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22.2.22

“Muitos dos miúdos perdem horas na fila da padaria para conseguir pão e deixam de ir à escola”: o padre Gonçalo viveu quatro anos na Síria e tem uma história para contar

Marta Gonçalves, in Expresso

“Muitos dos miúdos perdem horas na fila da padaria para conseguir pão e deixam de ir à escola”: o padre Gonçalo viveu quatro anos na Síria e tem uma história para contar

Gonçalo Castro Fonseca é jesuíta e ao longo de quatro anos dirigiu a missão na Síria. Viveu em Damasco, a capital, conheceu cidades que viraram ruínas como Alepo e Homs. E é “de um jogo misterioso” entre a “miséria extrema e a alegria contagiante” que quer falar

Voltou a Portugal mas continua sem estar ainda inteiramente em casa, ainda se sente em processo de regresso apesar de já estar fisicamente no país há quase quatro meses. Gonçalo Castro Fonseca é jesuíta e liderou a missão do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) na Síria, onde chegou em 2017, numa altura em que a guerra se alastrava por todo o país, o Daesh tinha invadido o território e em Damasco, a capital, o conflito estava muito presente. “Canhões, aviões que largavam bombas, pessoas armadas”.

Pediu-nos para não falar da política local da Síria, onde a JRS permanece em missão – há assuntos “que por segurança” não devem ser falados mas há outros que acontecem todos os dias e que devem ter toda a atenção. “Há um jogo misterioso entre a extrema miséria e um desejo de alegria. Os sírios não se queixam, há sempre um lado positivo e dizem-no sempre de forma verdadeira.”

Aos 49 anos, Gonçalo Castro Fonseca terminou a missão que começou no país onde diz ter aprendido o que é o medo e esta segunda-feira à noite participou no evento “Fraternidade: uma utopia?”, uma conversa promovida pela Associação para o Desenvolvimento MEERU | Abrir Caminho na Casa Comum, na Reitoria da Universidade do Porto.

Que futuro é possível num país como a Síria?
A guerra está mais localizada mas não terminou. O que está acontecer neste momento são consequências da guerra e das sanções internacionais. A situação financeira e económica do país é um descalabro; o povo tem energia, força e capacidade de recuperar, por isso, há uma linha de futuro, mas não será próxima nem ninguém conta que seja. Para isso é preciso que se criem condições. Primeiro, a nível interno – e sem entrar em muitos detalhes políticos – as pessoas defrontam-se há pelo menos duas gerações. Depois, as sanções internacionais têm prejudicado muito a motivação das pessoas e a sua capacidade de responder às necessidades e à crise. No fundo, estas sanções são para punir os poderosos, mas dão mais poder ao regime e enfraquecem os mais vulneráveis, que são quem podia lutar por um futuro melhor. Honestamente, lá senti muito desespero e sensação de que não havia um amanhã. Pensei nisto muitas vezes com eles. Mas, olhando com distância, há potencial de futuro. Não está à vista seguramente, mas o potencial e a capacidade, os sírios têm-no. A semente de futuro está lá, só é preciso deixar que cresça e, se lhe tirarem a água do terreno, a semente não vai crescer.

Como é possível que esse potencial e capacidade fiquem visíveis?
Desde logo com a queda das sanções e permitindo que haja transações comerciais, financeiras e mercado livre. O que está a florescer cada vez mais são os mercados negros e paralelos. O nível de corrupção é enorme. E uma maior ajuda não tanto no sentido humanitário de distribuição de coisas, mas sim de capacitar a população. Isto seria a água que podia fazer crescer a semente.

Numa entrevista ao DN, elogiava a resposta de emergência mas, ao mesmo tempo, referia que não era o prato de sopa que lhes era distribuído que lhes dava futuro. O que lhes pode dar futuro?
Estamos a falar maioritariamente de crianças, portanto educação. O sistema educativo sírio também deixa muito a desejar, é preciso formar as pessoas a nível humano e de conhecimentos. Segundo, o capacitar de técnicas e facilitar que as pessoas recebam a formação. Depois há um nível de investimento para empresas locais, nas fábricas que possam desenvolver ou recuperar aquilo que perderam. Acho que são estas três dimensões: educação, formação técnica e capacitação humana e, por fim, investimento.

Uma boa parte do projeto da missão jesuíta na Síria está relacionada com a educação de crianças e jovens. Qual foi e qual é desenvolvido pela JRS na Síria?
De há uns anos para cá começámos com um sentido de emergência, dar um lugar seguro às crianças para estarem e criarem ali alguma distração. Depois, ao mesmo tempo, percebemos que havia uma grande necessidade de educação porque podem ter dez anos e nem sabem pegar numa esferográfica, não sabem ler ou escrever. Então, desenvolvemos um programa de ensino que complementa a escola. A grande maioria dos miúdos vão à escola – há alguns que não vão porque trabalham – e isto é um ciclo próprio de suporte à escola formal. Temos 402 mil crianças no programa de um ano e o objetivo é sempre ensinar os miúdos, dando-lhes não só conhecimento como também dotá-los da capacidade de estudarem sozinhos.

Centros de estudos para onde as crianças vão e de onde vêm diariamente? Fazendo uma comparação com a nossa realidade, uma espécie de ATL?
Sim, mais ou menos isso. Prestamos ainda apoio às famílias das crianças – capacitação, alfabetização, formação técnica, ensino de línguas e computadores. Temos serviços de saúde, com três clínicas. Em termos de custo, as clínicas são o que custa mais, mas em termos de impacto na população e futuro é a educação.

Referiu que as crianças iam à escola. É possível ter uma vida normal na Síria?
Não, de todo. Bom, o que é normal para nós é diferente do normal para os sírios. Mas mesmo para os sírios, não há uma vida normal. Os miúdos irem à escola é esquecer todo o conceito que temos de ir à escola. Os números de alunos registados até são bastante bons porque o registo é obrigatório – outra coisa é participarem e, de facto, as condições das escolas são muito limitadas porque algumas foram destruídas, outras foram ocupadas pelo exército ou servem de armazém. Há uma sobrelotação de alunos, uma sala que teria capacidade de 30 tem 80. Uma secretária que daria para dois, está a ser partilhada por cinco ou seis alunos. Não têm material, não têm uma esferográfica, papéis, livros, cadernos ou manuais. Não têm nada. Ir à escola é muito relativo: na escola servem também uma refeição quente e isso já é razão suficiente para muitos irem.

“Muitos dos miúdos perdem horas na fila da padaria para conseguir pão e deixam de ir à escola”

Como é vida na Síria?
Há uma série de coisas que não têm: eletricidade, por exemplo. No frigorífico não conseguem conservar nada, têm de comprar as coisas diariamente. Ainda se vê muito uma lógica da sobrevivência, de chegar ao dia e ter uma refeição e, embora ainda tenham acesso a bens essenciais, a outros bens não têm. Comer carne é luxo. Muitos dos miúdos perdem horas na fila da padaria para conseguir pão e deixam de ir à escola, já para não falar daqueles que têm de ir trabalhar. Há uma grande necessidade sem respostas. Não há eletricidade, gás, gasolina e, quando há, é tudo muito limitado e racionado. Ou se tem muito dinheiro para entrar na lógica do mercado negro ou não se tem e a grande maioria não tem. Como nos países de terceiro mundo, não há classe média. Há muitas pessoas muito pobres e depois há alguns ricos.

Muitas das pessoas que acabam por não fugir da Síria eram os mais pobres de todos.
Sim, porque não tinham capacidade de pagar as exorbitâncias para sair do país.

Que geração acha que ficou mais marcada pela guerra: a das crianças que já nasceram durante a guerra e nunca conheceram mais nada ou a daquelas que eram crianças quando a guerra começou e hoje são jovens adultos?
Acho que aqueles que hoje são jovens adultos são os mais afetados, a geração hoje com 20–30 anos. A adolescência e a juventude foi-lhes tirada, tiveram de assumir responsabilidades que não lhes competiam. Uma criança que nasce e cresce neste contexto não tem memória, claro que sofrem mas não têm referências. Para os mais velhos, como têm uma boa memória antes da guerra, está a ser muito duro. Foram estas idades que saíram – sobretudo homens e rapazes por causa dos oito anos de serviço militar obrigatório – e que assumiram as responsabilidades da família. Passaram por situações muito delicadas, acho que eles ainda estão no trauma, ainda não se pode falar do pós-trauma.

Em qual destas encontra menos esperança?
Na geração dos 30. As crianças dão-nos mais esperança e isso também nos motiva. Eles não têm nada: receber um par de sapatos é a alegria da vida deles e, para uma jovem de 30 anos, que já teve vários pares, receber só um não lhe basta. Têm um sentido de desânimo muito maior.

Como é que cada um de nós pode ajudar? É possível fazê-lo?
Financeiramente, confiando em alguma organização – e bem sei que neste mundo não se pode confiar em tudo -, o que nos permite responder a necessidades para as quais muitas vezes faltam fundos, porque já não se fala tanto na Síria como antes. Outra forma é dando voz. Um dos lemas da JRS é defender, dar voz a quem não a tem. Criar uma opinião de forma a ter também alguma influência junto da comunidade internacional e dos governos, quanto mais não seja para pressionar o levantamento das sanções.

Como é que surge a possibilidade de ir para a Síria em 2017?
Sendo padre, religioso e jesuíta, surge sempre de uma dimensão espiritual e o sentido é de vocação. Na prática houve um pedido do superior mundial dos jesuítas, que pedia jesuítas para o Médio Oriente. Depois, em conversa com o meu superior em Portugal pensámos no assunto e eu ofereci-me para ir para por três anos. Uma vez lá, propus ir para a Síria: foi uma oferta por três anos mas ainda foi estendida por mais um ano.

Havia mais estrangeiros?
Não, até porque é muito difícil conseguir um visto e residência. Mas como sou padre e tenho a estrutura da Igreja para me proteger, não me foi tão difícil conseguir a residência. Por mais interesse que existisse de outros para ir fazer voluntariado, não era possível recebê-los por questões logísticas. Os primeiros meses foram a tentar aprender árabe, depois comecei a trabalhar no campo diretamente com os miúdos e depois achou-se que eu teria capacidade de ser o diretor da JRS e fazer a gestão.

Teve medo?
Sim, claro. Eu não sabia bem o que era ter medo, eu acho que sou uma pessoa destemida de maneira geral e não sabia o sentimento de ter medo e aprendi lá. Foi a primeira vez que tive realmente medo.

Lembra-se em que situação é que foi?
Lembro. Foi uma bomba que caiu a dez metros de mim. Lembro-me perfeitamente, não me vou esquecer disso. Nunca me sentia ameaçado mas havia sempre a sombra de que algo podia acontecer. Depois havia um medo pelos outros, era um medo de impotência, de que os outros ficassem feridos.

No momento em que tudo isso acontece, a pessoa consegue perceber que é tudo real?
Mete impressão quando se chega e não é nada uma realidade paralela, é muito real: são os sons, os barulhos e aquilo que se vê. O assustador é que a paisagem de destruição se torna normal. É assustador passar a adormecer porque as explosões já fazem parte da banda sonora do dia . Os conflitos em Damasco só duraram uns meses: cheguei a meio mas depois, em menos de um ano, aquilo tinha terminado.

Em algum momento pensou em vir embora?

Não, nunca. Pelo contrário: foi-me proposto vir embora e eu achei que se as pessoas não podiam eu também não podia. Eu sei que parece, mas isto não é uma questão de heroicidade. A minha missão era estar por isso estava. O privilégio de vir embora sempre o tive mas nunca pensei em vir embora.

E os seus, a sua família e amigos?
Isto não é bonito mas eu tive de esconder a verdade durante o tempo em que lá estive, sobretudo no primeiro ano. Quando viam aqui as notícias e imagens eu dizia que estava muito longe.

O que é um conflito?
Eu cheguei na altura do cerco a Ghouta. Estavam os rebeldes do lado de dentro e o exército do lado de cá e houve a decisão de tomar conta outra vez de Ghouta. Havia tiros de canhões e aviões a passarem de um lado e de outro a atirarem bombas. Havia pessoas armadas em todo o lado, postos de controlos, onde nos revistavam e pediam documentação. Havia mesmo um panorama como o que se vê nos filmes, mas vivi na vida real.

De que forma é que tudo isto evoluiu desde 2017?
Quando os conflitos terminaram e conseguiram recuperar Ghouta, a cidade rejuvenesceu completamente. Até para mim foi como estar numa nova cidade. Havia muitas coisas fechadas: lojas, restaurantes… E quase no dia seguinte ao fim dos conflitos reabriu tudo. As pessoas estavam com muita sede de vida, ânimo e festa, houve ali uma reação quase excessiva, no imediato. Com a crise económica, as coisas abrandaram novamente. A pandemia também não ajudou ao ânimo, que foi de curta duração, mas a cidade de Damasco é muito viva. Tínhamos projetos em Alepo e Homs, que foram muito mais destruídas e as pessoas basicamente ainda vivem nas ruínas. Damasco, nesse sentido, foi mais poupada.

Como é regressar a Portugal? “Pergunte-me daqui a um ano”

Com tudo isto a acontecer, e sendo religioso, em algum momento se questiona onde está Deus?
Pode ser normal que a pergunta exista, se alguém a tivesse eu veria isso como normal, porque é uma questão muito forte quando se vê a morte de inocentes, o sofrimento. Mas eu acho que fui com uma bagagem diferente de vida espiritual e não tive dificuldade em encontrar Deus naqueles que sofriam e perceber que Deus sofre com eles.

As diferenças religiosas foram em algum momento um problema, sobretudo num país maioritariamente muçulmano e em que, à época, parte do território era controlado pelo Daesh?
A Síria sempre estive habituada a ser um lugar de encontro de várias religiões e etnias. Há uma cultura de respeito e solidariedade. Claro que com algumas tensões, mas sempre com uma lógica de acolhimento do outro. Os cristãos perseguidos não o eram por causa dos sírios nem dos muçulmanos de maneira geral, era por causa do Daesh, que entrou e começou a invadir a Síria. Mas não era só cristãos que executavam, eram todos os que não pensassem da mesma maneira. Eu nunca estive nesta situação de estar perto do Daesh, nunca senti este risco e a minha fé nunca me pôs em problemas, punha mais o facto de ser estrangeiro do que ser cristão. Ser padre até me poderia ter ajudado em alguma situação limite de ameaça, em que não estive.

Como é regressar a Portugal?
Deixe passar um ano e volte a perguntar-me depois.

Pensa voltar?
Essas coisas não dependem de mim. Se tivesse oportunidade agora, acho que não. Agora preciso eu de regressar a Portugal para poder eventualmente ir. A minha missão ali terminou e, se voltasse, seria para uma nova missão.

O que custou mais deixar lá?
As pessoas, os amigos que se fizeram e que ficaram muito próximos. Há sempre o sentimento de não saber se os vou voltar a ver na vida. E há um punhado de pessoas que me ficaram muito próximas.


“Chegaram [as imagens] das destruições de Alepo e Ghouta, mas nada desta realidade de pessoas que estão no limiar da miséria — e são mesmo muitas”

O que é que acontece na Síria que na Europa e nos EUA não se sabe?
É um jogo misterioso entre duas coisas. O que estão a viver financeiramente é tremendo. Mesmo durante a guerra, não via miúdos na rua a pedir esmola e agora estão revolver o lixo para encontrarem alguma comida, é chocante. Não deve ser o único pais onde isso acontece, mas essas imagens não chegam cá. Chegaram [as imagens] das destruições de Alepo e Ghouta, mas nada desta realidade de pessoas que estão no limiar da miséria — e são mesmo muitas. Ao mesmo tempo, há um ânimo e desejo de alegria. Não se queixam, há sempre um lado positivo em tudo. Acho que isto não chega cá. Também não haveria maneira de os meios de comunicação passarem isto.

Já reencontrou em Portugal algum dos sírios que conheceu em missão e que agora estão como refugiados cá?
Há um amigo meu que está cá a estudar na Universidade Católica, que é um jovem sírio que conseguiu uma bolsa e estuda comunicação social. Temos uma história em comum de pelo menos um ano. Estou a tentar trazer mais três pessoas, também os conheço bem e estamos a trabalhar para conseguir integrá-los. São rapazes e todos tiveram de interromper os estudos para trabalhar. Sabem inglês e estou a tentar que venham para estudar na universidade (Educação, Contabilidade e Economia), com um grupo de amigos a suportar os custos.

15.3.21

“Quero viver em qualquer país menos na Síria, onde for seguro e haja escolas e brinquedos”

Sofia Lorena, in Público on-line

Segundo um relatório da Save the Children, 86% das crianças sírias refugiadas não quer voltar a casa. Manifestações pacíficas contra o regime de Bashar al-Assad começaram há dez anos. Hoje, 13,2 milhões de sírios vivem longe de casa.

Nada tem 17 anos e deixou a Síria em 2012. “Não quero voltar para lá”, diz. Também não quer ficar onde está: “Se vamos à escola, somos intimidados e eles dizem-nos que não nos querem”. Lara tem sete anos e a sua família fugiu de casa, em Maarat al-Numan, Idlib, há três anos. “Quero viver em qualquer país menos na Síria, onde for seguro e haja escolas e brinquedos”, afirma. “Aqui o som dos cães assusta-me e a tenda não é segura”, descreve. “O meu futuro é nos Países Baixos; falo melhor holandês do que árabe e economicamente é melhor”, diz um rapaz de 15 anos.

Fossem ou não nascidas, as crianças sírias viram a sua vida virada do avesso pela guerra que se seguiu aos protestos pacíficos iniciados há dez anos no seu país.

A família de Nada instalou-se em Akkar, no Norte do Líbano, enquanto Lara nunca passou a fronteira e vive com os oito irmãos num campo de deslocados na mesma região de Idlib, no Noroeste da Síria. Quando lhe disseram que iam fugir, Lara pôs os seus brinquedos numa mala que decidiu não voltar abrir. Hoje, não quer voltar mas acredita que isso mudará: “Não vou desistir e vou sonhar em ir para casa para poder abrir o meu saco de brinquedos e brincar com Jasmim, o meu urso de peluche”.

Nada e Lara (nenhum nome é verdadeiro) são duas das 1900 crianças sírias entrevistadas na Síria, na Turquia, no Líbano, na Jordânia e nos Países Baixos pela organização não-governamental Save the Children entre Novembro e Dezembro de 2020. O resultado é o relatório Em qualquer lugar menos na Síria – Como dez anos de conflito deixaram as crianças sírias sem se sentir em casa.

Há muitos dados quantitativos sobre a vida das crianças sírias. A propósito do aniversário da revolta contra a ditadura de Bashar al-Assad, muitos têm sido actualizados. Segundo a UNICEF, quase 90% das crianças na Síria precisam de assistência humanitária, mais 20% do que há um ano. Dentro da Síria, 2,45 milhões não vão à escola, enquanto nos países vizinhos outras 750 mil crianças não conseguem estudar.

A situação mais alarmante é a que se vive no Noroeste da Síria, com muitas famílias obrigadas a múltiplas fugas nos últimos anos. É onde vive Lara. Na Síria, “o número de relatos de crianças vítimas de sofrimento psicológico duplicou em 2020”.

“Em qualquer lugar menos na Síria” é um estudo centrado na “segurança psicossocial”. Nas entrevistas com as crianças, estas falam “das suas lutas diárias para se sentirem seguras e em casa onde estão”, “de tentar reclamar as suas infâncias e os seus futuros enquanto encontram inúmeros obstáculos, incluindo discriminação generalizada, perda de influência nas suas próprias vidas e medo de um regresso forçado”, resume Inger Ashing, presidente executiva da ONG Save the Children International.

Três tópicos surgiram como os que mais contribuem para a experiência psicossocial de segurança: o acesso a oportunidades significativas de futuro (“a incerteza sobre o futuro prejudica muito o bem-estar, às vezes mais ainda do que preocupações sobre a segurança física actual”); um sentido de pertença e a influência nas decisões que moldam suas vidas.

Há dados mais e menos óbvios. Entre as crianças refugiadas, 86% não quer regressar à Síria; entre as que vivem na Síria, uma em cada três quer estar noutro lugar. “[Se me for embora], quem tratará dos sonhos dos sírios?”, pergunta uma síria deslocada, de 17 anos. Lara diz que o seu futuro passou a ser “todo sobre a guerra”; muitas crianças perderam irmãos, um dos pais ou não conseguem esquecer a violência, enquanto outras quase não têm recordações do país ou cidade de origem (Kubra, 13 anos, a viver na Turquia, perdeu a mãe numa explosão quando só tinha um ano e só se lembra das roupas que vestia para visitar os avós).

Educação e liberdade

A maioria fala dos desafios de acomodar duas culturas nas suas identidades, particularmente nos Países Baixos. Ali, 64% das crianças entrevistadas sentiu descriminação, quase sempre na escola. No Líbano, muitos adolescentes sentem-se descriminados por serem mais pobres. Mas o grupo com o sentimento de pertença à comunidade mais baixo é o dos deslocados na Síria, o que “pode ser uma indicação de quão devastado está o tecido social no país”.

Questionadas sobre se acreditam que vão conseguir viver onde querem, as mais pessimistas são as que estão na Síria e as mais optimistas as que estão na Europa: todas as crianças nos Países Baixos estão a estudar (na Jordânia, por exemplo, 36% dos refugiados não vai a nenhum tipo de escola) e 70% acredita num “futuro positivo”; quem quer ficar refere a língua, a educação, oportunidades económicas e liberdade como motivos.

Foi na cidade de Deraa que tiveram início as manifestações contra a ditadura, a 15 de Março de 2011. O regime disparou a matar e os protestos espalharam-se. Face à repressão brutal, a revolta tornou-se numa guerra civil com quase todas as potências e países da região a apoiar diferentes grupos. Entretanto, houve o terror do Daesh. O conflito criou uma gigantesca vaga de deslocados: hoje, 13,2 milhões de sírios vivem longe de casa, incluindo 6,6 milhões que são refugiados e mais de seis milhões de deslocados internos.

Ao analisar os resultados do estudo da Save the Children, Ashing, presidente executiva da organização avisa que não há um minuto a perder para salvar o futuro da Síria: “Sejamos claros: a não ser que sejam definidos agora caminhos sólidos para as crianças sírias atingirem todos os seus direitos, há um risco de que este [aniversário] se torne um terrível marco de uma segunda geração de crianças que perdem a oportunidade de uma infância decente e de um futuro”.

29.1.21

“O regime levou tudo” mas os sírios ainda preparam o futuro

Sofia Lorena, in Público on-line

A Síria revoltou-se e a dimensão da resposta foi tão avassaladora que às vezes parece ter sobrado pouco. Mas nenhum regime dura para sempre. “Serão precisas várias gerações para sarar”, mas quem sobreviveu não desiste.
Sofia Lorena

Ao contrário que acontecia em vários dos países árabes que viveram revoltas ou amplos movimentos de protesto no início de 2011, para a esmagadora maioria dos sírios a crítica ao regime não era uma opção. Muitos dos que se juntaram à revolução contam como só nesses dias perceberam que os próprios pais não estavam contentes com a vida que tinham.

“Estávamos em silêncio mas nenhum sírio podia mais”, disse-nos Amani, síria refugiada na Jordânia que em 2011 tinha 28 anos. “Nem queria acreditar quando os meus pais começaram a dizer mal de Bashar e do pai. Explicaram-me que nunca tinham dito nada porque que tinham medo que nós soubéssemos que a vida não era boa.”

Para os sírios, a descoberta de liberdade foi extraordinária. E a forma como o regime de Bashar al-Assad respondeu a essa descoberta foi inimaginável. Passaram dez anos, é difícil recordar tudo em pormenor. Kholoud Helmi, jornalista, conta que decidiu participar no documentário Cries from Syria, de 2017, precisamente para não esquecer. “É a minha história. E aconteceram tantas tragédias, tantas atrocidades, às vezes parece que nos vamos esquecendo das anteriores. Há sempre uma tragédia nova.”

Tem sido assim a vida de sírio. De massacre em massacre, da repressão à política de terra queimada, das bombas-barris (barris, de petróleo ou garrafas de gás cheios de explosivos e fragmentos de metal) aos ataques químicos, dos doenças e do frio aos cercos destinados a matar cidades inteiras à fome. Nos últimos dez anos morreram cerca de 500 mil sírios, 6,5 milhões abandonaram o país, 100 a 250 mil foram detidos ou desapareceram.

Helmi estava na Síria quando a revolta começou. Aos 26 anos, na sua cidade dos subúrbios de Damasco, Darayya, já tinha ouvido falar dos massacres de 1982, quando as forças governamentais cercaram a cidade de Hama e mataram pelo menos 30 mil pessoas para esmagar uma tentativa de insurreição da Irmandade Muçulmana. Mesmo assim, entusiasmada pelo que via estar a acontecer na Tunísia, no Egipto ou no Iémen, decidiu participar numa manifestação, a primeira de que soube, em Damasco.

Não era muita gente. Quem estava cantou, nem sequer gritou. “Liberdade”, “mudança”, nem sequer “o povo quer a queda do regime”, a frase que haveria de repetir-se por todo o país. Bastou isso para sentir que “flutuava”. Hoje, não tem como saber se foi nesse momento que se entregou à revolução, se foi mais tarde, quando os amigos começaram a ser mortos e a desaparecer.

Rafif Jouejati não estava na Síria, aliás levava uma vida “ocupada com tudo que não tem a ver com a Síria”. A empresa de consultadoria de gestão, o casamento, os dois filhos nascidos nos Estados Unidos. Nos anos anteriores tinha acreditado, como tantos, que “o popular Bashar al-Assad, aquela figura educada no Ocidente, ia trazer mudanças”.

“Tenho ideia que foi durante uma manifestação em Daraaya a primeira vez que dispararam munições reais. Eram miúdos, adolescentes. E eles dispararam, não foram balas de borracha, não foi gás lacrimogéneo, foram balas reais”, diz. Para Jouejati, foi nesse momento que percebeu que não podia ficar parada. “E quando nos juntamos a um movimento deste tipo com um regime assim não se pode estar meio dentro e meio fora. É tudo ou nada. No meu caso foi tudo.”

Começou por trabalhar com os Comités Locais de Coordenação, a rede de grupos locais que nasceu por todo o país para organizar os protestos, depois a resistência. Primeiro foi tradutora, depois porta-voz, entretanto aproximou-se dos dirigentes, “principalmente de Razan Zeitouneh”, desaparecida desde Dezembro de 2013, foi assumindo projectos cada vez maiores e juntou-se à direcção dos comités.

Os dias bons

“Esses eram os dias bons. Quando ficávamos devastados se morressem 20 pessoas, quando a maioria dos activistas ainda acreditava em manifestações pacíficas, quando a criatividade dos sírios era assombrosa”, diz. Jouejati ainda acredita na resistência pacífica e hoje dedica-se, em parte, a tentar fazer passar estratégias de não-violência para dentro da Síria.

Percebe que “o regime militarizou tanto a resposta que as pessoas tiveram de se defender”, sabe que “usou tácticas destinadas a promover sentimentos de vingança, castigos colectivos, para além de enviar infiltrados para os protestos, de provocarem divisões”. A verdade é que “era isso que o regime queria”, “era uma armadilha à qual não se podia fugir”.

Os sírios revoltaram-se, depois resistiram. Quando lhes entraram em casa pegaram em armas para salvar os filhos. Foi assim que Taman Esselum, professor de Árabe tornado resistente em Hama, membro dos Comités Locais, nos explicou, em 2012, durante uma viagem à Turquia, para pedir ajuda à oposição no exílio. “Assad é estúpido, mas não é louco. O problema foi que o mundo lhe deu luz verde para nos matar. Revoltámo-nos contra Assad. Mas afinal temos de derrotar o mundo todo.”

Jouejati sabe que foi assim. Acompanhou de perto o processo de negociações patrocinado pela ONU, esteve nos encontros de Genebra. Viu como o regime “assinava documentos e ainda a tinta não tinha secado já fazia cercos para matar comunidades à fome”. Como “a comunidade internacional começou a ficar dormente, como se se tivesse instalado uma apatia e toda a gente ficasse paralisada”. A seguir, viu como “o ónus da prova deixou de estar do lado do regime e passou para os activistas, e isso foi devastador”.

Milhões de workshops

Entretanto, a diáspora não parou de crescer. Helmi está em Istambul, para onde o jornal que ajudou a fundar na Síria, o Enad Baladi se mudou, em 2014. Jouejati está em Madrid, é responsável do Partido Liberal Sírio na Europa e colabora com várias organizações. Defende que os EUA, a União Europeia e a ONU “podiam ter encontrado formas de pressionar a Rússia, de negociar com o Irão”. Em vez disso, “disponibilizaram ajuda humanitária e muita assistência em termos de construção de capacidades e treino, milhões de workshops…”, afirma. “Agora temos milhões de sírios peritos em sociedade civil, só não temos um país.”

Nem uma nem outra desistiram de uma nova Síria. Mesmo se às vezes parece ter sobrado pouco. “Às vezes perguntam-me o que é que os sírios precisam. A resposta é tudo. Tudo nos foi levado, o regime levou tudo, com mundo a assistir. Por isso, agora precisamos de tudo”, diz Jouejati.

Como vários analistas, Jouejati acredita que o regime está cada vez mais sozinho e fraco. “Agora temos agitação civil na Rússia, o Irão tem problema gigantesco com a covid-19, muita gente com fome, a viver nas ruas, está a ferver”, enumera. “Depois da pandemia, ninguém vai poder gastar dinheiro”, concorda Marwan Muasher, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Jordânia, actual vice-presidente de Estudos do Programa do Médio Oriente do think tank Carnegie Endowment for International Peace.

“Quando o regime se vir completamente sozinho vai entrar em colapso”, diz Jouejati. E é aí que os milhões em workshops podem fazer a diferença. “A dimensão do trauma é indescritível, serão precisas várias gerações para começar a sarar”, admite. “Mas os sírios têm amadurecido politicamente. Trabalharam os conceitos de liberdade, de democracia. Vamos ter de criar uma democracia nova, a partir da cultura síria. Vai demorar, mas vamos lá chegar. Temos é de dar o primeiro passo, vermo-nos livres do regime de Assad.”

31.3.16

Lições de guerra: as escolas em Damasco

In "Sic Notícias"

A guerra na Síria já fez mais de 270 mil mortos, dos quais mais de 13 mil eram crianças e, gerou a maior crise migratória após a 2ª Guerra Mundial. Num cenário de destruição que é a cidade de Damasco, erguem-se escolas para as crianças sírias que ficaram. Esta é uma galeria de fotos da Agência Reuters.

O conflito na síria começou em 2011 com a Primavera Árabe e a contestação a Bashar al-Assad.

Desde então o país é controlado por diversas forças, como o Daesh, a Frente al-Nusra ligada à al-Qaeda e pelos curdos.

Damasco está sob o controlo do Governo sírio.

A capital é testemunha da violência contínua gerada no país e dos ataques terroristas que pesam na vida diária daqueles que ficaram.

3.9.15

Plataforma vai “organizar a generosidade da sociedade portuguesa” 1959 2

Catarina Gomes, in Público on-line

Director do Serviço Jesuíta aos Refugiados alerta que “rapidamente estaremos no Inverno. Era importante que não se demorasse muito tempo, porque as pessoas estão em situação muito precária".

Cerca de cem famílias portuguesas manifestaram vontade de receberem refugiados enviando emails nesse sentido para o Conselho Português dos Refugiados (CPR), há câmaras municipais a oferecer ajuda, empresas a dizerem que têm trabalho para dar a quem chegue. “As manifestações de generosidade da sociedade portuguesa são um bom sinal, agora é preciso organizar a generosidade, torná-la eficaz”, diz Rui Marques, um dos mentores da criação da chamada Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) que juntará, a partir de sexta-feira, várias organizações da sociedade civil para tentar começar a pôr no terreno condições para a vinda de refugiados para Portugal.

Há famílias portuguesas, algumas com filhos e vida estabilizada, que se disponibilizam a acolher famílias com crianças. Há empresas a oferecer trabalhos na agricultura e serviços, refere Teresa Tito de Morais, a presidente da organização não-governamental CPR. Há câmaras, como as de Olhão, Vila Velha do Ródão e Penela e Lisboa, e até juntas de freguesias, como a de Alvalade, na capital, que se mostram abertas a ajudar. “Tem havido mobilização em termos nacionais com provas de generosidade e grande abertura para participar no acolhimento de refugiados em fuga”, constata Teresa Tito de Morais.

“Um desafio de emergência humanitária exige uma resposta dos Estados e da sociedade civil. Saudamos a generosidade da sociedade portuguesa, mas agora a generosidade precisa de ser organizada e articulada. Temos de responder a essa generosidade de impulso imediato para a tornar eficaz, em complementariedade com o Estado”, refere Rui Marques, um dos mentores desta plataforma que juntará o CPR, mas também a Cáritas Portuguesa, a Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade, Comissão Nacional justiça e Paz, o Instituto de Apoio à Criança, Comité Português da Unicef, o Instituto Padre António Vieira, a Obra Católica Portuguesa das Migrações, o Serviço Jesuíta aos Refugiados, representantes do sector empresarial, entre outros, refere.

Teresa Tito de Morais diz que tem de se verificar “o que tem pernas para andar, tentando perceber que ofertas podem ser concretizadas. Tem de se planificar e as respostas dadas pelas autarquias e a sociedade civil têm de ser articuladas com o Governo”.

No caso das famílias que se prontificaram a acolher, “é necessário haver trabalho de confirmação da boa vontade, perceber se são consistentes”; no caso das empresas é preciso perceber que idades terão os refugiados que Portugal irá acolher, as regiões para onde poderão ir. “Tem de se fazer um estudo”; no caso das autarquias é preciso perceber que apoios financeiros receberão as que se disponibilizam a receber cidadãos refugiados, enumera a responsável do CPR.

Teresa Tito de Morais nota que as famílias serão muitas vezes adequadas “numa segunda fase do acolhimento, quando está em causa uma integração mais duradoura”, sendo o primeiro acolhimento mais adequado em instalações de grande superfície. O CPR começou por receber 20 emails de pessoas a oferecer acolhimento nas suas famílias, mas todos os dias têm chegado mais, diz. A responsável lembra que no Canadá funciona a figura do apadrinhamento de família e que na Islândia, um país de 350 mil habitantes, houve 11 mil pessoas a oferecerem-se para acolher refugiados.

Teresa Tito de Morais continua a acreditar que os cerca de 1500 refugiados que o primeiro-ministro Passos Coelho disse que Portugal estaria disposto a acolher, em dois anos, é um número “que, neste contexto de aumento da pressão migratória cada vez mais intensa, podia ser mais ambicioso”.

Idêntica opinião foi manifestada esta quarta-feira pelo provedor da Misericórdia de Lisboa, Pedro Santana Lopes. "Nós somos capazes de mais", declarou à TSF, ressalvando que respeitava as negociações em curso na União Europeia que acusou de estar a fazer "uma figura triste" por não se mostrar mais solidária. "Quero acreditar nos bons sentimentos da Europa, mas os exemplos até aqui dos dirigentes políticos europeus são lamentáveis”, afirmou

O provedor da Santa Casa comentava as palavras do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, que na véspera anunciou que o município tinha condições para constituir um fundo de auxílio de dois milhões de euros e para acolher 750 refugiados - metade da quota prevista para Portugal.

Para Rui Marques, que é presidente Instituto Padre António Vieira, mais do que o número de pessoas a ajudar, o importante “é começar a concretizar, é começar a trabalhar no concreto para as coisas acontecerem. A generosidade desorganizada não funciona.”

Várias organizações não governamentais anunciam esta sexta-feira em Lisboa a criação da Plataforma de Apoio aos Refugiados, que terá duas áreas de actuação: uma focada no acolhimento e integração de crianças refugiadas e das suas famílias em Portugal; e outra focada no apoio aos refugiados no seu país de origem, explica-se no comunicado de imprensa.

O director do Serviço Jesuíta aos Refugiados, André Costa Jorge, sublinha que, “desde que foi anunciado o acolhimento de refugiados, até à data, que na Europa se discute de forma táctica, em termos práticos ainda não está montado o acolhimento”, admitindo que, no caso de Portugal, a proximidade das eleições legislativas poderá ser um factor susceptível de atrasar a vinda de pessoas.

“Estamos em Setembro e rapidamente estaremos no Inverno. Era importante que não se demorasse muito tempo, porque as pessoas estão em situação muito precária. No Inverno as pessoas passarão pior, sem condições de habitação. Preocupam-nos as famílias com crianças a cargo", diz.

"As pessoas não podem estar na rua, em tendas, em comboios lotados, depois do calvário que passaram até chegarem às fronteiras da Europa”, sublinha. Nesta fase, diz, é também necessário identificar os refugiados “em situação de maior vulnerabilidade” e também distinguir as situações dos refugiados dos imigrantes económicos.

Um imigrante económico sai do seu país em busca de melhores condições de vida, um refugiado corre perigo de vida se permanecer no seu país de origem, quer pela existência de conflitos armados ou porque é alvo de perseguição. Desde 2008 que Portugal tem uma lei que dá protecção a este tipo de situações. Nos centros de acolhimento e alojamentos do CPR em Portugal estão alojadas cerca de 300 pessoas.

8.4.15

O pesadelo de Yarmouk caiu para os “níveis mais baixos da desumanidade”

Félix Ribeiro, in Público on-line

A ONU exige a entrada de missões humanitárias em Yarmouk, que caiu na semana passada para o controlo do autoproclamado Estado Islâmico. Sem comida ou água potável, o campo de refugiados palestinianos está cada vez mais isolado.

Desde que, há uma semana, o autoproclamado Estado Islâmico invadiu Yarmouk e se colocou a apenas seis quilómetros do centro de Damasco que a situação da população palestiniana no campo de refugiados se tornou “mais desesperada do que nunca”. A ONU não sabe ao certo qual é a área do território actualmente sob o controlo dos jihadistas, nem quantos grupos armados combatem nas ruas, mas sabe que há milhares de palestinianos presos em suas casas a morrerem à fome e sem acesso a água potável ou medicamentos.

O Conselho de Segurança da ONU exigiu nesta terça-feira que fosse concedida a entrada de missões humanitárias em Yarmouk “para a protecção de civis” e que se conceda “passagem segura para a retirada [dos habitantes]”. Foi a resposta à reunião de emergência de segunda-feira com Pierre Krähenbühl, o comissário-geral da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos (UNRWA), que afirma que se vive em Yarmouk “uma situação completamente catastrófica em termos humanos”.

Yarmouk está severamente cercado há quase dois anos pelo exército de Bashar al-Assad. Desde então que a única entrada de alimentos e água tem sido feita através das missões da ONU na localidade, intermitentes e sem capacidade para responder às necessidades dos cerca de 18 mil palestinianos, entre os quais 3500 crianças. Agora, com a entrada em cena do Estado Islâmico e a escalada nos combates e bombardeamentos, tornou-se impossível levar ajuda à população no campo. “É simplesmente demasiado perigoso entrar em Yarmouk”, disse na segunda-feira Krähenbühl numa conferência de imprensa.

Antes da guerra, Yarmouk era uma das zonas mais populosas de Damasco, onde chegaram a viver cerca de 170 mil refugiados palestinianos. Dezenas de milhares fugiram à medida que o conflito evoluiu e que a zona se tornou numa das mais importantes frentes de combate entre o regime sírio e os grupos de oposição, onde se incluem os islamistas da Frente al-Nusra, a filial síria da Al-Qaeda e, agora, o autoproclamado Estado Islâmico.

Não se conhece ao certo o número de palestinianos que neste momento ainda se encontram em Yarmouk. De acordo com a agência de notícias síria, 2000 pessoas conseguiram fugir do campo desde que o EI entrou pelo flanco sul. A ONU não confirma este número e limita-se a dizer que poucas centenas conseguiram sair do campo ao longo dos últimos dias, estando o número oficial de residentes ainda perto dos 18 mil.

A população de Yarmouk tem sobrevivido com uma média de 400 calorias por dia, menos de um quarto do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde, afirmou Pierre Krähenbühl. Desde que se iniciou o cerco a Yarmouk que já morreram pelo menos 200 palestinianos à fome. E esta é uma situação que vai piorar, agora que o autoproclamado Estado Islâmico se apoderou de grande parte do terreno – 90%, de acordo com os relatos que surgem do campo – e que a assistência humanitária está impedida de entrar no campo.

Al-Nusra e Estado Islâmico
Nunca o EI esteve tão perto de Damasco. De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, com sede em Londres, o Governo sírio respondeu à entrada dos jihadistas com dezenas de bombas-barris, que explodem com estilhaços e munições no interior. Até ao momento, diz o Observatório, já caíram 25 destas bombas no campo de Yarmouk. Por causa da escalada nos conflitos, os refugiados palestinianos estão praticamente isolados em casa, como explicou na segunda-feira Christopher Gunness, da UNRWA. “A situação em Yarmouk desceu aos mais baixos níveis da desumanidade”, disse ao New York Times.

A surpreendente chegada do EI aos arredores de Damasco obrigou Bashar al-Assad a fortificar as suas posições militares em torno da capital e deixou ao Governo sírio um novo cenário a equacionar: a possível aliança da Frente al-Nusra, aliados da Al-Qaeda, e dos jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico. Os dois grupos islamistas sempre se opuseram desde o início do conflito sírio.

Os relatos que surgem do terreno avançam que os dois grupos têm combatido em conjunto contra os rebeldes em Yarmouk. O Governo sírio diz que foi a filial da Al-Qaeda quem facilitou a entrada do Estado Islâmico em Yarmouk, na tentativa de sabotar um eventual processo de cessar-fogo com algumas milícias armadas em troca do levantamento parcial do cerco ao campo. Mas a al-Nusra nega uma aliança com o EI e afirma que mantém a sua postura de "neutralidade" face aos confrontos no campo de refugiados palestinianos. Algo que as imagens publicadas pelo grupo armado nas redes sociais parecem desmentir, como avança o jornal The Guardian.

30.3.15

Síria. ONG pedem mais fundos para vítimas de guerra

in iOnline

A guerra na Síria já fez, pelas contas da ONU, 220 mil mortos e 11,5 milhões de deslocados e refugiados

Organizações humanitárias e de solidariedade de todo o mundo tentam esta segunda-feira fazer com que os países doadores que se reúnem na terça-feira na capital do Kuwait se comprometam a aumentar as suas contribuições e a torná-las efectivas.

As organizações internacionais denunciam que em 2014 não receberam 47% do financiamento prometido, embora esperem que a reunião que tem início na terça-feira na capital do Kuwait permita satisfazer, pelo menos parcialmente, as necessidades dos dois milhões de deslocados e refugiados afetados pelo conflito.

A cidade do Kuwait acolhe hoje as 38 organizações humanitárias internacionais presentes na região, as quais expõem os objetivos e os meios com que esperam contar para aliviar o sofrimento de milhões de refugiados e deslocados.

Na terça-feira serão os 67 países participantes que tornarão público o volume individual das contribuições que se comprometem a satisfazer, numa altura em que algumas das agências das Nações Unidas advertem que a falta de recursos obriga a reduzir significativamente as ajudas, económicas e materiais.

Pelo menos três milhões de sírios recebem ajudas alimentares e 200 mil tratamento médico, segundo dados divulgados em conferência de imprensa pelo ministro de Estado do Kuwait para Assuntos do Gabinete, Mohamed Abdula al Sabah.

Até uma centena de fundos, organizações de solidariedade e outras associações locais e nacionais participam na reunião convocada pela organização Caridade Islâmica Internacional, sediada no Kuwait, para estimular a generosidade dos doadores públicos e privados.

A ONU quantifica o número de mortos na guerra em 220 mil e o dos que precisam de assistência humanitária em 12,2 milhões de pessoas. Cerca de 7,6 milhões estão deslocados no interior do país e mais de 3,9 milhões refugiados nos países vizinhos e no Magrebe.

Lusa

22.4.14

Agência da ONU alerta para risco de fome extrema em campo de refugiados

in TSF

A UNRWA, que tentou entrar no campo de refugiados de Yarmouk, na Síria, na sexta-feira, explicou que cada distribuição de alimentos é suficiente para dez dias e que no domingo passarão dez dias sobre a última distribuição.

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos alertou, este sábado, para o risco de fome extrema no campo de refugiados de Yarmouk, na Síria.

Em comunicado, o porta-voz da UNRWA em Jerusalém explicou que no domingo passam dez dias sobre a última distribuição de alimentos, o que condena milhares de pessoas à fome extrema.

Chris Gunness explicou que as remessas dos mantimentos da ONU duram para dez dias e que a distribuição de alimentos feita neste campo afeta mais de 20 mil pessoas «que necessitam desesperadamente de ajuda».

«Dados que os mantimentos da UNRWA permitem que se coma durante dez dias, a partir de domingo não haverá comida no campo de refugiados», acrescentou.

Gunness acrescentou ainda que a violência em março fez com que a UNRWA só conseguisse aceder ao campo de refugiados dez dias entre 11 de março e 10 de abril e distribuiu 3390 rações de alimentos.

7.3.14

Síria: a guerra virou do avesso a vida destas crianças

Save the Children, in Público on-line (P3)

"Pode não estar a acontecer aqui mas na Síria o horror retratado neste vídeo é demasiado real". O vídeo publicado no dia 5 de Março pela organização Save the Children, que luta pelos direitos das crianças em 120 países, já conta com mais de quatro milhões de visualizações. Em pouco mais de um minuto, e num vídeo ao estilo um-segundo-por-dia, a vida de uma criança fica virada do avesso. "Poderia isto acontecer em Inglaterra? Isto é o que a guerra faz às crianças", resume a Save for Children, também responsável por um vídeo "First Day" em que a mensagem principal era "Para um milhão de recém-nascidos por ano, o seu primeiro dia é também o último". Desta vez, o alvo são os conflitos na Síria. "Três anos de guerra civil devastou a vida de uma geração de crianças. Custou a vida a mais de 11 mil crianças e transformou mais de um milhão em refugiadas. Sujeitou-as a traumas, bombardeamentos indiscriminados e até torturas". Recorde-se, a propósito uma outra inciativa recente com o mesmo fim solidário, a campanha viral "Darias o teu casaco a uma criança com frio?".