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12.10.20

Eu sei que é uma chatice: a Fome.

 Gustavo Corona, opinião, in Público on-line

Iémen, Afeganistão e Sudão do Sul, são os três países onde a intervenção do Programa de Alimentação Mundial é maior. E é para eles e para tantos outros que estou a olhar com um sorriso que este prémio me desperta.

Eu sei que é uma chatice. Eu sei que é muito mais excitante falar de sexo num comboio, dos ovários que uns querem tirar, das particularidades dos ciganos, das questiúnculas das presidenciais, ou daquela “frase ao lado” que a ministra da Saúde disse sobre já nem sei bem o quê, mas foi gravíssimo. Eu sei que é uma chatice, mas gostava de falar sobre as pessoas que estão a morrer à fome.

Há apenas uma certeza sobre a fome nos dias de hoje: “Não havia necessidade.” É totalmente incongruente com o desenvolvimento das capacidades do ser humano que existam tantos milhões de pessoas em vias de morrer à fome. Eu diria que é vergonhoso que o melhor que lhes podemos dar neste momento é um prémio. A fome está quase sempre acoplada aos grandes conflitos, e é usada e instrumentalizada como arma de guerra. Deixar as pessoas morrer à fome, promover que morram à fome, desenhar uma estratégia de guerra para que morram à fome, é tão frequente e legitimado nas mentes bélicas como qualquer outra arma, que sirva um propósito de uma vitória, se é que alguém ganha numa guerra.

É um Prémio Nobel da Paz, justíssimo e que carrega múltiplas análises importantíssimas aos dias de hoje. São desmultiplicáveis e claro interconectadas as mensagens que se podem aplaudir neste que é (discutivelmente) o maior prémio do planeta Terra:

A importância das organizações. Não chega dar um quilo de arroz e uma roupinha. É preciso estrutura, grandes investimentos, reflexões maturadas e profissionais. Ambicionar a utopia da imparcialidade na ajuda a seres humanos. Numa altura em que alguns querem (e conseguem!) fragilizar as organizações mundiais, aqui fica mais uma prova de que é fundamental um olhar global para os problemas globais.
Proporcionalidade. O foco das nossas atenções tem de estar à dimensão do problema. Ao canalizarmos as energias para superficialidades, esquecemo-nos que first things first, e acabar com a fome, a pobreza e guerra tem que ser o primeiro pensamento de todos que têm coração.

Interdependência com a guerra. A maior parte das pessoas num conflito morrem pelas consequências indirectas do mesmo, doenças facilmente tratáveis e fome. E a mensagem do Comité Nobel encadeou os holofotes para essa mensagem poderosíssima: “Pelos seus esforços em combater a fome, pelas suas contribuições para o melhoramento das condições para a paz nas áreas afectadas por conflitos e por actuar como força motora nos esforços na prevenção da utilização da fome como arma de guerra.”
A globalidade da pandemia. Tem sido óbvio em cada país que os pobres são os que mais sofrem quer pela doença, pelas consequências indirectas da doença. À escala global ainda é mais gritante. O empobrecimento e amedrontamento dos países ricos esmaga violentamente a fragilidade dos países pobres e as suas pessoas. A nossa empatia encontra muros mais elevados nas nossas fronteiras e a nossa vontade contributiva para causas humanitárias, tem ficado confinada nos nossos bolsos.

A cultura da premiação. É preciso premiar a ajuda humanitária a todos os níveis da sociedade. É fulcral moldar a sociedade pelos valores, e no fundo, no fundo, todos sabemos quais são os mais importantes. A premiação, o elogio, o reconhecimento tem um poder enormíssimo na nossa sociedade, e não pode ficar reservado ao desporto, beleza, riqueza... Quando o que mais precisamos é de bondade, igualdade e humanidade.

Iémen, Afeganistão e Sudão do Sul, são os três países onde a intervenção do Programa de Alimentação Mundial é maior. E é para eles e para tantos outros que estou a olhar com um sorriso que este prémio me desperta, que não é de vitória, mas é de esperança. A esperança que através destes cinco pontos, consigamos oferecer sorrisos a quem nasceu do lado errado do planeta.

Penso sempre que podia ser eu, à espera que a comida caísse do céu em vez das bombas. E, por isso, penso neles. O prémio é vosso, na falta de melhor.

20.7.20

Nobel da Paz Muhammad Yunus diz que pandemia revelou a divisão do mundo

in DNotícias

Muhammad Yunus falou à agência Lusa a propósito do Dia Internacional Nelson Mandela, que se assinala hoje

O economista bengali Muhammad Yunus, considerado o "pai" do microcrédito e laureado em 2006 com o prémio Nobel da Paz, considera que a covid-19 mostrou a divisão da humanidade, precisamente o oposto do que defendia Nelson Mandela.

"Todos estão a tentar proteger-se a si próprios. O que acontece com os outros não é da sua conta, o que contrasta com o que pessoas como o Mandela faria, que mobilizava todos para a luta", disse Muhammad Yunus em entrevista à agência Lusa, a propósito do Dia Internacional Nelson Mandela, que se assinala hoje.

No dia de aniversário do líder sul-africano, que faleceu em 2013, a Academia de Líderes Ubuntu promove o Mandela Bridges World E-Summit, um evento que decorrerá online devido às condicionantes impostas pela covid-19 e que irá contar com a participação de Muhammad Yunus e mais dois laureados com o Nobel da Paz - Ramos Horta e Kaylash Satyarthi.

Yunus sublinhou a importância da lição de Nelson Mandela, que, comentou, "fez coisas impopulares e que ninguém esperava", mas que chamava todos -- brancos e negros -- para a luta.

"Infelizmente, hoje estamos mais divididos. Já não somos mais uma comunidade global e o coronavírus tornou isso claro. É um inimigo comum, que ataca todo o mundo, mas não temos uma frente comum para fazer face à pandemia", referiu.

E recordou que nesta guerra uns "optaram por atacar a Organização Mundial de Saúde [OMS], que é precisamente um organismo que deve representar todo o mundo numa pandemia como esta", numa referência aos Estados Unidos da América, que acabaram com o financiamento da organização.

Divisões que a busca por uma vacina tornou mais óbvias: "Novamente, o que vemos é os líderes, como os Estados Unidos e outros países na Europa, a tentarem garantir o máximo de vacinas".

Por isso, Muhammad Yunus não acredita que, quando forem descobertos, a vacina ou novos tratamentos estejam disponíveis de igual forma para ricos e pobres.

"Não vejo nenhum sinal disso. O que vejo é os países ricos a tentarem assegurar as vacinas para si. Quando os países pobres -- onde há muitas pessoas ricas -- precisarem, não vão ter, porque as companhias estão a produzir para os países ricos".

Por esta razão, o Nobel da Paz defende que, quando a vacina for descoberta, seja classificada como "um bem universal", disponível para todos da mesma forma e pela qual só pagará quem tiver dinheiro para isso.

Reconhecido mundialmente pelo sistema de microcrédito, que consiste na concessão de pequenos empréstimos a empreendedores demasiado pobres para obterem empréstimos de banco tradicionais, o qual ajudou milhões de pessoas a escapar à pobreza, Muhammad Yunus acredita que este sistema poderá ajudar as populações mais pobres a retomar a sua vida após a pandemia.

Uma situação que não é nova no Bangladesh, afectado frequentemente por outras doenças, como a gripe, que atinge populações que depois precisam de ajuda para retomar a sua economia, por mais pequena que seja.

"No Bangladesh, ainda não tínhamos coronavírus e já tínhamos a gripe. Hoje, temos o coronavírus e também a gripe. Sabemos como ajudar, como permitir que comecem ou recomecem as suas vidas. O microcrédito funciona como um banco para os pobres", disse.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de 590 mil mortos e infectou mais de 13,83 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.