Olímpia Mairos, in RR
No dia em que o Parlamento debate a possibilidade de criar o Estatuto do Cuidador Informal, a Renascença foi a Chaves conhecer uma cuidadora que se dedica a tempo inteiro a uma tarefa que “é desgastante a nível físico e psicológico”.
Cuidar de alguém 24 horas por dia, quase 365 dias por ano, é “exigente e muito desgastante”, diz Madalena Bandeira, 66 anos e cuidadora há sete. Tem à sua responsabilidade uma senhora com 73 anos, portadora de Alzheimer e Parkinson.
A rotina diária obedece a ritmos que não podem ser descurados: presença, atenção e cuidado permanente. “Logo de manhã dou-lhe banho, a medicação e o pequeno-almoço. Depois faço o almoço, arrumo a casa, vou às compras e, se ela estiver bem, ainda damos um pequeno passeio”, descreve.
“Com a medicação estou sempre preocupada, porque nada pode falhar, e tem que ser dada às horas certas”. À Renascença, admite: “É um trabalho desgastante, com grande sobrecarga ao nível físico e psíquico”.
Madalena tem marido, filhos e netos, mas passa praticamente as 24 horas na casa da vizinha que cuida. “Se me ausento por uma hora, já estou em cuidados”, confidencia.
A cada ano, não se ausenta “mais de uma ou duas vezes e por um dia”. E quando assim é, pede a alguém “com responsabilidade” que a substitua.
Assumiu a tarefa “por caridade”, mas os “primeiros tempos foram muito difíceis”. “Custou-me muito a habituar. Tive que ir a um psicólogo para aguentar. Tive que me tratar, porque, de outra forma, não conseguia. Mas a senhora precisava porque não tinha ninguém”, recorda.
Madalena habituou-se a cuidar, mas por vezes experimenta a “exaustão”, perde a “paciência” e sente necessidade de tempo para descansar, para estar com a família e para mudar de ares.
“Sinto muita necessidade de férias. E acho que deviam ser férias duas vezes por ano, dez dias de cada vez, para descansar e poder ajudar melhor, depois”, diz, lamentando a impossibilidade para o fazer.
Estima-se que em Portugal existam mais de 800 mil cuidadores informais.
Parlamento debate Estatuto do Cuidador Informal
Os deputados da Assembleia da República vão discutir os projetos do Bloco de Esquerda, do PCP, do CDS e do PAN.
Um dos diplomas mais abrangentes é o do BE, que propõe “consagrar o reconhecimento do Estatuto do Cuidador Informal”, dada a “escassez” de cuidados formais e “poucas respostas de apoio” a pessoas que cuidam em casa de idosos, de indivíduos com demência ou doenças crónicas e de crianças com patologias graves.
Os bloquistas defendem que os “cuidadores informais tenham direito a quatro dias de descanso mensais e a 11 dias seguidos de férias, sendo reconhecidos e integrados na rede nacional de cuidados integrados”.
O projeto prevê também a “prestação de apoio domiciliário durante as folgas do cuidador ou, em alternativa, a estadia de curta duração em unidades de internamento”.
O Parlamento irá apreciar ainda uma petição em defesa da criação do Estatuto do Cuidador Informal da Pessoa com Alzheimer e outras demências ou patologias neurodegenerativas.
A petição, que reuniu 14.000 assinaturas, solicita, entre outras medidas, “o devido reconhecimento social e jurídico dos cuidadores, o direito a uma redução do seu horário laboral em 50%, sem perda de vencimento, o apoio de terceira pessoa na assistência ao cuidador e o direito a uma pensão de sobrevivência mensal após a morte do doente”.
Os responsáveis por esta petição e outros cuidadores marcarão presença nas escadarias do Parlamento.
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19.3.18
13.3.18
Cuidadores de doentes com demência sofrem grande desgaste psicológico
in Cintesis
Cerca de metade dos cuidadores de pessoas com demência apresentam níveis significativos de desgaste psicológico, com sintomas elevados de ansiedade, depressão, comportamentos obsessivos e compulsivos, hostilidade, sensibilidade interpessoal e ideação paranoide, entre outros.
A conclusão é de um estudo publicado no Perspectives in Psychiatric Care, da autoria de Wilson Abreu e Carlos Sequeira, investigadores do grupo NursID, do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde e docentes da ESEP – Escola Superior de Enfermagem do Porto.
Na população estudada, 108 pessoas com demência e seus cuidadores familiares, com residência no distrito do Porto, observou-se uma correlação significativa entre os sintomas de desgaste psicológico manifestados pelos próprios cuidadores, cuja média de idade era de 60,7 anos, e o nível de dependência dos doentes a seu cuidado, sendo que, destes, 85% eram mulheres, 55% tinham uma demência grave e 46% estavam muito ou totalmente dependentes.
Segundo os autores, a carga de trabalho, a falta de conhecimento sobre a doença e o medo da sua progressão inevitável são alguns dos fatores que podem explicar os sintomas registados, nomeadamente a chamada ansiedade fóbica.
“Os cuidadores sentem que foram deixados sozinhos, sem ajuda. Os profissionais de saúde devem discutir ações futuras e fornecer informação sobre serviços disponíveis e sobre a progressão da doença. É crucial que os sistemas de saúde sejam capazes de providenciar cuidados integrados e cuidados paliativos, nomeadamente a nível domiciliário”, pode ler-se.
O estudo propõe que os enfermeiros tenham um importante papel neste processo, através do desenvolvimento e implementação de cuidados às pessoas com demência avançada e de suporte aos seus cuidadores, incluindo programas psicoeducacionais e intervenções psicossociais focadas na cognição, na abordagem do “stress”, na comunicação, na espiritualidade e no conforto.
Este tipo de programas na área da Saúde Mental e da Psiquiatria deverá ter o condão de aliviar o desgaste psicológico dos cuidadores, com efeitos positivos na sua saúde, na sua capacidade de cuidar e na própria qualidade dos cuidados que prestam aos doentes com demência a seu cargo.
A demência é considerada uma síndrome complexa associada às populações idosas, sendo progressiva e levando, em última instância, à morte. Caracteriza-se por distúrbios em várias funções, incluindo a memória, a cognição, a orientação, a compreensão, a linguagem, a capacidade de aprendizagem e de julgamento. Estima-se que, em todo o mundo, mais de 47 milhões de pessoas vivam com demência. Prevê-se que esse número aumente para 75 milhões de pessoas em 2030 e para 135 milhões em 2050.
Cerca de metade dos cuidadores de pessoas com demência apresentam níveis significativos de desgaste psicológico, com sintomas elevados de ansiedade, depressão, comportamentos obsessivos e compulsivos, hostilidade, sensibilidade interpessoal e ideação paranoide, entre outros.
A conclusão é de um estudo publicado no Perspectives in Psychiatric Care, da autoria de Wilson Abreu e Carlos Sequeira, investigadores do grupo NursID, do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde e docentes da ESEP – Escola Superior de Enfermagem do Porto.
Na população estudada, 108 pessoas com demência e seus cuidadores familiares, com residência no distrito do Porto, observou-se uma correlação significativa entre os sintomas de desgaste psicológico manifestados pelos próprios cuidadores, cuja média de idade era de 60,7 anos, e o nível de dependência dos doentes a seu cuidado, sendo que, destes, 85% eram mulheres, 55% tinham uma demência grave e 46% estavam muito ou totalmente dependentes.
Segundo os autores, a carga de trabalho, a falta de conhecimento sobre a doença e o medo da sua progressão inevitável são alguns dos fatores que podem explicar os sintomas registados, nomeadamente a chamada ansiedade fóbica.
“Os cuidadores sentem que foram deixados sozinhos, sem ajuda. Os profissionais de saúde devem discutir ações futuras e fornecer informação sobre serviços disponíveis e sobre a progressão da doença. É crucial que os sistemas de saúde sejam capazes de providenciar cuidados integrados e cuidados paliativos, nomeadamente a nível domiciliário”, pode ler-se.
O estudo propõe que os enfermeiros tenham um importante papel neste processo, através do desenvolvimento e implementação de cuidados às pessoas com demência avançada e de suporte aos seus cuidadores, incluindo programas psicoeducacionais e intervenções psicossociais focadas na cognição, na abordagem do “stress”, na comunicação, na espiritualidade e no conforto.
Este tipo de programas na área da Saúde Mental e da Psiquiatria deverá ter o condão de aliviar o desgaste psicológico dos cuidadores, com efeitos positivos na sua saúde, na sua capacidade de cuidar e na própria qualidade dos cuidados que prestam aos doentes com demência a seu cargo.
A demência é considerada uma síndrome complexa associada às populações idosas, sendo progressiva e levando, em última instância, à morte. Caracteriza-se por distúrbios em várias funções, incluindo a memória, a cognição, a orientação, a compreensão, a linguagem, a capacidade de aprendizagem e de julgamento. Estima-se que, em todo o mundo, mais de 47 milhões de pessoas vivam com demência. Prevê-se que esse número aumente para 75 milhões de pessoas em 2030 e para 135 milhões em 2050.
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