Ana Baião, in Expresso,
O Bairro das Pedreiras, construído em 2005 em Beja, começou por ter 50 habitações, para um total de 250 pessoas. Atualmente tem cerca de 800, porque ao lado das casas foram aparecendo barracas, tendas e velhas rulotes, para albergar sobretudo filhos de moradores que se foram casando.
Segundo Prudêncio Canhoto, presidente da Associação de Mediadores Ciganos de Portugal, é a maior comunidade cigana em Portugal. Sem água, eletricidade ou saneamento, têm sido daí desenvolvidas várias iniciativas para explicar como os moradores se devem proteger. Até agora, ainda não houve qualquer caso de covid-19 no bairro. Esta segunda-feira, no âmbito do plano de desinfeção de vários locais públicos da cidade, foi a vez da desinfeção preventiva do Bairro das Pedreiras
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26.3.20
Um campo de “refugiados” às portas de Beja
Carlos Dias, in Público on-line
Cerca de 300 pessoas da comunidade cigana de Beja está concentrada numa área com cerca de meio hectare sem acesso a meios de higiene básicos teme o contágio por Covid-19.
Pior que a chuva, a lama e o frio no Inverno ou o calor e o pó no Verão. Pior que a falta de água, a ausência de condições de higiene e a partilha do espaço com cobras e ratos. Pior que tudo isto é o medo, o pânico que já se abateu sobre as famílias que habitam o bairro das Pedreiras em Beja, que antevêem a chegada do coronavírus às barracas e casas superpovoadas que formam a mais numerosa e concentrada comunidade cigana do país.
Nesta quarta-feira, as famílias ciganas recompunham com tábuas, toldos plásticos e todo o tipo de material que contribuísse para colocar de pé as barracas que sofreram danos causados pelo mau tempo que se registou em Beja no final da última semana. Mas no meio da azáfama, o medo que o vírus afecte os cerca de 800 adultos que vivem no bairro preenche todas as conversas e preocupações reveladoras do pânico que o “vírus desgraçado” está a provocar.
Sozinhos em cidades paralisadas por uma pandemia
O problema maior reside na inexistência de condições que assegurem os actos de higiene que estão a ser aconselhados à população. Um factor elementar impede a sua prática: o acesso à água. Cerca de 300 pessoas que residem em barracas dispõem de uma única bica colocada a uma distância de 100 metros do aglomerado. “Os moços são lavados mas não conseguimos evitar que se sujem na terra”, descreve ao PÚBLICO, Ofélia Barão, 28 anos e mãe de três filhos, dando conta da impossibilidade em manter “tanta criança sossegada dentro das barracas, onde os colchões onde dormem alternam com o espaço onde fazem lume para fazer a comida, os utensílios de cozinha, roupas e cobertores, sem espaço para a intimidade e conforto mínimo.
A proximidade entre barracas merece-lhe um comentário: “Estamos nas casas uns dos outros”. Nestas condições, o isolamento social é uma impossibilidade que tem associado o receio do contágio.
“Estamos todos em casa por causa do vírus”, refere João Agostinho da Silva, conhecido por Xau. Diz que a comunidade reclama, há semanas, a desinfecção das casas (no bairro das Pedreiras existe um núcleo de barracas e outro em alvenaria) mas “ninguém responde”. Admitindo que os serviços municipais não tenham pessoas para a tarefa, a comunidade já se disponibilizou para o fazer. “Mas não sabemos como nem que coisas se podem utilizar para matar o vírus”, adianta
Agostinho da Silva diz saber a ameaça que paira sobre a comunidade: “Se há um que apanhe a doença, apanhamos todos”. É comum esta preocupação a ponto de “até os próprios ciganos quererem sair do bairro”, criticando as autoridades municipais e de saúde: “Somos 800 pessoas abandonadas à sua sorte.”
Nos arredores da cidade de Beja, num sítio ermo onde as necessidades fisiológicas são feitas e deixadas a céu aberto, a comunidade cigana tem sido acompanhada pelo presidente da Associação de Mediadores Ciganos (ACM) Prudêncio Canhoto, que se insurge contra a falta de apoios e de esclarecimento. “Ninguém diz nada e ninguém ajuda a comunidade cigana”, queixa-se o dirigente da ACM que diz já ter alertado as autoridades para o problema, dando conta que “as pessoas estão em pânico”. Quanto a apoios: “Nada! Nadinha!”, acentua, lamentando que “nem os técnicos da Protecção Civil se deslocaram ao bairro em acções de sensibilização ou de esclarecimento. Não há alertas sequer.”
Além disso, acontece com a comunidade cigana o que acontece de um modo geral. “As pessoas querem comprar frascos de álcool, luvas e máscaras mas não encontram em lado nenhum, nem estes são fornecidos à comunidade que é um grupo de alto risco, pelo menos os que estão nas barracas”acentua o presidente da ACM, realçando um pormenor significativo: O bairro das Pedreiras “é a maior concentração de ciganos a nível nacional.” Noutros locais do país existirá um maior número de ciganos mas estão alojados em bairros juntamente com não ciganos.
Só em idade escolar o bairro tem mais de uma centena de crianças, fora as que estão no escalão etário até aos seis anos. Cerca de 60 são adolescentes entre os 15 e os 18 anos.
Reagindo às críticas formuladas tanto por moradores como pelo presidente do ACM, Paulo Arsénio, presidente da Câmara de Beja, referiu ao PÚBLICO que as crianças ciganas receberam informação nas escolas sobre actos de higiene. O problema é que, perante a ameaça de contágio, “os pais que tinham medo da covid-19 não permitiram que fossem à escola.”
Perante a ausência de informações prestadas ao bairro, o autarca sugere agora: “Como não há condições” para manter o distanciamento de dois metros, “sempre que saiam de uma barraca não devem aproximar-se de outras famílias.”
Problema maior está nas crianças: quem é que as vai manter sossegadas no interior de barracas? Paulo Arsénio, não vislumbra solução.
Cerca de 300 pessoas da comunidade cigana de Beja está concentrada numa área com cerca de meio hectare sem acesso a meios de higiene básicos teme o contágio por Covid-19.
Pior que a chuva, a lama e o frio no Inverno ou o calor e o pó no Verão. Pior que a falta de água, a ausência de condições de higiene e a partilha do espaço com cobras e ratos. Pior que tudo isto é o medo, o pânico que já se abateu sobre as famílias que habitam o bairro das Pedreiras em Beja, que antevêem a chegada do coronavírus às barracas e casas superpovoadas que formam a mais numerosa e concentrada comunidade cigana do país.
Nesta quarta-feira, as famílias ciganas recompunham com tábuas, toldos plásticos e todo o tipo de material que contribuísse para colocar de pé as barracas que sofreram danos causados pelo mau tempo que se registou em Beja no final da última semana. Mas no meio da azáfama, o medo que o vírus afecte os cerca de 800 adultos que vivem no bairro preenche todas as conversas e preocupações reveladoras do pânico que o “vírus desgraçado” está a provocar.
Sozinhos em cidades paralisadas por uma pandemia
O problema maior reside na inexistência de condições que assegurem os actos de higiene que estão a ser aconselhados à população. Um factor elementar impede a sua prática: o acesso à água. Cerca de 300 pessoas que residem em barracas dispõem de uma única bica colocada a uma distância de 100 metros do aglomerado. “Os moços são lavados mas não conseguimos evitar que se sujem na terra”, descreve ao PÚBLICO, Ofélia Barão, 28 anos e mãe de três filhos, dando conta da impossibilidade em manter “tanta criança sossegada dentro das barracas, onde os colchões onde dormem alternam com o espaço onde fazem lume para fazer a comida, os utensílios de cozinha, roupas e cobertores, sem espaço para a intimidade e conforto mínimo.
A proximidade entre barracas merece-lhe um comentário: “Estamos nas casas uns dos outros”. Nestas condições, o isolamento social é uma impossibilidade que tem associado o receio do contágio.
“Estamos todos em casa por causa do vírus”, refere João Agostinho da Silva, conhecido por Xau. Diz que a comunidade reclama, há semanas, a desinfecção das casas (no bairro das Pedreiras existe um núcleo de barracas e outro em alvenaria) mas “ninguém responde”. Admitindo que os serviços municipais não tenham pessoas para a tarefa, a comunidade já se disponibilizou para o fazer. “Mas não sabemos como nem que coisas se podem utilizar para matar o vírus”, adianta
Agostinho da Silva diz saber a ameaça que paira sobre a comunidade: “Se há um que apanhe a doença, apanhamos todos”. É comum esta preocupação a ponto de “até os próprios ciganos quererem sair do bairro”, criticando as autoridades municipais e de saúde: “Somos 800 pessoas abandonadas à sua sorte.”
Nos arredores da cidade de Beja, num sítio ermo onde as necessidades fisiológicas são feitas e deixadas a céu aberto, a comunidade cigana tem sido acompanhada pelo presidente da Associação de Mediadores Ciganos (ACM) Prudêncio Canhoto, que se insurge contra a falta de apoios e de esclarecimento. “Ninguém diz nada e ninguém ajuda a comunidade cigana”, queixa-se o dirigente da ACM que diz já ter alertado as autoridades para o problema, dando conta que “as pessoas estão em pânico”. Quanto a apoios: “Nada! Nadinha!”, acentua, lamentando que “nem os técnicos da Protecção Civil se deslocaram ao bairro em acções de sensibilização ou de esclarecimento. Não há alertas sequer.”
Além disso, acontece com a comunidade cigana o que acontece de um modo geral. “As pessoas querem comprar frascos de álcool, luvas e máscaras mas não encontram em lado nenhum, nem estes são fornecidos à comunidade que é um grupo de alto risco, pelo menos os que estão nas barracas”acentua o presidente da ACM, realçando um pormenor significativo: O bairro das Pedreiras “é a maior concentração de ciganos a nível nacional.” Noutros locais do país existirá um maior número de ciganos mas estão alojados em bairros juntamente com não ciganos.
Só em idade escolar o bairro tem mais de uma centena de crianças, fora as que estão no escalão etário até aos seis anos. Cerca de 60 são adolescentes entre os 15 e os 18 anos.
Reagindo às críticas formuladas tanto por moradores como pelo presidente do ACM, Paulo Arsénio, presidente da Câmara de Beja, referiu ao PÚBLICO que as crianças ciganas receberam informação nas escolas sobre actos de higiene. O problema é que, perante a ameaça de contágio, “os pais que tinham medo da covid-19 não permitiram que fossem à escola.”
Perante a ausência de informações prestadas ao bairro, o autarca sugere agora: “Como não há condições” para manter o distanciamento de dois metros, “sempre que saiam de uma barraca não devem aproximar-se de outras famílias.”
Problema maior está nas crianças: quem é que as vai manter sossegadas no interior de barracas? Paulo Arsénio, não vislumbra solução.
13.11.19
Comunidade cigana é tema de debate em Beja
in A Planície.pt
“Sobrevivendo e Resistindo: comunidades ciganas, racismo e habitação” é o tema de debate que vai ter lugar em Beja.
A Escola Superior de Educação de Beja vai ser palco de uma mesa redonda sobre o tema: “Sobrevivendo e Resistindo: comunidades ciganas, racismo e habitação”, organizada pelo Núcleo Distrital de Beja da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN).
João Martins da organização do evento explicou que “a rede Europeia tem núcleos distribuídos por vários países que tem como objectivo sinalizar sinais de pobreza e a exclusão social. Vamos debater o acesso a uma habitação digna é uma condição essencial para a promoção e inclusão social de qualquer pessoa. Por isso a EAPN Portugal tem, nos últimos anos vindo a centrar a sua atenção na sensibilização da comunidade para as questões da precariedade habitacional extrema em que vivem muitas pessoas ciganas em Portugal, designadamente no distrito de Beja. Persistem ainda várias situações de exclusão habitacional para algumas famílias, exclusão esta que acaba por se repercutir no acesso a outros direitos básicos de cidadania.”
Este é um problema complexo, que importa (re)conhecer e que exige a cooperação entre poderes públicos, sociedade civil e os moradores locais. Assim o debate vai ter lugar no próximo dia 25 deste mês às 15h, na Escola Superior de educação de Beja.
“Sobrevivendo e Resistindo: comunidades ciganas, racismo e habitação” é o tema de debate que vai ter lugar em Beja.
A Escola Superior de Educação de Beja vai ser palco de uma mesa redonda sobre o tema: “Sobrevivendo e Resistindo: comunidades ciganas, racismo e habitação”, organizada pelo Núcleo Distrital de Beja da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN).
João Martins da organização do evento explicou que “a rede Europeia tem núcleos distribuídos por vários países que tem como objectivo sinalizar sinais de pobreza e a exclusão social. Vamos debater o acesso a uma habitação digna é uma condição essencial para a promoção e inclusão social de qualquer pessoa. Por isso a EAPN Portugal tem, nos últimos anos vindo a centrar a sua atenção na sensibilização da comunidade para as questões da precariedade habitacional extrema em que vivem muitas pessoas ciganas em Portugal, designadamente no distrito de Beja. Persistem ainda várias situações de exclusão habitacional para algumas famílias, exclusão esta que acaba por se repercutir no acesso a outros direitos básicos de cidadania.”
Este é um problema complexo, que importa (re)conhecer e que exige a cooperação entre poderes públicos, sociedade civil e os moradores locais. Assim o debate vai ter lugar no próximo dia 25 deste mês às 15h, na Escola Superior de educação de Beja.
31.7.18
Em busca dos ciganos do Baixo Alentejo - agora já os conhecemos um a um
Carlos Dias, in Público on-line
Entre 2010 e 2018 a população cigana no distrito de Beja aumentou 80%. Cerca de 70% vive em casas de alvenaria, 17% em barracas e 13% em tendas ou roulottes. As situações mais problemáticas afectam as comunidades de Beja, Moura, Serpa e Vidigueira.
Os números nunca batem certo quando se fala de cidadãos ciganos residentes em Portugal. O primeiro estudo nacional, baseado nas informações prestadas pelas autarquias e apresentado pelo Alto-Comissariado para as Migrações em Maio de 2017, apontava para 37 mil indivíduos. Outros levantamentos efectuados anteriormente referem que o seu número poderia oscilar entre os 40 e os 60 mil. Estrada fora, foram agora conhecer, um a um, aqueles que moram no Baixo Alentejo. Contaram mais de 3600, ou seja, 2,4% da população da região.
As disparidades nos números têm dificultado a integração dos ciganos no Baixo Alentejo, sobretudo na cidade de Beja, onde os responsáveis autárquicos alegam que a capital do distrito está a ser “invadida” por famílias vindas dos concelhos vizinhos. O fenómeno, referem, dificulta uma avaliação sobre o número real de famílias residentes com vista a um futuro processo de realojamento dos que vivem em barracas ou tendas.
Contar, uma a uma, as famílias ciganas residentes nos 14 concelhos do Baixo Alentejo parecia, à partida uma tarefa ciclópica, sobretudo quando se sai dos centros urbanos para o espaço rural, onde se sabe que reside em condições muito precárias um desconhecido número de famílias desta etnia. Para alcançar um tal desiderato só tendo alguém que soubesse onde as comunidades vivem neste tão extenso território. Anselmo Prudêncio, dinamizador no Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza, conhecia a pessoa indicada: o presidente da Associação de Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC), Prudêncio Canhoto, que foi mediador municipal em Beja entre 2009 e 2016 e premiado em 2016 pela Associação Letras Nómadas como o “Cigano do ano”.
Os dois estabeleceram um roteiro que, à partida, garantia um levantamento credível e rigoroso das famílias ciganas no Baixo Alentejo. Pela primeira vez, iria ser possível fazer o seu recenseamento quantitativo e o registo fotográfico habitacional como forma de comprovar as condições habitacionais das comunidades. O PÚBLICO acompanhou os contactos feitos em quase todos os concelhos e observou aspectos de uma realidade que não entra nas contas dos gabinetes autárquicos ou da administração central. Pela primeira vez, estava a ser feito o primeiro trabalho do género no Alentejo que iria ser comparado com o estudo de Caracterização da População Cigana do Distrito de Beja realizado em 2010 pelo Centro Distrital de Segurança Social de Beja.
Este levantamento concluiu que a população desta etnia passou dos 2048 de indivíduos em 2010 para os 3619 que acabam de ser registados. Cerca de 70% vive em casas de alvenaria, 17% em barracas e 13% em tendas ou roulottes. Apenas o concelho de Cuba registou uma descida no número de elementos da comunidade cigana. Os restantes 11 concelhos apresentam um aumento. A maior subida foi em Beja, com mais 825 cidadãos ciganos em relação a 2010. E tudo indica que este crescimento se possa acentuar.
Beja, com 1399 ciganos, e Moura com 983, são os concelhos onde habitam mais famílias.
Realidades diferentes
O périplo começou pelos concelhos do sul do distrito - Almodôvar, Mértola, Odemira (não estão referenciadas famílias ciganas em Ourique). Em Mértola, as famílias ciganas vivem integradas e a viver do seu trabalho. Em S. João dos Caldeireiros, José Albino vende roupa nos montes do chamado Alentejo profundo “e tem fregueses certos”, refere a esposa enquanto regava as laranjeiras e os limoeiros que plantou num terreno que é seu, assim como a casa onde vive, mais umas quantas que estão na vizinhança. Tem um filho que explora um café/restaurante em Mértola e a esposa “não é cigana". Uma sua filha é funcionária na Câmara de Mértola.
Prudêncio Canhoto conhece os locais onde residem as famílias ciganas, mesmo nos sítios mais recônditos. Vivem dispersas, pelo concelho, 20 famílias ciganas (47 adultos e 30 crianças e jovens). Não habitam em barracas ou tendas, mas em casas próprias ou da autarquia. O cenário altera-se no concelho de Almodôvar.
Osvaldo Barão, 33 anos, trabalha numa empresa privada a cortar pasto para o gado e lamenta-se das condições em que vive: há uma década que todos os dias monta e desmonta uma tenda, onde dorme com a esposa e dois filhos menores. “Estou à espera de uma casita que o presidente [da câmara] me arranje”, diz, frisando que na terra de onde é natural não consegue que lhe aluguem uma habitação. A mãe de Osvaldo ironiza com a situação. “Nesta família somos todos Barões mas não parece”.
Mais a norte do distrito, em Alvito, a autarquia pretende que as famílias ciganas ocupem casas que estão devolutas no centro da vila. “Não queremos ostracizá-los”, garantiu ao PÚBLICO o presidente da Câmara, António Valério, assumindo que metade da renda “é suportada pela autarquia”. A solução proposta é a mesma que está a ser seguida na Vidigueira, um concelho marcado por constantes e problemáticos conflitos entre as comunidades ciganas, representadas pelas famílias dos Azuis e dos Cabeças, e a autarquia.
Os conflitos entre as duas famílias, que fizeram história, estão sanados mas persiste um contencioso com a autarquia da Vidigueira pelas precárias condições de alojamento a que as 49 famílias ciganas (101 adultos e 103 crianças e jovens) têm estado sujeitas há vários anos.
Dormir no restolho
No lugar da Travessa da Fonte, na periferia da Vidigueira, é difícil suportar o calor no interior das barracas. A cabeça bate nas chapas de zinco do telhado. “Está de queimar”, queixa-se o elemento mais velho das sete famílias ali residentes. Tem 60 anos e diz ter nascido naquele local. "À noite dormimos no restolho”, conta. Ninguém consegue estar nas barracas. “Os ciganos têm de abalar para onde haja uma fonte de água fresca e árvores com sombra”, explica Prudêncio Canhoto.
No interior da vila, o velho patriarca da família Azul perde-se a contar os filhos e netos. “Uma menina aqui. Dois meninos acolá. Mais seis moços ali, eu e a mulher. E ainda falta o mê manel”. Num casão apertado concentram-se cinco casais e mais 14 crianças. “Quando os colchões se estendem à noite chegam à porta da rua. Dormimos todos juntos sem qualquer privacidade”, sublinha uma jovem mãe, realçando as dificuldades de uma outra jovem que está grávida e suporta as dores no corpo em silêncio para não incomodar os outros quando dormem. Vivem todos os dias nestas condições que Miguel Ramalho, porta-voz da autarquia, reconhece serem deploráveis mas impossíveis de superar com os meios que o município dispõe.
O problema da habitação para a comunidade cigana e não cigana já motivou reuniões com a secretaria de Estado da Habitação e a câmara aguarda uma próxima com o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana. Mas enquanto as respostas não chegam, “a autarquia da Vidigueira vai pagando a renda das famílias que ocupam habitações alugadas”, sublinha Miguel Ramalho.
Em Serpa convivem dois mundos: o das famílias que vivem em situação precária e o das outras que conseguiram superar o problema da habitação construindo elas próprias a sua casa. Há um bairro com 31 habitações à saída da cidade onde convivem famílias ciganas, a maioria, com famílias não ciganas. Ao lado, um conjunto de barracas faz o contraste e alimenta o mal-estar e a revolta.
Mário José Barão que tem a sua casa em alvenaria, decorada com gosto e imaculadamente limpa, sublinha que “as casas não crescem, mas crescem as famílias”. Prudêncio Canhoto lembra que há uns anos, “as famílias tinham, em média, entre 8 a 10 filhos mas agora ficam por menos de metade”. Mesmo assim, e para os padrões da comunidade não cigana, “continua a ser muita criança porque todos gostam de ter uma grande família - o cigano porque não gosta de estar sozinho”, acrescenta.
Mário Barão, familiar dos “Barões” de Almodôvar, diz que nos dias de hoje a sociedade de Serpa não faz distinção: "Somos todos bem aceites. Aqui tratam-nos pelo nome”. E conta que tem um filho no 12º ano e um sobrinho a frequentar um curso de engenharia alimentar no Politécnico de Beja.
A pouco distância e no mesmo concelho, em Brinches, Margarida Ramos, membro da comunidade ali residente, diz que o seu sonho é ter uma casa. "Dá dignidade às pessoas”. Dorme numa furgoneta abandonada.
Recomendação
Em Vila Nova de S. Bento, a maioria das famílias ciganas ali residentes foi construindo as suas próprias habitações, com o dinheiro que amealharam em Espanha nos trabalhos agrícolas. É o caso da família Damião: “Lutámos uma vida inteira em Espanha, fazendo os trabalhos que apareciam, sobretudo na agricultura”. Sacrifício atrás de sacrifício permitiu a compra de um terreno para si e para os filhos.
Anselmo Prudêncio diz que “o trabalho não pode parar” e que os dados recolhidos “obrigam a repensar a realidade e as leituras feitas sobre a comunidade cigana residente no Baixo Alentejo”.
Entre 2010 e 2018 a população cigana no distrito de Beja aumentou 80%. Cerca de 70% vive em casas de alvenaria, 17% em barracas e 13% em tendas ou roulottes. As situações mais problemáticas afectam as comunidades de Beja, Moura, Serpa e Vidigueira.
Os números nunca batem certo quando se fala de cidadãos ciganos residentes em Portugal. O primeiro estudo nacional, baseado nas informações prestadas pelas autarquias e apresentado pelo Alto-Comissariado para as Migrações em Maio de 2017, apontava para 37 mil indivíduos. Outros levantamentos efectuados anteriormente referem que o seu número poderia oscilar entre os 40 e os 60 mil. Estrada fora, foram agora conhecer, um a um, aqueles que moram no Baixo Alentejo. Contaram mais de 3600, ou seja, 2,4% da população da região.
As disparidades nos números têm dificultado a integração dos ciganos no Baixo Alentejo, sobretudo na cidade de Beja, onde os responsáveis autárquicos alegam que a capital do distrito está a ser “invadida” por famílias vindas dos concelhos vizinhos. O fenómeno, referem, dificulta uma avaliação sobre o número real de famílias residentes com vista a um futuro processo de realojamento dos que vivem em barracas ou tendas.
Contar, uma a uma, as famílias ciganas residentes nos 14 concelhos do Baixo Alentejo parecia, à partida uma tarefa ciclópica, sobretudo quando se sai dos centros urbanos para o espaço rural, onde se sabe que reside em condições muito precárias um desconhecido número de famílias desta etnia. Para alcançar um tal desiderato só tendo alguém que soubesse onde as comunidades vivem neste tão extenso território. Anselmo Prudêncio, dinamizador no Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza, conhecia a pessoa indicada: o presidente da Associação de Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC), Prudêncio Canhoto, que foi mediador municipal em Beja entre 2009 e 2016 e premiado em 2016 pela Associação Letras Nómadas como o “Cigano do ano”.
Os dois estabeleceram um roteiro que, à partida, garantia um levantamento credível e rigoroso das famílias ciganas no Baixo Alentejo. Pela primeira vez, iria ser possível fazer o seu recenseamento quantitativo e o registo fotográfico habitacional como forma de comprovar as condições habitacionais das comunidades. O PÚBLICO acompanhou os contactos feitos em quase todos os concelhos e observou aspectos de uma realidade que não entra nas contas dos gabinetes autárquicos ou da administração central. Pela primeira vez, estava a ser feito o primeiro trabalho do género no Alentejo que iria ser comparado com o estudo de Caracterização da População Cigana do Distrito de Beja realizado em 2010 pelo Centro Distrital de Segurança Social de Beja.
Este levantamento concluiu que a população desta etnia passou dos 2048 de indivíduos em 2010 para os 3619 que acabam de ser registados. Cerca de 70% vive em casas de alvenaria, 17% em barracas e 13% em tendas ou roulottes. Apenas o concelho de Cuba registou uma descida no número de elementos da comunidade cigana. Os restantes 11 concelhos apresentam um aumento. A maior subida foi em Beja, com mais 825 cidadãos ciganos em relação a 2010. E tudo indica que este crescimento se possa acentuar.
Beja, com 1399 ciganos, e Moura com 983, são os concelhos onde habitam mais famílias.
Realidades diferentes
O périplo começou pelos concelhos do sul do distrito - Almodôvar, Mértola, Odemira (não estão referenciadas famílias ciganas em Ourique). Em Mértola, as famílias ciganas vivem integradas e a viver do seu trabalho. Em S. João dos Caldeireiros, José Albino vende roupa nos montes do chamado Alentejo profundo “e tem fregueses certos”, refere a esposa enquanto regava as laranjeiras e os limoeiros que plantou num terreno que é seu, assim como a casa onde vive, mais umas quantas que estão na vizinhança. Tem um filho que explora um café/restaurante em Mértola e a esposa “não é cigana". Uma sua filha é funcionária na Câmara de Mértola.
Prudêncio Canhoto conhece os locais onde residem as famílias ciganas, mesmo nos sítios mais recônditos. Vivem dispersas, pelo concelho, 20 famílias ciganas (47 adultos e 30 crianças e jovens). Não habitam em barracas ou tendas, mas em casas próprias ou da autarquia. O cenário altera-se no concelho de Almodôvar.
Osvaldo Barão, 33 anos, trabalha numa empresa privada a cortar pasto para o gado e lamenta-se das condições em que vive: há uma década que todos os dias monta e desmonta uma tenda, onde dorme com a esposa e dois filhos menores. “Estou à espera de uma casita que o presidente [da câmara] me arranje”, diz, frisando que na terra de onde é natural não consegue que lhe aluguem uma habitação. A mãe de Osvaldo ironiza com a situação. “Nesta família somos todos Barões mas não parece”.
Mais a norte do distrito, em Alvito, a autarquia pretende que as famílias ciganas ocupem casas que estão devolutas no centro da vila. “Não queremos ostracizá-los”, garantiu ao PÚBLICO o presidente da Câmara, António Valério, assumindo que metade da renda “é suportada pela autarquia”. A solução proposta é a mesma que está a ser seguida na Vidigueira, um concelho marcado por constantes e problemáticos conflitos entre as comunidades ciganas, representadas pelas famílias dos Azuis e dos Cabeças, e a autarquia.
Os conflitos entre as duas famílias, que fizeram história, estão sanados mas persiste um contencioso com a autarquia da Vidigueira pelas precárias condições de alojamento a que as 49 famílias ciganas (101 adultos e 103 crianças e jovens) têm estado sujeitas há vários anos.
Dormir no restolho
No lugar da Travessa da Fonte, na periferia da Vidigueira, é difícil suportar o calor no interior das barracas. A cabeça bate nas chapas de zinco do telhado. “Está de queimar”, queixa-se o elemento mais velho das sete famílias ali residentes. Tem 60 anos e diz ter nascido naquele local. "À noite dormimos no restolho”, conta. Ninguém consegue estar nas barracas. “Os ciganos têm de abalar para onde haja uma fonte de água fresca e árvores com sombra”, explica Prudêncio Canhoto.
No interior da vila, o velho patriarca da família Azul perde-se a contar os filhos e netos. “Uma menina aqui. Dois meninos acolá. Mais seis moços ali, eu e a mulher. E ainda falta o mê manel”. Num casão apertado concentram-se cinco casais e mais 14 crianças. “Quando os colchões se estendem à noite chegam à porta da rua. Dormimos todos juntos sem qualquer privacidade”, sublinha uma jovem mãe, realçando as dificuldades de uma outra jovem que está grávida e suporta as dores no corpo em silêncio para não incomodar os outros quando dormem. Vivem todos os dias nestas condições que Miguel Ramalho, porta-voz da autarquia, reconhece serem deploráveis mas impossíveis de superar com os meios que o município dispõe.
O problema da habitação para a comunidade cigana e não cigana já motivou reuniões com a secretaria de Estado da Habitação e a câmara aguarda uma próxima com o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana. Mas enquanto as respostas não chegam, “a autarquia da Vidigueira vai pagando a renda das famílias que ocupam habitações alugadas”, sublinha Miguel Ramalho.
Em Serpa convivem dois mundos: o das famílias que vivem em situação precária e o das outras que conseguiram superar o problema da habitação construindo elas próprias a sua casa. Há um bairro com 31 habitações à saída da cidade onde convivem famílias ciganas, a maioria, com famílias não ciganas. Ao lado, um conjunto de barracas faz o contraste e alimenta o mal-estar e a revolta.
Mário José Barão que tem a sua casa em alvenaria, decorada com gosto e imaculadamente limpa, sublinha que “as casas não crescem, mas crescem as famílias”. Prudêncio Canhoto lembra que há uns anos, “as famílias tinham, em média, entre 8 a 10 filhos mas agora ficam por menos de metade”. Mesmo assim, e para os padrões da comunidade não cigana, “continua a ser muita criança porque todos gostam de ter uma grande família - o cigano porque não gosta de estar sozinho”, acrescenta.
Mário Barão, familiar dos “Barões” de Almodôvar, diz que nos dias de hoje a sociedade de Serpa não faz distinção: "Somos todos bem aceites. Aqui tratam-nos pelo nome”. E conta que tem um filho no 12º ano e um sobrinho a frequentar um curso de engenharia alimentar no Politécnico de Beja.
A pouco distância e no mesmo concelho, em Brinches, Margarida Ramos, membro da comunidade ali residente, diz que o seu sonho é ter uma casa. "Dá dignidade às pessoas”. Dorme numa furgoneta abandonada.
Recomendação
Em Vila Nova de S. Bento, a maioria das famílias ciganas ali residentes foi construindo as suas próprias habitações, com o dinheiro que amealharam em Espanha nos trabalhos agrícolas. É o caso da família Damião: “Lutámos uma vida inteira em Espanha, fazendo os trabalhos que apareciam, sobretudo na agricultura”. Sacrifício atrás de sacrifício permitiu a compra de um terreno para si e para os filhos.
Anselmo Prudêncio diz que “o trabalho não pode parar” e que os dados recolhidos “obrigam a repensar a realidade e as leituras feitas sobre a comunidade cigana residente no Baixo Alentejo”.
30.7.18
População cigana aumentou 79% nos últimos oito anos no distrito de Beja
in o Observador
Associação dos Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC) refere que a população cigana no distrito de Beja, no Alentejo, passou de 2048 ciganos em 2010 para 3666 este ano.
A população de etnia cigana aumentou 79% nos últimos oito anos no distrito de Beja, onde, atualmente, vivem 3.666 ciganos e que representam 2,4% do total de habitantes, segundo dados divulgados este domingo.
Num comunicado enviado à agência Lusa, a Associação dos Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC) refere que a população cigana no distrito de Beja, no Alentejo, passou de 2.048 ciganos em 2010 para 3.666 este ano, o que representa mais 1.618 e um aumento de 79%.
Os dados resultam da comparação entre o estudo de caracterização da população cigana realizado em 2010 pelo Centro Distrital de Segurança Social e o mapeamento das comunidades ciganas no distrito de Beja feito no terreno este mês pela AMEC.
Segundo a associação, os 3.666 ciganos contabilizados através do mapeamento representam 2,4% do total de 152.758 habitantes do distrito de Beja, segundo os dados do Censos de 2011.
Em declarações à Lusa, o presidente da AMEC, Prudêncio Canhoto, disse que o aumento da população cigana no distrito de Beja pode explicar-se com o crescimento da natalidade.
Os ciganos casam-se e constituem família e têm filhos cedo e as famílias ciganas são numerosas”, disse, referindo que, “em muitos casos, numa só casa vive uma família de três gerações – pais, filhos e netos”.
Por outro lado, Prudêncio Canhoto admitiu que os dados do estudo realizado em 2010 estivessem “abaixo” dos números reais, ao contrário do mapeamento feito este mês e que recolheu dados no terreno, contando os habitantes de etnia cigana “família por família”.
Segundo o mapeamento, atualmente, a população cigana no distrito é constituída por 2.065 crianças e jovens, que são a maioria, e 1.601 adultos, distribuídos por 767 famílias.
No pódio dos concelhos do distrito onde vivem mais ciganos e, em números absolutos, a população cigana mais aumentou, Beja ocupa o primeiro lugar, com 1.399 habitantes de etnia cigana, mais 828 do que os 571 em 2010.
Seguem-se os concelhos de Moura, em segundo lugar, com 983 ciganos, mais 257 do que os 726 em 2010, e de Serpa, em terceiro lugar, com 469, mais 164 do que os 305 em 2010.
Segundo o mapeamento, além de Ourique, que, tal como em 2010, “continua sem comunidades ciganas”, Odemira, com oito, Almodôvar com 19 e Barrancos com 24 são os concelhos do distrito de Beja com menos habitantes de etnia cigana.
Cuba é o único dos 14 concelhos do distrito onde a população cigana diminuiu, passando de 90 habitantes em 2010 para 69 este ano.
De acordo com a AMEC, o mapeamento incluiu o recenseamento quantitativo e o registo fotográfico habitacional para comprovar as condições habitacionais da comunidade cigana.
“Brevemente”, a AMEC irá divulgar, através de uma exposição, registos fotográficos do parque habitacional da comunidade cigana no distrito de Beja e “de acordo com o trabalho realizado no terreno”.
O mapeamento foi feito no âmbito do projeto “Nós damos o passo para o impulso”, do Programa de Apoio ao Associativismo Cigano 2018 e contou com o apoio do Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti Pobreza e das redes sociais do distrito.
Associação dos Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC) refere que a população cigana no distrito de Beja, no Alentejo, passou de 2048 ciganos em 2010 para 3666 este ano.
A população de etnia cigana aumentou 79% nos últimos oito anos no distrito de Beja, onde, atualmente, vivem 3.666 ciganos e que representam 2,4% do total de habitantes, segundo dados divulgados este domingo.
Num comunicado enviado à agência Lusa, a Associação dos Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC) refere que a população cigana no distrito de Beja, no Alentejo, passou de 2.048 ciganos em 2010 para 3.666 este ano, o que representa mais 1.618 e um aumento de 79%.
Os dados resultam da comparação entre o estudo de caracterização da população cigana realizado em 2010 pelo Centro Distrital de Segurança Social e o mapeamento das comunidades ciganas no distrito de Beja feito no terreno este mês pela AMEC.
Segundo a associação, os 3.666 ciganos contabilizados através do mapeamento representam 2,4% do total de 152.758 habitantes do distrito de Beja, segundo os dados do Censos de 2011.
Em declarações à Lusa, o presidente da AMEC, Prudêncio Canhoto, disse que o aumento da população cigana no distrito de Beja pode explicar-se com o crescimento da natalidade.
Os ciganos casam-se e constituem família e têm filhos cedo e as famílias ciganas são numerosas”, disse, referindo que, “em muitos casos, numa só casa vive uma família de três gerações – pais, filhos e netos”.
Por outro lado, Prudêncio Canhoto admitiu que os dados do estudo realizado em 2010 estivessem “abaixo” dos números reais, ao contrário do mapeamento feito este mês e que recolheu dados no terreno, contando os habitantes de etnia cigana “família por família”.
Segundo o mapeamento, atualmente, a população cigana no distrito é constituída por 2.065 crianças e jovens, que são a maioria, e 1.601 adultos, distribuídos por 767 famílias.
No pódio dos concelhos do distrito onde vivem mais ciganos e, em números absolutos, a população cigana mais aumentou, Beja ocupa o primeiro lugar, com 1.399 habitantes de etnia cigana, mais 828 do que os 571 em 2010.
Seguem-se os concelhos de Moura, em segundo lugar, com 983 ciganos, mais 257 do que os 726 em 2010, e de Serpa, em terceiro lugar, com 469, mais 164 do que os 305 em 2010.
Segundo o mapeamento, além de Ourique, que, tal como em 2010, “continua sem comunidades ciganas”, Odemira, com oito, Almodôvar com 19 e Barrancos com 24 são os concelhos do distrito de Beja com menos habitantes de etnia cigana.
Cuba é o único dos 14 concelhos do distrito onde a população cigana diminuiu, passando de 90 habitantes em 2010 para 69 este ano.
De acordo com a AMEC, o mapeamento incluiu o recenseamento quantitativo e o registo fotográfico habitacional para comprovar as condições habitacionais da comunidade cigana.
“Brevemente”, a AMEC irá divulgar, através de uma exposição, registos fotográficos do parque habitacional da comunidade cigana no distrito de Beja e “de acordo com o trabalho realizado no terreno”.
O mapeamento foi feito no âmbito do projeto “Nós damos o passo para o impulso”, do Programa de Apoio ao Associativismo Cigano 2018 e contou com o apoio do Núcleo Distrital de Beja da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti Pobreza e das redes sociais do distrito.
24.1.18
Bairro das Pedreiras surpreende governantes: “É muito pior do que eu pensava”
Carlos Dias, in Público on-line
Secretárias de Estado visitaram comunidade cigana que vive em barracas. Inquérito feito pelo Governo indica que Programa Especial de Realojamento, dos anos 90, veio, em muitos casos, agravar a exclusão.
Ana Pinho, secretária de Estado da Habitação, saiu da viatura que a transportou ao Bairro das Pedreiras em Beja, onde está concentrada boa parte da mais numerosa comunidade cigana do distrito, e ficou siderada com o aglomerado de barracas. O seu olhar rodou 360 graus e desabafou para quem estava nas proximidades: “Tinha informação sobre este bairro, mas o que vejo é muito pior do que aquilo que eu pensava.”
A realidade não se escondia. As crianças corriam de um lado para o outro ou cirandavam em redor dos visitantes, surpreendidas com um aparato inusitado numa comunidade que vive longe de tudo, nos arredores da cidade de Beja. Na manhã desta terça-feira, os residentes viram surgir do meio de um intenso nevoeiro, que a todos gelava, Ana Pinho, que acompanhava a sua colega de governo Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade. Estavam acompanhadas pelo alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, e pelo presidente da Câmara de Beja, Paulo Arsénio.
O panorama era desolador: as crianças circulavam mal agasalhadas, acossadas por tosses persistentes, enquanto os pais reclamavam por uma habitação que os libertasse de vidas inteiras a viver debaixo de toldos.
A história deste bairro remonta a 2006, altura em que a câmara construiu 50 habitações para alojar cerca de 250 pessoas de origem cigana. Ao lado havia o chamado “parque nómada”, mas, ao longo dos anos, o que era efémero tornou-se permanente e em volta das casas de alvenaria nasceram cerca de duas centenas de barracas onde vivem mais de 500 pessoas. Só crianças em idade escolar são mais de 100. Junto ao bairro correm ininterruptamente as águas sujas vindas das diversas lavagens feitas no parque de materiais da autarquia.
Questionada pelo PÚBLICO sobre se a resposta encontrada há mais de dez anos pela Câmara de Beja para alojar esta comunidade era uma solução aceitável, Ana Pinho demarcou-se. “Quando se entra num bairro destes, pensa-se logo na urgência e na premência de encontrar uma resposta eficaz e efectiva”, disse. Reconheceu ser “mais complexo integrar comunidades que foram desintegradas como o modelo de acesso à habitação [do Bairro das Pedreiras] do que integrar comunidades que nunca o foram”. E referiu que no inquérito efectuado pelo seu ministério (do Ambiente), concluído a 31 de Dezembro, sobre as carências habitacionais graves a nível nacional, se aponta para a existência de “vários casos de exclusão social que subsistiram após o grande boom das respostas nos anos 90 a nível do Programa Especial de Realojamento (PER) e do Prohabita” e que prevalecem um pouco por todo o país. Tal como no Bairro das Pedreiras, estes casos “precisam de uma resposta estruturada mas acima de tudo integrada”, acentuou Ana Pinho. Admitiu que este tipo de situações “são muito preocupantes”. No entanto, e apesar de exigirem respostas imediatas, tal “não é possível”, considerou, explicando que a solução tem de ser “integrada e global” para responder a problemas que se acumularam ao longo de décadas de inacção e de desinvestimento, sobretudo no caso das comunidades ciganas.
A secretária de Estado para a Igualdade sublinhou a importância de se encontrarem “soluções sustentadas” para a comunidade cigana de Beja, pois “ninguém pode estar tranquilo com pessoas a viverem em exclusão social”. A realidade que observou em Beja “subsiste há décadas”, assinala, frisando que as soluções “nunca serão rápidas, até porque os problemas são complexos”.
Para evitar o mesmo erro nas políticas de habitação, a secretária de Estado da Habitação referiu que já foi aprovada uma estratégia que tem como primeiro objectivo dar respostas a situações como a que existe no Bairro das Pedreiras.
O presidente da câmara adiantou que, em primeiro lugar, “há que fazer o diagnóstico da situação”, reconhecendo que a autarquia tem de se empenhar com os parceiros do distrito e com o Governo para minimizar um problema social “grave”.
Secretárias de Estado visitaram comunidade cigana que vive em barracas. Inquérito feito pelo Governo indica que Programa Especial de Realojamento, dos anos 90, veio, em muitos casos, agravar a exclusão.
Ana Pinho, secretária de Estado da Habitação, saiu da viatura que a transportou ao Bairro das Pedreiras em Beja, onde está concentrada boa parte da mais numerosa comunidade cigana do distrito, e ficou siderada com o aglomerado de barracas. O seu olhar rodou 360 graus e desabafou para quem estava nas proximidades: “Tinha informação sobre este bairro, mas o que vejo é muito pior do que aquilo que eu pensava.”
A realidade não se escondia. As crianças corriam de um lado para o outro ou cirandavam em redor dos visitantes, surpreendidas com um aparato inusitado numa comunidade que vive longe de tudo, nos arredores da cidade de Beja. Na manhã desta terça-feira, os residentes viram surgir do meio de um intenso nevoeiro, que a todos gelava, Ana Pinho, que acompanhava a sua colega de governo Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade. Estavam acompanhadas pelo alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, e pelo presidente da Câmara de Beja, Paulo Arsénio.
O panorama era desolador: as crianças circulavam mal agasalhadas, acossadas por tosses persistentes, enquanto os pais reclamavam por uma habitação que os libertasse de vidas inteiras a viver debaixo de toldos.
A história deste bairro remonta a 2006, altura em que a câmara construiu 50 habitações para alojar cerca de 250 pessoas de origem cigana. Ao lado havia o chamado “parque nómada”, mas, ao longo dos anos, o que era efémero tornou-se permanente e em volta das casas de alvenaria nasceram cerca de duas centenas de barracas onde vivem mais de 500 pessoas. Só crianças em idade escolar são mais de 100. Junto ao bairro correm ininterruptamente as águas sujas vindas das diversas lavagens feitas no parque de materiais da autarquia.
Questionada pelo PÚBLICO sobre se a resposta encontrada há mais de dez anos pela Câmara de Beja para alojar esta comunidade era uma solução aceitável, Ana Pinho demarcou-se. “Quando se entra num bairro destes, pensa-se logo na urgência e na premência de encontrar uma resposta eficaz e efectiva”, disse. Reconheceu ser “mais complexo integrar comunidades que foram desintegradas como o modelo de acesso à habitação [do Bairro das Pedreiras] do que integrar comunidades que nunca o foram”. E referiu que no inquérito efectuado pelo seu ministério (do Ambiente), concluído a 31 de Dezembro, sobre as carências habitacionais graves a nível nacional, se aponta para a existência de “vários casos de exclusão social que subsistiram após o grande boom das respostas nos anos 90 a nível do Programa Especial de Realojamento (PER) e do Prohabita” e que prevalecem um pouco por todo o país. Tal como no Bairro das Pedreiras, estes casos “precisam de uma resposta estruturada mas acima de tudo integrada”, acentuou Ana Pinho. Admitiu que este tipo de situações “são muito preocupantes”. No entanto, e apesar de exigirem respostas imediatas, tal “não é possível”, considerou, explicando que a solução tem de ser “integrada e global” para responder a problemas que se acumularam ao longo de décadas de inacção e de desinvestimento, sobretudo no caso das comunidades ciganas.
A secretária de Estado para a Igualdade sublinhou a importância de se encontrarem “soluções sustentadas” para a comunidade cigana de Beja, pois “ninguém pode estar tranquilo com pessoas a viverem em exclusão social”. A realidade que observou em Beja “subsiste há décadas”, assinala, frisando que as soluções “nunca serão rápidas, até porque os problemas são complexos”.
Para evitar o mesmo erro nas políticas de habitação, a secretária de Estado da Habitação referiu que já foi aprovada uma estratégia que tem como primeiro objectivo dar respostas a situações como a que existe no Bairro das Pedreiras.
O presidente da câmara adiantou que, em primeiro lugar, “há que fazer o diagnóstico da situação”, reconhecendo que a autarquia tem de se empenhar com os parceiros do distrito e com o Governo para minimizar um problema social “grave”.
21.6.16
O cemitério dos vivos
por João Carlos Malta, Teresa Abecasis, Rodrigo Machado
Viver lado a lado com ratos, cobras e sarjetas a céu aberto é uma realidade que se acha inimaginável para muitos, mas é ainda hoje o dia-a-dia dos 500 ciganos que vivem no Bairro das Pedreiras, em Beja. Em 2006, quando foi erguido, esperava-se que com a substituição da madeira das barracas pelas pedras das novas casas parte substancial do problema ficaria resolvido. Não ficou. Não bastou só mudar o embrulho aos problemas.
Há dez anos as barracas de madeira ficaram para trás num bairro que de "esperança" tinha o nome. À espera estavam 50 casas. Com telhados, com paredes e até com casas de banho. Trezentos ciganos acreditaram na promessa de um futuro melhor. Mais digno. Beja e o país não podiam mais ver um bairro de lata e olhar para o lado. O balão das expectativas encheu-se, mas rapidamente se esvaziou.
Os discursos oficiais anunciaram o fim dos estereótipos, ligados ao consumo e tráfico de droga, no Bairro da Esperança. No papel, tudo certo. Na realidade, não foi bem assim.
Na nova morada não havia só as moradias térreas, com dois quartos cada, a valer 30 euros por mês, e um vasto campo para os animais. Havia um muro. Os três metros de altura que tapavam a vista para a cidade e escondiam o bairro. Ao longo dos mais de 100 metros de betão havia apenas uma saída: um portão fechado a usar apenas em emergências (rusgas policiais ou doenças súbitas).
Nos seis hectares de terreno havia ainda uma cerca a toda a volta. Quem está habituado à liberdade do nomadismo, viu ali uma prisão. Ornamentar o terreno com ciprestes (árvore simbolicamente conotada com a morte) reforçou o rótulo que o novo Bairro das Pedreiras ganhou: o cemitério dos vivos.
Uma década depois, esta comunidade não parou de crescer. São quase 500. Vivem lado a lado com os ratos que mordem as orelhas das crianças à noite, com as cobras que os ameaçam e com os mosquitos que volta e meia os levam ao hospital com erupções cutâneas. As condições de higiene são sub-humanas. Há águas de sarjeta a escorrer entre cada porta.
As casas são agora barracas de pedra. Muitas delas esventradas, alteradas, ao ritmo das discussões entre vizinhos e à medida que as famílias aumentaram, mas o espaço não. E há lixo, muito lixo.
Esta é uma história que não tem heróis, nem vilões. Não há só vítimas, nem só culpados. Não se pode escrever a preto e branco. Tem muitas camadas de cinzento.
Este bairro tem vírus
Entrar no Bairro das Pedreiras com um microfone e uma câmara de filmar é o suficiente para que se juntem cerca de dez ciganos em círculo. "São da SIC, são da SIC? É para a televisão?". Todos querem contar um problema que os aflige, mostrar que são "tratados como animais". As primeiras conversas seguem o caminho dos olhos: "Veja ali em cima, é o canil municipal. Ao lado há o canil privado e o pombal. Têm-nos aqui com os cães. É só bichezas."
Eugénia Silva, 26 anos, abre a porta de casa. Diz que não o pode fazer muitas vezes por causa do cheiro. De imediato, começa a lamentar que a Segurança Social lhe tenha retirado um dos filhos, porque antes não tinha casa nem condições. Hoje tem casa, mas continua a não ter condições para poder cuidar do menino que conta já com 11 anos. Entretanto, teve mais dois bebés.
Na cozinha, as crianças brincam, choram, não páram. Uma outra jovem mulher, acompanhada de dois homens, tem um olho nos pequenos e outro na conversa de Eugénia. A casa tem infiltrações, um telhado rudimentar e uma casa de banho em que a higiene é um substantivo que não entra, mesmo que a porta há muito tempo já não exista. Apesar disso, na sala pontifica um majestoso televisor LCD.
"Aqui faz frio, chove muito, há muita miséria. Há muito bicho. Ainda há dias tive a sorte de acordar e ver a cobra antes de ela chegar à cama. Era um monstro", insiste Eugénia..
Há quem no bairro acredite que estaria melhor nas barracas. Eugénia acha que não. Mas lamenta os sucessivos rebentamentos dos canos de esgoto, o excesso de lixo e os "ratos que andam à luta". Ela sofre, mas as crianças sofrem mais. Os mosquitos são uma ameaça permanente para quem as águas sujas são mel.
"Este bairro tem vírus. Tenho o meu mocinho sempre todo granulado. É só bichos, eles picam, e enche logo. Volta e meia temos de estar a correr para o hospital para as crianças serem lancetadas", afirma.
A menos de dois quilómetros, na Câmara de Beja, o vereador do Urbanismo do executivo comunista, Vítor Picado, faz o balanço do realojamento da comunidade cigana. Reconhece que muitas coisas falharam. Sobretudo isto: não se passa de uma barraca para uma casa sem um processo de aprendizagem.
E admite a existência de um problema social grave. "Há pessoas a viver em condições infra-humanas? Há. Não são condições humanas e tudo faremos para dar aquelas famílias melhores condições", reforça. Contudo, este, garante, não é um problema que se resolva apenas pela acção de um dos lados. "Algumas das famílias contribuíram para que as condições se degradassem."
Há quase oito anos a fazer a ponte entre esta comunidade e a autarquia está Prudêncio Canhoto. Aos 44 anos já foi eleito "cigano do ano". É uma referência. Não rejeita as culpas dos que lhe são próximos, mas distribui-as por outros. "Fizeram um bairro que não ficou nivelado. Quando chove, como os terremos como estão inclinados, a água passa por baixo e entra nas casas", relata.
As habitaçõs, defende, são "muito pequeninas, e não previram que as famílias iam crescer." Os telhados não escoam as águas. E os carros não resistem aos "roedores".
Os materiais usados na construção são de péssima qualidade. A crítica é unânime no bairro, Prudêncio amplifica-a, e a autarquia de Beja não a rejeita. "A esta distância posso dizer que os materiais usados não foram os melhores. Mas pior ainda foi o acompanhamento da obra", assume Vítor Picado.
Se a transferência do antigo Bairro da Esperança tinha como slogan a passagem de barracas para casas, quem agora ali passa, assiste ao falhanço do projecto. Há pelo menos 12 tendas que se estendem ao longo das margens do terreno. O crescimento das famílias e a paragem de elementos nómadas de outras comunidades são as principais causas. As consequências são a multiplicação de cenários de pobreza material e social.
Fábio e Maria, 26 e 24 anos, acenam freneticamente. Querem mostrar a miséria, a sua miséria. Têm três filhos.
Os olhos embatem numa tenda em que a terra batida é o chão e as divisões não existem. Há uma cama de ferro e os colchões amontoam-se nos cantos. Junto à entrada há uma bilha de gás para cozinhar. A casa de banho é o campo à volta. A água têm de ir buscar a uma fonte próxima. Luz também não existe. Os três filhos (dois meninos doentes e uma menina de sete anos) são a grande preocupação do casal. A mais velha anda na escola e não tem onde tomar banho. A roupa nem sempre seca.
Lembram que há nove anos que pedem uma casa e a resposta é sempre a mesma. "Não há. Mas vemos todos os outros a conseguir", revoltam-se. Enquanto isso, "os ratos entram pelos buracos e a gente não dorme de noite".
Prudêncio sublinha que quem pensou o bairro não teve em conta que "o cigano casa-se cedo" e "constitui família". "A maioria das barracas que estão lá fora são dos filhos que se casam", explica. E os bebés não demoram muito a chegar.
O ciclo vicioso de exclusão fecha-se mais uma vez. Prudêncio, que, muitas vezes, acompanha o autocarro que leva os meninos para a escola, descreve o estado em que as crianças saem das barracas. O frio do Inverno faz com que não lavem a cara porque a água está demasiado gelada. As roupas vão sujas e não raramente enlameadas. As mães não podem lavar a roupa quando chove.
"Assim não conseguimos desconstruir a ideia de que o cigano cheira mal e as pessoas começam a pô-lo de parte porque não se lavou, porque não mudou de roupa. Eles não têm culpa pelos pais que têm", resume.
O muro da vergonha
Um muro é uma protecção ou é um factor de discriminação? A resposta pode ser genericamente afirmativa para as duas opções. Vamos aos factos que construíram de um lado (autarquia) e do outro (comunidade cigana) uma grande barreira.
A saída do Bairro da Esperança para as Pedreiras, conta Prudêncio Canhoto, foi complexa. Primeiro, os locais em estudo foram sempre periféricos. Um problema nunca deve estar no centro. A cada solução apareciam novas questões. Na verdade, era sempre a mesma: ninguém queria ter estes vizinhos indesejados.
Lá se conseguiu que, ao pé da pedreira que pertence à câmara, o bairro ganhasse forma. Mas essa forma deu uma polémica que chegou a Bruxelas, sob forma de queixa da Amnistia Internacional e de outras forças viva da cidade.
Não fomos criados para estar fechados. Nós queremos liberdade. Queremos ter vista para a cidade. Eles não queriam que víssemos a cidade", dizem em uníssono os moradores.
Vítor Picado reconhece, à distância de dez anos, que a construção do muro foi um "erro crasso". Mas acrescenta que a proximidade a uma fábrica e a passagem constante de viaturas fez temer o pior pela segurança do enorme número de crianças que ali viviam. Apesar de admitir a falha, lança a crítica. "Houve um aproveitamento para se vitimizarem."
Foto - Vereador Vitor Picado
O vereador Vítor Picado reconhece a existência de um problema social grave, que só se resolve com a contribuição de todos
O muro obrigava a que os moradores andassem um quilómetro para chegar à via principal que dá acesso à cidade. Sem a barreira de pedra são uns meros 100 metros para alcançar a muito movimentada estrada nacional. Ali não existe nenhuma passagem aérea. Neste caso, a questão da segurança já não se levanta?
Picado recorda que a ponte pedonal já existiu, mas que foi retirada por "questões de segurança". A recolocação obriga a aplicação de normativas anti-sísmicas e já se "gastaram 40 mil euros na avaliação". O vereador não responde à pergunta de fundo sobre porque é que foi construído um muro por questões de segurança e não há uma passagem aérea para atravessar a estrada: "É uma questão muito pertinente".
A polémica do muro foi tão grande que o esforço conjunto da comunidade fez que com as mãos de quase todos, armadas de marretas, a barreira aos poucos e poucos fosse desaparecendo. A maquilhagem ao bairro só terminou quando os ciprestes foram cortados pela raiz e a cerca foi abaixo. "Não nos opusemos", revela o autarca.
Há um ano o muro caiu na totalidade, ficando apenas uns resquícios. Mas se o mau embrulho ruiu, o conteúdo do problema manteve-se.
Eu tenho direito, tu tens deveres
Consegue-se integrar a comunidade cigana numa cidade, juntando-a toda num bairro? Todas as respostas teóricas são negativas. No entanto, na prática foi o que aconteceu. "Sempre tive grandes reservas em relação a essa solução. Acho que não é, nem foi, a melhor, mas percebo porque é que o fizeram", explica Vítor Picado, que não pertencia ao executivo que tomou a decisão.
Prudêncio diz o que parece ser óbvio para todos, mas que quase nunca se torna real. "Não se fazem bairros para ciganos. Temos é de fazer bairros para as pessoas, para depois lhes exigir direitos e deveres. Temos de preparar as pessoas para terem direito a uma casa".
Picado reconhece que os ciganos são "personas 'non gratas'" na cidade. Há sempre muita resistência quando se pensa em alojar ciganos em bairros sociais onde a maioria não seja da mesma etnia.
António Engrácio tem 21 anos e dez de Pedreiras. É uma década de "guerreias (sic)". "É por tudo e por nada. Se estivéssemos num bairro em que houvesse ciganos e não ciganos a nossa comunidade avançava. Estamos no meio de ciganos, queremos sair mas não podemos ter a liberdade que vocês têm", lamenta. "Como somos todos ciganos, a gente não passa de cigano", resume.
Foto - António Engrácio
António Engrácio sente os olhares de discriminação de cada vez que sai do bairro
O gueto em que vive ganha forma sempre que sai do bairro. Sente os olhares e os cochichos. "Lá vem o cigano, lá vem o cigano". Às vezes, tenta contrariar e lançar um bom dia. "Não me respondem e a gente não gosta e também tratamos mal as pessoas. Já fiz isso", assume. "Tinha um amigo não cigano e ia sair com ele, vinha connosco outro amigo dele que não queria que eu fosse. Tive de guerrear com ele", confessa.
O mediador cigano reclama que só se podem exigir deveres quando se dão direitos. O vereador do Urbanismo garante que ter direitos exige que se cumpram os deveres. Cada um tem uma lista.
Prudêncio aponta o dedo à câmara, alegando que só levanta o lixo no bairro duas vezes por semana. E são meio milhar a fazer crescer o amontoado de restos de comida e de caixas por fora dos caixotes. No resto da cidade a recolha é feita todos os dias. O vereador admite que não pode alegar desconhecimento do caso e reconhece que tal pode "causar estranheza". Garante que falará com os serviços "para solucionar o problema".
A câmara contrapõe com a discriminação positiva feita às crianças da comunidade que são levadas à escola pelo transporte da câmara, quando legalmente não tinham de o fazer por esta viver a menos de três quilómetros do estabelecimento de ensino. "Isso faz com que muitos na cidade digam: 'A mim não me vêm buscar o filho a casa.' Mas nós entendemos que faz sentido fazê-lo para combater o absentismo", destaca Vítor Picado.
Prudêncio concorda, mas apresenta outro facto. O Bairro das Pedreiras é o único onde os transportes públicos não passam. Picado responde: "Se querem ter um transporte que os ligue à cidade têm deveres". E coloca "três nãos" para fazer cumprir esse desejo. "Não podem destruir os autocarros, não podem bater em pessoas, não podem dizer palavrões."
Depois há as contas que ficam por pagar. A autarquia fala de uma dívida de 150 mil euros à empresa municipal de água que "terá de ser paga", "nem que seja em prestações". "Percebemos que isso tem que ver com a utilização irracional da água, como levar os animais para dentro de casa e o terem partido os autoclismos".
O vereador afiança que o dinheiro que for recuperado será para reinvestir no bairro. A juntar às queixas, há ainda as "puxadas" de electricidade que obrigam a EDP a fazer cortes. "Há relatos de agressões aos técnicos quando isso acontece", salienta a autarquia.
A estas queixas soma-se a de ainda hoje ser difícil saber quem mora nas casas. As chaves andam de mão em mão, e elas são vendidas dentro da comunidade. "Estamos a fazer um trabalho mais activo para perceber quem é quem."
O mediador cigano reconhece que "há ciganos que querem mudar e outros que não querem". "Há uns que pensam que só têm direitos e que não têm deveres. Há outros que não têm direitos, e por isso também acham que não têm deveres", sintetiza. E lamenta que o contexto de miséria do bairro não o deixe de forma inequívoca exigir o cumprimento das regras.
O RSI é preguiça ou inevitável?
Dos 500 habitantes das Pedreiras apenas três têm um emprego, na autarquia. Quase todos os outros vivem do Rendimento Social de Inserção. É como se fosse um destino comum para o qual se caminha sem alternativa.
A Cáritas acompanha há uma década os ciganos daquele bairro. Desde o início que a assistente social Mariana Côco trabalha com esta comunidade "maioritariamente analfabeta" ou "com baixa escolaridade". Há uma dificuldade latente em promover a escola porque os pais não a viveram e não percebem a sua importância. O RSI, neste aspecto, serve um propósito maior, obriga a que as crianças frequentem as aulas para que os parentes possam receber a prestação social. A redução do nomadismo faz o resto.
A evolução, apesar de tudo, já se nota. O absentismo está a diminuir. O psicólogo Armindo Mendes, que integra a equipa há um mês, assegura que estes progressos são fundamentais porque "introduzem cada vez mais cedo os meninos em contextos formais". Ele, que andou a trabalhar noutras comunidades ciganas do Alentejo, realça que a escolaridade nas Pedreiras é ainda mais reduzida. "A baixa formação é um factor de baixa empregabilidade", não duvida Mariana, que não acha que os ciganos sejam de forma geral discriminados.
Esta é a primeira ferramenta em falta para que a integração completa no mercado de trabalho não aconteça. Soma-se outro factor estrutural, o desemprego do concelho (11,5% em 2011). Ou seja, há dificuldade para todos em conseguir um trabalho. Mas há um problema que é específico dos ciganos. Quem é que os vai empregar?
"Ninguém", responde Prudêncio, "a não ser a câmara" e ainda assim para lugares específicos. "Diz-se que o cigano não quer fazer nada, mas se eu tivesse dez oportunidades de trabalho, teria 50 pessoas que a querem", afiança.
Mas olhando para a sociedade que o rodeia, a ideia muitas vezes esbarra no preconceito. "Alguém que tenha um supermercado e que queira pôr lá um cigano, não o faz porque já ninguém lá ia". Enumera ainda outros dois casos de discriminação. A do irmão que concorreu para o lugar de mecânico, "mas quando viram que era cigano" foi rejeitado. E a de um jovem cigano que tem o 12.º ano. Chamaram-no para uma entrevista, mas depois de o verem, disseram que o lugar já estava preenchido.
O cigano diz que se a Câmara de Beja, com os Contratos Emprego-Inserção, pusesse nove ou dez pessoas a trabalhar, "as pessoas iam-se habituando a ver os ciganos a trabalhar". O vereador concorda que é preciso mostrar a Beja que "são cidadãos de pleno direito porque há a ideia de que tudo lhes é permitido, de que tudo lhes é perdoado, e de que eles é que ganham o dinheiro".
Para a elevada taxa de desemprego há um outro factor que foi fazendo mossa ao longo do tempo. No bairro afiança-se que a chegada dos chineses e das lojas dos asiáticos fez com que a venda ambulante deixasse de compensar. Antes compravam as peças de roupa nas fábricas a "cinco euros para as vender a oito". "Os chineses têm tudo à venda por cinco euros", conclui.
Sem promessas e sem dinheiro
Apesar de os diversos actores não concordarem com o diagnóstico, assumem que há muitos erros de parte a parte e que há que mudá-los. Essa mudança passaria sempre pelo realojamento da comunidade, em locais com melhores condições, pelo menos os que vivem nas barracas. Mas isso é possível?
Vítor Picado desfaz ilusões. "Não posso prometer que vou realojar estas famílias. A palavra 'prometer' tem sido abolida do nosso glossário. Não estamos cá para vender banha da cobra, estamos cá para tomar medidas concretas", argumenta. E acrescenta que a solução de realojar as famílias noutros bairros sociais da cidade "é ainda romântica".
Acrescenta que há 460 pessoas em espera na cidade para ter uma habitação social. Essas pessoas estão em barracas? "Não. Estamos sempre a tomar as medidas mais correctas? Também não. Mas posso dizer-lhe que o autarca de um concelho vizinho disse a pessoas da comunidade cigana que lá viviam para virem para Beja porque nós dávamos casa", afirma. "E isso também não pode ser."
O representante dos ciganos reconhece que nem todos "estão preparados para irem para uma habitação digna". "O problema é que se põe tudo no mesmo saco. Quando me dizem que há ciganos maus, há, mas não são todos", alerta.
Por outro lado, lamenta a ausência de oportunidades para intervir de forma mais eficaz na comunidade. "Se me dissessem: 'Vamos realojar dez pessoas para as pôr numa habitação digna', eu ia lá escolhê-las e criavam-se as condições para que os outros percebessem o que tinham de fazer para sair de lá. Aí poderia exigir que cumprissem as regras", explica Canhoto, para quem as Pedreiras são apenas um parque nómada.
A confiança entre ciganos e não ciganos é o elo que, para Prudêncio, é necessário criar. Não existe. "Quando entrei na câmara, muitas pessoas olhavam-me de lado e diziam: 'Olha o cigano', 'É pá temos cá um cigano'. Agora já não me olham de lado; as pessoas foram ganhando confiança. Agora já tenho o reconhecimento". Reproduzir o seu exemplo é um sonho. O sucesso desmonta o preconceito, acredita.
A autarquia de Beja, apesar dos muitos erros assumidos, tem aplicado medidas no terreno para melhorar aquele universo. Mas sente-se sozinha nesta luta. "Ainda sinto pouca abertura por parte da comunidade local para a integração."
Viver lado a lado com ratos, cobras e sarjetas a céu aberto é uma realidade que se acha inimaginável para muitos, mas é ainda hoje o dia-a-dia dos 500 ciganos que vivem no Bairro das Pedreiras, em Beja. Em 2006, quando foi erguido, esperava-se que com a substituição da madeira das barracas pelas pedras das novas casas parte substancial do problema ficaria resolvido. Não ficou. Não bastou só mudar o embrulho aos problemas.
Há dez anos as barracas de madeira ficaram para trás num bairro que de "esperança" tinha o nome. À espera estavam 50 casas. Com telhados, com paredes e até com casas de banho. Trezentos ciganos acreditaram na promessa de um futuro melhor. Mais digno. Beja e o país não podiam mais ver um bairro de lata e olhar para o lado. O balão das expectativas encheu-se, mas rapidamente se esvaziou.
Os discursos oficiais anunciaram o fim dos estereótipos, ligados ao consumo e tráfico de droga, no Bairro da Esperança. No papel, tudo certo. Na realidade, não foi bem assim.
Na nova morada não havia só as moradias térreas, com dois quartos cada, a valer 30 euros por mês, e um vasto campo para os animais. Havia um muro. Os três metros de altura que tapavam a vista para a cidade e escondiam o bairro. Ao longo dos mais de 100 metros de betão havia apenas uma saída: um portão fechado a usar apenas em emergências (rusgas policiais ou doenças súbitas).
Nos seis hectares de terreno havia ainda uma cerca a toda a volta. Quem está habituado à liberdade do nomadismo, viu ali uma prisão. Ornamentar o terreno com ciprestes (árvore simbolicamente conotada com a morte) reforçou o rótulo que o novo Bairro das Pedreiras ganhou: o cemitério dos vivos.
Uma década depois, esta comunidade não parou de crescer. São quase 500. Vivem lado a lado com os ratos que mordem as orelhas das crianças à noite, com as cobras que os ameaçam e com os mosquitos que volta e meia os levam ao hospital com erupções cutâneas. As condições de higiene são sub-humanas. Há águas de sarjeta a escorrer entre cada porta.
As casas são agora barracas de pedra. Muitas delas esventradas, alteradas, ao ritmo das discussões entre vizinhos e à medida que as famílias aumentaram, mas o espaço não. E há lixo, muito lixo.
Esta é uma história que não tem heróis, nem vilões. Não há só vítimas, nem só culpados. Não se pode escrever a preto e branco. Tem muitas camadas de cinzento.
Este bairro tem vírus
Entrar no Bairro das Pedreiras com um microfone e uma câmara de filmar é o suficiente para que se juntem cerca de dez ciganos em círculo. "São da SIC, são da SIC? É para a televisão?". Todos querem contar um problema que os aflige, mostrar que são "tratados como animais". As primeiras conversas seguem o caminho dos olhos: "Veja ali em cima, é o canil municipal. Ao lado há o canil privado e o pombal. Têm-nos aqui com os cães. É só bichezas."
Eugénia Silva, 26 anos, abre a porta de casa. Diz que não o pode fazer muitas vezes por causa do cheiro. De imediato, começa a lamentar que a Segurança Social lhe tenha retirado um dos filhos, porque antes não tinha casa nem condições. Hoje tem casa, mas continua a não ter condições para poder cuidar do menino que conta já com 11 anos. Entretanto, teve mais dois bebés.
Na cozinha, as crianças brincam, choram, não páram. Uma outra jovem mulher, acompanhada de dois homens, tem um olho nos pequenos e outro na conversa de Eugénia. A casa tem infiltrações, um telhado rudimentar e uma casa de banho em que a higiene é um substantivo que não entra, mesmo que a porta há muito tempo já não exista. Apesar disso, na sala pontifica um majestoso televisor LCD.
"Aqui faz frio, chove muito, há muita miséria. Há muito bicho. Ainda há dias tive a sorte de acordar e ver a cobra antes de ela chegar à cama. Era um monstro", insiste Eugénia..
Há quem no bairro acredite que estaria melhor nas barracas. Eugénia acha que não. Mas lamenta os sucessivos rebentamentos dos canos de esgoto, o excesso de lixo e os "ratos que andam à luta". Ela sofre, mas as crianças sofrem mais. Os mosquitos são uma ameaça permanente para quem as águas sujas são mel.
"Este bairro tem vírus. Tenho o meu mocinho sempre todo granulado. É só bichos, eles picam, e enche logo. Volta e meia temos de estar a correr para o hospital para as crianças serem lancetadas", afirma.
A menos de dois quilómetros, na Câmara de Beja, o vereador do Urbanismo do executivo comunista, Vítor Picado, faz o balanço do realojamento da comunidade cigana. Reconhece que muitas coisas falharam. Sobretudo isto: não se passa de uma barraca para uma casa sem um processo de aprendizagem.
E admite a existência de um problema social grave. "Há pessoas a viver em condições infra-humanas? Há. Não são condições humanas e tudo faremos para dar aquelas famílias melhores condições", reforça. Contudo, este, garante, não é um problema que se resolva apenas pela acção de um dos lados. "Algumas das famílias contribuíram para que as condições se degradassem."
Há quase oito anos a fazer a ponte entre esta comunidade e a autarquia está Prudêncio Canhoto. Aos 44 anos já foi eleito "cigano do ano". É uma referência. Não rejeita as culpas dos que lhe são próximos, mas distribui-as por outros. "Fizeram um bairro que não ficou nivelado. Quando chove, como os terremos como estão inclinados, a água passa por baixo e entra nas casas", relata.
As habitaçõs, defende, são "muito pequeninas, e não previram que as famílias iam crescer." Os telhados não escoam as águas. E os carros não resistem aos "roedores".
Os materiais usados na construção são de péssima qualidade. A crítica é unânime no bairro, Prudêncio amplifica-a, e a autarquia de Beja não a rejeita. "A esta distância posso dizer que os materiais usados não foram os melhores. Mas pior ainda foi o acompanhamento da obra", assume Vítor Picado.
Se a transferência do antigo Bairro da Esperança tinha como slogan a passagem de barracas para casas, quem agora ali passa, assiste ao falhanço do projecto. Há pelo menos 12 tendas que se estendem ao longo das margens do terreno. O crescimento das famílias e a paragem de elementos nómadas de outras comunidades são as principais causas. As consequências são a multiplicação de cenários de pobreza material e social.
Fábio e Maria, 26 e 24 anos, acenam freneticamente. Querem mostrar a miséria, a sua miséria. Têm três filhos.
Os olhos embatem numa tenda em que a terra batida é o chão e as divisões não existem. Há uma cama de ferro e os colchões amontoam-se nos cantos. Junto à entrada há uma bilha de gás para cozinhar. A casa de banho é o campo à volta. A água têm de ir buscar a uma fonte próxima. Luz também não existe. Os três filhos (dois meninos doentes e uma menina de sete anos) são a grande preocupação do casal. A mais velha anda na escola e não tem onde tomar banho. A roupa nem sempre seca.
Lembram que há nove anos que pedem uma casa e a resposta é sempre a mesma. "Não há. Mas vemos todos os outros a conseguir", revoltam-se. Enquanto isso, "os ratos entram pelos buracos e a gente não dorme de noite".
Prudêncio sublinha que quem pensou o bairro não teve em conta que "o cigano casa-se cedo" e "constitui família". "A maioria das barracas que estão lá fora são dos filhos que se casam", explica. E os bebés não demoram muito a chegar.
O ciclo vicioso de exclusão fecha-se mais uma vez. Prudêncio, que, muitas vezes, acompanha o autocarro que leva os meninos para a escola, descreve o estado em que as crianças saem das barracas. O frio do Inverno faz com que não lavem a cara porque a água está demasiado gelada. As roupas vão sujas e não raramente enlameadas. As mães não podem lavar a roupa quando chove.
"Assim não conseguimos desconstruir a ideia de que o cigano cheira mal e as pessoas começam a pô-lo de parte porque não se lavou, porque não mudou de roupa. Eles não têm culpa pelos pais que têm", resume.
O muro da vergonha
Um muro é uma protecção ou é um factor de discriminação? A resposta pode ser genericamente afirmativa para as duas opções. Vamos aos factos que construíram de um lado (autarquia) e do outro (comunidade cigana) uma grande barreira.
A saída do Bairro da Esperança para as Pedreiras, conta Prudêncio Canhoto, foi complexa. Primeiro, os locais em estudo foram sempre periféricos. Um problema nunca deve estar no centro. A cada solução apareciam novas questões. Na verdade, era sempre a mesma: ninguém queria ter estes vizinhos indesejados.
Lá se conseguiu que, ao pé da pedreira que pertence à câmara, o bairro ganhasse forma. Mas essa forma deu uma polémica que chegou a Bruxelas, sob forma de queixa da Amnistia Internacional e de outras forças viva da cidade.
Não fomos criados para estar fechados. Nós queremos liberdade. Queremos ter vista para a cidade. Eles não queriam que víssemos a cidade", dizem em uníssono os moradores.
Vítor Picado reconhece, à distância de dez anos, que a construção do muro foi um "erro crasso". Mas acrescenta que a proximidade a uma fábrica e a passagem constante de viaturas fez temer o pior pela segurança do enorme número de crianças que ali viviam. Apesar de admitir a falha, lança a crítica. "Houve um aproveitamento para se vitimizarem."
Foto - Vereador Vitor Picado
O vereador Vítor Picado reconhece a existência de um problema social grave, que só se resolve com a contribuição de todos
O muro obrigava a que os moradores andassem um quilómetro para chegar à via principal que dá acesso à cidade. Sem a barreira de pedra são uns meros 100 metros para alcançar a muito movimentada estrada nacional. Ali não existe nenhuma passagem aérea. Neste caso, a questão da segurança já não se levanta?
Picado recorda que a ponte pedonal já existiu, mas que foi retirada por "questões de segurança". A recolocação obriga a aplicação de normativas anti-sísmicas e já se "gastaram 40 mil euros na avaliação". O vereador não responde à pergunta de fundo sobre porque é que foi construído um muro por questões de segurança e não há uma passagem aérea para atravessar a estrada: "É uma questão muito pertinente".
A polémica do muro foi tão grande que o esforço conjunto da comunidade fez que com as mãos de quase todos, armadas de marretas, a barreira aos poucos e poucos fosse desaparecendo. A maquilhagem ao bairro só terminou quando os ciprestes foram cortados pela raiz e a cerca foi abaixo. "Não nos opusemos", revela o autarca.
Há um ano o muro caiu na totalidade, ficando apenas uns resquícios. Mas se o mau embrulho ruiu, o conteúdo do problema manteve-se.
Eu tenho direito, tu tens deveres
Consegue-se integrar a comunidade cigana numa cidade, juntando-a toda num bairro? Todas as respostas teóricas são negativas. No entanto, na prática foi o que aconteceu. "Sempre tive grandes reservas em relação a essa solução. Acho que não é, nem foi, a melhor, mas percebo porque é que o fizeram", explica Vítor Picado, que não pertencia ao executivo que tomou a decisão.
Prudêncio diz o que parece ser óbvio para todos, mas que quase nunca se torna real. "Não se fazem bairros para ciganos. Temos é de fazer bairros para as pessoas, para depois lhes exigir direitos e deveres. Temos de preparar as pessoas para terem direito a uma casa".
Picado reconhece que os ciganos são "personas 'non gratas'" na cidade. Há sempre muita resistência quando se pensa em alojar ciganos em bairros sociais onde a maioria não seja da mesma etnia.
António Engrácio tem 21 anos e dez de Pedreiras. É uma década de "guerreias (sic)". "É por tudo e por nada. Se estivéssemos num bairro em que houvesse ciganos e não ciganos a nossa comunidade avançava. Estamos no meio de ciganos, queremos sair mas não podemos ter a liberdade que vocês têm", lamenta. "Como somos todos ciganos, a gente não passa de cigano", resume.
Foto - António Engrácio
António Engrácio sente os olhares de discriminação de cada vez que sai do bairro
O gueto em que vive ganha forma sempre que sai do bairro. Sente os olhares e os cochichos. "Lá vem o cigano, lá vem o cigano". Às vezes, tenta contrariar e lançar um bom dia. "Não me respondem e a gente não gosta e também tratamos mal as pessoas. Já fiz isso", assume. "Tinha um amigo não cigano e ia sair com ele, vinha connosco outro amigo dele que não queria que eu fosse. Tive de guerrear com ele", confessa.
O mediador cigano reclama que só se podem exigir deveres quando se dão direitos. O vereador do Urbanismo garante que ter direitos exige que se cumpram os deveres. Cada um tem uma lista.
Prudêncio aponta o dedo à câmara, alegando que só levanta o lixo no bairro duas vezes por semana. E são meio milhar a fazer crescer o amontoado de restos de comida e de caixas por fora dos caixotes. No resto da cidade a recolha é feita todos os dias. O vereador admite que não pode alegar desconhecimento do caso e reconhece que tal pode "causar estranheza". Garante que falará com os serviços "para solucionar o problema".
A câmara contrapõe com a discriminação positiva feita às crianças da comunidade que são levadas à escola pelo transporte da câmara, quando legalmente não tinham de o fazer por esta viver a menos de três quilómetros do estabelecimento de ensino. "Isso faz com que muitos na cidade digam: 'A mim não me vêm buscar o filho a casa.' Mas nós entendemos que faz sentido fazê-lo para combater o absentismo", destaca Vítor Picado.
Prudêncio concorda, mas apresenta outro facto. O Bairro das Pedreiras é o único onde os transportes públicos não passam. Picado responde: "Se querem ter um transporte que os ligue à cidade têm deveres". E coloca "três nãos" para fazer cumprir esse desejo. "Não podem destruir os autocarros, não podem bater em pessoas, não podem dizer palavrões."
Depois há as contas que ficam por pagar. A autarquia fala de uma dívida de 150 mil euros à empresa municipal de água que "terá de ser paga", "nem que seja em prestações". "Percebemos que isso tem que ver com a utilização irracional da água, como levar os animais para dentro de casa e o terem partido os autoclismos".
O vereador afiança que o dinheiro que for recuperado será para reinvestir no bairro. A juntar às queixas, há ainda as "puxadas" de electricidade que obrigam a EDP a fazer cortes. "Há relatos de agressões aos técnicos quando isso acontece", salienta a autarquia.
A estas queixas soma-se a de ainda hoje ser difícil saber quem mora nas casas. As chaves andam de mão em mão, e elas são vendidas dentro da comunidade. "Estamos a fazer um trabalho mais activo para perceber quem é quem."
O mediador cigano reconhece que "há ciganos que querem mudar e outros que não querem". "Há uns que pensam que só têm direitos e que não têm deveres. Há outros que não têm direitos, e por isso também acham que não têm deveres", sintetiza. E lamenta que o contexto de miséria do bairro não o deixe de forma inequívoca exigir o cumprimento das regras.
O RSI é preguiça ou inevitável?
Dos 500 habitantes das Pedreiras apenas três têm um emprego, na autarquia. Quase todos os outros vivem do Rendimento Social de Inserção. É como se fosse um destino comum para o qual se caminha sem alternativa.
A Cáritas acompanha há uma década os ciganos daquele bairro. Desde o início que a assistente social Mariana Côco trabalha com esta comunidade "maioritariamente analfabeta" ou "com baixa escolaridade". Há uma dificuldade latente em promover a escola porque os pais não a viveram e não percebem a sua importância. O RSI, neste aspecto, serve um propósito maior, obriga a que as crianças frequentem as aulas para que os parentes possam receber a prestação social. A redução do nomadismo faz o resto.
A evolução, apesar de tudo, já se nota. O absentismo está a diminuir. O psicólogo Armindo Mendes, que integra a equipa há um mês, assegura que estes progressos são fundamentais porque "introduzem cada vez mais cedo os meninos em contextos formais". Ele, que andou a trabalhar noutras comunidades ciganas do Alentejo, realça que a escolaridade nas Pedreiras é ainda mais reduzida. "A baixa formação é um factor de baixa empregabilidade", não duvida Mariana, que não acha que os ciganos sejam de forma geral discriminados.
Esta é a primeira ferramenta em falta para que a integração completa no mercado de trabalho não aconteça. Soma-se outro factor estrutural, o desemprego do concelho (11,5% em 2011). Ou seja, há dificuldade para todos em conseguir um trabalho. Mas há um problema que é específico dos ciganos. Quem é que os vai empregar?
"Ninguém", responde Prudêncio, "a não ser a câmara" e ainda assim para lugares específicos. "Diz-se que o cigano não quer fazer nada, mas se eu tivesse dez oportunidades de trabalho, teria 50 pessoas que a querem", afiança.
Mas olhando para a sociedade que o rodeia, a ideia muitas vezes esbarra no preconceito. "Alguém que tenha um supermercado e que queira pôr lá um cigano, não o faz porque já ninguém lá ia". Enumera ainda outros dois casos de discriminação. A do irmão que concorreu para o lugar de mecânico, "mas quando viram que era cigano" foi rejeitado. E a de um jovem cigano que tem o 12.º ano. Chamaram-no para uma entrevista, mas depois de o verem, disseram que o lugar já estava preenchido.
O cigano diz que se a Câmara de Beja, com os Contratos Emprego-Inserção, pusesse nove ou dez pessoas a trabalhar, "as pessoas iam-se habituando a ver os ciganos a trabalhar". O vereador concorda que é preciso mostrar a Beja que "são cidadãos de pleno direito porque há a ideia de que tudo lhes é permitido, de que tudo lhes é perdoado, e de que eles é que ganham o dinheiro".
Para a elevada taxa de desemprego há um outro factor que foi fazendo mossa ao longo do tempo. No bairro afiança-se que a chegada dos chineses e das lojas dos asiáticos fez com que a venda ambulante deixasse de compensar. Antes compravam as peças de roupa nas fábricas a "cinco euros para as vender a oito". "Os chineses têm tudo à venda por cinco euros", conclui.
Sem promessas e sem dinheiro
Apesar de os diversos actores não concordarem com o diagnóstico, assumem que há muitos erros de parte a parte e que há que mudá-los. Essa mudança passaria sempre pelo realojamento da comunidade, em locais com melhores condições, pelo menos os que vivem nas barracas. Mas isso é possível?
Vítor Picado desfaz ilusões. "Não posso prometer que vou realojar estas famílias. A palavra 'prometer' tem sido abolida do nosso glossário. Não estamos cá para vender banha da cobra, estamos cá para tomar medidas concretas", argumenta. E acrescenta que a solução de realojar as famílias noutros bairros sociais da cidade "é ainda romântica".
Acrescenta que há 460 pessoas em espera na cidade para ter uma habitação social. Essas pessoas estão em barracas? "Não. Estamos sempre a tomar as medidas mais correctas? Também não. Mas posso dizer-lhe que o autarca de um concelho vizinho disse a pessoas da comunidade cigana que lá viviam para virem para Beja porque nós dávamos casa", afirma. "E isso também não pode ser."
O representante dos ciganos reconhece que nem todos "estão preparados para irem para uma habitação digna". "O problema é que se põe tudo no mesmo saco. Quando me dizem que há ciganos maus, há, mas não são todos", alerta.
Por outro lado, lamenta a ausência de oportunidades para intervir de forma mais eficaz na comunidade. "Se me dissessem: 'Vamos realojar dez pessoas para as pôr numa habitação digna', eu ia lá escolhê-las e criavam-se as condições para que os outros percebessem o que tinham de fazer para sair de lá. Aí poderia exigir que cumprissem as regras", explica Canhoto, para quem as Pedreiras são apenas um parque nómada.
A confiança entre ciganos e não ciganos é o elo que, para Prudêncio, é necessário criar. Não existe. "Quando entrei na câmara, muitas pessoas olhavam-me de lado e diziam: 'Olha o cigano', 'É pá temos cá um cigano'. Agora já não me olham de lado; as pessoas foram ganhando confiança. Agora já tenho o reconhecimento". Reproduzir o seu exemplo é um sonho. O sucesso desmonta o preconceito, acredita.
A autarquia de Beja, apesar dos muitos erros assumidos, tem aplicado medidas no terreno para melhorar aquele universo. Mas sente-se sozinha nesta luta. "Ainda sinto pouca abertura por parte da comunidade local para a integração."
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