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27.4.23

Saber muito para aprender

Miguel Esteves Cardoso, opinião, in Público


Há dois tempos nesta vida: o tempo em que aprendemos com os mais velhos e o tempo em que aprendemos com os mais novos.



O gosto de dividir tudo em dois é bom de mais para deixar aos simplificadores. Dizia Robert Benchley no ano em que nasceu a Amália: “Existem neste mundo duas classes de pessoas: aquelas que estão constantemente a dividir as pessoas em duas classes, e aquelas que não fazem isso”.

Há dois tempos nesta vida: o tempo em que aprendemos com os mais velhos e o tempo em que aprendemos com os mais novos.



Claro que, quando somos crianças, também aprendemos muito com as outras crianças, mas aquilo que se aprende — aquilo que os adultos não nos querem ensinar, como a arte de fazer fisgas — não tende a sobreviver para além da meninice.

Há um nítido período de transição — aí aos 14 anos — em que deixamos de aprender exclusivamente com os mais velhos e começamos a aprender com as pessoas mais ou menos da nossa idade. Ora, isto é muito mais agradável.

Lembro-me do horrível que é aprender com os mais velhos: só porque sabem tudo, têm a mania que sabem tudo.

Ensinam com aquele cansaço de sabichão, fartos de repetir sempre as mesmas cantilenas, e sabendo de antemão que poucos vão reter — e tresler — aquilo que disseram.

A progressão natural é simples: dos mais velhos aos da mesma idade, e dos da mesma idade aos mais novos.

Ainda é mais desagradável aprender com os mais novos, porque também têm a mania que sabem tudo — só que nós, sendo mais velhos e tendo mais experiência, temos a certeza absoluta que não sabem.

Muitos velhos recusam-se a aprender com os jovens porque eles sabem necessariamente pouco. Não interessa. O que interessa é que o pouco que sabem é bom e, mais importante ainda, o pouco que sabem é precisamente aquilo que não sabemos.

Nem temos outra maneira de saber. É que para saber o que os jovens sabem é preciso ser jovem (ter o espírito aberto, estar à procura de coisas novas e boas): ou seja, é preciso saber pouco.

Já para aprender com os jovens é preciso ser velho — e saber muito.

É muito triste não aproveitar.

14.12.20

Aprendizagem ao longo da vida e requalificação são os desafios do futuro no trabalho

Francisco de Almeida Fernandes, in Expresso

Projetos Expresso. Formação no ensino superior não é, hoje, garantia de emprego e salário razoável. A reconversão de trabalhadores será essencial para fazer face aos desafios do presente e do futuro. Estas foram algumas das conclusões do debate “Emprego e inclusão social em contexto de covid-19”, organizado esta tarde pelo PO ISE em parceria com o Expresso

Desde 2014, o Programa Operacional Inclusão Social e Emprego (PO ISE) conseguiu apoiar, em articulação com instituições como o IEFP, mais de 900 mil pessoas. “Quer isto dizer que um em cada dez portugueses já foi apoiado por qualquer medida do PO ISE”, afirma Domingos Lopes, responsável pelo programa, que defende a manutenção da aposta na formação, no apoio à criação de emprego e no combate à exclusão social no próximo quadro comunitário. O PO ISE permitiu, explica, atingir alguns dos objetivos a que se propunha antes do prazo estipulado, em 2023, e contribuir para a redução do desemprego.

As conquistas conseguidas ao longo dos últimos seis anos não seriam, contudo, possíveis sem o financiamento do Fundo Social Europeu, mas estão hoje em risco pelo cenário económico e social negativo potenciado pela crise pandémica. Para a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, “estes fundos são cada vez mais determinantes no momento em que vivemos” para a “promoção da inclusão, da igualdade de oportunidades, do acesso ao mercado de trabalho e às qualificações”.

As vitórias do passado e as linhas orientadoras para a utilização do apoio comunitário foram temas centrais no debate “Emprego e inclusão social em contexto de covid-19”. A conversa, promovida esta quarta-feira pelo PO ISE em parceria com o Expresso, juntou à mesa Domingos Lopes (PO ISE), Ana Vieira (CCP), Ana Coelho (IEFP) e Sandra Ribeiro (CIG), contando com discurso de encerramento de Ana Mendes Godinho.

Conheça as principais conclusões:

Fundo Social Europeu (FSE) é um instrumento “poderoso”
Através do financiamento europeu, o PO ISE conseguiu atingir, em dezembro de 2019, metas definidas para 2023 – o aumento da taxa de emprego da população ativa para 75% e a redução, em mais de 500 mil, do número de pessoas em risco de pobreza.
“O FSE é um instrumento muito poderoso e importante para o IEFP, porque as políticas ativas do mercado de trabalho são muito dispendiosas”, explica Ana Coelho. A vogal do Conselho Executivo lembra o contributo do fundo à formação profissional, que permitiu baixar drasticamente as taxas de abandono escolar verificadas nos anos 90.
“O PO ISE tem sido fundamental para o incremento da igualdade de género e para trazer a matéria para a discussão pública”, aponta Sandra Ribeiro, sublinhando que ainda há um longo caminho a percorrer.

“Retrocesso” potenciado pela pandemia
Ana Vieira, da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, assume uma visão “muito pessimista” sobre a evolução da economia na reta final do ano e no primeiro semestre de 2021. “Estimamos que no setor do comércio poderão vir a fechar uma em cada cinco empresas”.
Em outubro, em comparação com o período homólogo de 2019, existiam 100 mil novos desempregados, número que Ana Vieira acredita vir a aumentar acima das previsões do Governo.
A representante da Comissão de Cidadania e Igualdade de Género considera que as mulheres têm sido mais afetadas pela crise pandémica do que os homens, em especial no desemprego e na acumulação de tarefas domésticas com o teletrabalho. “Seria muito triste que todos os progressos que conseguimos nos últimos anos tivessem um retrocesso”, lamenta Sandra Ribeiro.

Formação, reconversão e aprendizagem ao longo da vida
O FSE terá um papel que os especialistas consideram fundamental no apoio às medidas de formação profissional e reconversão que podem permitir minimizar os efeitos nefastos da pandemia no emprego e ajudar à reintegração de desempregados.
“A estratégia do FSE para o futuro já está definida: uma Europa mais digital, mais verde e mais inclusiva”, adianta Domingos Lopes, que pede maior rapidez de adaptação do país às exigências do mercado de trabalho.
Ana Vieira aponta que “ter um curso superior não basta, precisamos de ter qualificações e apostar muito nas soft skills orientadas para a criatividade e inovação”. A ação financiada pelo FSE nos próximos anos, defende, deve ter estas questões em conta nos projetos a desenvolver.

29.11.12

Quase metade dos adultos portugueses fez formação no ano passado

in Público on-line

Número de pessoas a participar em actividades de aprendizagem ao longo da vida foi superior a 2007. Em boa parte devido ao crescimento da educação não formal.

Quase metade dos adultos portugueses participou em actividades de aprendizagem ao longo da vida em 2011, revela o segundo inquérito à educação e formação de adultos do Instituto Nacional de Estatística (INE), publicado esta quinta-feira.

Das pessoas com idades entre os 18 e os 69 anos, 45,9% estiveram inscritas em actividades de educação, formação e aprendizagem. Um aumento de 17 pontos percentuais em relação aos 30,9% de 2007.

Segundo o INE, este aumento deve-se especialmente ao crescimento da participação nos programas de educação não formal – que ao contrário da formal não dá equivalência a um nível de escolaridade. No ano passado, 39,2% dos adultos fizeram dessas formações, contra os 15,4% que participaram nas de educação formal.

As taxas de participação mais elevadas em actividades de aprendizagem ao longo da vida, acima da média nacional, registaram-se no Algarve (48,3%), na zona Centro (47,5%) e na região de Lisboa (46,6%).

Entre os que não têm qualquer nível de escolaridade completo (8,6% dos portugueses entre os 18 e os 69 anos), 5,3% participaram em actividades de educação não formal. Já entre aqueles com formação superior, a taxa de participação foi de 74,1%.

Os dados recolhidos pelo INE revelam ainda que 51,5% da população activa participou em actividades de aprendizagem ao longo da vida durante o ano passado. Desses, 54,2% trabalhavam, 40,3% estavam desempregados.

No que diz respeito à educação formal, a população inactiva é a mais representada, sobretudo por causa dos estudantes. Ainda assim, durante o ano passado um em cada cinco portugueses desempregados frequentou actividades de educação formal.

Entre os que não frequentaram qualquer formação, quatro em cada dez apontaram vários obstáculos. O mais referido foi a falta de tempo (45,8%), seguido da falta de oferta próxima (15,3%) e o preço das formações (14,7%).

No entanto, 64,3% da população que participou em actividades de educação não formal referiu que a formação foi paga pela entidade empregadora e em 61,8% dos casos decorreu em horário de trabalho.

O inquérito decorreu entre Outubro de 2011 e Fevereiro de 2012. A amostra abrangeu 14.189 pessoas.