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16.6.23

A debandada dos jovens licenciados

Carmo Afonso, opinião, in Público

Como pode o Estado intervir? Por exemplo, aumentando os salários na função pública para licenciados, mestres e doutores. Seria o estímulo necessário para o aumento dos salários no privado.

Segundo o relatório Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal, publicado pela Fundação José Neves (FJN) e agora divulgado, a diferença entre o salário correspondente a um diploma do ensino superior e o salário correspondente à finalização do ensino secundário caiu para metade entre 2011 e 2022. Existiu uma desvalorização salarial para os jovens que têm uma licenciatura.


Isto significa, como consta no relatório, que “os jovens adultos com ensino superior continuam a marcar passo”, ou seja, na prática, quem tiver essa oportunidade acabará por optar por ir trabalhar para outros países onde oferecem melhores condições remuneratórias. Há aqui um convite à emigração, como referiu Carlos Oliveira, presidente da FJN.


É muito triste, e muito grave, que assim seja e temos a obrigação, diria mesmo a necessidade, de pensar um pouco sobre isto. Que país teremos daqui a dez anos, se os mais qualificados e mais preparados emigrarem? Ninguém quer responder ou conceber a resposta a esta pergunta, mas ela coloca-se neste preciso momento.

Em primeiro lugar, importa fazer a despistagem da formulação liberal deste problema que aponta sempre para o excesso de carga fiscal que, supostamente, afasta os jovens cérebros. Nunca vi ninguém emigrar por causa do excesso de tributação: se os salários fossem aproximados, não seria o pagamento de impostos que justificaria, e compensaria, ir viver para outro país. Quem paga impostos gostaria de pagar menos. É compreensível. É certo que jovens qualificados tenderão a obter rendimentos correspondentes a um escalão de IRS em que pagarão imposto. Mas nunca seria por aí que os jovens se sentiriam aliciados a ficar. Trata-se de uma ilusão que não ajudará a resolver este problema concreto.


O que nós temos é um problema de salários baixos comparativamente com outros países da União Europeia. O mercado paga mal. Os jovens licenciados não têm a obrigação de se conformar com isso. São livres e têm direito a ser ambiciosos e a procurar as melhores condições de vida possíveis. É o que estão a fazer.

Atenção que o mercado funciona sempre bem para si mesmo. Quando dizemos que temos um problema na Habitação, estamos a dizer que existe um problema para as pessoas – as que vivem dos rendimentos do seu trabalho em Portugal e que querem comprar ou arrendar casa. O mercado imobiliário continua a funcionar maravilhosamente. As agências e os investidores estão ao rubro.

Aqui também é assim. O mercado do trabalho não dá respostas às justas ambições dos jovens licenciados. Mas são estes e as suas famílias que têm um problema para resolver. O mercado prossegue lindamente a pagar salários baixos e a expulsar licenciados do país. O seu interesse é remunerar pouco e lucrar muito. Temos poucos empresários que se destaquem desta lógica obsoleta. Vemos muitos queixarem-se da falta de mão de obra, sobretudo da não qualificada, mas poucos a reconhecer que existe uma relação entre essa escassez e os salários miseráveis que têm para oferecer.

Terão de ser o Estado e as políticas públicas a ter um papel nesta crise. As universidades, e o sistema de ensino e formação, têm feito um esforço para se adaptarem ao mercado. Cada vez mais as licenciaturas, mestrados e doutoramentos têm uma vertente prática ou técnica orientada para as necessidades das empresas e, lá está, do mercado. Esta é uma “reivindicação” liberal. Isto significa que as universidades enquanto centros de conhecimento e laboratórios de pensamento crítico estão a perder valências. O Estado tem responsabilidade nisto. Não são as universidades que precisam de se adaptar ao mercado. Se as coisas não estão bem, é ao nível do próprio mercado.

Como pode o Estado intervir? Por exemplo, aumentando os salários na função pública para licenciados, mestrados e doutorados. Esse aumento seria o estímulo necessário para o aumento dos salários no privado. Não existe melhor remédio para travar o fluxo de emigração do que aumentar os rendimentos que estes jovens podem obter com o seu trabalho.

O mercado funciona sempre muito bem, mas nunca consegue resolver os problemas das pessoas


Já seria positivo que conseguíssemos pensar nisto sem as habituais cortinas de fumo e sem apontar armas aos alvos errados. O mercado funciona sempre muito bem, mas nunca consegue resolver os problemas das pessoas. Neste momento está até a criar um novo e grande problema: é que ninguém fica contente a ver partir os que podem fazer, deste país, um país melhor.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


[Artigo exclusivo para assinantes]

24.11.15

Licenciados ganham mais 69% do que quem só fez secundário

in Diário de Notícias

Relatório da OCDE considera que Portugal tem uma compensação salarial "muito elevada" para os cidadãos licenciados

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE) considera que Portugal tem uma compensação salarial "muito elevada" para os cidadãos licenciados, afirmando que ganham, em média, mais 69% do que a população com o ensino secundário.

A média da OCDE neste parâmetro é de 57 por cento, segundo os dados hoje divulgados no relatório "Education at Glance 2015", que contém indicadores dos 34 países da organização e de outros parceiros.

Segundo os peritos que avaliaram os dados, 44% das pessoas com graus académicos no ensino superior ganham pelo menos o dobro do salário médio, comparando com apenas 15% da população total.

"Os que têm uma licenciatura ou equivalente ganham em média mais 69% do que os que têm o ensino secundário, o que está acima da média da OCDE de 57%", lê-se no documento.

Para a OCDE estas diferenças são o reflexo de um baixo nível de qualificação superior entre a população portuguesa.

"De facto, apenas 31% dos jovens adultos (dos 25 aos 35 anos) em Portugal tem formação superior", refere-se no relatório.

As taxas de conclusão para Portugal de licenciatura, mestrado e doutoramento, à primeira vez, estão a par ou acima da média da OCDE, em 36%, 20% e 1,7%, respetivamente.

Em geral, espera-se que 43% dos jovens adultos em Portugal faça pelo menos um programa no ensino superior, o que está ainda "bem abaixo da média de 50% da OCDE".

Apesar de as qualificações académicas entre as gerações mais velhas serem bastante mais baixas em Portugal do que noutros estados da OCDE, o país recuperou nos últimos anos e registou o maior aumento na formação da população.

"Entre os cidadãos na faixa etária dos 55 aos 64 anos, apenas 23% atingiu o ensino secundário, mas a taxa sobe para 64% na faixa dos 24 aos 35 anos", ainda assim abaixo da média da OCDE de 83%.

A OCDE nota que o nível de instrução é bastante desigual em Portugal. "Com 36 por cento, Portugal tem a segunda percentagem mais alta de população sem o 3.º ciclo, apenas atrás da Turquia" nesta tabela.

No entanto, 17% da população tem um grau de mestre no ensino superior, o que está bem acima da média da OCDE de 11%.

"O nível de instrução faz uma grande diferença no mercado de trabalho", observam os relatores.

Apesar de o desemprego ser substancialmente mais elevado do que noutros países da OCDE, "diminui nitidamente para quem tem mais qualificações académicas".

No capítulo dedicado às habilitações académicas e ao mercado de trabalho, os autores do estudo sublinham que, em 2014, a taxa de desemprego para a população entre os 25 e os 64 anos com formação inferior ao secundário foi de 14,8%, para os que concluíram este nível de ensino foi de 12,6% e situou-se nos 8,9% para os licenciados.

As médias correspondentes na OCDE foram de 12,8%, 7,7% e 5,1%, respetivamente.