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15.2.21

A VULNERABILIDADE DOS SEM-ABRIGO E O TRABALHO DO CASA PORTO

Inês Santos, in JUPon-line

A crise económica e social causada pela atual pandemia está a ter efeitos diretos e nocivos em vários portugueses e em especial nos mais carenciados e sem-abrigos.

CASA Porto COVID-19 Frio Pandemia Sem-Abrigo Vulnerabilidade

Muitos portugueses têm sido vítimas dos entraves causados pelo aparecimento do novo coronavírus. Com o número de horas de trabalho reduzidas e com o encerramento obrigatório de vários estabelecimentos têm surgido várias repercussões económicas o que leva à quebra dos rendimentos e, em muitos casos, ao desemprego.

Com isto, os números de pedidos de ajuda a associações têm vindo a aumentar desde o início da pandemia. Em entrevista ao JUP, Ana Salão – coordenadora do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA) do Porto – afirmou que atualmente a associação serve cerca de “700 refeições por semana” a pessoas carenciadas. Segundo a responsável, “o número de refeições distribuídas triplicou” com o primeiro confinamento que se iniciou em Março do ano passado. Este número tem se mantido desde então, mas com uma tendência de crescimento recente.

No momento o CASA Porto apoia em torno de 100 famílias carenciadas com a entrega de cabazes de 15 em 15 dias. Os pedidos de ajuda chegaram também aos três restaurantes solidários geridos pelo Centro de Apoio onde são distribuídas cerca de “600 refeições por dia”. Além de distribuir refeições quentes, fornece também outros auxílios como roupa e produtos de higiene. Os sem-abrigo, as famílias carenciadas e os recém-desempregados são aqueles que mais procuram a ajuda da associação. Embora a associação preste maior auxílios no Porto, Ana Salão declarou que grande parte dos pedidos de ajuda são oriundos de concelhos limítrofes onde não existem respostas apropriadas.

A atual situação também criou obstáculos às associações que procuram ajudar os que mais precisam, a coordenadora do CASA afirmou que existiram dificuldades em manter os auxílios prestados: “as recolhas habituais nos hipermercados foram suspensas, pelo que foram as empresas e os particulares que nos ajudaram a continuar a desenvolver os nossos apoios”.

Contudo, é importante salientar que as restrições impostas pelo Governo não perturbaram a regularidade com que o Centro de Apoio aos Sem-Abrigo do Porto oferece auxílio aos mais carenciados. “Acionamos o nosso plano de contingência de forma a continuar a desenvolver o nosso trabalho de forma segura tanto para os utentes como para os voluntários”, frisou Ana Salão. O plano de contingência previa “equipas menores” e as refeições ao serem distribuídas em formato “Take Away” permitiram que não fosse necessário “um número tão elevado de voluntários”, desta forma apesar de um “grande número de voluntários por motivos pessoais e familiares” ter sido forçado a suspender as suas ações de voluntariado de forma provisória não pôs em causa o funcionamento da associação.

Com o distanciamento social a ser regra e com o país cada vez mais fechado em casa, as populações que por si só são mais isoladas, como é o caso dos sem-abrigo, sofrem com várias consequências. Muitas vezes estas populações acabam por ter uma grande invisibilidade no quotidiano das cidades caindo, por vezes, no esquecimento.

No passado mês de Janeiro foi registado um longo e duro período de frio no nosso país que afetou em especial a região Norte, e como era de esperar os sem-abrigo foram os mais afetados pela situação. Quando questionada sobre os auxílios prestados durante este período, Ana Salão afirmou que a associação esteve envolvida no “Plano de Emergência da Vaga de Frio” acionado pela Câmara Municipal do Porto. A entrevistada salientou que “foram criados alojamentos temporários, foram abertas estações de Metro onde se instalaram todas as noites camas para que as pessoas pudessem pernoitar neste local”, estas medidas foram acompanhadas pela “distribuição de refeições quentes, roupa e cobertores a todos”, acrescentou ainda que a proteção civil foi responsável pelo transporte das pessoas desde “os seus locais habituais de pernoita até à estação de metro onde estariam abrigados”.

A pandemia e tudo em torno do distanciamento físico acabou por transportar consigo um afastamento emocional por parte das pessoas mais carenciadas. A responsável do CASA Porto confirmou a situação e explicou que apesar de as equipas de rua tentarem que tal não aconteça, são os “próprios utentes que, procurando maior distanciamento, acabam por levantar a refeição e ir embora ao contrário de antigamente que ficavam a conversar connosco”. Ela acrescentou ainda que também observa esta situação nos restaurantes solidários uma vez que são diversas as pessoas que recorrem aos mesmos e “acabam por pegar na refeição e ir embora”.

A COVID-19 trouxe consigo várias consequências tanto a nível económico como a nível emocional. Sem um abrandamento da pandemia em vista, e com o número de pedidos de ajuda a ter tendência a crescer, é importante tentar manter os auxílios aos que mais necessitam.


Artigo da autoria de Inês Santos. Revisto por Laís França.

Ilustração de Rachel Merlino.

19.11.20

36% das crianças que vivem em instituições têm acompanhamento psicológico

in DN

Há 2519 crianças a viver em instituições que precisam de acompanhamento psicológico, o que representa 35,8% das que não moram com as suas famílias.

O relatório CASA - Caracterização Anual das Crianças em Situação de Acolhimento revela que há mais crianças acolhidas em 2019 do que em 2018, num total de 7046. É uma subida mínima (0,2%), mas é maior a expressão daquelas que têm acompanhamento psicológico: cerca de 36%.

A pedopsiquiatra Ana Vasconcelos percebe porque é que mais de um terço das crianças e jovens que vivem em instituições necessitam de acompanhamento psicológico. "Quem nasce frágil é porque tem pais frágeis ou há uma fragilidade familiar. Há uma disfuncionalidade familiar nas crianças institucionalizadas, e essa disfuncionalidade origina muitas vezes memórias traumáticas. Muitas vezes são situações derivadas de patologias por dependências e que faz que os cuidadores estejam indisponíveis, não há uma continuidade. Pode haver causas genéticas, falta de cuidados de saúde durante a gravidez, há uma série de fatores que provocam essa fragilidade."

7046 crianças institucionalizadas.

Também pode ter a ver com as próprias instituições: irmãos que são separados, crianças que mudam de instituição, adoções fracassadas. "Há, também, uma fragilidade educativa destas crianças e adolescentes", sublinha a médica.

O documento revela, ainda, que 28% dos que vivem em instituições têm problemas de comportamento e 26% precisam de medicação diariamente.

O CASA, recentemente divulgado pelo Instituto da Segurança Social (ISS), ainda não reflete as consequências da covid-19. "Embora a investigação indique que crianças e jovens tendem a ser menos afetadas do que as pessoas mais velhas, verifica-se que a pandemia já teve consequências negativas indiretas para as crianças e os jovens em situação de acolhimento, bem como para os seus pais e responsáveis legais, podendo as mesmas ter impacto a médio e longo prazo", sublinham os técnicos do ISS.
Negligência na maioria

É a negligência dos cuidadores que leva à maioria das situações de acolhimento. Em 57% dos casos, há comprovadamente "falta de supervisão e acompanhamento".

O facto de ter havido um aumento de apoio psicológico em 2019 comparativamente a 2018, de 32,3% para 35,8%, pode, segundo a pedopsiquiatra, dever-se a alterações no sistema escolar. "Por um lado, tem havido alguma turbulência nas escolas pela situação laboral dos professores e, por outro, houve alterações no sistema educativo. O Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho, que estabelece os princípios e as normas que garantem a inclusão, pôs os professores a colaborar com outros técnicos de saúde no sentido em que dá uma maior atenção ao sofrimento das crianças. A escola inclusiva é disso que vem falar: dar mais relevo ao sofrimento das crianças e não julgar as situações como sendo de má aprendizagem."

Estamos a falar de um universo de mais de sete mil crianças e jovens que estavam em risco nas suas famílias. O seu número vinha a diminuir deste 2015 (8600), mas teve um pequeno reverso no último ano.

Quadro resumo do CASA 2019

Pessoas que são retiradas às famílias ou que não se sentem em condições para cuidar deles, que viveram situações graves e que se refletem no futuro. Ana Vasconcelos explica que, por exemplo, "uma criança que sofra de negligência ou maus-tratos no primeiro ano de vida fica com sequelas psicológicas. Não as pode contar, mas pode ter ficado com uma fragilidade emocional que faz que haja necessidade de acompanhamento psicológico. Há toda a panóplia de sinais do sofrimento psicológico de uma criança que nasceu com alguma fragilidade emocional."


No ano passado, 9522 pessoas passaram pelos diferentes tipos de instituições do sistema de acolhimento português, num período em que entraram mais crianças (2498) do que as que saíram (2476).

Aquela diferença faz que se tenha invertido a tendência de descida do número de crianças acolhidas. "Pela primeira vez, na última década, o número de entradas de crianças e jovens no sistema é ligeiramente superior ao número de saídas; esta situação, a manter-se, será geradora de previsível crescimento do número de crianças e jovens no sistema de acolhimento", referem os técnicos do ISS.
Maioridade não é autonomia

A realidade é que são muitos os jovens que atingiram a maioridade mas que não têm condições, nomeadamente financeiras, para serem autónomos. Diminuíram as situações cessadas, nos dois últimos anos".

Em 2019, os institucionalizados com 21 e mais anos tiveram um aumento de 64%, passaram de 140 em 2018 para 229 em 2019.

Há mais rapazes (53%) do que raparigas e mais de um terço têm entre 15 e 17 anos, num programa de acompanhamento social que vai dos 0 aos 24 anos. Vivem em lares generalistas (87%), com algumas exceções: 104 estão em apartamentos de autonomização. É um número reduzido mas que aumentou em relação a 2018 (97). Em contrapartida, são menos 5% os que vivem com uma família de acolhimento (194).


São os distritos de Lisboa (1342), Porto (1159) e Setúbal (496) que tem mais institucionalizações. Já Viana do Castelo (115), Portalegre e Évora (134) registam os números mais baixos.

As 7046 crianças e jovens em acolhimento a 1 de novembro de 2019 representavam 0,26% da população residente até aos 24 anos (2.719.644, Censos 2011).

Se tivermos em conta a população entre os 0 e os 24 anos em cada distrito, Bragança, Coimbra, Portalegre e Beja têm proporcionalmente mais crianças e jovens em situação de acolhimento. Mas alguns são, também, os que mais acolhem crianças e jovens provenientes de outros distritos.

16.11.20

Sem-abrigo. Há quem arrisque a vida para dormir num sítio seguro

Ana Cristina Pereira (texto) e Paulo Pimenta (fotografia), in Público on-line

O recolher obrigatório acautela o apoio às pessoas sem abrigo, que podem circular para ir buscar comida ou outros bens essenciais, mas dificulta os expedientes para angariar dinheiro e matar a ressaca.

O metro sai da estação, veloz. O tempo começa a contar. Tânia acelera pelo passeio estreito que ladeia a linha, cruza-a, escala o muro de dois metros e salta-o no bocadinho em que o arame farpado se interrompe. Tudo depressa, antes que o metro volte a passar. Do outro lado do muro, sente-se segura. “É uma aventura!”

Não a inquieta a ordem de recolher obrigatório de segunda a sexta a partir das 23h. Naquela fábrica devoluta, a polícia não passa. Pode dormir em paz com o namorado na estrutura de ferro e pano que armou a um canto. Naquele espaço, protegido por um trio de guarda-sóis, recriou uma sala de estar e um quarto de dormir.

Ao fim-de-semana, com o recolher obrigatório que vai das 13h às 5h, é outra história. “A pessoa não pode sair e vai levar mais vezes com as autoridades, não é?”, começa por dizer. “A polícia abordar-me, há sempre complicações. Não tenho nada a temer, mas é sempre chato. O pessoal tem de se fazer à vida para comer, para isto, para aquilo.”
Saltar o muro PAULO PIMENTA

Não é pelo recolher obrigatório que as pessoas sem-abrigo vão ficar sem comida ou cobertores. Nas excepções à proibição de circular cabem as deslocações de profissionais e voluntários para prestar assistência a grupos vulneráveis. E as pessoas sem-abrigo estão incluídas nesse vasto grupo, explica Henrique Joaquim, gestor da Estratégia Nacional de Integração dos Sem-abrigo.
Primeira noite, à porta do restaurante

Festa de Natal da Comunidade Vida e Paz para sem-abrigo será em modo “simples, “reduzido”, “alternativo”


Na segunda-feira, dia 9, quando entrou em vigor o novo estado de emergência, a incerteza quase se podia apalpar no centro do Porto. Homens e mulheres paravam à porta do mais antigo restaurante solidário, numa rua inclinada da freguesia da Sé, à espera de vez para recolher o jantar. Antes da pandemia, jantavam lá dentro, a uma mesa, com pratos e talheres. Agora, a comida é para levar. E não inclui sopa, que a sopa entorna, suja o saco de papel, rompe-o.

“É um bocadinho injusto”, comentava um homem com duas voluntárias da Grupo de Acção Social do Porto, Olga Morais e Vânia Sousa, que ali estavam a oferecer algum conforto emocional. “É injusto para muita gente. Muita gente é sem-abrigo. Os sem-abrigo não têm onde se recolher. Não têm casa. Não se vão meter num buraco.”

O homem que assim falava chama-se Carlos. Acabava de completar 65 anos. Estava para ver como reagiria a polícia às suas deambulações pela cidade. Durante a semana, às 23h já estaria a dormir num estacionamento ali perto, na Rua da Alegria. Ao fim-de-semana, pelas 13h estaria de olhos bem abertos. “Não sei… Tenho a minha amiga para me acolher. Se não for a minha amiga, estou tramado.”

Sabia que havia cada vez mais infectados com covid-19, cada vez mais internados nos cuidados intensivos, cada vez mais mortos. Compreendia que era preciso pôr um fim a essa escalada, mas sentia-se injustiçado. “Não tenho culpa que outros andem de noite. Se há ajuntamentos de madrugada, não tenho culpa.”

Natália Coutinho, coordenadora da Centro de Apoio aos Sem Abrigo (CASA) do Porto, também estava preocupada. Os dois restaurantes solidários para pessoas em situação de exclusão funcionam todos os dias das 20h às 22h. Quatro dias por semana, uma equipa de voluntários faz alguma ronda pela cidade a distribuir refeições e acaba depois das 23h. “Da nossa parte, é pacífico, temos uma declaração para apresentar”, dizia. “Vamos tentar perceber se a policia deixa passar os utentes, se não deixa.” Uns dormem perto, outros atravessam a cidade ou cruzam as linhas imaginárias que separam municípios.

Henrique Joaquim não via razões para barrar as pessoas carenciadas, incluindo as que estão sem abrigo, em busca de refeições. Todos se podem deslocar para ir buscar comida ou medicamentos ou outros bens essenciais. “Isso não significa que não possa haver uma ou outra situação esporádica, que se resolve na hora”, comentava. “Na primeira vaga, as pessoas tinham como obrigatoriedade estar no seu domicilio. As forças de segurança tiveram uma abordagem que foi nos sentido de apoio pedagógico com as pessoas sem abrigo. À partida, nada indica que agora vão ter uma postura diferente.”

A direcção nacional da Polícia de Segurança Pública, mais presente nas zonas urbanas, quis garantir que as mesmas regras se aplicavam nos concelhos de maior risco. “As polícias saberão conduzir cabalmente, de forma sustentada na lei e com bom senso, as diversas situações com que se deparem”, declarou o porta-voz nacional, Nuno Carocha. “No caso dos sem-abrigo, tal como é prática habitual, sinalizaremos essas situações às instituições de apoio, no sentido de contribuir para a resolução da situação de debilidade, sempre que possível, a longo prazo, e não só pontualmente.”
Um dos três sem-abrigo a dormir numa lateral do Teatro Nacional de São João. PAULO PIMENTA
Segunda noite, na boca do tráfico

À terça-feira, a equipa de voluntários da CASA pára na rua que liga o Bairro Pinheiro Torres e o Bairro da Pasteleira, ponto nevrálgico do tráfico de heroína e cocaína na Área Metropolitana do Porto. Naquela noite, à mesma hora, noutro lado do passeio, pára a equipa técnica de redução de riscos da Médicos do Mundo.

Todos pareciam conhecer a regras de distanciamento físico, mas amiúde a fila, que se fazia larga, irregular, transformava-se num amontoado. Queriam kits com todo o material de injecção (duas seringas, dois toalhetes, duas ampolas de água bidestilada, duas carteiras com ácido cítrico, dois filtros, dois recipientes), duas máscaras cirúrgicas, papel de alumínio, preservativos. Um ou outro não trazia máscara.

Restaurante que apoia integração dos sem-abrigo reabre com take-away e entregas


Entre os materiais de redução de riscos, satisfaziam alguns pedidos de garrafas de água ou medicamentos para dor, febre e inflamação. A enfermeira Sílvia Teixeira tivera de fazer um penso logo no início da ronda, na Rua Escura, no Bairro da Sé. Ali, a educadora social Cristina Costa saía da carrinha para ouvir um homem: queria passar a tomar metadona com a equipa móvel de Espinho ao invés da de São João da Madeira e pedia-lhe que contactasse a entidade competente para ser atendido.

Aquela equipa faz dois percursos diários de segunda a sexta. No mês passado, distribuiu 1453 kits, num total de 642 contactos, 358 dos quais utentes. Atirando o fim do percurso nocturno das 24h para as 22h30 para não entrar no recolher obrigatório, dispõe de menos tempo para conversar. A máscara também cria distância.

A voluntária Mafalda Paquete gostaria de ter mais tempo para dedicar a cada um. “Tinha de ser das 7h às 19h”, sorria aquela estudante de Medicina. Conhece a maior parte das pessoas que se aproximam daquela carrinha branca, algumas com sistemas imunitários enfraquecidos, doenças sobrepostas. “Infelizmente, acho que as pessoas que ajudamos têm problemas maiores do que a pandemia.”

Naquela noite, os voluntários da CASA prosseguiram a distribuição de comida nas ruas do Porto, entrando no horário abrangido pelo recolher obrigatório. Não houve incidentes com as autoridades. Na quinta-feira voltaram a fazê-lo sem incidentes. E na sexta.
Quarta noite, debaixo da ponte

Na quinta-feira à noite, um homem tentava não tremer debaixo da Ponte da Arrábida. “Aqui estou”, dizia, deitado na margem da via, sem passeio nem passadeira, envolto num cobertor que se confunde com as folhas que cobrem o chão. “Tenho receio de ir para um sítio onde há pessoas a passar. Há pessoas que têm maldade. Fazem mal. Aí não quero estar. Mais quero estar sozinho. Aqui ninguém pára. O barulho que ouço é o dos carros.”

Paulo ainda não sabia como lidar com o recolher obrigatório ao fim-de-semana a partir das 13h. “Para nós, já viu? Não temos nada. Onde é que a gente vai buscar um pão?” Passa horas junto a um supermercado ali próximo. De vez em quando, lá passa alguém que lhe dá uma banana, uma maçã, um pacote de leite achocolatado, um pão ou uma moeda. Tendo dois euros e meio pode comprar uma dose que já nem é bem heroína, é uma mistura de heroína com outras substâncias, “é medicação”.

Conta 51 anos, os últimos oito aos caídos. “A pior desgraça que fiz na minha vida foi meter-me nisto.” Tem duas filhas e nenhum contacto com elas. “Aos princípios, prontos. Depois, uma pessoa anda mais suja…. Tinha receio delas me verem com as colegas e as colegas falarem delas. Fugia. Se as visse, fugia para não as envergonhar.” Tem irmãs e uma até o deixava ficar numa garagem, mas lá na terra, no Marco de Canaveses, era mais difícil sossegar a ressaca. O preço da droga é mais alto e o grupo de potenciais doadores menor. “É uma tristeza. É doloroso isto. Uma pessoa não… só quem vive.”

Rui Salvador, educador de pares da Agência Piaget para o Desenvolvimento, membro da CASO – Consumidores Associados Sobrevivem Organizados e voluntário da Saber Compreender, ouvia-o a prometia voltar durante o dia, numa das suas folgas. Se não estivesse tão isolado, sofreria menos: uma equipa de rua da Norte Vida, que administra um programa de metadona, pára ali perto todos os dias.

Debaixo daquela ponte, com os carros a passar a grande velocidade, o frio tornava-se mais cortante. E as palavras de Tânia, noutra parte da cidade, faziam mais sentido: “Há quem esteja pior. Estou numa área fechada. Não estou tão sujeita a ser abordada. Mesmo em questões de frio, chuva, tudo. Aqui, vou tendo para me agasalhar.”

Na sua salinha, uma dezena de cadeiras de plástico indica que há quem ali venha consumir. Tânia não se injecta, fuma, mas guarda as seringas dos outros e troca-as por kits quando nas proximidades passam as equipas de rua. Quem se serve daquela espécie de sala de chuto dá-lhe uma pedrinha uma vez ou outra e isso é que a vai ajudando a matar a ressaca. Isso e a sucata que apanha com o companheiro.

Com o fim-de-semana do recolher obrigatório a aproximar-se, perguntava-se se teria mais gente, como antes da pandemia: “Não sei se o pessoal que está na rua vai optar por passar o tempo aqui. Se optar, vou ter de arranjar o espaço para terem minimamente o cuidado de ficarem mais afastados uns dos outros.”

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Adivinhava ressacas. Bastava-lhe pensar nos dois rapazes que ali moram, um dentro de uma tenda, outro sem qualquer protecção em redor, apenas com cobertores por baixo e por cima. Trabalham ambos como vigias para um traficante. “A partir das 13h, não se pode andar na rua, vai fechar, não é? Durante a tarde vai ser complicado tirarem pare eles. Depois é estarem aqui. Não têm nada para se distraírem.”

Gestor nacional está a aferir onde é preciso criar estruturas de acolhimento


Ninguém sabe ao certo quantas pessoas estão agora a dormir em entradas de prédios ou vãos de escadas, debaixo de pontes ou viadutos, em carros degradados ou casas devolutas. Segundo o gestor da estratégia nacional, Henrique Joaquim, a contagem está a ser feita pelos Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA).

A contagem de 2019 deve ser divulgada por estes dias, mas está desactualizada. “O contexto não é como era até Março”, recorda. “Há um aumento na procura de refeições, o que não quer dizer que haja mais pessoas em situação de sem-abrigo.”

Muitas das 21 estruturas de acolhimento criadas na primeira vaga de covid-19 tiveram de ser desmanteladas por funcionarem em pavilhões escolares. Henrique Joaquim está a aferir com os NPISA onde é preciso encontrar novas soluções, agora que a segunda vaga se revela maior do que a primeira.

Os protocolos para programas de habitação permanente devem ser assinados até ao final do ano. Para já, segundo explicou, estão a funcionar os apartamentos partilhados no Porto e o housing first em Leiria. Municípios que nunca tiveram respostas para pessoas em situação de sem-abrigo, como Vila Nova de Gaia, devem agora avançar com os dois programas.

Estas respostas, que devem abranger cerca de 580 pessoas, não chegam. A ministra do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, Ana Godinho, já disse que no próximo ano a resposta deverá ser alargada para mais 600 pessoas. E que a tutela está a preparar um programa no âmbito do Mercado Social de Emprego. A.C.P.

9.4.20

Mais pedidos e menos mãos nas rondas de apoio aos sem-abrigo. "Veio isto do vírus e estragou tudo"

André Rodrigues, in RR

Se dantes o Centro de Apoio aos Sem Abrigo (CASA) servia entre 100 e 150 refeições diárias no Porto, "agora ultrapassa as 400". E são menos os voluntários disponíveis para ajudar em plena pandemia de Covid-19. Ricardo, que perdeu o trabalho e está prestes a perder a casa, põe os olhos no futuro: "Quando isto acabar, venho todas as noites cortar o cabelo a quem precisar."

O relógio da Câmara do Porto marca as 20h00, ainda é possível ver a luz do dia que foge para a noite. Na fila já se contam 30, 40, 50 pessoas que não têm casa ou que vivem num quarto.

O dinheiro não chega para comprar comida e num quarto alugado não há como cozinhar refeições. A rua é a única saída.

Os minutos passam, as carrinhas só chegam às 20h30. A ansiedade aumenta, a fila cresce, todos querem chegar primeiro.

A vida na rua é um teste permanente à sobrevivência. Quem não faz pela vida arrisca-se a passar fome. A fila não tem regras. "Não vale passar à frente", é a frase mais simpática dirigida a quem tenta furar a ordem.

Por esta altura, a fila já chega à estação dos CTT da Avenida dos Aliados. Até que, enfim, chegam as carrinhas do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA).

Nuno Olaio coordena a equipa do CASA e dá a voz de comando: "Por favor, mantenham a distância de dois metros uns para os outros." Uns seguem a sugestão à risca, outros ignoram-na e não escondem o enfado.

Nesta noite de frio e chuva, cinco voluntários do CASA distribuem cobertores, meias e, claro, a tão esperada refeição quente.

"Conhecemos as pessoas, definimos como é que tem de ser dado o jantar e pedimos às pessoas para se afastarem", explica à Renascença Nuno Olaio, que conhece de cor os rostos que se apinham na fila, os rostos que procuram na rua o conforto que não encontram em mais lado nenhum.

A esses, juntaram-se muitos mais. Há definitivamente um antes e um depois da Covid-19. Se dantes o CASA servia entre 100 e 150 refeições diárias, "agora ultrapassa as 400". E na linha da frente não há risco zero.

Ao mesmo tempo que oferecem comida e agasalhos, os voluntários procuram, também, sensibilizar para o perigo.

"No início, não havia condições e as pessoas estavam muito juntas, porque não se apercebiam do que estava a acontecer", explica Nuno Olaio. "Nestas duas últimas semanas, passámos a distribuir folhetos informativos juntamente com a refeição, para que as pessoas estejam cientes dos perigos que correm com este coronavírus."

O risco zero não existe mas, para a equipa de voluntários, a presença nas ruas é fundamental, "porque só assim faz sentido, estando perto das pessoas".

"O risco que corremos é controlado, usamos máscaras e viseiras, mas não concebemos o apoio ao outro sem vir para a rua, sem dar a refeição quente, porque sabemos que há dezenas e dezenas de pessoas da cidade do Porto que têm fome".

De acordo com o mais recente levantamento da Câmara do Porto, a cidade terá, aproximadamente, 600 pessoas em situação de sem-abrigo. A maioria vive em albergues temporários, mas haverá, pelo menos, 140 que continuam a dormir na rua.

Teresa é uma das caras habituais nesta fila de apoio. Tem 52 anos, mas as marcas de uma vida de pobreza sugerem uma idade mais avançada.

Todas as noites, Teresa segue a rota das carrinhas de apoio às pessoas que, como ela, não têm abrigo. Desta vez, é na Avenida dos Aliados. É a busca pela sobrevivência que se tornou um hábito "há muitos anos", partilha com a Renascença.
Teresa está desempregada há tanto tempo que nem se lembra e o Rendimento Social de Inserção é o único dinheiro que recebe.

A rua é a casa comum de quem sai à procura de uma refeição quente, em muitos casos, a única refeição quente do dia.

Agora, a ameaça do novo coronavírus agrava o sentimento de insegurança de quem não tem comida nem um teto para dormir.

"Há muitos barulhos e os voluntários fecham as carrinhas", porque há os que "não respeitam as distâncias, parece que têm aquela ânsia de chegar primeiro", explica Teresa, antes de garantir: "Eu não, eu vou na minha vez."

E se, quando chegar a sua vez, já não houver comida para distribuir? "Olhe, paciência, vou-me embora e tenho de me remediar com as latas de atum que ainda tenho", responde.

Menos voluntários para muitos mais pedidos de ajuda
Enquanto o número de pedidos de ajuda cresce, o número de voluntários no terreno segue o caminho inverso.

Nuno Olaio explica que o CASA tem "mais de 400 voluntários", mas por haver gente que pertence aos grupos de risco, ou por contextos familiares que não lhes permitem vir para a rua, a associação viu-se "forçada a reduzir" o número de operacionais nas rondas.

Normalmente, uma equipa é composta por 20 voluntários. "Hoje estamos aqui só cinco, com a ajuda de uma pessoa ex-sem-abrigo que nos tem dado uma grande ajuda".

A Renascença falou com dois sem-abrigo de Leiria p(...)

Chama-se João e tem 52 anos. "Eu é que tenho de lhes agradecer tudo o que fizeram por mim, por isso a minha obrigação é estar aqui a ajudá-los a ajudar, tal como eles me ajudaram a mim", diz à Renascença.
João tem um passado de rua, depois de a doença do pai ter forçado o encerramento do café da família. "Foram os anos mais difíceis da minha vida", confessa.

Nessa altura, as rondas de apoio aos sem-abrigo eram mais frequentes. No último mês, a cidade fechou-se em casa, os turistas desapareceram, a solidariedade diluiu-se. Nas ruas praticamente desertas ficaram as pessoas em situação de sem-abrigo.

"Dantes, ainda tínhamos o jantar de terça-feira à noite e havia distribuições aqui, na Boavista, em todo o lado... Depois veio isto do vírus e estragou tudo".

A pandemia apanhou todos de surpresa. Ricardo chegou do Brasil há pouco tempo para trabalhar como barbeiro. Começou a trabalhar assim que chegou a Portugal, "mas, passada uma semana, fechou tudo".

O saco que leva para casa tem pão, fruta e uma refeição quente. "Eu como pouco e isso ajuda-me a gerir a comida que tenho até ao dia seguinte, o frio também ajuda a não ter fome", confessa à Renascença.

O problema é que, com o trabalho suspenso, este jovem barbeiro não recebe para comer, nem para pagar alojamento.

"Estou a viver num quarto, mas vou ter de o entregar esta semana, porque já não tenho dinheiro para a renda." E para onde planeia ir? "Tenho um colega que me está a ajudar a encontrar uma solução num albergue, para ver se consigo ter onde dormir."

No meio de toda a dificuldade, o que Ricardo sabe é que o regresso ao Brasil "está fora de questão". Ricardo só quer que tudo volte ao normal, quando puder ser.

Nesse dia, fica a promessa de devolver a generosidade com que o ajudaram. "Sou barbeiro e já combinei com o pessoal que, quando isto acabar, venho todas as noites cortar o cabelo a quem precisar."


5.12.19

Restaurante solidário do CASA serve quase 200 refeições por dia

André Rodrigues, in RR

Nos últimos 10 anos, mais do que duplicou o número de sem-abrigo que recorrem à ajuda alimentar de instituições, só na Baixa do Porto. Esta quinta-feira celebra-se o dia Internacional do Voluntariado.

É quarta-feira e faltam poucos minutos para as 20h00. A noite arrefece e cruzar a Praça da Batalha é um duro confronto com a realidade.

Há sem-abrigo que se encolhem debaixo dos cobertores sob a fachada do Teatro Nacional São João, enquanto o resto da cidade vai regressando a casa após mais um dia de trabalho.

Ali mesmo, paredes meias com a Batalha, na Rua do Cimo de Vila, os rostos impacientes que aguardam a abertura do restaurante solidário contrastam com os turistas que se esgueiram pelos becos do centro histórico à procura de um restaurante típico.

Quatro metros mal medidos separam os dois passeios. O fosso emocional, esse, não tem medida.

Os voluntários asseguram o funcionamento de dois restaurantes solidários: um na Batalha outro no Hospital Joaquim Urbano. Esta noite, o restaurante da Baixa espera cerca de 200 pessoas para jantar.
No espaço de dez anos, o número de sem-abrigo a pedir ajuda mais do que duplicou só na Baixa do Porto

O turismo fez com que a cidade crescesse, mas está a empurrar dezenas, centenas de pessoas para a indigência.

É o caso de Daniel. Dorme todas as noites na Ribeira, vive com 180 euros de Rendimento Social de Inserção e não desiste de encontrar um teto, mas continua à espera. E sem resposta.
Daniel comove-se, faz uma pausa. Dez anos de rua deram-lhe bons amigos. Mas isso não preenche o vazio por não ver as filhas nem a família que, segundo diz, “vale zero”. Além disso, aos 40 anos, ainda está preso à droga e perdeu o emprego.

Mas esta noite há qualquer coisa diferente. No meio da sala, estão meia dúzia de sacos com luvas, meias e kits de higiene.

Oferta da Associação Sindical dos Juízes. É o rosto humano da justiça que, tantas vezes se cruza com pessoas sem abrigo nos tribunais, nem sempre pelos melhores motivos.

A noite chega ao fim. Há mais sorrisos e semblantes aliviados. Aqui não é só a fome que se mata. É a solidão dos dias que se tenta afogar, tanto quanto isso seja possível.

Amanhã e depois, todos os dias, haverá mais refeições para partilhar e um ombro amigo para as horas mais difíceis.