4.3.11

BCE prepara primeira subida dos juros desde o início da crise

Por Ana Rita Faria, in Jornal Público

A braços com a inflação decorrente da escalada do petróleo e dos alimentos, Trichet prepara caminho para mudar a política monetária

O Banco Central Europeu (BCE) surpreendeu ontem os mercados, habituados a ouvir durante longos meses o mesmo discurso por parte da autoridade monetária europeia. Apesar de ter mantido pelo 22.º mês as taxas de juro inalteradas no mínimo histórico de um por cento, a instituição liderada por Jean-Claude Trichet deixou um aviso: é possível um aumento dos juros já em Abril. A confirmar-se, é a primeira subida desde Julho de 2008, quando o mundo se precipitou para a crise financeira.

A declaração teve reacção imediata nos mercados e veio intensificar os receios de que o BCE venha a intervir mais cedo do que se previa para conter o aumento da inflação, decorrente da escalada das matérias-primas energéticas e alimentares.

"Um aumento das taxas de juro na próxima reunião é possível", admitiu ontem Trichet, após a reunião do conselho de governadores. Embora tenha salientado que isso não é certo, Trichet disse que o BCE tem de manter uma "vigilância forte" para assegurar que a escalada das matérias-primas não se traduz num aumento generalizado da inflação, nomeadamente ao nível dos salários.

Segundo vários analistas, o facto de o BCE ter usado a expressão "vigilância forte" é um sinal de que irá, de facto, aumentar os juros em Abril, já que estas palavras também foram utilizadas entre 2005 e 2007, na véspera de subidas nas taxas. Trichet sinalizou, contudo, que a possibilidade de aumentar os juros na reunião do conselho de governadores de 7 de Abril não será "o início de uma série de aumentos na taxa de referência".

Os últimos dados divulgados pelo Eurostat mostram que a inflação na zona euro aumentou para 2,4 por cento em Fevereiro. É já o terceiro mês consecutivo em que os preços sobem acima dos dois por cento, o limite considerado pelo BCE como indicativo da estabilidade de preços na região da moeda única.

Decisão precoce?

A escalada dos preços das matérias-primas tem estado a pressionar a inflação e a colocar um dilema ao BCE: se, por um lado, a autoridade deve subir as taxas de juro para conter a subida de preços, a verdade é que, se o fizer, poderá perturbar ainda mais a situação de alguns países com dificuldades de financiamento, como a Grécia, a Irlanda ou Portugal.

Numa análise ao discurso de Trichet, o Barclays Capital comentava ontem que a decisão de subir as taxas de juro é "muito precoce" e que o BCE "deveria dar à economia da zona euro mais hipótese de entrar num caminho sustentável, sobretudo visto que é muito cedo para dizer até que ponto a consolidação orçamental intensa em vários países irá afectar a procura este ano e no próximo".

Talvez por receio disso o BCE não foi ontem tão radical ao ponto de eliminar os apoios extraordinários à banca. Pelo menos até Julho, os bancos europeus vão continuar a ter empréstimos ilimitados a taxas reduzidas, apesar de Trichet já ter avisado que este "vício" tem de acabar.