Mostrar mensagens com a etiqueta Bem-estar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bem-estar. Mostrar todas as mensagens

13.9.23

Porto recebe Happiness Camp: felicidade corporativa “é vista de maneira diferente de acordo com a idade”

Sofia Correia Baptista Jornalista, in Expresso


A vida pessoal e a vida profissional estão “intrinsecamente ligadas”, por isso a segunda edição da conferência dedicada à felicidade corporativa abordará, além de práticas para criar ambientes de trabalho mais felizes, aspetos mais individuais, como a gestão do stress. O responsável pela iniciativa conversou com o Expresso sobre como se deve ter em conta os fatores considerados relevantes pelos profissionais mais velhos


A Alfândega do Porto vai receber, na quinta-feira, um “festival de felicidade”. É assim que o descreve António Pedro Pinto, cofundador e presidente executivo do Happiness Camp, uma conferência dedicada ao bem-estar e à felicidade corporativa, mas não só.

“Não trabalhamos apenas as práticas de sustentabilidade humana numa ótica corporativa, empresarial. Esse é o tema principal, mas também vamos ter várias atividades no sentido de trabalhar a felicidade pessoal e desenvolver práticas para gerir o stress e a ansiedade”, explica o responsável ao Expresso.

Isto porque, em vez do habitualmente falado equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional, há uma outra abordagem: um “work life blend”. “Não existe uma vida pessoal e uma vida profissional, estão as duas intrinsecamente ligadas. Se não nos sentirmos bem na nossa vida profissional, também não nos vamos sentir bem na nossa vida pessoal”, defende.

27.6.23

Saúde mental das raparigas de 15 anos foi a mais afectada pela covid-19

Patrícia Carvalho, in Público online

Raparigas dizem ter sentido mais impactos negativos na sua saúde mental e no bem-estar, durante a pandemia, do que os rapazes, segundo estudo da Organização Mundial da Saúde.

As raparigas com 15 anos e uma condição sócio-económica mais desfavorável sofreram mais impactos negativos na sua saúde mental e bem-estar, causados pela pandemia, do que os rapazes da mesma idade ou os adolescentes mais novos. É este o principal resultado do mais recente estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), Health Behavior in School-Aged Children (HBSC, que se traduz por Comportamento de Saúde em Crianças em Idade Escolar), que em Portugal foi coordenado pela psicóloga Tânia Gaspar. Por cá, ela quis perceber o que é que, afinal, faz as raparigas felizes.

Com base nas respostas de 22 países, o estudo HBSC, realizado de quatro em quatro anos, concluiu que, apesar de a maioria dos adolescentes não ter reportado impactos negativos relacionados com a covid-19 na sua saúde mental ou bem-estar, ainda existe uma percentagem entre 17% e 38% que o fez. E dentro desta percentagem “as raparigas reportam mais impactos negativos”, refere a OMS.

Tânia Gaspar quis perceber por que é que isto acontece, olhando para o caso português, e contou com a ajuda das respostas a um questionário online de alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos de 40 agrupamentos escolares, correspondendo, no geral, a jovens de 11, 13 e 15 anos. “Estamos sempre a falar nas questões de igualdade de género noutras questões que são fundamentais, mas neste campo, a diferença entre géneros é gritante. As raparigas têm uma forma de perceber e sentir as coisas que afecta mais a sua saúde mental”, afirma a psicóloga.

Em Portugal, a conclusão do estudo da HBSC, que já apontava para mais problemas nas raparigas, também se verifica, e a razão parece estar relacionada com o facto de estas serem afectadas por um conjunto mais vasto de factores quando está em causa a felicidade ou a falta dela.

“Procuramos responder à pergunta: Quem são as raparigas felizes? Que competências têm? Percebemos que é um factor muito complexo. O que influencia a felicidade dos rapazes são menos coisas. Se estiverem bem com a família, tiverem alguns recursos financeiros e gostarem do seu corpo, estão bem. Nas raparigas há muitos mais factores a influenciar, questões da gestão de stress, o facto de a mãe delas ter trabalho, por exemplo”.

E por que é que isto acontece? “Elas sentem muitas vezes que a vida lhes traz desafios a que não estão a conseguir responder. Os rapazes podem sentir o mesmo, mas não se apercebem tanto e agem na mesma. Elas bloqueiam. São características que têm que ver com as expectativas sociais. Espera-se que elas sejam mais bem comportadas, que tenham letra bonita, cadernos arranjadinhos”, diz Tânia Gaspar.

De forma esquemática, o trabalho desenvolvido pela psicóloga conclui que os adolescentes "infelizes" são influenciados por uma baixa qualidade de vida ou uma percepção negativa do corpo, e nos rapazes pesa também o facto de o pai não ter emprego ou se existir uma má relação com a família. Já no caso exclusivo das raparigas, aos factores comuns a ambos os sexos juntam-se não só a dificuldade na gestão de stress ou o facto de a mãe não ter emprego, mas também uma baixa condição sócio-económica, uma fraca literacia em saúde, a insatisfação com a vida, uma má relação com os professores ou dificuldades de comunicação com o pai.

A situação melhora no caso das raparigas mais novas, a quem factores como gostarem da escola ou não sofrerem de bullying contribui para que sejam felizes.

“No caso das raparigas estamos perante uma situação mais complexa e onde é mais difícil de intervir. São muitos factores e a intervenção é mais complexa”, refere a psicóloga. Mas há respostas possíveis e Tânia Gaspar avança algumas.
Três níveis de resposta

Uma das questões que também ressalta do estudo da OMS é que o apoio da família (com grande destaque), dos professores, dos colegas e dos amigos foi essencial para ultrapassar o impacto negativo causado pela pandemia. “Se a família e a escola foram factores protectores e capazes de mitigar o impacto da pandemia - e os efeitos que ela causou não desapareceram -, então temos de continuar a desenvolver trabalho nesse campo, até para preparar os adolescentes para o futuro”, defende a psicóloga.

A responsável pelo HBSC em Portugal considera que é urgente investir em respostas para todos os adolescentes, mas com preponderância nas raparigas e, em concreto, naquelas que têm mais factores de risco associados, como uma baixa situação socio-económica ou mais problemas psicológicos.

A actuação deve, por isso, ser feita a três níveis: universal, destinada a todos e que pode passar, por exemplo, por um dia aberto em cada trimestre que envolva a escola, os estudantes e as famílias, para que de modo informal se possam discutir diversas questões, como a saúde mental; uma intervenção mais selectiva, para grupos de maior risco, com a realização de programas estruturados sócio-emocionais, capazes de lhes dar competências para lidar com o stress e outros factores de risco; e uma intervenção mais individual, prestada por um psicólogo e dirigida a toda a comunidade escolar e às famílias visadas. “Tem de ser um trabalho conjunto e precisamos cada vez mais de trabalhar de forma preventiva. Todos nós podemos descompensar com uma perturbação psicológica e quantos mais recursos tivermos, melhor respondemos aos desafios”, defende.

No que está directamente relacionado com a escola, cerca de metade dos adolescentes inquiridos no HBSC disseram sentir alguma pressão durante a pandemia e cerca de um quarto (sobretudo raparigas e adolescentes mais velhos) afirmam que esta teve um impacto negativo no seu desempenho académico. A percentagem de adolescentes que disse ter gostado muito da escola durante o período pandémico foi de apenas 20%.

Na resposta ao inquérito de Tânia Gaspar, entre as raparigas descritas como "felizes", 80% diz gostar da escola, contra cerca de 54% das “infelizes”. Estas descrevem ainda uma maior pressão (83% diz mesmo sentir muita pressão) e reportam mais casos de bullying: mais de 27% das inquiridas que foram colocadas do lado das “infelizes” diz ter sido vítima deste tipo de violência, uma percentagem que desce para menos de 14% no caso das adolescentes “felizes”.

Tânia Gaspar alerta ainda para os riscos associados aos problemas psicológicos e de falta de bem-estar nos adolescentes. “Se não respondem às expectativas sociais da menina bem comportada, as raparigas podem ter comportamentos opostos, de rebeldia extrema. Alguns comportamentos de risco estão a agravar-se para as raparigas. Esbateu-se a diferença de género no consumo de tabaco e álcool, e ela ainda existe nas drogas, mas qualquer dia muda. E já são elas que tomam mais medicamentos com um efeito ligado à droga, para se acalmarem ou para regular as emoções”, diz a psicóloga.

Olhando para os resultados do inquérito que dirigiu por cá, são mais as raparigas “infelizes” que fumam (quase 17%, contra 6,5% das “felizes”), que consomem álcool (47,4%, percentagem que desce para 28,4% nas “felizes”) e que se embriagam: 17% das “infelizes” dizem já o ter feito, mais do dobro (7,4%) das “felizes”. No caso das que tomam medicamentos como droga, a percentagem é muito pequena em ambos os casos, mas ainda assim maior (3,4%) nas meninas classificadas como “infelizes” do que nas “felizes” (1%).

15.5.23

Sintomas de burnout ameaçam quase 80% dos trabalhadores inquiridos num estudo

Natália Faria, in Público


Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis foi criado há um ano para estudar os ambientes de trabalho nas empresas. Esta terça-feira é divulgado um manual de boas práticas.


Exaustos, irritados, frustrados, com dificuldades de concentração e incapazes de gerir o stress: quase 80% dos trabalhadores inquiridos num estudo feito pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LPATS) mostram pelo menos um sintoma de burnout, o que equivale a dizer que arriscam um quadro de “permanente stress crónico laboral”, como adiantou ao PÚBLICO a psicóloga Tânia Gaspar, coordenadora do laboratório.

Entre os que apresentaram o risco mais elevado de virem a cair no burnout, a sensação de exaustão física foi a mais referida: 42,6% disseram ter-se sentido assim nas quatro semanas anteriores ao inquérito. Mais: entre os que apresentaram pelo menos um sintoma de burnout, 63,5% somaram pelo menos três, incluindo exaustão, tristeza e irritabilidade, reunindo assim os critérios “para serem avaliados por um profissional da área”.

“O que acontece no burnout é que muitas vezes a pessoa não se apercebe, é algo que vai ocorrendo: a pessoa sente-se cansada, que não está a conseguir produzir o que produzia antes e acaba por cometer mais erros e sofrer alterações no sono. Depois, fica mais irritadiça e menos tolerante, vai-se isolando, perdendo capacidade de concentração. E, no limite, deixa de conseguir sair de casa e exercer a sua função; tem um esgotamento”, descreve Tânia Gaspar, autora de um estudo que, embora não seja extrapolável para a população do país, mostra a progressiva sobreexposição ao stress dos trabalhadores portugueses já apontada em estudos anteriores.

Para o relatório que vai ser apresentado esta terça-feira, dia 16, na I Conferência Internacional de Ambientes de Trabalho e Aprendizagem Saudáveis, em formato online, os investigadores inquiriram 1829 profissionais, entre os 18 e os 72 anos, de sectores que vão da saúde aos transportes, passando pela educação e comércio, entre outros. Daqueles, os profissionais da administração pública surgiram como os que denotam um risco mais elevado de vir a sofrer de burnout, seguidos dos trabalhadores do sector dos transportes, da saúde, da área social e dos profissionais da educação.

Em termos globais, 36,1% consideraram que o trabalho lhes consome muito tempo e energia, afectando negativamente a sua vida e 28,6% dos trabalhadores reportaram valores muito baixos de “engagement” com a empresa. A psicóloga que fez o estudo aponta ainda os 15,7% de trabalhadores inquiridos que declararam que se sentem alvo de ameaças ou de outra forma de abuso físico ou psicológico no local de trabalho. “É um valor muito elevado que nos leva a reflectir. E efectivamente tenho também na minha clínica muitos casos de pessoas mais velhas que não têm cultura de assertividade em relação às chefias. Há aqui um trabalho de prevenção a fazer”, advoga.

No conjunto dos trabalhadores, 28,1% reportaram sofrer de uma doença crónica e 17,8% elevados níveis de presentismo, isto é, “as pessoas vão trabalhar, mas sentem que não conseguem produzir aquilo que deviam e que o seu trabalho perdeu qualidade”, como descreve ainda Tânia Gaspar, para quem o teletrabalho ou o regime de trabalho híbrido podem ajudar a responder a várias das dificuldades reportadas pelos trabalhadores.

A deterioração da saúde mental dos profissionais agudizou-se durante a pandemia, nomeadamente porque durante os confinamentos muitas empresas “controlaram de uma maneira extrema os horários de trabalho dos profissionais, que contactavam fora das horas de trabalho por correio electrónico, Zoom, WhatsApp”, denuncia a psicóloga.

Reposto algum equilíbrio, “muitos trabalhadores isolaram-se e habituaram-se a desenvolver o trabalho em casa, de forma autónoma, e vários estão a ter agora muita dificuldade em voltar a trabalhar como antigamente”.

A possibilidade de poderem trabalhar num regime misto, que combine o trabalho remoto com o presencial, surge agora no topo da lista reivindicativa dos trabalhadores inquiridos no estudo. “Uma das recomendações que fazemos às empresas é que, sempre que possível, optem pelo trabalho híbrido”, adiantou a psicóloga, para quem é claro que o investimento no bem-estar dos trabalhadores por parte das organizações acaba por ter retorno.

“Na Noruega, se alguém é visto a trabalhar às oito da noite é admoestado pela chefia. Eles entendem que essa pessoa ou está a receber trabalho a mais ou é incompetente, na medida em que não consegue fazer o que lhe pedem dentro do horário normal. E isto não acontece porque lá as empresas são boazinhas, mas porque sabem que, se investirem no profissional (e nisto a conciliação com a vida pessoal surge como aspecto importantíssimo), aquele acaba por devolver esse investimento à empresa”, acrescenta.

Porque cada vez mais empresas estão cientes desta realidade, o LPATS vai disponibilizar a partir desta terça-feira um manual de boas práticas, pensado para orientar as organizações quanto às melhores soluções para manter profissionais dedicados e empenhados. Aqui o dinheiro ajuda, mas não é tudo. No inquérito feito a partir da amostra referida, surgem reivindicações que vão da necessidade de se sentirem reconhecidos e envolvidos no processo de tomada de decisões à existência de uma “segurança psicológica” que lhes permita errar, até à liberdade de gestão do horário e da possibilidade de terem o dia de aniversário livre ou uma folga extra.
Criar a figura do “psicólogo do trabalho”

A disponibilização de fruta, água e opções de alimentação saudável no local de trabalho a possibilidade de realização de ginástica laboral, durante pausas para descanso ou exercício, são algumas das boas práticas apontadas pelos trabalhadores. O acesso facilitado a serviços de psicologia, ginásio, massagens, osteopatia, fisioterapia, consultas de nutrição e de estomatologia e a programas de voluntariado e mentoria são igualmente elencados, a par de sugestões como serviço de shuttle para profissionais e parcerias com farmácias.

Os autores do relatório vão mais longe quando sugerem que se altere a legislação sobre saúde ocupacional em Portugal, “fortalecendo a relevância da saúde mental e psicossocial”, e a integração nas equipas da figura do psicólogo do trabalho, o que implicaria a criação de especializações profissionais nesta área. “Dependendo da dimensão da empresa, a figura do psicólogo pode existir dentro da organização ou funcionar na lógica de subcontratação de trabalho externo”, especifica a coordenadora do estudo.

Ainda ao nível das políticas públicas, sugere-se a criação de incentivos ou benefícios fiscais para as empresas que adoptem medidas capazes de promover ambientes de trabalho mais saudáveis e o alargamento da experiência da semana dos quatro dias sem corte do salário. “Aqui o único receio é que as pessoas possam ficar sobrecarregadas nestes quatro dias, o que pode não ser saudável e levar ao burnout, isto é, esses quatro dias têm de ser suficientes para a pessoa fazer o trabalho que lhe é pedido”, alerta Tânia Gaspar.

Numa altura em que o mundo soma em média 2,78 milhões de mortes todos os anos por causas atribuíveis ao trabalho, o manual de boas práticas destinado às empresas lembra, por exemplo, que a carga horária excessiva pode levar a problemas de sono, à redução da produtividade e ao aumento do consumo de álcool, tabaco e outras drogas.

Logo, "pequenas acções como reduzir a carga e a intensidade do trabalho, incentivar a realização de pausas e motivar os profissionais para usufruírem de folgas e férias para descanso (desligando-se do trabalho), contribuem de forma significativa para melhorar a saúde dos profissionais", alerta o manual de boas práticas, que aponta "estilos de liderança desajustados, ausência de negociação e de consulta dos trabalhadores, a falta de comunicação bidireccional, de feedback positivo e de uma gestão respeitosa" como factores que ameaçam a saúde dos trabalhadores e das empresas.

O manual recolhe exemplos de boas práticas adoptadas noutros países. Na Suíça, por exemplo, os programas de bem-estar para os trabalhadores incluem serviços como acompanhamento psicológico e, em caso de doenças crónicas, fisioterapia, ioga, consultas de cessação tabágica e programas de controlo do peso.

25.1.23

O burnout é real: como identificar e prevenir?

Kelyn Soong, in Público online


Um esgotamento é descrito como sentir-se emocionalmente esgotado pelo trabalho e, apesar de a demissão aparecer muitas vezes como solução, não é - ou não deveria ser - o único escape.

Quando Jacinda Ardern anunciou que tinha decidido desistir do cargo de primeira-ministra da Nova Zelândia, não apresentou um esgotamento como razão, mas descreveu-o.

“Eu sei o que este emprego exige e sei que 'o meu tanque' já não tem energia suficiente para lhe fazer justiça”, disse. “É simples.”

Em 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu o burnout como um “fenómeno ocupacional”, mas o esgotamento profissional continua a afectar de forma significativa a saúde física e mental e está directamente relacionado com depressão e ansiedade.

O burnout é comum entre profissionais de saúde, estudantes de medicina e prestadores de cuidados. No entanto, também pode acontecer noutras profissões. Recentemente, o guitarrista da banda Fall out Boy , Joe Trohman, anunciou que iria deixar a banda por questões de saúde mental. A tenista Naomi Osaka estava a passar a melhor fase da carreira quando, em 2021, anunciou que precisava de uma pausa.

Mostramos-te o que os especialistas têm a dizer sobre um burnout, como o identificar e como lidar com ele.

O que é um esgotamento?

Um esgotamento - ou burnout - “pode significar muitas coisas diferentes para diferentes pessoas”, afirma Jud Brewer, directora de pesquisa e inovação de questões mentais da Universidade de Brown, e directora médica do ShareCare, uma empresa de saúde digital. “Um burnout aplica-se a qualquer pessoa. Então, em boa verdade, é quando uma pessoa já não está à altura das tarefas de que foi incumbida.”

De acordo com o registo do inventário Maslach, uma ferramenta de apoio ao diagnóstico, um burnout acontece quando três factores se juntam: exaustão emocional, perda de identidade e diminuição do sentimento de conquista pessoal.

Um burnout é, muitas vezes, descrito como estar emocionalmente esgotado pelo trabalho e simplesmente não se importar tanto, sentir-se cínico ou parecer insensível e distanciar-se das situações.

“Por exemplo, médicos têm a reputação de não serem pessoas acolhedoras”, diz Brewer. “Uns são bestiais mas, quando médicos têm um esgotamento, eles tendem a distanciar-se dos pacientes e isso é interpretado, muitas vezes, como insensibilidade.”

Como é sentido um burnout?

Elissa Epel, professora no departamento de psiquiatria e ciências comportamentais na Universidade da Califórnia, em São Francisco, afirma que o discurso de demissão de Arden apresenta uma intensa descrição de um esgotamento.

“Eu adoro a analogia de 'o meu tanque está vazio'. Um burnout dá a sensação de que o tanque está para lá de vazio”, disse Epel, autora de The Stress Prescription: Seven Days to More Joy and Ease. “Tu estás realmente a sofrer porque perdeste toda a energia. Perdeste-a fisicamente. E também perdeste a motivação que permitia que o teu tanque tivesse combustível durante anos ou décadas. Portanto, é muito desmotivador ter um esgotamento.”

Um burnout não é definido pela exaustão física ou por estar apenas cansado depois de longas horas de trabalho. Mas pessoas esgotadas muitas vezes sentem-se exaustas, diz Epel.

“Sentires-te emocionalmente exausto significa que não te sentes tu mesmo”, ela acrescentou. “Não estás mais em contacto com as tuas emoções. E, de facto, as tuas emoções ficaram restritas e ficas adormecido, quanto te costumavas importar tanto".

Um burnout pode levar à sensação de sobrecarga. “Não estamos mais capazes de sentir emoções específicas e a resposta dos nossos corpos a essa mensagem de sobrecarga que a mente envia é manter o sistema de resposta a situações de stress sempre em alerta máximo, mesmo quando estamos a dormir”, diz Epel.

Como é que sei se estou realmente esgotado ou apenas a trabalhar arduamente?

Uma forma de saber se tens um burnout é simplesmente pensar sobre o trabalho e interpretar a reacção, aconselha Brewer.

“O que acontece?”, pergunta. A pessoa pode estar menos do que entusiasmada sobre o trabalho e não estar esgotada. Mas se a reacção for “oh não, odeio isto” e se a pessoa está a tentar evitar o trabalho, então podem ser sinais de um esgotamento.

Qual é a diferença entre um esgotamento, ansiedade e depressão?

Apesar de um esgotamento estar relacionado com ansiedade e depressão, há grandes diferenças. Há até quem se refira ao burnout como “depressão de trabalho”, relata Epel.

Alguns dos sintomas físicos são os mesmos, tais como sentires-te cansado, sem energia e irritadiço, triste ou ansioso. “Algumas pessoas podem perder a esperança no próprio papel e eficácia e sentir que as coisas nunca vão mudar no trabalho”, conta Epel. “E isso é um paralelo com o pensamento depressivo em que sentimos falta de esperança e não vemos 'nenhuma luz' ou o fim da nossa angústia no futuro”.

A depressão muitas vezes centra-se na própria pessoa e no sentir-se inútil e autocrítico, continua Epel. Um burnout está centrado no “stress crónico insustentável das solicitações no trabalho, seja ele não remunerado, em casa como prestador de cuidados, ou no trabalho diário”.

Epel afirma que os estudos identificaram altos níveis de suicídio e depressão como resultado do esgotamento.

"Portanto, o stress crónico é, por si só, prejudicial para o corpo e bem-estar emocional", diz. "O burnout é uma resposta específica ao stress crónico avassalador, geralmente causado pelo trabalho. E a depressão é uma resposta emocional mais grave ao stress crónico e ao esgotamento."

O que posso fazer para lidar com um burnout? Desistir ou despedir-me é a única opção?

As razões por detrás de um burnout podem variar de pessoa para pessoa, diz Brewer. Como tal, é importante que as pessoas tentem chegar à origem do problema.

Alguns factores associados ao estilo de vida, como uma dieta pobre, falta de sono e falta de tempo para praticar exercício físico, desempenham um papel importante no burnout. Também questões de saúde mental como ansiedade e depressão devem ser tidas em conta. Pontos sobre os quais as pessoas têm menos controlo como longas horas de trabalho, prazos de entrega e pouco tempo para recuperar podem ser factores para o burnout.

"É realmente olhar e perceber o que está a criar esse esgotamento e, em seguida, chegar às causas e ver o que pode ser feito", diz Brewer. Focar em hábitos saudáveis e tratar problemas como a ansiedade, por exemplo, pode ajudar. "Existem elementos individuais e elementos institucionais relacionados com um burnout."

Embora abordar questões individuais possa ajudar, o problema geral não será resolvido se as mudanças não forem possíveis no local de trabalho.

"A maneira mais dramática de lidar com o esgotamento é deixar o local de trabalho", diz Epel. “E é lamentável que as pessoas muitas vezes tenham isso como a única opção, porque, como indivíduos, não podem mudar o sistema e as estruturas existentes que criam uma cultura de burnout”.

Uma gestão de proximidade, no entanto, pode fazer a diferença.

"Acho que os gestores, em todos os níveis, podem mudar o ambiente e atenuar a cultura de burnout", considera Epel. "E parte disso é criar horários flexíveis, fornecer pausas necessárias. Incentivar uma cultura de bem-estar ao modelar a própria vulnerabilidade ao stress".

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

26.12.22

Pandemia diminuiu o bem-estar em 2020, especialmente as condições materiais de vida

Ana Maia, in Público online

Índice de Bem-estar da população portuguesa evoluiu positivamente entre 2004 e 2020, mas pandemia teve impacto na evolução. Em 2021 parece haver sinais de estabilização.

A pandemia afectou o índice de bem-estar em 2020, especialmente na área das condições materiais de vida, revela o Instituto Nacional de Estatística (INE). Numa escala de zero a 100, o índice não chegou a metade da tabela. Já relativamente a 2021 parece ter havido sinais de estabilização.

Segundo o relatório, publicado esta segunda-feira, “o Índice de Bem-estar (IBE) da população portuguesa evoluiu positivamente entre 2004 e 2020”. Mas a pandemia de covid-19 teve impacto nesta evolução em 2020, com o INE a estimar que “o valor de 2020 se tenha mantido em 2021”. Este índice recorre a dez índices sintéticos, que se traduzem em duas perspectivas de análise: condições materiais de vida e qualidade de vida.

“Comparando a evolução das duas grandes perspectivas do bem-estar, verifica-se que foram as condições materiais de vida que apresentaram o maior decréscimo em 2020, tendo recuperado ligeiramente em 2021, contrariamente ao que sucedeu com a perspectiva da qualidade de vida que não recuperou em 2021”, lê-se na análise. Na mesma explica-se que nem todos os indicadores apresentam valores em 2021, tendo-se realizado por isso uma projecção desses indicadores e “sendo apenas divulgado o valor dos índices de domínio”.

De acordo com o INE, na perspectiva das condições materiais de vida foram considerados três domínios de análise que agregam 26 indicadores: bem-estar económico, vulnerabilidade económica e emprego. Já para a qualidade de vida foram, considerados sete domínios de análise que agregam 45 indicadores: Saúde, balanço vida-trabalho, educação, conhecimento e competências, segurança pessoal, participação cívica e governação, relações sociais e bem-estar subjectivo, ambiente.

Assim, na área das condições materiais de vida todos os índices desceram em 2020, sendo o domínio do bem-estar económico “o que apresentou a evolução mais negativa”. Mas é também aquele que se estima mais ter recuperado no ano passado. Já o domínio da vulnerabilidade económica, outro dos indicadores usados para avaliar esta perspectiva, “foi o único domínio que não recuperou em 2021”.

Quanto à perspectiva da qualidade de vida, no primeiro ano da pandemia desceram apenas os índices dos domínios da Educação, Participação Cívica e Governação e Relações Sociais e Bem-Estar Subjectivo. “A análise da evolução, entre 2019 e 2020, por indicador permite identificar os cinco mais afectados pela pandemia de covid-19: por ordem e a grande distância dos restantes indicadores, está o índice de consumos culturais, a taxa de intensidade de pobreza, a taxa de risco de pobreza, a desigualdade na distribuição do rendimento e o índice de participação em actividades públicas.”

Os dados preliminares de 2021 “apontam para a manutenção do valor do Índice de Bem-estar do ano anterior”, refere o relatório do INE, que explica que “entre 2004 e 2020, o IBE passou de 20,9 a 45,8”. Uma evolução positiva que “resulta sobretudo dos progressos verificados nas condições materiais de vida, embora a evolução da qualidade de vida também tenha sido globalmente positiva”.
Educação e saúde

Embora as duas perspectivas tenham apresentado comportamentos distintos ao longo do tempo. Entre 2009 e 2013, as condições materiais de vida evidenciaram uma tendência decrescente e a qualidade de vida uma tendência oposta. Já entre 2013 e 2016, a evolução de ambas foi no mesmo sentido. Após 2016, a qualidade de vida manteve uma “tendência decrescente suave” e as condições materiais de vida “cresceram até 2019 e diminuíram ligeiramente a partir desse ano”.

A Educação “teve uma evolução positiva durante todos os anos do período, com excepção de um decréscimo em 2020 que se estima tenha sido totalmente recuperado em 2021”, lê-se no relatório, em que se refere que a “evolução do indicador do abandono precoce de educação e formação é a principal responsável pelo andamento positivo do índice”. Já o indicador relacionado com os consumos culturais registou uma queda a pique em 2020, mostrando pequenos sinais de recuperação.

No que respeita à saúde, alguns indicadores têm registado altos e baixos ao longo dos anos. “A esperança de vida à nascença, a avaliação positiva dos serviços de saúde, a mortalidade por doenças do aparelho circulatório e a mortalidade infantil foram os indicadores que apresentaram uma evolução mais favorável do que a do índice de domínio”, diz o INE.

Apenas quatro indicadores apresentam valores para 2021: taxa de mortalidade infantil, esperança de vida à nascença, proporção da população residente que avalia o seu estado de saúde como bom ou muito bom e proporção da população que refere limitação na realização de actividades habituais devido a um problema de saúde prolongado. A primeira mantém-se em linha com 2020, mas as restantes apresentam uma tendência de descida.

Na área das condições materiais de vida, a recuperação em marcha desde 2012 do domínio do bem-estar económico foi interrompida em 2019, “ano no qual se verificou um ligeiro decréscimo, estimando-se uma recuperação em 2021”. O INE salienta “a evolução favorável dos indicadores de desigualdade e concentração e da despesa de consumo final das famílias, que são os que tiveram o comportamento mais favorável no período [2004-2021]”. Já os indicadores relativos ao património e a remuneração mensal líquida “foram, não só os que tiveram a evolução mais contida, como também os que apresentaram durante o período valores mais baixos”.

30.9.22

“Há algo cómico quando nos preocupamos com o bife que um pobre come”

Bárbara Wong, in Público on-line

ldar Shafir, professor de ciências comportamentais e de políticas públicas, que se sentou na Casa Branca e foi ouvido por Barack Obama, vai estar no congresso da Ordem dos Psicólogos, em Aveiro, para falar de pobreza e escassez.

Como podem os psicólogos ajudar no combate à pobreza? A pergunta é feita pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) que começa esta quarta-feira o seu 5.º congresso, em Aveiro. O tema é “Tempo da Psicologia” e uma das 500 comunicações será a de Eldar Shafir, professor da Universidade de Princeton, EUA, sobre pobreza e escassez mental. Recentemente, a OPP lançou a campanha .Final à Pobreza (que se lê: “ponto final à pobreza"), onde reflecte sobre o papel dos psicólogos no combate à pobreza, uma vez que esta pode ser causa ou consequência de dificuldades e problemas de saúde psicológica.

Eldar Shafir, investigador na área das ciências comportamentais e de políticas públicas, que se sentou na Casa Branca e foi ouvido por Barack Obama, publicou A Tirania da Escassez: Porque é que tão pouco significa tanto!, em co-autoria com Sendhil Mullainathan, da Universidade de Chicago, onde defendem que quanto menos se tem, mais catastrófica pode ser a vida da pessoa. Recorrendo a inúmeros estudos, os autores concluem que o que está em falta na vida de uma pessoa ganha uma importância de tal maneira desproporcionada que tudo o resto deixa de ser relevante, acabando por o indivíduo afunilar a perspectiva, deixando de conseguir planear, educar os filhos ou concentrar-se no trabalho.

Os estudos apontam que as capacidades cognitivas são de tal modo impactadas que isso se reflecte nos testes de QI. É uma pescadinha de rabo na boca: os pobres ficam mais pobres e geram filhos pobres. Para a revista Foreign Policy, em 2013, os dois investigadores norte-americanos foram incluídos na lista dos 100 principais pensadores globais. Não é a primeira vez que Eldar Shafir vem a Portugal e está a aprender português na universidade, conta via Zoom. Com tanta formação e bons professores, seria um desperdício não aproveitar, argumenta. Sobre o seu trabalho como consultor durante a administração Obama, defende que é mais fácil fazer diferença a nível local do que nacional.

A Tirania da Escassez: Porque é que tão pouco significa tanto!

Autores: Eldar Shafir e Sendhil Mullainathan
Editor: Lua de Papel 320 págs., 11,62€


Escreveu A Tirania da Escassez há quase uma década. O mundo mudou, por exemplo, estamos a viver a guerra na Ucrânia, que nos afecta directamente, bem como as alterações climáticas. A teoria continua a fazer sentido?
Bem, não fizemos estudos recentemente, mas em geral, todos temos problemas com os filhos, os companheiros, a saúde, o Putin, as questões ambientais... Mas o que descobrimos é que, em momentos de escassez intensa, se o problema for demasiado grande, toma conta da nossa mente. Sim, a guerra é um problema, mas consigo estar mais de uma hora sem pensar no Putin; agora, se não conseguir pagar a renda ou comprar comida para os meus filhos, esse problema fica na minha mente e incomoda-me em permanência.

Porquê?
Porque não conseguimos parar de pensar. Um dos problemas com a questão ambiental não parecer tão urgente, é que conseguimos deixar para depois. Mas se estivermos em risco de ser despejados de casa, não conseguimos deixar para depois.

No livro usa a metáfora da mala de viagem. Quando temos uma mala maior, a vida é mais fácil porque não estamos obrigados a fazer escolhas. Não é um desafio mais interessante, quando a mala é pequena, em que somos obrigados a seleccionar?
Há muitos estudos que mostram que quem tem a mala pequena não se sai mal. Por exemplo, quando se pede, à porta do supermercado para as pessoas revelarem os gastos que fizeram, os mais pobres sabem exactamente o que pagaram por cada artigo, enquanto os ricos não fazem ideia. Portanto, sim, quem tem a mala pequena sabe gerir melhor, o único problema é que enquanto se está a fazer essa gestão, não se pensa noutras questões. Paradoxalmente, enquanto se estão a gerir recursos escassos, podemos esquecer-nos de pagar o estacionamento e seremos penalizados por isso, o que tornará a mala ainda mais apertada.

A escassez acaba por influenciar fortemente a forma como gerimos a nossa vida e tomamos decisões?
Quando os recursos são escassos — podemos falar de falta de tempo, de dinheiro ou da solidão —, a evidência mostra que quando a nossa mente está focada nas questões que nos preocupam, tudo o resto é negligenciado. As nossas capacidades são limitadas, não conseguimos fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e quando nos focamos nas nossas insuficiências, as outras coisas não importam. No entanto, podem gerar problemas para os quais não estamos despertos porque não estamos focados.

No livro referem que a pobreza, de tempo ou de dinheiro, pode fazer de nós piores pais. Porquê?
Fazemos referência a um estudo feito com controladores aéreos e percebemos que quando o dia de trabalho lhes corre bem são melhores pais e companheiros. Portanto, quando estamos a gerir a escassez, quando estamos assoberbados, somos menos atenciosos, menos pacientes, menos consistentes.

Isso acontece a ricos e pobres.
O que é interessante é que a escassez não tem a ver só com pobreza económica, mas com o facto de pormos as pessoas em contextos de pobreza. Nestes estudos, mostramos que pessoas que eram muito capazes tornaram-se menos competentes quando a escassez se impõe nas suas vidas. Existe um longo debate nas ciências sociais: as pessoas são menos capazes por serem pobres ou são pobres porque são menos capazes? Muita gente, sobretudo no espectro mais à direita, tende a defender que a razão por que se é pobre é porque se é irresponsável. E os nossos estudos demonstram que a pessoa se torna irresponsável quando é pobre porque começa a fazer malabarismos e a gerir mal as suas opções.

Por vezes, temos o preconceito que as pessoas pobres fazem más opções. Por exemplo, porquê comer um bife de vaca se um de frango é mais barato?
Antes de mais, existe falta de empatia e de compreensão para com o outro. Por exemplo, na fila do supermercado, uma criança pobre pede à mãe para comprar um chocolate e ela anui. Alguém na fila vai pensar que é uma má decisão. Mas, quantas vezes disse aquela mãe que não ao seu filho? Umas 275 vezes. Queremos que aquela criança nunca experimente um chocolate? O que é correcto: comer uma vez, duas vezes por ano? Portanto, a pergunta parece ser: como se deve comportar o pobre para nos deixar satisfeitos? É-lhe permitido comer bife quando? Se para nós, o mais correcto é os mais pobres viverem uma vida muito infeliz então isso não é justo.

Mas, tal como os ricos, também tomam decisões erradas?
Claro que erram e fazem más escolhas. Tal como os ricos, só que a estes ninguém os apanha nem os julga porque é-lhes permitido errar.

Estes fazem más escolhas como viagens ao espaço?
Sim, ir ao espaço é exótico, são rapazes a brincar com brinquedos de luxo. Mas fazemos escolhas estúpidas a toda a hora e são-nos permitidas, ao passo que o mesmo não acontece com a mãe que compra o chocolate. Há algo cómico quando nos preocupamos com o bife que um pobre come, mas não com quem compra umas sapatilhas de 6000 dólares. Envergonha-nos a nós e não aos pobres.

Voltando atrás, à pergunta que as ciências sociais colocam: os que sofrem de escassez são menos capazes por serem pobres ou são pobres porque são menos capazes?
Todos os dados mostram que se dermos condições às pessoas para fazerem melhor, elas fazem-no. Há uma imagem muito forte nos EUA que é a “rainha da assistência social”, é aquela pessoa que sabe tirar partido dos subsídios e benefícios do Estado, sentada em casa, a ver televisão e a rir-se da sociedade. É uma imagem que não corresponde à verdade porque todos os estudos mostram que essas situações são raras. Se dermos um trabalho digno e bem pago, a maioria das pessoas prefere trabalhar a ficar em casa a ver maus programas televisivos. Trata-se de um estereótipo muitíssimo enganador.

Sobre a escassez, que mensagem transmitir aos políticos e aos empresários, estes deviam saber mais sobre psicologia comportamental?
Sem dúvida. Muita investigação na área da psicologia comportamental observa o modo como as pessoas funcionam e, frequentemente não é como pensamos. Se não conhecermos o outro e o que o motiva, as políticas não vão ser adequadas. E há uma lista infinita de más políticas...

O que é uma boa política?
É uma baseada em assunções que sejam verdadeiras sobre as pessoas — o que querem? O que as preocupa? Há um estudo sobre pessoas que tinham de ir a tribunal, em Nova Iorque, por causa de infracções menores, como multas por andar de bicicleta no passeio ou atravessar com sinal vermelho, por exemplo. A maioria falhava na comparência em tribunal e acabava por ser presa. As pessoas esqueciam-se de ir a tribunal por terem vidas complicadas. O estudo consistia em enviar lembretes às pessoas para irem a tribunal e isso levou a uma diminuição drástica das condenações porque as pessoas compareciam. Portanto, a não ser que o legislador seja mesmo mal-intencionado, há pequenas medidas que podem facilitar a vida dos cidadãos.

É possível erradicar a pobreza?
É possível reduzi-la enormemente. Há governos, incluindo o de Portugal, que são mais sensíveis que o dos EUA. O ano passado, por causa da covid, foi introduzido um subsídio para famílias com crianças pequenas e a pobreza infantil diminuiu de um dia para o outro. Tão fácil. Mas, um ano depois, esse benefício foi suspenso. Transferir os impostos sobre os mais ricos para os pobres é outra medida que solucionaria muitos problemas.

E as pessoas seriam mais saudáveis e mais felizes?
Sem dúvida. Eu estou a falar a partir de um país onde não existe assistência médica gratuita e há estudos que mostram que a desigualdade torna as pessoas, — todas e não apenas as mais pobres —, menos felizes. Portanto, é importante para toda a sociedade que sejam introduzidas políticas que promovam a igualdade.

A escassez pode levar a problemas de saúde mental?
Sem dúvida, se a pessoa está sob pressão e em escassez, isso leva a que esteja sob um enorme stress. A juntar a isso, normalmente, estas pessoas vivem em piores condições, em sítios com mais barulho, mais poluição, mais crime, é tudo mau. A pobreza não é justa.

11.10.21

Sem aposta na saúde mental não se combate a pobreza

Andreia Sanches, editorial, in Público on-line

Aproveite-se o Dia Mundial da Saúde Mental para sublinhar o erro estratégico de ignorar o papel que ela tem no combate à pobreza e na recuperação do país.

A “saúde mental” é referida oito vezes na Estratégia Nacional de Luta contra a Pobreza que está em discussão pública. É-o, por exemplo, quando se fala em melhorar os sistemas de detecção precoce com mais psicólogos nas escolas. Ou quando se defendem protocolos com as autarquias para garantir espaços onde equipas comunitárias de saúde mental possam trabalhar. Não sabemos se oito vezes é muito ou pouco para atestar o empenho do Governo nesta área. Mas aproveite-se o Dia Mundial da Saúde Mental, que hoje se assinala, para sublinhar que não há combate à pobreza sem aposta na saúde mental.

Ela é um factor-chave quando se olha quer para as causas, quer para as consequências da pobreza. Não ter trabalho, não ter uma casa com condições dignas, não conseguir garantir uma alimentação equilibrada aos filhos ou o pagamento das dívidas no final do mês é uma realidade para muitos dos que vivem em situação de pobreza, com impacto na saúde mental. E sem respostas na saúde mental, muitos não conseguirão furar este ciclo, que se reproduz tantas vezes de geração em geração.

“Distribuir dinheiro” não chega, “a saúde mental tem de ser chamada”, afirmou recentemente Rita Valadas, presidente da direcção da Cáritas.

Em Junho, a OCDE publicou um relatório no qual defendia que investir na saúde mental é essencial na recuperação pós-covid: os custos das doenças mentais representam 4,2% do PIB europeu, incluindo tratamentos, impactos na produtividade e no emprego. Uma em cada duas pessoas tem em algum momento da vida um problema de saúde mental. “Quem não pensar agora que a saúde mental vai ser fundamental para recuperar o país está a cometer um erro estratégico”, como alertou o psiquiatra Vítor Cotovio, membro do Conselho Nacional de Saúde Mental.

O Plano de Recuperação e Resiliência contempla mais de 85 milhões de euros para “apoiar a concretização da reforma da saúde mental”. Ajudará a “alavancar algumas coisas que estão penduradas há dez anos”, explicou aqui, no PÚBLICO, Miguel Xavier, director do Programa Nacional de Saúde Mental.

A frase deixa transparecer o papel secundário que o sector tem tido. A existência de menos de mil psicólogos no SNS é só um número, neste caso de 2019, entre muitos, que ilustra isso mesmo.

Reconheça-se, por isso, que não basta “alavancar coisas penduradas há dez anos”. É de uma reforma “brutal”, para usar a expressão que Miguel Xavier usou nessa entrevista, que precisamos.

O sucesso de muitas das grandes estratégias que se anunciam, do combate à pobreza a uma recuperação económica que não deixe de fora os mais frágeis, também passa por aqui.

23.8.21

“Sabe por que é preciso dormir bem? Para trabalhar menos”

Victor Ferreira (texto) e Nelson Garrido (fotografias), in Público on-line

“Não podemos descartar a hipótese de termos um chefe imbecil” — diz José Soares, professor de Fisiologia —, mas a saúde no trabalho começa em casa.

José Soares é professor catedrático de Fisiologia (na Universidade do Porto), consultor de programas de bem-estar e performance em empresas e tem trabalhado com atletas de alta competição – é o performance manager de Miguel Oliveira, piloto português de MotoGP. Acaba de publicar mais um livro Start & Stop, sobre a nossa relação com o trabalho, as disfunções das empresas e dos trabalhadores, a relação fisiológica no que corre bem e no que corre mal e como a perspectiva aplicada aos atletas serve como uma luva à análise nas empresas. O livro chegou às bancas em Maio com mensagens sobre saber parar para equilibrar produtividade, saúde e bem-estar.

O teletrabalho teve algum impacto na nossa saúde?
Penso que a saúde piorou. Os dados estão aí, o consumo de drogas como ansiolíticos, antidepressivos, indutores de sono, tem vindo a aumentar significativamente. Por outro lado, com as pessoas em casa e a não irem aos hospitais, outras patologias aumentaram significativamente. O isolamento social, a falta de actividade física, a incerteza acaba por nos desgastar sem nos apercebermos. É como uma nuvem cinzenta que paira sobre nós.

Aponta no livro que as empresas apostam em programas mas defende que “as acções a tomar têm de ser direccionadas para a forma como trabalhamos”. O que quer dizer com isto? Que mantêm práticas doentias?
Identifico três tipos de empresas: umas genuinamente preocupadas com as pessoas (e isso não é de agora) - são aquelas que têm regras estritas sobre emails, não vêem com bons olhos as pessoas que trabalham à noite, estimulam o uso de intervalos, tempos livres e dão boas condições; depois, há outro tipo de empresas, que eu costumo dizer que são as empresas das indulgências - aquelas que carregam no acelerador até não se poder mais e depois convidam um José Soares para ir lá fazer um workshop sobre saúde mental, o que os deixa com a consciência tranquila e com a sensação de que estão a fazer qualquer coisa; são as mesmas que juram que as pessoas estão em primeiro lugar, mas depois enviam emails às dez e meia da noite e promovem reuniões sucessivas; o terceiro tipo de empresas são as que olham para isto de outra forma - vêem que o teletrabalho aumentou x por cento a produtividade, que pouparam na energia e noutros gastos e, por isso, deixam estar tudo como está, porque, embora digam que as pessoas estão primeiro, os trabalhadores são na verdade um KPI (key performance indicator), equivalem a um indicador-chave de desempenho.

O cérebro é nosso aliado e nosso inimigo. Quando estamos mais stressados e a dormir pior, o que acontece de imediato? É a auto-sabotagem. Cometemos erros alimentares por exemplo, porque pensamos: eu mereço.

Desses três tipos de empresas, com qual ou quais se tem confrontado mais vezes?
Penso que em Portugal predominam as empresas de indulgências, a segunda categoria que referi. Veja aquelas empresas com escritórios de inspiração Google, muito fun, cool e sexy, apetrechados com mesa de bilhar ou matraquilhos, mas que depois ninguém usa porque se forem jogar terão de ficar no trabalho até às dez da noite. Estou convencido que quem pode resolver este ambiente corporativo de alta pressão são os mais novos, que já não vão muito nisto. O problema é que ainda são uma franja da força laboral.

Onde é que detecta esses sinais de uma mudança assente na renovação geracional?
Basta olhar para o turnover (rotação de pessoas) da empresa. As que contratam 200 pessoas por ano são as mesmas de onde saem 210. São jovens que estão um ou dois anos a ganhar 750 euros por mês e a levar com trabalho e emails até à meia-noite. Depois há outro modelo de pessoas, que estão a ser uma lição para os departamentos de RH, os nómadas digitais, que não estão feitos para trabalhar em escritórios.

No livro insurge-se contra o escritório em plano aberto, o open space. Porquê?
As empresas gastam mais dinheiro com o tapete do que com quem o pisa. O open space parte da ideia de que toda a gente é igual e gosta de trabalhar dessa forma. O que é uma ideia errada. Investiu-se muito no tapete, mas não tanto nas condições dadas às pessoas. O plano aberto foi uma estratégia para reduzir custos, porque permite meter mais gente do que os gabinetes. Em algumas circunstâncias funciona, mas convém perceber que o open space é um factor de perda de produtividade e de concentração e um factor de desgaste. O problema é ter-se tornado a regra, independentemente das circunstâncias.

As empresas gastam mais dinheiro com o tapete do que com quem o pisa
Partilhar citação
Partilhar no Facebook
Partilhar no Twitter

Alguns dos seus leitores não poderão mudar de emprego, ignorar chefes e colegas quando já passou da hora. O que lhes diria?
É uma pergunta mais do que legítima. O nosso trabalho é como uma fracção. No numerador está a forma como trabalhamos. Entra aí o que podemos fazer, como desligar dois ou três minutos, levantar da cadeira periodicamente para nos mexermos um pouco, beber menos cafés, organizar melhor o tempo. São pequenos ajustes. No denominador, entra o que depende da organização. De facto, se tem um chefe que manda emails às 22h30, não há muito a fazer. Ou despede-se ou muda de função ou faz o que o chefe está a pedir. Mas no denominador também estão coisas que dependem de nós. E nós muitas vezes auto-sabotamo-nos. É uma ideia que usamos muito quando lidamos com atletas. A mensagem que quero enviar passa por três pontos. Trate do numerador. O segundo ponto é não nos auto-sabotarmos. E o terceiro é que isto tem de vir de cima, das chefias. Não podemos descartar a hipótese de termos um chefe tóxico, um imbecil. Apercebi-me que muitas vezes as pessoas da alta direcção não têm contacto com a realidade do trabalhador e por isso não têm a mais pequena noção do que as pessoas sofrem.

É fisiologista mas trabalha com empresas há muitos anos. Presume-se que olhe para a organização de forma diferente. Temos uma cultura de trabalho tóxica? O bom trabalhador é o que sai tarde? Isso já está interiorizado de tal forma que já nem é preciso os emails tardios, porque o próprio trabalhador se auto-sabota, talvez para encaixar nessa cultura?
Nós portugueses somos, regra geral, muito mais tolerantes, embora se queira passar a imagem de que não somos. Somos mais passivos e menos proactivos, aceitamos de bom grado as coisas que nos vão fazendo. Embora digamos que somos de sangue quente, na realidade somos muito submissos. Não estou qualificado para avaliar se isso tem uma raiz histórica, mas noto que está a haver uma mudança gradual, uma real preocupação com isso. O chefe tóxico acha que todos têm de trabalhar como ele. Mas noto que essas pessoas começam a ser mal vistas. A pandemia foi uma bofetada, mas não vai mudar nada no imediato. Já passámos pela peste, já tivemos gripe espanhola, já vivemos guerras e o trabalho voltou sempre ao que era. A mudança será lenta. A bem ou a mal.

Quem diz que gosta de trabalhar com deadline ou é viciado em trabalho ou não encontra motivação intrínseca para fazer as coisas sem estar sob pressão. Isso não é um grande elogio.

E há alguma relação entre o corpo de um atleta e o de um trabalhador?
Quando cheguei ao mundo laboral, trabalhava com atletas e com doentes. E apercebi-me que as empresas estavam cheias de gente disfuncional. Concluí que os métodos para atletas, que são de alto rendimento, e para doentes, cujo rendimento fica abaixo do potencial devido à doença, poderiam ser aplicados nas empresas. A explicação fisiológica encaixa perfeitamente na realidade laboral. As análises que peço a trabalhadores são as mesmas que peço ao Miguel Oliveira ou a outro atleta com quem trabalhe. Ainda ontem falava com um seleccionador nacional que vai aos Jogos Olímpicos sobre como avaliar a qualidade de sono dos atletas. Podemos ter a mesma conversa em relação a um trabalhador. A malta não dorme, é um problema endémico. As pessoas olham para um Rafael Nadal e perguntam o que é que ele come? Porque faz aquilo? O que faz nos intervalos? Como dorme após um jogo? Por que não fazermos as mesmas perguntas na empresa para ajudar a explicar o rendimento ou a falta dele?

Está a sugerir que o problema do trabalho começa em casa, como nos preparamos, a qualidade do sono, as escolhas alimentares?
Claro.

Todos podemos ser atletas olímpicos da nossa secretária?
O trabalhador bem preparado, que tenha dormido bem, que se alimenta, que não está nem em stress físico nem psicológico, está mais bem posicionado para a sua “competição”. Sabe por que é preciso dormir bem? Para trabalhar menos. Dormindo bem, ficamos mais bem dispostos, trabalhamos melhor, somos produtivos.

Neste livro, como no anterior (Reload, Menos Stress, Melhor Performance, Porto Editora), realça a importância da recuperação. Porquê?
A recuperação é tão ou mais importante do que o treino e a prova. O problema actual das empresas são as reuniões sucessivas e intermináveis. Quando pensa que falta cafeína, provavelmente a resposta certa é que falta recuperação antes da reunião seguinte. É daqui que vem a minha preocupação com o stop, que está no título do livro. Na biologia não há almoços de graça.

Quais são os sinais de que, se calhar, temos de parar?
Falta de concentração, quando nos dispersamos com facilidade, quase sem darmos conta; fadiga precoce, quando chegamos ao fim exaustos; falhas de memória de curto prazo, do tipo “o que é que jantei ontem? como se chama aquele? falta-me a palavra certa"; irritabilidade, muito menor tolerância; passar sinais amarelos no trânsito - costumo dizer que passar amarelos é uma linha vermelha, e no livro tenho a explicação fisiológica para isso; tocar duas vezes no botão do elevador, como se isso o fizesse chegar mais cedo; dificuldade em dizer não, porque dizer não é quase sempre sinónimo de gastar mais energia; avaliar poucas vezes o risco; alterações de comportamento alimentar.

No livro destaca que há uma diferença fundamental no impacto do stress sobre a alimentação de atletas e trabalhadores.
O atleta perde a vontade de comer e o trabalhador come mais. Por duas razões, porque estamos cansados e, estando stressados, precisamos de nos acalmar. E aquilo que está à mão de semear, para estimular a produção de uma substância com esse efeito, é a comida de conforto, como açúcar refinado, gorduras saturadas e salgados. Mas há mais sinais de alerta. Manifestações de herpes ou de constipação, após ausência prolongada de sintomas, astenia. Alterações do tracto gastrointestinal.

O que proponho no livro é que façamos uma análise SWOT. Escrever num papel as nossas forças, fraquezas, oportunidades e ameaças. É algo que funciona, permite resumir o que fazemos bem, o que temos de deixar de fazer. Isto não é ciência de foguetões, é básico. O problema é fazer.

Se é básico, porque repetimos os erros?
O cérebro é nosso aliado e nosso inimigo. Quando estamos mais stressados e a dormir pior, o que acontece de imediato? É a autosabotagem. Cometemos erros alimentares por exemplo, porque pensamos: eu mereço. O cérebro dá indicação de que o nível de stress está alto, a produção de cortisol sobe muito, o que faz descer a testosterona. Logo, a líbido, a capacidade de concentração, o foco e a proactividade vão começar a desaparacer. É uma cascata de eventos que não podem ser isolados. É como pedirem-nos para não levarmos os problemas de casa para o trabalho. Impossível, isso não existe.

Há quem fique mais desconfiado quando está em stress. Imagine o impacto que isso pode ter nas relações laborais. Mas a fisiologia explica-o: com stress alto sobem a adrenalina e o cortisol e isso impacta um neurotransmissor, a oxitocina, que está relacionado com a confiança.

É difícil isolar uma variável. O nível de imunidade mostra como tudo se paga. Veja a quantidade de pessoas que toma protectores gástricos. As gastrites aparecem porque baixamos a nossa imunidade. O impacto é físico e cognitivo. Baixamos a performance, passamos a raciocinar pior. Tudo tem um preço e não se pense que é possível compensar. Passar a semana em défice de sono e tentar compensar dormindo todo o fim-de-semana não é sinónimo de recuperar. Não funciona assim. Chama-se a isso social lag.

Há quem diga que trabalha melhor quando está sob stress. O que diz a ciência?
O famoso deadline. Deveríamos traduzi-lo sempre para português, linha da morte. Quem diz que gosta de trabalhar com deadline ou é viciado em trabalho ou não encontra motivação intrínseca para fazer as coisas sem estar sob pressão. Isso não é um grande elogio. Quando se diz que o atleta ganhou quando estava sob pressão, é porque as coisas correram bem. Quando correm mal, ignoramos. A maioria das vezes corre mal. Os recordes são raros. É um viés nosso. Valorizamos as excepções, sobretudo as que estão de acordo com as nossas crenças.

Há tempos o país teve de lidar com a notícia de uma situação trágica, em que uma pessoa se esqueceu de um filho menor no carro. Foi a excepção no mau sentido?
Conheci esse caso primeiro pelas notícias e depois através de dois profissionais. Há uma razão para aquilo acontecer, foi uma situação extrema, mas há factores que aumentaram o risco. Morreu uma criança e foi uma tragédia terrível. Mas poderia ter sido a carteira e já não era tragédia. Porém, o mecanismo base pode ser o mesmo: níveis de stress muito altos, de preocupação, e de repente alguém tão concentrado nas suas coisas esquece-se de uma criança. É um exemplo típico. De pessoas desesperadas não se espere coisas boas.


11.8.21

É normal sentirmo-nos felizes e tristes ao mesmo tempo. Quando é que nos devemos preocupar?

Galadriel Watson/The Washington Post, in Público on-line

O neurocientista António Damásio garante que a ambivalência pode ser positiva em termos de evolução e faz com que faz com “seja mais provável ter cuidado quando se toma uma decisão”.

Quando o meu filho foi para a universidade, senti-me, ao mesmo tempo, eufórica por ele e triste porque deixaria a nossa casa. Quando sou convidada para um jantar, fico feliz por terem pensado em mim, mas também preferiria ficar por casa, no sofá. Quando às vezes deixo a máscara na minha mala, aproveito a liberdade, mas preocupo-me com a minha saúde.

Lutar com dois sentimentos opostos, de uma só vez, é chamado de ambivalência. É um sentimento normal da condição humana, mas, por vezes, tais conflitos internos podem ser pouco saudáveis. Falei com três especialistas para perceber mais sobre este fenómeno.

Ambivalência significa “sentir-se tanto bem como mal”, disse-me o professor de psicologia da Universidade do Tennessee, em Knoxville, EUA, Jeff Larsen. Sentir-se agridoce ou nostálgico é comum nessa ambivalência. “Pense como se poderá sentir quando está no topo de uma montanha-russa: entusiasmada, mas também aterrorizada”, ilustra o docente.

Mas não é preciso estar num parque de diversões. Os acontecimentos do quotidiano podem despertar este estado, e Larsen descobriu que “finais importantes” também têm o mesmo efeito. Os estudantes universitários, por exemplo, provavelmente passarão o dia da sua formatura a reviver os bons tempos dos últimos anos. Num estudo levado a cabo pelo investigador, a publicar em breve, os finalistas revelaram que, naquele dia, sentiram felicidade, mas também tristeza. “Sentimo-nos tristes quando experienciamos uma perda irreversível”, explica o investigador.

A capacidade de experienciar dois sentimentos contraditórios, de uma vez, tem benefícios em termos de evolução, assegura o director do Instituto do Cérebro e da Criatividade da Universidade do Sul da Califórnia, o neurocientista português António Damásio. “Os animais que só têm sentimentos positivos ou negativos são muito limitados, porque as coisas são ou preto ou branco”, explica o autor de Sentir & Saber – A Caminho da Consciência, acrescentando que os humanos têm “a possibilidade de ver nuances”.

Estas nuances podem ajudar a tomar boas decisões. Se um animal se aproximar de um curso de água, sem considerar o resultado dessa acção, poderá ser comido por outro. Quanto aos humanos, imagine que conhece alguém com quem até simpatiza, mas que essa pessoa lhe passa vibrações estranhas e que esse indivíduo se propõe a tratar das suas finanças, a ambivalência faz com “seja mais provável ter cuidado quando vai tomar decisão e pensar duas vezes”, reconhece António Damásio.

Também ajuda a aprender com os erros do passado. David Newman ─ um estudante de doutoramento no departamento de psiquiatria e ciências do comportamento na Universidade de São Francisco, na Califórnia ─ dá o seguinte exemplo: “Se se sentir nostálgico sobre alguma relação do passado, talvez seja bom não olhar apenas pela positiva, mas também lembrar-se das coisas negativas, para não repetir os mesmos erros.”
Quando é que a ambivalência é um problema?

Nos séculos XVIII e XIX, a nostalgia era considerada uma patologia psiquiátrica. Ser demasiado agarrado ao passado era sinónimo de alguém que não se conseguia adaptar ao presente ─ o que, no limite, poderia levar à morte. Embora a nostalgia já não seja classificada de tal forma, António Damásio diz que as emoções negativas, de qualquer tipo, podem causar danos na nossa saúde física. À medida que evoluem, causam reacções químicas que, por exemplo, podem resultar no aumento da pressão arterial, estreitamento dos vasos sanguíneos e mudanças no ritmo cardíacos. Estes sintomas levam a doenças no sistema circulatório e no coração.

A saúde mental também sofre. A ambivalência prolongada tem sido associada ao stress pós-traumático, perturbações obsessivo-compulsivas, depressão e dependência. “As pessoas tendem a ficar muito tristes quando sentem nostalgia”, observa David Newman. Ao comparar o presente com um passado idealizado, explica, “estar-se-á sempre chateado e a sentir-se insatisfeito”.

O sentimento leva a que congelemos, seja a decidir comprar um carro ou a terminar uma relação. A “perspectiva de analisar os prós e contras pode tornar difícil a tomada de decisão”, assegura Jeff Larsen. “Nesses casos a ambivalência pode paralisar-nos”, lamenta o professor universitário.

Há pessoas que se sentem mais nostálgicas do que outras? O trabalho desenvolvido por David Newman concluiu que as pessoas neuróticas ou que tentam evitar sentimentos negativos têm mais probabilidade de sentir nostalgia: tendem a achar sempre o presente desagradável e passam mais tempo a idealizar o passado.

Quanto à ambivalência em geral ─ não só a nostalgia ─ as pessoas que estão mais abertas a novas experiências tendem a sentir mais emoções variadas. “Se está sempre à procura da mesma coisa, provavelmente estará a perder as coisas que o fazem feliz”, avisa Jeff Larsen. Se gosta de experimentar coisas novas, pode viver a diversão que está à espera, mas também poderá deparar-se com aspectos menos bons, que não eram esperados ─ levando a sentimentos contraditórios.

António Damásio acrescenta: “Há pessoas que são extremamente joviais e confiantes no futuro e estão numa espécie de estado de permanente felicidade; e as que são mais cautelosas tendem a estar sempre a encontrar algo de negativo nos acontecimentos do dia-a-dia”. Estas últimas são quem poderá experienciar mais ambivalência prejudicial à saúde.

Que soluções de cura existem?

Uma maneira simples para viver de uma forma equilibrada, com menos emoções confusas, é manter um diário de gratidão. Ter este hábito, sugere Newman, força a pessoa a focar-se no lado positivo das coisas, e aumenta o seu bem-estar.

A terapia também pode ajudar. Ao aprender várias ferramentas ─ para aumentar o mindfulness, por exemplo, ou aumentar a capacidade de suportar a angústia ─ quem faz terapia comportamental “encontra uma forma de tolerar e conviver, lado a lado, com experiências e realidades que parecem incongruentes”, destaca a psicóloga Sarah Mintz, do grupo Wake Kendall, em Washington. A terapia permite que se “afastem dos extremos e aceitem a confusão”, garante.

Mesmo sem o apoio de um terapeuta, as pessoas podem experimentar fazer exercícios de respiração, tal como “prolongar as pausas entre o inspirar e o expirar”, sugere a especialista. Outras vezes, a solução pode ser tão simples quanto aceitar os sentimentos contraditórios e deixá-los seguir o seu rumo. “Frequentemente, as emoções miscigenadas resolvem-se, e fica-se a sentir apenas uma ou outra”, concorda Jeff Larsen.

Além disso, é importante lembrar que sentirmo-nos triste ou assustados pode ajudar-nos. Tal como os animais junto ao curso de água que precisam analisar o que é seguro, os humanos também podem beneficiar dos sentimentos contraditórios causados pela ambivalência. Larsen conclui: “O mundo é um lugar complexo e nós podemos simplificá-lo com o perigo.”

10.11.20

Portugueses colocam o seu bem-estar em valores positivos pela primeira vez

Patrícia Carvalho, in Público on-line

Indicadores relacionados com a segurança, saúde, educação e ambiente contribuem de forma mais vincada para estes resultados, segundo o Instituto Nacional de Estatística. O relatório diz respeito a 2019, pelo que não reflecte o efeito da pandemia de covid-19.

Os portugueses estão a avaliar o seu bem-estar de forma cada vez mais positiva, mostrando-se particularmente satisfeitos com indicadores ligados à sua segurança pessoal, educação, saúde e ao ambiente, mas o Índice de Bem-Estar (IBE) para 2019, revelado esta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) tem uma particularidade: é a primeira vez que a nota é positiva. Numa escala de 0 a 100, ainda estamos apenas nos 50, mas este é “o valor mais elevado de sempre”, salienta o INE. Em 2004 não íamos além dos 23,5 pontos.

O IBE analisa dez domínios relacionados com dois grandes grupos — condições materiais de vida e qualidade de vida — e, salvo raras excepções em alguns períodos de tempo, os portugueses têm-se mostrado cada vez mais satisfeitos com as condições que lhe proporcionam bem-estar, embora nem todos os aspectos analisados contribuam para isso na mesma proporção.

Os dados relativos a 2019, e que são ainda preliminares, mostram-nos que há coisas que nos deixam particularmente satisfeitos, com a (baixa) taxa de criminalidade à cabeça de todas elas. Junta-se o bem-estar traduzido pela redução da taxa de desemprego — depois do período negro da crise económica e financeira —, pelos níveis de abandono precoce da formação, para os estudantes ente os 18 e os 24 anos, ou pelo número de praias com bandeira azul.

Em termos gerais, e olhando para a evolução entre 2004 e 2019, percebe-se que os portugueses avaliaram mais positivamente as condições materiais que lhe foram proporcionadas (e que fica, em 2019, cerca de 30 pontos acima dos valores de 2004), do que a qualidade de vida em geral que sentem (sobe 24,4 pontos entre aqueles anos). Neste último campo, são avaliados aspectos como a segurança pessoal, a educação, conhecimento e competências, a saúde, o ambiente ou o balanço vida-trabalho. E este último indicador, como se vê no IBE, “é o que menos cresce”, mantendo-se estável desde 2010.

Não é que os portugueses não se mostrem bem mais contentes com a forma como conseguem apreciar o tempo dedicado aos contactos interpessoais ou às actividades de lazer e à sua vida familiar e social. O problema é que o aumento do IBE nestes campos não chega para compensar a fraca evolução (estável nos últimos dois anos, mas com forte decréscimo antes disso e após 2012) dos dados que indicam o quão bem nos sentimos em relação ao apoio familiar que prestamos, ou à nossa capacidade de conciliar o trabalho com as responsabilidades familiares. 

Um outro campo analisado pelo INE é o das relações sociais e bem-estar subjectivo e, aqui, a evolução é notória, sobretudo em alguns indicadores. Basta olharmos para o “grau de felicidade (feliz ou muito feliz)”, que em 2008 não conseguia mais do que 1,2 pontos, e dez anos depois estava perto dos 67. 

O IBE permite-nos perceber que, com algumas oscilações, a nossa avaliação da qualidade de vida tem tido uma evolução consistentemente positiva, enquanto o das condições materiais de vida teve alguns anos francamente piores, directamente relacionados com os indicadores relacionados com o emprego e a vulnerabilidade económica.

Ambos foram fortemente afectados pela crise e tiveram uma evolução globalmente negativa entre 2004 e 2014, com essa tendência a inverter-se a partir daí.

Fica a curiosidade do que dirá o IBE do próximo ano, não só nestes dois indicadores — afectados pelos efeitos da pandemia —, mas também naqueles relacionados com a saúde e a educação, dois campos que foram particularmente tocados pelas mudanças a que a covid-19 obrigou.

De volta aos indicadores relacionados com o emprego, apenas mais um dado: os portugueses não estão particularmente satisfeitos com a disparidade salarial entre homens e mulheres e, como nos veio lembrar um comunicado do Governo, há razões para isso. É que esta terça-feira assinala-se precisamente o Dia Nacional da Igualdade Salarial, uma data móvel e que assinala o dia a partir do qual, fruto da disparidade salarial, as mulheres deixam, virtualmente, de ser remuneradas pelo seu trabalho, enquanto os homens continuam a receber salário até ao final do ano.

12.10.20

Eu sei que é uma chatice: a Fome.

 Gustavo Corona, opinião, in Público on-line

Iémen, Afeganistão e Sudão do Sul, são os três países onde a intervenção do Programa de Alimentação Mundial é maior. E é para eles e para tantos outros que estou a olhar com um sorriso que este prémio me desperta.

Eu sei que é uma chatice. Eu sei que é muito mais excitante falar de sexo num comboio, dos ovários que uns querem tirar, das particularidades dos ciganos, das questiúnculas das presidenciais, ou daquela “frase ao lado” que a ministra da Saúde disse sobre já nem sei bem o quê, mas foi gravíssimo. Eu sei que é uma chatice, mas gostava de falar sobre as pessoas que estão a morrer à fome.

Há apenas uma certeza sobre a fome nos dias de hoje: “Não havia necessidade.” É totalmente incongruente com o desenvolvimento das capacidades do ser humano que existam tantos milhões de pessoas em vias de morrer à fome. Eu diria que é vergonhoso que o melhor que lhes podemos dar neste momento é um prémio. A fome está quase sempre acoplada aos grandes conflitos, e é usada e instrumentalizada como arma de guerra. Deixar as pessoas morrer à fome, promover que morram à fome, desenhar uma estratégia de guerra para que morram à fome, é tão frequente e legitimado nas mentes bélicas como qualquer outra arma, que sirva um propósito de uma vitória, se é que alguém ganha numa guerra.

É um Prémio Nobel da Paz, justíssimo e que carrega múltiplas análises importantíssimas aos dias de hoje. São desmultiplicáveis e claro interconectadas as mensagens que se podem aplaudir neste que é (discutivelmente) o maior prémio do planeta Terra:

A importância das organizações. Não chega dar um quilo de arroz e uma roupinha. É preciso estrutura, grandes investimentos, reflexões maturadas e profissionais. Ambicionar a utopia da imparcialidade na ajuda a seres humanos. Numa altura em que alguns querem (e conseguem!) fragilizar as organizações mundiais, aqui fica mais uma prova de que é fundamental um olhar global para os problemas globais.
Proporcionalidade. O foco das nossas atenções tem de estar à dimensão do problema. Ao canalizarmos as energias para superficialidades, esquecemo-nos que first things first, e acabar com a fome, a pobreza e guerra tem que ser o primeiro pensamento de todos que têm coração.

Interdependência com a guerra. A maior parte das pessoas num conflito morrem pelas consequências indirectas do mesmo, doenças facilmente tratáveis e fome. E a mensagem do Comité Nobel encadeou os holofotes para essa mensagem poderosíssima: “Pelos seus esforços em combater a fome, pelas suas contribuições para o melhoramento das condições para a paz nas áreas afectadas por conflitos e por actuar como força motora nos esforços na prevenção da utilização da fome como arma de guerra.”
A globalidade da pandemia. Tem sido óbvio em cada país que os pobres são os que mais sofrem quer pela doença, pelas consequências indirectas da doença. À escala global ainda é mais gritante. O empobrecimento e amedrontamento dos países ricos esmaga violentamente a fragilidade dos países pobres e as suas pessoas. A nossa empatia encontra muros mais elevados nas nossas fronteiras e a nossa vontade contributiva para causas humanitárias, tem ficado confinada nos nossos bolsos.

A cultura da premiação. É preciso premiar a ajuda humanitária a todos os níveis da sociedade. É fulcral moldar a sociedade pelos valores, e no fundo, no fundo, todos sabemos quais são os mais importantes. A premiação, o elogio, o reconhecimento tem um poder enormíssimo na nossa sociedade, e não pode ficar reservado ao desporto, beleza, riqueza... Quando o que mais precisamos é de bondade, igualdade e humanidade.

Iémen, Afeganistão e Sudão do Sul, são os três países onde a intervenção do Programa de Alimentação Mundial é maior. E é para eles e para tantos outros que estou a olhar com um sorriso que este prémio me desperta, que não é de vitória, mas é de esperança. A esperança que através destes cinco pontos, consigamos oferecer sorrisos a quem nasceu do lado errado do planeta.

Penso sempre que podia ser eu, à espera que a comida caísse do céu em vez das bombas. E, por isso, penso neles. O prémio é vosso, na falta de melhor.

30.4.20

Painel de dados do PNUD revela disparidades entre países na capacidade de enfrentar COVID-19

in ONU

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) lança nesta quarta-feira (29) dois painéis de dados que destacam as enormes disparidades na capacidade dos países de enfrentar e se recuperar da crise da COVID-19.

A pandemia é mais do que uma emergência global de saúde. É uma crise sistêmica de desenvolvimento humano, que já afeta as dimensões social e econômica do desenvolvimento de maneira inédita, lembrou o PNUD.

Trabalhadores comunitários promovem a conscientização sobre a prevenção da COVID-19 e distribuem kits de higiene para famílias urbanas pobres em Bangladesh. Foto: PNUD Bangladesh/Fahad Kaize

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) lança nesta quarta-feira (29) dois painéis de dados que destacam as enormes disparidades na capacidade dos países de enfrentar e se recuperar da crise da COVID-19.

A pandemia é mais do que uma emergência global de saúde. É uma crise sistêmica de desenvolvimento humano, que já afeta as dimensões social e econômica do desenvolvimento de maneira inédita, lembrou o PNUD.

Políticas para reduzir vulnerabilidades e construir capacidades para administrar a crise, tanto no curto quanto no longo prazo, são vitais se os indivíduos e a sociedade pretendem resistir e se recuperar melhor de choques como este, salientou o organismo das Nações Unidas.

Preparo dos países para reagir à COVID-19

O “Dashboard’” 1 do PNUD sobre Preparo apresenta indicadores para 189 países – incluindo nível de desenvolvimento, desigualdades, capacidade do sistema de atenção à saúde e conectividade de Internet – para avaliar o quanto uma nação está apta a responder aos múltiplos impactos de uma crise como a da COVID-19.

Embora toda sociedade seja vulnerável a crises, as habilidades de reposta diferem significativamente entre cada uma no mundo todo.

Por exemplo, os países mais desenvolvidos – aqueles de nível muito elevado em desenvolvimento humano – têm em média 55 leitos hospitalares, mais de 30 médicos e 81 enfermeiros para cada 10 mil habitantes, comparados com uma média de 7 leitos hospitalares, 2,5 médicos e 6 enfermeiros em um país de desenvolvido mínimo.

E com extensivos confinamentos, a “brecha digital’ tornou-se mais significativa do que nunca, enquanto 6,5 bilhões de pessoas em todo o planeta – 85,5% da população global – ainda não têm acesso a Internet banda larga segura , o que limita sua capacidade de trabalhar e continuar sua educação.

Vulnerabilidades dos países em crises como a da COVID-19

Estar preparado é uma coisa. Mas, quando uma crise chega, quão vulneráveis estão os países a seus efeitos? O “Dashboard” 2 do PNUD sobre Vulnerabilidades apresenta indicadores que refletem a susceptibilidade dos países aos efeitos desta crise.

Aqueles que já vivem na pobreza estão particularmente em risco. Apesar dos progressos recentes na redução da pobreza, em média uma em cada quatro pessoas ainda vive em pobreza multidimensional ou está a ela vulnerável, e mais de 40% da população global não têm nenhuma proteção social.

A pandemia da COVID-19 também nos lembra que disrupções são contagiosas, desencadeando problemas em outros lugares. Em alguns países, como o Quirguistão, por exemplo, parte significativa do PIB vem das remessas de recursos. Enquanto países tão diversos entre si, como Montenegro, Maldivas e Cabo Verde, dependem fortemente do turismo (quase 60% do PIB das Maldivas, por exemplo) estão sendo atingidos profundamente pelas proibições de viagem e confinamentos

Sobre os “dashboards”

Os “dashboards” codificados por cor monitoram o nível de preparo dos países para a resposta à crise da COVID-19 e suas vulnerabilidades. Os painéis permitem agrupar parcialmente os países por indicador na tabela.

Para cada indicador, os países são divididos em cinco grupos com tamanhos aproximados, com a intenção de não sugerir limites ou valores-alvo para os indicadores, mas permitir acessar a performance dos países em relação aos outros.

Um país que está no topo (considerando cinco grupos, cada um representando 20%) tem melhor desempenho que os outros 80% dos países, e um país que se encontra na média tem desempenho melhor que os 40% da base, mas pior que os países do topo.

A codificação de cinco cores permite visualizar um agrupamento parcial de países e ajuda os usuários a distinguirem imediatamente o desempenho de um país entre o conjunto de indicadores selecionados. Os dados apresentados nessas tabelas são de fontes oficiais internacionais.

15.1.19

Três em cada quatro portugueses têm dificuldade em compreender informações sobre saúde

Rita Marques Costa, in Público on-line

Situação piora com a idade. Ensinar os profissionais de saúde a comunicar com os doentes é fundamental. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas", diz investigadora.

Se comer toda a embalagem de gelado quantas calorias está a consumir? Se lhe for permitido consumir 60 gramas de hidratos de carbono numa sobremesa, que quantidade de gelado pode comer? Estas são duas das seis perguntas que, acompanhadas de um rótulo fictício de gelado, compõem o Newest Vital Sign (NVS), o teste utilizado pela médica Dagmara Paiva e outros cinco investigadores para avaliar o nível de literacia em saúde dos portugueses. Conclusão: estima-se que 73% da população portuguesa entre os 16 e os 79 anos não saiba responder correctamente a questões como estas e que, por isso, tenha dificuldade em aceder, compreender e utilizar informação sobre saúde.

A situação piora com a idade. E, como seria de esperar, quanto menor for o nível de escolaridade, menos competências. Dados: na população entre os 16 e os 44 anos, a proporção daqueles que mostram níveis de literacia inadequados oscila entre os 62% e os 65% (as estimativas têm um intervalo de confiança de 95%). Essa percentagem vai aumentando e, na faixa etária entre os 65 e 79 anos, corresponde a 94% da população. Quanto ao nível de escolaridade, entre os que têm menos do que o 4.º ano, 97,5% têm um nível de literacia em saúde inadequado. Já entre a população com pelo menos uma licenciatura completa essa proporção desce para 44,5%.

“Pessoas com mais de 64 anos têm 21% maior probabilidade de ter limitações do que quem tem menos de 25 anos”, detalha ainda o estudo publicado no final de 2017 na revista Acta Médica Portuguesa e que faz parte da tese de doutoramento que Dagmara Paiva apresentou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em Dezembro de 2018 (o foco principal da tese é a literacia nos cuidados aos doentes com diabetes tipo 2, mas a médica apresenta vários estudos de contexto). Já para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano. Não há diferenças de género.

Para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano.
Continue connosco. Temos muitos outros artigos para si

Esta metodologia não avalia directamente a forma como os pacientes compreendem as informações que lhes são dadas em contexto clínico. Mas Dagmara Paiva explica que pode dar algumas pistas. “A penúltima pergunta do NVS é: ‘Suponha que é alérgico à penicilina, amendoins, látex e picadas de abelha. É seguro para si comer esse gelado?’. Aí a pessoa tem de conseguir perceber que um dos ingredientes do gelado é o amendoim e que não pode [comê-lo] e porquê. Dá para ter uma ideia de como é que são essas competências de uma pessoa em particular.”

O pequeno questionário foi aplicado em 2012 no âmbito de um inquérito nacional que tinha como objectivo perceber o grau de conhecimento da população sobre problemas como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, cancro e sobre comportamentos saudáveis. A amostra, representativa da população portuguesa, tinha 1624 pessoas. Entre os entrevistados, 79 não sabiam ler nem escrever, pelo que foram excluídos da análise. Sobram 1544 indivíduos na amostra final. Se a população que não sabe ler nem escrever fosse incluída nas estimativas nacionais então o nível de literacia inadequada em saúde seria ainda maior: 74,5%.

Portugal atrás de Espanha e da Holanda
A metodologia tem limitações. O NVS, explica-se no estudo, “foi desenhado para avaliar competências individuais de compreensão de leitura e cálculo, uma pequena parte do conceito de literacia em saúde”. Mesmo assim, não é por isso que os seus resultados são menos importantes. “A avaliação das habilidades numéricas dos pacientes pode ter um papel fundamental na melhoria do uso apropriado de medicamentos e na prevenção de erros de dosagem, alinhando-se aos objectivos do Programa Nacional de Educação para a Saúde, Literacia e Autocuidados.”

Além disso, outras mais-valias são o facto de já ter sido usado noutros contextos, correlacionar-se bem com instrumentos mais complexos, ser visto como algo “aceitável” pelos pacientes e permitir comparações internacionais.

Em 2011, o NVS já tinha sido aplicado noutros países, no âmbito do Inquérito Europeu de Literacia em Saúde. A Holanda, onde só 23,7% dos entrevistados revelaram ter literacia inadequada em saúde, teve a taxa de sucesso mais elevada. Por outro lado, Espanha, onde se estima que 63,1% da população tenha este tipo de limitações, foi o país com piores resultados na altura. “Dada a proximidade entre educação e a componente de numeracia na literacia para a saúde, os resultados [distintos entre países] podem ser explicados pelas diferenças na educação”, explica o estudo.

A prevalência da falta de literacia em saúde estimada no âmbito deste estudo é superior aos 49% que outro grupo de investigadores estimou em 2016. Dagmara Paiva e os restantes autores explicam esta diferença: com o NVS “a numeracia é analisada objectivamente e esta é uma competência crucial para lidar com as exigências complexas da doença crónica”. O trabalho de 2016 avaliava o grau de dificuldade do paciente em realizar tarefas associadas a cuidados de saúde. Mesmo assim, “são complementares”, diz Dagmara Paiva.

Ensinar os profissionais de saúde a comunicar
Uma coisa é certa: a literacia inadequada em saúde é um problema em Portugal. E se a longo prazo a forma de melhorá-la é através do investimento na educação dos cidadãos, no imediato, atenuar os seus efeitos pode passar por “melhorar as competências de comunicação dos profissionais de saúde”, defende Dagmara Paiva.

Outro dos trabalhos que integra a tese desta médica especialista em Medicina Geral e Familiar (são cinco no total) foca-se nos factores que facilitam e inibem a comunicação entre pacientes com diabetes tipo 2 e profissionais de saúde. E conclui que os doentes identificam a comunicação agressiva no consultório como uma “barreira à comunicação”, mas os profissionais encaram-na como um aspecto “facilitador” no sentido de apelar à mudança de comportamentos dos pacientes. O estudo baseia-se na entrevista a 33 utentes e a 12 profissionais de saúde.

“Não há nenhuma sociedade nem associação que dê recomendações para tratamento e gestão da diabetes tipo 2 que recomende comunicar de uma forma agressiva para assustar as pessoas. Todas as indicações são no sentido de usar técnicas de entrevista motivacional, ajudar os doentes a identificar as principais barreiras à mudança de comportamentos e, dentro do seu contexto de vida, tentar ajudá-los a decidir sobre as pequenas mudanças para melhorar a sua saúde”, nota Dagmara Paiva. Mesmo assim, “há muitos médicos” que utilizam a abordagem agressiva.

O problema está no ensino. “Na maioria das faculdades de medicina, o treino em comunicação ainda não faz parte do currículo [obrigatório]. É uma coisa que os próprios profissionais de saúde assumem que lhes faz falta”, nota a médica. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas”, aponta. “As políticas de saúde têm mesmo de começar a investir nisso a sério.”

14.1.19

Três em cada quatro portugueses têm dificuldade em compreender informações sobre saúde

Rita Marques Costa, in Público on-line

Situação piora com a idade. Ensinar os profissionais de saúde a comunicar com os doentes é fundamental. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas", diz investigadora.

Se comer toda a embalagem de gelado quantas calorias está a consumir? Se lhe for permitido consumir 60 gramas de hidratos de carbono numa sobremesa, que quantidade de gelado pode comer? Estas são duas das seis perguntas que, acompanhadas de um rótulo fictício de gelado, compõem o Newest Vital Sign (NVS), o teste utilizado pela médica Dagmara Paiva e outros cinco investigadores para avaliar o nível de literacia em saúde dos portugueses. Conclusão: estima-se que 73% da população portuguesa entre os 16 e os 79 anos não saiba responder correctamente a questões como estas e que, por isso, tenha dificuldade em aceder, compreender e utilizar informação sobre saúde.

A situação piora com a idade. E, como seria de esperar, quanto menor for o nível de escolaridade, menos competências. Dados: na população entre os 16 e os 44 anos, a proporção daqueles que mostram níveis de literacia inadequados oscila entre os 62% e os 65% (as estimativas têm um intervalo de confiança de 95%). Essa percentagem vai aumentando e, na faixa etária entre os 65 e 79 anos, corresponde a 94% da população. Quanto ao nível de escolaridade, entre os que têm menos do que o 4.º ano, 97,5% têm um nível de literacia em saúde inadequado. Já entre a população com pelo menos uma licenciatura completa essa proporção desce para 44,5%.

“Pessoas com mais de 64 anos têm 21% maior probabilidade de ter limitações do que quem tem menos de 25 anos”, detalha ainda o estudo publicado no final de 2017 na revista Acta Médica Portuguesa e que faz parte da tese de doutoramento que Dagmara Paiva apresentou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em Dezembro de 2018 (o foco principal da tese é a literacia nos cuidados aos doentes com diabetes tipo 2, mas a médica apresenta vários estudos de contexto). Já para quem tem um curso superior, a probabilidade de ter mais dificuldades em compreender conceitos sobre saúde é 50% inferior à de quem tem menos do que o 4.º ano. Não há diferenças de género.

Esta metodologia não avalia directamente a forma como os pacientes compreendem as informações que lhes são dadas em contexto clínico. Mas Dagmara Paiva explica que pode dar algumas pistas. “A penúltima pergunta do NVS é: ‘Suponha que é alérgico à penicilina, amendoins, látex e picadas de abelha. É seguro para si comer esse gelado?’. Aí a pessoa tem de conseguir perceber que um dos ingredientes do gelado é o amendoim e que não pode [comê-lo] e porquê. Dá para ter uma ideia de como é que são essas competências de uma pessoa em particular.”
O pequeno questionário foi aplicado em 2012 no âmbito de um inquérito nacional que tinha como objectivo perceber o grau de conhecimento da população sobre problemas como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, cancro e sobre comportamentos saudáveis. A amostra, representativa da população portuguesa, tinha 1624 pessoas. Entre os entrevistados, 79 não sabiam ler nem escrever, pelo que foram excluídos da análise. Sobram 1544 indivíduos na amostra final. Se a população que não sabe ler nem escrever fosse incluída nas estimativas nacionais então o nível de literacia inadequada em saúde seria ainda maior: 74,5%.

Portugal atrás de Espanha e da Holanda
A metodologia tem limitações. O NVS, explica-se no estudo, “foi desenhado para avaliar competências individuais de compreensão de leitura e cálculo, uma pequena parte do conceito de literacia em saúde”. Mesmo assim, não é por isso que os seus resultados são menos importantes. “A avaliação das habilidades numéricas dos pacientes pode ter um papel fundamental na melhoria do uso apropriado de medicamentos e na prevenção de erros de dosagem, alinhando-se aos objectivos do Programa Nacional de Educação para a Saúde, Literacia e Autocuidados.”

Além disso, outras mais-valias são o facto de já ter sido usado noutros contextos, correlacionar-se bem com instrumentos mais complexos, ser visto como algo “aceitável” pelos pacientes e permitir comparações internacionais.

Em 2011, o NVS já tinha sido aplicado noutros países, no âmbito do Inquérito Europeu de Literacia em Saúde. A Holanda, onde só 23,7% dos entrevistados revelaram ter literacia inadequada em saúde, teve a taxa de sucesso mais elevada. Por outro lado, Espanha, onde se estima que 63,1% da população tenha este tipo de limitações, foi o país com piores resultados na altura. “Dada a proximidade entre educação e a componente de numeracia na literacia para a saúde, os resultados [distintos entre países] podem ser explicados pelas diferenças na educação”, explica o estudo.

A prevalência da falta de literacia em saúde estimada no âmbito deste estudo é superior aos 49% que outro grupo de investigadores estimou em 2016. Dagmara Paiva e os restantes autores explicam esta diferença: com o NVS “a numeracia é analisada objectivamente e esta é uma competência crucial para lidar com as exigências complexas da doença crónica”. O trabalho de 2016 avaliava o grau de dificuldade do paciente em realizar tarefas associadas a cuidados de saúde. Mesmo assim, “são complementares”, diz Dagmara Paiva.

Ensinar os profissionais de saúde a comunicar
Uma coisa é certa: a literacia inadequada em saúde é um problema em Portugal. E se a longo prazo a forma de melhorá-la é através do investimento na educação dos cidadãos, no imediato, atenuar os seus efeitos pode passar por “melhorar as competências de comunicação dos profissionais de saúde”, defende Dagmara Paiva.

Outro dos trabalhos que integra a tese desta médica especialista em Medicina Geral e Familiar (são cinco no total) foca-se nos factores que facilitam e inibem a comunicação entre pacientes com diabetes tipo 2 e profissionais de saúde. E conclui que os doentes identificam a comunicação agressiva no consultório como uma “barreira à comunicação”, mas os profissionais encaram-na como um aspecto “facilitador” no sentido de apelar à mudança de comportamentos dos pacientes. O estudo baseia-se na entrevista a 33 utentes e a 12 profissionais de saúde.

“Não há nenhuma sociedade nem associação que dê recomendações para tratamento e gestão da diabetes tipo 2 que recomende comunicar de uma forma agressiva para assustar as pessoas. Todas as indicações são no sentido de usar técnicas de entrevista motivacional, ajudar os doentes a identificar as principais barreiras à mudança de comportamentos e, dentro do seu contexto de vida, tentar ajudá-los a decidir sobre as pequenas mudanças para melhorar a sua saúde”, nota Dagmara Paiva. Mesmo assim, “há muitos médicos” que utilizam a abordagem agressiva.

O problema está no ensino. “Na maioria das faculdades de medicina, o treino em comunicação ainda não faz parte do currículo [obrigatório]. É uma coisa que os próprios profissionais de saúde assumem que lhes faz falta”, nota a médica. “Os médicos passam seis anos na faculdade a aprender a falar ‘medicalês’ e aprendem cerca de seis mil termos novos diferentes. Quando acabam o curso já não sabem falar com as pessoas”, aponta. “As políticas de saúde têm mesmo de começar a investir nisso a sério.”