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3.5.23

O “padrinho da inteligência artificial” sai da Google e avisa: “em breve”, os 'chatbots' podem ser mais inteligentes do que os humanos

in Expresso



O psicólogo e cientista de computação Geoffrey Hinton despediu-se da Google para poder discutir abertamente os perigos da Inteligência Artificial (IA). Para Hinton, o principal problema está na capacidade da IA de desvirtuar os fluxos de informação diários. Fotografias, vídeos e textos podem agora ser adulterados sem grande dificuldade, e as consequências para a estabilidade social podem ser graves


Geoffrey Hinton, conhecido como o “Padrinho da Inteligência Artificial (IA)”, despediu-se da empresa norte-americana Google, onde trabalhava há mais de dez anos, para poder alertar de forma mais livre para os perigos da tecnologia que ajudou a desenvolver, avançou o The New York Times.

Hinton, de 75 anos, é um dos principais responsáveis pelos sistemas digitais que servem de motor a programas como o ChatGPT, a famosa plataforma de texto inteligente alimentada por IA.

Após dedicar uma vida ao estudo e à aplicação prática de redes neurais, sistemas matemáticos complexos que aprendem através da análise de dados, sejam eles fotografias ou texto, o psicólogo cognitivo e cientista de computação britânico teve o seu primeiro grande sucesso em 2012. Nesse ano, juntamente com dois estudantes da Universidade de Toronto, no Canadá, onde lecionava, construiu um sistema com a capacidade de analisar milhares de fotografias e ensinar-se a identificar objetos comuns, como árvores e automóveis. Por essa descoberta, receberia em 2018 um Prémio Turing, o “Nobel da computação”, a culminação de uma longa carreira académica que começou ainda nos seus dias de estudante na Universidade de Edimburgo, na Escócia.

Apercebendo-se do seu potencial transformador no mercado da IA, a Google comprou a empresa estabelecida por Hinton por 44 milhões de dólares (40 milhões de euros), aplicou o seu sistema a uma vasta gama de produtos e abriu um laboratório de IA em Toronto.

Agora, ao diário norte-americano The New York Times e ao canal britânico BBC, o cientista mostra-se arrependido do seu papel na edificação de uma tecnologia cujos perigos são “assustadores”. Os ‘chatbots’ mais avançados, tais como o ChatGPT ou o Bard, produzido pela Google, “ainda não são mais inteligentes do que nós, mas penso que em breve poderão vir a sê-lo", disse Hinton à BBC.

“Neste momento, o que estamos a ver é que programas como o GPT-4 ultrapassam uma pessoa na quantidade de conhecimentos gerais que têm, e ultrapassam-na por muito”, continuou. "E dado o ritmo do progresso, espera-se que as coisas evoluam muito rapidamente. Por isso, temos de nos preocupar com isto".

Para o cientista, o grande perigo da inteligência artificial está na sua capacidade de desvirtuar os fluxos de informação a que os cidadãos têm acesso no dia a dia. Os artigos que lemos, as imagens que vemos, os vídeos que vemos e ouvimos, tudo isto pode ser falsificado ou adulterado com recurso a programas de IA – até ao ponto em que passará a ser impossível tomar por garantida a sua veracidade. Nas mãos erradas, estas ferramentas poderão ser utilizadas com fim a espalhar o caos e minar as bases democráticas de várias sociedades: "É difícil ver como se pode evitar que maus agentes utilizem esta tecnologia para coisas más", alertou Hinton ao The New York Times.

Depois, há o risco para os mercados laborais, com milhares de empregos postos em causa por sistemas de automação que ficam mais baratos. Com o possível aumento do desemprego crescerá a precariedade e a instabilidade social. Mais: as máquinas poderão tornar-se mais inteligentes do que os humanos, já que aprendem de forma inesperada e muitas vezes incontrolável: “Algumas pessoas acreditavam na ideia de que este material podia ficar mais inteligente do que as pessoas. Eu achava que estava a 30 ou 50 anos de distância, ou até mais. Obviamente, já não penso assim," admitiu.

Em resposta às preocupações de Hinton, em comunicado citado pela BBC, Jeff Dean, cientista-chefe da Google, disse estar “comprometido com uma abordagem responsável da inteligência artificial” e a “aprender continuamente os riscos emergentes.”


O certo é que esta é apenas a última voz a erguer-se contra a aceleração desregulada da inteligência artificial. Ainda no passado domingo, o G7, o grupo de economias mais desenvolvidas do mundo, apelou aos países “para que participem ativamente no desenvolvimento de normas internacionais sobre a regulamentação da IA e promovam o diálogo sobre questões como a avaliação de riscos”. Em 29 de março, mais de mil líderes da área tecnológica, entre eles o empresário Elon Musk, assinaram uma carta conjunta que urgia os produtores de IA a suspenderem o desenvolvimento dos seus sistemas mais avançados, alertando para os "riscos profundos para a sociedade e para a humanidade".


Texto de José Gonçalves Neres, editado por João Pedro Barros

27.2.23

Fim de ciclo na descida do desemprego

Sónia M. Lourenço, in Expresso

Desemprego registado aumentou em janeiro pelo sexto mês consecutivo. Economistas antecipam novas subidas

Depois de ter resistido durante meses, o impacto da incerteza associada à guerra na Ucrânia, da escalada da inflação e da subida dos juros, levando a um abrandamento da atividade económica em Portugal, começa a notar-se no mercado de trabalho nacional. Sinal disso, os dados publicados esta semana pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) dão conta de um aumento do número de desempregados registados no país pelo sexto mês consecutivo. Uma evolução em linha com a subida da taxa de desemprego apurada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). 

Economistas ouvidos pelo Expresso falam em “fim de ciclo na descida do desemprego” e antecipam novos aumentos do desemprego este ano, ainda que afastem o cenário de incrementos expressivos.Em janeiro estavam inscritos nos centros de emprego em Portugal 322.086 desempregados, mais 15.081 do que no mês anterior, ou seja, face a dezembro de 2022, o que significa um aumento de 4,9%. Foi o sexto mês consecutivo de incremento do desemprego registado, indicam os dados do IEFP, numa tendência iniciada em agosto do ano passado. Se compararmos com julho de 2022, quando o número de desempregados inscritos nos centros de emprego atingiu mínimos históricos, com 277.466 pessoas, encontramos mais quase 45 mil desempregados.

Desemprego registado sobe pelo sexto mês consecutivo
Número de desempregados registados nos centros de emprego em Portugal
Ainda assim, o desemprego registado ficou em janeiro 9,5% abaixo do registado um ano antes, em janeiro de 2022. São menos 33.782 desempregados inscritos nos centros de emprego. Aliás, numa nota enviada à comunicação social, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social destaca que o número de desempregados inscritos no IEFP no primeiro mês deste ano “foi o segundo mês de janeiro mais baixo nos últimos 30 anos”

TAXA DE DESEMPREGO ESTÁ A SUBIR DESDE AGOSTO

Certo é que a subida do desemprego registado contabilizada pelo IEFP desde o verão passado está de acordo com os dados mensais apurados pelo INE a partir do inquérito ao emprego. E que indicam que, depois de vários meses estável nos 5,9%, a taxa de desemprego em Portugal — ajustada da sazonalidade — começou a subir em agosto do ano passado, para os 6%, chegando aos 6,7% em dezembro (último valor disponível).

O que significam estes números? “Sinalizam um fim de ciclo na descida do desemprego”, responde João Cerejeira, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. E vai mais longe: “Provavelmente, vamos observar aumentos ligeiros do desemprego ao longo do ano, embora não seja nada de dramático.” Uma evolução “em linha com a moderação da atividade económica em 2023”, continua o economista.

E nota ainda que os dados do IEFP mostram “uma tendência de redução das ofertas de emprego desde maio do ano passado”, apesar de “ter havido um aumento no mês de janeiro”. O que “também aponta para uma estagnação do mercado de trabalho e mesmo um aumento ligeiro do desemprego”.

“A tendência parece ser claramente de aumento do desemprego, embora mantendo-se ainda em valores baixos em termos históricos”, alerta, por sua vez, Pedro Martins, professor da Nova SBE e antigo secretário de Estado do Emprego.
MUDANÇAS NA LEGISLAÇÃO LABORAL PODEM PENALIZAR EMPREGO
Nas vésperas da entrada em vigor no país das alterações à legislação laboral, aprovadas na Assembleia da República no âmbito da Agenda para o Trabalho Digno, Pedro Martins manifesta também “preocupação” com o impacto que podem ter na evolução do mercado de trabalho nacional. “Haverá mais restrições à atividade das empresas a nível laboral, podendo levar a maior relutância nas respetivas contratações, o que não ajuda nesta tendência de aumento do desemprego.”
Há outros fatores a criar incerteza adicional no mercado de trabalho. A começar pela continuação da guerra na Ucrânia e por uma inflação ainda elevada — embora a descer. São “entraves ao funcionamento das empresas, logo, à sua dinâmica em termos de contratações”, aponta Pedro Martins.

Acresce o “contexto de alguma imprevisibilidade em resultado das rápidas mudanças tecnológicas que estão a ocorrer”, salienta o economista, destacando a “evolução espetacular ao nível da inteligência artificial”. Ora, “não se sabe que impacto terá tudo isto, até a curto prazo, no mercado de trabalho”, alerta, falando num “conjunto de fatores muito alargado e complexo”.

Tudo somado, “vejo nuvens no horizonte. Receio que o desemprego possa continua a subir”, remata.