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10.2.21

Sem-abrigo recusa casa se for obrigado a separar-se da cadela

Salomão Rodrigues, in JN

Instituições recusam acolher sem-abrigo por este estar acompanhado da cadela.

Estão ambos ligados a um passado de abandono, a uma vida de sobressaltos, à margem de afetos e conforto. Luís Pereira, abandonado na infância pela família e a sua cadela Kika, resgatada de um canil, são o mesmo reflexo da vida madrasta que, agora, os tenta separar.

Luís, de 35 anos, ex-toxicodependente, viveu na rua, da generosidade alheia, conviveu com delinquentes e excluídos. Sentiu frio e desalento, mas contou sempre com a companhia da inseparável Kika, a cadela proveniente de uma associação em Santa Maria da Feira que decidiu adotar.

A Kika foi o elo mais forte que Luís encontrou para enfrentar adversidades e, garante o próprio, determinante para o abandono da toxicodependência, que se espera definitivo.

Recentemente resgatado da rua por amigos de uma associação, Luís quer uma nova vida. Deseja trabalhar e ter uma habitação onde possa viver.

Mas as oportunidades para acolher Luís têm excluído, todas elas, a presença de Kika. Condição que não aceita.

"Não é uma hipótese que eu pense aceitar", responde de imediato. "Estava cansado da droga, de amigos falsos e de certas pessoas quando decidi ir buscar a Kika. Tem sido a minha companhia, a minha família e não há palavras que consigam descrever os sentimentos que ela me transmite", justifica.

Luís recorda que, em todas a dificuldades, "ela esteve sempre comigo. Eu não a abandono e ela não me abandona".

Se mais razões fossem necessárias, lembra que, sem a sua amiga, tem "medo de cair novamente na droga".

"Quero muito ir para uma casa e ter um emprego, se possível trabalhar com animais que é das coisas que mais gosto. Mas não aceitarei nada disso se tiver que me separar da Kika", garantiu.

A pressão de um grupo de amigos dedicados ao voluntariado, junto das entidades de cariz social, resultou na colocação temporária de Luís e a sua cadela numa pensão da cidade da Feira.

Contudo, foi já sensibilizado para o facto de não poder levar Kika para uma instituição que o acolha.

"Não entendo como há instituições, algumas até de cariz religioso, que consigam deixar no abandono os animais, separando-os das pessoas às quais estão habituados. Não me parece justo", explicou.

Enquanto espera que seja encontrada uma solução para o futuro dos dois, Luís tenta que a sua exposição pública possa alertar e sensibilizar consciências.

"Não é só pela Kika e por mim que luto. É também por outros animais e outras pessoas que passam pela mesma situação e que deviam merecer mais atenção e serem ajudadas", concluiu.

"Coração na Rua" procura emprego e habitação

O grupo de amigos voluntários que constituem o "Coração na Rua" ajudou Luís a conseguir abrigo temporário e continua a fornecer parte da alimentação que este precisa. Agora, procura habitação e trabalho.

"O Luís quer mudar de vida, trabalhar e não ser vitimizado. O Estado não pode deixar de acompanhar um sem-abrigo, só porque este tem um animal de estimação, nem impedir que seja alvo de uma recuperação se o animal for um elemento importante nessa fase", considerou Ivo Gomes, do "Coração na Rua".

5.11.12

Albergues do Porto estão lotados e os pedidos de refeições aumentaram 15%

in Jornal de Notícias

Os dois albergues noturnos do Porto que ajudam os sem-abrigo a ter cama, "kit" de higiene e alimentação estão lotados e a distribuição de refeições mensais aumentou 15% em relação ao início do ano.

Em entrevista à Lusa, Miguel Neves, diretor técnico do Albergue D.ª Margarida Sousa Dias, e psicólogo de formação, explicou que desde maio de 2012 que a Associação dos Albergues Noturnos do Porto (AANP) está a distribuir mais "duas mil" refeições por mês em relação ao início do ano, o equivalente a mais "65 refeições diárias".

"Nos últimos três anos registámos um maior número de pedidos de apoio, quer a nível de alojamento, quer a nível de alimentação", observou Miguel Neves, acrescentando que o aumento de refeições foi desencadeada através de um plano de emergência alimentar, inserido na iniciativa do Instituto de Segurança Social.

Os pedidos de ajuda chegam via "institucional", mas também de pessoas particulares diretamente.

Na cidade do porto existem entre "500 a 1000" sem-abrigo, um número que se "tem agravado com a atual crise que estamos a ultrapassar", referiu o diretor técnico da AANP, distinguido, contudo que sem-abrigo, não é a mesma coisa que "sem-teto".

Os dois albergues noturnos do Porto, instituições particulares de solidariedade social (IPSS) sem fins lucrativos, um localizado em Campanhã e o outro na Rua Mártires da Liberdade - têm capacidade para dar alojamento a 82 sem-abrigo e estão "sempre lotados", disse Miguel Neves.

Homens de cerca de 40 anos, com habilitações literárias entre o 1º e o 2º ciclo, com problemas associados ao alcoolismo e à toxicodependência é o perfil da maioria dos cidadãos sem-abrigo que chegam ao Albergue Noturno do Porto D. Margarida Sousa Dias, o que está localizado na Rua Mártires da Liberdade, com capacidade para alojar 49 homens e 11 mulheres.

A crise financeira, e o consequente aumento do desemprego, traçam agora um perfil de sem-abrigo "mais heterogéneo", com o aparecimento de novos pobres que também pedem também ajuda, explicou o diretor técnico do albergue de D.ª Margarida Sousa Dias.

A AANP tem 10% de ex-utentes no quadro de pessoal, uma forma de dar esperança aos novos utentes daquela instituição de solidariedade, porque é uma forma de dar resposta de emergência social através de serviços de reabilitação e de inserção social.

O Porto, em termos estatísticos, é o segundo distrito a nível nacional com mais sem-abrigo, com Lisboa em primeiro lugar na lista.