Por Raquel Martins, in Jornal Público
Com a crise do mercado de trabalho, ir para o estrangeiro ou aceitar um emprego longe de casa passou a ser cada vez mais comum, conclui a empresa de recrutamento Michael Page
Com o desemprego a atingir números recorde e a crise do mercado de trabalho em Portugal, há cada vez mais gente disponível para trabalhar no estrangeiro ou longe de casa. As empresas por seu lado pedem cada vez mais profissionais especializados, embora ofereçam salários mais baixos do que há uns anos. A análise é da empresa de recrutamento Michael Page, que em 2010 notou uma maior exigência por parte das empresas na hora de contratar e uma maior disponibilidade dos cerca de 125 mil candidatos entrevistados para aceitarem as condições propostas.
Dada a grande disponibilidade de mão-de-obra no mercado e a falta de novos projectos de investimento, a predisposição dos trabalhadores para aceitarem trabalhar em projectos internacionais ou em empresas mais distantes da sua área de residência é uma tendência que se tem vindo a acentuar. E é especialmente notória na área da engenharia, sector onde ainda se sente a ausência de novos projectos e investimentos em território nacional, que permitam absorver a mão-de-obra disponível. A tendência começou a afirmar-se há dois anos, mas acentuou-se no ano passado.
Álvaro Fernandez, director-geral da Michael Page, nota também que as empresas estão mais exigentes e menos dispostas a correr riscos quando pensam em contratar, realçando que estão cada vez menos receptivas a recrutarem candidatos vindos de outros sectores de actividade. "Com a crise nota-se uma maior exigência e uma exigência cada vez maior de candidatos especializados", destaca.
Mas, ao contrário do que se poderia pensar, a maior exigência ocorre em simultâneo com uma diminuição dos salários oferecidos. "Ao haver maior número de candidatos disponíveis no mercado, há uma tendência de correcção nos salários e os pacotes salariais estão a baixar ligeiramente. As empresas, sabendo que há mais candidatos, procuram pessoas de grande qualidade e a preços mais baratos", frisa Álvaro Fernandez.
Além disso, 2010 ficou marcado por uma maior procura de trabalhadores com capacidade de adaptação, que permita às empresas responder às exigências da procura. Mas nem sempre essa procura é feita no mercado de trabalho. Fernandez nota uma tendência cada vez mais acentuada no recrutamento dentro da própria empresa ou nas progressões internas.
Salários em quebra
No que respeita aos salários, o responsável da Michael Page destaca duas realidades distintas. "No caso dos desempregados ou dos candidatos oriundos de empresas em risco de falência nota-se uma quebra de 10 a 15 por cento na remuneração fixa. Depois temos os casos de candidatos que, embora tenham uma situação estável, mudam de empresa e aí a progressão salarial é significativa", destaca.
Dados fornecidos pela empresa dão conta de uma progressão salarial entre 10 e 20 por cento quando se muda de empresa. Já nas progressões internas e na mesma função a evolução "tem sido mínima", com excepção das promoções ou dos prémios por desempenho.
A evolução das remunerações entre 2009 e 2010 depende do sector em causa. As progressões mais significativas deram-se nas funções de marketing, mas no sector dos serviços os salários têm caído. Nas funções de vendas assistiu-se a uma tentativa de aumentar a componente variável dos salários e diminuir a componente fixa. Já nas funções comerciais, "onde era relativamente comum praticar-se um split de 70/30 e hoje cada vez mais as empresas praticam já 60/40 e a tendência será 50/50".
O esforço de contenção notou-se também nas chefias intermédias e nos quadros operacionais.
As funções mais bem remuneradas continuam a ser as áreas de planeamento e construção no sector das engenharias, a direcção financeira e de áreas de negócio, no sector financeiro, e os cargos de segunda linha na área comercial e de marketing.
No ano passado, o responsável da Michael Page realça o renascimento da área financeira, frisando que as empresas portuguesas voltaram a ir ao mercado para recrutar pessoas para postos-chave na área da contabilidade e do controlo de negócio.


