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6.5.22

Quinze menores não acompanhados aguardam famílias de acolhimento em Portugal

in Mais Beiras Informação

Ministro da Administração Interna revelou que chegaram a Portugal 12.500 menores ucranianos, dos quais 500 foram identificados como "não acompanhados pelo pai ou mãe, mas acompanhados por outros familiares".

Quinze menores ucranianos não acompanhados pela família chegaram a Portugal desde o início da guerra na Ucrânia, estando em curso um processo para encontrar famílias de acolhimento para estas crianças, revelou hoje o ministro da Administração Interna.

"Quinze menores estão identificados como menores que foram colocados nos circuitos de transportes sem virem acompanhados por familiares.

Estão a ser acompanhadas pela CPCJ [Comissões de Proteção de Crianças e Jovens], Ministério da Justiça e em articulação com a segurança social e também com a Misericórdia de Lisboa tendo em vista encontrar famílias de acolhimento que garantam a proteção dos direitos fundamentais", disse José Luís Carneiro.

O ministro, que falava na audição parlamentar no âmbito da apreciação da proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2022 (OE2022) entregue na Assembleia da República, deu também conta aos deputados que chegaram a Portugal 12.500 menores ucranianos, dos quais 500 foram identificados como "não acompanhados pelo pai ou mãe, mas acompanhados por outros familiares".

O governante avançou que, neste caso, o Ministério Público está "a validar e avaliar a tutela desses menores, certificando-se da relação familiar para efeitos da promoção da tutela" destas crianças.

O ministro disse ainda que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) não registou até à data em Portugal casos de menores ucranianos que tenham sido objeto de tráfico de seres humanos.

Os últimos dados deste serviço dão conta que o SEF atribuiu proteção temporária a 34.562 cidadãos ucranianos.

3.5.22

Não vão faltar alimentos na Europa - pelo menos por causa da guerra

Tiago Luís, opinião, in Expresso

Áreas anteriormente vedadas à prática agrícola e que têm sido importantes para a natureza e biodiversidade já receberam autorizações para a produção agrícola. Tiago Luís, técnico de Ciências do Ambiente e especialista em Alimentação na Associação Natureza Portugal/World Wild Fund, analisa a questão alimentar neste artigo de opinião

Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.

Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.

Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.

Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.

Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:

1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.

Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.

Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.

Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.

Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.

Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:

1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.

Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.

Na verdade, uma das formas de tornar o nosso sistema alimentar mais autónomo, resiliente e sustentável, salvaguardando também a saúde dos europeus, seria através da redução do consumo de alimentos de origem animal e do incentivo a formas de produção animal menos dependentes de rações e fertilizantes.

2. “As alterações climáticas não podem ser uma prioridade.”

Os enormes desafios ambientais que enfrentamos não começaram com este conflito, e os seus efeitos não só são duradouros como não ficarão suspensos a aguardar a resolução dos desafios que, entretanto, surgem. Antes pelo contrário: quanto mais tempo demorarmos a agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, mais depressa se agravarão estes efeitos, colocando em risco as oportunidades para os resolver. O último relatório do IPCC é um alerta para o facto de os riscos serem superiores ao que estava inicialmente previsto, com alguns efeitos negativos a ocorrerem a níveis de aquecimento global mais baixos do que se previa. Uma das conclusões preocupantes do relatório é que com as alterações climáticas se torna cada vez mais difícil satisfazermos as necessidades humanas de calorias e proteínas, estando previstas perdas não só de produtividade mas também dos nutrientes presentes num vasto grupo de plantas .

Assim, é importante (e urgente) repensar o PEPAC para que este possa contribuir positivamente para a promoção da biodiversidade, a mitigação e adaptação às alterações climáticas e para o bom estado dos recursos água e solo, assim como o desenvolvimento das comunidades rurais de forma inclusiva.

3. “São necessárias medidas excepcionais, devido às circunstâncias”.

Todos os argumentos parecem ser bons para não cumprir os compromissos ambientais firmados pela Comissão Europeia. Durante o período de negociações do PEPAC, à semelhança do que aconteceu anteriormente noutras reformas da Política Agrícola Comum, muitas foram as pressões e cedências às tentativas de enfraquecimento dos objetivos e metas ambientais e climáticas deste plano. De referir que as ONGAs, a sociedade civil, e as autoridades ambientais nacionais foram completamente ignoradas no processo de construção deste PEPAC - e tememos que este registo persista no futuro. Uma parte importante do financiamento da Rede Natura 2000 provém da PAC, e se as medidas para aplicar este dinheiro forem desenhadas sem o envolvimento do ICNF (responsável pela Rede Natura 2000), dificilmente irão cumprir a sua função.

Ao longo das últimas semanas, um pouco por toda a Europa e inclusive em Portugal, algumas confederações e organizações do setor agrícola, a par com algumas personalidades, têm vindo a manifestar publicamente as suas preocupações quanto ao desafio que paira sobre a segurança alimentar da UE, defendendo medidas urgentes a curto e médio prazo. Os argumentos usados para justificar incumprimentos ambientais não são novos, apresentando os compromissos ambientais como um entrave, não ao desenvolvimento económico, mas à mitigação da crise económica e social que já enfrentamos.

Acima de tudo, estas preocupações têm-se manifestado através de pressões sobre os governos europeus para diluir as respetivas metas ambientais e climáticas assumidas em vários instrumentos comunitários (como a Estratégia Do Prado Ao Prato e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, resultantes do Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Planos Estratégicos da Política Agrícola Comum) no que diz respeito ao setor agro-alimentar - servindo os interesses de parte do setor e falhando aos consumidores e aos pequenos agricultores.

Esta narrativa começa a ter efeitos práticos: foram já concedidas a vários países, entre os quais Portugal, autorizações para utilização de áreas importantes para a natureza e biodiversidade para produção agrícola (anteriormente vedadas à prática agrícola). Simultaneamente, o apelo que tem sido feito para a não integração das metas do Pacto Ecológico Europeu (PEE) no âmbito dos Planos Estratégicos da PAC (PEPAC), se bem-sucedido, significará, por exemplo, o recuo do compromisso do setor agro-alimentar para aumentar a produção biológica de alimentos em 25% ou a redução do uso de pesticidas até 50%. O adiamento da Lei do Restauro da Natureza da UE e da Diretiva Quadro do Uso Sustentável dos Pesticidas são também já consequência das pressões que se fazem sentir.

Importa então desmistificar 4 ideias que vamos ouvir ser repetidas à exaustão, mas que não serão mais verdadeiras por isso:

1. “A guerra coloca em causa a nossa segurança alimentar”.

Ao contrário do que esta ideia parece sugerir, os cereais que importamos dos países envolvidos no conflito servem em boa parte para produção de rações animais ou biocombustíveis - ⅔ dos cereais importados têm como destino a alimentação de gado. Precisamente uma das potenciais causas de insegurança alimentar dos europeus é o excesso de consumo de alimentos de origem animal - além dos problemas de saúde e ambientais sobejamente conhecidos.

Na verdade, uma das formas de tornar o nosso sistema alimentar mais autónomo, resiliente e sustentável, salvaguardando também a saúde dos europeus, seria através da redução do consumo de alimentos de origem animal e do incentivo a formas de produção animal menos dependentes de rações e fertilizantes.

2. “As alterações climáticas não podem ser uma prioridade.”

Os enormes desafios ambientais que enfrentamos não começaram com este conflito, e os seus efeitos não só são duradouros como não ficarão suspensos a aguardar a resolução dos desafios que, entretanto, surgem. Antes pelo contrário: quanto mais tempo demorarmos a agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, mais depressa se agravarão estes efeitos, colocando em risco as oportunidades para os resolver. O último relatório do IPCC é um alerta para o facto de os riscos serem superiores ao que estava inicialmente previsto, com alguns efeitos negativos a ocorrerem a níveis de aquecimento global mais baixos do que se previa. Uma das conclusões preocupantes do relatório é que com as alterações climáticas se torna cada vez mais difícil satisfazermos as necessidades humanas de calorias e proteínas, estando previstas perdas não só de produtividade mas também dos nutrientes presentes num vasto grupo de plantas .

Assim, é importante (e urgente) repensar o PEPAC para que este possa contribuir positivamente para a promoção da biodiversidade, a mitigação e adaptação às alterações climáticas e para o bom estado dos recursos água e solo, assim como o desenvolvimento das comunidades rurais de forma inclusiva.

3. “São necessárias medidas excepcionais, devido às circunstâncias”.

Todos os argumentos parecem ser bons para não cumprir os compromissos ambientais firmados pela Comissão Europeia. Durante o período de negociações do PEPAC, à semelhança do que aconteceu anteriormente noutras reformas da Política Agrícola Comum, muitas foram as pressões e cedências às tentativas de enfraquecimento dos objetivos e metas ambientais e climáticas deste plano. De referir que as ONGAs, a sociedade civil, e as autoridades ambientais nacionais foram completamente ignoradas no processo de construção deste PEPAC - e tememos que este registo persista no futuro. Uma parte importante do financiamento da Rede Natura 2000 provém da PAC, e se as medidas para aplicar este dinheiro forem desenhadas sem o envolvimento do ICNF (responsável pela Rede Natura 2000), dificilmente irão cumprir a sua função.


4. “O adiamento das metas do Pacto Ecológico Europeu é absolutamente necessário”.

Maria do Céu Antunes, então Ministra da Agricultura, defendeu em março no Conselho de Agricultura e Pescas o adiamento do cumprimento das metas do PEE para um futuro incerto mas decidiu, no mesmo dia, apoiar a proposta da Áustria de incentivar o potencial das proteínas vegetais em linha com os objetivos do mesmo PEE. Contudo, esta proposta não se refere explicitamente ao consumo humano destas proteínas, o que poderá significar que esta visa apenas o incentivo da utilização para produção de rações e não para contribuir para uma dieta mais saudável e sustentável dos europeus e consequentemente, contribuir para uma maior resiliência a choques futuros. O cumprimento do PEE é absolutamente necessário, nomeadamente da sua Estratégia Do Prado Ao Prato, começando pela promoção do aumento da disponibilidade de alternativas proteicas vegetais para consumo humano.

A produção agroalimentar tem contribuído para a crise ambiental que vivemos: globalmente, a forma como nos alimentamos é responsável por 80% da desflorestação, 70% do uso de água doce, cerca de 30% de emissão de Gases de Efeito Estufa, degradação de 52% das terras agrícolas e 70% da perda de biodiversidade terrestre. Negá-lo é recusar a realidade e tem um efeito pouco útil na medida em que não resolve nenhum destes problemas e não reconhece o enorme potencial que a produção agroalimentar tem para impactar positivamente a nossa saúde e a do nosso planeta desde que se opere uma transformação do sistema de produção virada para as pessoas e para o planeta. Sobre este ponto, a comunidade científica tem sido clara sobre a necessidade de assegurar alimentos suficientes para a população mundial, e simultaneamente transformar a forma como produzimos e consumimos estes alimentos - a degradação da natureza e do clima afetam diretamente a nossa capacidade de produção alimentar já que os efeitos combinados da perda de biodiversidade e do aquecimento global reduzam o rendimento das culturas e a densidade nutricional.

Assim, mais importante do que disseminar ideias nem sempre rigorosas sobre a eventual escassez de alimentos, é urgente repensarmos as nossas prioridades - será que queremos (mais uma vez) colocar em causa a resiliência dos nossos sistemas alimentares a médio-longo prazo e contribuir para a destruição da natureza? Não estaremos a ignorar o facto de, pelo menos em parte, estas perturbações do mercado serem consequência da falta dessa mesma resiliência? A construção e defesa de um sistema alimentar resiliente e que respeita os limites do nosso planeta deve ser a prioridade de todos, agora e no futuro.

19.4.22

Mais 250 milhões de pessoas em pobreza extrema até ao final do ano. “A mais profunda queda da humanidade na pobreza de que há memória

João Ruela Ribeiro, in Público

É necessário adiar o pagamento das dívidas dos países mais afectados para poderem atender às suas populações, avisa a Oxfam.

A subida dos preços da alimentação e da energia, causada pela invasão russa da Ucrânia, pode atirar mais 250 milhões de pessoas para a pobreza extrema em todo o mundo até ao fim do ano, alerta a organização humanitária Oxfam. São necessárias “acções radicais” para evitar esse cenário, diz a entidade.

Os efeitos económicos provocados pela guerra na Ucrânia associam-se ao impacto deixado pela pandemia. O Banco Mundial já tinha calculado que cerca de 198 milhões de pessoas poderiam descer ao patamar de pobreza extrema (vivendo, em média, com menos de 1,75 euros por dia) apenas devido à pandemia. Mas a Oxfam estima que esse risco se estenda a mais 65 milhões por causa das consequências da invasão.

A organização não governamental também prevê que mais 28 milhões de pessoas fiquem subnutridas até ao fim do ano. Entre as zonas do globo onde a probabilidade de haver fome em massa é mais elevada, destacam-se o Leste de África, a região do Sahel, o Iémen e a Síria. Ao todo, o ano de 2022 pode acabar com uma população de 860 milhões de pessoas, quase 11% da população mundial, em pobreza extrema.

A factura da subida global dos preços da alimentação é mais pesada nos países mais pobres. Em média, os custos com comida em países riscos rondam os 17% dos gastos de consumo, enquanto na África Subsariana, por exemplo, esse valor ascende para 40%, diz a Oxfam.

“Sem acções radicais imediatas, podemos estar a assistir à mais profunda queda da humanidade na pobreza extrema e no sofrimento de que há memória”, disse a directora executiva da Oxfam, Gabriela Bucher, através de um comunicado. “Esta perspectiva aterradora torna-se mais revoltante pelo facto de biliões de dólares terem sido capturados por um pequeno grupo de homens poderosos que não têm qualquer interesse em interromper esta trajectória”, afirma a mesma responsável.

Vários governos estão numa situação próxima do incumprimento por causa da dívida externa e, por isso, têm sido forçados a cortar subsídios sociais e despesa pública para poder evitar esse cenário.

Ainda esta semana, o Fundo Monetário Internacional reconheceu esse risco. “A guerra na Ucrânia está a juntar riscos aos níveis inéditos de endividamento público, enquanto a pandemia continua a sugar muitos orçamentos governamentais”, observam o director do departamento de Assuntos Fiscais do fundo, Vítor Gaspar, e a directora de estratégia, Ceyla Pazarbasioglu, numa publicação recente. Os dois dirigentes propõem “uma abordagem cooperativa global que possa alcançar uma resolução ordeira dos problemas da dívida e prevenir incumprimentos desnecessários”.

Uma das medidas propostas pela Oxfam, que publicou o relatório antes dos encontros de Primavera do Banco Mundial e do FMI, consiste no cancelamento dos pagamentos de dívida externa dos países mais afectados. A organização acredita que poderiam ser libertados cerca de 30 mil milhões de dólares (27 mil milhões de euros) se esses países pudessem adiar os pagamentos.

A Oxfam também propõe uma subida dos impostos para os mais ricos e para as empresas que têm visto os seus lucros subirem por causa da pandemia e da guerra. Também pediu aos países do G20 para que canalizem cerca de cem mil milhões de dólares (92 mil milhões de euros) que estão actualmente num fundo de austeridade para apoiar a população mais pobre através de subsídios ou cortes de impostos.

“Rejeitamos qualquer ideia de que os governos não têm dinheiro ou os meios necessários para retirar as pessoas da pobreza e da fome, e assegurar a sua saúde e bem-estar”, disse Bucher. “Apenas vemos a falta de imaginação económica e vontade política para o fazer”, acrescentou.
Objectivos insustentável

Se até à pandemia de covid-19, o mundo vinha assistindo à redução gradual da pobreza extrema - que era de 36% da população mundial em 1990, passou a 16% em 2015 e chegou a 10% em 2015 -, o coronavírus primeiro e a guerra na Ucrânia depois travaram esse processo evolutivo. A pobreza extrema voltou a crescer e se chegarmos ao final de 2022 com 860 milhões de pessoas nessa condição, estaremos precisamente com o dobro dos 430 milhões ou 3% da população mundial que as Nações Unidas tinham como objectivo a atingir em 2030.

A meta, estabelecida em 2013 pelo Banco Mundial, figura como o primeiro objectivo da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, já aí reconhecido como “o maior desafio global que o mundo enfrenta hoje e uma exigência indispensável para o desenvolvimento sustentável”.

Em Outubro passado, já quando os números mostravam que a pandemia fizera aumentar a pobreza extrema no mundo, o secretário-geral da ONU chamava-lhe “a acusação moral dos nossos tempos” e falava que “a solidariedade estava desaparecida em combate - exactamente quando mais precisamos dela”.


25.3.22

Plataforma de Apoio aos Refugiados apoia cerca de 300 ucranianos, alguns entregues por quem os resgatou

in Expresso

O diretor da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) diz que "todos os dias há saídas de carrinhas", em iniciativas individuais para resgatar ucranianos em fuga da guerra. Portugal já recebeu mais refugiados num mês do que nos últimos seis ou sete anos, de acordo com a PAR

A Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) está a apoiar algumas iniciativas particulares de resgate e a acompanhar cerca de 300 pessoas refugiadas ucranianas, algumas das quais entregues por quem as foi buscar a países fronteira da Ucrânia.

Em entrevista à agência Lusa, quando se completa um mês desde o início da guerra da Rússia com a Ucrânia, o diretor da PAR adiantou que, entre as cerca de 40 instituições que integram a Plataforma e estão a fazer acolhimento direto, estão a “acompanhar aproximadamente 300 pessoas”.

“Esse número vai crescer provavelmente nas próximas semanas porque nós estamos à espera de uma chegada grande de cerca de 150 pessoas”, adiantou André Costa Jorge.

A PAR recebeu 3272 respostas de disponibilidade para ajudar os refugiados ucranianos, 1397 das quais para acolher essas pessoas. Houve também 663 pessoas que se disponibilizaram para acompanhar famílias, outras 362 que se ofereceram para fazer recolha de bens ou cerca de 360 pessoas que se ofereceram para fazer voluntariado especializado, como apoio jurídico ou psicológico, por exemplo.

O casal Svitlana Anosova, 59 anos, e Serhii Savchuc, 60 anos chegaram há dias, depois de terem abandonado a casa em Kharkiv, rumo a Lviv num comboio de retirada de civis, para depois atravessarem a fronteira com a Polónia e apanharem um avião para Portugal.

Não falam inglês e é com a ajuda da nora, que faz a tradução para português, que contam à Lusa que queriam vir para Portugal para poderem estar com os filhos e que estão muito agradecidos não só ao Governo português, mas a todas as pessoas que os ajudaram quando chegaram.

Com a voz trémula e de lágrimas nos olhos, Svitlana Anosova começa a dizer que quer um mundo normal para todos, mas precisa da ajuda do marido para concluir que “querem que fique tudo bem para todos”.

Não hesitam quando se lhes pergunta se pensam em voltar à Ucrânia e respondem ao mesmo tempo: "Sim."

Segundo André Costa Jorge, os atendimentos de refugiados ucranianos sucedem-se a um ritmo diário e acrescentou que deverá aumentar, tendo em conta que “é possível que haja outras iniciativas [de resgate]” para as quais contactem a PAR, uma vez que “iniciativas de grupos de cidadãos acontecem todos os dias”.

“Todos os dias há saídas de carrinhas”, apontou, revelando que muitas vezes são contactados por pessoas que foram buscar refugiados ucranianos, mas que não têm forma de os acolher, bem como por autarquias ou mesmo pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM).

Para André Costa Jorge, esta é uma situação que potencia o risco de tráfico de seres humanos, não só em Portugal, mas por toda a Europa, apesar de agora haver mais controlo.

Por outro lado, defendeu que “é importante que todos os responsáveis no acolhimento saibam e tenham consciência que a prioridade da intervenção é a proteção das pessoas”, alertando que há muitas crianças a cargo e é preciso ter atenção à saúde destes menores e à sua integração em meio escolar.

“Creio que a saúde mental deve ser a preocupação número um nestas pessoas, depois a estabilização social e a questão da habitação”, salientou André Costa Jorge, chamando também a atenção para a questão da empregabilidade e da sustentabilidade destas famílias.

Sublinhou que em causa estão “pessoas que tiveram um processo de perda muito forte, em alguns casos profundamente traumático”, defendendo que “é preciso acompanhar este processo no terreno para que haja uma mitigação do sofrimento que provavelmente acontecerá se o conflito não parar nos próximos dias”.

Logo a seguir, André Costa Jorge defendeu que é preciso encontrar soluções que permitam às pessoas aceder ao mercado de trabalho, bem como à habitação, sublinhando que “devem ser encontrados caminhos” que permitam a estas pessoas desempenhar funções que tenham a ver com as suas qualificações.

Apontou que é também preciso pensar no ensino da língua, admitindo que essa não seja uma prioridade para quem chega, dada a vontade de regresso.

Disse também que outra das coisas que o preocupa é a “necessidade de haver uma definição mais rápida de qual é o quadro de apoio financeiro a quem está a fazer o acolhimento”, uma vez que até aqui esse acolhimento era feito apenas por instituições, que recebiam uma verba para isso, mas agora é também aberto a famílias.

“Neste momento é necessário clarificar este ponto até porque não se pode exigir aos cidadãos e às famílias que tenham uma componente de acompanhamento técnico, não é essa a sua vocação, têm disponibilidade [e isso] já é bastante”, defendeu.

Destacou que Portugal já recebeu mais refugiados num mês – o número total ultrapassa os 19 mil pedidos de proteção – do que nos últimos seis ou sete anos, mas salientou que “boa parte deste acolhimento assenta na existência de uma comunidade, que é uma das maiores comunidades imigrantes” e no facto de haver “uma enorme disponibilidade social”.

Alertou, por outro lado, que “as famílias não podem ficar eternamente com refugiados” e defendeu que “é necessário acautelar que estas pessoas tenham condições para passar para uma situação de autonomia atendendo ao stress psicológico a que estão sujeitas neste momento”.

Na opinião de André Costa Jorge, muitas destas pessoas não estarão em condições de entrar no mercado de trabalho no imediato e defendeu que é preciso começar a trabalhar em vários cenários, entre o conflito poder durar mais do que é expectável ou haver um acordo e a estabilidade regressar.

O responsável acredita que num cenário de fim de guerra, muitas das pessoas quererão regressar ao país de origem, mas salientou que poderá também haver casos de quem queira ficar a residir no país de acolhimento e que, nesse caso, será necessário definir um quadro legal que se aplique a essas pessoas, já que nessa altura terão de passar por um processo que será mais semelhante ao de um imigrante económico do que ao do acolhimento de emergência.

10.3.22

Lisboa já recebeu 235 refugiados no centro de acolhimento de emergência

in Público on-line

Dos 235 refugiados ucranianos que até esta quinta-feira passaram pelo centro de acolhimento de emergência de Lisboa, 69 são crianças e jovens até aos 16 anos. A maioria das pessoas já foi acolhida por famílias voluntárias ou hotéis, tendo apenas 12 passado a noite no centro.

O centro de acolhimento de emergência de refugiados ucranianos em Lisboa, criado pela Câmara Municipal, já recebeu 235 pessoas, indicou esta quinta-feira o presidente da autarquia, Carlos Moedas, perspectivando que o fluxo “vai aumentar muito”.

“Neste momento já ajudámos 235 pessoas, que passaram pelo nosso centro de acolhimento. Muitos foram imediatamente enviadas seja para famílias que as podem acolher, seja para hotéis, e muito poucos tiveram que lá passar uma noite, aliás só 12 é que lá passaram uma noite, porque chegaram muito tarde”, afirmou o presidente da Câmara de Lisboa, à margem da inauguração do novo centro tecnológico da multinacional Evolution, localizado na Avenida 24 de Julho.


Instalado num pavilhão desportivo da Polícia Municipal de Lisboa, na freguesia de Campolide, o centro de acolhimento de emergência de refugiados ucranianos tem 100 camas preparadas pela Cruz Vermelha Portuguesa, mas a ideia é ser um primeiro ponto de acolhimento.

No centro de acolhimento de emergência são ainda disponibilizados cuidados de saúde, desde medicamentos a consultas médicas, apoio na formalização dos pedidos de protecção internacional, inclusive acesso imediato ao número de Segurança Social e ao Número de Identificação Fiscal (NIF), e é assegurada alimentação e apoio psicossocial.

Entre as 235 pessoas que passaram pelo centro de acolhimento de Lisboa estão “69 crianças [até aos 16 anos]”, segundo dados do município.

“Tivemos casos de crianças que tinham de ter uma consulta médica e imediatamente conseguimos ter essa consulta, alguns medicamentos que estes refugiados quando chegam não têm, portanto, temos estado a trabalhar dia e noite”, adiantou Carlos Moedas (PSD), referindo que os refugiados estão a chegar por diferentes meios, alguns em carro próprio, outros de avião, havendo ainda “à volta de 50 que já cá estavam a passar férias”.

Quem chega a Lisboa e precisa de ajuda é “imediatamente encaminhada” para o centro de acolhimento de emergência, insistiu o presidente da câmara, explicando que “as pessoas chegam muito cansadas, a um país que não conhecem”.

Contudo, acrescentou, muitos destes refugiados já trazem referências de pessoas que conhecem em Portugal que estão dispostas a ajudá-los.

Depois dessa ajuda imediata, o apoio passa por garantir soluções temporárias de alojamento, que podem ser num hotel ou em casa de famílias que se oferecem para acolher refugiados ucranianos.

Esse acolhimento deve ser pelo período de “pelo menos seis meses”, indicou Carlos Moedas, acrescentando que o passo seguinte é encontrar respostas habitacionais de longo prazo, em articulação com a Segurança Social.

Questionado sobre quantos refugiados podem chegar nos próximos tempos, o autarca de Lisboa reforçou que “estão todos os dias a chegar” mais pessoas, tendo já hoje aterrado em Figo Maduro um avião fretado pela ONG Ukranian Refugees com o apoio do Governo com 267 ucranianos a bordo.

Carlos Moedas perspectivou ainda que “o fluxo semanal será pelo menos de mais de 200 pessoas, mas pode ser muito maior”, uma vez que as pessoas que no início quiseram ficar na Ucrânia, vêem agora que não conseguem permanecer no país.

9.3.22

Governo lança plataforma para quem chega da Ucrânia e para quem quer ajudar. SEF aceitou 4039 pedidos de protecção

Joana Gorjão Henriques, in Público on-line

Governo lança plataforma para quem chega da Ucrânia e para quem quer ajudar. SEF aceitou 4039 pedidos de protecção

Plataforma tem perguntas e respostas sobre várias áreas, da documentação aos transportes, passando pela saúde e educação, tanto para quem quer vir como para quem quer ajudar.

Desde que há duas semanas começou a invasão russa à Ucrânia, todos os dias surgem notícias com novos apoios em Portugal a refugiados: autarquias que se disponibilizam a resgatar pessoas levando autocarros, gente da sociedade civil que oferece casa, apoios governamentais à legalização, à saúde e ao emprego.

São dezenas as acções anunciadas. Para juntar todas essas respostas, o Governo acaba de lançar a plataforma Portugal for Ukraine, disponível no endereço PortugalforUkraine.gov.pt, que congrega “todas as respostas e acções em curso, tendo em vista o apoio a pessoas deslocadas da Ucrânia, dentro e fora de Portugal”. Do envio de apoio humanitário à “integração e acolhimento” em Portugal, são várias as informações disponíveis, numa espécie de manual que tem contactos que disponibilizam apoio para quem vem para Portugal no que respeita ao transporte, documentação, emprego e formação, educação, saúde e habitação.

Dados mais recentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras mostram que já foram aceites 4039 pedidos de protecção por causa da guerra, a maioria de ucranianos.

A plataforma inclui ainda questões para quem quer apoiar quem foge da guerra nas várias áreas, da habitação ao emprego.

Saí da Ucrânia e preciso de transporte para vir para Portugal, quem devo contactar? Cheguei a Portugal sem recursos e ainda não tenho emprego, não tenho meios para pagar habitação, onde posso solicitar apoio? A que cuidados de saúde tenho direito? Tenho alojamento disponível e quero disponibilizar apoio, quem devo contactar? Preciso de inscrever os meus filhos na escola, é possível fazê-lo de imediato?

Estas são algumas das várias questões da secção de perguntas frequentes — muitas delas dão resposta ou reenviam para o email de contacto sosucrania@acm.gov.pt. Estão divididas em capítulos: saída da Ucrânia; documentação – título de protecção temporária; emprego; aprendizagem da Língua Portuguesa; saúde; alojamento/habitação; apoio social; associações representativas de pessoas ucranianas; educação; voluntariado; tradução.

O comunicado informa que a plataforma vai permitir a consulta das várias iniciativas do Governo com responsabilidade na área de “acolhimento e integração”. Por enquanto, ainda só está disponível em português e inglês, mas deve, “nos próximos dias”, “existir igualmente uma versão em ucraniano”.

Da sociedade civil surgiu logo dias depois do início da guerra a plataforma We help Ukraine, criada por impulso de um casal, Kateryna Shepeliuk, 31 anos, e David Carvalhão, 43, com ajuda de Hugo Sousa, e que faz matching entre procura e oferta de ajudas.

3.3.22

A guerra transformou Lviv numa máquina de resistência

João Ruela Ribeiro (texto) e Adriano Miranda (fotografia), in Público on-line

Nas praças da cidade são feitas malhas de camuflagem, centros de exposições funcionam como armazéns logísticos de mantimentos. Lviv está segura, mas nem por isso se ausenta do conflito.
em Lviv2 de Março de 2022, 22:35

Percorrendo as ruas empedradas de Lviv, enquanto se admiram as fachadas de estilo clássico do centro histórico que mais lembram Viena do que qualquer outra cidade ucraniana, por estes dias é frequente encontrarem-se grupos de pessoas espalhadas ao longo de grandes estendais. Cada uma está concentrada na sua tarefa, consciente do papel, por mais pequeno que pareça, para a desejada vitória final contra a Rússia. Estão a dar os nós para construir uma grande malha de camuflagem, um equipamento essencial para prevenir ataques aéreos.

Quando a guerra bate à porta há um jornal mobilizado

A informação mais importante sobre a invasão da Ucrânia estará aberta nos próximos dias

A resistência dos ucranianos constrói-se das formas mais diversas. Lviv, uma das maiores cidades que, por ora, se mantém a salvo da invasão, tem concentrado grande parte dos esforços que têm unido a nação. O ambiente transpira optimismo. A expressão “Slava Ukraini”, “Glória à Ucrânia”, é hoje o cumprimento por defeito. Nas portas de alguns restaurantes são afixadas as baixas do inimigo, com actualização diária.

Ninguém contempla, por um momento que seja, baixar os braços ou ficar em casa a ver a guerra pela televisão. Ana, uma estudante de 20 anos, está a entrelaçar tecido na rede de camuflagem há já duas horas e prepara-se para aqui ficar enquanto não “congelar”. Admite que este é um “pequeno passo”, mas acredita que qualquer acto de voluntariado cumpre a sua parte no contexto geral da resistência. “Todos estão à procura de uma forma de ajudar”, explica. À sua frente, na praça Rinok, está uma estátua de Diana, a deusa grega que leva consigo o arco e flecha; num edifício próximo ouvem-se pessoas a entoar cânticos patrióticos. Não há como não resistir.

Se o trabalho afincado de Ana é apenas um pequeno passo, no Palácio das Artes de Lviv está um dos grandes motores da máquina de solidariedade montada em Lviv. Tinham passado pouco mais de três horas dos primeiros ataques russos, na madrugada de 24 de Fevereiro, quando este edifício, que habitualmente alberga exposições de arte e recebe concertos, foi transformado num enorme centro de operações, explica o seu director-geral, Iuri Vizhniak.

A efervescência começa logo à entrada. Dezenas de pessoas amontoam-se à espera de entrar, até que um membro da organização, de colete amarelo, sai para pôr ordem: “Duas filas: à esquerda quem precisa de ajuda, à direita os voluntários. Precisamos de homens com experiência para descarregar mercadorias, os restantes aguardem por outras tarefas.”

No aparente caos há uma ordem e nesta ordem está a chave para que aquilo que seria um pesadelo logístico seja levado a cabo eficazmente. Daqui saem todos os dias dezenas de toneladas de mantimentos para as Forças Armadas espalhadas em praticamente todos os pontos do território. Na véspera, seguiu um carregamento de 40 toneladas para Odessa e outro de dez para Kherson, diz Vizhniak. “Também ajudamos os refugiados que aqui vêm com comida, roupa de criança e sacos-cama”, acrescenta.

O edifício de vários andares divide-se entre zonas específicas para guardar material médico, alimentos, roupa de adulto e de criança ou material de higiene. Andar por aqui é um exercício que exige perícia para fintar dezenas de pessoas que andam constantemente de um lado para o outro com caixotes de todos os tamanhos, ladeados por montanhas de vários metros de papel higiénico, fraldas ou sacos de batatas. Uma sala de concerto é hoje o local dedicado para armazenar roupas quentes; uma divisão onde antes estaria arte moderna está tomada por caixotes cheios de embalagens de bolachas.

Aqui chegam carregamentos com doações vindas de todo o país e de grande parte da Europa. Iuri diz que na véspera recebeu um camião da Polónia e está agora a aguardar outro da Lituânia. Faz questão de mostrar os registos com todas as entradas e saídas de produtos: tudo é auditado, garante. O trabalho pode ser voluntário, mas a organização é profissional.

Nota-se alguma preocupação com questões de segurança. Toda a carga é verificada assim que um camião chega, há um sistema de videovigilância e difusão de informação sonora. Cada pessoa que entra no recinto tem a sua mala revistada. Iuri diz que na véspera receberam uma informação de que poderia haver um dispositivo explosivo numa das cargas, mas o alarme revelou-se falso.

“Não temos medo, lidamos com isso. Vamos ganhar, porque a verdade está do nosso lado, trata-se apenas de segurança”, afirma, sem nunca abandonar o registo de gestor eficiente.
O músico e o funcionário

Andrei está no seu primeiro dia de trabalho voluntário no Palácio das Artes. Tem andado a receber caixotes de camiões para depois separar por categorias de mantimentos. Em tempos de paz é funcionário público e admite que este tipo de actividade é cansativo. “Mas não há alternativa”, acrescenta em seguida. “As pessoas estão a trabalhar 24 horas”, observa.

Considera importante aquilo com que irá ocupar as próximas horas, até se aproximar a hora do recolher obrigatório fixado às 22h. “É triste que nos mandem ajuda e depois isso se perde”, justifica. Andrei inscreveu-se nas Forças de Defesa Territoriais, o braço de voluntários das Forças Armadas ucranianas, e irá continuar a trabalhar como voluntário enquanto não for chamado. “Não podia ficar em casa sentado.” Explica que nunca pegou sequer numa arma de fogo e reconhece ter “um bocadinho” de medo. “Mas tenho mais medo pelo meu país”, justifica.

Não muito longe do anónimo Andrei está Oleksandr Bozhik, um célebre violinista ucraniano a quem foi dado um colete amarelo para coordenar as entradas e saídas do Palácio das Artes. Este é também o seu primeiro dia e o músico diz-se preparado para desempenhar qualquer tarefa. “Posso fazer tudo, que isso não vai prejudicar as minhas mãos”, afirma, entre dois sorrisos.

Depois do início da invasão, Bozhik diz que ainda tentou compor alguma coisa, mas aquilo que antes lhe era natural agora revela-se impossível. “Não posso criar nada sabendo que um rocket pode atingir o meu prédio”, lamenta. O trabalho artístico terá de esperar até à vitória desejada por todos os seus compatriotas. Por agora, diz, “o nosso Exército não precisa de inspiração, a motivação é extremamente elevada”.

Encostado a uma parede perto da porta está um piano de cauda, provavelmente retirado da sala de espectáculos, e que, em tempos de guerra, terá a função de uma mesa. A resistência implica adaptações.

Não há vidas intocadas pela invasão russa, mesmo na segurança oferecida até agora por Lviv. “Hoje não levamos uma vida normal”, diz o vice-presidente da Câmara Municipal, Andrei Moskalenko, numa rara pausa entre reuniões e telefonemas. A cidade de mais 700 mil habitantes tem hoje várias funções cruciais para o esforço de guerra da Ucrânia. Ao mesmo tempo que se tornou num ponto de passagem para os muitos milhares que fogem aos combates, é também um importante centro de apoio logístico para as forças que defendem o território.

“Os últimos dias foram muito duros para o nosso país e hoje não estamos divididos entre residentes de Lviv, Kharkiv, Kiev, Kherson, ou outras cidades, hoje somos todos ucranianos”, afirma Moskalenko. O município tem tentado assegurar os serviços essenciais, como o fornecimento de água, electricidade e aquecimento, bem como de limpeza de ruas e segurança urbana, ao mesmo tempo que procura formas de atender a situações causadas pelo conflito.

Um dos exemplos é a organização de locais para que as pessoas deslocadas possam passar algum tempo, sendo reservadas para esse feito quase todas as escolas e universidades – as aulas estão suspensas desde o início da guerra.

Apesar do optimismo inabalável dos ucranianos, o progresso das forças russas sobre Kiev traz o fantasma da queda da capital política do país. Nas vésperas da invasão, várias embaixadas e organizações internacionais, entre as quais a NATO, mudaram as suas sedes para Lviv. Na eventualidade de uma ocupação de Kiev e de grande parte do território pela Rússia, seria a maior cidade do Oeste uma potencial capital da “Ucrânia livre”?

28.2.22

Preço do gás natural sobe 26% e petróleo agrava valorização

Rosa Soares e com agências, in Público on-line

Os contratos de futuros do Brent segue a subir 5,03%, para quase 103 dólares por barril. E as bolsas europeias voltaram a negociar em queda.

A subida dos preços de energia é uma das consequências directas para a economia europeia decorrentes da invasão russa na Ucrânia e das sanções impostas à Rússia pela União Europeia e outros países.

O gás natural TTF (Title Transfer Facility) para entrega em Março subiu, esta segunda-feira, 26% para 115 euros por megawatt/hora (MWh). O preço do gás natural havia disparado 30% na sequência dos desenvolvimentos iniciais na fronteira ucraniana e esta valorização acentuada explica-se pelo facto de a Rússia ser o principal exportador de gás natural da Europa.

Também as cotações do petróleo estão em forte subida e nem o arranque de negociações para a paz está a travar a subida. Depois de uma subida de 4%, o Brent, a referência para a Europa, subia 5% às 11h20, para 102,90 dólares por barril, o que corresponde a um máximo desde 2012. Já o crude WTI, que é referência para os Estados Unidos, também seguia a agravar a subida para 5%, negociando nos 96,20 dólares.

As bolsas europeias continuam a negociar em queda, com as maiores desvalorizações a acontecer na praça de Paris (-2,86%), mas também na alemã (-2,20%), ou na de Londres (-1,1%).

A bolsa de Lisboa apresenta a menor queda europeia, a cair 0,17%, depois de ter iniciado a sessão a perde 1,7%.

A queda das bolsas europeias é explicada pela exposição de alguns bancos europeus à Rússia, pelo impacto da retirada de bancos russos do sistema Swift, plataforma electrónica de transacções financeiras mundiais, e ainda na sequência dos problemas de bancos russos presentes na Europa.

O Banco Central Europeu (BCE) alertou, nesta segunda-feira, que o Sberbank Europe, uma unidade do Grupo Sberbank SBER.MM da Rússia, e duas outras subsidiárias sob sua supervisão, “estão falidas ou na iminência de falir”.

Também a Autoridade do Mercado Financeiro da Áustria avançou com medidas em relação ao Sberbank Europ, nomeadamente a limitação de levantamentos a 100 euros por dia, por cliente, e ainda a suspensão de transferência e pagamentos.

A Deutsche Boerse, a gestora da bolsa alemã, anunciou a suspensão da negociação de vários títulos de empresas russas com efeito imediato, entre eles o VTB Bank VTBR.MM e o Sberbank.

Na Rússia, a Bolsa de Valores de Moscovo não abriu e assim se manterá ao longo do dia de hoje, anunciou o banco central do país, admitindo que os mercados de acções, derivados e cambial possam reabrir esta terça-feira, 1 de Março.

25.2.22

ONU estima que 100 mil pessoas terão abandonado as suas casas num só dia

Ana Dias Cordeiro, in Público on-line

Portugal quer garantir condições de acolhimento “à medida que se verifiquem chegadas de cidadãos provenientes” da Ucrânia, disse o gabinete da ministra Vieira da Silva. Uma estratégia comum europeia seria desejável, refere a Plataforma de Apoio aos Refugiados.

Cerca de 100 mil ucranianos deixaram as suas casas só nesta quinta-feira depois da invasão russa, de acordo com uma estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo a Reuters, que cita a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, Shabia Mantoo, milhares de ucranianos atravessaram as fronteiras terrestres uma vez que o espaço aéreo foi encerrado para civis.

A Polónia, a Roménia e a Moldávia que terá recebido cerca de duas mil pessoas, segundo a ministra do Interior, são os destinos mais imediatos destas populações em fuga.

Neste contexto, a comissária europeia dos Assuntos Internos, Ylva Johansson, indicou que Bruxelas está pronto para, se necessário, apoiar os Estados-membros da União Europeia (UE) no acolhimento de refugiados ucranianos. Johansson agradeceu a cinco países (Polónia, República Checa, Roménia, Eslováquia e Hungria) a “vontade de proporcionar protecção imediata”.

Portugal está entre os países que se prontificaram a acolher cidadãos da Ucrânia. Na frente do apoio aos civis e população refugiada, o gabinete de Mariana Vieira da Silva disse que o objectivo era “o de garantir que as condições de acolhimento em Portugal estão preparadas à medida que se verifiquem chegadas de cidadãos provenientes desta zona”.

Em respostas ao PÚBLICO, o gabinete da Presidência do Conselho de Ministros informou estar “em curso a elaboração de um mapeamento das disponibilidades de acolhimento existentes e ofertas de emprego” em Portugal, através das entidades de acolhimento. Essa disponibilidade “está em permanente actualização”.

Entre as principais entidades de acolhimento estão o Serviço Jesuíta aos Refugiados e a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR – que reúne várias instituições). Num comunicado conjunto, apelaram à “definição de uma estratégia comum [europeia] de acolhimento, de forma a responder adequadamente à situação de emergência humanitária na Ucrânia”.

As duas organizações esperam da União Europeia (UE) que garanta “uma intervenção rápida no sentido de apoiar os Estados-membros”.

Uma estratégia comum foi encontrada em 2015 quando a guerra na Síria e a situação noutros países em guerra criou uma pressão com a chegada de refugiados à Grécia e à Itália, depois da passagem pela Turquia. Polónia, Eslováquia, Hungria e Roménia fazem fronteira com a Ucrânia e são membros da UE.

A presidente da Comissão Europeia garantiu que a UE está preparada para acolher os ucranianos que fogem do país: “Esperamos que haja o mínimo possível de refugiados, mas estamos totalmente preparados para eles e para garantir que eles estão bem”, disse Ursula von der Leyen.

“Temos trabalhado durante semanas para estarmos preparados para o pior. Chegámos a essa fase de nos prepararmos para potenciais refugiados”, acrescentou.
Apoio no terreno

O começo dos ataques militares em território ucraniano levou organizações não governamentais portuguesas como a Médicos do Mundo (MdM) a iniciar “a realocação da sua equipa internacional e a protecção dos seus colaboradores na Ucrânia”.

Esta organização humanitária, a operar na Ucrânia desde 2015, tem actualmente 100 profissionais no terreno e prevê que as populações das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Lugansk enfrentem agora “grandes dificuldades no acesso a cuidados de saúde e a apoio psicológico”.

Nesta região, cerca de um terço da população tem mais de 60 anos, refere a organização em comunicado. São pessoas que “necessitam de monitorização constante e acesso a medicamentos para doenças crónicas”.

A MdM disponibiliza assistência humanitária e serviços de saúde às populações vulneráveis que vivem ao longo da linha de contacto entre Lugansk e Donetsk, no leste da Ucrânia, mas esse trabalho estará de imediato, pelo menos em parte, comprometido: “Agora que as nossas unidades móveis não conseguem operar, a situação tornou-se mais difícil para estas pessoas”, refere o comunicado, indicando que mesmo antes da escalada militar desta quinta-feira, “mais de 850 mil pessoas” já se encontravam “deslocadas no território da Ucrânia”. com Ana Maia

24.2.22

“Um fracasso para a própria humanidade”, diz bispo das Forças Armadas

 Henrique Cunha

D. Rui Valério acalenta a esperança de que o Papa Francisco possa demover "os propósitos daqueles que querem fazer a guerra".

O bispo das Forças Armadas e de Segurança declara "desencanto e desilusão" pelos acontecimentos na Ucrânia.

Em declarações à Renascença, D. Rui Valério diz que esta guerra significa um fracasso para a própria humanidade, e deixa também uma mensagem de esperança e de confiança "no Deus da paz".

“Em primeiro lugar um profundo sentimento de um certo desencanto e até desilusão pelo percurso e pelas novas etapas que estão a ser trilhadas pela humanidade. Quando pensávamos que todos estavam mobilizados pela paz, eis que surge este contraditório que é de certa forma um fracasso para a própria humanidade que não é capaz de viver em harmonia e em concórdia. Mas dito isto é necessário também elevar daqui um profundo grito de esperança e de confiança. De confiança em Deus, no Deus da Paz que é capaz de nos sugerir os caminhos da concórdia que todos nós devemos trilhar”, afirma.

O bispo manifesta, por outro, lado a esperança de que o Papa - "um arauto da paz" - possa demover "os propósitos daqueles que querem fazer a guerra".

"Neste momento sintamo-nos juntos ao Papa Francisco que é um obreiro e arauto da paz e da fraternidade para que com o seu exemplo, para que com o seu testemunho e também com a sua intervenção pessoal ele consiga demover os propósitos daqueles que querem fazer a guerra”, pede o prelado.

D. Rui Valério lembra a tradição cristã dos povos, agora, envolvidos no conflito, realçando que estes acontecimentos "nos entristecem o coração" e essa tristeza "adensa-se particularmente no coração do Papa”.

“Não haja dúvidas de que estamos a falar de nações que têm uma tradição cristã. Nações, cujo povo se reconhece nos valores do evangelho, na mensagem de Jesus, da concórdia, da fraternidade. De darmos as mãos para construir o bem. A verdade para construirmos a justiça, para construirmos a paz; e não haja dúvidas que estes acontecimentos a que assistimos em direto nos entristecem profundamente o coração. E essa tristeza adensa-se particularmente no coração do Papa", refere.

Nestas declarações à Renascença, o bispo das Forças Armadas partilha um testemunho pessoal, e que resulta do contato com as chefias militares umas semanas antes dos acontecimentos das últimas horas.

“Eu vou aqui dar este testemunho pessoal. Nas semanas precedentes contactando com as chefias militares eu sempre lhes perguntei, sugeri e questionei qual a nossa postura - e quando digo nossa, digo a nossa de Igreja, a nossa de assistência religiosa - face a todos estes acontecimentos, e de todos eles a primeira resposta que veio foi senhor bispo rezem pela paz.”

“E a oração é uma suplica, um pedido, um confiar na grandeza e nas mãos de um outro aquilo que são os destinos do presente da humanidade, mas é também sinónimo de uma grande confiança. Ao mesmo tempo quero manifestar toda a nossa disponibilidade para que com a nossa presença, com a nossa palavra, com a nossa comunhão e solidariedade estarmos com aqueles que são mobilizados e vão agir em nome da paz. E esses são os nossos fortes, os nossos braços, são os nossos soldados”, conclui.