Por Ana Rita Faria, in Jornal Público
Num ano marcado pela austeridade, a possibilidade de o BCE subir as suas taxas já em Abril pressiona ainda mais a actividade económica
Por si só, a subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu (BCE) no próximo mês poderia não ter um grande impacto. Mas, quando se junta a um desemprego elevado, ao agravamento da carga fiscal, à redução ou contenção salarial e à escalada dos preços dos combustíveis e dos alimentos, o cocktail torna-se explosivo.
Os juros dos empréstimos à habitação vão aumentar, bem como os custos do crédito às empresas, penalizando ainda mais o consumo privado e o investimento. Num cenário destes, dificilmente a economia escapará a uma recessão.
A crescente pressão inflacionista, decorrente do aumento dos preços das matérias-primas energéticas e alimentares e da recuperação económica nas grandes economias europeias, nomeadamente a Alemanha, levou na quinta-feira o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, a admitir a possibilidade de aumentar os juros em Abril. A "preparação" para a primeira subida de taxas desde o início da crise, depois de quase dois anos no mínimo histórico de um por cento, apanhou de surpresa os mercados, que só estavam a antecipar uma subida das taxas de referência mais para o final do ano.
Caso venha a confirmar-se o aumento dos juros, o preço do dinheiro vai ficar mais caro para os bancos, que tenderão a fazer reflectir esse custo no financiamento às famílias e às empresas. O impacto sobre o crédito à habitação, que está geralmente indexado às taxas Euribor, pode chegar aos 80 euros este ano (ver texto na página seguinte). Já para as empresas, as condições de financiamento não só vão piorar, como poderá haver efeitos secundários no sector exportador, devido à subida do euro.
"A subida das taxas de juro pelo BCE não seria dramática se fosse um movimento isolado, mas, na realidade, vem juntar-se à subida dos preços administrados, dos bens alimentares e dos combustíveis, à redução dos benefícios sociais, ao aumento de impostos e à persistência de um desemprego elevado", salienta Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI. Neste contexto, conclui, é "mais um factor a agravar a hipótese de recessão", que consta das previsões das principais organizações internacionais e do próprio Banco de Portugal, mas continua a ser posta de parte pelo Governo.
Juntando o já elevado nível de endividamento nacional à subida das prestações da casa, os particulares terão menos margem de manobra para poupar. A Deco (ver texto na página seguinte) prevê mesmo um aumento do número de casos de sobreendividamento este ano. Para não falar do incumprimento. "A partir do momento em que aumentem as taxas, vai aumentar o malparado", considera o economista João Duque.
Europa a duas velocidades
Igualmente preocupante é o impacto que uma subida dos juros pode ter sobre o acentuar de uma Europa a duas velocidades. "Tem havido uma discussão a nível europeu sobre a possibilidade de o BCE ser mais complacente ao nível da inflação, permitindo que as economias mais avançadas tenham níveis de inflação mais altas, o que permitiria ganhos de competitividade nas economias mais fracas", explica Cristina Casalinho. Ontem, contudo, o BCE demonstrou que não é esta a sua posição.
Para João Duque, o BCE está a olhar para a economia europeia como um médico, "cuidando dos órgãos vitais [a Alemanha, por exemplo] e desprezando o que não é". Uma postura que tenderá a acentuar as divergências de crescimento europeias.


