Mostrar mensagens com a etiqueta Stress. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Stress. Mostrar todas as mensagens

30.11.20

De volta ao teletrabalho? Como manter a saúde mental e evitar a “fadiga de pandemia”

Sara Calado, in EcoOnline

Stress, burnout e frustração podem ser efeitos negativos do trabalho remoto. Esta semana, o teletrabalho volta a ser obrigatório e quem gere pode ajudar a proteger a saúde mental dos trabalhadores.

Desde março, milhares de portugueses transferiram o escritório para as suas casas para evitar a propagação do novo coronavírus. Os estudos que se seguiram têm provado que o impacto do teletrabalho na saúde mental é real, e que obriga a uma atenção redobrada para quem está em situação de teletrabalho e a maiores responsabilidades por parte de quem gere.

Depois de ser decretado pela primeira vez a 22 de março, o teletrabalho voltou a ser obrigatório a partir de 4 de novembro, para todas as funções que assim o permitam.

O impacto do regresso ao regime de teletrabalho na saúde mental, mais de sete meses depois do início da pandemia, é real, e deve ser objeto de ação, defendem os especialistas.
Mais de metade dos portugueses com saúde mental em risco no trabalho

54% dos trabalhadores expostos a riscos para saúde mental


Apesar de a pandemia ameaçar empregos, 10% dos trabalhadores considera-a um fator de risco para a sua saúde mental. Mais de metade dos trabalhadores portugueses (54%) estão expostos a riscos para a saúde mental no local de trabalho, um aumento de 17,2 pontos percentuais desde o último estudo sobre o tema realizado em 2013, revelam os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados esta quarta-feira.

A forte pressão de prazos, a sobrecarga de trabalho e o contacto com pessoas problemáticas, como clientes, pacientes, alunos, cidadãos, são os problemas que afetam mais portugueses e constituem por si só um risco para a saúde mental.

Com menos expressão, destaca-se ainda a insegurança no emprego, a falta de comunicação ou de cooperação interna na organização, a violência ou ameaça de violência no trabalho e, ainda,a falta de autonomia. De acordo com o INE, as mulheres são ligeiramente mais expostas a estes riscos (54,8%) do que os homens (53,3%), com maior destaque para a faixa etária entre os 35 aos 54 anos.
Teletrabalho pode agravar sintomas já existentes

Stress ocupacional, burnout, ansiedade, angústia, e sensações de raiva, frustração são alguns dos efeitos mais comuns que podem ser agravados com o regresso ao teletrabalho. Dependendo dos recursos de cada trabalhador, o trabalho a partir de casa poderá revelar-se uma experiência positiva ou negativa.

“É como se fosse uma regressão. Ao estarmos em teletrabalho estamos a trazer outra vez o medo. Há um sentimento de alerta”, começa por destacar Hilami Bachu, psicóloga clínica, em conversa com a Pessoas. Voltar ao teletrabalho terá mais impacto agora do que antes, defende Himali, principalmente para quem já tem sintomas associados a angústia e tristeza.


A possibilidade de regressar ao teletrabalho de forma integral pode desencadear reações emocionais como zanga, frustração e apatia e menor motivação para o trabalho.
Teresa Espassandim

Psicóloga

“O comprometimento do bem-estar e da saúde mental em tempos de confinamento não significa necessariamente que se venha a desenvolver uma doença mental, mas sem dúvida que aumenta o seu risco”, começa por referir Beatriz Lourenço, médica psiquiatra, que revela que as mulheres, os jovens e as pessoas com doença mental prévia são os grupos mais vulneráveis.
A “fadiga” da pandemia

De acordo com o Mental Health at Work Report, publicado em 2017, três em cada cinco colaboradores experienciaram problemas de saúde psicológica no ano anterior devido ao trabalho. Quase um terço, 31%, foi diagnosticado com um problema de saúde psicológica, sendo a depressão e a ansiedade os diagnósticos mais comuns.

“Só podemos antecipar, uma vez que ainda não estão disponíveis dados da investigação científica mais recente, que a situação de pandemia tenha exacerbado estes problemas”, começa por explicar à Pessoas Teresa Espassandim, psicóloga e membro da direção da Ordem dos Psicólogo Portugueses.

Não “ter fim à vista” pode provocar cansaço e um sentimento de sobrecarga já denominada “fadiga da pandemia”, destaca Teresa Espassandim.

“Para os trabalhadores, a possibilidade de regressar ao teletrabalho de forma integral após terem vivenciado o desconfinamento e, com ele, a retoma de alguma normalidade no quotidiano — ainda que nesta situação de pandemia —, pode desencadear reações emocionais como zanga, frustração e apatia e menor motivação para o trabalho“, alerta a especialista.
Criar rotinas, tal como se estivesse no escritório

Em teletrabalho há uma maior tendência de trabalhar mais horas, por isso as especialistas defendem que é fundamental manter as rotinas, tal como se nunca tivesse saído do escritório. Criar rotinas, hábitos saudáveis, praticar exercício físico regular, e fazer pausas e intervalos durante o dia são algumas das estratégias para manter a sanidade mental.

“Se aceitávamos quatro reuniões, vamos continuar com quatro reuniões. Se saímos do trabalho às seis da tarde, então fechamos o computador às seis da tarde. Não é por estarmos em casa que vamos estar sempre online”, destaca Himalu Bachu.

“A dificuldade em manter horários definidos (de trabalho e não-trabalho) ao longo do dia e a necessidade de recorrer ao multitasking, trabalhando e cuidando dos filhos ao mesmo tempo, por exemplo, podem, por si só, aumentar os níveis de cansaço, irritabilidade e ansiedade“, acrescenta a médica psiquiatra Beatriz Lourenço, vice-presidente da associação sem fins lucrativos ManifestaMente e coordenadora do kit básico de saúde mental, um curso online gratuito sobre saúde mental lançado a 10 de março. Em menos de um mês, o curso já contabilizou mais de 6.000 registos.

“Compreender a importância da saúde mental e torná-la uma prioridade é sem dúvida uma boa estratégia“, reitera a responsável.
Apoio das chefias pode ajudar a proteger a saúde mental

A saúde pode sofrer com o excesso de carga de trabalho, sobretudo se for agravado pelo teletrabalho e por uma cultura laboral always-on. Em resposta aos riscos reais de problemas de saúde mental dos trabalhadores, as chefias podem ter um papel fundamental, ao promover um ambiente de trabalho saudável, a comunicação, a confiança e sensibilizar para a importância da saúde mental.

“A possibilidade de tomar decisões, a aceitação da perspetiva do outro e um feedback não controlador ou manipulatório por parte dos líderes e gestores são essenciais para que exista motivação intrínseca por parte dos trabalhadores. Assim, promover a autonomia e ter comportamentos de liderança apoiante, disponibilizando os meios para que os trabalhadores se sintam competentes e estimulando as relações sociais e interpessoais no trabalho, através de comunicação próxima, contribui para o engagement e o bem-estar psicológico“, refere Teresa Espassandim.

A psicóloga Himali Bachu defende ainda que devem ser as próprias chefias a promover o cumprimento dos horários e, ainda, a criar a possibilidade de os trabalhadores terem à disposição apoio psicológico e sessões de sensibilização sobre o tema da saúde mental.

Em último caso, apostar na saúde mental vai permitir ter trabalhadores mais motivados, reduzindo diretamente o absentismo e aumentando a produtividade.

13.10.20

Stress familiar por causa da pandemia recai desproporcionalmente nas mulheres

in Público on-line

Inquérito Life with Corona mostrou “níveis substancialmente mais elevados de tensão domiciliária” nas mulheres.

Um inquérito internacional realizado a 12 mil pessoas concluiu que o stress familiar durante a pandemia de covid-19 recai sobre as mulheres de forma desproporcional. O estudo abrange 130 países e teve como parceiro em Portugal o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto.

Em comunicado, o instituto explica que o inquérito Life with Corona, lançado há cerca de seis meses, surgiu com o intuito de “avaliar as implicações da pandemia na vida diária das pessoas em todo o mundo”.

O inquérito, coordenado por investigadores do Centro de Segurança e Desenvolvimento Internacional (ISDC), do Instituto Mundial de Investigação em Economia do Desenvolvimento da Universidade das Nações Unidas (UNU-WIDER), do Instituto Leibniz de Culturas Vegetais e Ornamentais (IGX) e do Instituto de Estudos de Desenvolvimento (IDS), recolheu dados de 12 mil pessoas, de mais 130 países que revelam “diferenças culturais e geracionais”.

Entre as principais conclusões, o inquérito destaca que o stress familiar durante a pandemia recai, de forma desproporcional, nas mulheres que moram com mais do que uma pessoa.

“O relatório feminino indica níveis substancialmente mais elevados de tensão domiciliária do que o masculino, independentemente do tamanho da família, o que sugere que a pandemia pode perpetuar disparidades de género”, indicam os especialistas.

Paralelamente, o inquérito indica que os idosos, ainda que considerados de risco, “estão menos preocupados com as circunstâncias actuais” da covid-19 do que as pessoas mais jovens.

“Isso ressalta que os desequilíbrios geracionais dos impactos da pandemia podem ser fortes e que os aspectos culturais, emocionais e socioeconómicos da pandemia podem ser tão importantes quanto o aspecto da saúde”, lê-se nas conclusões.

Life with Corona concluiu ainda que os jovens adultos realizam “activamente muitos comportamentos” para combater a pandemia, que os americanos querem ter prioridade no acesso a uma vacina e que os mais jovens estão mais dispostos a pagar para impedir a propagação da doença do que as pessoas mais velhas.

Citado no comunicado, Tilman Bruck, do ISDC, afirma que a covid-19 “não se trata apenas de uma pandemia médica”, mas sim de “uma pandemia social”.

“O coronavírus mudou a vida e a subsistência de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo, com uma velocidade e força sem precedentes”, salienta o economista alemão especializado em desenvolvimento e economia da paz, conflito e terrorismo.

Também Wolfgang Stojetz, responsável pela análise de dados do inquérito, salienta que o intuito do Life with Corona é “documentar as mudanças em tempo real”.

“Mesmo que derrotemos o vírus em breve, o seu legado moldará as nossas sociedades durante muito tempo”, observa o investigador do ISDC - Centro Internacional de Segurança e Desenvolvimento.

Por existirem ainda “muitas implicações a apurar”, no dia 1 de Outubro foi lançada a segunda fase do inquérito, que pretende “obter dados mais globais sobre o impacto da covid-19 a nível social e económico”, explica o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde.


30.6.16

Quase metade dos médicos da região Centro sofre de exaustão emocional

SUSANA PINHEIRO, in "Público"

Estudo inédito da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos revela que exaustão emocional afecta 40,5% dos clínicos da região. Profissionais do SNS e os que fazem noites são os mais afectados.

Quase metade dos médicos da região Centro apresenta um elevado nível de exaustão emocional, sendo as mulheres as mais afectadas, assim como os profissionais que trabalham no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e os que fazem noites, segundo um estudo da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM) divulgado nesta quinta-feira.

Além da exaustão, este “trabalho, inédito em Portugal”, abrangeu mais duas dimensões de burnout — a baixa realização profissional e a despersonalização. São ainda os médicos mais novos, entre os 26 e os 35 anos, os que mais sofrem desta síndrome que causa estados depressivos.

Perante estes dados “preocupantes”, o presidente da SRCOM pede a intervenção do ministério liderado por Adalberto Campos Fernandes para combater este flagelo e consequentes estados de depressão, stress e ansiedade nos médicos. “Os profissionais têm de estar bem para tratarem bem os doentes”, defende Carlos Cortes, que vai fazer chegar os resultados ao ministério e Direcção-Geral da Saúde, hospitais e centros de saúde.

Para o estudo, realizado através de um questionário online anónimo, foram inquiridos 1577 médicos, dos quais 63,2% são mulheres e 36,8% são homens. É uma amostra representativa dos 8042 médicos inscritos naquela secção, equivalendo a perto de um quinto do total.

"Um sério aviso"
A Ordem constatou que é a medicina geral e familiar que apresenta percentagens mais elevadas nas três dimensões de burnout, seguida da medicina interna e de cirurgia geral. São os médicos que trabalham no SNS os que têm níveis mais altos de exaustão emocional e mais baixos de realização profissional. Também os que trabalham de noite apresentam maiores taxas de despersonalização, uma terceira consequência da síndrome que se traduz na pouca empatia e desinteresse os clínicos. Pelo contrário, os profissionais com filhos têm menos níveis de despersonalização e são mais realizados profissionalmente. “É um sério aviso para o ministério encontrar novos modelos de organização das instituições de saúde”, diz Carlos Cortes.

De acordo com as principais conclusões do estudo, 40,5% dos inquiridos têm elevado nível de exaustão emocional, num total de 639 médicos que disseram senti-la, dos quais 433 são mulheres e 206 são homens. Um elevado nível de não realização profissional é sentido por 25,4% da amostra, equivalente a 400 médicos, grande parte do sexo feminino. Já a alta despersonalização revela-se em 269 médicos (17,1% da amostra), também aqui mais nas mulheres. Mas há 117 profissionais que têm níveis altos nas três dimensões do burnout, dos quais a maioria tem entre 26 e 35 anos. Há ainda 44,3% dos inquiridos com uma ou duas dimensões (exaustão emocional e/ou despersonalização) altas.

Há já algum tempo que o presidente da SRCOM alerta para o facto de “a evolução do sistema de saúde colocar pressão sobre os profissionais, sob o jugo da quantidade em detrimento da qualidade”. Aliás, reforça, “o próprio ministro da Saúde já considerou haver desorganização no SNS”. Este estudo espelha isso mesmo e demonstra “o impacto negativo que essa má organização tem tido nos profissionais”, desde logo ao nível da sobrecarga de trabalho, com 53,2% dos inquiridos a trabalhar entre 40 a 60 horas semanais, outros 15,9% mais de 60 a 80, e 2,8% mais de 80.

Carlos Cortes aponta como factores de risco para o desenvolvimento do síndrome de burnout a pressão sobre os médicos, a falta de condições para exercer a actividade, a desumanização e a burocratização do sistema, assim como a falta de perspectivas profissionais. Ainda em Maio último, as secções do Norte e Centro pediram a intervenção da tutela para melhorar a forma de atendimento aos doentes e o trabalho dos médicos. Acresce a tudo isto os programas informáticos “serem dos pontos mais negativos do SNS, por não estarem adaptados e causarem stress nos médicos que ficam sem tempo para os doentes”.

Paulo, 43 anos: "Isto tornou-se frustrante”
Todo este stress e ansiedade pode causar burnout, como aconteceu com Paulo (nome fictício), 43 anos, há quase dois meses com atestado médico com “sintomas depressivos e ansiosos” e medicado com antidepressivos. Clínico de medicina familiar e geral há oito, Paulo começou “a sentir esta pressão aquando das reformas do SNS, no centro de saúde, com todas as novas exigências” que daí advieram.“ Já tinha lido sobre o burnout, mas sentir na pele é muito diferente. As exigências do trabalho são tão grandes”, conta ao PÚBLICO.

Chegou a consultar 1900 doentes, que depois reduziram para 1600, mas viu aumentar o número de pacientes idosos e o número de horas semanais de consulta aberta. Tinha 42 horas semanais de trabalho, além das que não eram pagas. Atingiu um tal estado de exaustão com o “acumular de anos de stress, e pela obrigatoriedade e pressão de ver os doentes em 15 minutos, com a agravante da parte informática, que é muito exigente e difícil de conciliar com a parte clínica”.

Depois, tinha de gerir as queixas dos doentes por não ter tempo para os consultar e perder mais tempo com a parte burocrática, com o “moroso” registo no computador da prescrição de análises e exames. “Quando damos conta, os 15 minutos já passaram e mal vimos o paciente.” O presidente da SRCOM denuncia casos de colegas pressionados para consultar em apenas cinco minutos.

Paulo acrescenta ainda que tinha de consultar 16 ou 17 doentes numa manhã e depois seguia-se, da parte da tarde, o período de consultas abertas. Mais as horas extraordinárias e, muitas vezes, três fins-de-semana seguidos sem tempo para a família. “Isto repetidamente meses e meses, e a chegar a casa exausto e num estado lastimável, sem tempo para recuperar. Tornou-se desmotivante e frustrante.”

Começou a sentir-se doente e exausto a tal ponto de não conseguir trabalhar nem dormir. “O stress afectou o meu sistema imunitário e tive internado com uma pneumonia.” Acabou por ter de recorrer a um psiquiatra e ficar de baixa médica com uma depressão.

Paulo sabe que, quando regressar ao activo, os problemas continuam lá. “Estará tudo igual e já pensei em mudar de especialidade e até de profissão.”

8.6.16

"Burnout". Quando o trabalho queima a mente e o corpo

Matilde Torres Pereira, in "Rádio Renascença"

Margarida é arquitecta e o trabalho levou-a a passar dez dias sem dormir. Fernando é advogado e ficou em lágrimas frente aos chefes por já não aguentar mais. Carlos é médico e vê colegas desesperados todos os dias com o cansaço e falta de meios. O síndroma do esgotamento profissional está aí e põe em risco quase metade dos trabalhadores portugueses. ​
Um cansaço extremo que se vai instalando, por vezes sem a pessoa sequer dar conta. Insónias de noite. Desmotivação para as tarefas mais simples. A cada pedido, a ansiedade cresce. A cada e-mail, o coração bate mais rápido. No limite, começa-se a cometer erros, o raciocínio começa a falhar e os colegas começam a falar entre si. Até que se chega ao fim da linha: o “burnout”, síndroma do qual se tem falado cada vez mais e que, segundo um estudo pioneiro realizado a nível nacional, chega a colocar em risco quase metade dos trabalhadores portugueses e que afecta directamente 17,3%.

A Margarida (nome fictício) trabalhava num ateliê de arquitectura quando decidiu começar a fazer um mestrado. Subestimou a exigência do curso e viu-se gradualmente atolada em trabalho, a tentar aguentar até ao final do primeiro semestre. Trabalhava 30 horas por semana, tinha aulas à tarde e ainda ia para casa estudar.

“Comecei a sentir um cansaço extremo, só que ao mesmo tempo o corpo começou a entrar num estado de adrenalina que não parava. Daí eu achar que iria aguentar, parecia uma máquina. Mas eu não conseguia parar”, descreve a arquitecta de 33 anos. Na altura a viver em Lisboa, Margarida chegou a um ponto em que teve de parar. Vive agora com os pais no Algarve: há mais de um ano que tenta recuperar de uma situação da qual nunca tinha sequer ouvido falar.

Antes do “burnout”, foi tentando varrer o cansaço para debaixo do tapete. “Fui deixando de funcionar aos poucos.” Havia noites levadas a trabalhar em que pensava: “Já é hora de parar, mas vou só fazer mais um esforço”. Mas esse empurrão extra acabava por ultrapassar a última fronteira do sono. E Margarida deixou de dormir.

“Chegou a uma altura em que levei dez dias seguidos sem dormir”, conta. Quando chegou ao trabalho, o chefe achou-a “esquisita”, e quando soube das insónias, foi o primeiro a dizer: “É melhor ires para casa.”

A descrição é de um quadro típico de “burnout”, explica João Paulo Pereira, especialista e autodenominado “activista” dos riscos psicossociais, autor do estudo que inquiriu quase 40 mil portugueses entre 2008 e 2013. “É um fim de linha”, descreve.

É um processo que, no início, se caracteriza por algumas reacções “menos naturais” no comportamento de uma pessoa. Sente falta de recompensa – no rendimento, no reconhecimento do trabalho. Pode sentir “incongruência entre os valores da pessoa e aquilo que entende serem os valores da instituição em que trabalha”.

Há também a “falta de energia que começa a invadir a pessoa, que automaticamente coloca-a com menor disponibilidade para o exercício de tarefas” ou mesmo a perda de prazer naquilo que se está a fazer.

Passando pelo stresse, pela ansiedade e finalmente pela depressão, o “burnout” é um quadro clínico que incide fundamentalmente na “percepção de cada um sobre aquilo que faz”, sublinha João Paulo Pereira.

“Não consigo dar nem mais uma hora”

Foi essa sensação de não ser capaz que fez com que Fernando, um advogado de 34 anos a trabalhar numa reputada empresa em Lisboa, entrasse um dia no gabinete dos sócios do escritório para dizer que não aguentava nem mais um minuto.

“Há um dia em que me pedem uma coisa relativamente simples e eu penso ‘Já não consigo mais’. Lembro-me de começar a chorar, de preocupado, nervoso, e depois fui a casa, disse à minha mulher: 'Sinto que bati no fundo, não consigo dar nem mais uma hora para isto'”, conta.

O advogado, que trabalhava já há vários anos no mesmo escritório, não sentia que fosse uma pressão vinda de cima, mas mais uma pressão que colocava sobre si próprio “para fazer as coisas bem e cumprir os objectivos”.

Num sistema “up or out” (o funcionário tem obrigatoriamente de subir na carreira ou então procurar outro emprego), as avaliações são periódicas e há etapas para cumprir a cada número de anos. O percurso está definido desde o início. A meta final: chegar a sócio.

“Há pessoas que não se adaptam”, diz Fernando. “É um estilo de vida, não vejo isso de forma dramática”, argumenta, embora o ritmo o tenha mesmo chegado a obrigar a parar. Na altura, recorda, foi um “cocktail” de vários factores – a equipa com a qual trabalhava saiu da empresa, estava a meio de uma das etapas importantes para passar ao próximo escalão e sentia-se esmagado com a ideia de que teria de substituir os colegas que saíram.

“Sentia os holofotes todos sobre mim, e ao mesmo tempo o escritório muito elogioso: ‘Estamos a contar contigo, vais fazer o papel destes tipos, eles não vão fazer falta nenhuma’”, o que ainda pressionava mais. Teve de interromper as férias para tratar de uma operação – uma ocorrência comum em advocacia, diz – e depois o trabalho acumulava com as lides domésticas.

Nesse ano, a mulher ficou à espera da segunda filha meses depois do nascimento na primeira. Era uma gravidez de risco, que obrigou a mulher a ficar deitada. “Era uma loucura. Saía do escritório, porque tinha de ir buscar a minha filha, ia a casa, dava-lhe banho, jantar, deitava-a e depois ainda voltava para o escritório, e pelo meio tinha chamadas e reuniões. Tinha de ser advogado a tempo inteiro e dono de casa a tempo inteiro”, descreve.

Até ao dia em que quebrou. Felizmente, o escritório foi compreensivo. Mandaram-no para casa descansar. Quando voltou, teve de escrever uma lista das coisas a mudar para poder trabalhar de uma forma mais saudável, como não olhar para o telemóvel à noite ou trabalhar textos com o Outlook e o telefone desligado. “Foi identificar onde estavam os focos de ansiedade e tentar eliminar.”

Hoje a empresa tem vários mecanismos, como o “coaching”, para lidar com o problema, até porque Fernando não é, nem por sombras, um caso isolado. “Aqui o fenómeno do ‘burnout’ vai acontecendo com alguma frequência”, revela. E enquanto não se chega ao limite, há muitas dúvidas: “É muito normal, pelo menos uma vez por ano, um advogado ter um momento de crise vocacional”.

Por isso, explica João Paulo Pereira, se fala hoje em “organizações saudáveis”. Não porque não têm também casos problemáticos entre os funcionários, mas porque “têm meios de detecção mais precoce destas circunstâncias, e, ao detectá-las, actuam”.

Mesmo quando há crises, diz Fernando, há formas de relativizar o problema. “Olhas para o lado e vês os médicos que também têm de fazer bancos, a malta que trabalha nas consultoras. Faz parte”, constata.

O “burnout” é um fenómeno transversal. Abundam em Portugal, e no resto do mundo, teses de doutoramento sobre a incidência entre os polícias, os professores, e sobretudo os profissionais de saúde.

Medicina de guerra. “Uns são mais fortes, outros não resistem”

O médico Carlos Cortes, presidente da Secção Centro da Ordem dos Médicos (OM), começou a notar um padrão entre os colegas e decidiu investigar mais fundo. Fez-se um grupo de trabalho alargado para preparar um estudo aprofundado sobre o “burnout” entre os médicos da região. Oito mil médicos foram sondados, mais de 1.500 responderam, uma amostra significativa. Mas o mais interessante foi o processo preparatório, em que se fizeram dezenas de visitas e reuniões pela região. A resposta foi surpreendente.


Carlos Cortes, presidente da Secção Centro da Ordem dos Médicos. Foto: RR
“Foram sempre reuniões com uma participação acima daquilo que era esperado. Recordo-me de uma onde talvez estivesse presente na sala 70% do corpo médico, ou mais, daquele centro hospitalar”, conta Carlos Cortes.

Além do número, foi o conteúdo das próprias reuniões que impressionou a Ordem dos Médicos. “Foram reuniões com uma grande carga emocional dos médicos que contaram as suas histórias, os seus desabafos”. As emoções contaminavam os colegas presentes na sala.

Os casos são muitos e sintomáticos de um Sistema Nacional de Saúde (SNS) a braços com cortes financeiros, a falta de recursos humanos e materiais e a dificuldade em levar as pessoas a aderir às consultas, fruto da crise económica.

O dirigente da OM constata que “há aqui um paradoxo muito grande”: “aquilo que foi ensinado aos médicos durante toda a sua vida – dedicar o melhor de si aos seus doentes – enfrenta duas lutas. Não só a de procurar a melhor estratégia terapêutica, mas depois ter que ter os exames complementares à sua disposição, de ter de ter medicação; uma série de adversidades para as quais a sua formação não os preparou”.

Como uma médica que chorou em frente a dezenas de colegas ao relatar a pressão a que era sujeita dia após dia, “uma pressão velada, indirecta, escondida, feita na sombra sobre os médicos para produzir”, descreve Carlos Cortes. Os hospitais em Portugal são financiados segundo o número de consultas e cirurgias que conseguem apresentar.

É um paradoxo que, muitas vezes, conduz à síndroma de “burnout”. Fala-se em medicina de guerra: alguns são mais fortes e resistem, outros não conseguem. E, numa primeira fase atribuindo os sintomas à carga de trabalho, eles insistem em aparecer na mesma. Vómitos, diarreia, insónias – sintomas que não são exclusivos ao “burnout” nos médicos.

“Cada vez que toca o telefone, treme-se dos pés à cabeça”

“Quando via a luzinha do [smartphone] BlackBerry a piscar, sentia o ritmo cardíaco a acelerar”, conta Fernando. Na fase mais apertada do trabalho, chegava a acordar a meio da noite com calores, vomitava de manhã, “tinha uma tosse que depois percebi que era nervosa... Não sabia para onde me havia de virar.”

O especialista João Paulo Pereira aponta que “dos piores elementos a que uma pessoa numa situação limite” pode estar exposta, por risco de consequências psicossociais, “é um telemóvel e um computador”. Cada vez que toca, a pessoa treme dos pés à cabeça, há uma reacção emocional de ansiedade – 'O que é que aí vem?' – porque quer estar desligada”, explica.


João Paulo Pereira, especialista em riscos psicossociais. Foto: RR
A Margarida, a arquitecta, os sintomas foram-na invadindo e ocupando espaço até já não haver espaço para mais nada. Tinha, e continua a ter, náuseas ao olhar para ecrãs, não consegue olhar para um telemóvel nem para um computador, muito menos para uma televisão. Sofreu de dismnésia, pequenas amnésias ao longo do dia em que se chegou a perder na sua própria cidade. “Foi como se fosse uma cidade que nunca tivesse visto. Não reconhecia nada”, recorda. Perdeu vocabulário, não conseguia seguir conversas. “Não conseguia ler de todo.”

João Paulo Pereira refere as consequências desse tipo de respostas ao nível do grupo de amigos e da família, a quem “vai custar acreditar, assumir ou viver com alguém que tinha um determinado funcionamento e de repente fica com uma memória a curto prazo quase zero”.

Não é impossível apagar o fósforo antes de queimar até ao fim. Há indicadores aos quais estar atento. Nas mulheres, por exemplo, os primeiros sinais são as lesões músculo-esqueléticas, dores na cervical ou na lombar, por causa das alterações de postura. Nos homens, são as doenças do foro cardíaco, arritmias ou mesmo sintomas de enfarte que se revelam afinal manifestações de ansiedade profunda.

Ou mesmo a auto-estima. “É um botão que se desliga de repente”, recorda Fernando. O advogado lembra que, mesmo confrontado com as tarefas mais simples, pensava: “Não sou capaz, já não sei fazer isto. Punha tudo em causa.” Para Margarida, o caso foi diferente. De tal maneira que teve algumas dificuldades em conseguir o médico certo, o diagnóstico correcto e o tratamento adequado.

“Os primeiros médicos diagnosticaram-me ‘burnout’, depois houve médicos que disseram que isso não existia, que podia ser depressão, e expliquei que não sentia o factor tristeza ou a falta de motivação”, relata. “Eu estava motivada para tudo. Não conseguia era parar.”

A arquitecta começou por ir à médica de família, que se confessou de imediato como leiga no assunto, e dirigiu-se depois à Clínica do Sono para tentar tratar as insónias. Rapidamente criou habituação aos medicamentos e, um ano depois, continua sem conseguir estabilidade no sono. Acompanhada hoje por uma psiquiatra, começou a virar-se também para as medicinas alternativas para procurar algum alívio das insónias que teimam em aparecer.

Cinismo alto, realização baixa e cansaço elevado

“Hoje a medicina nada tinha a ver com a medicina de antigamente”, declarava um médico numa das reuniões promovidas pela OM. O trabalho hoje, mesmo com todos os avanços científicos e tecnológicos, não traz os frutos de há uns anos, dizia – um factor de desmotivação. Este médico sentia que não contava para o sistema.

Carlos Cortes sublinha que há mesmo colegas que saíram do SNS por “terem a sensação de todos os dias estarem a lutar contra a adversidade”. Um médico contava que, apesar de ter grandes responsabilidades no hospital onde trabalhava e de estar numa trajectória profissional ascendente, cada dia era “um dia negro, porque não sabia se ia ter profissionais suficientes para poder operar um doente que já estava marcado, porque não sabia se no bloco ia ter condições materiais para operar”.

A saída deste médico, considera o dirigente da OM, até pode ter sido uma estratégia de prevenção do “burnout”. Explica João Paulo Pereira que esta síndrome é dependente de três factores: “a realização pessoal, a exaustão, e o cinismo”. “O que tem que acontecer para existir 'burnout'? Tem que haver um cinismo elevado, uma realização baixa e um cansaço elevado”, sintetiza.

O médico Carlos Cortes recorda ainda outro caso. Uma colega, dirigente num centro de saúde, tinha imensas dificuldades em lidar com a burocracia e passava a semana toda a ler documentos, a tentar perceber o que é que estava por trás de todas aquelas instruções de trabalho, daqueles diplomas legais e procedimentos. Acabava por não estar com os doentes.


Foto: Pixabay
Professores e polícias no limite da exaustão

Numa investigação promovida pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), concluiu-se que 47,8% dos médicos e enfermeiros apresentavam níveis de “burnout” elevados e que 21,6% exibiam sintomas moderados da síndrome. São dois terços dos profissionais inquiridos numa amostra muito alargada: 1.262 médicos e quase 500 médicos.

Não são os únicos afectados: um outro estudo do ISPA realizado com cerca de mil professores de escolas portuguesas revelou que 30% dos docentes estavam em “burnout”, emocionalmente exaustos e sem qualquer sentimento de realização profissional. A maior parte dos que apresentam sintomas são mais velhos, têm vínculo à função pública e dão aulas no ensino secundário, concluiu-se.

Uma investigação apresentada em 2015 dava também conta dos riscos de exaustão física e psicológica dos polícias: apesar de apresentarem bom estado psicológico no primeiro ano de serviço, à medida que vão para o terreno registam mais problemas, que no limite podem levar ao suicídio, alertava uma investigadora da Universidade do Porto.

O “burnout” acontece, por norma, a meio da carreira, entre os 10 a 15 anos de actividade e não se nota no fim da carreira, porque chegam ao fim da linha, muitos mudam de profissão.

Nos últimos anos, Portugal viu passar o Ano Europeu dos Riscos Psicossociais e também o Ano Europeu do Stress. “Ciclicamente”, critica João Paulo Pereira, “dizemos: 'Ai! Os dados do ‘burnout’ são muito preocupantes!’”. “Mostramos estatísticas de stresse, de absentismo, mostramos o preço que custa isto tudo, continuamos alarmados, mas a gostar imenso de ver aqueles números.”

Mas depois não se faz nada, acusa, e o número de casos vai subindo. “As pessoas ainda estão a actuar no paradigma do trabalho segundo modelos anteriores, e não se adaptaram”, considera o especialista.

Para Fernando, “as pessoas perderam a noção da razoabilidade”. “O e-mail veio impor um ritmo, sobretudo a um advogado, louco. Antigamente, negociavas o contrato, seguia por carta ou fax, escrevias à mão, devolvias, tudo aquilo demorava imenso tempo.” Agora, conta, facilmente lhe cai no colo um contrato de centenas de páginas com um pedido para receber resposta no dia seguinte. E a concorrência não ajuda: se recusar, o cliente vai à firma do lado sem pensar duas vezes.

Marcar o ritmo e intervir a tempo

“É muito importante marcares o ritmo, correndo o risco de no fim dizeres, com esses limites, não estou disponível. Isso é preferível, estando feliz e bem com a tua consciência, do que estares aqui três anos a sentir que estás a ser explorado e sem reagir”, conclui o advogado.

O psicólogo João Paulo Pereira frisa que é possível intervir com resultados. É um desafio, mas a questão essencial é que o “burnout” “não é de todo uma situação de que as pessoas se tenham de redimir”. Vai passar-se um tempo complexo, mas depois existe a hipótese de a pessoa perceber porquê e de se reorganizar.

A vida intensa no ateliê, as madrugadas a fazer maquetes e as noites sem pregar olho ainda surgem de tempos a tempos na memória de Margarida. Hoje, os dias são passados a tentar não contar o tempo. Faz caminhadas na praia, actividade que não exige grande esforço intelectual nem físico.

Tem havido uma evolução, mas muito lenta. “Muitas vezes é um desespero, porque há certos dias em que pensa se realmente se vai voltar a estar normal”, confessa. “Sinto-me muito aquém.”

Homens, pessoas em lares e com mais habilitações literárias têm maior `stress`

In "RTP"

Um estudo junto da população idosa realizado pelo investigador de Coimbra Ricardo Pocinho concluiu que homens, indivíduos institucionalizados e sujeitos com ensino superior apresentam maiores níveis de `stress`.

O estudo contou com 409 participantes de um total de 620 inquiridos de todo o país, entre os 53 e os 93 anos (média de idades de 72,9 anos), e pretendeu avaliar a capacidade que a pessoa idosa tem para lidar com adversidades, bem como o efeito do lazer na relação da educação com o `distress` (quando o organismo não sabe adaptar-se a situação de stress) psicológico na população sénior.

Uma das conclusões do estudo aponta para o facto de pessoas com mais habilitações terem mais `stress`, algo que é contrário à ideia inicial da equipa de investigação, apontou à agência Lusa Ricardo Pocinho, coordenador de uma pós-graduação em Envelhecimento Ativo e Saudável na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra.

"As pessoas com mais habilitações académicas poderiam ter estratégias de reação à adversidade maiores, mas isso não se verificou", disse Ricardo Pocinho, considerando que esse resultado poderá estar relacionado com a própria vida que esses indivíduos levaram, com "carreiras de maior desgaste e de maior exigência técnica".

A institucionalização foi também indicada pelo estudo como "um fator perturbador", que agrava a capacidade de lidar com o `stress`, independentemente de todas as outras variáveis.

"A maioria das IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] que visitámos cumprem os requisitos legais, mas estão sobredimensionadas. Não há um reforço da equipa de profissionais e há falta de recursos qualificados", constatou o também investigador colaborador do CINTESIS (Center for Health Technology and Services Research) da Universidade do Porto.

Os idosos que estão "equilibrados" acabam por "ficar de lado", face ao enfoque "naqueles que precisam de cuidados continuados", sendo que o próprio ambiente dos lares acaba por levar a um efeito de contágio, sublinhou.

Segundo o investigador, também o género é uma das variáveis onde se encontra "um desequilíbrio muito grande", com as mulheres a mostrarem-se "mais resistentes ao `stress` do que os homens".

Já a participação em atividades de lazer acaba por ser um fator que dá "mais capacidade às pessoas para lidarem com o `stress`", sendo "um importante fator para criar resistência" a adversidades, salientou Ricardo Pocinho.

O aumento da idade e a residência em meio urbano mostraram também ser contributos para uma maior vulnerabilidade a situações de `stress`, refere o estudo.

Para o estudo foi utilizado "o Mental Health Inventory para comparar o nível de `distress` nas categorias de habilitações, meio e lazer".

O estudo começou em novembro de 2015 e contou ainda com a participação de um psicólogo e uma gerontóloga.

Um dos elementos da equipa vai agora avançar com um doutoramento em torno da temática.

11.6.13

Crianças em «stress» por causa da crise

Texto Juliana Batista, in Fátima Missionária

Embora muitas crianças não vivam privações económicas em consequência da crise vivida em Portugal, algumas acabam por sofrer de «solidão e desgaste psíquico» porque as famílias «não sabem superar as tensões do quotidiano», alerta a Cáritas Portuguesa

Numa mensagem para o Dia Mundial da Criança, assinalado este sábado, 1 de junho, a Cáritas Portuguesa destaca que os menores «são uma das faixas da população mais atingidas pelas privações que a crise acarreta» e afirma que é necessário «mudar a condição da infância no país». Em comunicado enviado à FÁTIMA MISSIONÁRIA, a organização refere que a crise vivida em Portugal «afeta particularmente as crianças» e sublinha que embora muitas não vivam «em situação de privação» económica, «sofrem de solidão, desgaste psíquico e abandono» porque os familiares «não podem ou não sabem superar as tensões do quotidiano».

Segundo a Cáritas Portuguesa, para cumprir «com o que merecem as crianças», é preciso «unir ideias e esforços» de forma a criar comunidades locais «mais esclarecidas e atentas, favoráveis a um desenvolvimento físico, social e espiritual harmonioso». À semelhança da organização humanitária portuguesa, também a Cáritas Europa emitiu um documento para assinalar o «Dia da Criança», no qual alerta para os 25 milhões de menores que na União Europeia «vivem em risco de pobreza ou exclusão social».

«A pobreza infantil e, às vezes, a pobreza extrema, também existem na União Europeia (UE) hoje. Isso é uma vergonha para a UE e a situação deve ser enfrentada como assunto prioritário», destaca Jorge Nuno-Mayer, secretário-geral da Cáritas Europa. Para este responsável, a pobreza infantil é mais do que não ter dinheiro suficiente, é também «não viver numa habitação decente, ou não ter acesso à educação de boa qualidade e aos serviços de saúde». «Trata-se de não ter as mesmas oportunidades para desenvolver ou participar no tipo de atividades recreativas e culturais apreciados por outras crianças», explica.

«Os governos nacionais e da UE têm uma clara responsabilidade de criar estruturas e mecanismos para desenvolver as estruturas políticas e fornecer os recursos necessários para evitar a pobreza infantil e para enfrentá-la onde já existe», considera o responsável. No mesmo documento, a Cáritas Europa convoca os governos da UE e Estados Membros «para que deem prioridade ao combate à pobreza infantil, e para que deem sinais evidentes no sentido de se construírem sociedades mais inclusivas, onde todas as crianças possam ter a possibilidade de realizar seu pleno potencial».

19.2.12

Stress, violência e assédio serão principais factores de absentismo laboral a partir de 2014

in Publico on-line

Os factores de risco psicossociais, como stress, violência e assédio moral ou sexual serão, a partir de 2014, a principal causa de absentismo laboral em Portugal, afirmou hoje um responsável da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).

Segundo Luís Nascimento Lopes, Coordenador Executivo para a Promoção da Segurança e Saúde no Trabalho da ACT, aqueles factores de risco “caminham muito rapidamente” para se assumirem como o principal problema do absentismo do local de trabalho em Portugal, ultrapassando as lesões musculares, que até há relativamente pouco tempo se pensava que continuariam a liderar o ranking pelo menos até 2018 ou 2020.

Luís Lopes sublinhou que, sobretudo por causa da crise, “as previsões alteraram-se radical e drasticamente”, pelo que a partir de 2014 os factores psicossociais deverão passar para o primeiro lugar.

Lembrou que estes factores, pelo carácter “quase íntimo” de que se revestem, “são muito difíceis de detectar” por alguém exterior à empresa ou instituição do trabalhador.

“Mais do que o médico do trabalho, quem os pode detectar e avaliar muito melhor é o colega do lado, já que um dos principais indicadores é a alteração comportamental”, referiu.

Admitiu, no entanto, que um dos grandes problemas para a detecção atempada dos factores psicossociais é a “falta de solidariedade” no local de trabalho.

Luís Lopes falava em Vila Nova de Famalicão, no decorrer do seminário “Factores de risco psicossociais no trabalho”, promovido pela Associação de Desenvolvimento Regional do Vale do Ave.

Sublinhou que, por este ser um problema emergente, o Comité dos Altos Responsáveis da Inspecção do Trabalho (CARIT) decidiu desenvolver, ao longo de 2012, a Campanha Europeia de Avaliação de Riscos Psicossociais, que em Portugal incidirá essencialmente sobre a área da saúde.

Para Luís Lopes, esta campanha tem “um enorme mérito”, por chamar a atenção dos inspectores do trabalho para estes riscos emergentes, mas também tem “uma fraqueza enorme”, por deixar de fora os médicos.

“Está amputada, é um cavalo de três pernas, não vai ganhar corrida nenhuma”, referiu.

No seminário participou também a investigadora Hermínia Lamy, que afirmou que na União Europeia os factores de risco psicossociais afectam 8% dos trabalhadores.

Os sectores mais vulneráveis são os da emergência (bombeiros, polícias), saúde, educação, bancário e a linha da frente do atendimento ao público.