 milhões de crianças em todo o mundo, ou seja, uma em seis, vivem em zonas afetadas por conflitos, segundo um relatório da Save the Children.
Seis nações africanas estão entre as 10 piores do mundo para se ser uma criança numa zona de guerra, indica um relatório da organização Save the Children divulgado esta quinta-feira.
A Síria encabeça a lista, seguida do Afeganistão, Somália, Iémen, Nigéria, Sudão do Sul, Iraque, República Democrática do Congo, Sudão e República Centro Africana.
O relatório, baseado em dados do Instituto Internacional para a Investigação da Paz de Estocolmo, analisa fatores como ataques contra escolas, o recrutamento de crianças soldados, violações, assassínios e falta de acesso humanitário.
Perto de 360 milhões de crianças em todo o mundo, ou seja, uma em seis, vivem em zonas afetadas por conflitos, segundo o relatório divulgado na véspera da Conferência de Segurança de Munique, no âmbito da qual líderes globais vão discutir políticas de segurança até domingo.
A Save the Children apela aos dirigentes mundiais para fazerem mais no sentido de responsabilizar os autores dos crimes contra as crianças.
"Crimes como estes contra crianças são o pior tipo de abuso imaginável e são uma violação flagrante do direito internacional", disse Carolyn Miles, presidente da Save the Children.
16.8.17
Sobreviver à Guerra da Coreia para criar família no Caramulo
in Diário de Notícias
Sul-coreano Won Chong-song vive em Portugal desde 1972. Chegou para trabalhar como sexador num aviário, hoje tem uma empresa de compotas de frutas. Casado com uma portuguesa, continua a viver no Caramulo, onde criou três filhos.
Nascido em 1949, Won Chong-song tinha um ano quando começou a Guerra da Coreia. Desses três anos terríveis diz não ter memória, sabendo apenas aquilo que a mãe lhe contou: a fuga da sua Chung Buk natal num comboio para sul assim que se soube da aproximação das tropas norte-coreanas, a paragem súbita da locomotiva porque afinal os invasores comunistas já iam à frente, o leite que secou no peito da mãe e as papas de arroz para alimento, o pai como auxiliar do Exército sul-coreano, que com o apoio dos Estados Unidos conseguiria repor a fronteira mais ou menos no Paralelo 38 como antes da guerra. "Recordo-me da destruição, da pobreza e da festa no dia em que a Cruz Vermelha vinha à escola dar leite. Lembro-me também de brincar num tanque destruído", conta Won, hoje com 68 anos, produtor de compotas de fruta no Caramulo, a terra portuguesa onde se instalou ainda jovem, contratado como sexador.
A conversa decorre no restaurante Montanha, com Won a apreciar um cabrito no forno e a confessar que no início tinha-lhe custado acostumar-se à comida portuguesa. Peço então que me explique o que é um sexador. "É o técnico que faz a separação dos pintos machos dos pintos fêmeas", diz, meio a rir-se, num português em que se percebe tudo apesar de manter um certo sotaque.
Um grande empresário do Caramulo, cuja família estivera ligada aos sanatórios, tinha investido num aviário e descobrira que para potenciar a produção era essencial identificar as galinhas poedeiras o mais cedo possível. Sexadores só havia os japoneses, que tinham criado a técnica, e os coreanos, que tinham aprendido com os japoneses quando estes ocuparam a sua península entre 1910 e 1945. Para o Caramulo acabaram por vir dois sul-coreanos, um deles Won, que chegou em 1972.
O outro sul-coreano um dia foi-se embora, mas Won ficou. E integrou-se bem. Conheceu poucos anos depois Hortense, que era enfermeira em Lisboa e tinha vindo ao Caramulo visitar uma amiga, e hoje têm duas filhas e um filho, além de quatro netas. Conta-me Won, agora já sentados na varanda da sua casa a 840 metros de altitude, que os pais de Hortense estavam emigrados em França e que foi primeiro a um irmão que ela o apresentou. "Ela disse ao irmão que eu era coreano, mas ele pensou na Cúria e que eu era curiano", conta a rir-se. "Depois, ele vê-me e diz "mas ele é chinês" totalmente surpreendido."
De vez em quando vai à Coreia do Sul, dentro de dias receberá a visita de um irmão e uma irmã, e diz-se preocupado sempre com todas estas notícias de tensão entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, por causa das armas nucleares. Orgulha-se da forma como a Coreia do Sul, tão pobre na sua infância, se tornou rica, mas lamenta "a perda de um certo sentido de comunidade". Também é crítico da obsessão das famílias sul-coreanas pela educação, "sempre a pagarem explicações, sempre a quererem escolas privadas caras". E diz que os seus filhos andaram na escola pública em Portugal, primeiro no Caramulo, depois em Tondela e na Universidade de Coimbra, "sempre bons alunos". Filipa, de 40 anos, fez Economia, Sónia, de 38, Matemática de Computação, e Miguel, de 35, estudou Física e é doutorado, explica Won, com evidente orgulho. E se os filhos não falam coreano, uma tradição pelo menos mantiveram, garante Won: "foram criados a comer kimchi", a popular couve branca fermentada.
Quando Won percebeu que a manipulação genética ameaçaria o emprego dos sexadores, criou uma empresa de compotas. "Foi no início dos anos 1980, e comecei com a geleia de milho, baseada numa receita coreana." Hoje, as compotas Won vendem-se em lojas biológicas. "São um produto 100% português", sublinha. E só o Won escrito no frasco de vidro dá uma pista de que por trás daquele doce de framboesa ou ameixa feito no Caramulo está um homem que nasceu a dez mil quilómetros, "entre montanhas parecidas".
Sul-coreano Won Chong-song vive em Portugal desde 1972. Chegou para trabalhar como sexador num aviário, hoje tem uma empresa de compotas de frutas. Casado com uma portuguesa, continua a viver no Caramulo, onde criou três filhos.
Nascido em 1949, Won Chong-song tinha um ano quando começou a Guerra da Coreia. Desses três anos terríveis diz não ter memória, sabendo apenas aquilo que a mãe lhe contou: a fuga da sua Chung Buk natal num comboio para sul assim que se soube da aproximação das tropas norte-coreanas, a paragem súbita da locomotiva porque afinal os invasores comunistas já iam à frente, o leite que secou no peito da mãe e as papas de arroz para alimento, o pai como auxiliar do Exército sul-coreano, que com o apoio dos Estados Unidos conseguiria repor a fronteira mais ou menos no Paralelo 38 como antes da guerra. "Recordo-me da destruição, da pobreza e da festa no dia em que a Cruz Vermelha vinha à escola dar leite. Lembro-me também de brincar num tanque destruído", conta Won, hoje com 68 anos, produtor de compotas de fruta no Caramulo, a terra portuguesa onde se instalou ainda jovem, contratado como sexador.
A conversa decorre no restaurante Montanha, com Won a apreciar um cabrito no forno e a confessar que no início tinha-lhe custado acostumar-se à comida portuguesa. Peço então que me explique o que é um sexador. "É o técnico que faz a separação dos pintos machos dos pintos fêmeas", diz, meio a rir-se, num português em que se percebe tudo apesar de manter um certo sotaque.
Um grande empresário do Caramulo, cuja família estivera ligada aos sanatórios, tinha investido num aviário e descobrira que para potenciar a produção era essencial identificar as galinhas poedeiras o mais cedo possível. Sexadores só havia os japoneses, que tinham criado a técnica, e os coreanos, que tinham aprendido com os japoneses quando estes ocuparam a sua península entre 1910 e 1945. Para o Caramulo acabaram por vir dois sul-coreanos, um deles Won, que chegou em 1972.
O outro sul-coreano um dia foi-se embora, mas Won ficou. E integrou-se bem. Conheceu poucos anos depois Hortense, que era enfermeira em Lisboa e tinha vindo ao Caramulo visitar uma amiga, e hoje têm duas filhas e um filho, além de quatro netas. Conta-me Won, agora já sentados na varanda da sua casa a 840 metros de altitude, que os pais de Hortense estavam emigrados em França e que foi primeiro a um irmão que ela o apresentou. "Ela disse ao irmão que eu era coreano, mas ele pensou na Cúria e que eu era curiano", conta a rir-se. "Depois, ele vê-me e diz "mas ele é chinês" totalmente surpreendido."
De vez em quando vai à Coreia do Sul, dentro de dias receberá a visita de um irmão e uma irmã, e diz-se preocupado sempre com todas estas notícias de tensão entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, por causa das armas nucleares. Orgulha-se da forma como a Coreia do Sul, tão pobre na sua infância, se tornou rica, mas lamenta "a perda de um certo sentido de comunidade". Também é crítico da obsessão das famílias sul-coreanas pela educação, "sempre a pagarem explicações, sempre a quererem escolas privadas caras". E diz que os seus filhos andaram na escola pública em Portugal, primeiro no Caramulo, depois em Tondela e na Universidade de Coimbra, "sempre bons alunos". Filipa, de 40 anos, fez Economia, Sónia, de 38, Matemática de Computação, e Miguel, de 35, estudou Física e é doutorado, explica Won, com evidente orgulho. E se os filhos não falam coreano, uma tradição pelo menos mantiveram, garante Won: "foram criados a comer kimchi", a popular couve branca fermentada.
Quando Won percebeu que a manipulação genética ameaçaria o emprego dos sexadores, criou uma empresa de compotas. "Foi no início dos anos 1980, e comecei com a geleia de milho, baseada numa receita coreana." Hoje, as compotas Won vendem-se em lojas biológicas. "São um produto 100% português", sublinha. E só o Won escrito no frasco de vidro dá uma pista de que por trás daquele doce de framboesa ou ameixa feito no Caramulo está um homem que nasceu a dez mil quilómetros, "entre montanhas parecidas".
Seis ONG pedem a Guterres para agir de imediato face a crise na República Centro Africana
in Diário de Notícias
Seis organizações humanitárias pediram ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para tomar "medidas imediatas" face à crise de segurança e humanitária na República Centro Africana, numa carta aberta à qual a agência France Presse teve hoje acesso. "Pelo menos 821 civis foram mortos desde o início do ano", segundo as seis organizações não governamentais (ONG), que consideram que o conflito atingiu "o mesmo nível" de violência que em dezembro de 2013, no auge dos assassínios em massa entre as milícias Séléka, maioritariamente muçulmanas, e as anti-Balaka, constituídas sobretudo por cristãos. "Naquela altura, as Nações Unidas declararam um nível de urgência 3 (...) Imploramos-vos para que seja prestada a mesma atenção à crise vivida por milhões de pessoas que sofrem neste país", escrevem os signatários, entre os quais a Ação contra a Fome e Première Urgence.
As ONG consideram que o mandato da missão das Nações Unidas no país "para proteger os civis, não está a ser cumprido devido à falta de recursos humanos e financeiros".
Assim, pedem a Guterres para permitir que a MINUSCA (com cerca de 12.500 homens) tenha os meios de que necessita e apoie "os cidadãos da República Centro Africana e os seus representantes na aplicação da resolução política do conflito". A carta foi enviada ao chefe das operações de manutenção da paz das Nações Unidas, Jean-Pierre Lacroix, e ao responsável dos Assuntos Humanitários da ONU, Stephen O'Brien. Elas próprias vítimas da violência, as ONG lamentam o subfinanciamento da ajuda humanitária, da qual depende metade dos 4,5 milhões de habitantes da República Centro Africana.
Seis organizações humanitárias pediram ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para tomar "medidas imediatas" face à crise de segurança e humanitária na República Centro Africana, numa carta aberta à qual a agência France Presse teve hoje acesso. "Pelo menos 821 civis foram mortos desde o início do ano", segundo as seis organizações não governamentais (ONG), que consideram que o conflito atingiu "o mesmo nível" de violência que em dezembro de 2013, no auge dos assassínios em massa entre as milícias Séléka, maioritariamente muçulmanas, e as anti-Balaka, constituídas sobretudo por cristãos. "Naquela altura, as Nações Unidas declararam um nível de urgência 3 (...) Imploramos-vos para que seja prestada a mesma atenção à crise vivida por milhões de pessoas que sofrem neste país", escrevem os signatários, entre os quais a Ação contra a Fome e Première Urgence.
As ONG consideram que o mandato da missão das Nações Unidas no país "para proteger os civis, não está a ser cumprido devido à falta de recursos humanos e financeiros".
Assim, pedem a Guterres para permitir que a MINUSCA (com cerca de 12.500 homens) tenha os meios de que necessita e apoie "os cidadãos da República Centro Africana e os seus representantes na aplicação da resolução política do conflito". A carta foi enviada ao chefe das operações de manutenção da paz das Nações Unidas, Jean-Pierre Lacroix, e ao responsável dos Assuntos Humanitários da ONU, Stephen O'Brien. Elas próprias vítimas da violência, as ONG lamentam o subfinanciamento da ajuda humanitária, da qual depende metade dos 4,5 milhões de habitantes da República Centro Africana.
Ex-menino soldado trocou armas pela capoeira na RD Congo
in Diário de Notícias
A capoeira é a forma de jovens congoleses fugirem à violência não através da luta mas através dos valores da arte marcial afro-brasileira.
"A capoeira me faz esquecer do que passei no grupo armado", disse o adolescente de 16 anos, um ex-menino soldado de uma pequena vila em Bashali ao norte na província de Kivu do Norte, área conflagrada por grupos armados.
Há três meses, desde que chegou ao centro de transição para ex-meninos soldado na cidade de Goma, F. R. aprendeu a praticar a arte marcial de origem afro-brasileira. Desde então, esta é uma das atividades em que o rapaz é mais assíduo.
As aulas de capoeira acontecem duas vezes por semana no centro de ação para crianças desfavorecidas (CAJED, por sua sigla em francês), no subúrbio de Goma.
Em 2014, a capoeira foi reconhecida pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A partir deste mesmo ano, esta manifestação cultural brasileira de descendentes de africanos escravizados no período colonial tem sido utilizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na República Democrática (RD) do Congo como uma estratégia para ajudar a crianças vítimas de violência.
"A capoeira faz com que eu me sinta capaz de poder fazer alguma coisa. Esqueço de todo o passado. Aqui vejo que a vida é melhor porque não sofremos mais, dormimos e alimentamo-nos bem. Não somos obrigados a nada", comentou F. R. que esteve na escola primária apenas três anos.
As suas memórias recentes são mais duras. Foi raptado e lutou por um grupo de milicianos de origem hutu congolesa.
Os dados são escassos. Estima-se que existam entre 20 a 30 mil soldados dos grupos ativos de milícias de autodefesa em Kivu do Sul e do Norte, segundo dados das Nações Unidas em 2011.
Junto com outros meninos, F. R. conseguiu escapar. "Para chegar aqui foi muito difícil. Tive que mostrar evidências que eu fazia parte de um grupo armado, então levei comigo algumas cápsulas de balas", contou.
No início do ano, o rapaz apresentou-se numa das bases da Missão de Paz da ONU em RD Congo (MONUSCO) na cidade de Kitchanga, uma localidade remota a 70 quilómetros de Goma. Depois de ter passado pelo programa de desmobilização, desarmamento e reintegração da ONU, ficou sob os cuidados da UNICEF e de ONG locais por ser menor de 18 anos.
"Fiz vários amigos quando comecei a jogar capoeira. Nós nos juntamos, mesmo tendo lutado em grupos rivais", disse.
Segundo Marie Diop, especialista em proteção à criança da UNICEF em Goma, a capoeira foi incluída como ferramenta de trabalho psicossocial com crianças nos centros de acolhimento.
"Começou como um projeto piloto, pois queríamos ver se teria aceitação por parte das crianças. Discutimos se a capoeira poderia ser utilizada para a paz e ser integrada no programa infantil", disse Diop.
Sob o nome de "Capoeira pela Paz", a iniciativa foi impulsionada pelo governo brasileiro com fundos do Canadá e da ONG AMADE-Mondiale e já beneficiou cerca de quatro mil crianças em Kivu do Norte.
"Vimos que a capoeira tem ajudado a afastar o estigma das crianças que estiveram associadas a grupos armados. Tentamos entender a história e o contexto dessas crianças para transferi-las a famílias de acolhimento e a centros de transição antes que possam ser reintegrados de vez às suas famílias e às suas comunidades de origem", explicou.
A capoeira é a forma de jovens congoleses fugirem à violência não através da luta mas através dos valores da arte marcial afro-brasileira.
"A capoeira me faz esquecer do que passei no grupo armado", disse o adolescente de 16 anos, um ex-menino soldado de uma pequena vila em Bashali ao norte na província de Kivu do Norte, área conflagrada por grupos armados.
Há três meses, desde que chegou ao centro de transição para ex-meninos soldado na cidade de Goma, F. R. aprendeu a praticar a arte marcial de origem afro-brasileira. Desde então, esta é uma das atividades em que o rapaz é mais assíduo.
As aulas de capoeira acontecem duas vezes por semana no centro de ação para crianças desfavorecidas (CAJED, por sua sigla em francês), no subúrbio de Goma.
Em 2014, a capoeira foi reconhecida pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A partir deste mesmo ano, esta manifestação cultural brasileira de descendentes de africanos escravizados no período colonial tem sido utilizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na República Democrática (RD) do Congo como uma estratégia para ajudar a crianças vítimas de violência.
"A capoeira faz com que eu me sinta capaz de poder fazer alguma coisa. Esqueço de todo o passado. Aqui vejo que a vida é melhor porque não sofremos mais, dormimos e alimentamo-nos bem. Não somos obrigados a nada", comentou F. R. que esteve na escola primária apenas três anos.
As suas memórias recentes são mais duras. Foi raptado e lutou por um grupo de milicianos de origem hutu congolesa.
Os dados são escassos. Estima-se que existam entre 20 a 30 mil soldados dos grupos ativos de milícias de autodefesa em Kivu do Sul e do Norte, segundo dados das Nações Unidas em 2011.
Junto com outros meninos, F. R. conseguiu escapar. "Para chegar aqui foi muito difícil. Tive que mostrar evidências que eu fazia parte de um grupo armado, então levei comigo algumas cápsulas de balas", contou.
No início do ano, o rapaz apresentou-se numa das bases da Missão de Paz da ONU em RD Congo (MONUSCO) na cidade de Kitchanga, uma localidade remota a 70 quilómetros de Goma. Depois de ter passado pelo programa de desmobilização, desarmamento e reintegração da ONU, ficou sob os cuidados da UNICEF e de ONG locais por ser menor de 18 anos.
"Fiz vários amigos quando comecei a jogar capoeira. Nós nos juntamos, mesmo tendo lutado em grupos rivais", disse.
Segundo Marie Diop, especialista em proteção à criança da UNICEF em Goma, a capoeira foi incluída como ferramenta de trabalho psicossocial com crianças nos centros de acolhimento.
"Começou como um projeto piloto, pois queríamos ver se teria aceitação por parte das crianças. Discutimos se a capoeira poderia ser utilizada para a paz e ser integrada no programa infantil", disse Diop.
Sob o nome de "Capoeira pela Paz", a iniciativa foi impulsionada pelo governo brasileiro com fundos do Canadá e da ONG AMADE-Mondiale e já beneficiou cerca de quatro mil crianças em Kivu do Norte.
"Vimos que a capoeira tem ajudado a afastar o estigma das crianças que estiveram associadas a grupos armados. Tentamos entender a história e o contexto dessas crianças para transferi-las a famílias de acolhimento e a centros de transição antes que possam ser reintegrados de vez às suas famílias e às suas comunidades de origem", explicou.
12.7.17
Gaia. Violência, guerra e fome numa bienal de arte e "de causas"
in RR
A 2ª Bienal Internacional de Gaia, que é inaugruada no sábado, no espaço do Centro Empresarial Fercopor, anuncia-se como uma "bienal de causas".
A iniciativa, que conta com 31 exposições e mais de 1.500 obras de artistas, lança aos 500 autores participantes o desafio de abordarem temas que inquietem e provoquem a sociedade, diz à Renascença um dos organizadores, Agostinho Santos.
"Queremos que esta seja uma bienal de causas, que provoque. Uma bienal que se preocupa com os outros, que está inquieta. Lançámos o desafio aos artistas de 11 países de abordarem questões que nos preocupam todos os dias: a violência, a guerra, a fome, a questão dos refugiados, os atentados terroristas, os sem-abrigo."
O coração da bienal está situado na antiga fábrica de linhas "Coats & Clark", o actual Centro Empresarial Fercopor. O pavilhão, com mais de sei mil metros quadrados recebe 18 exposições, mas a arte vai chegar a outros espaços da cidade - Biblioteca Municipal, Convento Corpus Christi e Mosteiro de Grijó - e da região norte, com exposições em Barcelos, Porto, Gondomar, Cerveira, Viana do Castelo, Monção, Figueira da Foz e Seia.
"Uma das vertentes da nossa bienal é levar a arte ao encontro das pessoas. Não nos vamos limitar apenas ao nosso município. Temos, por exemplo, um acordo com a bienal mais antiga do país, que é a de Vila Nova de Cerveira. Vamos ter uma exposição da Bienal de Gaia - a mais jovem do país - integrada na Bienal de Cerveira e vice-versa. Este tipo de parcerias entre bienais não é muito comum, mas nós queremos lançar este repto", diz Agostinho Santos.
Prémios, homenagens e medalhas
Na sessão de abertura da Bienal, a pintora Graça Morais vai receber a Medalha de Mérito Cultural e Científico, Grau Ouro, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e expor pela primeira vez no município. O Centro Empresarial Fercopor vai receber uma mostra de 42 obras da colecção privada da artista.
"É uma honra. A Graça Morais é uma das maiores artistas contemporâneas. Temos todo o respeito e admiração por ela e vamos ter a sorte de organizar uma exposição antológica onde o público vai perceber o percurso fantástico da nossa artista. É a primeira vez que a Graça Morais expõe em Vila Nova de Gaia, no terceiro maior concelho do país", diz Agostinho Santos.
Os artistas vencedores dos três prémios da Bienal foram escolhidos entre 292 inscritos, 130 pré-selecionados e 88 selecionados e vão receber um prémio monetário no valor de cinco mil euros.
Marta Soutinho Alves venceu o Grande Prémio da Bienal atribuído pela Câmara Municipal de Gaia. João Macedo conquistou o Prémio de Escultura Zulmiro de Carvalho atribuído pela Câmara Municipal de Gondomar e Mariana Poppovic arrecadou o Prémio Águas de Gaia.
O evento vai ainda homenagear o artista Guilherme Camarinha com uma exposição com as obras do pintor, falecido em 1994, na Fundação Escultor José Santos, no Porto.
Expectativas ultrapassadas
O evento ainda não arrancou, mas a organização garante que as expectativas já foram largamente ultrapassadas e a curiosidade do público é notória.
“Estamos muito confiantes, porque a informação que tem chegado do público é muito interessante. As pessoas contactam-nos por e-mail, por carta, por facebook a perguntar informações. Estamos agora na fase final da montagem e já têm vindo cá várias pessoas espreitar. Quer a nível de artistas quer a nível de exposições, quer a nível de obras expostas ultrapassámos todas as nossas expectativas”, refere.
Agostinho Santos garante que a população de Gaia tem vindo a despertar para a arte, mas reafirma que a Bienal não tem barreiras e vai para lá do município: “O público de Vila Nova de Gaia e da Área Metropolitana do Porto e até da região norte começa a estar entusiasmado, porque uma das características desta bienal é a pretender ser uma bienal da Área Metropolitana do Porto e do norte do país."
A 2ª Bienal Internacional de Gaia, que é inaugruada no sábado, no espaço do Centro Empresarial Fercopor, anuncia-se como uma "bienal de causas".
A iniciativa, que conta com 31 exposições e mais de 1.500 obras de artistas, lança aos 500 autores participantes o desafio de abordarem temas que inquietem e provoquem a sociedade, diz à Renascença um dos organizadores, Agostinho Santos.
"Queremos que esta seja uma bienal de causas, que provoque. Uma bienal que se preocupa com os outros, que está inquieta. Lançámos o desafio aos artistas de 11 países de abordarem questões que nos preocupam todos os dias: a violência, a guerra, a fome, a questão dos refugiados, os atentados terroristas, os sem-abrigo."
O coração da bienal está situado na antiga fábrica de linhas "Coats & Clark", o actual Centro Empresarial Fercopor. O pavilhão, com mais de sei mil metros quadrados recebe 18 exposições, mas a arte vai chegar a outros espaços da cidade - Biblioteca Municipal, Convento Corpus Christi e Mosteiro de Grijó - e da região norte, com exposições em Barcelos, Porto, Gondomar, Cerveira, Viana do Castelo, Monção, Figueira da Foz e Seia.
"Uma das vertentes da nossa bienal é levar a arte ao encontro das pessoas. Não nos vamos limitar apenas ao nosso município. Temos, por exemplo, um acordo com a bienal mais antiga do país, que é a de Vila Nova de Cerveira. Vamos ter uma exposição da Bienal de Gaia - a mais jovem do país - integrada na Bienal de Cerveira e vice-versa. Este tipo de parcerias entre bienais não é muito comum, mas nós queremos lançar este repto", diz Agostinho Santos.
Prémios, homenagens e medalhas
Na sessão de abertura da Bienal, a pintora Graça Morais vai receber a Medalha de Mérito Cultural e Científico, Grau Ouro, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e expor pela primeira vez no município. O Centro Empresarial Fercopor vai receber uma mostra de 42 obras da colecção privada da artista.
"É uma honra. A Graça Morais é uma das maiores artistas contemporâneas. Temos todo o respeito e admiração por ela e vamos ter a sorte de organizar uma exposição antológica onde o público vai perceber o percurso fantástico da nossa artista. É a primeira vez que a Graça Morais expõe em Vila Nova de Gaia, no terceiro maior concelho do país", diz Agostinho Santos.
Os artistas vencedores dos três prémios da Bienal foram escolhidos entre 292 inscritos, 130 pré-selecionados e 88 selecionados e vão receber um prémio monetário no valor de cinco mil euros.
Marta Soutinho Alves venceu o Grande Prémio da Bienal atribuído pela Câmara Municipal de Gaia. João Macedo conquistou o Prémio de Escultura Zulmiro de Carvalho atribuído pela Câmara Municipal de Gondomar e Mariana Poppovic arrecadou o Prémio Águas de Gaia.
O evento vai ainda homenagear o artista Guilherme Camarinha com uma exposição com as obras do pintor, falecido em 1994, na Fundação Escultor José Santos, no Porto.
Expectativas ultrapassadas
O evento ainda não arrancou, mas a organização garante que as expectativas já foram largamente ultrapassadas e a curiosidade do público é notória.
“Estamos muito confiantes, porque a informação que tem chegado do público é muito interessante. As pessoas contactam-nos por e-mail, por carta, por facebook a perguntar informações. Estamos agora na fase final da montagem e já têm vindo cá várias pessoas espreitar. Quer a nível de artistas quer a nível de exposições, quer a nível de obras expostas ultrapassámos todas as nossas expectativas”, refere.
Agostinho Santos garante que a população de Gaia tem vindo a despertar para a arte, mas reafirma que a Bienal não tem barreiras e vai para lá do município: “O público de Vila Nova de Gaia e da Área Metropolitana do Porto e até da região norte começa a estar entusiasmado, porque uma das características desta bienal é a pretender ser uma bienal da Área Metropolitana do Porto e do norte do país."
29.6.17
Seis milhões de sul-sudaneses passam fome extrema, alertam agências da ONU
in ONUBR
O Sudão do Sul enfrenta a maior crise de segurança alimentar de sua história, segundo as Nações Unidas. De fevereiro para cá, o número de pessoas que lutam para encontrar comida no país aumentou de 4,9 milhões para 6 milhões.
O Sudão do Sul enfrenta a maior crise de segurança alimentar de sua história, segundo as Nações Unidas. De fevereiro para cá, o número de pessoas que lutam para encontrar comida no país aumentou de 4,9 milhões para 6 milhões.
“O crescimento da insegurança alimentar foi impulsionado por conflitos armados, baixas colheitas e aumento dos preços dos alimentos, bem como os efeitos da estação anual da seca”, afirmaram três agências da ONU – a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) – em uma declaração conjunta na semana passada (21).
De acordo com a atualização do Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC) – uma análise da ONU, do governo e de outros parceiros – nos condados de Leer e Mayandit, no estado de Unity, já não se aplicam mais a definição técnica de fome, que tinha sido declarada em fevereiro deste ano.
É provável que a assistência humanitária imediata e contínua tenha desempenhado um papel importante para prevenir que os condados de Koch e Panyijiar chegassem a níveis mais alarmantes.
Entretanto, a fome se agravou na região nordeste do país – na margem ocidental do rio Nilo – enquanto as populações no sudoeste enfrentam níveis de necessidade sem precedentes.
“A única maneira de acabar com essa situação desesperadora é cessar o conflito, garantir acesso sem obstáculos e permitir que as pessoas retomem seus meios de subsistência”, disse o diretor de emergências da FAO, Dominique Burgeon.
As três agências da ONU advertiram que as melhorias nos locais onde há maior fome não devem ser perdidas. A capacidade das pessoas de se alimentar foi severamente reduzida e a entrega de alimentos de emergência, bem como o apoio aos meios de subsistência, devem continuar para evitar que o cenário se agrave.
“As conquistas nos condados afetados pela fome mostram o que pode ser alcançado quando a assistência contínua chega às famílias. Mas o trabalho está longe de terminar”, disse a representante do PMA no Sudão do Sul, Joyce Luma. “Essa é uma crise que continua a piorar, com milhões de pessoas enfrentando a perspectiva de fome se a ajuda humanitária acabar. O fim deste conflito é imperativo.”
Cada uma das agências intensificou sua resposta. O PMA alcançou 3,4 milhões de pessoas no Sudão do Sul desde o início do ano, incluindo assistência para 2,6 milhões em deslocamento ou ou afetadas por conflitos.
O UNICEF e seus parceiros trataram cerca de 76 mil crianças em estado grave de desnutrição e forneceram água potável a 500 mil pessoas e acesso a instalações sanitárias a outras 200 mil.
Já a FAO forneceu kits de pesca e agricultura a mais de 2,8 milhões de sul-sudaneses, incluindo 200 mil nas áreas mais afetadas pela fome, e vacinou mais de 6 milhões de animais.
“Quando as agências humanitárias têm acesso e recursos, somos capazes de promover uma resposta rápida e forte para salvar vidas”, disse Mahimbo Mdoe, representante do UNICEF no Sudão do Sul. “No entanto, estima-se ainda que mais de um milhão de crianças no Sudão do Sul estão desnutridas”, alertou.
A insegurança alimentar é uma questão fundamental, assim como a falta de cuidados de saúde, falta de água e saneamento e, sobretudo, o acesso a tratamento. Atualmente, várias partes do país permanecem sem ajuda, deixando milhares de crianças à beira de uma catástrofe.
O Sudão do Sul enfrenta a maior crise de segurança alimentar de sua história, segundo as Nações Unidas. De fevereiro para cá, o número de pessoas que lutam para encontrar comida no país aumentou de 4,9 milhões para 6 milhões.
O Sudão do Sul enfrenta a maior crise de segurança alimentar de sua história, segundo as Nações Unidas. De fevereiro para cá, o número de pessoas que lutam para encontrar comida no país aumentou de 4,9 milhões para 6 milhões.
“O crescimento da insegurança alimentar foi impulsionado por conflitos armados, baixas colheitas e aumento dos preços dos alimentos, bem como os efeitos da estação anual da seca”, afirmaram três agências da ONU – a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) – em uma declaração conjunta na semana passada (21).
De acordo com a atualização do Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC) – uma análise da ONU, do governo e de outros parceiros – nos condados de Leer e Mayandit, no estado de Unity, já não se aplicam mais a definição técnica de fome, que tinha sido declarada em fevereiro deste ano.
É provável que a assistência humanitária imediata e contínua tenha desempenhado um papel importante para prevenir que os condados de Koch e Panyijiar chegassem a níveis mais alarmantes.
Entretanto, a fome se agravou na região nordeste do país – na margem ocidental do rio Nilo – enquanto as populações no sudoeste enfrentam níveis de necessidade sem precedentes.
“A única maneira de acabar com essa situação desesperadora é cessar o conflito, garantir acesso sem obstáculos e permitir que as pessoas retomem seus meios de subsistência”, disse o diretor de emergências da FAO, Dominique Burgeon.
As três agências da ONU advertiram que as melhorias nos locais onde há maior fome não devem ser perdidas. A capacidade das pessoas de se alimentar foi severamente reduzida e a entrega de alimentos de emergência, bem como o apoio aos meios de subsistência, devem continuar para evitar que o cenário se agrave.
“As conquistas nos condados afetados pela fome mostram o que pode ser alcançado quando a assistência contínua chega às famílias. Mas o trabalho está longe de terminar”, disse a representante do PMA no Sudão do Sul, Joyce Luma. “Essa é uma crise que continua a piorar, com milhões de pessoas enfrentando a perspectiva de fome se a ajuda humanitária acabar. O fim deste conflito é imperativo.”
Cada uma das agências intensificou sua resposta. O PMA alcançou 3,4 milhões de pessoas no Sudão do Sul desde o início do ano, incluindo assistência para 2,6 milhões em deslocamento ou ou afetadas por conflitos.
O UNICEF e seus parceiros trataram cerca de 76 mil crianças em estado grave de desnutrição e forneceram água potável a 500 mil pessoas e acesso a instalações sanitárias a outras 200 mil.
Já a FAO forneceu kits de pesca e agricultura a mais de 2,8 milhões de sul-sudaneses, incluindo 200 mil nas áreas mais afetadas pela fome, e vacinou mais de 6 milhões de animais.
“Quando as agências humanitárias têm acesso e recursos, somos capazes de promover uma resposta rápida e forte para salvar vidas”, disse Mahimbo Mdoe, representante do UNICEF no Sudão do Sul. “No entanto, estima-se ainda que mais de um milhão de crianças no Sudão do Sul estão desnutridas”, alertou.
A insegurança alimentar é uma questão fundamental, assim como a falta de cuidados de saúde, falta de água e saneamento e, sobretudo, o acesso a tratamento. Atualmente, várias partes do país permanecem sem ajuda, deixando milhares de crianças à beira de uma catástrofe.
30.3.17
"Nada nesta marcha se compara às dificuldades que os refugiados têm"
Entrevista de Barbara Baldaia a Sebastian Olényi, da Marcha Civil por Aleppo, in TSF
A Marcha por Aleppo saiu há dias de Sarajevo, está agora na Bósnia e depois segue para a Macedónia e para a Grécia, antes de chegar ao destino, lá para o final de setembro.
Já fizeram 1200 quilómetros. Têm pela frente mais 2500. O grupo que está a fazer esta ligação a partir de Berlim desde 26 de dezembro conta com cerca de 30 pessoas, de várias nacionalidades, num cordão que vai sendo engrossado nos momentos de passagem pelas grandes cidades.
Sebastian Olényi é o responsável pelas relações com a imprensa da Marcha Civil por Aleppo. Ao telefone, ele explicou à TSF que o objetivo é trilhar o mesmo percurso que é feito pelos refugiados, mas em sentido contrário.
Como tem corrido esta Marcha que iniciaram em dezembro?
Estamos a fazer o percurso dos refugiados no sentido contrário e estamos a encontrar muitos campos de refugiados ao longo do caminho.
Temos essa semelhança com os refugiados, mas por outro lado não passamos pelo mesmo sofrimento que eles. Não queremos sequer comparar isso.
Não fomos até agora barrados por cercas, temos passaportes europeus, temos bons sapatos, sítios onde pernoitar, normalmente em gimnodesportivos ou igrejas. Muito raramente tivemos que dormir ao ar livre. Temos tido muita sorte. Já enfrentámos nevões e alguns problemas. Algumas pessoas tentaram tornar a nossa viagem desconfortável, mas não creio que nada se compare às dificuldades que os refugiados têm que ultrapassar para chegar à Europa.
Disse que há pessoas que tentaram tornar a vossa viagem desconfortável?
Sim, tivemos alguns problemas ao longo do caminho. Pessoas que não aparentemente não concordam com a ideia de haver paz na Síria, pessoas que querem forçar as suas ideias, que querem que nós fiquemos com a ideia de que alguns grupos rebeldes são melhores que outros. Outras pessoas que nos perguntam porque é que nos incomodamos por causa de outras pessoas que nem sequer são do mesmo país que nós, que dizem que isto é uma ideia louca.
Algumas pessoas tentaram assustar-nos, a dizer que iam pegar fogo ao sítio onde estávamos a dormir, ao nosso carro. Há uns dias, assaltaram-nos o carro, roubaram equipamentos.
Enfim, não houve um grande problema, mas tem havido percalços pelo caminho, com comportamentos hostis. As pessoas organizam contra-manifestações, cospem para o chão.
Mas, na verdade, a maioria das pessoas recebe-nos com grande hospitalidade, abrem os corações e as portas de casa para nós, preparam-nos chá, fazem-nos bolachas, convidam-nos para jantar.
Tem havido uma enorme hospitalidade. Por vezes, não estamos seguros se teríamos recebido a mesma hospitalidade se fossemos refugiados, se não fossemos ocidentais, por assim dizer. Mas na maior parte dos casos, fomos recebidos com grande hospitalidade.
E essas pessoas dão-vos força para continuar?
Sim, claro. Por um lado, estamos a alertar consciências para o problema dos refugiados. Já conseguimos pôr em contacto alguns refugiados com a população local. Já conseguimos juntar algum dinheiro para outras organizações que estão a atuar no terreno com refugiados. Já conseguimos doar 5 mil euros a uma organização que estava a prestar apoio no pico do inverno, na Sérvia.
No início de fevereiro, houve temperaturas negativas e estas ONG's estiveram no terreno a dar comida quente e chocolate aos refugiados que, de outra forma, teriam morrido. Nós já conseguimos ter algum impacto e estamos a lutar para continuar a fazê-lo, a alertar consciências para a situação na Síria e para os sírios que estão nestas cidades por onde temos passado.
Ainda continua a decorrer a vossa campanha de crowdfunding?
Sim. Para ser honesto, já não precisamos para a marcha. Agora estamos a juntar dinheiro para dar a organizações que têm apoiado os refugiados nos campos que temos encontrado ao longo do caminho. O nosso objetivo continua a ser alertar consciências para a situação na Síria e, se conseguirmos ajudar os refugiados ao longo do caminho, melhor ainda.
O que respondem às pessoas que vos dizem que estão a fazer algo que é muito perigoso?
Bem... pensamos que é mais estúpido não fazermos nada. Os líderes europeus não estão a fazer o suficiente pela paz na Síria, não estão a esforçar-se devidamente para negociar com as diferentes partes.
Este é um conflito internacional que já dura há muito tempo, com muitas partes no terreno, e tem que ser resolvido a um nível internacional.
A UE não está a fazer o suficiente. Nós tentamos forçar os políticos a terem uma posição mais forte nas negociações de paz para a Síria.
O que é o perigo, no fundo, comparando com o perigo que estas pessoas passam nos campos de refugiados e até mesmo na Síria? Isto que estamos a fazer é muito fácil comparado com isso.
Claro que há algumas dificuldades. E queremos que se junte cada vez mais gente à nossa marcha. Podem entrar e sair. Nas grandes cidades, temos sempre mais gente.
Queremos alertar consciências por toda a Europa e nas cidades por onde temos passado. Temos encontrado muita gente e queremos que se juntem cada vez mais pessoas a nós.
A Marcha por Aleppo saiu há dias de Sarajevo, está agora na Bósnia e depois segue para a Macedónia e para a Grécia, antes de chegar ao destino, lá para o final de setembro.
Já fizeram 1200 quilómetros. Têm pela frente mais 2500. O grupo que está a fazer esta ligação a partir de Berlim desde 26 de dezembro conta com cerca de 30 pessoas, de várias nacionalidades, num cordão que vai sendo engrossado nos momentos de passagem pelas grandes cidades.
Sebastian Olényi é o responsável pelas relações com a imprensa da Marcha Civil por Aleppo. Ao telefone, ele explicou à TSF que o objetivo é trilhar o mesmo percurso que é feito pelos refugiados, mas em sentido contrário.
Como tem corrido esta Marcha que iniciaram em dezembro?
Estamos a fazer o percurso dos refugiados no sentido contrário e estamos a encontrar muitos campos de refugiados ao longo do caminho.
Temos essa semelhança com os refugiados, mas por outro lado não passamos pelo mesmo sofrimento que eles. Não queremos sequer comparar isso.
Não fomos até agora barrados por cercas, temos passaportes europeus, temos bons sapatos, sítios onde pernoitar, normalmente em gimnodesportivos ou igrejas. Muito raramente tivemos que dormir ao ar livre. Temos tido muita sorte. Já enfrentámos nevões e alguns problemas. Algumas pessoas tentaram tornar a nossa viagem desconfortável, mas não creio que nada se compare às dificuldades que os refugiados têm que ultrapassar para chegar à Europa.
Disse que há pessoas que tentaram tornar a vossa viagem desconfortável?
Sim, tivemos alguns problemas ao longo do caminho. Pessoas que não aparentemente não concordam com a ideia de haver paz na Síria, pessoas que querem forçar as suas ideias, que querem que nós fiquemos com a ideia de que alguns grupos rebeldes são melhores que outros. Outras pessoas que nos perguntam porque é que nos incomodamos por causa de outras pessoas que nem sequer são do mesmo país que nós, que dizem que isto é uma ideia louca.
Algumas pessoas tentaram assustar-nos, a dizer que iam pegar fogo ao sítio onde estávamos a dormir, ao nosso carro. Há uns dias, assaltaram-nos o carro, roubaram equipamentos.
Enfim, não houve um grande problema, mas tem havido percalços pelo caminho, com comportamentos hostis. As pessoas organizam contra-manifestações, cospem para o chão.
Mas, na verdade, a maioria das pessoas recebe-nos com grande hospitalidade, abrem os corações e as portas de casa para nós, preparam-nos chá, fazem-nos bolachas, convidam-nos para jantar.
Tem havido uma enorme hospitalidade. Por vezes, não estamos seguros se teríamos recebido a mesma hospitalidade se fossemos refugiados, se não fossemos ocidentais, por assim dizer. Mas na maior parte dos casos, fomos recebidos com grande hospitalidade.
E essas pessoas dão-vos força para continuar?
Sim, claro. Por um lado, estamos a alertar consciências para o problema dos refugiados. Já conseguimos pôr em contacto alguns refugiados com a população local. Já conseguimos juntar algum dinheiro para outras organizações que estão a atuar no terreno com refugiados. Já conseguimos doar 5 mil euros a uma organização que estava a prestar apoio no pico do inverno, na Sérvia.
No início de fevereiro, houve temperaturas negativas e estas ONG's estiveram no terreno a dar comida quente e chocolate aos refugiados que, de outra forma, teriam morrido. Nós já conseguimos ter algum impacto e estamos a lutar para continuar a fazê-lo, a alertar consciências para a situação na Síria e para os sírios que estão nestas cidades por onde temos passado.
Ainda continua a decorrer a vossa campanha de crowdfunding?
Sim. Para ser honesto, já não precisamos para a marcha. Agora estamos a juntar dinheiro para dar a organizações que têm apoiado os refugiados nos campos que temos encontrado ao longo do caminho. O nosso objetivo continua a ser alertar consciências para a situação na Síria e, se conseguirmos ajudar os refugiados ao longo do caminho, melhor ainda.
O que respondem às pessoas que vos dizem que estão a fazer algo que é muito perigoso?
Bem... pensamos que é mais estúpido não fazermos nada. Os líderes europeus não estão a fazer o suficiente pela paz na Síria, não estão a esforçar-se devidamente para negociar com as diferentes partes.
Este é um conflito internacional que já dura há muito tempo, com muitas partes no terreno, e tem que ser resolvido a um nível internacional.
A UE não está a fazer o suficiente. Nós tentamos forçar os políticos a terem uma posição mais forte nas negociações de paz para a Síria.
O que é o perigo, no fundo, comparando com o perigo que estas pessoas passam nos campos de refugiados e até mesmo na Síria? Isto que estamos a fazer é muito fácil comparado com isso.
Claro que há algumas dificuldades. E queremos que se junte cada vez mais gente à nossa marcha. Podem entrar e sair. Nas grandes cidades, temos sempre mais gente.
Queremos alertar consciências por toda a Europa e nas cidades por onde temos passado. Temos encontrado muita gente e queremos que se juntem cada vez mais pessoas a nós.
Mulheres que fogem do seu país com um filho no ventre
in Público on-line
"Ninguém quer deixar a sua casa", disse Sanwara Begum, uma mulher de 20 anos, com a filha de 25 dias nos braços. "Viemos para o Bangladesh apenas para salvar as nossas vidas. A Birmânia é a nossa casa e assim que as coisas estiverem mais calmas vamos voltar"
Na Birmânia, são milhares os membros da minoria étnica rohingya que para fugir à insegurança e pobreza que dominam o seu quotidiano fazem travessias perigosas a pé e de barco para chegar à fronteira com o Bangladesh. Há três meses, a aldeia onde Rehana Begum vivia foi atacada de surpresa. A mulher de 25 anos estava em casa quando começou a ouvir tiros. “Caminhámos durante quatro horas sem comida nem água para chegar à fronteira", contou Rehana à agência Reuters. "Os guardas da fronteira do Bangladesh queriam mandar-nos de volta, mas depois ouvimos tiros do lado da Birmânia e eles libertaram-nos. Disseram-nos: 'fiquem no Bangladesh e salvem as vossas vidas'". Passados poucos meses, Rehana deu à luz uma menina no campo de refugiados em Cox's Bazar, no Bangladesh. Mas não foi a única.
Membros de uma minoria muçulmana num país de maioria budista, os rohingya são uma das etnias mais perseguidas no planeta. Em Outubro do ano passado, as forças armadas da Birmânia iniciaram uma "operação de limpeza" após vários rebeldes rohingya terem atacado militares na cidade de Rakhine. De acordo com as Nações Unidas, foram cometidos assassinatos em massa, violações e aldeias foram incendiadas – tudo fruto de uma campanha extremista que viola os direitos humanos. "Os militares capturaram o meu marido e incendiaram a nossa casa", explicou Ramida Begum, uma mulher de 35 anos, com a filha de 10 dias de vida ao colo. "Desde então, não sei se ele está vivo ou morto".
São várias as mulheres que chegam da Birmânia grávidas e encontram no acampamento improvisado um lar para a sua família, embora provisório. "Ninguém quer deixar a sua casa", disse Sanwara Begum, uma mulher de 20 anos, dentro de uma tenda com a filha de 25 dias nos braços. "Viemos para o Bangladesh apenas para salvar as nossas vidas. A Birmânia é a nossa casa e assim que as coisas estiverem mais calmas vamos voltar". Estas mulheres vivem amontoadas no campo de refugiados e dependem de rações alimentares e do apoio dos outros refugiados. Contudo, apesar de carregarem histórias de terror e morte, trazem algo mais consigo: a esperança trazida por um recém-nascido.
Mas a vida no campo não é fácil, muito menos para seres humanos tão frágeis. Debaixo de um sol escaldante, em abrigos feitos de varas de bambu e folhas de plástico preto, as mães enfrentam um grande desafio em manter os seus recém-nascidos vivos. Muitas vezes, os acampamentos não dispõem de instalações médicas nem de água corrente, sendo os surtos de doenças transmitidas pela água, como a cólera, uma preocupação constante. Muitas mulheres, ao terem perdido familiares do sexo masculino, lutam para conseguir sobreviver e sustentar a família. Alinhadas ao longo da estrada, pedem dinheiro aos carros que passam, nas horas de menos calor. Segundo um funcionário da Federação Internacional da Cruz Vermelha em Bangladesh Azmat Ulla, a maioria dos refugiados não recebe comida suficiente e não tem acesso a serviços de saúde regulares. As clínicas administradas por órgãos não governamentais e pelas Nações Unidas estão sobrelotadas e com dificuldades em tratar os milhares de pacientes que recebem por mês.
"O meu filho não bebe leite materno suficiente, porque também não como alimentos nutritivos suficientes", disse Minara Begum, com 22 anos, mãe de um menino de um mês de idade. "Tenho de comprar leite em pó no mercado local, embora não seja muito bom para ele". Minara Begum é um dos cerca de 75 mil refugiados que conseguiram atravessar os campos com percursos perigosos para chegar ao Bangladesh. Nessa travessia, há quem passe fome durante semanas ou dê tudo aquilo que possui como forma de pagamento aos contrabandistas. Mas, para muitos, essa viagem não chega ao fim: afogam-se no mar ou são mortos pelas forças de segurança da Birmânia durante a travessia.
Os militares da Birmânia assumem a repressão contra a minoria muçulmana como uma operação legal para defender o país e negam as acusações de que são alvo. A Birmânia iniciou várias investigações sobre o alegado abuso, mas segundo responsáveis dos direitos humanos, não existe credibilidade e independência no processo de investigação.
"Ninguém quer deixar a sua casa", disse Sanwara Begum, uma mulher de 20 anos, com a filha de 25 dias nos braços. "Viemos para o Bangladesh apenas para salvar as nossas vidas. A Birmânia é a nossa casa e assim que as coisas estiverem mais calmas vamos voltar"
Na Birmânia, são milhares os membros da minoria étnica rohingya que para fugir à insegurança e pobreza que dominam o seu quotidiano fazem travessias perigosas a pé e de barco para chegar à fronteira com o Bangladesh. Há três meses, a aldeia onde Rehana Begum vivia foi atacada de surpresa. A mulher de 25 anos estava em casa quando começou a ouvir tiros. “Caminhámos durante quatro horas sem comida nem água para chegar à fronteira", contou Rehana à agência Reuters. "Os guardas da fronteira do Bangladesh queriam mandar-nos de volta, mas depois ouvimos tiros do lado da Birmânia e eles libertaram-nos. Disseram-nos: 'fiquem no Bangladesh e salvem as vossas vidas'". Passados poucos meses, Rehana deu à luz uma menina no campo de refugiados em Cox's Bazar, no Bangladesh. Mas não foi a única.
Membros de uma minoria muçulmana num país de maioria budista, os rohingya são uma das etnias mais perseguidas no planeta. Em Outubro do ano passado, as forças armadas da Birmânia iniciaram uma "operação de limpeza" após vários rebeldes rohingya terem atacado militares na cidade de Rakhine. De acordo com as Nações Unidas, foram cometidos assassinatos em massa, violações e aldeias foram incendiadas – tudo fruto de uma campanha extremista que viola os direitos humanos. "Os militares capturaram o meu marido e incendiaram a nossa casa", explicou Ramida Begum, uma mulher de 35 anos, com a filha de 10 dias de vida ao colo. "Desde então, não sei se ele está vivo ou morto".
São várias as mulheres que chegam da Birmânia grávidas e encontram no acampamento improvisado um lar para a sua família, embora provisório. "Ninguém quer deixar a sua casa", disse Sanwara Begum, uma mulher de 20 anos, dentro de uma tenda com a filha de 25 dias nos braços. "Viemos para o Bangladesh apenas para salvar as nossas vidas. A Birmânia é a nossa casa e assim que as coisas estiverem mais calmas vamos voltar". Estas mulheres vivem amontoadas no campo de refugiados e dependem de rações alimentares e do apoio dos outros refugiados. Contudo, apesar de carregarem histórias de terror e morte, trazem algo mais consigo: a esperança trazida por um recém-nascido.
Mas a vida no campo não é fácil, muito menos para seres humanos tão frágeis. Debaixo de um sol escaldante, em abrigos feitos de varas de bambu e folhas de plástico preto, as mães enfrentam um grande desafio em manter os seus recém-nascidos vivos. Muitas vezes, os acampamentos não dispõem de instalações médicas nem de água corrente, sendo os surtos de doenças transmitidas pela água, como a cólera, uma preocupação constante. Muitas mulheres, ao terem perdido familiares do sexo masculino, lutam para conseguir sobreviver e sustentar a família. Alinhadas ao longo da estrada, pedem dinheiro aos carros que passam, nas horas de menos calor. Segundo um funcionário da Federação Internacional da Cruz Vermelha em Bangladesh Azmat Ulla, a maioria dos refugiados não recebe comida suficiente e não tem acesso a serviços de saúde regulares. As clínicas administradas por órgãos não governamentais e pelas Nações Unidas estão sobrelotadas e com dificuldades em tratar os milhares de pacientes que recebem por mês.
"O meu filho não bebe leite materno suficiente, porque também não como alimentos nutritivos suficientes", disse Minara Begum, com 22 anos, mãe de um menino de um mês de idade. "Tenho de comprar leite em pó no mercado local, embora não seja muito bom para ele". Minara Begum é um dos cerca de 75 mil refugiados que conseguiram atravessar os campos com percursos perigosos para chegar ao Bangladesh. Nessa travessia, há quem passe fome durante semanas ou dê tudo aquilo que possui como forma de pagamento aos contrabandistas. Mas, para muitos, essa viagem não chega ao fim: afogam-se no mar ou são mortos pelas forças de segurança da Birmânia durante a travessia.
Os militares da Birmânia assumem a repressão contra a minoria muçulmana como uma operação legal para defender o país e negam as acusações de que são alvo. A Birmânia iniciou várias investigações sobre o alegado abuso, mas segundo responsáveis dos direitos humanos, não existe credibilidade e independência no processo de investigação.
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