José Manuel Rocha, in Jornal Público
Preço dos alimentos em risco de subir devido ao petróleo
A recente escalada dos preços do petróleo, ditada pela turbulência política que se vive no Norte de África e no Médio Oriente, poderá manter em alta a pressão sobre os preços dos alimentos, alertou ontem a FAO. O índice de preços dos alimentos da organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação voltou a subir em Fevereiro, pelo oitavo mês consecutivo, para 236 pontos - o valor mais elevado da série estatística, que foi iniciada em 1990.
No mês passado, todas as principais categorias de produtos sofreram aumentos face a Janeiro, à excepção do açúcar, que registou um ligeiro recuo. Os cereais, por exemplo, aumentaram 3,7 por cento face ao mês anterior e o leite conheceu um incremento de 4 por cento. Na carne, o índice cresceu cerca de 2 por cento no espaço de um mês.
Feita uma leitura histórica, verifica-se que o índice alimentar da FAO mais do que duplicou na última década. E a situação poderá agravar-se nos próximos tempos. A pressão sobre os preços irá manter-se porque os países emergentes, com taxas de crescimento muito acima dos 5 por cento, vão continuar a aumentar a procura. E, por outro lado, o aumento da cotação do petróleo faz com que muitos produtores agrícolas desviem parte das suas colheitas de cereais para a produção dos chamados biocombustíveis, que oferecem preços de saída muito mais atractivos. Ontem, o preço do petróleo que se transacciona em Londres (brent) estava a negociar abaixo dos 115 dólares por barril, continuando assim a aliviar dos máximos da semana passada, quando chegou a ultrapassar os 120 dólares.
Uma redução substancial da oferta de cereais no mercado primário espalha problemas em toda a cadeia alimentar. Eles são fundamentais para a indústria de rações para os animais, que será obrigada a subir preços, encarecendo dessa forma os custos de produção de carne e leite.
"A subida inesperada do petróleo vai exacerbar a já precária situação dos mercados dos produtos alimentares", alertou ontem David Hallam, director da FAO para a Divisão de Comércio e Mercados. "Isto faz aumentar a incerteza sobre a evolução dos preços, justamente numa altura em que irão começar as sementeiras de grão em muitos países", acrescentou o responsável.
A situação do mercado mundial de alimentos tem também muito a ver com o facto de, em 2010, especialmente a produção de cereais, ter ficado abaixo do que seria desejável para manter a estabilidade dos preços. Num quadro de aumento da procura global, a ocorrência de temporais em algumas das principais bacias cerealíferas fez com que a produção final ficasse ligeiramente abaixo da que tinha sido registada em 2009.
A FAO estima que os preços dos cereais estejam, por estes dias, 70 por cento mais elevados do que há 12 meses atrás, sem perspectivas de um recuo iminente, porque irá "estreitar-se a diferença entre a oferta e a procura" na campanha 2010/2011. Isto apesar de se antever para este ano um acréscimo de cerca de 3 por cento na produção dos chamados cereais de Inverno.
Recentemente, o Banco Mundial chamou a atenção de que a escalada dos preços dos alimentos já fez cair 44 milhões de pessoas em situação de pobreza - alguém que tem menos de 1,25 dólares para gastar por dia. A organização estima que haja 1200 milhões de pessoas - pouco menos do que a população da China - que vivem actualmente abaixo desse limiar.


