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20.4.23

Idosos: Governo promete apostar nas casas adaptadas e nos serviços de apoio à vida autónoma

Natália Faria, in Público



Cardiologista Nuno Marques vai coordenar Plano de Acção do Envelhecimento Activo e Saudável. Nomeação conjunta dos ministérios da Saúde e Segurança Social sai quinta-feira em Diário da República.


O Governo escolheu o actual presidente do Observatório Nacional do Envelhecimento, o médico cardiologista Nuno Marques, para coordenar o Plano de Acção do Envelhecimento Activo e Saudável. A nomeação conjunta do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSS) e do Ministério da Saúde é publicada nesta quinta-feira em Diário da República e, segundo adiantou ao PÚBLICO Nuno Marques, algumas das medidas previstas naquele plano deverão começar a chegar ao terreno já no segundo semestre de 2023.

O apoio a projectos de cohousing e à criação de aldeias comunitárias para idosos (num exemplo muito semelhante ao que já vigora em Espanha) e a garantia da adaptação das habitações para que os idosos consigam retardar o momento de entrada num lar são apenas algumas das medidas previstas no novo Plano de Acção do Envelhecimento Activo e Saudável (PAEAS) previsto no Orçamento do Estado para 2023, embora sem dotação específica porque, como sustenta Nuno Marques, “as medidas a implementar são multissectoriais e estão repartidas por várias áreas”.


“Uma crítica que era feita há décadas prendia-se precisamente com a falta de articulação entre os ministérios da Saúde e do Trabalho, Solidariedade e Segurança social, que agora vão deixar de estar de costas voltadas”, enfatizou Nuno Marques, segundo o qual as propostas contidas no plano de acção seguem de perto as recomendações do livro verde do envelhecimento, uma directiva que une os vários Estados-membros na adaptação à transição demográfica e que foi aprovado durante a presidência portuguesa da União Europeia.

Num país em que os idosos com 65 e mais anos de idade já representam 23,4% da população (e que, segundo os últimos Censos, soma já 182 idosos por cada 100 jovens), o novo plano de acção promete estar muito focado na prevenção e no envelhecimento saudável. “O que queremos é que os idosos sejam independentes e autónomos o máximo de tempo possível, o que implica áreas que vão da adaptação dos domicílios à adaptação das cidades”, adiantou o médico.

“Uma pessoa que tenha artroses ou até uma fractura associada à osteoporose e que por isso tem dificuldade em levantar-se da cama pode evitar a institucionalização se formos adaptar a casa em que vive às suas necessidades, colocando, por exemplo, uma barra e um apoio que lhe permitam pôr-se de pé”, exemplificou. Medidas como esta ganham importância acrescida se nos lembramos de que as pessoas com 65 e mais anos de idade representam metade dos mais de um milhão de portugueses que vivem sozinhos, segundo os Censos 2021.

Claro que o combate à institucionalização dos idosos não poderá ser bem-sucedido sem a criação de equipas domiciliárias capazes de assegurar o apoio necessário. Por isso, o novo plano contempla a criação de equipas multidisciplinares, “com terapeutas, psicólogos, nutricionistas…”, que até já têm verbas definidas no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), onde vêm identificadas como serviço de apoio domiciliário 4.0.


Com a ajuda destas equipas, e em articulação com as autarquias e as juntas de freguesia, será possível “construir fatos à medida de cada idoso”, o que pressupõe que o foco de actuação passe a “estar nas pessoas em vez de nos serviços”.

“Criação de estruturas de acolhimento inovadoras”


Quando o idoso ainda preserva autonomia, mas não é possível mantê-lo em sua casa, por questões de saúde ou até de isolamento social, a solução passará por reforçar “a criação de estruturas de acolhimento inovadoras, nomeadamente de aldeias comunitárias onde as pessoas podem fazer a sua vida normal, mas com o apoio necessário, à semelhança do que já vemos em Espanha”.

O PRR também tem financiamento previsto para a melhoria dos lares de idosos, bem como para projectos de cohousing (um modelo de habitação colaborativa originário da Dinamarca) e estruturas intergeracionais, que permitirão “responder à necessidade de apoio aos idosos e às dificuldades de acesso à habitação dos jovens, em simultâneo”, adianta o mesmo responsável.

Portugal apresenta o ritmo mais acelerado de envelhecimento do conjunto dos países da União Europeia, apresentando uma taxa de crescimento médio anual do índice de envelhecimento da ordem dos 3,6%. E poderá chegar a 2080 com 317 idosos por cada 100 jovens, segundo as projecções do Instituto Nacional de Estatística, o que dá nota da urgência na implementação de soluções capazes de assegurar um envelhecimento activo da população.

Portugal já tinha, de resto, ensaiado uma Estratégia Nacional para o Envelhecimento Activo e Saudável 2017-2025, mas esta nunca chegou a ser implementada. Agora, Nuno Marques garante que o problema não vai poder continuar a ser adiado. Aliás, para a implementação das medidas vai ser criado um centro de competências dedicado ao envelhecimento activo, também com financiamento do PRR.

O reforço do número de camas dedicadas aos cuidados continuados e paliativos surge como outra das grandes apostas do plano. Na área da prevenção, está prevista a adaptação dos locais de trabalho, “para que tenham o mínimo impacto possível na saúde e no bem-estar das pessoas”, ainda segundo Nuno Marques.

A esperança de vida aos 65 anos está actualmente estimada em 19,3 anos. Mas os portugueses têm das menores expectativas de vida saudável após os 65 anos de idade: 7,3 anos, isto é, menos três anos do que a média europeia que é de 10,3 anos. E porque a pobreza afecta 17% dos idosos em Portugal, segundo o último inquérito sobre os rendimentos e condições de vida do INE, feito em 2022 com base nos rendimentos do ano anterior, o plano prevê a criação de projectos-piloto de apoio à concepção e desenvolvimento de pequenos negócios para pessoas com mais de 60 anos de idade.

19.4.23

Procura-se gestor de idosos com soluções inovadoras

André Rito, in Expresso



Governo: plano para lidar com a transição demográfica: €400 milhões para os cuidados de saúde e melhoria e aumento da capacidade instalada. Para reverter os dados do envelhecimento: “Se nada for feito, em 2060 Portugal será insustentável”


Ana Mendes Godinho, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, afirma que o Governo está “há um ano a debater e a tratar a longevidade”. Perante a crise demográfica que Portugal atravessa, o Executivo avançou finalmente com medidas para promover o envelhecimento ativo e, simultaneamente, olhar para esta questão como uma oportunidade para a economia. Após dois anos de intensa luta contra a pandemia, surgiram então duas linhas estratégicas para a transição demográfica: um centro de capacitação para profissionais que trabalham na área do envelhecimento e um plano de ação nacional.

“A pandemia pôs a nu muitas fragilidades do sistema face às necessidades existentes, revelando também uma incapacidade para responder àquilo que se perspetiva virem a ser os nossos futuros desafios nesta área”, começou por dizer Ana Mendes Godinho, na última reunião do conselho consultivo do projeto Expresso Longevidade. “Este foi o retrato que nos obrigou a agir e que nos confere legitimidade social de olhar para o envelhecimento de forma transversal, mobilizando a sociedade para aquilo que designo de investimento transformacional.” Mas, afinal, que medidas concretas vão contribuir para esta transformação?

Financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e pela Agenda Portugal 2030, neste momento, afirma a ministra, há 400 projetos em estudo, ligados à área do envelhecimento, cujo investimento representa mais de €400 milhões. Esta é uma das principais linhas de intervenção do Governo, que aposta também em soluções inovadoras como a habitação colaborativa. A ideia é juntar novos e velhos numa lógica de intergeracionalidade, sem institucionalização, mas criando novos modelos de habitação. Neste capítulo estão já aprovados 22 projetos-piloto, com um financiamento total de €22 milhões.

As medidas a serem implementadas fazem parte do plano de ação nacional para o envelhecimento e do centro de capacitação, que trabalhará em articulação com o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). Em vez de respostas tradicionais, como o apoio domiciliário, estruturas residenciais para idosos ou centros de dia, a ministra optou por lançar um alerta de financiamento “em carta branca”. “Apresentem-nos os projetos capazes de dar resposta aos desafios que nos são colocados e que cumpram os objetivos que nos propomos: autonomia, segurança, serviços partilhados, independência, e acompanhamento”, explicou Ana Mendes Godinho, acrescentando que o Governo “não impõe soluções”. “Temos atuado como grande facilitador e também no investimento destes projetos.”

Trabalho e corte abrupto de utilidade

Há várias ideias sobre a mesa. Focando nas respostas sociais ao envelhecimento, a ministra anunciou que está para ser lançado também aquilo que designa de apoio domiciliário 4.0. Isto para combater o isolamento, mas mantendo as pessoas em casa e de forma autónoma, com recurso à inovação e tecnologia. “Basta um botão para que as pessoas possam ser monitorizadas 24 horas por dia.” Outra das ideias passa pela criação de uma linha “60+” e pelo desenvolvimento de um modelo de “gestor do idoso” o qual fará o acompanhamento permanente das franjas etárias mais fragilizadas. O objetivo, defende a ministra, é a promoção da autonomia.

Manuel Caldas de Almeida, médico e vice-presidente da União das Misericórdias, concorda e diz que nunca viu um “idoso entrar num lar com ar feliz”. “Um doente até me escreveu um poema. Dizia algo do género: ‘gosto muito do lar e as pessoas são muito simpáticas. Mas o que eu gosto mesmo é da minha casinha’”. O importante, refere o médico, usando a mesma expressão da ministra, é que haja uma “transformação” no olhar que a sociedade tem sobre os mais velhos. “Nos anos 90, quem tinha 65 anos era velho. Hoje não é nada assim.” E isto terá as suas implicações no trabalho. Não significa que o Governo pretenda mexer na idade da reforma, mas antes que exista uma “saída faseada”, para evitar aquilo que Nuno Marques, presidente do Observatório Nacional do Envelhecimento e futuro diretor da estratégia governamental, quer do plano de ação e do centro de competências: “Uma pessoa chega à reforma e no dia seguinte passa a sentir-se inútil.”

Na mesma semana em que o Governo anunciou ao Expresso a estratégia para o envelhecimento — com um convite endereçado ao médico praticamente na véspera da reunião no Conselho Consultivo — foram revelados em primeira mão os primeiros dados do observatório dirigido por Nuno Marques. Portugal tem atualmente 2,4 milhões de pessoas com 65 ou mais anos, um número que aumentou 43% nas duas últimas décadas. Por outro lado, a população ativa — perto de 6 milhões de pessoas — tem registado aumentos pouco significativos, e as projeções para os próximos 40 anos estão longe de ser as melhores: se nada for feito, afirma Nuno Marques, teremos uma redução de um terço da população ativa em 2060.

Apostar na inovação, importar ideias e promover o bem-estar são, portanto ações fundamentais para manter a sustentabilidade do sistema de pensões e do próprio país. No conjunto de soluções propostas por Nuno Marques está a adaptação dos postos de trabalho para os mais velhos, ao beneficiar da sua experiência, e apostar no empreendedorismo sénior, aumentando a produtividade. Adicionalmente, continua o médico, será preciso aumentar a população ativa, apostando também na imigração. Ana Sepúlveda, presidente executiva da empresa 40+Lab, lembra aquilo que muitos especialistas consideram essencial para o equilíbrio das contas: a criação da economia da longevidade. “É preciso trazer o mundo da economia para a longevidade, unindo esforços de diferentes países e analisando dados que ajudem a definir estratégias.”
P&R

Quais são os reais planos deste Governo para a longevidade?

A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, está a preparar duas linhas estratégicas. Um centro de capacitação para profissionais ligados à área dos cuidados de saúde, em articulação com o IEFP. Ao invés de delegar tarefas, a ministra espera propostas em “folha branca”. Nuno Marques, do Observatório Nacional do Envelhecimento, será diretor de ambos os projetos.

Quantos projetos estão neste momento a ser trabalhados?

Existem 400 projetos em estudo para aumentar a capacidade instalada na resposta social aos idosos, em serviços domiciliários, centros de dia e estruturas residenciais. No capítulo das “soluções inovadoras” estão aprovados 22 projetos de habitação colaborativa.

Quais os valores envolvidos e qual o investimento do Estado?


O financiamento destes projetos está inscrito no Plano de Recuperação e Resiliência — cerca de €400 milhões. Há também um financiamento adicional proveniente da agenda Portugal 2030, cujos projetos deverão estar concluídos até ao final de 2026. É o caso das já referidas soluções de habitação colaborativa.

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Textos originalmente publicados no Expresso de 31 de março de 2023