André Borges Vieira (Texto) e Paulo Pimenta (Fotografia), in Público online
O cineasta/fotógrafo Ricardo Leite trabalhou alguns meses com os moradores do conjunto habitacional camarário. O resultado é uma exposição que durará até que o desgaste do tempo decida que terminou.
O que define o que é ou não é um espaço de exposições poderá ter mais que ver com as obras de arte que estão expostas do que com a natureza do local em si. Foi a seguir à risca esta noção que o cineasta/videógrafo Ricardo Leite, vestindo a sua pele de fotógrafo, partiu para o projecto Cerco de Prata. Durante cerca de um ano, o artista tornou-se presença assídua do Bairro do Cerco do Porto à procura de inspiração e montou lá o seu ateliê e a sua galeria. O resultado artístico deu origem a uma exposição temporária. O objectivo que pretende atingir a longo prazo com o seu trabalho passa por ajudar a mandar abaixo os muros que separam as pessoas que vivem neste e noutros conjuntos habitacionais camarários do resto da cidade.
Desta empreitada nasceu obra materializada em imagens, sobretudo de retratos de alguns moradores do Cerco. Ao produto final chegou-se a partir dos disparos do fotógrafo e de quem quis arriscar pegar numa máquina fotográfica. No final, todos os intervenientes, ou seja, os moradores, deram uma mão para ajudarem a transferir película para tecido e para montar a exposição. O mais importante, considera o autor, foi conseguir criar essa interacção com quem ali vive.
Há cerca de duas semanas fez-se uma festa para a inauguração da exposição. A galeria foi montada no exterior do bairro e usaram-se varais, desta vez não para pôr a roupa lavada a secar, mas sim para expor oito imagens emulsionadas em tecido, cada uma com 1,20 metros por 80 centímetros. À vista ficaram algumas caras de quem habita o Cerco. Algumas das peças ficarão expostas até que o desgaste do tempo decida que a exposição chegou ao fim. Outras, o fotógrafo levou-as consigo. Uma delas entregou-a em mãos a um dos moradores que mais o ajudou na concretização do projecto. Essa estará exposta, mas dentro de quatro paredes.
Ricardo Leite, que também fez parte da equipa do documentário sobre o bairro de São João de Deus, Tarrafal, do realizador Pedro Neves, quando foi para o terreno tinha apenas algumas certezas: “Sabia que queria fotografar lá e expor no mesmo sítio. Queria usar o bairro como galeria”.
Outras motivações também já existiam e tinham uma justificação. “A vontade de fotografar no bairro nasceu por causa da invisibilidade que a maior parte dos bairros, principalmente o do Cerco, tem na cidade”, afirma o fotógrafo, que já conhece bem outros conjuntos habitacionais camarários da cidade.
Estigma existe, mas há liberdade
“O bairro do Cerco é ainda hoje um bairro muito estigmatizado”, diz. A sua própria designação - uma referência à primeira metade do século XIX, quando as tropas absolutistas de D. Miguel cercaram as forças liberais de D. Pedro – ainda parece fazer algum sentido. Segundo o autor do projecto, quem ali mora continua a viver numa espécie de ilha dentro da cidade.
Mas, viver em isolamento, acredita, pode ter algumas vantagens: “Ao mesmo tempo também é um espaço de liberdade. Há crianças a brincar na rua. As crianças vão para a rua porque toda a gente está atenta. Os vizinhos estão a olhar, os vizinhos estão a ver. É um espaço mais ou menos vigiado por eles próprios. É engraçado porque há crianças que saem muitas vezes sozinhas e estão à vontade porque há sempre gente que toma conta delas. Ainda se anda de bicicleta, salta-se à corda e é algo que já não se vê noutras zonas da cidade.” Porém, reconhece, há “quem viva com muitas dificuldades”.
Esse isolamento também serve de motor para aguçar o engenho. Ricardo Leite acredita existir uma motivação extra para que se combata o ócio. “Realmente depois percebo de onde é que vem aquela criatividade toda porque vem dessa necessidade de sobreviver. Sobretudo a comunidade cigana, mas não só, é muito aberta e muito ágil a abraçar coisas novas porque realmente todos os dias têm de inventar novas maneiras de sobreviver. E isso torna-os mais criativos. No geral, os moradores são pessoas muito curiosas e com muita vontade de aprender e de perceber o outro lado. Porque muitas vezes isso lhes é vedado. E este projecto surgiu no sentido de querer abrir um bocadinho mais as fronteiras”, afirma.
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23.8.21
A 6ª edição do portuense MEXE estreia-se em Lisboa em Outubro
por Renata Lima Lobo, in Timeout
Entre 18 de Setembro e 3 de Outubro, o MEXE – Encontro Internacional de Arte e Comunidade assume “o risco de sermos humanos” com uma programação dividida entre três cidades.Organizar um evento nos dias que correm é um risco – e é mesmo esse o tema central da sexta edição do MEXE – Encontro Internacional de Arte e Comunidade, um evento que cruza várias dimensões, como a artística, a social, a política ou a ética. Entre 17 e 26 de Setembro, “o risco” vai percorrer as cidades do Porto, Viseu e Lisboa com espetáculos, conversas, oficinas, laboratórios de criação, instalações e cinema.
Co-organizado pela PELE - Espaço de Contacto Social e Cultural e a MEXE - Associação Cultural, o MEXE apresenta um cartaz onde, descrevem, “a arte dialoga com a tecnologia e o pensamento científico, perspectivando as comunidades para além do humano, aprofundando outras relações possíveis com a natureza e procurando construir espaço de afirmação para 'invisibilidades' que refletem desigualdades sociais, agravadas pela pandemia”.
Nas três cidades, a programação estará distribuída por 10 espaços e em Lisboa o evento decorre na Culturgest entre os dias 1 e 3 de Outubro. O programa arranca com a performance Política de Privacidade, do grupo brasileiro Cinza, composto pelos dramaturgos Gustavo Colombini e João Turchi, um evento em dois actos sobre os códigos (digitais) da comunicação humana.
No dia seguinte é apresentado o livro Práticas Artísticas, Participação e Política, de Hugo Cruz e no foyer da Culturgest poderá conhecer a instalação audiovisual Unearthing Queer Ecologies, de Amy Reed, que utiliza a biologia e a tecnologia para revelar imagens e sons da vida vegetal em crescimento que a visão e audição humanas não conseguem registar. O último dia na capital, mais precisamente na Culturgest, é dedicado ao cinema. O dia começa com o documentário Uma Árvore no Largo – o retrato da comunidade no Bons Sons, de Tomás Quitério, que acompanha a comunidade da aldeia de Cem Soldos. O cinema prossegue com 1000 Silent Heroins (Mil Heroínas Silenciosas), de Stefan de Graaff, que dá a conhecer o grupo de teatro Women Connected, localizado em Roterdão, numa mostra que inclui ainda os documentários Cidade Correria, de Juliana Vicente, sobre o Coletivo Bonobando, do Brasil; e CAIR, uma produção que resulta da parceria entre a Rede Europeia Anti Pobreza e a MEXE Associação, focada na precariedade em tempos de pandemia.
Os eventos são de entrada livre e toda a programação está disponível no site oficial.
16.1.18
Rui Salvador viveu na rua e conquistou "cidadania" com a ajuda da arte
in TSF
Ajudar as pessoas que vivem sem abrigo a terem uma voz social e política. É o objetivo do livro "As vozes do silêncio", que tem como subtítulo "Um grupo de sem-abrigo à conquista de cidadania".
A obra envolve 80 pessoas, umas com experiência de rua, outras completamente integradas e muitas delas com mérito profissional reconhecido.
É o caso de José Luís Peixoto, Carlos Tê, Dulce Maria Cardoso ou valter hugo mãe. Eles aceitaram o convite para juntarem textos seus às reportagens de Ana Cristina Pereira, jornalista do Público e às imagens de fotojornalistas e desenhadores.
O livro é editado por Rui Spranger, da APURO - Associação Cultural e Filantrópica, que veio ao estúdio da rádio juntamente com Rui Salvador, que já viveu na rua e que também participa no livro.
O responsável da APURO começou por contar à jornalista Barbara Baldaia de onde veio a ideia de fazer o livro.
O livro está à venda online na Wook e também nalgumas livrarias. Toda a receita é revertida a favor dos sem-abrigo.
Ajudar as pessoas que vivem sem abrigo a terem uma voz social e política. É o objetivo do livro "As vozes do silêncio", que tem como subtítulo "Um grupo de sem-abrigo à conquista de cidadania".
A obra envolve 80 pessoas, umas com experiência de rua, outras completamente integradas e muitas delas com mérito profissional reconhecido.
É o caso de José Luís Peixoto, Carlos Tê, Dulce Maria Cardoso ou valter hugo mãe. Eles aceitaram o convite para juntarem textos seus às reportagens de Ana Cristina Pereira, jornalista do Público e às imagens de fotojornalistas e desenhadores.
O livro é editado por Rui Spranger, da APURO - Associação Cultural e Filantrópica, que veio ao estúdio da rádio juntamente com Rui Salvador, que já viveu na rua e que também participa no livro.
O responsável da APURO começou por contar à jornalista Barbara Baldaia de onde veio a ideia de fazer o livro.
O livro está à venda online na Wook e também nalgumas livrarias. Toda a receita é revertida a favor dos sem-abrigo.
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