4.3.11

Abril será um mês difícil para a gestão da dívida portuguesa

in Jornal Público

O mês de Abril será particularmente “difícil” para a gestão da dívida pública portuguesa, com grandes montantes a vencer, alertou a economista norte-americana Carmen Reinhart, que acredita que o país terá de recorrer ao FMI.

“Portugal é o próximo na lista. Acho que, com alta probabilidade, também vai acabar com um programa do Fundo Monetário Internacional”, disse a analista do Peterson Institute of International Economics e ex-economista chefe do banco de investimento Bear Stearns.

De vários analistas que ontem participaram numa conferência do Comité de Bretton Woods, em Washington, sobre os possíveis riscos de contágio da crise na zona euro, Reinhart é a que acompanha mais de perto a situação particular de Portugal.

“Abril vai ser um mês difícil [para Portugal], há muitas dívidas a vencer”, disse a economista norte-americana, que defende que os países em dificuldades devem avançar imediatamente para uma reestruturação da dívida, algo que neste momento “aterroriza as autoridades portuguesas”.

A reestruturação da dívida portuguesa, adiantou, terá de ser feita num ambiente de “baixa procura” dos investidores por obrigações portuguesas, excluindo do Banco Central Europeu e de “algumas instituições domésticas”.

“É tolo não falar de reestruturação [na zona euro]. Não estamos a falar de um drama, de se tornar na Argentina, de incumprimento, exclusão do mercado por muitos anos ou estados pária. Há formas de reestruturação”, disse Reinhart.

China ajuda pouco

Gary Kleiman, analista membro do Comité de Bretton Woods, afirmou que a compra de títulos de dívida pela China tem feito pouco pela economias periféricas, uma vez que é “marginal” e que pouco fazem pela confiança no mercado, até porque no caso português são “transacções obscuras”.

“Com Portugal, em particular, fizeram colocações privadas que tornam difícil aos investidores perceber o que estão a fazer, são negócios de bastidores”, disse.

Ajai Chopra, director-adjunto do Departamento Europeu do FMI, disse que, apesar das diferentes medidas das autoridades europeias nos últimos meses, “o stress nas economias periféricas continua por resolver”, e estas estão “ligadas principalmente por exposição financeira” aos países nucleares da zona euro, como a Alemanha.

Questionado pela Lusa sobre a situação portuguesa, Chopra disse estar impedido de fazer comentários à imprensa.“A situação na Europa periférica é extremamente difícil, sem dúvida, e vai ser preciso muito trabalho duro para voltar a ter criação de emprego e crescimento económico”, disse no entanto.

A resolução da situação vai depender das “respostas politicas, a nível nacional e da zona euro”, e embora “as autoridades europeias já tenham mostrado que são capazes e estão disponíveis para tomar as acções necessárias para conter a turbulência”, podem não conseguir fazê-lo dentro dos prazos que os mercados exigem.

Simon Johnson, da escola de gestão do MIT, alertou para a desproporcionada dimensão dos bancos em países como a Irlanda, onde uma tentativa de resgate levou ao “colapso orçamental” de um país que era considerado “conservador”, mas que na realidade tinha responsabilidades financeiras de contingência nas instituições financeiras.

“Com todas as minhas preocupações em relação aos Estados Unidos, acho que a [situação financeira na] Europa é pior, os bancos são maiores em relação à economia”, disse.