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1.8.23

Portugueses face à religião: católicos, mas pouco

Natália Faria, in Público online

Os portugueses habituaram-se a dizer de si próprios que são católicos: 80% declararam-se como tal nos Censos, mas os praticantes são uma minoria. Retrato de um país e da sua Igreja à beira da JMJ.

Se nos focarmos apenas nos números, a conclusão imediata será que a Igreja Católica em Portugal está bem de saúde e recomenda-se. Afinal, segundo os Censos de 2021, 80,2% da população portuguesa declara-se católica. E nem sequer se viu no mais recente recenseamento da população efeitos da propalada erosão da pertença católica, porquanto em 2011 a proporção dos que se declaravam católicos era de uns ligeiramente acima 81%. Mas os números também enganam e, como enfatizou ao PÚBLICO a teóloga Teresa Toldy, não é preciso deslocarmo-nos às igrejas cada vez mais vazias na hora da missa para percebermos tratar-se de um catolicismo herdado ou cultural.

“As pessoas dizem-se católicas, mas depois, quando vai ver quantas delas frequentam a igreja e cumprem os rituais e estão envolvidas em paróquias ou movimentos, observa uma disparidade brutal entre aquilo que se declara e o que se faz”, aponta a docente da Universidade Fernando Pessoa.

Pouco impressionada com o aparente fervor católico que reduz a 14% os portugueses que se declaram sem religião, ainda segundo os últimos Censos, Teresa Toldy recorda outros estudos que denotam a pouca correspondência entre a autodesignação como católico e o quotidiano concreto das pessoas. “Num estudo em que se perguntava, por exemplo, se consideravam que o facto de serem católicas tinha alguma coisa que ver com o pagamento de impostos, as pessoas respondiam maioritariamente que não”, descreve a teóloga. E conclui de forma lapidar: “A esmagadora maioria dos que se dizem católicos em Portugal não conhece sequer a doutrina social da Igreja.”




A discrepância entre o que se diz e o que se faz está também patente no estudo que, em Julho, o Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa (UCP) apresentou e que concluía que 56% dos jovens entre os 14 e os 30 anos de idade se dizem religiosos (católicos, maioritariamente), mas apenas um terço são praticantes, numa dissonância justificada maioritariamente pela discordância face a normas da prática religiosa. Fará sentido recordar aqui que, no ano passado, 60,2% dos bebés nasceram fora do casamento – 16,9% sem coabitação dos pais –, o que ilustra bem a perda de influência da Igreja enquanto instância norteadora dos comportamentos, nomeadamente ao nível da moral sexual e familiar.

Voltando aos Censos, os 80% de católicos ali apontados não andam também distantes dos 79,5% católicos que tinham sido referenciados em 2011, num estudo sobre identidades religiosas em Portugal feito pelo Centro de Estudos de Religiões e Culturas da UCP, a pedido da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Em 1999, um estudo similar fixava em 86,9% a proporção de católicos na sociedade portuguesa e, concomitantemente, a percentagem de pessoas sem qualquer religião tinha aumentado de 8,2% para 14,2%, entre 1999 e 2011.

Em 2018, um estudo similar, mas circunscrito à Área Metropolitana de Lisboa (AML), reduzia os católicos a 54,9% dos inquiridos, numa quebra da hegemonia católica decorrente da estabilização das minorias religiosas, como os budistas e os muçulmanos, mas que dificilmente é extrapolável para outras zonas do país – à excepção talvez do Algarve – por se tratar de um fenómeno que acompanha a população imigrante em redor da capital do país. Seja como for, na AML os crentes sem religião tinham aumentado para os 13,1%, muito acima dos 4,6% apontados no referido estudo nacional de 2011.

Em Portugal, descontada a emotividade inicial que levou alguns católicos a requererem a desvinculação formal da Igreja pelo modo como o clero se comportou face ao flagelo dos abusos sexuais, não existem estudos que permitam medir o impacto que a divulgação do relatório Dar Voz ao Silêncio teve, entretanto, no sentido de pertença católica. Uma sondagem de Julho do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1 mostrou que 68% dos inquiridos acreditam que a imagem da Igreja piorou no último ano, sem permitir, contudo, grandes extrapolações.

Mas pode-se admitir, como faz o antropólogo Alfredo Teixeira, em entrevista ao PÚBLICO publicada no passado domingo, que a estimativa de que pelo menos 4815 crianças foram alvo de abusos às mãos do clero português entre 1950 e a actualidade teve um duplo efeito. “É expectável que as pessoas mais distanciadas reforcem o seu descrédito face instituição”, começou por dizer aquele investigador, para concluir que “no universo dos católicos mais empenhados, ou dos católicos mais próximos das dinâmicas comunitárias e institucionais, o acontecimento foi sobretudo aproveitado para introduzir na própria Igreja uma pressão para a mudança”.

Essa reivindicação de uma Igreja mais próxima da abertura preconizada pelo Papa Francisco está bem patente na síntese que o presidente da CEP, D. José Ornelas, levou, em Fevereiro, à assembleia continental europeia do sínodo dos bispos e onde os católicos portugueses reclamaram uma Igreja mais capaz de acolher os novos figurinos familiares, de garantir a participação das mulheres em “igualdade de oportunidades”, de ponderar a ordenação de homens casados e de adaptar a linguagem litúrgica aos tempos actuais, entre outras mudanças.

Mas o presidente da CEP “não é o chefe dos bispos portugueses”, como recorda Teresa Toldy. E entre estes não faltou quem apontasse como pouco fidedigno o tom progressista das conclusões levadas por D. José Ornelas a Praga, na República Checa. É que, “tal como na insistência em desocultar a dimensão dos abusos sexuais, o presidente da CEP tende a estar pouco acompanhado no seu esforço de mudança”, considera a teóloga, cuja esperança reside na expectável renovação dos bispos à frente das dioceses. “Vários dos actuais bispos estão a atingir o limite de idade e, portanto, vão ter de sair. E o que se espera é que os novos bispos que venham a ser nomeados sejam mais abertos e que deles possa advir um maior apoio ao esforço de renovação”, acrescenta.

Além de Setúbal, que aguarda há mais de um ano e meio pela nomeação de um novo bispo, as dioceses de Guarda e Beja também vão ficar sem bispo, no primeiro caso porque D. Manuel Felício já completou 75 anos e pediu a resignação e, no segundo, porque D. João Marcos tem problemas de saúde. O cardeal-patriarca D. Manuel Clemente deverá ser substituído ainda este ano e os bispos Antonino Dias (Portalegre) e Manuel Quintas (Algarve) atingirão igualmente a idade máxima que os obriga a pedir a resignação – 75 anos – este ano e no início do próximo.
JMJ não pode ser “esponja”

Enquanto estas mudanças não ocorrem, recupere-se o que dizia o relatório da comissão liderada por Pedro Strecht sobre os bispos que compõem a elite da Igreja Católica portuguesa: são um corpo envelhecido – a média etária é de 67 anos –, com origens humildes e rurais, provenientes quase todos de “famílias tradicionais com princípios morais vigorosos”. Na maior parte dos casos, a descolagem do meio social de origem fez-se por via da entrada precoce no seminário, onde cresceram sob o jugo de uma disciplina rígida imposta por uma hierarquia muito vincada e fechados ao exterior, ainda segundo o relatório.

“Isto ajudará a explicar que tantos dos bispos portugueses vivam um bocadinho fora do mundo e com dificuldades em ouvir os outros. Aliás, um dos aspectos que me parecem graves no funcionamento da Igreja portuguesa é a dificuldade que muitas pessoas sentem em falar com o seu bispo, em fazerem-se ouvir, muito por causa desta ideia de que o clero tem de ensinar o povo”, lamenta Toldy.

Um clero cada vez mais rarefeito e envelhecido e uma dinâmica pastoral estagnada são outros dos “pecados” que Teresa Toldy aponta à Igreja Católica portuguesa. Diz-se esperançada que, daqui a alguns meses, não seja forçada a acrescentar um outro pecado a esta lista: “Espero que a JMJ não seja entendida pela Igreja Católica em Portugal como uma espécie de passar de esponja sobre um ano terrível e sirva de desculpa para se deixar de falar dos abusos sexuais.”

25.7.23

Hoje faço sessenta aninhos

Miguel Esteves Cardoso, crónica, in Público


Como hoje faço 68 anos, acho-me no direito de me queixar do excepcionalismo a que tenho sido votado ao longo da vida.


O meu pai toda a vida se divertiu a procurar – e a não encontrar – um português típico. Fisicamente português só encontrou um, nosso amigo de infância que depois escolheu como cardiologista.


Espiritualmente português é que não havia ninguém – só ele. Claro, porque isso até é uma definição do português espiritualmente português: não haver mais ninguém. Só nessa solidão é que se consegue ser verdadeiramente tuga.


Os portugueses são especialistas no excepcionalismo, tornando cada pessoa uma excepção. Se alguém diz que não gosta de torresmos, contra-atacam logo "isso és tu, que és de Braga", ou "isso és tu, que és esquisito", ou "isso és tu, que não sabes o que dizes".


A síndrome Isso És Tu (IET) estraga todas as discussões. Os ingleses têm o "and yet..." para poderem desdizer tudo. Digo que gosto de torresmos e o céptico do inglês diz "e no entanto...", obrigando-me a confessar que sim, que, se calhar, não gostava de ver como é feito.

Como hoje faço 68 anos, acho-me no direito de me queixar do excepcionalismo a que tenho sido votado ao longo da vida. A mim dizem-me sempre "isso és tu que és meio-inglês" ou "isso és tu que viveste muito tempo lá fora".

O último que me disse isso – "tu não contas, porque és mais estrangeiro do que português" – tinha 42 anos, com três deles passados nos EUA a estudar.

Eu bem lhe disse que dos meus 68 anos só passei seis deles fora de Portugal, vá lá, oito com todos os estudos e todas as viagens. Isso significa que tenho 60 anos inteiros de Portugal, dia e noite, Verão e Inverno. Ele só tem 39. Mas acha-se no direito de me pôr de parte.

"Ah, mas és meio-inglês." Mas o meu avô português era anglófilo e o meu pai também, até porque se licenciou na Inglaterra, antes de ter conhecido a minha mãe. É muito português gostar muito da França ou da Inglaterra ou doutro país qualquer por quem se tenha consideração.



A verdade é que ninguém é cem por cento português.

Até tem mais graça ser-se só um bocadinho.

O autor é colunista do PÚBLICO

[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

15.6.23

Um chaço em contramão na autoestrada do futuro

Joana Petiz, opinião, in Dinheiro Vivo

As empresas são, e bem, as primeiras responsáveis pela criação de riqueza e de emprego no país. Dos 4,6 milhões de portugueses a trabalhar, apenas 741 mil são funcionários públicos - e vale a pena registar que entre estes a idade média está quatro anos acima da que se regista no privado, roçando já os 48 anos; idade média, repito. O Estado tem pouco lugar para jovens. E se o envelhecimento justifica um nível salarial superior no setor público (dados do INE), é no privado que se regista uma maior evolução nas remunerações, com o crescimento dos gastos com pessoal a subir perto de 9% em 2021 (últimos dados) e a força de trabalho das empresas a conseguir, apesar de tudo, um aumento de rendimento de 0,3% no ano da inflação galopante, enquanto os funcionários do Estado perderam poder de compra (-2,5%).

É também ao setor privado que se atribui quase todo o bolo do investimento feito num país em que os gastos públicos servem cada vez mais apenas para apagar os fogos provocados precisamente pela falta de investimento público (cujo peso caiu para metade do que era há uma década).

É ainda com as empresas que está a bandeira das correntes transformações profundas em que as economias europeias embarcaram, puxando pelo país quer na descarbonização quer no que respeita à transformação digital. E são elas que têm liderado os processos de inovação e os impulsos de formação profissional para que se adapte a crescentemente minguada força de trabalho portuguesa às exigências e desafios destes tempos.

Apesar de terem de mover montanhas burocráticas e constantemente integrar nas suas atividades os requisitos de leis pop up, as empresas portuguesas mantêm-se animadas e focadas no crescimento. E mesmo sabendo que isso significa sobrealimentar a voracidade de um Estado obeso, vão-se sujeitando ao assalto fiscal porque sabem que é fundamental subir salários, conseguir melhores negócios e resultados e percorrer mais quilómetros, mais depressa, na autoestrada da internacionalização. Mesmo partindo de trás na competitividade e sobrecarregadas de custos de contexto, as nossas empresas conseguem chegar muito longe. E pelo caminho vão lutando por manter a funcionar o elevador social cujas engrenagens estão cada vez mais enferrujadas pelo desgaste da falta de atenção pública.

Mesmo na educação e na saúde, à custa de sacrifícios e de seguros a população vai-se transferindo para soluções alternativas a um serviço público doente, contagiado pelo vírus ideológico. Em vez de empurrar quem quer chegar mais longe, na última década o Estado fez-se um imenso elefante branco, caro e bastante inútil.

Num país em que as políticas públicas são uma miragem esculpida a demagogia e incompetência, o Estado Social tem-se vindo a despir de responsabilidades, assumindo hoje quase nada mais do que o pagamento de pensões - a maioria delas miseráveis - e prestações sociais a quem não sobreviveria sem elas. O papel do próprio Estado, vem-se centrando na recolha de impostos que lhe permitam manter as suas funções - na Educação, na Saúde, na Previdência - ligadas às máquinas e atirar dinheiro para cima dos problemas que cria ou não resolve.

Não há projetos de fundo para mudar a realidade do país. Não há planeamento de reformas que retirem obstáculos do caminho das empresas e aliviem a vida das famílias. Não há medidas que promovam uma inversão da desgraça demográfica e do incentivo à fuga de talentos. Não há simplificação ou desoneração legal e fiscal. Não há capacidade de escutar para construir sobre bases firmes. Não há vontade de ser vento que encha as velas da livre iniciativa, da ambição, da criação de riqueza, da melhoria da produtividade, da garantia de condições capazes de levar Portugal ao caminho do sucesso. Não há investimento, não há aeroporto em Lisboa, não há ligação ferroviária competente à Europa, não há agilização de licenciamentos, não há atração de investimento.

E a culpa é de quem vai ao volante, um governo esvaziado de responsabilidade e de ímpeto reformista, sem capacidade (ou vontade) de negociar soluções para além dos ciclos eleitorais, que resultem num país melhor e mais preparado para o futuro que enfrenta. E que nos vai ceifando como um velho chaço em contramão na autoestrada em que devíamos estar a ganhar velocidade.

11.5.23

Libertados 15 portugueses vítimas de tráfico humano. Dois portugueses em prisão preventiva

in Público online

Investigação no País Basco permitiu à PJ identificar 15 vítimas portuguesas, levadas de zonas rurais do Norte do país e exploradas. Os detidos têm antecedentes pelo mesmo crime.

A Polícia Judiciária (PJ) anunciou esta quarta-feira a detenção de dois cidadãos portugueses, de 36 e 42 anos, indiciados de traficar pessoas de zonas rurais do Norte de Portugal.

Em nota enviada ao PÚBLICO, a PJ informou que a Operação Worker, iniciada a 4 de Maio no País Basco, em Espanha, resultou da colaboração da Directoria do Norte com a Guardia Civil de Alava.

Da investigação resultou "o desmantelamento de um grupo criminoso e a libertação de 15 cidadãos portugueses" que se encontravam em "escravatura moderna".

De acordo com a PJ, as vítimas foram "captadas" e transportadas para locais onde trabalhavam 12 horas todos os dias, sob "ameaças permanentes". Além de residirem em "casas velhas", sem condições de segurança e higiene, estas pessoas foram privadas de receber apoio familiar e expostas a um "estado de total vulnerabilidade".

Antes de regressarem a Portugal, os 15 cidadãos identificados pela Polícia Judiciária foram acolhidos por instituições espanholas.

Os detidos residem em Espanha e já contavam com antecedentes criminais por tráfico de seres humanos. Depois de presentes às autoridades judiciais espanholas, foi determinada prisão preventiva para os dois portugueses.

27.3.23

Os portugueses estão mais infelizes, indica o relatório da felicidade mundial


Portugal caiu do 34º lugar, entre os países mais felizes do mundo, em 2019, para o 56.º, quando feita uma média dos últimos três anos. Os mais felizes continuam a ser os finlandeses.

A Finlândia permanece como líder incontestada dos países mais felizes do mundo, segundo o último Relatório Anual da Felicidade Mundial, que classifica a felicidade global em mais de 150 países em todo o mundo e que, desta vez, reflecte a felicidade no período entre 2020 e 2022, precisamente os anos mais duros da pandemia de covid-19. Portugal, tal como no ano passado, mantém o 56.º posto, sobretudo por causa de uma fraca generosidade e pela crescente percepção de corrupção, conclui o documento.

Tendo por base seis áreas-chave — rendimento, apoio social, esperança de vida com saúde, liberdade, generosidade e percepção de corrupção —, as conclusões derivam dos dados recolhidos através das sondagens Gallup World para a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas nos últimos três anos, em que os países do Norte da Europa se destacam pela positiva: atrás da líder Finlândia, surge a Dinamarca, em segundo lugar, e a Islândia, em terceiro.

Em qualquer um dos casos, mas sobretudo na Finlândia, destaca-se a capacidade do sistema de bem-estar para ajudar os seus cidadãos a sentirem-se bem tratados, enquanto o planeamento urbano e a preocupação das políticas nacionais com o ambiente promovem sensações de segurança e confiança. "Os países nórdicos merecem especial atenção à luz dos seus níveis geralmente elevados de confiança tanto pessoal como institucional", lê-se no relatório, disponível em pdf.

O estudo avalia ainda que os efeitos da pandemia terão sido uma das razões para que os três países tenham mantido o pódio. "Tiveram também taxas de mortalidade de covid-19 de apenas um terço quando comparadas às mais altas da Europa Ocidental em 2020 e 2021: 27 por 100 mil habitantes nos países nórdicos, em comparação com 80 no resto da Europa Ocidental."

A excepção do Norte da Europa foi para a Suécia, que optou por distintas políticas de contenção da pandemia, resultando numa taxa de mortalidade superior aos países vizinhos, mas, ainda assim, isso não se reflectiu na felicidade dos suecos, que seguraram o sexto lugar, um degrau acima dos resultados revelados em 2019.​

O top-10 é sobretudo composto por países europeus (Países Baixos é 5.º; Suécia, 6.º; Noruega, 7.º; Suíça, 8.º; Luxemburgo, 9.º), mas há duas excepções: Israel, que roubou o quarto lugar à Suíça, e a Nova Zelândia, que fecha a lista dos dez países mais felizes do mundo.

Já os países mais infelizes do mundo, de acordo com os dados recolhidos entre 2020 e 2022, são liderados pelo Afeganistão; em 2019, o país conseguia um índice melhor de felicidade do que o Sudão do Sul e a República Centro Africana, mas estes países não constam do relatório actual. O top-10 da infelicidade completa-se com Líbano, Serra Leoa, Zimbabwe, Congo, Botswana, Malawi, Comores, Tanzânia e Zâmbia.

20.7.22

Os portugueses gastam mais em raspadinhas do que em seguros de saúde

Henrique Raposo, opinião,  in Expresso 

https://expresso.pt/opiniao/2022-07-20-Os-portugueses-gastam-mais-em-raspadinhas-do-que-em-seguros-de-saude-b580ac3e



Os portugueses, enquanto povo, gastam mais em raspadinhas do que em seguros de saúde. Como é que se governa um país com este nível de irracionalidade? Quantos seguros de saúde, quantas propinas de colégios ou faculdade, quantas bilhas de gás para os dias frios, quantas refeições saudáveis não estão naqueles 1718 milhões queimados na raspadinha pelos mais pobres?



Estado da nação? Claro que muito do que está errado parte da governação socialista, que tem sido dominante desde 1995. Há uma ideia de Estado e de sociedade – a ideia socialista – que está na base da nossa decadência e do constante empobrecimento neste século. É o socialismo que cria os tais “problemas estruturais” que o PS não resolve porque a sua solução implica a negação do PS. Mas há outro tipo de problemas, problemas orgânicos, culturais, que estão na mentalidade dos portugueses – uma mentalidade de pobreza que cria ainda mais pobreza.






A raspadinha é uma doença social e económica neste país porque vicia os pobres num nível de jogo sem precedentes. A Dona Maria não vai ao casino ou a uma sala de batota jogar com os homens, mas vai à papelaria ou ao café torrar a reforma em raspadinhas. O caso está amplamente estudado e é de facto uma vergonha que a Santa Casa e o Estado usem a psique da pobreza que procura estímulos imediatos que dão conforto, daí a relação entre pobreza e obesidade, daí a relação entre pobreza e aquele gesto frenético de raspar a raspadinha. Seja como for, com ou sem psique da pobreza que debilita o livre arbítrio e a racionalidade das escolhas, o certo é que os portugueses gastam milhões em raspadinhas. Em 2020, gastaram 4,7 milhões de euros por dia em raspadinhas, o que dá o incrível valor de mil milhões e setecentos e dezoito milhões. Para termos a noção desta irracionalidade dos mais pobres (que devia ser mitigada e não explorada), convém registar que os portugueses gastam mil milhões em seguros de saúde privados.

Ou seja, os portugueses, enquanto povo, gastam mais em raspadinhas do que em seguros de saúde. Como é que se governa um país com este nível de irracionalidade? Quantos seguros de saúde, quantas propinas de colégios ou faculdade, quantas bilhas de gás para os dias frios, quantas refeições saudáveis não estão naqueles 1718 milhões queimados na raspadinha pelos mais pobres? Pior: como é que o Estado e a Santa Casa exploram esta irracionalidade em vez de a travar?

Claro que estamos a falar de dois agregados populacionais diferentes. Os seguros de saúde pertencem à classe média que consegue pensar racionalmente a sua vida; o grupo da raspadinha representa a pobreza sem qualquer esperança e mergulhada naquele vórtice da miséria. E este é talvez o grande problema: o socialismo que nos apascenta tem criado pobreza, empobrecimento e sobretudo esta cultura de desesperança nos mais pobres, que acabam por ter no gesto de raspar a raspadinha a sua grande esperança de um futuro melhor.

5.7.22

Portugueses são os segundos da UE a sentir mais as consequências económicas da guerra

Diogo Queiroz de Andrade, in Expresso


Um Eurobarómetro especial mostra que Portugal é o segundo país onde mais se sentem as consequências económicas da guerra na Ucrânia, que a maioria dos europeus diz ainda não sentir. E só 49% assumem que a defesa da democracia e da liberdade tenha prioridade face à manutenção do nível de vida - contra 59% dos europeus

Os resultados revelam que, em geral, os portugueses estão mais preocupados com as consequências da guerra e consideram-se menos preparados que a média europeia. E os números também demonstram de forma bastante clara que os portugueses já estão a sentir o impacto no nível de vida, aumentando o seu pessimismo face ao futuro: 57% dos portugueses dizem já ter sentido os efeitos da guerra, contra apenas 40% dos europeus que dizem já ter sentido os efeitos.

E as consequências começam já a fazer-se sentir de uma forma mais profunda. À pergunta sobre se é mais importante defender os valores europeus ou manter o nível de vida, os portugueses distanciam-se novamente dos europeus: enquanto 59% dos europeus querem que a defesa da democracia e da liberdade tenham prioridade, apenas 49% de portugueses defendem o mesmo. E, quando perguntados sobre se a manutenção dos preços e do custo de vida deve ser uma prioridade mesmo que ponha em causa os valores comuns, 45% dos portugueses já concordam, contra 39% da média europeia.

E as preocupações nacionais ficam mais uma vez claras quando se lhes é perguntado quais devem ser as prioridades do Parlamento Europeu. Para os portugueses, a prioridade absoluta deve ser a luta contra a pobreza (66% contra uma média europeia de 37%), a defesa da saúde pública (53% contra 35%) e o apoio à economia e à criação de emprego (52% contra 30%). Henrique Burnay, consultor em assuntos europeus, refere que "estes resultados mostram que temos a perceção de que somos um país pobre, e que estamos mais preocupados do que esperançosos, o que não surpreende." E nota que o processo não está confinado a Portugal e “vai alastrar para o resto da Europa”, sendo que isso levanta outra questão, "que se prende com os instrumentos que serão usados para combater a crise, que podem agravar as assimetrias que já existem."

A imagem do Parlamento Europeu tem mais 3 pontos percentuais de perceção positiva do que no ano passado, sendo Portugal o terceiro país que tem melhor imagem da instituição - só atrás da Irlanda e de Malta. Outro aspeto interessante: a percentagem de portugueses que tem uma opinião positiva sobre a Rússia é 2%, muito menor do que a média europeia de 10%. A isto Burnay responde que "para um país que está geograficamente distante da guerra, mostra que os portugueses percebem o que está a acontecer e que tratam o assunto com a dignidade que ele merece. Em momentos de crise, as pessoas percebem que a Europa é importante e que é nela que estará a solução para os problemas."

Este Eurobarómetro é um especial do Parlamento Europeu na Primavera e é a primeira avaliação ponderada do sentimento dos Europeus face à guerra e aos sinais da crise económica que se instala em alguns setores. As entrevistas foram realizadas entre 19 de abril e 16 de maio, tendo sido recolhidos resultados de 26.580 europeus (entre os quais 1.006 portugueses).

Os resultados do Eurobarómetro especial do Parlamento Europeu revelam que os portugueses são dos primeiros a sentir as consequências da guerra e que, em consequência, se estão a distanciar dos restantes europeus no que toca às prioridades a considerar. Para os portugueses, dada a degradação económica, é mais importante proteger a qualidade de vida do que a promoção dos valores da democracia e da liberdade.

3.5.22

Portugueses sentem perda no poder de compra e estão mais pessimistas

Rafael Barbosa, in DN

Maioria (52%) concorda com decisão da NATO de não intervir diretamente na guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

São cada vez mais os portugueses que sentem os efeitos da guerra na Ucrânia (76%), em particular na perda de poder de compra. De acordo com uma sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF, cresceu o pessimismo quanto à duração do conflito, mas a maioria concorda com a decisão da NATO de não intervir diretamente (52%). A confiança na aliança militar ocidental está a encolher e a capacidade de resolução do conflito por parte dos líderes europeus merece pouco crédito.

Ficou claro, logo no início da invasão russa à Ucrânia, que os países ocidentais não iriam intervir diretamente no conflito. Nomeadamente atrás do seu braço armado comum, a NATO. E há uma maioria clara de portugueses (52%) que concorda com esse rumo - apenas 27% discordam, o que indicia que preferiam uma ação mais musculada. Há um mês, a divisão sobre este tema era a norma (ainda que a pergunta fosse diferente): 38% diziam "sim" a uma intervenção direta da NATO, 42% rejeitavam essa possibilidade. Também por isso, são agora menos os que defendem o envio de tropas portuguesas, no caso de um envolvimento direto da NATO (20% do total da amostra, face aos 30% de março passado).

Também ao contrário do que acontecia há um mês, já não existe um cisma geracional. Nessa altura, os dois primeiros escalões etários adotavam uma postura mais belicista. Agora, seja entre os mais novos, seja entre os mais velhos, são sempre em maior número os que dizem concordar com a decisão da NATO de não intervir diretamente na guerra. O único caso em que se mantém a divisão é entre os habitantes da Região Norte (36% concordam com a política de não intervenção, 35% discordam).

Menor confiança na NATO

Diferente é também o resultado da pergunta sobre o grau de confiança dos portugueses na NATO. Se, em março, havia 63% que diziam que a confiança era grande, agora são apenas 43% (mais de um terço refugia-se numa resposta neutra). Ainda assim, a Aliança Atlântica merece mais crédito que os líderes europeus. São mais os que desconfiam da sua capacidade para resolver o conflito (29%) do que os que acreditam que os políticos conseguirão encontrar um caminho para a paz (24%), qualquer que ele seja. Exceções à regra: os que vivem na Região Norte e os mais pobres.

Se os portugueses não confiam que se encontre uma solução, é natural que estejam também pessimistas quanto à duração do conflito, pelo menos quando se faz a comparação com as respostas do mês passado. Já não há ninguém que acredite que a guerra só vai durar mais um mês (em março eram 13%); um terço aponta para mais três a seis meses (o mesmo resultado que há um mês); e metade para mais de seis meses (29% na sondagem anterior).

Idosos e pobres

Com dois meses de guerra (o trabalho de campo decorreu entre 12 e 18 de abril), cada vez mais os portugueses dizem sentir os seus efeitos: são agora 76% (mais 17 pontos percentuais do que em março passado). Mas há ainda um quarto da população que não nota diferenças (e em particular na Área Metropolitana do Porto, em que esta fatia chega aos 34%).


Quando se pergunta em concreto em que medida a vida das pessoas se alterou desde que começou o conflito, a esmagadora maioria responde que o seu poder de compra diminuiu (70%), com destaque para os dois escalões mais velhos e para os mais pobres. De uma lista de seis possíveis impactos, o segundo mais citado foi o facto de terem deixado de comprar alguns produtos e bens (17%).

25.2.22

Saúde dos portugueses agrava-se em 2021

Hermana Cruz, in JN

No ano passado, um terço da população portuguesa queixou-se de limitações na realização de tarefas devido a problemas de saúde. É o valor mais elevado desde 2016. E quase metade dos portugueses reportou sofrer de uma doença crónica. Situações que afetaram sobretudo as mulheres e os idosos, sendo justificadas por dificuldades financeiras.

Os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que, em 2021, verificou-se um agravamento da situação de saúde dos portugueses em vários domínios, como a situação de doença ou o acesso a cuidados médicos.

Segundo revelou esta sexta-feira o INE, o ano passado 34,9% da população com 16 ou mais anos disse ter alguma limitação na realização de atividades devido a problemas de saúde. Desses 9,6% reportou um grau de limitação severo.

"Os dois indicadores registaram um acréscimo em relação aos anos anteriores, atingindo em ambos os casos as proporções mais elevadas desde 2016", sublinha o INE, especificando que a situação afetou sobretudo as mulheres (39%) e a população idosa (60,8%).

No Inquérito às Condições de Vida e Rendimento 2020-2021, o INE apurou também que 43,9% da população sofria de alguma doença crónica no ano passado. "A prevalência de doença crónica ou de problema de saúde prolongados (ou seja, que dura ou que possa vir a durar pelo menos seis meses) afetou 43,9% da população com mais de 16 anos em 2021, mais 0,7% do que em 2020 e mais 2,7% do que em 2019", acrescenta o INE, sublinhando que, mais uma vez, a situação afeta particularmente as mulheres (47%) e as pessoas idosas (71,4%).

"Por nível de escolaridade, a prevalência de doenças crónicas ou de problemas de saúde prolongados afetou 80,1% da população sem qualquer nível de escolaridade", especifica o INE, no referido inquérito.

Segundo o INE, os resultados recolhidos em 2021 permitem ainda concluir que 5,7% das pessoas com 16 ou mais anos não puderam satisfazer as necessidades de cuidados médicos. Trata-se "do segundo ano consecutivo em que se verificou o aumento do indicador, em sentido contrário à tendência de declínio que se verificava desde 2015", revela-se no estudo, onde se vinca que 30% das pessoas que não conseguiram aceder a cuidados médicos apresentou a falta de disponibilidade financeira como principal motivo.

No inquérito apurou-se ainda que 13,1% dos portugueses não conseguiram ter acesso a necessidades de cuidados dentários, "mais 1,4% do que em 2020". Também aqui "o principal motivo apontado para essa situação foi a falta de disponibilidade financeira, representando quase 70% dos casos em 2021".

Além disso, mais de um quarto da população (26,6%) referiu efeitos negativos na sua saúde mental devido à pandemia Covid-19. "Essa situação foi referida mais por mulheres (30,2%) do que homens (22,4%) e em proporções bastante semelhantes na população com menos de 65 anos (26,8%)", especifica o INE.

14.9.21

Esforço financeiro dos portugueses é o sétimo maior na OCDE

Ana Batalha Oliveira, in Expresso

Portugal é um dos dez países em que os cidadãos sentem as finanças mais apertadas, dentro da OCDE. Ainda assim, num estudo da plataforma Compare The Market, Portugal está em melhor posição que Espanha

Portugal é o sétimo país onde o esforço financeiro dos cidadãos é maior, comparado aos restantes países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), aponta um estudo do portal Compare The Market.

"Desde uma pessoa assegurar que tem dinheiro suficiente para pagar as contas, cobrir o custo de vida e até garantir que tem um emprego, o dinheiro pode ser um dos maiores fatores de stress. Mas que países têm o pior cenário?", introduz a Compare the Market, uma plataforma que se dedica a comparar o valor associado a seguros, viagens, energia, e outras opções do dia-a-dia.

Para colocar Portugal em sétimo lugar, foram considerados cinco fatores, pelos quais foi comparado com os restantes 34 países. Por cá, o salário médio considerado foram os 981 dólares (829 euros), uma taxa de desemprego de 7,2%, um preço médio por metro quadrado de 2.549 dólares, rendas em torno dos 1.019 dólares e um custo de vida de cerca de 2.223 dólares.

Costa Rica, Colômbia e Grécia foram eleitos os três países mais pressionados financeiramente. Com um maior aperto que Portugal aparecem ainda o Chile, a Turquia e finalmente a vizinha Espanha, que ficou no sexto lugar.

No extremo oposto ficou a Austrália, o país onde o esforço financeiro é mais pequeno dentro da OCDE, seguida da Dinamarca e finalmente da Alemanha. A Austrália, a mais bem classificada, conseguiu uma pontuação de 3,75, que compara aos 6,70 da Costa Rica e aos 5,77 de Portugal.



14.6.21

O QUE PENSAM OS PORTUGUESES? Ciganos, alcoólicos e toxicodependentes são os grupos mais indesejados

Texto Hélder Gomes, Infografia Jaime Figueiredo, in Expresso

Percentagem de portugueses que não gostariam de os ter como vizinhos é três vezes maior do que outros grupos

Os ciganos estão praticamente a par com os alcoólicos e os toxicodependentes como os grupos de pessoas que os portugueses não gostariam de ter como vizinhos. Segundo o estudo “Os valores dos portugueses”, da Fundação Calouste Gulbenkian, estes três grupos destacam-se bastante dos restantes cinco grupos considerados. A distância social desejada pelos portugueses relativamente a ciganos, alcoólicos e toxicodependentes é cerca do triplo da registada em relação a judeus, muçulmanos e homossexuais. As pessoas percecionadas como pertencentes a outra ‘raça’ e os trabalhadores imigrantes estão no fim da tabela, com 13% dos portugueses a não os desejarem como vizinhos.

Alice Ramos, que assina o estudo com Pedro Magalhães, avança com uma explicação para a tão grande discrepância entre os ciganos e os outros grupos. “Os ciganos não têm qualquer norma que os proteja. O movimento antirracismo não chegou aos ciganos, que continuam a não ser vistos como pessoas, antes como um grupo em que todos os indivíduos têm exatamente as mesmas características: são criminosos, arruaceiros e aldrabões”, diz a investigadora ao Expresso. Sendo assim, estar perto de ciganos significa estar perto de “problemas, desacatos e violência”. Ao dizerem isto, os portugueses sentem que não estão a ser “racistas ou preconceituosos” nem estão a usar “estereótipos”, sentem que estão “a dizer a verdade” e aquilo que “as pessoas pensam”.

Este retrato ajuda a explicar a performance eleitoral de André Ventura nas presidenciais de janeiro nos concelhos onde os ciganos estão mais presentes ou têm mais visibilidade, sustenta ainda. O discurso contra os ciganos é também uma das razões da adesão à narrativa do Chega, partido que “faz o pleno” ao atacar imigrantes, negros, ciganos — enfim o outro, aquele que não está entre os ‘portugueses de bem’. É “chocante” ver os ciganos entre os alcoólicos e os toxicodependentes como os vizinhos mais indesejados, descreve Alice Ramos. “É o mesmo princípio que está na base do racismo: uma pessoa é vista como pertencendo a uma determinada raça, logo são todas iguais e não há diferenciação entre as pessoas”, acrescenta.

Os negros e os imigrantes já são enquadrados segundo “a norma do antirracismo”, ainda que muitos dos inquiridos possam ser preconceituosos e racistas no seu quotidiano. Como existe aquela norma, os portugueses podem não designar maciçamente estes dois grupos como vizinhos indesejados por considerarem que “é assim que devem responder, é isto que a sociedade espera deles, é o que faz deles bons cidadãos, é o que mostra que não são racistas”. Os ciganos continuam “à margem disto tudo”, insiste a investigadora. No conjunto dos 34 países estudados, os alcoólicos e os toxicodependentes são os grupos que recebem maior rejeição, enquanto os ciganos são referidos por 8% dos albaneses e 75% dos italianos.

De acordo com o estudo, os portugueses vêm revelando uma abertura crescente à presença e à importância dos imigrantes para o desenvolvimento do país. Ainda assim, continua a haver uma proporção significativa de inquiridos que consideram que os imigrantes ‘tiram trabalho aos nacionais’, ‘contribuem para o aumento do crime’ e ‘são um peso para a Segurança Social’. Questionados sobre a quem (nacionais ou imigrantes) deve ser dada prioridade quando os empregos são poucos, os portugueses figuram entre os mais equitativos. “Esta atitude constitui uma singularidade quando comparada com outras, ao colocar Portugal perto dos países da Europa Ocidental e do Norte”, concluem os investigadores.

“SISTEMATICAMENTE DE PÉ ATRÁS”

Quanto aos restantes indicadores, a família é a esfera de vida mais importante para 88% dos inquiridos (em 1990 era-o para 65%), estando a política reduzida a 8%, que a classificam como ‘muito importante’. Quase metade dos portugueses considera ‘certo’ que a mulher trabalhe mas diz que ‘o que a maior parte das mulheres realmente quer é um lar e filhos’ ou que ‘quando a mãe tem atividade profissional os filhos são prejudicados’. Fora do universo familiar, apenas uma minoria defende que ‘quando os empregos são poucos, os homens têm mais direito ao trabalho do que as mulheres’ ou que ‘os homens dão melhores líderes políticos do que as mulheres’.

As boas maneiras e o sentido de responsabilidade são os valores de eleição que os portugueses ensinam em casa às crianças, assumindo a imaginação e a fé religiosa menor relevância. Nos últimos 30 anos tem-se registado uma maior abertura à eutanásia, enquanto a baixa aceitação do aborto se mantém praticamente igual. No capítulo da cultura cívica, os portugueses mostram-se cada vez menos tolerantes relativamente a práticas como a fuga aos impostos, a reivindicação de benefícios a que não se tem direito ou a aceitação de subornos. Mas os portugueses continuam a figurar entre as populações europeias que menos confiança têm nos seus concidadãos: apenas 17% afirmam que se pode confiar na maioria das pessoas.

“Os portugueses têm sistematicamente o pé atrás em relação aos seus pares. Penso que isto ainda é o lastro dos 48 anos de ditadura”, diz Alice Ramos. “Se formos tentar encontrar explicações em orientação ideológica de esquerda/direita, não há. É verdade que os mais velhos e as pessoas com menos instrução são tendencialmente mais desconfiados, mas as discrepâncias [em idade ou instrução] são poucas”, reforça a investigadora.

A participação cívica é também historicamente baixa. O estudo revela que os portugueses continuam a estar entre as populações europeias que menos fazem voluntariado (Portugal está na cauda do conjunto de países estudados, apenas com a Sérvia e o Montenegro com menores índices de voluntariado). “Em países tendencialmente desiguais, a confiança no outro é minada porque não existe um sentido de comunidade. E o nosso debate sobre a democracia já denuncia, ele próprio, o problema que temos: somos incapazes de olhar para a democracia do ponto de vista social, dos comportamentos quotidianos, da vida cívica. Olhamos exclusivamente para o poder e como o poder se organiza quando falamos na democracia”, critica Daniel Oliveira, colunista do Expresso.

FICHA TÉCNICA O trabalho de campo da ronda mais recente do EVS foi levado a cabo pela GfK-Metris e decorreu entre 11 de janeiro e 31 de março de 2020. De uma amostra inicial de 3032 lares, obtiveram-se 1215 entrevistas que representam uma taxa de resposta de 41% e um erro amostral de ± 2,8% para um intervalo de confiança de 95%.

25.2.21

Economia e emprego é o que mais preocupa

Rafael Barbosa, in DN

Pessimismo maior entre os eleitores do PS e do PSD quanto aos impactos da pandemia.

Os portugueses estão muito preocupados com a pandemia (55%), reconhecem as grandes alterações que introduziu nas suas vidas (49%), estão maioritariamente apreensivos com os efeitos na economia e no emprego (50%), mas também destacam o impacto elevado na sua saúde e bem-estar emocional (58%).

De acordo com os resultados da sondagem da Aximage para o DN, o JN e a TSF, são agora um pouco menos os inquiridos "muito" preocupados com as consequências da pandemia: eram 62% em novembro passado, quando estávamos em plena segunda vaga, são agora 55%, quando a terceira vaga parece já ter passado. Ao contrário, cresceu a percentagem dos que estão no patamar imediatamente abaixo: 37% estão "bastante" preocupados. Pouco ou nada preocupados são apenas 5%.


Entre os que estão mais preocupados avultam os que têm 65 ou mais anos (67%), os mais pobres (65%) e os que residem na Área Metropolitana do Porto (63%). Os eleitores do PS e do PSD também se destacam pelo pessimismo (66% em ambos os casos), muito acima da média dos eleitores dos restantes partidos.

Quando se pergunta pelas consequências em concreto, os maiores receios têm que ver com a economia e o emprego (50%), em particular entre os residentes da Área Metropolitana de Lisboa (55%), os que têm 35 a 49 anos (62%) e os que votam no Chega (63%). Seguem-se os efeitos sobre a saúde física (30%), com ênfase particular nos mais velhos (38%) e nos eleitores comunistas (51%) e bloquistas (44%). Os efeitos sobre a saúde e o bem-estar emocional são a maior preocupação para 16%, e de novo com os mais velhos em destaque (26%).

Quando a pergunta afunila para os impactos na saúde e no bem-estar emocional, percebe-se, aliás, que o impacto está a ser grande ou muito grande para 58% da população, com os residentes mais jovens e os que vivem na região do Porto entre os mais preocupados (65%).

rafael@jn.pt

15.2.21

Combate à pobreza é a grande preocupação dos portugueses em relação ao futuro

in SicNotícias

Revela uma sondagem realizada pelo Parlamento europeu.

Portugal está entre os três países da União Europeia em que há mais problemas nos orçamentos das famílias, revela uma sondagem realizada pelo Parlamento europeu divulgada esta sexta-feira.

No entanto o combate à pobreza é a grande preocupação dos portugueses em relação ao futuro e quase 50% considera que a economia nacional vai estar pior daqui a um ano.

Na lista de prioridades dos portugueses estão também o pleno emprego, acesso a uma educação de qualidade e a defesa do ambiente.

30.11.20

António Damásio: “Há uma grande distribuição de generosidade, paciência e calma nos portugueses”

Pedo Rios, in Público on-line

O leitor tem mais em comum com uma bactéria do que aquilo que possa pensar. Na obra de António Damásio, a vida, com ou sem cérebro, ocupa o papel central. Em entrevista ao P2, o neurocientista fala sobre o que faz de nós humanos, a pandemia e de como precisamos de robôs vulneráveis.

Sentir & Saber – A Caminho da Consciência é o novo livro de António Damásio, um dos mais importantes neurocientistas do mundo. Nesta obra, edição Temas e Debates, com 48 breves capítulos, o director do Instituto do Cérebro e da Criatividade da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, salienta a importância do afecto na consciência dos seres humanos. Em conversa por videochamada com o P2, o cientista, com 76 anos, critica os políticos que manipulam a raiva e as redes sociais que danificam a cultura humana.

Sentir & Saber é um livro mais pequeno do que o habitual para si. Trata da consciência, um tema envolto em mistério. Porque escreveu um livro pequeno sobre um tema tão grande?
Já tinha dito muitas vezes: “Um dia, vou escrever um livro só com as ideias de que gosto.” Comecei a pensar em fazer capítulos muito curtos e na ideia do espaço, muito ligado também à estrutura de um livro de poesia: ter um texto que ocupa apenas uma parte de uma página ou que acaba num espaço branco, o que obriga o leitor a parar e a pensar. O objectivo principal é que as ideias se imponham e se tornem mais transparentes.

A neurociência ainda procura saber porque é que temos vida interior, uma consciência de nós mesmos, e não somos apenas robôs de grande qualidade, capazes de processar informação e reagir a estímulos. Fala-se no “problema difícil da consciência”, atribuem-lhe mistério. Mas o professor escreve que a consciência não é insolúvel e não é um problema tão “difícil” assim.
Não há este “hard problem” de que se fala e que certos filósofos têm pretendido vincar. E não há porque a forma como corpo e sistema nervoso se inter-relacionam é muito diferente daquilo que se espera. Não é de todo parecida com a forma como o sistema nervoso se relaciona com o exterior. O chamado “mistério da consciência” não é um mistério ligado ao sistema nervoso, mas sim um problema ligado à interacção do sistema nervoso com o corpo.

Se ler descrições sobre o “hard problem”, encontra pessoas que dizem: “Como é possível que uma estrutura física como o cérebro dê origem ao espírito, à mente, que não é física?” Bem, esse é o problema: é que não é só o cérebro, não é só o sistema nervoso, é o sistema nervoso em interacção, é esse conjunto que serve de base à consciência. Isto não é só sobre o sistema nervoso, trata-se de uma parceria entre sistema nervoso e corpo.

E isso simplifica ou complica o nosso entendimento do que é consciência? De repente, está todo o corpo envolvido nela.
Por um lado, clarifica porque diz: “É possível haver uma resposta, vamos tentar uma nova abordagem do problema.” Por outro lado, claro que o campo sobre o qual temos de trabalhar para criar todos os dados que confirmem essa explicação é agora muito maior.

Há mais de 20 anos que o meu trabalho incide principalmente na ideia de que corpo e sistema nervoso não estão separados e que corpo e mente não estão separados. É a coisa mais importante do meu pensamento científico e filosófico.

Já disse que o intestino terá sido o primeiro “cérebro” da história da vida na Terra. No intestino sentimos, por exemplo, ansiedade.
As provas são perfeitamente claras, é uma questão de pedir às pessoas para reorientarem o seu pensamento. Podem até usar a psicologia do senso comum, que às vezes se menospreza. Quando temos ansiedade, sentimo-la no corpo — no coração que bate descontroladamente, na respiração, que se torna difícil, no estômago ou no intestino. Todas as referências dos sentimentos são feitas ao corpo. São elas a realidade daquilo que é ansiedade ou, da mesma forma, o bem-estar.

Se assim é, porque é que insistimos em pôr tudo em gavetas: cognição vs. emoção e sentimentos?
Temos a tendência de facilmente cair em simplificações. Quando os pensadores começaram a olhar para os sentimentos, verificaram — e é verdade em muitas circunstâncias — que podem levar a um mau caminho: se a pessoa resolver um problema puramente de um modo afectivo, pode chegar à conclusão errada. Daí a ideia de que excluir a emoção, contar apenas com os factos e tentar ser puramente racional seria uma maneira melhor de resolver a nossa ligação com as complexidades do mundo.

Não há nada no meu pensamento e na ciência que fazemos que seja contra a razão, pelo contrário. O que queremos é mostrar que a razão tem sempre de ser informada por aspectos afectivos. Se se excluir completamente o afecto, a razão fica desordenada.

É um processo integrado.
No livro, tenho quatro grandes divisões: o ser, as representações que trazem a mente, depois o afecto, depois a razão. Biologicamente, houve uma sequência: de seres simples que nem sequer tinham emoções a seres mais complexos em que aparecem as emoções e, depois, seres em que aparece a possibilidade dos factos e da razão. Mas não é possível ter seres que têm unicamente razão sem terem um aspecto subjacente, que é o dos afectos. Aquilo que faz parte das nossas histórias individuais e o trajecto do ser humano e de outros seres vivos no planeta aponta para que a emoção e o sentimento tenham sido formas primárias de resolver problemas inteligentemente.

O que lhe ensinou esta pandemia sobre os seres humanos?
Estamos defronte de uma doença séria. As pessoas não se aperceberam imediatamente da gravidade do problema, que não é só das pessoas idosas. Nunca pensei que na minha vida iria encontrar algo tão parecido com os grandes problemas da II Guerra Mundial. Sempre tive muito interesse por ler sobre a II Guerra e pensar no horror daquele período, pensar que felizmente aquilo passou e que não iríamos ter de viver qualquer coisa como este terror. A verdade é que estamos a viver esse horror, não tão focado no cenário europeu (e com horrores absolutamente incríveis), mas planetário.
"Quando temos ansiedade sentimo-la no corpo"António Damásio

A pandemia escancarou a nossa fragilidade. Mas também fomos capazes de fazer vacinas em menos de um ano.
Há este paradoxo: somos de uma fragilidade incrível e nunca pensámos que isto poderia acontecer, mas, ao mesmo tempo, temos uma capacidade de resposta que vem do facto de que há ciência de ponta.

Disse, em Agosto de 2019, antes de tudo isto começar, que os nossos comportamentos poderiam levar a uma pandemia. Outros especialistas já alertavam para isso. Mas o impacto da covid-19 foi uma surpresa para quase todos, não era algo que estivesse “no programa”.
Há uma arrogância humana lamentável na forma como se menospreza o ambiente e os seres não humanos. As pessoas têm um certo respeito pelos pássaros, têm respeito pelos cães e pelos gatos, ou seja, têm respeito pelas criaturas que lhes trazem alguma coisa, que funcionam como companheiros.

E nas quais reconhecemos emoções.
Exacto. As pessoas têm animais de estimação porque esses outros seres vivos lhes dão qualquer coisa. É uma troca perfeitamente egoísta. As pessoas não imaginam o que são as vidas de seres unicelulares, que estão vivos tal como nós, e não se importam nada de os destruir quando eles muitas vezes são extremamente positivos para nós. Por exemplo: todas as bactérias que estão dentro do meu corpo e do seu neste momento a fazer com que o nosso microbioma funcione. Se não estivessem lá, estaríamos em muito mau estado. [As pessoas] não têm noção disso e não têm noção de que alterações do clima destroem espécies e a qualidade do ar. Há uma ignorância em relação ao mundo. Estamos a ver uma espécie de acordar tardio para coisas que têm importância e para as quais temos de prestar atenção.

Vemo-nos como seres excepcionais, à parte. Porém, a sua ciência mostra que temos muito em comum com as bactérias, enquanto a física, para dar outro exemplo, tem mostrado que somos “meras” interacções de partículas. A ciência torna o ser humano mais humilde?
Absolutamente. Uma ciência verdadeiramente humana pode fazer coisas magníficas. Pode dar-nos uma ideia da nossa complexidade e da forma como ela faz parte da complexidade muito maior do nosso ambiente. Dá-nos uma possibilidade de descobrir aquilo que é melhor em nós e de ter uma acção positiva em relação ao que está à nossa volta — por exemplo, em relação ao clima, à biodiversidade ou a problemas políticos, como a pobreza. Se compreendermos o que é um ser humano, devemos ter mais e mais falta de tolerância para deixar outros seres humanos viverem em mau estado de saúde, sem casa ou as protecções que nós, os mais privilegiados, temos.

Tudo caminha num sentido muito curioso: é uma espécie de realização, através da ciência, de bons sentimentos e bons desejos que normalmente eram trazidos unicamente pela religião. Era a religião que nos dava a direcção daquilo que é ser bom e decente, como ser humano em relação aos outros e ao mundo. A ciência não é, de forma alguma, oposta à religião, é uma nova forma de caminhar no sentido daquilo que as melhores religiões puderam trazer ao ser humano. Antes da ciência, realizava-se puramente pelo transcendente e por um desejo de ser melhor. Agora, com a ciência, podemos realizá-lo de formas mais práticas e directas.

Escreve muito sobre a homeostasia, o processo de regulação pelo qual um organismo mantém constante o seu equilíbrio e procura garantir a sobrevivência. É já o desejo de ter uma vida boa, que está tanto nos homens como nas bactérias?
É um desejo antes do desejo.

Gosta de frisar que as bactérias têm esse “desejo”, mesmo que não o saibam. São inclusive seres sociais, mesmo que não tenham noção disso.
Há todos estes processos estruturais que existem desde que existe a vida (e possivelmente antecedem a existência da vida — por exemplo, em processos de cooperação ao nível de partículas físicas). A vida de bactérias que têm uma sociabilidade e se comportam diferentemente conforme o ambiente é demonstração de que a vida, ela própria, como fenómeno central, já contém, de forma relativamente abstracta, os guias para o nosso comportamento. Aquilo que depois conquistamos — e que é magnífico — começa com processos muito pouco claros (as coisas estão contidas, escondidas), mas, à medida que somos capazes de fazer representações do mundo exterior e do interior, as coisas tornam-se mais claras.

E aí entra a mente.
A nossa ascensão em direcção à mente é um processo extraordinário. Dá-nos a capacidade de ir descobrir aquilo que está em nós próprios e à nossa volta através de mapas e imagens que são representações. As bactérias e grande parte dos seres vivos, mesmo os complexos, não podem fazer isso. Para que seja possível fazer representações e chegar à mente, aos sentimentos, à representação do que está à nossa volta, é preciso ter um sistema nervoso.

A vida tem quatro mil milhões de anos, há 3500 milhões de anos que se passaram sem sistema nervoso. Quinhentos milhões de anos não são nada. E sobretudo sistemas nervosos como os nossos, com 100 milhões de anos, são uma coisa recente. Quando se pensa na trajectória da história, é um pequeno momento, mas é esse momento que nos dá o passaporte para a mente e para entrar naquilo que são as representações dos factos e as representações do estado do nosso interior, que são os sentimentos, que trazem o princípio da consciência. É isso que quero que as pessoas percebam e é por isso que o livro é mais pequeno.

Há um debate sobre uma suposta consciência das plantas, tese de que discorda. Queremos meter a consciência em tudo? Não aceitamos facilmente que há muitas manifestações da vida que a dispensam?
Projectamos sobre todos os seres ideias sobre a forma como chegaram a certas conclusões ou comportamentos. Quando vemos uma planta que se encolhe com o frio, a planta pensou que se tinha de encolher, tal como nós? Não é assim. Há uma série de processos que são automáticos e que têm que ver com a homeostasia dentro daquele organismo. As coisas que fazem na procura de água, a maneira como as raízes se distribuem na terra… Claro que não há nenhum cérebro na planta a dizer “vai para a direita, é onde está mais água”, mas há uma maneira de fazer esse primeiro nível do detectar (sensing ou detecting, em inglês), que é muito diferente do sentimento.

O detectar simples é uma coisa que as plantas e as bactérias fazem. Nós também fazemos, mas grande parte daquilo que é importante que nós detectamos é acompanhada por um sentimento, por uma “cor”, positiva ou negativa, que é dada pelo afecto.
“Há arrogância humana lamentável na forma como se menospreza o ambiente e os seres não humanos”António Damásio

Há coisas que nos aproximam das bactérias e de outros seres vivos, mas há outras que nos tornam diferentes. Como damos o salto? O que faz de nós humanos?
Esse salto é dado pela quantidade de conhecimentos que conseguimos apreender, manter e manipular. Há animais que são de enorme perspicácia, inteligência motora, capacidade de resolver problemas. Vemos isso nos símios, em elefantes, há um grande número de espécies não humanas com consciência, com uma vida afectiva, com uma vida social complexa e uma inteligência extraordinária. O que falta é a quantidade de conhecimentos que os cérebros dessas criaturas conseguem ter (em nós são quantidades absolutamente extraordinárias). E a capacidade de manipular esses conhecimentos com várias abordagens, como a matemática e a linguística.

Uma das coisas extraordinárias daquilo que se está a passar entre nós, para além da tecnologia que nos reúne, é o facto de estarmos a usar linguagem. Estou a falar numa colecção de símbolos, uma determinada língua entre centenas de línguas que poderia utilizar, e você está a receber essas frases e eu as suas. Depois, há linguagens, como a matemática, que permitem de uma forma mais abstracta manipular conhecimentos. E a possibilidade de imaginar novos conhecimentos porque podemos manipular tudo na nossa imaginação, que é uma coisa extraordinária: você agarra numa história, parte-a aos bocados, recombina os elementos e faz uma nova história. Veja o curioso que é que esse recombinar é exactamente o que a natureza tem estado a fazer com ácidos nucleicos, através de toda a sua evolução, com genes...


SENTIR & SABER - A CAMINHO DA CONSCIÊNCIA

O enorme edifício intelectual está ligado ao edifício afectivo antigo, que continua a dar-nos apontadores. Às vezes, está errado: o afecto pode confundir-nos.

E temos visto muitos políticos a utilizar os afectos para manipular os cidadãos. A raiva, em particular, parece ser um dos grandes trunfos na política contemporânea.
A raiva e o medo são emoções e sentimentos de defesa. As pessoas acabam por utilizá-los porque se sentem ameaçadas. São uma forma de se defenderem quando não há uma possibilidade de resolver os problemas inteligentemente. Se as pessoas sentem medo e são levadas a irritarem-se e a terem zanga em relação a outros, isso é extremamente eficaz. Os bons sentimentos acabam por ser destruídos. É mais fácil induzir raiva e medo em pessoas que não tiveram acesso aos factos. Se, em vez de mostrar os factos, mostrar só uma situação que possa espoletar a zanga, abre um atalho: corta o processo normal, que seria ter os factos e depois pensar sobre eles. Seria possível evitar a zanga porque haveria outras soluções possíveis.

Vemos isso diariamente nas redes sociais, que critica. No entanto, os utilizadores parecem hoje mais conscientes dos seus problemas. Continua pessimista?
Acho que há uma melhoria. Vai ser muito difícil ter um grande efeito porque há um aspecto de dependência que vem do nosso desejo de informação.

O fear of missing out, o medo de ficar de fora, de perder algo.
Lembro-me de achar que o Twitter era bom para ter certas informações. Agora, não vejo o Twitter, só e-mail, that's it! O que me faz ser um pouco mais optimista é que há mais e mais pessoas que estão a verificar que é preciso responder com firmeza. Se não, vamos ser destruídos. Completamente. A cultura vai ser subserviente de um tipo de informações e um tipo de isolamento de opiniões extremamente graves. E há mais e mais pessoas que estão a perceber isso.

Que estão a ser manipuladas?
Perfeitamente.

Nos últimos anos, as políticas de identidade ganharam força. O que explica a força da ideia de identidade?
Há certas ideias que são atractivas porque há uma resposta afectiva muito positiva. A ideia de identidade (em relação a uma raça, a um grupo de pessoas, a uma identidade sexual) tem muito significado e peso afectivo porque as pessoas não se sentem todas iguais. Se me disserem: “Você é português, Portugal é um país pequeno, não tem importância nenhuma”, eu fico furioso. Porquê? Há qualquer coisa que tem que ver com o sítio em que nós nascemos que forma uma parte da nossa identidade, que tem que ver com a língua, os pais, as famílias, os sítios com que nos relacionamos. São coisas extremamente ligadas àquilo que é a nossa pessoa e, por isso, um ataque a essas coisas é como se fosse um ataque físico ao nosso corpo. É daí que vem o enorme poder do aspecto identitário e a enorme gravidade que é explorá-lo. Está-se a atirar pessoas contra elas mesmas: às vezes, há um grupo ao nível de uma identidade, mas os políticos espertos conseguem partir essa identidade ao nível do sítio onde estão nos Estados Unidos.
"O enorme edifício intelectual está ligado ao edifício afectivo antigo"António Damásio

Também assistimos a uma polarização política e identitária em Portugal, nomeadamente com a ascensão da extrema-direita através do Chega. Como vê isto a partir dos EUA?
Tenho um conhecimento remoto, que vem de ler o PÚBLICO e o Expresso. Portugal é um sítio muito curioso, parece-me sempre melhor do que outros… É um país extraordinário e muito mais equilibrado. Talvez por isso tenha menos capacidade de resolver problemas, talvez porque há uma grande distribuição de generosidade, paciência e calma nas pessoas, que resulta da nossa própria história. Essas coisas que descreve encontram-se noutros países de uma forma mais vincada, com muito mais riscos, mas [em Portugal] é um espelho. As coisas parecem-me, de um modo geral, melhores.

No novo livro, escreve também sobre a inteligência artificial (IA). Não a teme.
Grande parte da IA é muito estúpida [risos]. O mais curioso na IA é que é muito limitada por aspectos cognitivos. É pensar a inteligência apenas com o aspecto mais moderno (o cognitivo) e não com os aspectos fundamentais que vêm do afecto. Ora, a inteligência dos seres vivos começou com aspectos que têm que ver com a regulação da vida. Uma vez que houve sistema nervoso, [a inteligência] passou a ser ligada pelos sentimentos e pela consciência. E só na parte final passou a ser uma inteligência dos factos, que tem que ver com olhar para o mundo e, através da visão, da audição e do tacto, descrevê-lo. Em vez de olhar para a nossa trajectória biológica, a IA foi directamente ao fim. E assim conseguiu uma coisa magnífica, que é ter uma inteligência rápida, que resolve uma quantidade de problemas, mas que, muitas vezes, os resolve de uma forma não particularmente inteligente e não condutiva ao ser humano que precisa de afecto e carinho.

O que estamos a propor é que se faça uma nova espécie de IA que tenha em conta o afecto e que vem das chamadas soft robotics (matérias que podem ser modificadas, que se podem premer ou mudar com o frio e o calor). É uma forma de dar uma resposta do tipo que nós temos quando o nosso corpo responde a boa ou má temperatura, a calorias suficientes ou insuficientes. É uma nova linha de máquinas artificiais que julgo ter imenso futuro.

O que trariam essas máquinas de bom ao ser humano?
A vulnerabilidade. A IA é um aspecto extremo da inteligência em que não há praticamente vulnerabilidade. E nós, seres humanos, estamos no meio: temos certas vulnerabilidades e certas capacidades. Para um robô se relacionar consigo ou comigo, é preciso que tenha qualquer coisa de um ser humano médio. Você não pode estar um dia inteiro sem beber água, vai ficar desidratado. Essas vulnerabilidades vêm do facto de que a vida não é um algoritmo fixo, mas uma constante adaptação a condições biológicas. Trazer vulnerabilidades para a robótica é uma maneira de a aproximar de nós. O problema da IA e a sua limitação é ser invulnerável.

Essas máquinas conseguiriam resolver problemas que hoje não conseguem?
Exacto. Falta-lhes o factor das nossas limitações.

É das limitações que surge a criatividade?
Absolutamente. A IA corrente dá-nos soluções para problemas que nós definimos. É muito mais difícil encontrar os problemas.

Os humanos são geniais quando desafiam o pensamento estabelecido. Como Einstein, que viu na gravidade um efeito de um espaço-tempo curvo.
Temos de pensar fora da caixa e para o fazer não podemos ser perfeitos.

E, por vezes, falhar espalhafatosamente.
Falhar é uma grande maneira de depois não falhar.

10.11.20

Portugueses colocam o seu bem-estar em valores positivos pela primeira vez

Patrícia Carvalho, in Público on-line

Indicadores relacionados com a segurança, saúde, educação e ambiente contribuem de forma mais vincada para estes resultados, segundo o Instituto Nacional de Estatística. O relatório diz respeito a 2019, pelo que não reflecte o efeito da pandemia de covid-19.

Os portugueses estão a avaliar o seu bem-estar de forma cada vez mais positiva, mostrando-se particularmente satisfeitos com indicadores ligados à sua segurança pessoal, educação, saúde e ao ambiente, mas o Índice de Bem-Estar (IBE) para 2019, revelado esta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) tem uma particularidade: é a primeira vez que a nota é positiva. Numa escala de 0 a 100, ainda estamos apenas nos 50, mas este é “o valor mais elevado de sempre”, salienta o INE. Em 2004 não íamos além dos 23,5 pontos.

O IBE analisa dez domínios relacionados com dois grandes grupos — condições materiais de vida e qualidade de vida — e, salvo raras excepções em alguns períodos de tempo, os portugueses têm-se mostrado cada vez mais satisfeitos com as condições que lhe proporcionam bem-estar, embora nem todos os aspectos analisados contribuam para isso na mesma proporção.

Os dados relativos a 2019, e que são ainda preliminares, mostram-nos que há coisas que nos deixam particularmente satisfeitos, com a (baixa) taxa de criminalidade à cabeça de todas elas. Junta-se o bem-estar traduzido pela redução da taxa de desemprego — depois do período negro da crise económica e financeira —, pelos níveis de abandono precoce da formação, para os estudantes ente os 18 e os 24 anos, ou pelo número de praias com bandeira azul.

Em termos gerais, e olhando para a evolução entre 2004 e 2019, percebe-se que os portugueses avaliaram mais positivamente as condições materiais que lhe foram proporcionadas (e que fica, em 2019, cerca de 30 pontos acima dos valores de 2004), do que a qualidade de vida em geral que sentem (sobe 24,4 pontos entre aqueles anos). Neste último campo, são avaliados aspectos como a segurança pessoal, a educação, conhecimento e competências, a saúde, o ambiente ou o balanço vida-trabalho. E este último indicador, como se vê no IBE, “é o que menos cresce”, mantendo-se estável desde 2010.

Não é que os portugueses não se mostrem bem mais contentes com a forma como conseguem apreciar o tempo dedicado aos contactos interpessoais ou às actividades de lazer e à sua vida familiar e social. O problema é que o aumento do IBE nestes campos não chega para compensar a fraca evolução (estável nos últimos dois anos, mas com forte decréscimo antes disso e após 2012) dos dados que indicam o quão bem nos sentimos em relação ao apoio familiar que prestamos, ou à nossa capacidade de conciliar o trabalho com as responsabilidades familiares. 

Um outro campo analisado pelo INE é o das relações sociais e bem-estar subjectivo e, aqui, a evolução é notória, sobretudo em alguns indicadores. Basta olharmos para o “grau de felicidade (feliz ou muito feliz)”, que em 2008 não conseguia mais do que 1,2 pontos, e dez anos depois estava perto dos 67. 

O IBE permite-nos perceber que, com algumas oscilações, a nossa avaliação da qualidade de vida tem tido uma evolução consistentemente positiva, enquanto o das condições materiais de vida teve alguns anos francamente piores, directamente relacionados com os indicadores relacionados com o emprego e a vulnerabilidade económica.

Ambos foram fortemente afectados pela crise e tiveram uma evolução globalmente negativa entre 2004 e 2014, com essa tendência a inverter-se a partir daí.

Fica a curiosidade do que dirá o IBE do próximo ano, não só nestes dois indicadores — afectados pelos efeitos da pandemia —, mas também naqueles relacionados com a saúde e a educação, dois campos que foram particularmente tocados pelas mudanças a que a covid-19 obrigou.

De volta aos indicadores relacionados com o emprego, apenas mais um dado: os portugueses não estão particularmente satisfeitos com a disparidade salarial entre homens e mulheres e, como nos veio lembrar um comunicado do Governo, há razões para isso. É que esta terça-feira assinala-se precisamente o Dia Nacional da Igualdade Salarial, uma data móvel e que assinala o dia a partir do qual, fruto da disparidade salarial, as mulheres deixam, virtualmente, de ser remuneradas pelo seu trabalho, enquanto os homens continuam a receber salário até ao final do ano.

1.10.20

82% dos portugueses receia que emprego seja impactado pela pandemia

in Dinheiro Vivo

Inquérito indica que, com base nos rendimentos atuais, 40% dos inquiridos não irá sobreviver financeiramente em caso de novo estado de emergência.

A seguir Pandemia faz disparar desemprego, mas verão alivia alguns setores

Tendo em conta os rendimentos atuais, 40% dos inquiridos num inquérito da Fixando revela que, caso exista um novo estado de emergência ou confinamento, não conseguirá suportar financeiramente a situação.

A plataforma Fixando questionou uma amostra sobre a situação de contingência, que foi alargada a todo o território nacional no dia 15 de setembro, e como poderá afetar a vida profissional e financeira.

A esmagadora maioria dos inquiridos (82%) afirmou estar preocupada com o possível impacto da pandemia no emprego atual. Já 68% dos inquiridos afirma que o seu emprego ou negócio foi afetado pela pandemia, revelando uma quebra mensal nos rendimentos. Em relação à situação de contingência, 62% acredita que os negócios portugueses serão afetados pelas medidas.

31.7.20

Medo de espaços públicos e férias canceladas. Os efeitos da pandemia nos portugueses

in DN

No estudo da Deco, mais de três quartos dos inquiridos afirmam que evitam espaços públicos por medo de contágio de covid-19 e quase metade anularam os programas de férias.

Mais de três quartos dos inquiridos num estudo da Deco afirmam que evitam espaços públicos por medo de contágio de covid-19, quase metade anularam os programas de férias e também cerca de metade adiaram projetos e investimentos.

Segundo o inquérito da associação de defesa do consumidor, realizado entre 16 e 20 de julho, apesar da reabertura da maioria dos serviços e do regresso ao trabalho para uma parte da população, os inquiridos continuam a manifestar receio de voltar às rotinas anteriores ao início da crise provocada pelo novo coronavírus.

Mais de três quartos dos 1006 inquiridos 'online', entre os 18 e 74 anos, declaram que evitaram ou deixaram mesmo de frequentar os espaços públicos, como restaurantes, transportes públicos ou centros comerciais, enquanto mais de metade cancelou ou adiou as férias e perto de metade adiou projetos inicialmente agendados para este ano, como, por exemplo, comprar casa ou um carro novo.

"É urgente" reagendar consultas, exames e cirurgias adiadas ou canceladas

Por outro lado, sete em cada dez inquiridos relatam o adiamento de, pelo menos, um serviço de saúde agendado e 22% referiram que foram cancelados desde o início da pandemia.

"É urgente que as unidades de saúde reagendem essas consultas, exames de diagnóstico e cirurgias adiadas ou canceladas ao longo dos últimos meses, sob pena de vermos aumentar a taxa de mortalidade e de morbilidades por falta de acompanhamento de todos os doentes "não-covid"", conclui a Deco, na análise do inquérito.

Segundo a Deco, estes são alguns dos danos colaterais da covid-19 que levam a prever consequências graves para o futuro próximo, com um aumento da taxa de mortalidade e de morbilidades na população portuguesa.

O inquérito evidencia que os supermercados foram os estabelecimentos comerciais que menos sofreram uma quebra na procura, o que, para a Deco, mostra que os portugueses "afluíram sobretudo aos serviços de primeira necessidade".

Simultaneamente, para as deslocações, os inquiridos disseram procurar usar mais veículos privados, como o carro ou motorizada.
Três quartos dos inqueridos classificam os transportes público como poucos seguros

O estudo mostra também que medo de infeção levou os inquiridos a evitar determinados serviços, nomeadamente os transportes públicos: três quartos das respostas classificaram-nos como pouco seguros quanto ao risco de contágio.

Mais de metade dos inquiridos manifestou o mesmo sentimento relativamente aos centros desportivos, às lojas, aos restaurantes e aos eventos culturais.

O estudo denota que 43% dos inquiridos adiaram pelo menos um dos investimentos previstos e já não tencionam fazê-lo até ao fim deste ano. Em contrapartida, 43% adiaram pelo menos um deles, mas alegam pretender fazê-lo ainda este ano.


No que toca às férias, mais de metade dos inquiridos indicaram que vão gastar menos do que previsto e cerca de um em cada cinco afirmam que vão ficar em casa.

A mesma percentagem afirma que não vai gastar dinheiro com o programa de férias e 48% vão optar por fazer férias em Portugal e apenas 20% farão no estrangeiro.

Também relacionada com o turismo, mais de três quartos dos inquiridos consideram que as viagens de avião, de autocarro ou de comboio representam um risco elevado de contágio e mais de metade não têm confiança nas medidas de segurança nos hotéis e alojamentos de férias.

No total, 68% dos inquiridos referem que a crise da pandemia de covid-19 afetou as suas férias de verão.

Portugal contabiliza pelo menos 1.722 mortos associados à covid-19 em 50.410 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS).

6.5.20

O que compraram os portugueses em isolamento? Menos telemóveis, mais máquinas de fazer pão

Karla Pequenino, in Público on-line

A pandemia da covid-19 obrigou os portugueses a mudarem significativamente os hábitos, com cremes para pele, telemóveis e livros a ficarem na prateleira em prol de novos portáteis, congeladores e bens de consumo essenciais.

Os hábitos, prioridades e rotinas dos portugueses mudaram muito desde o começo de Março e as compras que fizeram — e como as fizeram — mostram-no. Regra geral, as pessoas preferiram ir menos vezes ao supermercado, comprar mais online e levar mais coisas de cada vez: no topo da lista, a prioridade foi para produtos como leite, fruta fresca, congelados, latas de conserva, mas também chá e café. Na prateleira, ficaram cremes para pele, produtos de hidratação corporal, máscaras e perfumes.

A venda de telemóveis e livros caiu a pique, mas compraram-se mais produtos de desenho para os mais novos, equipamento de exercício físico e máquinas de café. Os dados são de empresas de análise de mercado como Kantar Worldpanel, Nielsen e GfK, que têm acompanhado as alterações nos hábitos de consumo dos portugueses durante a pandemia.

Não se sabe até quando irão durar as mudanças. “É difícil fazer previsões porque nunca vivemos uma situação semelhante”, explica ao PÚBLICO Carlos Figueiredo, director de negócios da Gfk, ressalvando que “alguns dos produtos em que se reportam maiores subidas, têm que ver com necessidades pontuais” e irão voltar ao normal.

Abril foi bom para o mercado da tecnologia, em particular para os ratos, portáteis, teclados e monitores. Depois de uma queda de 20% durante o primeiro mês de isolamento social, a procura de bens tecnológicos aumentou significativamente na semana de 13 de Abril (valor 48,3% superior ao mesmo período em 2019) de acordo com dados da Gfk, data que coincidiu com o regresso às aulas num formato à distância. Muitos dos equipamentos foram comprados online.

As aulas online levaram muitas famílias a investir em portáteis, ratos, teclados e monitores DANIEL ROCHA
“O online é a grande novidade e tem ajudado os mercados a não caírem tanto”, destaca Carlos Figueiredo. Antes da declaração do primeiro estado de emergência, apenas 8% das compras de bens tecnológicos eram feitas online. Na semana de 12 a 16 de Abril, o valor subiu para 30%. “A situação actual tem dado uma motivação extra para pessoas que não tinham por hábito comprar online”, nota Figueiredo, que acredita que “nos próximos meses, se não mesmo anos, as pessoas terão outras cautelas e sempre que puderem evitar um contacto mais próximo farão isso”.

Desde o começo das medidas de isolamento social que a SIBS, que gere a rede multibanco (usada por 95% dos portugueses), também tem registado um aumento nas compras online em geral. Os sectores onde ser vê um maior crescimento face ao período antes da pandemia são o do entretenimento, cultura e subscrições (mais 57%), o da restauração e take away (mais 53%) e o do comércio alimentar e retalho (mais 44%).

Na nova realidade, também se tem observado apelo por “produtos de nicho” como máquinas de fazer pão e outro equipamento de cozinha. É um facto que coincide com uma procura maior por “doces e produtos para confeccionar doces” nos supermercados, detectada pela empresa de estudos de mercado Kantar Worldpanel, que justifica as mudanças como um mecanismo de adaptação dos portugueses numa altura em que estão “privados de momentos de lazer e de socialização no exterior”.

Outros produtos com uma procura fora do normal nesta época, tanto em Portugal como lá fora, são colchões de ioga, bicicletas e passadeiras estáticas e halteres, com o equipamento de ginásio entre as novas tendências de consumo mundiais, de acordo com dados da analista Research and Markets.

Em Março, a plataforma de comparação de preços portuguesa KuantoKusta já notava que as passadeiras estavam entre os novos produtos mais procurados pelos portugueses, com o El Corte Inglés a ser das cadeias que registaram um aumento significativo na procura de material desportivo logo em Março. “O encerramento de ginásios e o aumento do trabalho em casa criaram a necessidade de investimento em máquinas de fitness, acessórios de desporto ou portáteis”, explicou um porta-voz da cadeia ao PÚBLICO. “Para o aumento da venda de artigos de desporto, contribuiu também a crescente prática de exercício físico na Internet com vários ginásios e personal trainers a criarem conteúdos online.”

A apostar na tendência, no começo de Abril, a Sonae Capital Fitness (do grupo Sonae, proprietário do PÚBLICO) decidiu investir no “primeiro ginásio 100% virtual português”, com 250 aulas virtuais novas por mês e uma equipa de 200 profissionais.

É uma tendência que deve continuar. “O negócio do fitness online vai sempre aumentar, nem que seja porque os praticantes sentiram que pode resultar e é bastante cómodo. Para os profissionais de exercício físico também é bastante melhor, porque embora seja mais desgastante, poupam em rendas e deslocações”, diz ao PÚBLICO Hugo Meca, fisiologista de exercício físico, notando que, se “a remissão, tratamento eficaz da covid-19 ou vacina tardar, maior será o recurso aos personal trainers virtuais”.

Os telemóveis são dos produtos onde se regista uma queda maior, com as vendas a cair 30% no primeiro mês de isolamento social segundo a GfK. É uma tendência anómala para esta altura do ano, em que são lançados novos aparelhos topo de gama.

“A queda mostra que os telemóveis se tornaram um produto da moda. Normalmente, não se muda de telemóvel por necessidade, mas porque foi lançado um produto novo e queremos ter as funcionalidades mais recentes”, explica Figueiredo. “Numa altura de esforço adicional para muitas famílias, e um investimento reforçado noutros produtos, é normal que o telemóvel não seja uma prioridade.”

Com muitas marcas a lançar uma mão-cheia de novos modelos todos os anos, um estudo da Universidade de Lucerne, na Suíça, já dizia que o maior motivo para se mudar de telemóvel não era a necessidade, mas sim a pressão dos pares, promoções das operadoras de telecomunicações, e baterias que duram mais tempo. Com as pessoas a passar mais tempo em casa, o último problema deixa de existir.

A par dos telemóveis, câmaras fotográficas e pacotes de experiências (em que são oferecidos tratamentos de beleza ou estadas em hotéis) também têm estado a cair. “As câmaras fotográficas, em particular, são produtos que costumam ter mais procura nesta altura do ano, com as pessoas a procurarem novos aparelhos antes de irem para férias. Agora não há essa necessidade”, explica Carlos Figueiredo. “ Imagino que só a partir de Junho é que o impacto da covid-19 será menor nas vendas.”

9.3.20

SNS. Mais de 700 mil portugueses pediram consultas pelo regime livre de acesso desde 2016

in Expresso

O regime de livre acesso e circulação entrou em vigor a 1 de junho de 2016. Desde então, 711.264 pessoas pediram uma primeira consulta de especialidade num hospital do SNS que não o da sua rede de referenciação.

Desde que o regime de livre acesso no Serviço Nacional de Saúde (SNS) entrou em vigor, mais de 700 mil portugueses preferiram ter uma consulta num hospital diferente do da sua área de residência, revela o “Público” esta segunda-feira.

Os centros hospitalares de Lisboa e do Porto são os mais procurados. As consultas de especialidade mais pretendidas são oftalmologia, ortopedia e dermatologia - que são também das que apresentam maiores tempos de espera.
O regime de livre acesso e circulação entrou em vigor a 1 de junho de 2016. Desde então, 711.264 pessoas pediram uma primeira consulta de especialidade num hospital do SNS que não o da sua rede de referenciação.

De acordo com dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), os tempos de espera são uma das principais justificações para que os utentes do SNS peçam uma consulta num hospital fora da sua área de residência.

Outras motivações são a “reputação do hospital e da equipa clínica” da área médica a que precisam de recorrer, bem como outras “preferências individuais”, como experiências anteriores e a proximidade a familiares ou amigos, revela o jornal.