Mariana Durães (texto) e Teresa Pacheco Miranda (vídeo e fotos), in Público on-line
Dizem que eles não fumam, não bebem, não têm relações sexuais. Que são inclusivos, depressivos ou dependentes da tecnologia. São muitos os estudos, relatórios ou notícias sobre a Geração Z (e todas as outras) — mas até que ponto são rigorosos? “Não há propriamente traços que definam uma geração de forma uniforme”, afiança investigador.
A maior parte não sabe o que é viver sem Internet: os mais velhos lembram-se, no limite, de ter Internet limitada; os mais novos com certeza estarão a rir-se da frase anterior. Cresceram num panorama de crise e recessão económica. Habituaram-se ao termo “terrorismo”. Herdaram os desafios de um planeta degradado.
Falamos da Geração Z, dos jovens nascidos entre meados dos anos 90 e 2010. Em Portugal, são cerca de dois milhões e meio os que pertencem a este grupo — globalmente, segundo dados da Organização das Nações Unidas, deverão representar 32% da população. E o que podemos dizer sobre eles? À partida, quase nada: “Não há propriamente traços que definam uma geração de forma uniforme”, explica o sociólogo Vítor Sérgio Ferreira, autor do livro Geração Milénio? Um Retrato Social e Político e especializado em sociologia da juventude. “Há acontecimentos que são comuns, mas que são experienciados de forma diferente, consoante as condições sociais de existência dos jovens.”
Generalizações postas de lado, quisemos ouvir um retrato na primeira pessoa. Procurámos a Geração Z e convidámo-la a falar dela própria, da percepção que têm dos seus pares e do que pensam em relação aos estudos (nem sempre tão fundamentados) de que são protagonistas. Perguntar-lhes se concordam com as notícias que dizem que estes jovens fumam menos, bebem menos, têm menos relações sexuais. O que acham das investigações que referem que consomem mais drogas e são mais inclusivos, mas também mais depressivos; que dizem como eles vão mudar o mundo — ou que condenam o quão pouco querem saber dele. Que têm conclusões que nem sempre coincidem.
As reacções são semelhantes quando atiramos a primeira provocação: “É verdade que a Geração Z não fuma, não bebe e não tem relações sexuais?”. Uma gargalhada, um revirar de olhos ou um “não” peremptório. “Não concordo. Não fumo, nem bebo — nem quando vou sair. Mas não concordo porque sou a única”, afirma Inês Rodrigues, de 18 anos, estudante de Arquitectura da Universidade do Porto.
Miguel Correia, aluno do mesmo curso, acredita que a teoria só pode ter sido concebida por “pessoas que não estão na Geração Z” e Isabel Fernandes, 20 anos, arrisca dizer que “há, na verdade, um aumento destes hábitos”, principalmente no que toca a beber. Marta Tuna, estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Porto, ressalva que “não se pode generalizar”, mas que “a maior parte das pessoas” com quem se dá, fuma. “E as outras coisas também.”
“Este discurso ‘geracionista’ tem sido muito comum, ultimamente. A ideia de olhar para os jovens desta forma muito uniforme”, quando, na verdade, “o que é comum são determinadas condições”, como o caso da “precarização do mercado de trabalho” — “uma condição estrutural que se acentuou mais durante o período da crise” — e da “digitalização do mundo”, refere Vítor Ferreira. São mudanças “marcantes”, ainda que “silenciosas”, que podem “fazer mudar experiências juvenis” — o que não quer dizer que, a partir desses dois acontecimentos, se possam “generalizar traços de personalidade”.
“Dizemos que existe uma geração quando existem condições que mudaram de tal forma que o curso de vida dos jovens que nasceram nessas condições vai ser bastante diferente do das gerações anteriores”, explica o sociólogo. A partir daí, “há todo um conjunto de estudos sobre gerações que são feitos por empresas de consultoria e de marketing, que têm interesses específicos em generalizações”, considera. “O que essas empresas querem é condicionar determinados tipos de práticas e de consumo.”
Num estudo do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), feito em 2018 com 66 148 jovens que participaram no Dia da Defesa Nacional e completaram 18 anos nesse ano, 88,9% dos inquiridos referiram já ter consumido bebidas alcoólicas, 60,1% já tinham consumido tabaco, 35,6% substâncias ilícitas (drogas) e 7,1% tranquilizantes ou sedativos sem receita médica. “As prevalências de consumo de tabaco, bebidas alcoólicas e tranquilizantes ou sedativos sem receita médica têm-se mantido estáveis entre 2015 [data em que foi realizado o primeiro estudo] e 2018”, lê-se no documento.
Já um relatório da Direcção-Geral de Saúde, feito em 2019, compara o consumo de tabaco junto dos alunos do ensino público entre os 13 e os 18 anos em 2003 e em 2015. Os dados mostram que tem havido uma diminuição em todas as idades: em 2003, a percentagem de jovens com 13 anos que já tinham experimentado fumar era de 29,4%; em 2015, era 11,7%. Quanto aos de 18 anos, os mais velhos da amostra, os valores diminuíram de 69,5%, em 2013, para 58,7%, em 2015. As conclusões do relatório dizem que “embora muitos progressos se tenham alcançado, quer a nível global, quer nacional, as tendências actuais sugerem que o uso do tabaco não está a diminuir tão rapidamente como seria desejável”.
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27.1.20
30.1.19
Portugueses já consomem mais álcool do que os russos. OMS quer preços mais altos
Alexandra Campos, in Público on-line
Organização Mundial de Saúde defende aumento da taxação e estabelecimento de preço mínimo para bebidas alcoólicas, além da diminuição da exposição à publicidade e ao marketing.
Os europeus, em geral, estão a consumir menos bebidas alcoólicas mas a Europa continua a ser a região com maior consumo per capita de álcool no mundo. Ao mesmo tempo, nos países do Sul da Europa os níveis de consumo não se alteraram de forma significativa nos últimos anos, ao contrário do que aconteceu em alguns países do Leste, onde se observou uma quebra acentuada. Um fenómeno que fez com que vários países — e Portugal está incluído neste grupo — já tivessem ultrapassado os russos no que ao consumo de álcool puro per capita diz respeito, enfatizou esta segunda-feira Carina Ferreira Borges, do gabinete regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, num encontro em Santo Tirso.
São as estimativas mais recentes (relativas a 2016) da OMS. O último estudo da organização, que foi apresentado no final do ano passado, indicava que o consumo nacional anual per capita de álcool puro (a partir dos 15 anos) era então de 12,3 litros por ano (9,8 na região europeia) e de 11,7 na Federação Russa. No topo estava a República da Moldova, com 15,2 litros per capita.
À margem de um encontro com representantes de organizações da sociedade civil para discutir o grau de implementação do Plano Europeu de Acção para a Redução dos Malefícios Associados ao Consumo de Álcool 2012-2020, a perita da OMS recordou este e outros dados para sublinhar que "ainda há muito a fazer" nesta área.
Carina Ferreira Borges defendeu, logo à cabeça, o aumento da taxação e o estabelecimento de um preço mínimo para as bebidas alcoólicas. Foi graças a medidas deste tipo que a Rússia conseguiu diminuir o consumo de bebidas alcoólicas, apesar de a Escócia ter sido o primeiro país a avançar com o estabelecimento de um preço mínimo, “com muita resistência por parte da indústria das bebidas alcoólicas, e que levou a grandes discussões ao nível dos tribunais”, recordou.
A outra área de acção prioritária para a OMS passa pela diminuição da exposição à publicidade e ao marketing das bebidas alcoólicas, sobretudo nas redes sociais. Oito anos após o arranque deste plano de acção — que foi aprovado por 53 Estados-membros —, a terceira área específica em que a organização preconiza um maior investimento é a que está relacionada com a disponibilidade e o acesso a bebidas alcoólicas (nomeadamente nas escolas).
Portugal é o oitavo país da União Europeia com mais mortes causadas pelo álcool
São três das dez áreas para a acção definidas pela OMS no plano europeu e que são "curiosamente" aquelas em que são menores os índices de concretização, lamenta. "São áreas onde menos foi feito e que têm um impacto extremamente importante" na mortalidade associada ao consumo de álcool, reforça, advogando que Portugal discuta a introdução deste e de outro tipo de medidas porque fazem com que o álcool - que "não é uma substância igual a qualquer outra" — seja menos acessível.
Três dezenas de organizações
O encontro com três dezenas de representantes de organizações da sociedade civil de 15 países europeus em Portugal segue-se a uma consulta efectuada aos Estados-membros sobre esta matéria, na semana passada. "Queremos perceber onde estamos, o que podemos fazer para melhorar, quais são os desafios", sintetiza a especialista, lembrando que um milhão de pessoas morre todos os anos na Europa devido ao consumo de álcool, doenças cardiovasculares na sua maior parte, mas também cancros, cirroses, acidentes.
"As áreas do marketing e do preço das bebidas terão um grande impacto em termos da redução da mortalidade ligada ao álcool e Portugal tem uma mortalidade que é importante e que precisa de ser mudada", nota. "Quem está exposto consome mais, e nos jovens [este nível de exposição ao marketing] é extremamente problemático, porque não só consomem mais como de uma forma diferente, com maiores danos".
Consumo de álcool entre os jovens de 15 anos desceu para metade em 12 anos
De acordo com um comunicado divulgado no encontro (que é organizado pela Câmara de Santo Tirso), o número de mortes ligadas ao álcool é elevado entre jovens — "uma em cada sete mortes entre os 15 e os 19 anos" e "uma em cada cinco mortes entre os 20 e os 24". No ano passado, porém, o SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e Dependências) lembrava, a propósito deste relatório da OMS, que a taxa global de problemas associados ao álcool é inferior em Portugal quando comparada com a média da União Europeia (UE), tal como a mortalidade — que era (em 2016) de 282 por milhão de habitantes no país, contra 383 na UE.
"Temos hoje suficiente evidência científica que nos permite dizer que há coisas que têm de ser mudadas. Não podemos manter os mesmos discursos", argumenta Carina Ferreira Borges. No encontro, que termina terça-feira, vão estar ainda em debate medidas como a da alteração da rotulagem das bebidas alcoólicas. A Irlanda aprovou em 2018 aprovar um pacote de medidas que inclui a equiparação na rotulagem das bebidas alcoólicas ao tabaco (risco de cancros). Isto não será ir demasiado longe? "Há evidência científica de que o consumo de álcool está ligado a uma maior risco de cancro", diz. Sublinhando que o consumidor tem direito a ser informado, a especialista dá um exemplo: "A maior parte das mulheres não sabe que o álcool é um dos factores de risco para o cancro da mama".
Organização Mundial de Saúde defende aumento da taxação e estabelecimento de preço mínimo para bebidas alcoólicas, além da diminuição da exposição à publicidade e ao marketing.
Os europeus, em geral, estão a consumir menos bebidas alcoólicas mas a Europa continua a ser a região com maior consumo per capita de álcool no mundo. Ao mesmo tempo, nos países do Sul da Europa os níveis de consumo não se alteraram de forma significativa nos últimos anos, ao contrário do que aconteceu em alguns países do Leste, onde se observou uma quebra acentuada. Um fenómeno que fez com que vários países — e Portugal está incluído neste grupo — já tivessem ultrapassado os russos no que ao consumo de álcool puro per capita diz respeito, enfatizou esta segunda-feira Carina Ferreira Borges, do gabinete regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, num encontro em Santo Tirso.
São as estimativas mais recentes (relativas a 2016) da OMS. O último estudo da organização, que foi apresentado no final do ano passado, indicava que o consumo nacional anual per capita de álcool puro (a partir dos 15 anos) era então de 12,3 litros por ano (9,8 na região europeia) e de 11,7 na Federação Russa. No topo estava a República da Moldova, com 15,2 litros per capita.
À margem de um encontro com representantes de organizações da sociedade civil para discutir o grau de implementação do Plano Europeu de Acção para a Redução dos Malefícios Associados ao Consumo de Álcool 2012-2020, a perita da OMS recordou este e outros dados para sublinhar que "ainda há muito a fazer" nesta área.
Carina Ferreira Borges defendeu, logo à cabeça, o aumento da taxação e o estabelecimento de um preço mínimo para as bebidas alcoólicas. Foi graças a medidas deste tipo que a Rússia conseguiu diminuir o consumo de bebidas alcoólicas, apesar de a Escócia ter sido o primeiro país a avançar com o estabelecimento de um preço mínimo, “com muita resistência por parte da indústria das bebidas alcoólicas, e que levou a grandes discussões ao nível dos tribunais”, recordou.
A outra área de acção prioritária para a OMS passa pela diminuição da exposição à publicidade e ao marketing das bebidas alcoólicas, sobretudo nas redes sociais. Oito anos após o arranque deste plano de acção — que foi aprovado por 53 Estados-membros —, a terceira área específica em que a organização preconiza um maior investimento é a que está relacionada com a disponibilidade e o acesso a bebidas alcoólicas (nomeadamente nas escolas).
Portugal é o oitavo país da União Europeia com mais mortes causadas pelo álcool
São três das dez áreas para a acção definidas pela OMS no plano europeu e que são "curiosamente" aquelas em que são menores os índices de concretização, lamenta. "São áreas onde menos foi feito e que têm um impacto extremamente importante" na mortalidade associada ao consumo de álcool, reforça, advogando que Portugal discuta a introdução deste e de outro tipo de medidas porque fazem com que o álcool - que "não é uma substância igual a qualquer outra" — seja menos acessível.
Três dezenas de organizações
O encontro com três dezenas de representantes de organizações da sociedade civil de 15 países europeus em Portugal segue-se a uma consulta efectuada aos Estados-membros sobre esta matéria, na semana passada. "Queremos perceber onde estamos, o que podemos fazer para melhorar, quais são os desafios", sintetiza a especialista, lembrando que um milhão de pessoas morre todos os anos na Europa devido ao consumo de álcool, doenças cardiovasculares na sua maior parte, mas também cancros, cirroses, acidentes.
"As áreas do marketing e do preço das bebidas terão um grande impacto em termos da redução da mortalidade ligada ao álcool e Portugal tem uma mortalidade que é importante e que precisa de ser mudada", nota. "Quem está exposto consome mais, e nos jovens [este nível de exposição ao marketing] é extremamente problemático, porque não só consomem mais como de uma forma diferente, com maiores danos".
Consumo de álcool entre os jovens de 15 anos desceu para metade em 12 anos
De acordo com um comunicado divulgado no encontro (que é organizado pela Câmara de Santo Tirso), o número de mortes ligadas ao álcool é elevado entre jovens — "uma em cada sete mortes entre os 15 e os 19 anos" e "uma em cada cinco mortes entre os 20 e os 24". No ano passado, porém, o SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e Dependências) lembrava, a propósito deste relatório da OMS, que a taxa global de problemas associados ao álcool é inferior em Portugal quando comparada com a média da União Europeia (UE), tal como a mortalidade — que era (em 2016) de 282 por milhão de habitantes no país, contra 383 na UE.
"Temos hoje suficiente evidência científica que nos permite dizer que há coisas que têm de ser mudadas. Não podemos manter os mesmos discursos", argumenta Carina Ferreira Borges. No encontro, que termina terça-feira, vão estar ainda em debate medidas como a da alteração da rotulagem das bebidas alcoólicas. A Irlanda aprovou em 2018 aprovar um pacote de medidas que inclui a equiparação na rotulagem das bebidas alcoólicas ao tabaco (risco de cancros). Isto não será ir demasiado longe? "Há evidência científica de que o consumo de álcool está ligado a uma maior risco de cancro", diz. Sublinhando que o consumidor tem direito a ser informado, a especialista dá um exemplo: "A maior parte das mulheres não sabe que o álcool é um dos factores de risco para o cancro da mama".
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