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3.1.19

Mulheres indianas formam muro de 620 km pela igualdade de género

in o Observador

Cerca de cinco milhões de mulheres deram as mãos para lutar pela igualdade de género em Kerala, Índia. As mulheres indianas estão proibidas de entrar em monumentos religiosos por serem menstruadas.

De punhos erguidos, dezenas de milhares de mulheres indianas formaram um cordão humano com 620 quilómetros de comprimento. Esta foi a forma como estas mulheres começaram o ano de 2019, ao juntarem-se para lutar pela igualdade de género no estado de Kerala, no sul da Índia, na terça-feira.

Como conta a CNN, em causa está a proibição da entrada no templo hindu de Sabarimala a mulheres que estejam em idade de menstruação — intervalo definido pelo estado entre os 10 e os 50 anos. Isto porque, para a religião hindu, as mulheres menstruadas são consideradas impuras e, por isso, não lhes é dado o direito de participar em rituais religiosos.

Em setembro passado, o Supremo Tribunal da Índia pôs fim a essa lei histórica, declarando-a inconstitucional. Ainda assim, as mulheres que queiram entrar no templo são muitas vezes atacadas por manifestantes da ala religiosa, que querem dar continuidade à lei.

O primeiro-ministro Narendra Modi, do partido nacionalista que está no poder, Bharatiya Janata Party (BJP), chegou a afirmar que a decisão do Supremo Tribunal vai contra os valores do hinduísmo e quer continuar a banir esse direito às mulheres indianas. Isto junta-se ao facto de o deus Ayyappa, cuja casa é aquele templo, ter feito um juramento de celibato.

Durante cerca de 15 minutos as indianas mantiveram-se unidas em protesto, num total de cinco milhões de mulheres que se espalhou pelas autoestradas do estado. O Supremo Tribunal irá reunir-se ainda este mês para ouvir petições e reavaliar a norma em questão.

Agora que entramos em 2019...
...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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16.8.17

"Um primeiro-ministro que foi vendedor de chá deu voz a milhões de jovens indianos"

Leonídio Paulo Ferreira, in Diário de Notícias

O português Constantino Xavier é investigador no Carnegie Índia, parte do Carnegie Endowment for International Peace, um think tank global, presente em mais de 20 países e criado no início do século XX através da doação de um magnata americano. Doutorado pela Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, Xavier tem estudado sobretudo a política externa indiana e a relação com os países vizinhos. Nesta entrevista por e-mail ao DN a partir de Nova Deli, mostra-se otimista com o futuro da Índia, que hoje celebra os 70 anos de independência.

Jawaharlal Nehru e o Mahatma Gandhi reconhecer-se-iam nesta Índia que tem a economia a crescer a 7% graças a reformas capitalistas, possui armas nucleares e é governada por Narendra Modi, líder de um partido nacionalista hindu?

Nehru e Gandhi não se reconheciam na Índia de 1947, nem Modi se reconhece na Índia de hoje. O país enfrenta imensos desafios e é a visão de uma Índia mais confiante, desenvolvida e poderosa que continua a guiar qualquer líder do país. Com Modi, aumentou a vontade de assumir riscos, de abraçar reformas cruciais no plano social, económico e militar, mas os objetivos são os mesmos: tornar a Índia um país desenvolvido, eliminando a pobreza.

O fracasso do Congresso nas últimas eleições significa uma derrota da ideia de Índia laica ou simplesmente o esgotamento da dinastia dos Nehru-Gandhi como líderes do partido que conduziu o país à independência faz agora 70 anos?

Representa, acima de tudo, a vontade do eleitorado jovem em ver um líder que representa uma nova Índia, jovem e confiante. Um primeiro-ministro que foi vendedor de chá, vindo de meios simples, deu voz aos milhões de jovens indianos que aspiram a ter uma oportunidade semelhante, de ascensão social e económica.

Com 1250 milhões de habitantes, a chamada maior democracia do mundo merece mesmo o título apesar do peso político das dinastias, dos partidos de casta ou regionais, do voto ordenado por caciques locais?

A Índia não só é a maior democracia do mundo, em dimensão, mas também o principal modelo para todos os países que procuram o desenvolvimento por via do pluralismo. O facto de, ao contrário da União Soviética, a Índia ter sobrevivido como projeto político apesar da sua imensa diversidade, reflete um imenso sucesso. A imensa maioria parlamentar do BJP acalmou a ansiedade do eleitorado em relação à instabilidade governamental que o país atravessava desde os anos 1990, com constantes mudanças de coligação. Por outro lado, há o perigo de a liderança carismática, a maioria esmagadora, e políticas centralizadoras se transformarem rapidamente em tendências autoritárias.

A grande diferença da Índia para o Paquistão, também nascido há 70 anos, é a ausência das forças armadas da política?

O cariz apolítico e apartidário das forças armadas indianas é um modelo para muitos países. Mas as diferenças para com o Paquistão também passam pela natureza laica do regime indiano, e pela capacidade agregadora do Estado. Ao contrário do Paquistão, em que as minorias têm emigrado em massa perante a rápida islamização do país, na Índia as minorias continuam a sentir-se seguras, pese embora ocasionais ameaças de grupos mais extremistas. Não é por acaso que a Índia continua a ser o único país da Ásia do Sul a atrair refugiados e minorias perseguidas de toda a vizinhança, com uma política de portas abertas, incluindo para os budistas tibetanos, os hindus do Bangladesh, e os rohingya muçulmanos do Myanmar.

Crê possível a paz entre indianos e paquistaneses ou a disputa sobre a soberania de Caxemira impossibilita-o?

A paz é já uma realidade porque tanto o Paquistão como a Índia sabem que será impossível alterar o status quo da fronteira provisória que separa a Caxemira. Ambos os países vão continuar oficialmente a reivindicar o território do outro, mas na prática assistiremos, mais cedo ou mais tarde, à partilha pacífica de Caxemira. A grande diferença é que, ao contrário da Índia, o Paquistão continua a apoiar grupos terroristas como instrumento de pressão sobre a Índia.

A Índia está a caminho de ser uma grande economia e grande potência. Acha possível que seja um dia parte de um triunvirato de superpotências junto com Estados Unidos e China?

O pensamento em Nova Deli hoje é menos como tornar a Índia numa superpotência mas como enfrentar um duplo desafio no horizonte imediato. Primeiro, como lidar com o declínio relativo dos EUA - acelerado com a eleição de Donald Trump - e dar continuidade a mais de quinze anos de aproximação estratégica indo-americana. Segundo, e de forma complementar, como lidar com uma China em ascensão, mais poderosa e agressiva para com os seus vizinhos, seja no mar do Sul da China ou ao longo da fronteira disputada com a Índia nos Himalaias. A questão fundamental estratégica indiana deixou de ser se a China é uma ameaça e passou a ser como lidar com a ameaça China.

Literatura, gastronomia, filosofia. Quanto vale o soft power indiano?

Vale o que o governo indiano for capaz de investir nele e assim transformar a imagem benigna da Índia em capital de influência no estrangeiro. Os chineses têm sido mais inteligentes nesse campo, e também com mais capacidade financeira. Se a Índia ficar simplesmente à espera que o mundo reconheça a sua extraordinária riqueza e diversidade cultural, pode ficar à espera sentada. De pouco vale a estrela de Bollywood Shah Rukh Khan se os europeus continuarem a aprender mandarim e a comprar produtos chineses.

O novo presidente indiano, Ram Nath Kovind, é um dalit, mas mesmo assim será prematuro dizer que as castas deixaram de importar na Índia?

As castas importam mais do que nunca na Índia, com um sistema político e educacional baseado nas quotas preferenciais para os grupos tradicionalmente mais discriminados. Isto leva a tensões entre os que defendem o interesse nacional, a longo termo, com critérios meritocráticos, e os que advogam maior intervenção estatal para estabelecer maior igualdade socioeconómica. Os empresários e empreendedores capitalistas tendem a defender a primeira abordagem, argumentando que o crescimento não pode estar preso a condições e critérios extra-económicos.

Qual o lugar de muçulmanos, cristãos e sikhs na Índia?

A Índia é o país com a segunda maior população muçulmana do mundo. Há quase três vezes mais cristãos na Índia do que em Portugal. Os sikhs são reconhecidos como um dos grupos mais empreendedores e dinâmicos. Mas há correntes ideológicas que defendem um lugar especial para o hinduísmo na Índia, e que nesse sentido advogam políticas discriminatórias para as minorias religiosas. Conter essa linha nacionalista hindu será um dos principais desafios para Modi que tem repetidamente sublinhado que a Índia é um país com uma constituição secular e que preza a não violência.

Como vê o futuro de Goa? Legado português sobrevive ou está condenado a desaparecer?

O desafio para Lisboa não é tanto preservar o legado português em Goa, e um pouco por toda a Índia, mas renová-lo. As relações luso-indianas são ciclicamente minadas por correntes extremistas, entre saudosistas nostálgicos do regime colonial, por um lado, e antiportugueses primários, do outro. Para além de Fátima, fado e futebol, há um outro Portugal que começa agora a emergir na Índia, com uma imagem moderna passada por via de empreendedores nas artes e restauração, ou por via do cinema Bollywood.

Narendra Modi e António Costa parecem ter boa química, até pela troca de visitas recente a Nova Deli e a Lisboa. Portugal poderá beneficiar com uma nova relação com a Índia sem os empecilhos das memórias coloniais?

Portugal já está a beneficiar da nova abordagem indiana. Para além de Goa, são agora Nova Deli, Bombaim e Lisboa os alicerces da nova relação entre os dois países. É uma relação que ultrapassa o plano estritamente bilateral e foca também a importância de parcerias estratégicas em países terceiros, especialmente no mundo lusófono. Do lado indiano, há grande interesse em ver Portugal como um parceiro em Moçambique ou no Brasil.

Posso lhe pedir que sugira um livro, mesmo que só exista em inglês, que permita perceber melhor o que é esta nação-civilização Índia, que historicamente inclui Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka e Nepal?

The Idea of India, de Sunil Khilnani, capta bem a visão dos fundadores da Índia, em 1947, especialmente de Nehru. Serve de referência para perceber as linhas de continuidade e mudança com Modi.

Como imagina a Índia quando celebrar o centenário em 2047?

Teremos uma de duas Índias. Uma Índia com contínuas dificuldades económicas, subjugada perante uma China superpotência, e à procura de alianças pontuais com os EUA e outras potências para garantir alguma autonomia de Pequim. Ou uma Índia com níveis de desenvolvimento semelhantes aos do Portugal de hoje, um dos dois ou três centros de um sistema multipolar, ao nível da China e dos EUA e, acima de tudo, um modelo para outros países em África e na Ásia.