André Rodrigues, in RR
Se dantes o Centro de Apoio aos Sem Abrigo (CASA) servia entre 100 e 150 refeições diárias no Porto, "agora ultrapassa as 400". E são menos os voluntários disponíveis para ajudar em plena pandemia de Covid-19. Ricardo, que perdeu o trabalho e está prestes a perder a casa, põe os olhos no futuro: "Quando isto acabar, venho todas as noites cortar o cabelo a quem precisar."
O relógio da Câmara do Porto marca as 20h00, ainda é possível ver a luz do dia que foge para a noite. Na fila já se contam 30, 40, 50 pessoas que não têm casa ou que vivem num quarto.
O dinheiro não chega para comprar comida e num quarto alugado não há como cozinhar refeições. A rua é a única saída.
Os minutos passam, as carrinhas só chegam às 20h30. A ansiedade aumenta, a fila cresce, todos querem chegar primeiro.
A vida na rua é um teste permanente à sobrevivência. Quem não faz pela vida arrisca-se a passar fome. A fila não tem regras. "Não vale passar à frente", é a frase mais simpática dirigida a quem tenta furar a ordem.
Por esta altura, a fila já chega à estação dos CTT da Avenida dos Aliados. Até que, enfim, chegam as carrinhas do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA).
Nuno Olaio coordena a equipa do CASA e dá a voz de comando: "Por favor, mantenham a distância de dois metros uns para os outros." Uns seguem a sugestão à risca, outros ignoram-na e não escondem o enfado.
Nesta noite de frio e chuva, cinco voluntários do CASA distribuem cobertores, meias e, claro, a tão esperada refeição quente.
"Conhecemos as pessoas, definimos como é que tem de ser dado o jantar e pedimos às pessoas para se afastarem", explica à Renascença Nuno Olaio, que conhece de cor os rostos que se apinham na fila, os rostos que procuram na rua o conforto que não encontram em mais lado nenhum.
A esses, juntaram-se muitos mais. Há definitivamente um antes e um depois da Covid-19. Se dantes o CASA servia entre 100 e 150 refeições diárias, "agora ultrapassa as 400". E na linha da frente não há risco zero.
Ao mesmo tempo que oferecem comida e agasalhos, os voluntários procuram, também, sensibilizar para o perigo.
"No início, não havia condições e as pessoas estavam muito juntas, porque não se apercebiam do que estava a acontecer", explica Nuno Olaio. "Nestas duas últimas semanas, passámos a distribuir folhetos informativos juntamente com a refeição, para que as pessoas estejam cientes dos perigos que correm com este coronavírus."
O risco zero não existe mas, para a equipa de voluntários, a presença nas ruas é fundamental, "porque só assim faz sentido, estando perto das pessoas".
"O risco que corremos é controlado, usamos máscaras e viseiras, mas não concebemos o apoio ao outro sem vir para a rua, sem dar a refeição quente, porque sabemos que há dezenas e dezenas de pessoas da cidade do Porto que têm fome".
De acordo com o mais recente levantamento da Câmara do Porto, a cidade terá, aproximadamente, 600 pessoas em situação de sem-abrigo. A maioria vive em albergues temporários, mas haverá, pelo menos, 140 que continuam a dormir na rua.
Teresa é uma das caras habituais nesta fila de apoio. Tem 52 anos, mas as marcas de uma vida de pobreza sugerem uma idade mais avançada.
Todas as noites, Teresa segue a rota das carrinhas de apoio às pessoas que, como ela, não têm abrigo. Desta vez, é na Avenida dos Aliados. É a busca pela sobrevivência que se tornou um hábito "há muitos anos", partilha com a Renascença.
Teresa está desempregada há tanto tempo que nem se lembra e o Rendimento Social de Inserção é o único dinheiro que recebe.
A rua é a casa comum de quem sai à procura de uma refeição quente, em muitos casos, a única refeição quente do dia.
Agora, a ameaça do novo coronavírus agrava o sentimento de insegurança de quem não tem comida nem um teto para dormir.
"Há muitos barulhos e os voluntários fecham as carrinhas", porque há os que "não respeitam as distâncias, parece que têm aquela ânsia de chegar primeiro", explica Teresa, antes de garantir: "Eu não, eu vou na minha vez."
E se, quando chegar a sua vez, já não houver comida para distribuir? "Olhe, paciência, vou-me embora e tenho de me remediar com as latas de atum que ainda tenho", responde.
Menos voluntários para muitos mais pedidos de ajuda
Enquanto o número de pedidos de ajuda cresce, o número de voluntários no terreno segue o caminho inverso.
Nuno Olaio explica que o CASA tem "mais de 400 voluntários", mas por haver gente que pertence aos grupos de risco, ou por contextos familiares que não lhes permitem vir para a rua, a associação viu-se "forçada a reduzir" o número de operacionais nas rondas.
Normalmente, uma equipa é composta por 20 voluntários. "Hoje estamos aqui só cinco, com a ajuda de uma pessoa ex-sem-abrigo que nos tem dado uma grande ajuda".
A Renascença falou com dois sem-abrigo de Leiria p(...)
Chama-se João e tem 52 anos. "Eu é que tenho de lhes agradecer tudo o que fizeram por mim, por isso a minha obrigação é estar aqui a ajudá-los a ajudar, tal como eles me ajudaram a mim", diz à Renascença.
João tem um passado de rua, depois de a doença do pai ter forçado o encerramento do café da família. "Foram os anos mais difíceis da minha vida", confessa.
Nessa altura, as rondas de apoio aos sem-abrigo eram mais frequentes. No último mês, a cidade fechou-se em casa, os turistas desapareceram, a solidariedade diluiu-se. Nas ruas praticamente desertas ficaram as pessoas em situação de sem-abrigo.
"Dantes, ainda tínhamos o jantar de terça-feira à noite e havia distribuições aqui, na Boavista, em todo o lado... Depois veio isto do vírus e estragou tudo".
A pandemia apanhou todos de surpresa. Ricardo chegou do Brasil há pouco tempo para trabalhar como barbeiro. Começou a trabalhar assim que chegou a Portugal, "mas, passada uma semana, fechou tudo".
O saco que leva para casa tem pão, fruta e uma refeição quente. "Eu como pouco e isso ajuda-me a gerir a comida que tenho até ao dia seguinte, o frio também ajuda a não ter fome", confessa à Renascença.
O problema é que, com o trabalho suspenso, este jovem barbeiro não recebe para comer, nem para pagar alojamento.
"Estou a viver num quarto, mas vou ter de o entregar esta semana, porque já não tenho dinheiro para a renda." E para onde planeia ir? "Tenho um colega que me está a ajudar a encontrar uma solução num albergue, para ver se consigo ter onde dormir."
No meio de toda a dificuldade, o que Ricardo sabe é que o regresso ao Brasil "está fora de questão". Ricardo só quer que tudo volte ao normal, quando puder ser.
Nesse dia, fica a promessa de devolver a generosidade com que o ajudaram. "Sou barbeiro e já combinei com o pessoal que, quando isto acabar, venho todas as noites cortar o cabelo a quem precisar."
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9.4.20
25.3.20
Centro de Acolhimento para sem-abrigo no Porto começa a funcionar terça-feira
Rute Fonseca, in TSF
Vai estar instalado no Hospital Joaquim Urbano.
responder a eventuais situações de quarentena destinadas a pessoas sem habitação regular. Um trabalho que resulta de uma parceria entre a Misericórdia do Porto, a Câmara Municipal, a Segurança Social e a Autoridade de Saúde.
Em matéria de alojamento, a autarquia criou um Centro de Acolhimento de Emergência Covid-19 no antigo Hospital Joaquim Urbano, com capacidade para 40 pessoas, que tem todos os serviços idênticos aos do Centro de Acolhimento Temporário que já aqui funciona.
Ainda no âmbito das medidas de apoio aos sem-abrigo, é garantido o fornecimento de refeições nos restaurantes solidários que passam a estar concentrados no Centro de Acolhimento Temporário Joaquim Urbano, mas agora vão funcionar em modelo takeaway por segurança e devido à diminuição do número de voluntários.
A autarquia avança que beneficiam deste serviço 280 pessoas. Foi ainda reforçada a resposta das cantinas sociais e da rede de voluntariado que diariamente percorre a cidade do Porto.
Ainda na área social, a Câmara Municipal do Porto expressa "grande preocupação" relativamente aos cuidadores. Há várias IPSS"s que podem vir a ter escassez de recursos. A autarquia vai propor ao Conselho Diretivo da Segurança Social que o Governo crie uma orientação que permita mobilizar recursos da educação, assistentes de operações ou assistentes técnicos para apoiar as respostas sociais que entrem em rutura.
Vai estar instalado no Hospital Joaquim Urbano.
responder a eventuais situações de quarentena destinadas a pessoas sem habitação regular. Um trabalho que resulta de uma parceria entre a Misericórdia do Porto, a Câmara Municipal, a Segurança Social e a Autoridade de Saúde.
Em matéria de alojamento, a autarquia criou um Centro de Acolhimento de Emergência Covid-19 no antigo Hospital Joaquim Urbano, com capacidade para 40 pessoas, que tem todos os serviços idênticos aos do Centro de Acolhimento Temporário que já aqui funciona.
Ainda no âmbito das medidas de apoio aos sem-abrigo, é garantido o fornecimento de refeições nos restaurantes solidários que passam a estar concentrados no Centro de Acolhimento Temporário Joaquim Urbano, mas agora vão funcionar em modelo takeaway por segurança e devido à diminuição do número de voluntários.
A autarquia avança que beneficiam deste serviço 280 pessoas. Foi ainda reforçada a resposta das cantinas sociais e da rede de voluntariado que diariamente percorre a cidade do Porto.
Ainda na área social, a Câmara Municipal do Porto expressa "grande preocupação" relativamente aos cuidadores. Há várias IPSS"s que podem vir a ter escassez de recursos. A autarquia vai propor ao Conselho Diretivo da Segurança Social que o Governo crie uma orientação que permita mobilizar recursos da educação, assistentes de operações ou assistentes técnicos para apoiar as respostas sociais que entrem em rutura.
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