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14.1.15

Contar dinheiro ou escrever textos coerentes sem erros é difícil para o 2.º ano

in Jornal de Notícias

Os alunos do 2.º ano de escolaridade têm dificuldades em interpretar um texto, escrever de forma coerente e sem erros ortográficos, não compreendem o conceito de igualdade na matemática e têm dificuldades em contar dinheiro, revela um relatório.

O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulgou hoje o relatório relativo aos testes intermédios dos alunos do 2.º ano do 1.º ciclo do ensino básico que, pela primeira vez, permitem tirar resultados em relação à evolução das aprendizagens das crianças, por ser possível comparar resultados de quatro anos letivos, de 2010-2011 a 2013-2014, especifica o organismo.


De acordo com o relatório, os alunos do 2.º ano de escolaridade apresentam ainda muitas fragilidades a Português e Matemática, as duas disciplinas a que os alunos do 1.º ciclo fazem testes intermédios, criados com o objetivo de permitir um "diagnóstico precoce das dificuldades dos alunos".

No caso da língua portuguesa, o IAVE identifica a escrita, a gramática, e a leitura -- esta última sobretudo pelas dificuldades evidenciadas ao nível da interpretação de textos -- como as três áreas em que se deve apostar "numa intervenção mais específica".

Ao nível da escrita, os principais problemas dos alunos do 2.º ano centram-se na estruturação do texto e na ortografia, e o IAVE recomenda um "treino recorrente da escrita" para minimizar as dificuldades de composição.

"No teste aplicado em 2014, apenas 39% dos alunos desenvolveram um texto coerente e somente 38% dos alunos utilizaram vocabulário adequado na produção do mesmo texto", adianta o relatório.

Já na leitura, destacam-se dificuldades de literacia.

"No domínio da Leitura, as dificuldades na interpretação de textos de diferentes tipologias sugerem a necessidade de uma abordagem mais frequente e sistemática de textos diversificados. Também o treino específico e orientado da leitura de enunciados, compreendendo situações comunicativas e expressões utilizadas, constitui uma ferramenta preciosa para a promoção de melhores resultados, da qual muito beneficiarão os restantes domínios em avaliação", declara o IAVE nas conclusões do relatório.

Já na Matemática, o IAVE destaca a melhoria de resultados em 2014, face a 2013, na resolução de problemas matemáticos e a dificuldade que os alunos do 2.º ano de escolaridade têm em compreender o conceito de igualdade, ainda que na comparação dos dois últimos anos letivos seja possível assinalar uma melhoria de resultados.

Tendo essa dificuldade em conta, no relatório "sugere-se que seja dedicada especial atenção ao significado do sinal de igual (que estabelece uma relação de igualdade dos valores apresentados em cada um dos lados do sinal), trabalhando-se no sentido da passagem de uma visão 'procedimental' (a seguir ao sinal de igual coloca-se o resultado) para uma visão relacional".

O IAVE defende igualmente que "o significado dos símbolos matemáticos, assim como a sua escrita, como meio de comunicação matemática, merecem também atenção adicional, não obstante as evidências de uma melhoria do desempenho dos alunos neste tema específico".

Já as dificuldades em tarefas como contagem de dinheiro, que se agravaram nos quatro anos letivos em análise, havendo apenas 68% de respostas totalmente corretas na questão relativa a este tópico no teste de 2014, levam o IAVE a referir a "necessidade do desenvolvimento de tarefas específicas que consolidem a aprendizagem destes temas".

Quanto aos problemas matemáticos, o IAVE aponta que as "dificuldades significativas" sentidas pelos alunos na sua resolução podem ser colmatadas com mais treino, sugerindo a "resolução sistemática de problemas", de forma a contribuir para a apropriação de diferentes conceitos matemáticos.

Em 2014, os testes intermédios de Português e Matemática, que não são obrigatórios, e apenas são aplicados por vontade expressa das escolas, foram realizados por 68.118 e 68.681 alunos, respetivamente, em 839 escolas.

11.12.12

Alunos do 1.º ciclo melhoram resultados

por Pedro Sousa Tavares, in Diário de Notícias

O Ministério da Educação e Ciência (MEC) divulgou hoje os resultados da participação de alunos portugueses, do quarto ano de escolaridade, nos estudos Trends in Internacional Mathematics and Science Study (TIMSS) e Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS), com os estudantes a demonstrarem melhorias.

Os alunos portugueses já tinham participado várias vezes no TIMSS, que avalia competências na matemática e ciências, tendo ficado sempre nas últimas cinco posições. Desta vez conseguiram um 15.º lugar a matemática e um 19.º a ciências entre 50 países.

Quanto ao PIRLS, no qual os estudante fizeram a sua estreia, atingiram o 19.º lugar entre 45 participantes.

Ainda assim, o MEC sublinha o facto de, sobretudo nas ciências, os alunos terem atingido resultados apenas intermédios, no segundo mais reduzido de quatro níveis. E aproveitou para defender a importância da "avaliação externa". Nomeadamente das provas finais que este ano letivo, pela primeira vez, serão feitas a estes estudantes.

1.10.12

Crianças do 1º ciclo "trabalham" mais do que os adultos

por Lusa, texto publicado por Paula Mourato, in Diário de Notícias

Muitas crianças portuguesas entre os seis e os dez anos trabalham como alunas tanto ou mais do que os adultos, com oito horas diárias na escola a que muitas vezes acrescem trabalhos de casa "repetitivos e inúteis", defendem especialistas.

"A vida das crianças a partir dos seis anos não pode funcionar só a partir da escola. A escola é muito importante, mas a educação informal e os momentos de lazer e o brincar são fundamentais", argumenta Maria José Araújo, investigadora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto.

Vendo o tempo médio de trabalho de um adulto, entre 37,5 a 40 horas semanais, percebe-se que muitas crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto como um trabalhador adulto. Contudo, enquanto o trabalho profissional dos adultos é seguido de descanso para a maioria das pessoas, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula, nota a investigadora, em declarações à agência Lusa.

Opinião idêntica revela o pediatra Mário Cordeiro, para quem as crianças trabalham mais do que os adultos: "Qualquer sindicato das crianças, se existisse, nunca permitiria tamanha carga horária".

O tempo para brincar, descansar e preguiçar é, segundo os especialistas, subvalorizado.

"A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica", refere Maria José Araújo, que lamenta que o tempo livre das crianças seja invadido pela escola, não deixando que a criança possa descansar e escolher o que fazer.

Trata-se sobretudo da forma como as atividades são estruturadas, já que mesmo as atividades de enriquecimento curricular são pensadas em termos de escolarização.

"O ensino formal é muito importante e devemos estimular as crianças para isso. Mas depois de cinco horas de atividade letiva, é preciso descansar e brincar. As outras atividades que as crianças realizem devem ter uma metodologia lúdica", defende.

Atualmente, a escola e a família parecem ter esquecido que a brincar se "aprende muito": "as crianças não brincam para aprender, aprendem porque brincam. Brincar é viver, para as crianças. É necessário respeitar a cultura lúdica e as culturas da infância".

Repetir em casa o que se fez na escola, prolongando o tempo de trabalho escolar, é um dos erros que se tem vulgarizado, defende.

"Os TPC [trabalhos para casa] são muitas vezes repetitivos e inúteis. Meninos de seis e sete anos andarem a repetir letras e fichas, com o argumento de que eles gostam e precisam, devia ser proibido, como acontece já nalguns países", sustenta Maria José Araújo.

Contudo, a investigadora diz que é necessário distinguir entre estudar e fazer TPC: "Estudar é importantíssimo e deve ser ensinado e incentivado. Deve ser mostrado isso às crianças. Mas estudar tem de ter a adesão voluntária de quem o faz. Já os TPC repetitivos podem ajudar a mecanizar, mas afastam a criança do sentido e do valor do conhecimento".

Para Maria José Araújo, os TPC, a existirem, devem ser feitos na escola, eventualmente no apoio ao estudo e nada mais, até porque "representam muito em termos de tempo que ocupam, mas muito pouco em termos de estímulos cognitivos".

"Na verdade, se os TPC, tal como os conhecemos, ajudassem as crianças a ter sucesso escolar já se teria notado", indica, sugerindo que se deve antes ajudar as crianças a compreender o significado do conhecimento e das diferentes formas de aprendizagem.

"Saber não é só repetir e há muitos educadores que apostam mais nesta versão", defende.

Também para o pediatra Mário Cordeiro, a escola, onde os meninos permanecem tanto tempo, tem a obrigação de ensinar "sem invadir o espaço-casa, onde as crianças devem estar sem pressões".

"Os TPC diários, na versão 'mais do mesmo', são uma invasão da privacidade, na pior hora possível para a família e quando o aluno não tem capacidade de resposta, originando stress familiar e pessoal. Deviam ser abolidos", defende Mário Cordeiro.