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4.9.20

“Foram adotadas medidas fiscais sem precedentes”, diz OCDE

Ana Sofia Santos, in Expresso

Relatório sobre políticas fiscais conclui que as iniciativas dos vários governos, ao nível dos impostos, foram importantes para dar um balão de oxigénio às empresas e às famílias

Adiar o pagamento de impostos liderou as medidas fiscais levadas a cabo pelos diferentes países para mitigar os efeitos da pandemia de covid-19 na atividade económica. Aliás, a este nível não há grandes diferenças nas estratégias seguidas pelos governos, segundo um levantamento feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

O relatório anual da OCDE sobre as tendências internacionais ao nível da tributação – ‘Tax Policy Reforms 2020 OCDE e economias parceiras’ – frisa que a política fiscal é uma parte “importante” das estratégias para restaurar as finanças públicas de uma forma “justa e sustentável” após a crise atual.

Divulgado esta quinta-feira, o documento contém um capítulo onde são analisados os auxílios criados para conter a crise provocada pelo novo coronavírus – ‘Tax and Fiscal Policy Responses to the Covid-19 Crisis’ – que “mostra que foram tomadas medidas políticas rápidas e significativas em resposta à crise. Embora o tamanho dos pacotes fiscais tenha variado, na maioria dos países esta ajuda foi significativa, com alguns governos a avançarem com medidas sem precedentes”.

A prorrogação dos prazos para cumprir obrigações fiscais foi ‘ferramenta’ mais popular para aliviar as tesourarias dos empresários, com “mais de três quatros dos países da OCDE e economias parceiras” a permitirem aos contribuintes saldarem as faturas mais tarde. Portugal inclui-se no grupo: entre as medidas fiscais para ajudar as empresas e os trabalhadores independentes a enfrentar o impacto que o confinamento teve nas suas atividades, o Governo de António Costa criou o regime excecional e temporário de cumprimento de obrigações fiscais. Este ‘instrumento’ que permitiu fracionar os pagamentos (em prestações de três ou de seis meses, sem juros) teve a adesão de 94.066 contribuintes, dos quais 78% empresas, indicou recentemente ao Expresso o Ministério das Finanças. Ao todo, o valor do IVA (mensal ou trimestral) e das retenções na fonte de IRS e de IRC que estão a ser liquidados faseadamente ascende a 1.321 milhões de euros.

EMPRESAS SEDEADAS EM PARAÍSOS FISCAIS RISCADAS DOS APOIOS

A OCDE menciona ainda que houve países que centraram os apoios em determinados sectores de atividade, como o turismo e a aviação, mas que outros não fizeram essa diferenciação. No caso de Portugal há ajudas específicas para os sectores mais afetados pela pandemia e no que toca ao diferimento do pagamento de impostos houve balizas com base no volume de faturação (o limite foram 10 milhões de euros, superável nos casos em que as empresas tivessem uma quebra de faturação acima dos 20%). Outra medida adotada pelo Governo português foi a suspensão temporária da entrega do pagamento por conta do IRC para as empresas classificadas como micro, pequenas ou médias (PME) e para as cooperativas. Tal como Portugal, muitos outros países bloquearam o acesso aos apoios no âmbito da covid-19 às companhias sedeadas em paraísos fiscais.

De acordo com a OCDE, muitos dos pacotes fiscais de combate à crise incluíram também prorrogações nas contribuições para a segurança social, bem como nos prazos de entrega de declarações de impostos. Mais uma vez, Portugal seguiu também o mesmo caminho. “São medidas relativamente fáceis de alargar a partir do momento que são adotadas e que provaram ser eficazes na manutenção da liquidez das empresas e das famílias”, considera a OCDE.

Entretanto, as estratégias mais recentes sugerem que a fase de retoma “será suportada, em muitos países, por políticas fiscais expansionistas [em que se aumenta a despesa pública e se reduzem os impostos], incluindo apoios ao investimento e ao consumo e a continuação do auxílio atual às famílias e às empresas”.

Sobre a época pós-covid 19, a organização internacional faz notar que é expectável que os países alterem as suas políticas fiscais relançando ferramentas antigas, mas também introduzindo novas formas de impostos. Reforçar os esforços para dar resposta aos desafios colocados pela digitalização da economia, a introdução de um imposto corporativo mínimo, o reforço da progressividade do sistema fiscal e o agravamento da tributação do carbono são algumas das tendências identificadas.

APROVEITAR PARA MUDAR O MODELO ECONÓMICO

O relatório deste ano cobre 40 países, incluindo todos os que integram a OCDE (à exceção da Colômbia, que se tornou membro após a recolha dos dados), bem como a Argentina, China (pela primeira vez), Indonésia e África do Sul.

“Os governos devem continuar a usar as ferramentas fiscais para apoiar os negócios e as famílias afetadas [pela crise] (…), além de garantir que estas medidas estão ser dirigidas para onde é necessário e que serão lentamente retiradas quando a situação melhorar”, defende Pascal Saint-Amans, diretor do centro da OCDE para a política fiscal, numa nota introdutória do relatório.

Na sua opinião, assim que a retoma esteja em marcha os líderes políticos devem transitar da gestão de crise para as necessárias reformas estruturais, “mas têm que ser cuidadosos para não agirem de forma prematura e prejudicarem a recuperação”.

Para Pascal Saint-Amans estamos perante uma oportunidade “para tornar a economia mais amiga do ambiente, mais inclusiva e mais resiliente. Em vez de, simplesmente, regressar ao modelo de sempre”.

Uma das prioridades “é acelerar a reforma dos impostos ambientas”, sinaliza o responsável, até porque atualmente “a tributação sobre os combustíveis poluentes está muito distante dos níveis necessários para promover uma mudança para energias limpas”.

Por outro lado, os governos também devem prosseguir políticas que promovam uma justa repartição da carga fiscal. Esta crise fez luz sobre a permanência de grandes desigualdades, sustenta Pascal Saint-Amans: “no que toca a baixos salários as mulheres e os mais jovens são mais afetados, enquanto os trabalhadores em part-time, em regime temporário e independentes representam até metade da força de trabalho dos sectores mais gravemente afetados [pela crise]”.

O especialista em política fiscal aponta ainda que, assim de os países saírem desta crise e as economias recuperarem, os governos vão começar a trabalhar para restaurar as finanças públicas. Porém, “subir os impostos sobre o trabalho e sobre o consumo como aconteceu após a crise financeira de 2008 poderá ser difícil politicamente e, em muitos casos, não é desejável do ponto de vista da equidade”. Por isso, há que “encontrar fontes de receitas alternativas” e, neste campo, sustenta Pascal Saint-Amans, os impostos sobre o imobiliário e sobre o capital terão um papel importante, “principalmente num contexto de melhorias significativas ao nível da transparência fiscal internacional”.

23.5.13

Oxfam apela a maior luta contra paraísos fiscais

por Lusa, editado por Ricardo Simões Ferreira, in Diário de Notícias

A organização Oxfam, que na terça-feira denunciou perdas de 120 mil milhões de euros para os cofres dos governos devido aos paraísos fiscais, lamentou hoje a "tímida ambição" da União Europeia (UE) no combate à fraude e evasão fiscal.

Saiba quais são e como funcionam os paraísos fiscais no mundo:

Veja o gráfico em página inteira.

Os líderes dos 27 "falharam ao não acordarem no estabelecimento de uma lista de paraísos fiscais e em impor sanções contra estes e contra quem faz uso deles", considerou a Oxfam, em comunicado, no mesmo dia em que se realizou a cimeira de chefes de estado e governo em Bruxelas.

Os chefes de Estado e governo comprometeram-se hoje em reforçar o combate à evasão e fraude fiscal, dando-se seis meses para realizar a troca automática de informação bancária entre os países.

Na terça-feira, esta organização não-governamental afirmou que os designados paraísos fiscais escondem 14 biliões de euros, o que significa uma perda de receita fiscal para os governos em torno dos 120 mil milhões de euros.

"Os líderes da UE na sua reunião deveriam colocar-se de acordo para agir de imediato de forma a acabar com a evasão fiscal, mas antes precisam colocar a sua própria casa em ordem", defendeu a organização, em comunicado.

A Oxfam especificou que dois terços do dinheiro colocado nos paraísos fiscais estão relacionados com a UE.

Os números da organização indicam que "dois terços dos fundos, cerca de 9,5 biliões de euros, estão em paraísos fiscais relacionados com a União Europeia".

A ONG disse que usou a lista dos EUA de paraísos fiscais, dos quais 21 estão relacionados com a UE, metade dos quais (10) com apenas um estado-membro, o Reino Unidos, para o caso, referindo-se a Anguila, Bermudas, Ilhas Virgens Britânicas, Caimão, Gibraltar, Guernsey, Ilha de Man, Jersey, Montserrat e Turks e Caicos.

"Em momentos como o atual, em que cidadãos de países ricos e pobres sofrem a austeridade devido aos défices dos orçamentos nacionais, esse dinheiro poderia proporcionar o financiamento de serviços públicos essenciais, como saúde e educação", considerou a organização.

A responsável da Oxfam para a UE, Natália Alonso, considerou "escandaloso" que os governos permitam esta situação, ao mesmo tempo que considerou que estas quantidades imensas de dinheiro em paraísos fiscais poderiam ajudar a acabar com a pobreza extrema no mundo.

Artigo Parcial

15.4.13

Ministros das Finanças da UE reforçam combate à evasão fiscal

in Jornal de Notícias

Os ministros das Finanças da União Europeia, reunidos este sábado em Dublin, concordaram em reforçar a luta contra a fraude e evasão fiscal, numa altura em que nove países defendem um sistema de partilha de informação bancária comum.

A luta contra a fraude e evasão fiscal dominou a agenda do último dia da reunião informal dos titulares da pasta das Finanças dos 27 Estados-membros (Ecofin), tendo sido defendida a necessidade de aplicar medidas num curto espaço de tempo.

"Ouvi [na reunião deste sábado] que os vossos Estados-membros querem antecipar a aplicação de novas regras para o reforço da cooperação administrativa e melhorar a transparência", afirmou o comissário europeu para os Assuntos Fiscais, Algirdas Semeta, em conferência de imprensa, no final do Ecofin.

O comissário disse que os Estados-membros pretendem também mandatos para negociar "acordos negociais mais duros com a Suíça e outros" países.

O tema foi debatido numa altura em que Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Polónia querem angariar os milhões de euros em impostos que todos os anos não são cobrados - um bilião de euros, segundo o comissário europeu - através da criação de um sistema de partilha de informação bancária comum.

Este sábado, a Holanda, a Bélgica e a Roménia anunciaram que também apoiam este projeto.

A Áustria é um dos países europeus que está na mira da iniciativa, por ser vista como o último paraíso fiscal da UE, depois do Luxemburgo, que bloqueou a legislação nesta área há vários anos, mas que se mostrou preparado para levantar algumas barreiras ao sigilo bancário a partir de 2015.

A luta contra a evasão fiscal também vai estar na agenda da próxima cimeira europeia, agendada para 22 de maio.

Na sexta-feira, primeiro dia do Ecofin, foi alcançado um acordo de princípio para a extensão, por sete anos, das maturidades dos empréstimos europeus concedidos a Portugal e à Irlanda.

No caso português, o acordo - que terá de ser aprovado em alguns parlamentos europeus, entre os quais o alemão - depende da conclusão bem-sucedida da sétima avaliação da 'troika' (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) à aplicação do programa de ajustamento.

19.7.12

Incentivo máximo no IRS para pedir facturas obriga a despesa mensal de 2228 euros

Por João Ramos de Almeida, in Público on-line

Para que os contribuintes beneficiem do máximo de incentivo ao combate à evasão fiscal, com uma dedução em IRS de 250 euros, o agregado familiar terá de gastar, em 2013, mais de 26 mil euros em reparação automóvel, alojamento, em restauração e cabeleireiros, algo como 2228 euros por mês. E a dedução só será sentida no reembolso de IRS enviado em 2014.

A criação do incentivo estava prevista no OE de 2012 (pedido de autorização legislativa) e foi ontem anunciada no âmbito das medidas para combater a economia informal.

Os contribuintes poderão, a partir de 1 de Janeiro de 2013, deduzir à colecta de IRS 5% do IVA suportado (23%) na aquisição dos serviços até um limite de 250 euros de dedução - ou seja, ter-se-á de efectuar uma despesa anual de 26.738 euros.

Face à dificuldade que a generalidade dos contribuintes sentirá em chegar aos 250 euros, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, admitiu ao PÚBLICO que tanto a taxa de 5% como o limite de 250 euros poderão ser ajustados, à medida que for sendo avaliada a sua eficácia. Tal como a administração fiscal espera, o contribuinte poderá segui-la a partir de 2013, através da Internet (ver caixa).

Inicialmente, e além do limite de 250 euros, o Governo previra um limite de dedução de 10 euros por cada compra. Para o conseguir, o contribuinte teria de realizar 25 aquisições de serviços, gastando, em cada uma delas, pelo menos 1069,56 euros. Mas esse limite, segundo explicou Paulo Núncio ao PÚBLICO, foi para tornar mais fácil ao contribuinte atingir o limite máximo de dedução. Mas ainda assim vão ser poucos contribuintes a beneficiar.

Pelas estatísticas de IRS de 2010, a despesa exigida é muito superior ao próprio rendimento médio dos contribuintes, de 16 mil euros anuais.

De acordo com o Inquérito às Despesas das Famílias 2010/11, recentemente divulgado pelo INE, a despesa média das famílias situou-se em 20 mil euros. Nas compras em cafés e restauração, o nível reduz-se para 2111 euros. Mesmo as famílias com um rendimento mais elevado - superior a 37.800 euros anuais - tinham uma despesa em hotelaria e restauração de apenas de 5169 euros.

Haveria outro aspecto que poderia fazer pôr em causa a eficácia do incentivo: o fim imposto pela troika às deduções dos dois escalões de maior rendimento. Mas o secretário de Estado garante que esta dedução está fora desses limites impostos.

Construção fica de fora

De fora do incentivo estão os serviços prestados pelo sector da construção civil, apontado como um cancro da evasão fiscal. Paulo Núncio explicou que se deveu ao facto de ser "uma medida inovadora" e que será aplicada à generalidade das actividades "de forma gradual". Uma fonte oficial adiantou que a principal dificuldade é prática: criar um incentivo de 5% sobre o IVA de serviços sem preços tabelados é ineficaz, porque é inferior ao "incentivo" que é não aplicar a taxa de 23% de IVA.

A ideia de criar um incentivo como este não é, porém, nova. Na década de 1990, falou-se dessa possibilidade. O Governo Durão Barroso anunciou-a. Na altura, deduzia-se ao IRS até 50 euros, relativos a 25% do IVA suportado. Em vão. Quase dez anos depois, volta-se à carga.

O incentivo foi anunciado no âmbito de um conjunto de medidas de combate à economia informal que, segundo Paulo Núncio, deverá tornar-se visível a partir de 1 de Janeiro de 2013. Passa pela obrigatoriedade da facturação na generalidade das actividades (independentemente de ser pedido pelo contribuinte) e pelo envio electrónico dos elementos das facturas pelas empresas à administração fiscal. Algo que se espera simplifique declarações das empresas e torne possível o pré-preenchimento pelo fisco das declarações de IVA, o fim dos anexos recapitulativos dos seus clientes. Tudo com a promessa de acelerar os reembolsos de IVA.

O Governo garante que no quarto trimestre de 2012 estarão operacionais os programas informáticos para as medidas anunciadas. Paulo Núncio espera que a informação recolhida dê um retrato mais completo das transacções realizadas na economia e que gerarão centenas de milhões de euros em IVA, até agora não entregue ao Estado.