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8.6.22

Mangualde inova atendimento com Plataforma de Ação Social online

in Mais Beiras

A Câmara Municipal de Mangualde desenvolveu mais um instrumento de ajuda ao munícipe, inteiramente online como forma de evitar a propagação do vírus, não havendo necessidade de deslocação ao local, para tratar de assuntos relativos à ação social.

No âmbito do projeto “Modernização Administrativa na Região Viseu Dão Lafões — Um modelo, catorze municípios”, foi desenvolvida a Plataforma de Ação Social (PAS). É uma ferramenta de incorporação de informação de cariz social, de suporte à gestão operacional, monitorização de casos e de apoio à tomada de decisão na atribuição de apoios sociais, permitindo, a racionalização dos recursos existentes bem como o acompanhamento de situações complexas ou de emergência social.

Enquadrado na Lei-quadro 50/2018 de 16 de agosto, da transferência de competências para as autarquias locais e para as entidades intermunicipais no domínio da ação social, a PAS — Plataforma de Ação Social, torna-se um instrumento essencial no apoio ao desenvolvimento da ação social e concretização das políticas locais deste cariz.

Para efetuar o pedido de atendimento social online basta aceder à seguinte ligação: https://pas.cmmangualde.pt/

Após a sua marcação deverá aguardar o contacto dos serviços com a confirmação.

30.7.21

Há Direito, o projecto que quer levar justiça e igualdade aos bairros sociais

Mariana Marques Tiago, in Público on-line

No bairro do Fim do Mundo, no Estoril, houve uma “conexão entre ‘betinhos’ e ‘chungas’”. A culpa foi do Há Direito e o projecto não quer ficar por aqui. O objectivo é tornar o direito acessível a todos, sobretudo a quem vive em bairros sociais.

Leonel Gomes Cá nasceu no Bairro do Fim do Mundo, no Estoril. Também conhecido por Bairro Novo do Pinhal, este é um bairro social como tantos outros em Portugal, mas o morador quer mudar esta realidade. Por isso criou o projecto​ Há Direito para mostrar aos amigos e vizinhos que, ao melhor compreenderem a lei, mais oportunidades surgem e o Fim do Mundo é só o início.

“Em Portugal, existe um problema com os bairros sociais. Durante o dia não fizeram nada, nem aprenderam nada, mas, na verdade, não há apoios efectivos. Ninguém sabe o que há aqui nem quem vive aqui e as medidas aplicadas são más porque não conhecem o bairro”, explica.

Leonel é estudante de Direito na Universidade Lusíada e, tendo um sentido de justiça apurado, decidiu que era altura de mudar o paradigma destes bairros. Percebeu rapidamente — e em particular durante a pandemia — que, quando uma notícia mais polémica é publicada, há sempre comentários que mencionam leis, que acusam algo ou alguém de ilegalidades e surge sempre a palavra “anticonstitucional”. No entanto, afirma, “as pessoas reclamam, mas não sabem quais são os seus verdadeiros direitos”.

Face a esta situação, uniu-se a um amigo, André Simões, e apresentou-lhe aquilo que, nove meses depois, ganhou o nome Há Direito.

“Foi um dos melhores dias da minha vida”, começa por contar Leonel. O ponto de encontro foi o campo de futebol e, pelas 15h de dia 20 de Junho, entraram os primeiros participantes. “Fomos à sorte… Não sabíamos quantas pessoas iam aparecer, mas ficámos surpreendidos! Foram entre 25 e 30”, relembra, acrescentando que se notavam presentes “os estereótipos ‘betinhos’ e ‘chungas’, mas, no final, foi a melhor conexão de sempre”.

De acordo com o estudante, “a maioria dos participantes nunca teve um código de Direito à frente, nunca viu uma lei e nunca a interpretou” e foi isso que, enquanto equipa, quiseram mudar.

A sessão no Bairro do Fim do Mundo começou com uma palestra de um professor sobre igualdade de oportunidades e noção de justiça. Depois foi a vez dos alunos voluntários que se associaram ao projecto. Explicaram a importância da existência de leis e normas e, conta Leonel, “neste ponto a Margarida [uma voluntária] deu um exemplo muito bom! Disse-lhes: Sabem o que é direito? Vocês chegaram aqui, meteram a máscara, desinfectaram as mãos e sentaram-se: só isto já é direito”. E foi através deste registo informal que os voluntários desmontaram algo que, por vezes, é visto de forma complexa e desinteressante.
Das empresas ao crime

Face a uma plateia tão interactiva, houve necessidade de perceber qual a matéria em que se deviam focar. Assim, explica Leonel, “demos a volta à situação e começámos o dia a perguntar quem queria ser empreendedor ou criar uma empresa. Começaram logo a surgir respostas. Havia quem quisesse montar uma barbearia ou quem quisesse criar uma empresa de bolos”. Rapidamente os voluntários do projecto explicaram o processo de criação, a questão das férias e despedimentos e, ainda, direito laborais. Mas depressa chegaram à questão do crime.

“É notório que em bairros sociais existe crime, é uma realidade”, partilha o criador do projecto. Por isso mesmo, a tarefa passou por “olhar para as especificidades do direito penal, a questão das detenções e tentar não usar palavras tão jurídicas, porque isto é um tema complicado”.

Na última fase do dia dividiram os participantes em dois grupos e apresentaram dois casos práticos: um relacionado com empresas e outro com o direito do trabalho. A tarefa dos participantes era, com base naquilo que tinha sido partilhado ao longo do dia, perceber qual a melhor forma de expor e defender o caso: “no palco, estavam os juízes, que éramos nós [voluntários], e a nossa capa era a capa do traje académico”, explica Leonel entre risos.

De acordo com o futuro advogado, “os bairros sociais são, a nível de mobilização, muito difíceis… Houve muito trabalho por trás. Para ir ao encontro das pessoas, é preciso fazer um estudo de campo: perguntar o que gostavam de saber mais e o que é mais importante para eles. Podemos achar que há informação muito importante que deve ser divulgada, mas depende do contexto das pessoas”.

Por isso mesmo, o Há Direito não depende apenas de Leonel, André e Margarida, mas de mais 12 voluntários que fizeram a magia acontecer (e aos quais se uniram professores que acompanharam todo o processo e aferiram a qualidade e veracidade daquilo que era dito aos participantes). Através de uma publicação na Internet e de divulgação na faculdade, vários foram os alunos interessados no projecto. Depois da primeira fase de entrevistas, Leonel sentiu necessidade de “afinar as pessoas para ter a certeza de que tinham o perfil certo”. Portanto, numa segunda etapa, a abordagem escolhida foi “fazer perguntas de direito, numa espécie de prova à queima-roupa. Fazia-lhes várias perguntas rápidas e tinham que saber responder rapidamente, correctamente e sem linguagem formal”, explica.

“Foi lindo! Senti as pessoas a dizer ‘muito obrigado por me teres dado esta oportunidade’… No início, demos um caderno a cada um dos participantes e, no final, eram tantos os que tinham notas apontadas que nem queríamos acreditar”.

É por agradecimentos como este e por acreditar no potencial de quem vive em bairros sociais que Leonel não quer ficar por aqui: “A ideia é entrar em bairros mais problemáticos porque queria agarrar jovens com 13 e 14 anos. Porque podemos mostrar-lhes que podem vir a ser um advogado um dia, por exemplo”. A primeira edição, no Bairro do Fim do Mundo, serviu como um “teste ao projecto para perceber se é possível sair do papel”.

Depois da prova de fogo, Leonel espera agora seguir para o Bairro da Torre, também em Cascais, já que o projecto é patrocinado pela câmara municipal, em parceria com a Take It e a Sociedade de Advogados Albuquerque & Almeida. Para o jovem, “o direito não são só leis, é mais do que isso. E, por isso, o objectivo é poder mostrá-lo a toda a gente”

Texto editado por Ana Fernandes




24.1.20

Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra assume-se líder nacional em inovação na saúde

in RTP

O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) assume-se líder nacional no setor da inovação em saúde, com vários projetos em curso, além de integrar 10 redes europeias de referenciação em doenças raras reconhecidas pela Comissão Europeia.

"Nós somos dos hospitais a nível europeu com maior pertença a redes de referenciação. Para se ter ideia, o segundo hospital português integra três ou quatro redes, enquanto nós temos dez neste momento", salientou Alexandre Lourenço, administrador hospitalar.

Segundo o assessor do conselho de administração, o CHUC é, a nível europeu, um dos maiores com presença nas redes europeias, num conjunto de áreas muito distintas, que vão desde a transplantação à visão.

O CHUC, sublinhou, são a "âncora" de um processo de inovação da Região Centro, com parcerias naturais com a Universidade de Coimbra, Instituto Pedro Nunes, Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional do Centro e Administração Regional de Saúde do Centro, "que depois criam um ecossistema que permite desenvolver um conjunto de projetos na área da inovação em saúde muito relevantes a nível internacional".

"Os hospitais estão num processo de grande mudança e a componente de inovação e de estabelecimento de parcerias vai apoiar-nos nesta mudança da prestação de cuidados, que é urgente, uma vez que a nossa população-alvo está cada vez mais envelhecida", disse Alexandre Lourenço.

Segundo o administrador hospitalar, o CHUC é o único hospital português com projetos de investigação no Horizonte 2020 [programa de inovação da União Europeia] nas áreas da oftalmologia, reumatologia, neurologia, células estaminais, nanotecnologia e infecciologia.

Alexandre Lourenço salienta, por exemplo, a participação no programa de pesquisa do vírus `zika`, para realçar que Coimbra tem o "único hospital português com projetos nesta área [da infecciologia]".

No âmbito do Interreg, que apoia, essencialmente, a criação de redes de cooperação entre regiões da União Europeia, os CHUC estão a desenvolver dois projetos "muito relevantes", juntamente com parceiros espanhóis e franceses, que totalizam quase três milhões de euros.

O primeiro, designado de PROCURA, com uma dotação de dois milhões de euros, visa promover políticas de compra de inovação para implementar um modelo integrado de cuidados Sociais e Saúde no campo do envelhecimento ativo e da vida independente, incentivando a cooperação transnacional e a transferência de conhecimento.

Segundo Alexandre Lourenço, está a ser desenvolvido um andarilho inteligente para pessoas idosas, que se possa transportar entre o Hospital e o domicílio, que vai monitorizar os passos e a temperatura do doente, e uma casa de banho assistida.

O outro projeto, intitulado de INHospital, que está a ser desenvolvido com parceiros espanhóis, pretende criar uma rede de hospitais que promovam um novo modelo baseado em inovação e transferência tecnológica.

Com uma dotação de quase um milhão de euros e final previsto para 2021, o projeto pretende que os hospitais não sejam apenas consumidores de recursos, mas também entidades produtoras de retorno económico a partir da exploração do conhecimento científico e assistencial, "conseguido através do desenvolvimento de produtos e serviços inovadores".

O CHUC integra também no Instituto Europeu para a Inovação e Tecnologia na área da saúde, em que tem como parceiros marcas como a Phillips, Roche e grandes empresas europeias como a GE Healthcare, "que dão a possibilidade do adotar tecnologia muito mais recente do que outras entidades, porque começa-se a utilizá-la não numa lógica de compra", mas de teste e desenvolvimento.

De acordo Alexandre Lourenço, o CHUC desenvolveu em 2019 projetos muito focados na educação para o doente, na área das doenças crónicas respiratórias, epidemiologia do envelhecimento e impressão 3D, que permite criar moldes de cirurgias complexas para os cirurgiões treinarem antecipadamente.

"Isto é muito relevante para a área do ensino, em que os alunos podem contactar com os moldes e fazer o treino do planeamento da cirurgia", salientou o responsável, referindo que existem ainda projetos na área de definição de percursos clínicos de doentes com base em mineração de dados e na área da epilepsia.

No decorrer deste ano, a maior unidade hospitalar do país vai liderar "um projeto estratégico" para o Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia, no montante de 250 mil euros, que passa por coordenar uma rede de hospitais inovadores a nível europeu, que abrange unidades de Espanha, Itália, Polónia e Hungria.

Para o presidente do conselho de administração, Fernando regateiro, o CHUC encontra-se num patamar que "não é comum nos hospitais portugueses", sendo "uma marca única" que não trata apenas doenças, "e trata-as bem", mas que desenvolve "soluções para todas as situações".

"Nós estamos no domínio da produção de conhecimento, da criação de conhecimento, de soluções para problemas práticos, da interrogação, do questionamento para criar trajetos que levam a soluções complexas, que neste momento não estão disponíveis", sublinhou.

O que caracteriza os CHUC, frisa Fernando Regateiro, "é naturalmente a grande capacidade que tem de ir à frente e resolver os problemas, e a capacidade extraordinária de se envolver com a inovação, desenvolvimento tecnológico e questionamento sobre procedimentos adotados e, a partir deles, criar novas soluções, não se conformando em serem iguais aos outros".

21.8.18

Europa precisa de mais apoios, estímulos e ambição

Por Maria Pombo, in Ver

A Suécia é o líder em inovação da União Europeia. E se é verdade que o desempenho europeu nesta matéria tem vindo a melhorar, desde 2010, também é certo que o Velho Continente tem de continuar a lutar para se assumir como um concorrente à altura do Canadá, do Japão e dos Estados Unidos. E uma coisa é certa: o financiamento, por si só, não é suficiente, sendo necessária a união entre o sector público e o privado. Quem o diz é a Comissão Europeia, na sua mais recente edição do Painel Europeu da Inovação

O desempenho europeu em matéria de inovação tem vindo a melhorar nos últimos anos, colocando o Velho Continente mais próximo dos seus principais adversários (Canadá, Japão e Estados Unidos). Todavia, para que a Europa possa ter uma presença mais forte a nível mundial, é necessário que se reúnam ainda mais forças e se colmatem algumas lacunas. Quem o diz é a própria Comissão Europeia, na mais recente edição do Painel Europeu da Inovação (PEI).

Na sua 17ª edição, o documento analisa os diferentes países da UE de acordo com as suas condições estruturais (recursos humanos, interesse dos sistemas de investigação e ambiente propício à inovação), os investimentos (investidores e apoio ao investimento), as actividades em matéria de inovação (organizações inovadoras, relação entre sectores, bens intelectuais), e impactos (essencialmente ao nível do emprego e das vendas). O documento contou com dados dos 28 Estados-membros da UE, os quais foram recolhidos no final de 2017.

Neste sentido, e comparando com os resultados apurados em edições anteriores, verifica-se uma tendência positiva na maioria dos países, sendo Malta, Espanha e os Países Baixos aqueles que, entre 2016 e 2017, conseguiram obter as melhorias mais significativas. Todavia, regista-se um declínio, em termos de inovação, em oito países, verificando-se as quedas mais acentuadas no Luxemburgo, na Eslováquia e na Lituânia. A Suécia surge como a nação líder da inovação e a Roménia assume-se como aquela que regista o pior resultado. Portugal, por seu turno, encontra-se a meio da tabela, ligeiramente abaixo da média europeia.

Em média, o desempenho da UE aumentou 5,8% face a 2010 e manteve-se igual ao que foi registado em 2016. O desempenho em matéria de inovação melhorou, nos últimos oito anos, sobretudo nos domínios da banda larga, dos recursos humanos e do interesse despertado pelos sistemas de investigação, nomeadamente devido a parcerias internacionais.

Os bons, os moderados e os fracos
O Painel da Inovação está dividido em quatro grupos, consoante o nível de inovação alcançado. O primeiro grupo é composto pelos “Líderes da Inovação” e alberga os países cuja performance foi 20% superior à da média europeia. Para além da Suécia (já referida), este grupo conta com a Dinamarca, a Finlândia, o Luxemburgo, a Holanda e o Reino Unido. A performance dos “Líderes da Inovação” tem vindo a melhorar desde 2014, apresentando este ano o valor mais elevado desde 2010. Uma nota curiosa surge relativamente ao Reino Unido que, embora seja o elemento que apresenta o nível mais baixo de inovação, é aquele que regista uma melhoria mais acentuada, desde 2013, posicionando-se este ano ao lado dos seus “parceiros de grupo”. Por seu turno, a Suécia é a nação que apresenta os melhores valores mas também é aquela onde o crescimento é mais subtil.

O segundo grupo – ou o dos “Inovadores Fortes” – inclui os Estados-membros cuja performance é a mais próxima da média europeia (entre 90% e 120% desta), contando com a Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Irlanda e Eslovénia. Entre 2010 e 2015, este grupo praticamente não evoluiu, sendo este último o ano em que deu um salto considerável em termos de inovação. Os seus membros apresentam linhas bastante irregulares, com a Alemanha a assumir a liderança mas a apresentar níveis de inovação mais baixos do que em 2010, e permitindo assim que a Irlanda, a Áustria e a Bélgica tenham condições para lutar pelo lugar cimeiro do grupo.

Por seu turno, o terceiro grupo – que envolve os “Inovadores Moderados” – alberga as nações cuja performance é de 50% a 90%, comparando com a média europeia. Este é o grupo que contém o maior número de países e dele fazem parte Portugal, Chipre, Croácia, República Checa, Estónia, Grécia, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Polónia, Eslováquia e Espanha. A evolução deste grupo tem vindo a ser cíclica, melhorando em anos pares e piorando em anos ímpares. E se até 2016 as suas performances eram bastante dispersas, em 2017 verifica-se uma concentração do nível de inovação, a qual coloca as nações muito próximas umas das outras e em valores relativamente elevados.

O último grupo – constituído pelos “Inovadores Modestos” – é aquele que cujas performances não ultrapassam os 50% alcançados pela UE e inclui a Roménia (já referida) e a Bulgária. Este grupo sofreu um forte declínio entre 2010 e 2012, tendo permanecido em níveis bastante baixos desde então. Desde 2015 e até ao momento, verifica-se uma melhoria ligeira da performance dos membros que constituem este grupo, a qual é, ainda assim, bastante baixa quando comparada com os níveis apresentados pelos restantes grupos.

Uma nota interessante surge no que respeita à relação entre a localização geográfica e o nível dos resultados alcançados, concluindo-se que a performance dos países diminui à medida que aumenta a distância entre estes e os “Líderes da Inovação”.

De acordo com o documento, a inovação foi responsável por cerca de dois terços do crescimento económico registado na Europa, nas últimas décadas, sendo o Velho Continente responsável por 20% do investimento mundial em Investigação e Desenvolvimento (I&D) e detentor de uma posição de liderança em sectores como o dos produtos farmacêuticos, produtos químicos, engenharia mecânica e moda.

Inovação ou a UE na era dos mais: mais investimento, mais estímulos e mais apoio
Estes resultados vão ao encontro do que se prevê na Agenda Renovada da Investigação e da Inovação, também apresentada recentemente pela Comissão Europeia, e que dá conta das oportunidades e dos desafios que se colocam à UE para que esta possa realizar o seu máximo potencial em matéria de inovação. Uma coisa é certa: o financiamento da UE não é suficiente, sendo necessária uma união de esforços entre o sector público e o privado.
De um modo geral, e embora o desempenho europeu seja positivo, o documento realça um conjunto de aspectos que precisam de ser melhorados. O facto de as empresas europeias gastarem menos em inovação do que as organizações de outros países é o primeiro aspecto referido e que deve ser melhorado. Complementarmente, o documento salienta que a UE alberga apenas 26 start-ups com estatuto de Unicórnios (ou seja, que valem mais de mil milhões de dólares), sendo que a China detém 59 e os Estados Unidos acolhem 109. Um outro aspecto que precisa de ser melhorado é o investimento em capital de risco, no Velho Continente, tendo em conta que, por ser tão reduzido, poucas são as start-ups que se transformam em grandes empresas.

Por seu turno, o sector I&D representa apenas 1,3% do PIB europeu, situando-se bem abaixo daquilo que era desejável e sendo esta uma percentagem bastante baixa quando comparada com a dos Estados Unidos (2%), do Japão (2,6%) e da Coreia do Sul (3,3%). Por fim, o documento aponta para o facto de 40% da força de trabalho europeia necessitar de uma requalificação ao nível das competências digitais.

No que respeita ao financiamento nesta matéria, a Europa já garante o investimento público essencial à inovação, já apoia os esforços feitos pelos Estados-membros no que respeita à maximização dos seus gastos em I&D e já estimula o investimento privado (através de iniciativas como o Plano Junker ou o VenturEU). Complementarmente, o Velho Continente garante que existe regulamentação – a qual está cada vez mais simples e acessível – para que sejam criadas as melhores condições à inovação e promove a aquisição de produtos e serviços inovadores.

Porém, existem aspectos que necessitam de ser melhorados e medidas que necessitam de ser tomadas para que a UE continue a apoiar a inovação. O primeiro aspecto passa desde logo por “mudar o chip do investimento”, fazendo a transição entre o investimento de curto-prazo para o de longo-prazo. Neste sentido, a Comissão Europeia pretende que, entre 2021 e 2027, se aumente o investimento em I&D através de 100 mil milhões de euros provenientes dos programas Horizonte e Euratom. Outra medida passa por alargar o programa VentureEU de modo a estimular o investimento de capital de risco nas start-ups.

Transpor a directiva europeia sobre insolvência para o plano nacional é outra proposta, cujo objectivo é melhorar a eficiência dos Estados-membros em matéria de restruturação, insolvência e processo de quitação (ou remissão) de dívidas. Uma outra necessidade está relacionada com a simplificação de regras de apoio ao investimento, de modo a facilitar o financiamento público de projectos, tanto a nível nacional como a nível europeu. Por fim, escreve-se que é necessário reforçar as estratégias de especialização inteligentes, para que as diversas regiões possam beneficiar da inovação, recorrendo a Fundos Europeus Estruturais e de Investimento.

No que respeita à criação de mercados de inovação e ao apoio à inovação e à investigação, o documento refere que, com 13 mil milhões de euros, o Conselho Europeu de Investigação prevê, até 2020, impulsionar a investigação científica de qualidade, atraindo assim alguns dos melhores talentos para a Europa. Os próximos passos serão transformar as melhores ideias em negócios à escala mundial e apoiar as start-ups mais inovadoras a crescer.

Por fim, o documento sublinha que a Europa precisa de procurar e desenvolver metas mais ambiciosas, resolvendo problemas que realmente preocupam os cidadãos. Estas metas devem ser definidas em conjunto com os Estados-membros, os seus diversos stakeholders e os cidadãos. As mesmas devem abranger questões tão importantes como a cura para o cancro, a promoção de transportes mais amigos do ambiente e a limpeza dos oceanos, captando o interesse de investidores e estimulando a criação de sinergias entre sectores de actividade, e tanto a um nível nacional como local.

No fundo, tanto a Agenda Renovada da Investigação e da Inovação como o Painel Europeu da Inovação concluem que a Europa está no bom caminho, no que à inovação diz respeito, mas é preciso mais: mais investimento, mais sinergias, mais estímulos e mais apoio.

21.2.18

Reinventar a educação para enfrentar o futuro

in Jornal de Notícias

TONY WAGNER
Diretor do Laboratório de Inovação da Universidade de Harvard


Como todos os revolucionários, Tony Wagner eliminou a palavra "medo" do seu vocabulário. E incentiva professores, educadores e instituições a fazer o mesmo. Devemos reinventar a educação e dar um sentido moral a tudo o que fazemos.

Tony Wagner é um revolucionário. Mas para isso não precisa de levantar a voz, fazer comícios ou recitar slogans. Ele prefere a análise rigorosa e a honestidade intelectual. Não é em vão que é um dos maiores especialistas do mundo em educação. Diretor do Laboratório de Inovação da Universidade de Harvard, Wagner é assessor de inúmeras instituições educacionais e agências públicas. E quando fala sobre educação, sabe do que está a falar, pois trabalhou como professor do ensino secundário e catedrático. Ou seja, não é um teórico, mas alguém que esteve na sala de aula.

A revolução apresentada por este professor reside na necessidade de mudar o modelo educacional atual para que os jovens possam enfrentar com garantias o futuro que os aguarda. Wagner argumenta que devemos repensar o papel da escola, já que o conhecimento está em todo o lado e acessível a todos, pelo que deixou de ser essencial ter uma pessoa para o transmitir. Assim, bons professores devem mudar o papel que desempenharam até agora para se tornarem a força motriz por trás do talento dos seus alunos. A curiosidade e a criação artística, diz ele, estão inscritas no DNA do ser humano, por isso devemos perguntar-nos o que fazemos de errado com as crianças para que percam essas inquietudes quando se tornam adultos.

Como todo o verdadeiro revolucionário, Tony Wagner baniu a palavra "medo" do seu vocabulário. E incentiva professores, educadores e instituições a fazer o mesmo. Devemos reinventar a educação e dar um sentido moral a tudo o que fazemos.

20.2.18

Empresário de Braga cria saco-cama inovador para os sem-abrigo

in Porto Canal

Um empresário de Braga criou um saco-cama inovador que permite dar conforto e essencialmente calor a um sem-abrigo. O produto tecnológico acabou por ser o vencedor do prémio na área social atribuído pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e deverá chegar às ruas ainda este ano.

17.2.17

Inovação social: a nova forma de resolver problemas difíceis

Sónia Sapage, in Público on-line

Nos últimos anos, Portugal tem apostado na inovação social - sobretudo ao nível das empresas, das autarquias e do chamado terceiro sector - para resolver problemas que já não têm solução fácil através dos mecanismos tradicionais. Os subsídios não são a única resposta possível para a pobreza, o desemprego, a exclusão social ou o insucesso escolar, e é por isso que, até 2020, o Governo pretende investir 150 milhões de euros (fundos estruturais) para financiar estas soluções inovadoras, sem pôr em causa a função social do Estado.

Entre os exemplos de inovação que o Governo tem dado nas iniciativas organizadas sobre esta matéria há pelo menos cinco que vale a pena conhecer.

Um deles é a Academia de Código Junior, nascida em 2013, que tem como objectivo melhorar o sucesso escolar dos alunos do ensino básico, através da aprendizagem de programação informática. Além de alunos, esta empresa social também dá apoio a desempregados. É o primeiro título português de impacto social em Portugal (os títulos são uma espécie de acções negociadas numa bolsa especial, a Bolsa de Valores Sociais).

Outro é a plataforma digital Patiente Innovation que pretende criar uma rede de partilha à escala global em que os pacientes, e não só, partilham entre si inovações no tratamento de doenças raras.

A Speak é mais um dos exemplos de inovação social que o Governo elogia. Em 2015, venceu o Big Impact Award por ter desenvolvido um modelo de inclusão de imigrantes através do ensino de línguas e cultura em cidades por todo o país.

Do Porto vem outra boa prática. Trata-se de Mundo a Sorrir (MaS), uma organização não-governamental criada por um jovem dentista do Porto que trabalha na área da prevenção e tratamento da saúde oral para jovens oriundos de situações económicas desfavorecidas. A MaS também tem protocolos com escolas e venceu o prémio de empreendedorismo social do INSEAD em 2014.

Finalmente, o quinto projecto merecedor de destaque (até mundial) chama-se ColorAdd e implicou a criação de uma espécie de código universal que transforma cores em símbolos, facilitando a inclusão social de daltónicos.






22.2.16

Espírito competitivo e o sucesso dos empreendedores

Armando José Garcia Pires, in Público on-line

A crise económica e das finanças públicas que Portugal tem vindo a atravessar nos últimos anos teve duas consequências importantes a nível do emprego. Primeiro, o desemprego atingiu níveis historicamente altos. Segundo, o Estado perdeu parte da sua capacidade de criar emprego na economia, e, como tal, de absorver desequilíbrios no mercado de trabalho. Face a esta realidade, vários responsáveis políticos e empresariais passaram a ver no empreendedorismo uma das soluções possíveis para o problema do desemprego. Duas questões se levantam: Pode o empreendedorismo por si só criar condições para uma diminuição do desemprego? É o empreendedorismo uma solução apropriada para todos os que se encontram no desemprego?

Em relação à primeira questão, é de notar que, nas economias desenvolvidas, a taxa de actividade empreendedora (proporção de indivíduos adultos envolvidos num negócio em fase nascente ou na gestão de uma nova empresa) não costuma ultrapassar os 10% (ver dados do Global Entrepreneurship Monitor). A média da União Europeia é por exemplo 5,2%, e em Portugal é de 4,5%. Portugal teria como tal que apresentar um enorme aumento desta taxa para diminuir significativamente o desemprego. Tal não é expectável no curto, ou até mesmo no médio-prazo. Além do mais, só em países em desenvolvimento o empreendedorismo atinge valores significativos da população (acima dos 30%). No entanto, nestes países a razão para uma tão elevada taxa de empreendedorismo deve-se ao facto de não haver oportunidades de emprego noutros sectores.

Dito de outro modo, enquanto que em países em desenvolvimento os empreendedores são principalmente “empreendedores por necessidade”, em países desenvolvidos os empreendedores são maioritariamente “empreendedores por oportunidades”. Os “empreendedores por necessidade” são aqueles que se tornam empreendedores porque não têm outras alternativas de emprego, e esta actividade é para eles uma forma de “sobrevivência”. O exemplo típico é um empreendedor numa grande cidade em África, como Nairobi, que gere um quiosque de bebidas. Os “empreendedores por oportunidades” são os que estão sempre à procura de novas oportunidades de negócio, e que frequentemente se tornam empreendedores de sucesso. O exemplo típico é um empreendedor em Silicon Valley nos EUA com uma empresa de software. Neste sentido não basta promover o empreendedorismo, tem também que se criar condições para que o maior número possível de empreendedores se tornem “empreendedores por oportunidades”, porque só estes contribuem para o crescimento económico e criam emprego. Isto é especialmente relevante em Portugal, porque a primeira motivação para alguém que perde o emprego e se torna empreendedor é a “necessidade”.

Isto leva-nos à segunda questão: pode o empreendedorismo ser uma solução “one-fits-all”? A evidência empírica demonstra que os “empreendedores por oportunidades” aparentam ser “diferentes” das restantes pessoas, no que diz respeito aos traços psicológicos. Este aspecto já tinha sido destacado por Keynes, quando se referia aos “animal spirits” dos empreendedores. Segundo ele, os “animal spirits” reflectem-se no impulso que se observa nos empreendedores de sucesso em investir, procurar novas oportunidades e vencer a concorrência. Neste caso o exemplo normalmente dado nos dias que correm é o de Steve Jobs.

Num projecto sobre o empreendedorismo desenvolvido na Norwegian School of Economics analisamos a importância da vertente psicológica no empreendedorismo [1]. Neste estudo, incluiu-se empreendedores da Tanzânia pertencentes a uma instituição de microcrédito local. Este grupo é interessante porque eram todos no início do estudo “empreendedores por necessidade”. O objectivo do projecto era analisar quais destes empreendedores tinham potencial para se tornarem “empreendedores por oportunidades”, i.e. crescerem em termos de vendas, investimentos, criação de emprego e lucros. Para se medir o nível de sucesso de cada um destes empreendedores, recolheram-se dados destes ao longo de cinco anos. A alguns deles foi também oferecido treino de técnicas empresariais e um subsídio ao desenvolvimento do negócio. Aos restantes (grupo de controlo) não se atribuiu nenhum destes apoios.

As características psicológicas consideradas no estudo foram o nível de competitividade, preferências pelo risco, paciência em escolhas temporais, e autoconfiança. Estas últimas variáveis, que foram obtidas em laboratório através de técnicas da economia experimental comportamental, são apontadas na literatura como sendo centrais para o empreendedorismo.

Os resultados do estudo demonstraram que os empreendedores que atingiram maior crescimento (em termos de lucros, vendas, emprego e investimento) foram aqueles com maiores níveis de competitividade. Este factor revelou-se mais importante que as restantes características psicológicas (como risco, paciência e confiança) e outras características gerais do negócio (como nível de escolaridade do empreendedor, ou o facto de o empreendedor ter recebido ou não subsídio e/ou apoio ao desenvolvimento do negócio).

Estes resultados indicam como tal que o nível de competitividade é fundamental num empreendedor de sucesso. Neste sentido, os programas de incentivos ao empreendedorismo deveriam também ter em consideração os factores psicológicos, como o nível de competitividade. No entanto, estes programas tendem a centrar-se principalmente nos apoios financeiros e de negócio. Por exemplo em Portugal o IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação –, tem o programa FINICIA que facilita o acesso a financiamento e o Empreender+ que assiste jovens empreendedores a tornar ideias de negócio em empresas viáveis. Não há dúvida de que os aspectos psicológicos são de mais difícil aplicação em programas de apoio ao empreendedorismo, mas se tais factores forem descurados corre-se o risco que estes programas criem apenas “empreendedores por necessidade” e não “por oportunidades”. Dito de outro modo, estes programas devem também promover o “empreendedorismo por oportunidades”, pois só este fomenta a criação de emprego e crescimento económico.

Professor na Norwegian School of Economics

[1] Berge, L; Bjorvatn, K.; Garcia Pires, A. J. and Tungodden, B. (2015), Competitive in the Lab, Successful in the Field?, Journal of Economic Behavior & Organization, 118, 303-317.

9.10.13

Estudantes querem transformar autocarro em local de apoio aos sem-abrigo

Vânia Maia, in Visão

Alunos de design apresentaram um projeto inovador de uma unidade móvel de apoio à higiene e saúde dos sem-abrigo

O Núcleo de Design para a Sustentabilidade do IADE (uma escola superior de design de Lisboa) está a desenvolver um projeto de apoio aos sem-abrigo da cidade.

A ideia dos estudantes é adaptar um autocarro urbano de forma a garantir serviços básicos de higiene, apoio psicológico e uma área de rastreios de saúde para melhorar o bem-estar dos sem-abrigo.

Esta unidade móvel serviria de apoio às atividades de instituições de solidariedade social e a grupos de voluntários que atuam nesta área.

As preocupações ambientais também fazem parte do projeto, que conta com materiais recicláveis e um sistema de gestão do combustível que garante um elevado nível de autossuficiência, de acordo com a equipa que desenvolveu este "autocarro solidário".

A ideia foi apresentada no GreenFest, o festival ambiental de criatividade que decorreu, no passado fim de semana, no Centro de Congressos do Estoril.

19.9.13

Crise acentuou inovação das micro e pequenas empresas rurais

in iOnline


O projeto pretende conhecer e divulgar as inovações que são desenvolvidas e implementadas por diferentes tipos de organizações nas áreas rurais portuguesas, correspondentes a territórios de baixa densidade

A crise acentuou a dinâmica de inovação e de internacionalização das micro e pequenas empresas das áreas rurais, afirmou hoje a coordenadora do projeto Rur@l Inov, que está a ser desenvolvido pela Universidade de Vila Real.

Lívia Madureira, que falava à margem de um workshop de divulgação do projeto, referiu que o estudo desenvolvido permite concluir que há cada vez mais inovação nestes meios rurais e que, muitas vezes, essa inovação passa também despercebida.

“A crise acentuou muito esta dinâmica de inovação e de internacionalização. As pessoas têm que sobreviver e é mais difícil de facto criar novos negócios que sejam sustentáveis”, salientou.

Neste workshop, que decorreu em Vila Real, foram também revelados alguns exemplos de empresas.

O responsável pela empresa Aromáticas Vivas, Alexis Simões, referiu que a “inovação vem da necessidade de ser melhor do que a concorrência”.

Neste sentido, a empresa, localizada em Viana do Castelo, implementou iluminação led que já permitiu reduzir, em dois anos, 20% do custo de eletricidade, bem como estufas em vidro, que permitiram também aumentar a eficiência energética.

Também em destaque neste encontro esteve o empreendimento turístico “Moinhos da Tia Antoninha”, no Douro Sul, que é completamente autónomo do ponto de vista energético, sendo a produção assegurada por um sistema hídrico solar e hídrico.

O Rur@l Inov é coordenado pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em parceria com a Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR).

O projeto pretende conhecer e divulgar as inovações que são desenvolvidas e implementadas por diferentes tipos de organizações nas áreas rurais portuguesas, correspondentes a territórios de baixa densidade.

No âmbito deste trabalho foi efetuado um inquérito a 120 organizações de todo o país.

Lívia Madureira referiu que estudo destaca a diversidade das micro e pequenas empresas, em termos de dimensão, de produtos e serviços que são oferecidos, desde os hortofrutícolas, vinhos, azeites, sabonetes, turismo ou até mesmo caracóis.

Depois também se destaca a atitude empreendedora e a elevada qualificação dos empresários, que conseguem “recolher, mobilizar e integrar diferentes tipos de conhecimento”.

28.6.13

Mais conhecimento mas mal aproveitado pelas empresas

por Pedro Sousa Tavares, in Diário de Notícias

O acesso aos fundos comunitários permitiu a Portugal aumentar radicalmente o número de pessoas altamente qualificadas, com os doutoramentos a passarem de duas centenas por ano para mais de 1600. As universidades modernizaram-se e passaram a produzir conhecimento científico. Falta o passo seguinte: conseguir que as empresas aproveitem o que já se faz de inovador


Veja a infografia em página inteira

Mesmo partindo de um nível muito baixo, o ritmo de crescimento da população qualificada e da produção de conhecimento tem sido a todos os níveis impressionante nas últimas décadas. Um facto para o qual contribuíram, de forma decisiva, os fundos provenientes da União Europeia (UE). Falta, no entanto, dar um passo numa área em que Portugal continua deficitário e até a perder terreno para outros países europeus, nomeadamente do Leste: o aproveitamento pelas empresas das pessoas e das ideias que estão a sair das universidades e institutos politécnicos do País.

Entre 1986 e 2010, o total de alunos do País manteve-se em cerca de 1,9 milhões, com a quebra da natalidade a anular a maior proporção de estudantes matriculados. Mas o perfil destes alunos alterou-se por completo, com o peso dos inscritos no ensino superior a crescer de 5% para 16%. Em 1986, realizaram-se 216 doutoramentos em Portugal. Em 2010, esse número tinha-se multiplicado por 8,6, atingindo os 1666. Um ritmo mais de duas vezes superior ao da UE. Também a produção científica nacional cresceu mais rapidamente do que a dos restantes parceiros (187%).

Mas estes dados tardam em refletir-se na competitividade das empresas portuguesas. Em 2009, segundo um estudo publicado pelo Ministério da Educação e Ciência, havia em Portugal um total de 19 876 doutorados mas, destes, apenas 2427 trabalhavam para o sector privado na área da investigação e desenvolvimento (I&D). Uma das médias mais baixas da UE, que o atual Governo pretende combater através de incentivos fiscais .

A materialização das ideias em produtos também evoluiu a um ritmo lento: As patentes internacionais registadas por portugueses representam apenas 13% da média comunitária. "Há sem dúvida um retorno [da presença na União Europeia], diz ao DN Eurico Neves, presidente da Inovamais, uma empresa especializada na transferência de conhecimento entre instituições do ensino superior e o sector empresarial. "Sem os fundos comunitários, não se teria alcançado 10% do que se fez." No entanto, acrescenta, a evolução não foi de forma sustentada: "O investimento no conhecimento foi muito grande, mas não houve uma aposta na transferência desse conhecimento para a indústria."

As universidades têm-se assumido como viveiros das empresas que mais apostam nos doutorados e na produção de tecnologia com interesse comercial. Das start-up na área da saúde, como a Biosurfit ou a Cell2be, passando pelos brinquedos inteligentes da Science4you, há boas ideias a serem concretizadas graças à aposta do País na valorização da sua massa cinzenta. "Mas os casos que conhecemos são as exceções", defende Eurico Neves.

26.3.13

Portugal está entre os países "inovadores moderados" da União Europeia

in Jornal de Notícias

Portugal está, em 2013, no grupo dos países "inovadores moderados", a par da Espanha e da Itália, entre outros, com desempenho abaixo da média da União Europeia, segundo o Painel de Avaliação da Inovação, divulgado em Bruxelas esta terça-feira.


Segundo o painel, que qualifica os Estados-membros em quatro grupos de países, os líderes em inovação são a Suécia, a Alemanha, a Dinamarca e a Finlândia registam resultados mais de 20% acima da média da União Europeia (UE).

Os seguidores em inovação são Holanda, Luxemburgo, Bélgica, Reino Unido, Áustria, Irlanda, França, Eslovénia, Chipre e Estónia e apresentam desempenhos 10% abaixo da média da UE.

O grupo dos inovadores moderados (Itália, Espanha, Portugal, República Checa, Grécia, Eslováquia, Hungria, Malta e Lituânia) tem desempenhos abaixo da média da UE, isto é, entre os 50% e os 90% dos 27.

Polónia, Letónia, Roménia e Bulgária são os inovadores modestos, com desempenho mais de 50% abaixo da média da UE.

Em relação a Portugal, a avaliação de 2013 constata que as debilidades se concentram no indicador "investimentos empresariais", que diminuiu 13,8%, enquanto se registam grandes melhorias nas co-publicações científicas internacionais, que aumentaram 12,5%, em relação a 2012.

O número de doutorandos oriundos de fora da UE aumentou, em Portugal, 15%.

Os 24 indicadores estão agrupados em três categorias principais e oito áreas.

Os "elementos determinantes" (enablers) são os fatores de base que propiciam a inovação (recursos humanos, sistemas de investigação de excelência, abertos e apelativos, e o financiamentos e os apoios).

A segunda categoria é a das "atividades empresariais" (firm activities), em que se concentram os esforços de inovação das empresas europeias (investimento das empresas, ligações e empreendedorismo, e capital intelectual).

Em terceiro lugar, estão elencados os "resultados" (outputs), que mostram como os outros elementos se traduzem em benefícios para o conjunto da economia (inovadores e efeitos económicos, incluindo a nível do emprego).

Em Portugal, os indicadores de efeito económico registam crescimento, à exceção do indicador "receitas de patentes e licenças obtidas no estrangeiro", que baixou 4,4%.

28.5.12

Às vezes, as ideias disparatadas são as que têm mais sucesso

Por Natália Faria, in Público on-line

A CulturePrint oferece serviços de ghostwriting para quem ache que a sua vida dava um livro. A RentingPoint criou o primeiro site de aluguer em Portugal e aluga desde bonecos insufláveis a cadeiras de rodas e vestidos de noiva. Também há uma empresa que criou o Loveblip, que põe pessoas com interesses comuns, que queiram ir ao mesmo concerto, por exemplo, a falar umas com as outras.

E outra que se pôs a editar discos. E ainda aquela que encontra, negoceia e reabilita casas à medida de cada cliente. Quem acredita que o empreendedorismo e a inovação se traduzem obrigatoriamente em gigabytes e equações inacessíveis escusa de ir bater ao Pólo das Indústrias Criativas da Universidade do Porto (Pinc). Nestes gabinetes de um edifício cor-de-rosa fervilham perto de 30 empresas. Num país vergastado pela crise, os que aqui trabalham atreveram-se a dar sequência prática a um qualquer momento eureka, do género "Mas como é que alguém não pensou nisto antes?". Eles pensaram. E, mais do que isso, fizeram.

O resto é suor e persistência. Nas carteiras de clientes de algumas destas empresas - veja-se a Claan, que funciona numa sala onde vários iMacs disputam espaço com uma bicicleta e um cão que se chama Vincent van Dog - pontuam gigantes como a Siemens.

Observa-se o entra-e-sai dos gabinetes e vêem-se rapazes e raparigas com T-shirt e sapatilhas. À maioria ninguém colaria o rótulo CEO. Mas é isso que eles são. "As ideias que nos chegam são todas potencialmente disparatadas. E, por vezes, acontece que as mais disparatadas são as que têm mais sucesso", introduz Fátima São Simão, responsável pelo Pinc. Criado em 2010, é um dos quatro pólos do Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC), o qual soma 112 empresas.

No processo de selecção das empresas, a universidade privilegia as propostas por ex-alunos "ou que ambicionem ligar-se à universidade". Antes de terem direito a gabinete, os potenciais empresários passam por um período de incubação. Têm telefones, Internet, uma sala de co-work, outra de reuniões e um auditório. A maioria das que falham é nesta fase. Ultrapassada essa etapa, as empresas ganham direito a gabinete próprio. "Não somos uma agência imobiliária, o que cobramos é um valor simbólico de oito euros por metro quadrado mais dois euros para condomínio - limpeza, água, luz, serviço de vigilância 24 horas por dia."

Têm telefone à disposição, mas pagam as chamadas. Além disso, o Pinc tem "um programa de apoio ao empreendedorismo com a Escola de Gestão do Porto que garante formação em sala sobre princípios básicos de gestão". Os que precisarem podem candidatar-se a um serviço de consultoria que os ajude a vencer questões burocráticas e a focar-se no negócio. Ao fim do primeiro ano, a valor da renda sofre um aumento de 15%. Ao fim do segundo, passa para 20%. "A ideia é que as empresas se emancipem."

Não é bem o caso da CulturePrint, mas anda lá perto. É uma cooperativa sem fins lucrativos, nasceu em Maio de 2011 pela mão de três mulheres, a Catarina, a Isabel e a Minês. Uma era livreira, outra vinha das Belas-Artes e a terceira, a Minês, tinha-se licenciado em comunicação. Juntaram-se para "comunicar cultura". Hoje, fazem assessoria de comunicação, editam, produzem eventos e escrevem. Muito. "O serviço de ghostwriting tem muita procura, para livros mas também para discursos e até para blogues de pessoas que têm coisas para dizer mas não sabem como", conta Minês Castanheira.

Aposta de futuro

Nenhuma delas vive da cooperativa. "Tirar daqui um salário ainda não é possível, até porque somos três, o que não quer dizer que o futuro não passe por aí", diz Minês, para elencar mais vantagens na ligação à universidade: "É uma marca forte, temos acesso a formação e fica muito mais fácil trabalhar em parceria com outras empresas." Um exemplo? A próxima iniciativa d"O Bairro dos Livros, um projecto "geográfico-sentimental" de livreiros do Porto a que a CulturePrint ajuda a dar forma nos segundos sábados de cada mês, vai fazer-se em parceria com o Cineclube do Porto e com a SW.ark, outra empresa "incubada" deste pólo criativo.

Expliquemo-nos. O que a SW.ark faz, nalguns gabinetes ao lado, é househunting, entre outras coisas. "Procuramos casas na Baixa para reabilitar à medida de cada cliente, projectamos e reabilitamos o espaço", explica Sara Natária, da SW.ark. "Encontramos a casa, avaliamo-la, negociamo-la com o proprietário, tratamos das burocracias todas, fazemos o projecto, reabilitamo-la, e, se o cliente quiser, até lhe enchemos o frigorífico", precisa Paulo Santos Cunha.

Ela, 32 anos, é arquitecta e, depois de ter lidado com as complicações subjacentes à compra de uma casa na Baixa, regressou da Noruega decidida a lançar-se na criação da sua própria empresa. Paulo, com mais vinte anos em cima, trabalhou a maior parte da sua vida entre a gestão de redes comerciais e a banca de investimento. Estava a lançar-se na criação da sua própria imobiliária quando se conheceram por acaso na rua. Poucos meses depois, em Abril de 2010, começava a pré-incubação da SW.ark. A empresa foi formalizada em Setembro seguinte. "No final do primeiro ano", recua Paulo Cunha, "tivemos o retorno de todo o capital investido".

Ao fim deste corredor em que se encontram, deixando para trás a porta envidraçada da SW.ark onde se cita Pessoa - "... de que a vida é a maior empresa do mundo" -, chega-se à Claan. A melhor maneira de perceber o que aqui se faz será ir ao site da Siemens e folhear a revista hi!tech. A sensação anda muito perto da que se tem quando se segura a revista nas mãos. Viram-se as páginas e o que se ouve é o tradicional restolhar do papel.

A revista está lá, disponível em 11 línguas, graças ao Leafer, uma plataforma que permite converter o tradicional PDF em algo muito mais interactivo, com som e imagem, totalmente made in Claan. Totalmente made by Clara Vieira e Andreas Eberharter. Ela é portuguesa, tem 31 anos; ele, austríaco, 32. Conheceram-se em 2004 em Roterdão, quando ambos frequentavam o Erasmus, e dali migraram para Viena e dali para o Porto, onde decidiram criar a Claan.

O Leafer, explica Andreas, permite à Siemens "um feedback imediato sobre quanto tempo as pessoas ficam em determinada página, quais os assuntos mais lidos e a que horas...". Mas a Claan não é uma empresa de software informático. "É um estúdio criativo que trabalha a imagem digital das empresas", resume Clara. Na prática, criam conceitos e identidades visuais, principalmente digitais, dos clientes. Os catálogos digitais da farmacêutica Merck são deles.

A Claan nasceu num escritório da Rua de Ceuta. A mudança para o pólo criativo da UPTEC foi importante porquê? "A certa altura demos conta de que já não estávamos a fazer aquilo de que gostávamos. A mudança para o pólo permitiu-nos receber formação e pôs-nos em contacto com outras empresas às quais prestamos serviços." O ambiente de trabalho é informal, permite levar o cão para o trabalho, e a liberdade de estabelecer o próprio horário. Em teoria. "Na prática, trabalhamos durante o dia, à noite e ao fim-de-semana", diz Clara. "Quando se tem um emprego normal, sai-se e desliga-se. Aqui é do nosso filho que estamos a falar."


11.5.12

O que é que põe Portugal a crescer?

por Sandra Afonso, in RR

O novo presidente da COTEC tem uma resposta - mais inovação na economia. João Bento diz ainda que faltam medidas de crescimento para complementar a austeridade.

Na primeira entrevista depois de eleito, o novo presidente da direcção da COTEC garante ter a solução para pôr a economia a crescer - mais inovação. João Bento admite que assume o cargo num dos piores momentos da economia portuguesa, mas, por outro lado, nunca tanto como agora são necessárias soluções.

O novo presidente da direcção da COTEC aprova a política de austeridade e as reformas do Governo, "por vezes executadas de forma quase obsessiva, mas, sendo condição necessária, não são suficientes". Faltam medidas de crescimento, diz.

"As exportações serão um bom contributo para relançar a economia, mas será através da inovação, do empreendedorismo, da criação de novos negócios e de novas empresas que o país há-de voltar a crescer", sustenta.

A COTEC tem aqui um papel fundamental, segundo o presidente agora nomeado, como ponte entre o conhecimento das universidades, o tecido empresarial e os decisores políticos. João Bento reconhece que o financiamento é hoje uma das maiores dificuldades das empresas. Ainda assim, sublinha que "a COTEC não é um banco", mas "tem ideias".

A COTEC entra agora num periodo de reflexão, apoiado por um levantamento feito por uma consultora. João Bento assegura que já tem ideias para o futuro: quer que a associação regresse à origem, aos objectivos que estão na raiz da sua criação. "[Foi através da COTEC] que a inovação deixou de ser um chavão para ser vista como uma verdadeira alavanca de crescimento".

Dos associados, que são empresas responsáveis por uma expressiva fatia do PIB nacional, João Bento espera mais empenho. O novo presidente reconhece que, "quase que ironicamente, o grande mérito da criação [da COTEC], que foi o patrocínio que se mantém e que se tem renovado do Presidente da República, gerou entusiasmo mas foi também responsável por uma adesão com menos compromisso" por parte dos empresários.

20.3.12

My Social Project. Nova rede social portuguesa quer juntar causas, voluntários e empresas

Por Marta F. Reis, in iOnline

Projecto é apresentado amanhã na Fundação Calouste Gulbenkian. Fundadores esperam chegar aos 5 mil membros até ao final do ano

Nova rede social portuguesa quer criar um mercado de projectos sociais e incentivar o voluntariado. É apresentada amanhã na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

O Facebook tem dois milhões de utilizadores registados em Portugal, o Linked-In tem cerca de 400 mil, e o thestartracker, rede para talentos portugueses espalhados pelo mundo, 33 mil membros. E amanhã é apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, uma nova rede social criada de raiz em Portugal por dois jovens empreendedores, Pedro Bártolo e Martim Vaz Pinto.

O objectivo da My Social Project é ligar pessoas, empresas e causas para dar gás a diferentes projectos sociais em curso no país, seja movimentos espontâneos da população seja iniciativas de instituições particulares de solidariedade social ou associações. Até ao final do ano esperam chegar aos 5 mil membros – um cenário realista, diz ao i Pedro Bártolo, um dos fundadores. Mas o objectivo é ambicioso: criar um mercado de projectos sociais e obter dados para medir pela primeira vez em Portugal o impacto do voluntariado e as carências sociais das organizações, numa parceria com a Católica–Lisbon School of Business and Economics.

Pedro Bártolo, 28 anos e licenciado em Gestão Industrial, explicou ao i que a ideia nasceu há um ano e três meses de conversas entre um grupo de amigos com alguma experiência no voluntariado. Bártolo fundou em 2008 um movimento chamado Pegadas, um grupo de jovens católicos que organiza actividades como campos de férias para cerca de 150 crianças de Cascais. Com a ajuda do amigo Martim Vaz Pinto, de 26 anos e formado em Economia, e assessorados pelos “seniores” Pedro Rocha e Mello (Brisa) e Rui Diniz (José de Mello Saúde), passaram os últimos meses a de- senvolver a plataforma e a encontrar os primeiros membros.

O projecto, que só será oficialmente apresentado amanhã, arranca com 100 empresas inscritas e cerca de 30 associações, mas o objectivo é chegar às 100 durante as próximas semanas, diz Bártolo. Para isso, o My Social Project tem já uma parceria com a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, que lhes abriu as portas a 5 mil organizações. “Noventa por cento das instituições que temos estado a contactar têm aderido à rede, mas um dos desafios que já identificámos é que vai ser preciso criar uma rotina nas IPSS para que actualizem os seus perfis. A rede vai funcionar como um mercado: quando mais forem sensíveis ao marketing e à necessidade de se divulgarem, mais vão conseguir canalizar recursos e donativos.”

Do lado das empresas, além de terem criado uma carteira de 100 organizações com capacidade financeira para reforçar o mecenato, Bártolo explica que outro pilar importante para o seu envolvimento serão não só os projectos de solidariedade social, mas também aqueles orientados para a sustentabilidade. Apesar de já haver alguns projectos de promoção do voluntariado social, como é o caso do projecto Do Something ou da Bolsa de Valores Sociais, o fundador sublinha que este é o primeiro projecto no país que aproveita o modelo das redes sociais para ligar todos os intervenientes.

“A nossa primeira ambição é ter uma rede, suficientemente sólida e credível, que mobilize as pessoas”, diz Bártolo. Neste primeiro ano, a rede vai ter permanentemente duas pessoas a gerir os contactos e a aconselhar as associações a promover as suas causas, seja com textos ou vídeos do trabalho que estão a desenvolver. Mas o objectivo é que a plataforma funcione por si, com as leis da oferta e da procura. Uma pessoa que queira fazer voluntariado pode pesquisar pela área que lhe interessa e região do país, e se tem disponibilidade total ou parcial. Já uma instituição ou empresa poderá fazer a mesma busca, seja à procura de voluntários ou de projectos que vão ao encontro do programa de responsabilidade social da organização. Já o primeiro retrato destas interacções, a cargo da Católica, é esperado dentro de um ano: “Como é uma rede que criámos de raiz, consoante a adesão vamos poder ter dados sobre quem ajuda e como é que ajuda, que donativos é que as pessoas estão mais dispostas a dar e quais as carências das IPSS, o que permitirá um retrato que, até ao momento, não há nenhuma entidade a fazer.”

4.2.12

Empresas saídas das universidades são às centenas e o número continua a crescer

Por Andrea Cunha Freitas, in Público on-line

Enquanto a crise faz cair vários indicadores económicos, há alguns territórios que parecem imunes à depressão. Os pequenos ou micronegócios da inovação estão a multiplicar-se no país.

São pequenos ou micronegócios em fase de arranque intimamente ligados à inovação e, na maioria, "filhos" das universidades. Chamam-lhes spin-offs ou start-ups e são cada vez mais em Portugal. Só na Universidade do Porto (UP), esta promessa de negócio reunia cinco projectos em 2007 - hoje já soma 106. Mas há mais exemplos. Ontem, em Coimbra, foi apresentado um resultado concreto da inovação nacional, com o lançamento do primeiro fármaco produzido numa universidade portuguesa.

Os dados fornecidos pela Universidade do Porto são os mais expressivos, mas não são os únicos que demonstram o crescimento das spin-offs ligadas a instituições de ensino superior público e não só. A Universidade do Minho (UM) tem um registo igualmente assinalável, tendo aumentado de seis em 2005 para 43 em 2011. Para obter um retrato mais claro desta realidade, a UM avançou no ano passado para um inquérito que quis "mapear todo o universo empresarial que tenha tido por base a formação superior na academia" e concluiu que existiam 113 empresas criadas nas quais pelo menos um dos sócios é actual ou ex-aluno, docente ou investigador desta universidade. Contas feitas, são projectos que representam 362 milhões de euros em volume de negócio e 2226 postos de trabalho.

Na Universidade de Coimbra, o crescimento parece ser mais tímido, mas, ainda assim, significativo, com o registo de nove spin-off sem 2004 e 22 em 2010, a que se juntam mais 15 start-ups na órbita do Instituto Pedro Nunes. Em Aveiro, foram criadas 28 spin-offs entre 2006 e 2011, existindo ainda 12 empresas deste tipo na incubadora da universidade.

A Universidade de Lisboa parece ficar aquém deste "volume de negócios", dando conta da criação de "quatro spin-offs no último ano". No Instituto Superior Técnico, depois do avanço em 2009 da comunidade na área de Transferência de Tecnologia, há actualmente 37 spin-offs.

São números que demonstram claramente uma área em crescimento mas que não traduzem as dificuldades nem os bons ou maus resultados deste universo. Sobre isso, a Agência de Inovação apresentou em Novembro um trabalho com os resultados das spin-offs por si apoiadas e que podem servir de indicadores gerais. Assim, numa avaliação da última década, verificou-se que a taxa de crescimento média anual das spin-offs relativamente a vendas era de 11%, contra os dois por cento negativos das "outras empresas". O mesmo se passava ao nível das exportações.

Saúde é área-chave

A área da Saúde será uma das mais exploradas por estas pequenas e microempresas. Em Abril de 2008, o Health Cluster Portugal (HCP) iniciava a sua missão de internacionalizar a saúde nacional com 55 parceiros. Hoje reúne 125 instituições e mantém o objectivo de lançar cinco novos medicamentos portugueses até 2020. "É óbvio que a actual situação económica não é risonha para ninguém, mas, em relação aos nossos parceiros, as coisas não pararam", refere Joaquim Cunha, director executivo do HCP.

A produção do radiofármaco desenvolvido a partir da Universidade de Coimbra não o surpreende. "Vamos ter mais notícias deste género vindas da academia e empresas", reage, adiantando que, nos próximos anos, deverão surgir medicamentos inovadores desenvolvidos em Portugal para a área do cancro e das doenças cardiovasculares.

Ainda que não tenha dados precisos, Joaquim Cunha afirma que as exportações portuguesas na área farmacêutica, de dispositivos médicos, meios auxiliares de diagnóstico e soluções informáticas "estão em franco crescimento". "O mercado da inovação está a borbulhar. Temos recursos humanos altamente qualificados nas academias que, com esta crise, começam a ir à luta e criam empresas. A transferência do conhecimento para o mercado está a fazer o seu caminho."