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2.11.20

Um quinto das crianças que não faz desporto diz que “é caro” praticar uma modalidade

Samuel Silva, in Público on-line

No 1.º ciclo, 60% dos alunos faz menos de duas horas de exercício por semana. Ministério da Educação estudou pela primeira vez a actividade física da população escolar.

“É caro” fazer desporto, queixa-se um quinto das crianças do 1.º ano que não faz exercício fora da escola, conclui um estudo pedido pelo Ministério da Educação que, pela primeira vez, mandou estudar a actividade física entre a população estudantil. Os resultados mostram também que as crianças dedicam poucas horas por semana ao exercício físico.

O “Inquérito aos Hábitos Desportivos da População Escolar Portuguesa”, publicado neste fim-de-semana pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), mostra que a generalidade dos alunos do 1.º ciclo faz algum tipo de desporto, seja de forma espontânea (89%) ou organizada (70%). O problema está na intensidade dessa actividade. Quase dois terços das crianças fazem menos de duas horas de exercício por semana.


Isto é, 40% das crianças pratica desporto entre uma a duas horas semanalmente. Outros 20% fazem exercício menos de uma hora em cada semana. Apenas 13% dos alunos do 1.º ciclo tem uma prática física mais intensa, de quatro ou mais horas.

Quando questionados sobre os motivos para não praticar desporto, as justificações dos alunos que não fazem exercício são surpreendentes. A resposta mais comum (26%) é a “falta de tempo”. E mais de um quinto (21%) dos alunos do 1.º ciclo diz que “é caro” praticar um desporto.

A justificação não surpreende o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção: “Isto não é para todas as famílias.” A inscrição num clube desportivo pode custar mais de 30 euros mensais. A esta verba é preciso acrescentar os custos de inscrição na respectiva federação, o exame físico obrigatório no início de época (entre 15 e 20 euros) e os gastos com os equipamentos de treino e competição, que também são suportados pelas famílias.

É preciso ter “alguma capacidade financeira” para, “além dos gastos familiares habituais”, ainda assumir os custos da prática desportiva organizada, sublinha Ascenção.

“Para as classes sociais baixa e média, o custo que é fazer actividade desportiva nos clubes não é suportável”, concorda Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa. Além disso, “falta disponibilidade aos pais para levar as crianças para ter actividade desportiva nos clubes”, acrescenta. A estes obstáculos junta-se ainda a visão “selectiva e não formativa” de muitos clubes, que fecham as portas a crianças com menos talento.

Pelo contrário, “na escola entra toda a gente”, sublinha este especialista em desenvolvimento físico nas crianças. “Portanto, devia ser uma obrigação pública, do Estado, que todas as crianças tivessem uma literacia motora, tal e qual como aprendem a ler, escrever e contar”, defende (ver entrevista ao lado).

No entanto, os resultados do inquérito da DGEEC mostram que, para os alunos do 1.º ciclo, não é a escola que se inverte a tendência de falta de exercício. Ainda que a generalidade dos estudantes (94%) tenha Expressão Física Motora, um domínio do currículo que pode ser trabalhado pelos professores titulares ou no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC), a frequência de aulas desta disciplina é reduzida. Para a esmagadora maioria – entre 80 a 90%, conforme o ano de escolaridade em que se encontram – o desporto ocupa apenas 30 a 60 minutos da sua semana na escola.

É no 4.º ano que os alunos conseguem ter mais tempo dedicado ao exercício em contexto escolar: 16% tem mais de uma hora de Expressão Física Motora por semana. Ainda assim, 5% dos alunos mais velhos do 1.º ciclo tem menos de 30 minutos semanais desta disciplina. Pelo contrário, no 1.º ano, só 4% dos alunos têm mais de uma hora em cada semana, ao passo que 6% só têm meia hora de Expressão Física Motora nos seus horários.

Este cenário evolui positivamente nos anos de escolaridade seguintes – o estudo da DGEEC que agora é publicado tem um segundo volume dedicado à actividade física entre os alunos do 2.º e 3.º ciclos e do ensino secundário. A generalidade (sempre acima dos 80%) dos alunos destes níveis de ensino tem aulas de Educação Física duas vezes por semana. No entanto, a frequência vai diminuindo à medida que estes avançam no seu percurso escolar. No 2.º ciclo, só 1% dos inscritos tem Educação Física uma vez. No ensino secundário, varia entre 12 e 14% o número de alunos que só faz exercício em contexto de aula uma vez por semana.

Esta foi a primeira vez que um organismo tutelado pelo Ministério da Educação estudou os hábitos desportivos da população escolar. Na base deste trabalho está um questionário escrito que foi aplicado aos alunos do 1.º ao 12.º ano, envolvendo uma amostra representativa de alunos das várias regiões do país. Os dados que agora são publicados em dois volumes são relativos ao ano lectivo 2016/17. A intenção da tutela é de que esta avaliação seja agora repetida a cada quatro anos. Ou seja, o estudo será novamente realizado no ano lectivo que está em curso.

Os resultados deste inquérito dão também dados sobre as actividades físicas e desportivas mais comuns entre os estudantes, que são bastante diferentes em função de a actividade ser informal ou organizada, no âmbito de um clube desportivo. A actividade física informal preferida dos alunos do 1.º ciclo é andar de bicicleta (21%). Curiosamente, este é também a modalidade mais desejada (15%) pelos alunos que não praticam exercício fora da escola. Seguem-se nas preferências caminhar (17%), correr (15%) e jogar futebol (14%).

Já quando a prática desportiva é organizada é a natação (21%) a mais popular. Seguem-se o futebol (17%), a ginástica (14%) e a dança (11%). Os dados revelam uma forte diferenciação por sexo. A natação é o desporto mais paritário (praticado por 26% das raparigas e 21% dos rapazes), enquanto o futebol é uma prática eminentemente masculina (jogado por 30% dos rapazes e só 5% das meninas). Na dança dá-se o fenómeno inverso: 22% entre as alunas e só 3% de alunos.

Actualização 12h34: Corrige o título e entrada. Não é um quinto dos estudantes que não pratica desporto porque “é caro”, mas um quinto dos que não o faz justifica-o com esse motivo.

1.6.20

Alimentação e actividade física mudaram durante o confinamento – para pior nas classes mais desfavorecidas

José Volta e Pinto, in Público on-line

Estudo da Direcção-Geral da Saúde indica uma em cada três pessoas sentiu insegurança alimentar durante o confinamento. Quase metade dos portugueses mudou hábitos alimentares e três em cada cinco tiveram níveis baixos de actividade física.

As semanas de confinamento fizeram com que quase metade dos portugueses tenha alterado hábitos alimentares e levaram a mudanças nos índices de actividade física. As pessoas em piores contextos socioeconómicos foram as mais afectadas negativamente: uma em cada três sentiu insegurança alimentar.

Estes são alguns dos dados do inquérito levado a cabo pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) sobre alimentação e actividade física em contexto de contenção social, que vem reforçar a diferença de realidades vividas durante a pandemia.

Dos quase 5900 inquiridos, 32,3% sentiram dificuldade em ter disponíveis alimentos devido a problemas financeiros, sendo que 33,7% reportaram preocupação quanto ao acesso aos alimentos no futuro e 8,3% afirmaram que já estavam com dificuldades económicas. A região do Alentejo foi a que teve maior percentagem de pessoas com insegurança alimentar (45%), seguida dos Açores (44,5%), do Algarve (41,2%) e da Madeira (39,4%). Nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte, 31,8% disse ter sentido dificuldades, 29,8% na região do Centro.

Ao PÚBLICO, Maria João Gregório, directora do Programa Nacional de Promoção da Alimentação Saudável realçou que a situação económica é um dos factores que explica a existência de dois padrões distintos nas alterações de consumo.

Além das alterações na alimentação e na actividade física, também foi estudado o acesso a informação relacionada com a pandemia, a informação sobre outros campos da saúde e a orientações da DGS.
O cruzamento das três variáveis permitiu desenvolver um “padrão de risco para a saúde”, que verificou uma maior frequência de pouca actividade física, tendência de alimentação não saudável e desconhecimento das indicações da DGS a pessoas em situações financeiras “difíceis ou muito difíceis” com um menor nível de escolaridade.

Por outro lado, a adopção de comportamentos benéficos para a saúde – melhoria na alimentação e mais actividade física – e o conhecimento das normas da DGS, características do “padrão protector da saúde”, estão associados a uma boa situação financeira e a maior nível de escolaridade.
Para a directora do Programa Nacional de Promoção da Actividade Física, Marlene Nunes Silva, esta “polarização” evidenciada nos dados mostra bem as “iniquidades sociais vincadas” que existem. “O confinamento foi vivido de forma muito diferente em condições socioeconómicas distintas”, afirma.

Idosos: quais as orientações para uma alimentação saudável que diminua as consequências de uma infecção?
Ida às compras foi o comportamento que mais mudou

O estudo da DGS, que contou com o Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, teve como objectivo “conhecer os comportamentos alimentares e de actividade física dos portugueses” durante o período de isolamento no combate à pandemia.

Na alimentação, 45,1% dos inquiridos assumiram que alteraram hábitos alimentares – 58,2% para melhor e 41,8% para pior. A principal razão para esta mudança (34,3%) foi a alteração do número de idas às compras, seguida da alteração de apetite (19,3%) e de mudanças provocadas pelo stress (19,3%). Diferentes horários de trabalho, também associados ao teletrabalho, contribuíram em 17,6%.

A ida às compras foi, aliás, o comportamento que mais inquiridos disseram ter alterado, com 71% a ter alterado o número de idas ao supermercado. Quase 57% das pessoas disseram ter passado a cozinhar mais. Maria João Gregório explicou que o teletrabalho, aliado “menos estímulos de oferta alimentar” exterior, contribuíram para este aumento.

A nutricionista explicou que foi possível identificar um padrão alimentar saudável (18,2% dos inquiridos), em que se verificou um aumento no consumo de fruta, hortícolas e pescado; um padrão não saudável (10,8%), caracterizado por um aumento no consumo de refeições pré-preparadas e de take-away, snacks salgados e refrigerantes e numa diminuição da ingestão de frutas e hortícolas. No caso de pessoas em risco de segurança não alimentar, esta percentagem subiu para 13,8%.

Maria João Gregório realçou também o sucesso do combate à “desinformação que acabou por acontecer” quanto à relação entre a alimentação e o risco de contágio de covid-19. Questionados sobre se tinham começado a tomar vitaminas ou suplementos para diminuir o risco de contrair o vírus, 79,8% dos inquiridos responderam negativamente, e 76% também não começou a ingerir alimentos com esse propósito.

Actividade física mudou nos extremos
O Barómetro Nacional de Actividade Física de 2017 indicava que 29,4% da população era pouco activa. Em tempos de confinamento, foi possível verificar um aumento para mais do dobro: 60,9% das pessoas tem níveis baixos de actividade física.

Em sentido contrário, verificou-se uma diminuição do número de pessoas com níveis elevados de actividade, de 39,9% no estudo de 2017 para 16,5% durante a pandemia.

O tempo que as pessoas ficaram confinadas também teve influência nos índices de actividade, com um “padrão diferente expressivo” por género sublinhado por Marlene Nunes Silva.

Nas mulheres, o inquérito concluiu que houve uma “diminuição no nível elevado de prática à medida que o tempo de confinamento aumentou” – 13,9% com até três semanas de confinamento para 9,2% com cinco ou mais semanas.
Nos homens, foi observada “uma diminuição da prevalência da categoria ‘pouco activo’ naqueles que estão há mais tempo no confinamento, de 64,6% quando o confinamento durou até três semanas para 56,4% quando durou cinco ou mais.

Entre as principais actividades praticadas, a caminhada (32,3%), as actividades de fitness (25,4%) e os treinos de força (18%) foram as mais referidas.
Marlene Nunes Silva chamou também a atenção para dinâmicas que vale a pena “perceber melhor”, como o caso de a limpeza doméstica ser a actividade física integrada no quotidiano com maior disparidade de género: 86,7% nas mulheres, 51,1% nos homens. Nesta categoria de actividades físicas não estruturadas, 50% dos portugueses mencionaram ainda de subir e descer escadas, uma acção que, em barómetros anteriores, não tinha relevância estatística.

Um dado que também “espantou” a directora Programa Nacional de Promoção da Actividade Física foi a grande percentagem de população que indicou, “como actividade em comportamento sedentário”, ver televisão – 70%, a principal actividade, à frente da utilização de computadores, tablets e telemóveis (60,6%).