in Ecclesia
Porto, 13 abr 2020 (Ecclesia) – A Rede Europeia Anti Pobreza Portugal (EAPN) está a dinamizar uma campanha de angariação de fundos para “atribuir kits de segurança e higiene” às comunidades ciganas, sobretudo as “famílias mais carenciadas que vivem em acampamentos e barracas”.
“Numa primeira fase, dirigimos a nossa doação às cerca de 100 famílias, distribuídas por vários concelhos da região Norte, Centro e Alentejo. Mas gostaríamos de chegar ao maior número de famílias ciganas, no território nacional, principalmente as mais carenciadas”, explica o presidente da EAPN Portugal.
Na informação enviada à Agência ECCLESIA, o padre Joaquim Moreira realça que “todos são convidados a ajudar” a campanha de angariação de fundos ‘SOS comunidades ciganas’ e informa que cada kit de segurança e saúde custa 22 euros.
Os donativos podem ser feitos através de transferência bancária para a conta da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti Pobreza – IBAN: PT50 0036 0030 99101729793 88.
A EAPN Portugal quer aplicar os donativos para doar um kit – máscaras, luvas, álcool, sabão, toalhitas desinfetantes e lixivia – a cada família das comunidades ciganas com quem trabalha no projeto ACEDER.
“Como sabemos, as comunidades ciganas encontram-se numa situação de ainda maior fragilidade e vulnerabilidade. Urge fazer o que estiver ao nosso alcance para minimizar o problema”, salienta o padre Joaquim Moreira.
O presidente da EAPN Portugal alerta que as famílias das comunidades ciganas que vivem em “acampamentos e barracas, sem acesso a água, luz e a uma habitação digna”, são as que mais necessitam de proteção por causa da pandemia do Covid-19, e “possuem apenas, como meio de subsistência”, os rendimentos provenientes da realização das feiras e da venda ambulante, estando as suas “atividades por período indeterminado”.
“As necessidades destas comunidades são extremas, e não só carecem de alimentos e de materiais, como de informação, acompanhamento que garantam as suas necessidades básicas, pois a grave emergência sanitária provocada pela COVID-19 afeta a saúde pública e tem, ainda, profundas repercussões económicas e sociais”, desenvolveu o padre Joaquim Moreira.
O sacerdote da Diocese do Porto assinala que vão tentar “ser o mais abrangente possível”, através dos núcleos distritais que a organização tem por Portugal e que “já tem sinalizados alguns desses agregados” que vão receber o kit de segurança e saúde.
A EAPN – European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti Pobreza) foi fundada em 1990, em Bruxelas, e está em 31 países, nomeadamente em Portugal desde 17 de dezembro do ano seguinte, com sede no Porto.
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14.4.20
Portugal: Rede Europeia Anti Pobreza quer dar «kits de segurança e higiene» às comunidades ciganas
13.9.18
Portugueses ciganos – o escamoteamento da ciganofobia e o discurso institucional
José Gabriel Pereira Bastos, in Público on-line
Os portugueses ciganos precisam que o Estado promova um processo de discriminação positiva.
Do caso particular, que o juiz apreciou tendo em conta o contexto familiar e local, passou-se para o discurso idealista e normativo dos servidores do Estado e das instituições internacionais, escamoteando a real situação de marginalização e de xenofobia que atinge a larga maioria destes portugueses, e ainda mais no Interior. De Sul a Norte, a ciganofobia continua a constituir “a mais grave e escandalosa de todas as situações de racismo e xenofobia registadas em Portugal”, como descrevi, em 1997, num relatório sobre a juventude das minorias étnicas, encomendado pelo Governo de António Guterres [1]. Em 20 anos, pouco mudou.
A pobreza, a exclusão habitacional e do mercado de trabalho por autarcas e empregadores, o analfabetismo e a baixa escolaridade, derivados do nomadismo forçado, a marginalização ciganófoba, a violência policial e a elevadíssima taxa de aprisionamento (por pequeno tráfico de droga, para fins de sobrevivência familiar) criavam e ainda criam um círculo vicioso a que escapavam sobretudo os feirantes (em vias de extinção, a sul) e os vendedores ambulantes. A vida familiar e comunitária, com os seus casamentos e festas, e a inserção de muitos nas Igrejas Ciganas, permitiam escapar à violência ciganófoba de populações [2] e ao silêncio cúmplice de políticos [3].
Escamoteado o quadro geral, de repente, o que fica em causa, para a secretária de Estado, é “o acesso à vida plena do seu futuro profissional e cidadão” (qual ‘vida plena’, qual futuro profissional?). E para a coordenadora do Observatório, o problema seria a “desigualdade de género entre estudantes ciganos” e, imagine-se, “o direito humano fundamental à formação de cidadãos conscientes e críticos/as”.
Os portugueses ciganos precisam que o Estado promova um processo de discriminação positiva.
Do caso particular, que o juiz apreciou tendo em conta o contexto familiar e local, passou-se para o discurso idealista e normativo dos servidores do Estado e das instituições internacionais, escamoteando a real situação de marginalização e de xenofobia que atinge a larga maioria destes portugueses, e ainda mais no Interior. De Sul a Norte, a ciganofobia continua a constituir “a mais grave e escandalosa de todas as situações de racismo e xenofobia registadas em Portugal”, como descrevi, em 1997, num relatório sobre a juventude das minorias étnicas, encomendado pelo Governo de António Guterres [1]. Em 20 anos, pouco mudou.
A pobreza, a exclusão habitacional e do mercado de trabalho por autarcas e empregadores, o analfabetismo e a baixa escolaridade, derivados do nomadismo forçado, a marginalização ciganófoba, a violência policial e a elevadíssima taxa de aprisionamento (por pequeno tráfico de droga, para fins de sobrevivência familiar) criavam e ainda criam um círculo vicioso a que escapavam sobretudo os feirantes (em vias de extinção, a sul) e os vendedores ambulantes. A vida familiar e comunitária, com os seus casamentos e festas, e a inserção de muitos nas Igrejas Ciganas, permitiam escapar à violência ciganófoba de populações [2] e ao silêncio cúmplice de políticos [3].
Escamoteado o quadro geral, de repente, o que fica em causa, para a secretária de Estado, é “o acesso à vida plena do seu futuro profissional e cidadão” (qual ‘vida plena’, qual futuro profissional?). E para a coordenadora do Observatório, o problema seria a “desigualdade de género entre estudantes ciganos” e, imagine-se, “o direito humano fundamental à formação de cidadãos conscientes e críticos/as”.
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