Mostrar mensagens com a etiqueta Estoril. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Estoril. Mostrar todas as mensagens

30.8.23

Helena Canhão: "A pobreza também tem consequências na Saúde"

Maria João Martins,  in Observador


Pela primeira vez nas Conferências do Estoril, os temas de Saúde ganham protagonismo. Helena Canhão, diretora da Nova Medical School, explica que os problemas emergentes do mundo se ligam à Saúde.


Tem da Medicina uma visão abrangente, que a põe em relação com as ciências sociais e humanas, com a política e com a comunicação. Helena Canhão, diretora da Nova Medical School, professora catedrática de Medicina, é ela própria uma boa comunicadora, que, em poucos minutos, conta a história fascinante da sua escola, até há bem pouco tempo designada Faculdade de Ciências Médicas. Uma história que inclui o Vasquinho da Anatomia a confundir os mestres com o esternocleidomastoideo, no filme “A Canção de Lisboa”. Mas, tal como é ciosa deste passado, Helena Canhão encara com o mesmo entusiasmo os desafios que o futuro coloca às profissões na área da Saúde. Especializada em Reumatologia, é também dirigente e responsável médica pela Patient Innovation, organismo que premeia as iniciativas inovadoras em benefício de doentes e cuidadores, como se verá durante esta 8a.ª edição das Conferências do Estoril.


O que levou a Nova Medical School a associar-se às Conferências do Estoril? Na verdade, estamos habituados a que as questões relacionadas com a saúde sejam tratadas em congressos médicos, com pouca relação com a economia, a política ou as artes, como aqui parece ser o objetivo.
Antes de mais, a localização. Na verdade, ainda estamos em Lisboa, no edifício onde sempre estivemos, mas esperamos mudar-nos em breve para Carcavelos, onde ficaremos junto ao campus da Nova SBE. Mas, claro, também é muito importante o facto de estas Conferências serem muito reconhecidas nacional e internacionalmente. Em meu entender, este ano ainda faz mais sentido promovermos esta associação porque o tema é a reumanização da sociedade — e isso tem tudo a ver com a área da saúde. Surgimos, pois, como parceiros naturais destas Conferências. Temos de ter em conta que problemas emergentes, como a pobreza e a desigualdade social, têm também consequências ao nível da Saúde.


Mas esses aspetos são geralmente tratados pelas ciências sociais ou pela política…
Sim, mas as condições em que as populações vivem não são indiferentes para a saúde. O mesmo acontece com as alterações climáticas. As pessoas estão efetivamente a morrer de frio e de calor, há dados estatísticos que o comprovam. As epidemias, as pandemias, a resistência a antibióticos — são todos fenómenos novos. Não podemos continuar a trabalhar estes temas em caixinhas demasiado técnicas.
“As pessoas conseguem viver hoje com doenças que antes eram letais”

Outro tema relevante é o do envelhecimento. Pela primeira vez na História da humanidade, temos alguns milhões de pessoas, em todo o mundo, a atingir uma idade avançada. É um exemplo de um tema social com as tais implicações na Saúde?

É um tema da maior relevância. As pessoas conseguem viver hoje com doenças que antes eram letais e vivem realmente mais tempo, mas temos que estar atentos à sua qualidade de vida. Há uma série de novos problemas que têm de ser equacionados e que nem sequer existiam até aqui. Por outro lado, estas Conferências também estarão muito atentas aos jovens e às questões relacionadas e colocadas pelas novas tecnologias. Queremos lançar pistas e debater o modo como os profissionais de Saúde do futuro vão tratar do mundo, recorrendo precisamente a essas novas ferramentas, tão diferentes das tradicionais, mas sem abdicar da humanização. No fundo, importa perceber como é que vamos ser cada vez melhores educadores, melhores comunicadores ou cuidadores.


Há muito interesse por parte dos estudantes pelas Conferências?
Sim, neste momento em que falamos já temos quase três mil inscritos. Umas largas centenas são estudantes. No caso dos nossos, há várias formas de participação possíveis: alguns integram as equipas médicas que prestam apoio, no local, às Conferências, outros estarão na plateia a lançar perguntas aos convidados. Mas também temos outros no apoio à organização. Isto para além dos muitos que se inscreveram para assistir.
“Espero que nos sintamos inspirados”

Na área da Saúde quais foram os critérios para a escolha dos convidados? Para já temos dois Prémios Nobel…
Procuramos escolher os melhores nas suas áreas, claro, mas também pessoas que sejam boas comunicadoras e que sejam capazes de falar para a comunidade. Por outro lado, procuramos integrar no programa momentos para quebrar o gelo. Temos médicos que fazem performances e que são também músicos. Por outro lado, também vamos ter os prémios da Patient Innovation, que já têm alguns anos e que são um projeto meu e do Professor Pedro Oliveira, ainda antes de sermos ambos diretores das nossas escolas. É um projeto relacionado justamente com as questões da qualidade de vida.

Este prémio tem três vertentes…
Sim, por um lado, distinguimos doentes que trabalham modos de se integrarem melhor na sociedade, não deixando que a doença se torne um estigma ou um modo de isolamento. Também temos prémios para cuidadores ou para colaboradores de empresas que encontram um modo de ajudar uma pessoa com um problema específico.

Vamos imaginar que não está envolvida na organização. Como professora, o que gostaria de encontrar nestas Conferências?
Penso que o ambiente em si é logo muito inspirador. Por isso, o que espero é que, no regresso de férias, possamos sentir-nos mais determinados a introduzir fatores de mudança nas nossas vidas, que possamos perceber como é que podemos sentir-nos mais saudáveis e, logo, tornar o mundo melhor. Por isso, o que espero é que nos sintamos inspirados, ao mesmo tempo que aprendemos muito sobre temas de importância vital para o nosso futuro.

Este artigo faz parte de uma série sobre as Conferências do Estoril, evento de que o Observador é media partner.Resulta de uma parceria com a Nova Medical School, Nova School of Business and Economics e a Câmara Municipal de Cascais. É um conteúdo editorial independente


30.7.21

Há Direito, o projecto que quer levar justiça e igualdade aos bairros sociais

Mariana Marques Tiago, in Público on-line

No bairro do Fim do Mundo, no Estoril, houve uma “conexão entre ‘betinhos’ e ‘chungas’”. A culpa foi do Há Direito e o projecto não quer ficar por aqui. O objectivo é tornar o direito acessível a todos, sobretudo a quem vive em bairros sociais.

Leonel Gomes Cá nasceu no Bairro do Fim do Mundo, no Estoril. Também conhecido por Bairro Novo do Pinhal, este é um bairro social como tantos outros em Portugal, mas o morador quer mudar esta realidade. Por isso criou o projecto​ Há Direito para mostrar aos amigos e vizinhos que, ao melhor compreenderem a lei, mais oportunidades surgem e o Fim do Mundo é só o início.

“Em Portugal, existe um problema com os bairros sociais. Durante o dia não fizeram nada, nem aprenderam nada, mas, na verdade, não há apoios efectivos. Ninguém sabe o que há aqui nem quem vive aqui e as medidas aplicadas são más porque não conhecem o bairro”, explica.

Leonel é estudante de Direito na Universidade Lusíada e, tendo um sentido de justiça apurado, decidiu que era altura de mudar o paradigma destes bairros. Percebeu rapidamente — e em particular durante a pandemia — que, quando uma notícia mais polémica é publicada, há sempre comentários que mencionam leis, que acusam algo ou alguém de ilegalidades e surge sempre a palavra “anticonstitucional”. No entanto, afirma, “as pessoas reclamam, mas não sabem quais são os seus verdadeiros direitos”.

Face a esta situação, uniu-se a um amigo, André Simões, e apresentou-lhe aquilo que, nove meses depois, ganhou o nome Há Direito.

“Foi um dos melhores dias da minha vida”, começa por contar Leonel. O ponto de encontro foi o campo de futebol e, pelas 15h de dia 20 de Junho, entraram os primeiros participantes. “Fomos à sorte… Não sabíamos quantas pessoas iam aparecer, mas ficámos surpreendidos! Foram entre 25 e 30”, relembra, acrescentando que se notavam presentes “os estereótipos ‘betinhos’ e ‘chungas’, mas, no final, foi a melhor conexão de sempre”.

De acordo com o estudante, “a maioria dos participantes nunca teve um código de Direito à frente, nunca viu uma lei e nunca a interpretou” e foi isso que, enquanto equipa, quiseram mudar.

A sessão no Bairro do Fim do Mundo começou com uma palestra de um professor sobre igualdade de oportunidades e noção de justiça. Depois foi a vez dos alunos voluntários que se associaram ao projecto. Explicaram a importância da existência de leis e normas e, conta Leonel, “neste ponto a Margarida [uma voluntária] deu um exemplo muito bom! Disse-lhes: Sabem o que é direito? Vocês chegaram aqui, meteram a máscara, desinfectaram as mãos e sentaram-se: só isto já é direito”. E foi através deste registo informal que os voluntários desmontaram algo que, por vezes, é visto de forma complexa e desinteressante.
Das empresas ao crime

Face a uma plateia tão interactiva, houve necessidade de perceber qual a matéria em que se deviam focar. Assim, explica Leonel, “demos a volta à situação e começámos o dia a perguntar quem queria ser empreendedor ou criar uma empresa. Começaram logo a surgir respostas. Havia quem quisesse montar uma barbearia ou quem quisesse criar uma empresa de bolos”. Rapidamente os voluntários do projecto explicaram o processo de criação, a questão das férias e despedimentos e, ainda, direito laborais. Mas depressa chegaram à questão do crime.

“É notório que em bairros sociais existe crime, é uma realidade”, partilha o criador do projecto. Por isso mesmo, a tarefa passou por “olhar para as especificidades do direito penal, a questão das detenções e tentar não usar palavras tão jurídicas, porque isto é um tema complicado”.

Na última fase do dia dividiram os participantes em dois grupos e apresentaram dois casos práticos: um relacionado com empresas e outro com o direito do trabalho. A tarefa dos participantes era, com base naquilo que tinha sido partilhado ao longo do dia, perceber qual a melhor forma de expor e defender o caso: “no palco, estavam os juízes, que éramos nós [voluntários], e a nossa capa era a capa do traje académico”, explica Leonel entre risos.

De acordo com o futuro advogado, “os bairros sociais são, a nível de mobilização, muito difíceis… Houve muito trabalho por trás. Para ir ao encontro das pessoas, é preciso fazer um estudo de campo: perguntar o que gostavam de saber mais e o que é mais importante para eles. Podemos achar que há informação muito importante que deve ser divulgada, mas depende do contexto das pessoas”.

Por isso mesmo, o Há Direito não depende apenas de Leonel, André e Margarida, mas de mais 12 voluntários que fizeram a magia acontecer (e aos quais se uniram professores que acompanharam todo o processo e aferiram a qualidade e veracidade daquilo que era dito aos participantes). Através de uma publicação na Internet e de divulgação na faculdade, vários foram os alunos interessados no projecto. Depois da primeira fase de entrevistas, Leonel sentiu necessidade de “afinar as pessoas para ter a certeza de que tinham o perfil certo”. Portanto, numa segunda etapa, a abordagem escolhida foi “fazer perguntas de direito, numa espécie de prova à queima-roupa. Fazia-lhes várias perguntas rápidas e tinham que saber responder rapidamente, correctamente e sem linguagem formal”, explica.

“Foi lindo! Senti as pessoas a dizer ‘muito obrigado por me teres dado esta oportunidade’… No início, demos um caderno a cada um dos participantes e, no final, eram tantos os que tinham notas apontadas que nem queríamos acreditar”.

É por agradecimentos como este e por acreditar no potencial de quem vive em bairros sociais que Leonel não quer ficar por aqui: “A ideia é entrar em bairros mais problemáticos porque queria agarrar jovens com 13 e 14 anos. Porque podemos mostrar-lhes que podem vir a ser um advogado um dia, por exemplo”. A primeira edição, no Bairro do Fim do Mundo, serviu como um “teste ao projecto para perceber se é possível sair do papel”.

Depois da prova de fogo, Leonel espera agora seguir para o Bairro da Torre, também em Cascais, já que o projecto é patrocinado pela câmara municipal, em parceria com a Take It e a Sociedade de Advogados Albuquerque & Almeida. Para o jovem, “o direito não são só leis, é mais do que isso. E, por isso, o objectivo é poder mostrá-lo a toda a gente”

Texto editado por Ana Fernandes