Mostrar mensagens com a etiqueta Crise - Grécia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crise - Grécia. Mostrar todas as mensagens

15.7.15

“Senhoras e senhores, perdemos. A Grécia morreu”

Joana Pereira Bastos, in Expresso

Muitos votantes do “não” no referendo sentem-se agora traídos com o acordo alcançado com os credores, que impõe mais austeridade. Partido neonazi deverá crescer com a forte insatisfação popular

Alex Karakostas, de 39 anos, é o rosto do desalento que muitos gregos sentiram esta segunda-feira ao nascer do dia. A notícia do acordo alcançado com os credores internacionais, que impõe uma dose reforçada de austeridade a um país já cansado dela, encheu-o de tristeza e “frustração”. O firme defensor do Syriza e fervoroso votante do Não no referendo do passado dia 5 sente-se, agora, “traído” por Tsipras e esvaziado da réstia de esperança a que até hoje se agarrava.

Ao acordar, deixou no Facebook, sem poupar nas palavras, a desilusão que lhe vai na alma: “Senhoras e senhores, perdemos. Perderam os que votaram Sim e perdemos nós, os que dissemos Não. Perdemos todos porque a Grécia morreu. As lojas vão fechar, o desemprego vai subir, a agricultura será destruída, os jovens vão emigrar, as pessoas vão suicidar-se. Tudo o que aconteceu nos últimos cinco anos vai continuar a acontecer. A Europa, tal como existe neste momento, não oferece qualquer esperança. Os que quiseram ficar na União Europeia a qualquer custo vão descobrir isso em breve”.

13.7.15

Depois do acordo o desacordo. Eleições antecipadas à vista na Grécia. "Há problemas na maioria" e são esperadas mais demissões

in Diário de Notícias

Depois do acordo o desacordo. Eleições antecipadas à vista na Grécia. "Há problemas na maioria" e são esperadas mais demissões

Cenário de eleições antecipadas está em cima da mesa. Acordo para a Grécia mantém FMI no caminho de Tsipras.

O ministro do Trabalho grego defendeu hoje eleições antecipadas este ano e que, até lá, haja um Governo de ampla coligação ou que se busquem apoios pontuais com a oposição, para concretizar as reformas acordadas com o Eurogrupo.

"Neste momento há um problema com a maioria governamental", admitiu Panos Skurletis, em declarações à televisão pública, citadas pela agência noticiosa Efe, numa alusão às discussões internas sobre as negociações da Grécia com a União Europeia.

O ministro das Finanças grego, Euclides Tsakalotos, apenas obteve sábado um mandato parlamentar para negociar com os parceiros europeus graças a um forte apoio dos partidos da oposição.

Entre as fileiras do partido no Governo houve oito abstenções, sete ausências e dois votos contra, o que impossibilitou ao Syriza obter uma maioria.

A lista de abstenções incluiu o ministro de Energia, Panayotis Lafazanis, e o ministro-adjunto de Segurança Social, Dimitris Stratulis, cujas demissões são esperadas para breve.

"Não posso culpar quem assuma ser incapaz de dizer 'sim' a este acordo", afirmou Skurletis, acrescentando que "não se está a tentar que a situação pareça melhor do que é".

"O acordo não nos representa", assumiu.

As dificuldades

O ministro das Finanças da Finlândia, Alexander Stubb, considerou hoje que o programa-ponte de financiamento intermédio para a Grécia, a debater no Eurogrupo de hoje, "não será seguramente uma questão simples porque há muitos governos que não estão mandatados pelos parlamentos para dar dinheiro fresco ou sem condicionalidades e espero que seja encontrada uma solução".

O ministro finlandês lembrou ainda que o parlamento grego tem que aprovar o pacote negociado durante 19 horas antes que se possam iniciar as negociações no âmbito do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).

Os ministros das Finanças da zona euro discutem hoje o empréstimo intermédio que servirá para evitar que a Grécia falhe os próximos pagamentos, necessitando de sete mil milhões de euros até 20 de julho e de mais cinco mil milhões até meados de agosto, segundo o texto das conclusões da cimeira.

O terceiro programa de ajustamento deverá cobrir necessidades financeiras entre os 82 e os 86 mil milhões de euros, de acordo com a avaliação das instituições.

Acordo para a Grécia mantém FMI no caminho de Tsipras

Os chefes de Estado e de Governo da zona euro, reunidos em Bruxelas desde domingo à tarde, chegaram hoje de manhã a um acordo sobre a Grécia, ao cabo de 17 horas de negociações, anunciou o primeiro-ministro belga.

"Acordo", anunciou Charles Michel na sua conta na rede social Twitter. A confirmação deste acordo chegou pouco depois, num 'tweet' de Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, que referiu que houve unanimidade no entendimento quanto às medidas a implementar.

Já o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, sublinhou que não haverá "Grexit", ou seja, que o país irá manter-se na moeda única. Apesar da oposição de Alexis Tsipras, o FMI deverá continuar associado ao terceiro resgate da Grécia, que será negociado no âmbito do Mecanismo Europeu de Estabilidade, num valor aproximado de 86 mil milhões de euros. Terá a duração de três anos. O segundo resgate grego expira no início de 2016.

Os ministros das Finanças da zona euro deverão agora iniciar conversações urgentes sobre as possibilidades de "financiamento-ponte" para a Grécia, que tem de pagar já sete mil milhões de euros ao Banco Central Europeu em julho e agosto, antes que quaisquer verbas relativas a um terceiro resgate possam ser libertadas. O Eurogrupo reunirá na tarde desta segunda-feira em Bruxelas para discutir este financiamento de emergência que servirá para evitar que a Grécia falhe os próximos pagamentos. A reunião do Eurogrupo arranca hoje pelas 16.00 locais (15.00 de Lisboa).

Há ainda "condições rígidas" que devem ser cumpridas antes de este acordo entrar em vigor, avisou Donald Tusk, em conferência de imprensa após terminar a cimeira dos líderes da zona euro, já que vários parlamentos nacionais de estados membros da zona euro terão de aprovar as medidas, inclusivamente o parlamento grego. Alemanha, Holanda, Finlândia, Áustria, Eslováquia e Estónia são os países que terão de aprovar no parlamento a abertura formal de negociações para um terceiro resgate.

Depois de uma longa noite, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, também falou aos jornalistas para defender o acordo conseguido, sem negar que enfrenta agora decisões difíceis e dilemas duros. Porém, assinalou que o entendimento permite a Atenas erguer-se novamente, sublinhando que conseguiu que o fundo de recapitalização da banca grega ficasse na Grécia e não no Luxemburgo. Tsipras disse ainda ter conseguido financiamento a médio prazo para a Grécia e um eventual alívio da dívida. Saindo da reunião dos líderes da zona euro acompanhado pelo ministro das Finanças grego, Euclid Tsakalotos, o primeiro-ministro de Atenas recebeu um caloroso abraço do presidente francês, François Hollande, antes de entrar no carro que aguardava a delegação grega no final da cimeira.

FMI continua

Os detalhes deste acordo para evitar a saída da Grécia da zona euro ainda não são conhecidos na totalidade. Já esta manhã, foi divulgada uma declaração que resume as conclusões da cimeira de líderes da zona euro que refere que Atenas terá de levar a cabo aumentos no IVA, garantir a independência do instituto nacional de estatística grego e adotar medidas no sentido de assegurar a sustentabilidade do sistema de pensões.

Sabe-se também que o FMI continuará envolvido no programa de resgate financeiro, negociado no âmbito do Mecanismo Europeu de Estabilidade, que Bruxelas exige a privatização do sector da energia e novas regras para o mercado de trabalho, nomeadamente ao nível dos contratos coletivos de trabalho e despedimentos coletivos. A União Europeia deverá ainda supervisionar uma reforma da administração pública e deverão ser reforçadas as medidas de combate ao deteriorar da economia grega.

Apesar do acordo, as medidas de controlo de capital devem manter-se na Grécia. O entendimento alcançado deverá fazer com que o Banco Central Europeu mantenha a linha de liquidez de emergência à banca grega, o que faz prever uma reabertura dos bancos para breve, mas ainda com tetos aos levantamentos de dinheiro.

Parlamentos têm de aprovar negociação do terceiro resgateà Grécia

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, alertou já esta manhã os deputados gregos que devem "imediatamente" implementar a legislação necessária para que as medidas aprovadas em Bruxelas possam entrar em vigor. Se Atenas conseguir fazê-lo esta terça e quarta-feira, o Eurogrupo poderá reunir quarta-feira e os parlamentos de outros estados membros da UE poderão começar o processo de aprovação deste entendimento ainda antes do final da semana. Os parceiros europeus querem que até quarta-feira sejam aprovadas no parlamento grego medidas como aumento do IVA, reforma do sistema de pensões ou legislação laboral.

Dijsselbloem explicou ainda que o fundo que irá contribuir para a recapitalização dos bancos gregos, de 50 mil milhões de euros, terá sede em Atenas e não no Luxemburgo, como tinha sido avançado durante a maratona de negociações. Ainda assim, a medida, que implica uma cedência de soberania, uma vez que significa a entrega de 50 mil milhões pela Grécia como garantia, poderá ter dificuldades em passar no parlamento grego. O presidente da Comissão Europeia, porém, já disse estar confiante de que Atenas poderá aprovar todas as medidas acordadas na reunião que terminou esta segunda-feira, pelas 9.00 em Bruxelas (menos uma hora em Lisboa).

O presidente do Eurogrupo disse também que um dos assuntos que mais consumirão energias num terceiro programa para a Grécia será o sistema bancário grego, que está numa situação muito difícil, sendo estimada em 25 mil milhões de euros a injeção de dinheiro que terá de ser feita nos bancos. Esse valor de 25 mil milhões de euros que irá recapitalizar os bancos será depois pago a partir do fundo hoje acordado.

O fundo de privatizações reclamado pelos credores a Atenas foi um dos pontos que provocou mais divergências entre a Grécia e os parceiros europeus. Além de recapitalizar os bancos, Dijsselbloem disse que parte do dinheiro do fundo (que monetiza ativos gregos) também poderá ser usado pelo Governo para investir na economia do país.

Portugal esteve representado pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que esclareceu em conferência de imprensa que a Grécia deverá dirigir ao Fundo Monetário Internacional um pedido para que se associe a este terceiro resgate.

A chanceler alemã, Angela Merkel, também falou aos jornalistas, revelando que não há necessidade de um "plano B" e que a ameaça do "Grexit" já não está em cima da mesa, mas que o novo resgate ainda não foi acordado. Merkel manifestou-se confiante no voto de aprovação do parlamento alemão, mas fez a ressalva: o parlamento grego tem de aprovar todas as condições incluídas no texto de acordo de princípio antes de o os alemães votarem no Bundestag. "Será um caminho longo e difícil", acrescentou a chanceler. Merkel revelou ainda que o Eurogrupo está pronto a considerar uma extensão da maturidade dos empréstimos gregos, mas que um "haircut" - uma redução do valor da dívida - está fora de questão.

Maratona de negociações

A cimeira extraordinária da zona euro sobre a Grécia, apontada como decisiva para o futuro do país na zona euro, teve início às 16:00 locais de domingo (15:00 de Lisboa), e foi interrompida por diversas vezes para consultas e reuniões à margem devido às diferenças entre as autoridades gregas e os seus credores.

De acordo com várias fontes, o Governo grego liderado por Alexis Tsipras acabou por concordar com a maioria das medidas reclamadas pelos credores, que terá que aprovar a nível legislativo até à próxima quarta-feira, tendo sido as divergências quanto a dois pontos, designadamente o fundo de privatizações reclamado pelos credores, assim como a participação do Fundo Monetário Internacional no novo programa de assistência, que fizeram prolongar em várias horas os trabalhos.

Sem um acordo, a Grécia ficava muito próxima de uma saída da zona euro, o chamado "Grexit".

9.7.15

Dia-a-dia cada vez mais difícil na Grécia, bancos fechados até 2ª feira

in SicNotícias

Os bancos gregos vão continuar fechados, pelo menos até à próxima segunda-feira. Se não houver acordo nos próximos dias, podem entrar em ruptura. Com os bancos encerrados, os gregos começam a acusar cansaço pelo arrastar da situação. O relato é do enviado da SIC a Atenas, Anselmo Crespo.

2.7.15

E se um “crowdfunding” ajudasse a pagar a dívida da Grécia?

Texto de Amanda Ribeiro, in Público on-line(P3)

Britânico lançou uma popular campanha de "crowdfunding" para conseguir os cerca de 1600 milhões de euros que o país deve ao FMI. Há quem questione a sua credibilidade

Pode uma campanha de "crowdfunding" angariar os quase 1600 milhões de euros que, esta terça-feira, a Grécia deveria deveria reembolsar ao Fundo Monetário Internacional (FMI)? Thom Feeney acredita que sim — e não está sozinho.

O britânico de 29 anos é o impulsionador da campanha "Greek Bailout Fund", lançada esta segunda-feira na plataforma Indiegogo, que apela a todos os europeus que colaborem num fundo de resgate grego. A premissa é simples: se cada uma das 503 milhões de pessoas que vivem na União Europeia contribuir com três euros, facilmente se resolve esta situação e a Grécia "pode voltar ao bom caminho".

Até agora, à hora de publicação deste artigo, mais de 9 mil pessoas doaram mais de 153 mil euros. É uma gota no oceano — o contador ainda não saiu dos 0% — mas os números não param de crescer. E, tal como em todas as campanhas de "crowdfunding", também há recompensas. Quem der três euros, recebe um postal enviado da Grécia (com Alex Tsipras, o primeiro-ministro grego); seis equivalem a uma salada de queijo feta e azeite; dez a uma pequena garrafa de Ouzo; 25 a uma garrafa de vinho grego.


"Todos os produtos serão provenientes da Grécia, feitos na Grécia e enviados da Grécia", garante o criador do projecto. Até porque, diz, os europeus podem ajudar os seus "primos gregos" ao comprar "maravilhosos produtos gregos como feta, azeitonas, vinho e muito mais". "Ou considerando a Grécia como destino de férias. Essa é parte da ideia por detrás de cada uma das recompensas da campanha. O comércio vai ajudar a Grécia e o povo grego na situação actual."

Uma "tentativa real de fazer alguma coisa"

Não é um "statement", é uma "tentativa real de fazer alguma coisa", garante o britânico na página do projecto, onde, atendendo à popularidade crescente da campanha, acrescentou uma lista de perguntas e respostas sobre o projecto e as suas intenções. "Pelo menos, é importante levantar a questão da situação difícil que o povo grego atravessa."

Muitos têm questionado a credibilidade da campanha, não só pelo conceito em si mas também por um certo tom leve e jocoso, mas o jovem assegura que não é uma piada e que "todos os lucros irão para o povo grego", seja através do governo ou por outros meios (ainda que não se saiba bem como é que o governo grego poderá aceitar o montante). Está prometido que se o objectivo não for atingido, todo o dinheiro será devolvido.

Thom Feeney sublinha na página que nunca se envolveu na política grega, nem falou com nenhum dirigente europeu. No entanto, já há um boato a correr: um jornalista contou-lhe que Tsipras queria entrar em contacto com ele. A campanha termina domingo, 5 de Julho, data do referendo na Grécia.

30.6.15

Traduzido e comentado: o que Varoufakis disse na reunião que “não orgulha a Europa”

in Expresso

Quando estiver quase a acabar este texto, que é comentado em vídeo por Pedro Santos Guerreiro, vai encontrar esta pergunta: “Onde é que estavas no 27 de junho? E o que fizeste para evitar o que aconteceu?”. Varoufakis colocou-a no Eurogrupo de sábado, que acabou como o mundo sabe: sem ninguém saber se o 27 de junho foi ou não o princípio de algo incontrolável. O Expresso traduziu o que Varoufakis pronunciou: para que você possa ler e fundamentar informadamente a sua opiniãoo

Nota de Varoufakis no seu blogue, onde disponibilizou o texto
A reunião de 27 de junho de 2015 do Eurogrupo não vai ficar na história da Europa como um momento de que nos possamos orgulhar. Os ministros recusaram o pedido do governo grego para que fosse concedido ao povo grego uma mera semana durante a qual diriam 'Sim' ou 'Não' às propostas das instituições — propostas cruciais para o futuro da Grécia na Zona Euro. A simples ideia de que um governo consulte o seu povo quanto a uma proposta problemática que lhe é feita pelas instituições foi tratada com incompreensão e muitas vezes desdém que roçava o desprezo. Chegaram a perguntar-me: 'Está à espera que as pessoas normais compreendam questões tão complexas?'. Na verdade, a democracia não teve um bom dia na reunião do Eurogrupo deste sábado! Mas as instituições europeias também não. Depois de o nosso pedido ser rejeitado, o presidente do Eurogrupo quebrou o pacto de unanimidade (emitindo uma declaração sem o meu consentimento) e tomou mesmo a dúbia decisão de convocar um encontro sem o ministro grego, ostensivamente para discutir os 'passos seguintes'. É possível a coexistência de uma união monetária e da democracia? Ou uma delas tem de desistir? Esta é a questão fundamental a que o Eurogrupo decidiu dar resposta colocando a democracia na gaveta de baixo. De momento, esperemos.

Intervenção de Varoufakis no Eurogrupo

No nosso último encontro (25 de junho), as instituições colocaram na mesa a sua oferta final às autoridades gregas, em resposta à nossa proposta de Acordo ao Nível de Staff (SLA) apresentada a 22 de junho (e assinada pelo primeiro-ministro Tsipras). Depois de uma longa e cuidadosa apreciação, o nosso governo decidiu que, infelizmente, a proposta das instituições não podia ser aceite. Dada a grande proximidade do prazo de 30 de junho, data em que o acordo de empréstimo corrente expira, este impasse preocupa-nos muito a todos e as suas causas devem ser rigorosamente examinadas.

Rejeitámos as propostas de 25 de junho das instituições por causa de uma série de razões poderosas. A primeira razão é a combinação de austeridade e injustiça social que imporiam a uma população já devastada por… austeridade e injustiça social. Mesmo a nossa proposta SLA (de 22 de Junho) é austera, numa tentativa de aplacar as instituições e assim ficar mais perto de um acordo. Só que o nosso SLA tentava passar o fardo desta renovada carnificina austeritária para aqueles que estão mais capazes de a suportar — isto é, concentrando-nos no aumento das contribuições dos patrões para os fundos de pensões em vez de reduzir ainda mais as pensões mais baixas. Ainda assim, mesmo o nosso SLA contém muitas partes que a sociedade grega rejeita.

Assim, tendo-nos empurrado para aceitar uma dose substancial de nova austeridade, na forma dos absurdamente grandes superavits primários (3,5% do PIB a médio prazo, ainda assim um tanto abaixo do número fantasmagórico acordado com os anteriores governos – i.e. 4,5% – , acabámos por ser forçados a fazer escolhas recessivas entre, por um lado, aumento de impostos / encargos numa economia onde os que pagam o que lhes é imposto já pagam com a corda na garganta e, por outro, reduções nas pensões / benefícios sociais numa sociedade já devastada por cortes maciços nos rendimentos básicos dos cada vez mais numerosos necessitados.

Deixem que vos diga, colegas, o que já trouxemos às instituições a 22 de junho, quando colocávamos na mesa as nossas próprias propostas: mesmo este SLA, o que propúnhamos, seria muito difícil de passar no Parlamento, dado o nível de medidas de recessão e austeridade que implicava. Infelizmente, a resposta das instituições foi insistir em medidas ainda mais recessivas, o mesmo é dizer paramétricas (isto é, aumento do IVA dos hotéis de 6% para 23%!) e, ainda pior, em passar o fardo em massa das empresas para os mais fracos membros da nossa sociedade (isto é, reduzir as pensões mais baixas, retirar o apoio aos agricultores, adiar para as calendas legislação que dá alguma proteção aos trabalhadores violentamente explorados).

As novas propostas das instituições, como vêm expressas no seu documento SLA / Ações Prioritárias de 25 de junho, transformariam um pacote politicamente problemático — da perspetiva do nosso Parlamento – num pacote extremamente difícil de passar no nosso grupo parlamentar. Mas não é tudo. Fica cada vez pior que isso quando damos uma vista de olhos ao pacote de financiamento proposto.

ALKIS KONSTANTINIDIS / Reuters

O que torna a proposta das instituições impossível de passar no Parlamento é a falta de resposta a uma pergunta: estas medidas dolorosas dão-nos pelo menos um período de tranquilidade durante o qual podemos realizar as reformas e medidas acordadas? Haverá um choque de otimismo contra o efeito recessivo de uma consolidação fiscal extra que é imposta a um país que está em recessão há 21 trimestres consecutivos? Não, a proposta das instituições não oferece essa perspetiva.

E isso porque o financiamento proposto para os próximos cinco meses é problemático de várias maneiras:

. primeiro, não estabelece nenhuma provisão para as perdas do Estado, causadas por cinco meses a fazer pagamentos sem desembolsos e de rendimentos fiscais em queda como resultado da constante ameaça da saída da Grécia do Euro que tem andado no ar, por assim dizer;

. segundo, a ideia de canibalizar o Fundo de Garantia para pagar as obrigações da era do programa SMP do BCE constitui um claro perigo: estes montantes eram reservados, corretamente, para reforçar os frágeis bancos gregos, possivelmente através de uma operação que joga com os seus tremendos Empréstimos Não-Rentáveis que devoram a sua capitalização. A resposta que me foi dada por altos responsáveis do BCE, cujos nomes não revelo, é que, se for preciso, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF) será reposto para estar ao nível das necessidades de capitalização dos bancos. O ESM é a resposta que me deram. Mas, e este é um mas gigantesco, isto não faz parte do acordo proposto e, mais, não pode fazer parte do acordo uma vez que as instituições não têm mandato para comprometer o SME desta maneira – o que tenho a certeza Wolfgang não deixará de nos recordar. E, mais ainda, se este novo acordo pudesse ser feito, porque é que então a nossa proposta, sensata, moderada, de novo empréstimo do SME à Grécia, que ajude a passar a labilidade dos SMP do BCE para o SME, não é discutida? A resposta "não discutimos porque não" será muito difícil de transmitir ao meu Parlamento juntamente com mais um pacote de austeridade;

. terceiro, o plano de desembolsos proposto é um campo de minas de avaliações — uma por mês — que asseguraria duas coisas: primeiro, que o governo grego estivesse imerso, todos os dias, todas as semanas, no processo de avaliação durante cinco meses; e bem antes de estes cinco meses terminarem, entraríamos noutra entediante negociação do programa seguinte — uma vez que não há nada nas propostas das instituições capaz de inspirar a mais leve das esperanças de que no final de mais esta extensão a Grécia possa levantar-se sozinha nos dois pés;

. Quarto, dado que é claro à sociedade que a nossa dívida continuará insustentável no fim deste ano, e que o acesso aos mercados estará tão distante nessa altura como agora, não se pode contar com o FMI para desembolsar a sua parte, os 3,5 mil milhões com que as instituições estão a contar como parte do pacote de financiamento sobre a mesa.

Estas são razões sólidas para que o nosso governo não considere que tem mandato para aceitar a proposta das instituições ou para usar a sua maioria no Parlamento de forma a empurrá-la contra os estatutos.
Referendo está marcado para este domingo

Referendo está marcado para este domingo

ARIS MESSINIS / AFP / Getty Images

Ao mesmo tempo, não temos mandato para rejeitar também as propostas das instituições, sabendo do momento crítico da história que vivemos. O nosso partido recebeu 36% dos votos e o governo no seu todo representa pouco mais de 40%. Conscientes do peso da nossa decisão, sentimo-nos obrigados a colocar a proposta das instituições ao povo da Grécia. Empenhar-nos-emos a explicar-lhes completamente o que significa um "Sim" à proposta das instituições, a fazer o mesmo relativamente a um voto "Não", e a deixá-los decidir. Da nossa parte aceitaremos o veredito do povo e faremos tudo o que for necessário para o implementar — para um lado ou para outro.

Há alguma preocupação de um voto "Sim" ser um voto de desconfiança no nosso governo (já que recomendamos o "Não"), caso em que não podemos prometer ao Eurogrupo que estaremos em posição de assinar e implementar o acordo com as instituições. Não é assim. Somos democratas convictos. Se o povo nos der uma clara instrução para assinarmos as propostas das instituições, faremos tudo o que for preciso para o fazer - mesmo que isso signifique um governo remodelado.

Colegas, a solução do referendo é ótima para todos, dados os constrangimentos que enfrentamos:

. se o nosso governo aceitasse hoje a oferta das instituições, prometendo levá-la ao Parlamento amanhã, seríamos derrotados no Parlamento com o resultado de umas novas eleições a serem convocadas dentro de um longo mês – depois, o atraso, a incerteza e as perspetivas de uma solução bem-sucedida seriam muito, muito mais diminutas;

. mas mesmo se conseguíssemos fazer passar no Parlamento as propostas das instituições, enfrentaríamos um problema maior de propriedade e implementação. Em termos simples, tal como no passado os governos que impuseram políticas ditadas pelas instituições não puderam ganhar o povo para as tarefas, também nós iríamos falhar em consegui-lo.
Mural em Atenas

Mural em Atenas

SIMELA PANTZARTZI / EPA

Quanto à questão que será colocada ao povo grego, muito se disse sobre qual devia ser. Muitos de vós disseram-nos, aconselharam-nos, instruíram-nos até, que deveríamos fazê-la como uma pergunta de "Sim" ou "Não" ao Euro. Deixem-me ser claro nisto. Primeiro, a questão foi formulada pelo Governo e já passou no Parlamento — e ela é "Aceita a proposta das instituições como nos foi apresentada a 25 de junho, no Eurogrupo?” Esta é a única questão pertinente. Se tivéssemos aceitado essa proposta há dois dias, teríamos tido um acordo. O governo grego está agora a fazer ao eleitorado a pergunta que você me fez, Jeroen – especialmente quando disse, e passo a citá-lo, "pode considerar, se quiser, isto como uma proposta de pegar ou largar". Bem, foi assim que a encarámos e estamos agora a honrar as instituições e o povo grego pedindo a este último que dê uma resposta clara à proposta das instituições.

Para os que dizem que, efetivamente, este é um referendo ao Euro, a minha resposta é: podem muito bem dizer isso, mas não faço comentários. É o vosso julgamento, a vossa opinião, a vossa interpretação. Não é a nossa! A vossa visão tem uma lógica mas apenas se contiver uma ameaça implícita de que um "Não" do povo grego à proposta das instituições seria seguido por manobras para expulsar a Grécia, ilegalmente, do Euro. Tal ameaça não seria consistente com os princípios básicos da governação democrática europeia e com o Direito Europeu.

Para os que nos dão instruções para colocar a questão do referendo como um dilema euro-dracma, a minha resposta é cristalina: os tratados europeus preveem saídas da Uniâo Europeia. Não preveem nenhuma medida para uma saída da Zona Euro. Com razão, claro, uma vez que a indivisibilidade da nossa União Monetária faz parte da sua razão de ser. Pedir-nos que coloquemos a pergunta do referendo em termos de uma escolha envolvendo a saída da Zona Euro é pedir-nos para violarmos os Tratados da União Europeia e as leis da EU. Sugiro a quem queira que nós, ou outro governo, faça um referendo sobre a participação na União Monetária Europeia que recomende antes uma mudança dos Tratados.

MARKO DJURICA / Reuters

Colegas,

É tempo de tomar medidas. A razão por que estamos hoje neste impasse é só uma: a proposta de base do nosso governo ao Eurogrupo e às instituições, que fiz aqui no Eurogrupo na minha primeira intervenção de sempre, nunca foi levada a sério. Era uma sugestão de que fosse criado terreno comum entre o Memorando existente e o nosso novo programa de governo. Por instantes, a declaração do Eurogrupo de 20 de fevereiro levantou a hipótese desse terreno comum - dado que não fez referência ao Memorando e se concentrou numa nova lista de reformas do meu governo que seria apresentada às instituições.

Lamentavelmente, logo após o 20 de fevereiro, as instituições e a maioria dos colegas aqui na sala desejaram trazer de novo o Memorando para o centro da discussão e reduzir o nosso papel a mudanças marginais no mesmo. Foi como se nos dissessem, parafraseando Henry Ford, que podíamos ter qualquer lista de reformas, qualquer acordo, desde que fosse o memorando. O terreno comum foi assim sacrificado a favor da imposição ao nosso governo de um recuo humilhante. É a minha visão. Mas não é importante neste momento. Agora é o povo grego que decide.

A nossa tarefa, no Eurogrupo de hoje, deve ser limpar o chão para uma passagem suave para o referendo de 5 de julho. Isto significa uma coisa: que o nosso acordo de empréstimo seja prolongado por poucas semanas para que o referendo decorra em condições de tranquilidade. Logo após 5 de julho, se o povo votar "Sim", assinaremos a proposta das instituições. Até lá, durante a próxima semana, à medida que se aproximar o referendo, qualquer desvio à normalidade, especialmente no setor bancário, seria invariavelmente interpretada como uma tentativa para coagir os eleitores gregos. A sociedade grega pagou um enorme preço, através de uma enorme contração fiscal, no sentido de fazer parte da nossa união monetária. Mas uma união monetária democrática que ameaça um povo prestes a dar o seu veredito com controlos de capitais e encerramentos de bancos é uma contradição nos termos. Gostava de pensar que o Eurogrupo respeitará este princípio. Quanto ao BCE, que tem a custódia da nossa estabilidade monetária e da própria União, não tenho dúvida de que, se o Eurogrupo tomar hoje a decisão responsável de aceitar um pedido de extensão do nosso acordo de empréstimo que acabo de colocar na mesa, fará o que é preciso para dar ao povo grego mais uns dias para exprimir a sua opinião.

Colegas, este é o momento e as decisões que tomamos são momentosas. Daqui a uns anos poderão mesmo perguntar-nos: "Onde é que estavas no 27 de junho? E o que fizeste para evitar o que aconteceu?" E no mínimo deveríamos ser capazes de responder: demos a um povo que vive sob a maior depressão uma hipótese de reconsiderar as suas opções. Tentámos a democracia como meio de quebrar um impasse. E fizemos o que tínhamos a fazer para lhes dar uns dias para pensar e decidir.

O dia em que o presidente do Eurogrupo quebrou a tradição da unanimidade e excluiu por sua vontade a Grécia de um encontro do Eurogrupo

Na sequência da minha intervenção, o presidente do Eurogrupo rejeitou o nosso pedido de extensão, com o apoio do resto dos membros, e anunciou que o Eurogrupo iria emitir uma declaração colocando o ónus deste impasse na Grécia e sugerindo que os 18 ministros (ou seja, os 19 ministros das Finanças da Zona Euro, exceto o ministro grego) se reunissem mais tarde para discutir formas e meios de se protegerem.

Nesse ponto pedi conselho jurídico ao secretariado sobre se uma declaração do Eurogrupo podia ser emitida sem a convencional unanimidade e se o presidente do Eurogrupo podia convocar uma reunião sem convidar o ministro das Finanças de um Estado-membro. Recebi a seguinte e extraordinária resposta: "O Eurogrupo é um grupo informal. Por isso não está sujeito aos tratados ou a regulamentos escritos. Embora a unanimidade seja convencionalmente usada, o presidente do Eurogrupo não está preso a regras explícitas". Deixo os comentários ao leitor.

Pela minha parte, tiro esta conclusão:

Colegas, recusar alargar o prazo do acordo de empréstimo por um par de semanas e assim dar tempo ao povo grego para deliberar em paz e calmamente sobre a proposta das instituições, especialmente dada a alta probabilidade de o povo aceitar estas propostas (contrariando o conselho do nosso governo), causará danos permanentes na credibilidade do Eurogrupo como um corpo democrático de decisão que reúne estados parceiros que partilham não só uma moeda comum, mas também valores comuns.

16.1.13

“Na Grécia, se não pusermos um envelope nas mãos do médico a cirurgia é adiada”

Romana Borja-Santos, in Público on-line

“Se não tomarmos as medidas certas na saúde vai haver uma revolução na Grécia”

Desde que a crise estalou na Grécia e que o país assinou o primeiro memorando de entendimento com a troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), em Maio de 2010, vários têm sido os sinais de que o sistema de saúde grego pode estar a colapsar. Financiados pelo Orçamento do Estado e pela Segurança Social, os serviços têm dificuldade em dar resposta à crescente procura, sobretudo com a perda da contribuição por parte dos desempregados, que deixam de ter acesso a cuidados de saúde gratuitos após um ano sem emprego. O economista da saúde grego John Yfantopoulos, professor da Universidade de Atenas, esteve nesta semana em Lisboa para participar na conferência “A crise económica e os sistemas de saúde”, organizada pela Associação Portuguesa de Economia da Saúde. Numa entrevista ao PÚBLICO fez um relato de um país onde não param de crescer os números de infecções por VIH, os suicídios e o consumo de drogas. E aponta uma culpada que tem minado todas as tentativas de mudança

O que mudou no sistema de saúde e na saúde dos gregos com a crise e assinatura do memorando de entendimento com a troika?
Avaliar os impactos das medidas é um trabalho que temos feito na Universidade de Atenas. Estimamos que em termos de estado de saúde os efeitos da crise estão a ser fortes. Ao utilizarmos indicadores agregados como a esperança média de vida ou a taxa de mortalidade infantil percebemos que têm vindo a piorar com a crise económica. Na década de 1950 havia uma mortalidade de cerca de 50 por cada mil nascimentos. Este valor ao longo dos anos teve um decréscimo considerável, até chegar aos 3,7 por cada mil nascimentos e agora pela primeira vez cresceu para 4,3. Podem dizer que não é um grande incremento, mas a verdade é que foi entre os mais pobres, os socialmente excluídos e os grupos marginais. Neste momento um parto custa para qualquer pessoa entre 1000 e 2000 euros, pelo que o número de nascimentos também está a cair bastante. Os casais novos estão a adiar a vinda de um filho e a população grega está a encolher.

São as medidas de austeridade que estão a destruir o sistema de saúde da Grécia?
Destruir é uma palavra demasiado forte. As medidas estão a tentar melhorar, pois temos um sistema de saúde muito corrupto e com muita influência dos políticos. O sistema precisava que fosse introduzida alguma racionalidade. A troika pediu ao Governo grego três coisas: que especifique os objectivos e a estratégia política, que os quantifique e que introduza algumas análises de custo-efectividade. O problema do memorando é que só se foca no lado financeiro e económico e deixa de lado as implicações sociais, porque estas medidas estão a criar grandes iniquidades. Precisamos de um pensamento mais social para compensar os efeitos nas medidas.

Precisamos de trabalhar num pacote de serviços mínimos para garantir que os mais pobres têm acesso ao essencial

Mas a informação que chega é que o acesso aos serviços de saúde está cada vez mais comprometido e que, à semelhança de Portugal, o aumento das taxas moderadoras estão a gerar grandes dificuldades.
As admissões nos hospitais públicos cresceram cerca de 20%, porque houve uma grande redução no que é prestado no sector privado. Até agora a nossa despesa pública em saúde correspondia a cerca de 55% e a privada a 45%. As taxas moderadoras e os co-pagamentos estão certamente a gerar problemas e penso que precisamos de trabalhar num pacote de serviços mínimos para garantir que os mais pobres têm acesso ao essencial. É preciso garantir uma espécie de seguro mínimo. Isto porque há obstáculos que muitas vezes não são visíveis e que privam as pessoas dos serviços. Os doentes entram no sistema mas a partir do momento em que entram têm de pagar quantias avultadas e a qualidade do serviço é questionável...

Está novamente a referir-se à corrupção? É preciso subornar para ser atendido?
Sim. Os gestores hospitalares na Grécia são políticos falhados e membros de partidos políticos sem qualquer tipo de conhecimento de como devem gerir grandes hospitais. Precisamos de profissionais e não de políticos para combater a corrupção e a economia paralela. Os casos de corrupção acontecem mais em cirurgias. Se não pagarmos por baixo da mesa ou se não pusermos um envelope nas mãos do médico vemos que a cirurgia não é propriamente recusada mas é sucessivamente adiada. E os mais velhos e os mais jovens são os que estão a pagar mais, pois são os que já não têm ou os que ainda não têm uma posição social confortável. Chamamos-lhe uma inversão da teoria do Robin Hood, em que não me pedem dinheiro a mim que sou professor universitário e que já tenho a minha posição social, mas que pedem por exemplo a agricultores que não têm uma rede de conhecimentos.

As barreiras no acesso também estão a acontecer em doenças graves? E porque estão a faltar medicamentos nas farmácias?
Sim, em qualquer cirurgia há barreiras. Nos casos de oncologia os medicamentos são gratuitos mas o acesso é cada vez mais complicado. Como o Governo não paga às farmácias ou se atrasa muito, estas recusam-se cada vez mais a fornecer os medicamentos a não ser que o doente os pague. Há farmácias a encaminhar pessoas do norte para o sul do país e a por vários obstáculos. É preciso que se faça mais negociação com evidência científica. Não podemos continuar a ter discussões sentimentais. Com a crise a academia tem de intervir e de dar factos claros e elementos sociais.

Também já há laboratórios a recusarem-se a vender aos hospitais. Como tem sido a relação entre o Governo e a indústria?
A indústria farmacêutica comprometeu-se a ajudar a reduzir a despesa pública com medicamentos e tomaram algumas iniciativas. Para ter uma ideia um dispositivo médico para uso cardíaco antes custava três mil ou 3500 euros, sendo que uns mil ou 1500 iam directamente para o bolso do cardiologista. Agora o preço é de uns 500 euros. Mas como o Estado está a atrasar-se, muitas farmacêuticas na Grécia pararam ou recusam-se a fornecer medicamentos para doenças crónicas, como o cancro, a asma ou a diabetes sem ser contra-pagamento, o que teve implicações automáticas na deterioração do estado de saúde destas pessoas.

Há farmácias a recusarem-se a fornecer os medicamentos a não ser que o doente os pague

Quem são os mais afectados?
Houve uma deterioração do estado de saúde reportado pelas pessoas e da qualidade de vida, em especial das gerações mais novas. Encontramos níveis muito elevados de ansiedade e de depressão relacionados com o desemprego. É um problema quando 60% da população mais jovem está a sofrer de ansiedade e depressão. Com estes dados quais serão os pilares e as fundações da nossa sociedade? Sabe o que dizemos aos nossos estudantes na universidade enquanto professores? Saiam do país assim que possível.

Têm também feito cortes nas verbas para combater várias patologias e viram crescer o número de infecções por VIH/sida, os suicídios, o consumo de drogas...
As infecções por VIH são um problema. Como muitos dos programas na área da toxicodependência estão a ser cortados e as pessoas que estejam infectadas com VIH têm prioridade, há muita gente a infectar-se de propósito para ter acesso aos benefícios sociais e a programas de metadona. O acesso aos tratamentos está a ser muito limitado para quem não tem conhecimentos. A saúde pública é uma área em que precisamos de trabalhar mais e mais.

Se fosse ministro da Saúde que alterações propunha?
Se fosse ministro da Saúde fazia três coisas. Apostava na transparência pois os cidadãos gregos têm o direito de conseguir ver na Internet o que está a acontecer no sistema. Os ministros têm propositadamente escondido estas informações. Se os nossos resultados são publicitados sentimo-nos mais responsáveis pelos nossos sucessos e pelos nossos fracassos. Apostava também na prescrição electrónica para acabar com a corrupção no sector farmacêutico. Neste campo estamos a fazer trabalho e já temos bons sinais. Por último, defendo que temos de ter profissionais no sistema. Este tem sido demasiado politizado. Todas as pessoas são membros de partidos com pensamentos estalinizados.

Há muita gente a infectar-se por VIH/sida de propósito para ter acesso aos benefícios sociais

Se nada for feito ou o caminho continuar a ser o mesmo como imagina o sistema de saúde grego daqui a cinco anos?
Revolução. Acho que a resposta final passa pela música de John Lennon “you say you want a revolution...”. Se as medidas certas não forem aplicadas vamos ter uma guerra interna o que é realmente assustador. Sofremos tanto com os políticos, as desigualdades, as ineficiências e a corrupção... Eles têm aumentado a catástrofe do país. O que precisamos é de bons políticos que consigam levar o país para fora da crise. Se isso não acontecer, se não tomarmos as medidas certas na saúde, uma revolução vai acontecer. Se não fizermos as reformas toda a sociedade vai colapsar.

E qual tem sido a resposta da sociedade grega aos problemas? Há uma crise de valores?
Quando temos uma crise económica como a nossa já é uma crise de valores. Será que as pessoas estão a ficar apáticas ou será que estão a ajudar, que a solidariedade está a crescer? Das nossas evidências podemos ver que a solidariedade está a perder cada vez mais importância. As pessoas estão cada vez mais fechadas nas suas famílias a tentar resolver os problemas vitais da sua sobrevivência e não os gerais. Há muitas iniciativas altruístas mas esporádicas e não propriamente sistemáticas.

Em Portugal existe a sensação de que a Grécia pode ser o nosso espelho. Que imagem tem das reformas portuguesas, sobretudo na área da saúde?
Acredito que há elementos que nos distinguem de Portugal. Ambos tivemos distorções políticas nos nossos sistemas, mas a administração pública portuguesa é mais sólida e qualificada e o sistema de saúde partiu de uma base melhor. Além disso, não há tantos políticos corruptos em Portugal. A sociedade portuguesa está muito mais avançada em termos de administração pública, políticos, população jovem e académicos.

30.10.12

Na Grécia já há 600 mil pessoas abandonadas pelo sistema de saúde

Por Marta F. Reis, in iOnline

Director da secção grega dos Médicos do Mundo alerta que a catástrofe humanitária pode alastrar: “O governo diz que é a escolha da troika”

A história de Elena, contada pelo “The New York Times”, circulou nos últimos dias nas redes sociais. A doente com um tumor avançado na mama, do tamanho de uma laranja, deixou o chefe do serviço de oncologia do Hospital Geral Sotiria, no centro de Atenas, perplexo. “Coisas como estas eram descritas nos manuais, mas nunca as víamos porque até agora, qualquer pessoa que adoecia neste país conseguia ajuda”, conta Kostas Syrigos.

Elena andou mais de um ano sem saber a quem recorrer até um médico a enviar para uma clínica social, com o peito envolto em guardanapos, para ser tratada por médicos voluntários e com remédios doados. Elena deu rosto à situação dramática que se vive no país: a machadada num sistema de saúde que nunca chegou a estar consolidado foi perceber-se o que significa regras como os desempregados há mais de um ano deixarem de ter acesso a cuidados de saúde gratuitos. Com 600 mil pessoas nesta situação, fatia que pode chegar aos 1,2 milhões nos próximos meses, um em cada dez gregos está em risco de ser abandonados por um sistema de saúde com a pretensão de ser universal e tendencialmente gratuito.

Ao i, Syrigos não foi menos duro nas palavras: “Estas pessoas simplesmente não existem para o serviço nacional de saúde. É uma situação muito má.”

Toda a arquitectura do sistema nacional de saúde grego é diferente da realidade portuguesa, mas os especialistas salientam que o colapso foi rápido e merece ser olhado com atenção. Uma situação como a de Elena seria verosímil em Portugal se, por exemplo, os beneficiários de subsistemas como a ADSE perdessem o direito a qualquer prestação de saúde após um ano no desemprego e não tivessem como alternativa o Serviço Nacional de Saúde (SNS), que em Portugal protege ainda os mais pobres com isenções no pagamento das taxas moderadoras.

Em Portugal, depois da extinção dos serviços médicos das Caixas de Previdência e com a criação do SNS em 1979, mantiveram-se subsistemas subsidiados em parte pelo Estado e garante-se uma cobertura dupla: mesmo que a ADSE fosse à falência, os beneficiários continuariam a ter hospitais e centros de saúde onde recorrer. Na Grécia, a transição nunca foi concluída e o serviço nacional de saúde existe desde 1983 mas não é completamente financiado pelo orçamento do Estado: 48% são transferências de fundos da segurança social. Quem não desconta para a segurança social pode usar os serviços públicos, mas tem de pagar os custos praticamente na íntegra. Ainda assim, a Grécia investe na saúde 9,6% do PIB, acima da fatia de 6% com que Portugal sustentou este ano o sistema de saúde (em 2013 cai para 5,1%).

Deixou de chegar “Tentamos ajudar cobrindo os custos totais dos tratamentos com trabalho voluntário e remédios doados”, diz Kostas Syrigos, que colabora como voluntário na Metropolitan Social Clinic, uma rede de médicos fundada em Janeiro e onde Elena encontrou apoio. Mas a realidade é também conhecida de perto por Kanakis Nikitas, da secção grega da organização não-governamental Médicos do Mundo. “O que se passa na Grécia é muito simples: quem trabalha, desconta para a segurança social. Quem está desempregado, tem direito a segurança social durante um ano e depois não tem direito a nada. Sem segurança social e doente, se não tiver dinheiro e não encontrar ajuda, morre.” Não ter direito a nada significa pagar cinco euros por cada contacto com o sistema público, sem qualquer isenção. Mas isto é só o início, a taxa moderadora. As facturas atingem valores como 700 euros por um parto ou 3 mil a 4 mil por uma cirurgia oncológica se se recorrer aos hospitais públicos. A quimioterapia pode chegar aos 40 mil euros.

Além desta barreira no acesso, o apertar do cinto desde o primeiro resgate fez com que todo o sistema se degradasse. Charalampos Economou, investigador da Universidade Panteion, em Atenas, apresenta alguns indicadores: em alguns hospitais espera-se seis meses por uma cirurgia, por radioterapia três meses, o mesmo para a remoção de um tumor. O tempo de espera para fazer uma mamografia varia entre os três e os seis meses.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a Grécia chegou a ter o 14º melhor sistema de saúde do mundo. “Estamos a avançar para a mesma situação que os EUA viveram”, diz Syrigos. No ano 2000, quando a OMS avaliou o desempenho dos sistemas de saúde de 190 países, EUA apareciam longe na 37ª e Portugal na 12.ª.

O número de gregos que procuram a ajuda dos Médicos do Mundo aumentou quatro vezes nos últimos dois anos. “Este ano vamos atender 60 mil pessoas e há dois anos eram 30 mil, mas só 8% eram gregos”, conta Nikitas. Até aqui, este tipo de estruturas apoiava sobretudo imigrantes, sem a situação laboral regularizada e é aí que reside o problema: deixou de chegar. O desemprego disparou e os pedidos não param. É a combinação dos cortes orçamentais, descida nas comparticipações e o aumento do desemprego e nos impostos que torna a situação explosiva. E Nikitas salienta que não é por falta de alertas que se chegou ao ponto de catástrofe humanitária. “O governo diz que é a escolha da troika. O que é que eles dizem aí? São as mesmas pessoas, a mesma troika. Temos de cumprir se não não recebemos a próxima tranche. Não creio que seja muito diferente. Penso que não podem fazer nada, se não pode não haver dinheiro para a segurança social de todo.”

Para o médico, é hora de Bruxelas intervir mas também dos países mais pequenos enfrentarem o problema. “O que está a acontecer na Grécia vai acontecer-vos a vocês. Isto é certo. Somos os primeiros na fila. Mesmo que continuem e venha dinheiro para o desenvolvimento do país, não vai haver futuro. As pessoas não vão sobreviver.”

19.10.12

Supermercados gregos vão vender comida fora do prazo a preços mais baixos

Por Maria João Guimarães, in Público on-line

Os supermercados gregos vão vender alguns produtos alimentares fora do prazo, com descontos de até um terço do preço normal.

A medida, que deverá entrar em vigor na próxima semana, destina-se a alimentos considerados não perecíveis e exclui assim produtos como carne e lacticínios. São estabelecidos prazos diferentes conforme a data de validade: nos produtos em que o prazo estabelece um mês e um dia para o fim da validade, poderão ser vendidos até uma semana após a data, se tiver apenas indicado o mês, poderá ser vendido durante ainda mais um mês, e finalmente para produtos com indicação de ano, a venda poderá ser estendida durante mais quatro meses. Os produtos terão sempre de ter um sinal indicativo de que já passou o prazo.

O Ministério do Desenvolvimento, que promoveu esta medida, já disse que não há perigo para a saúde pública do consumo destes produtos. A medida poderá ser apenas aplicada em mercearias e supermercados e não em restaurantes.

Na Grécia, uma lei permitia já que os supermercados vendessem produtos não perecíveis após a data de validade. Agora fá-lo-ão com regras que estabelecem claramente quão depois do prazo podem fazê-lo, e com a obrigação de um desconto.

Preços sobrem cada vez mais
Grupos de consumidores criticaram o Governo, dizendo que esta é a prova de que as autoridades não conseguem controlar os preços crescentes dos alimentos. “É quase uma admissão da sua incapacidade para controlar os preços”, disse à agência Efe Tsiafutis Victor, da associação Qualidade de Vida. Entre Agosto de 2011 e o mesmo mês de 2012, o preço do açúcar aumentou 15%, dos ovos 6,8% e do café 5,9%.

Na União Europeia, há “uma rede intrincada de legislação” para “assegurar segurança na cadeia alimentar”, diz o site da ONG Conselho de Informação sobre Alimentação (EUFIC), explicando que os alimentos perecíveis têm uma data de validade e não devem ser consumidos depois desta data, mas que muitos alimentos têm ainda uma outra data, de consumo aconselhado antes de determinada data (“best before”), que estabelece no fundo o período durante o qual o alimento mantém as suas propriedades particulares – é possível consumi-lo com segurança após esta data, mas poderá ter as propriedades (sabor, cheiro, aparência) alteradas.