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18.7.23

No Centro que vai perdendo gente, o “futuro das aldeias é ir fechando as portas”

Camilo Soldado (Texto) e Paulo Pimenta (Fotografia), in Público

Reportagem Estado da Nação. Nuno Marçal conduz mais do que uma biblioteca itinerante por um território em processo de despovoamento.

A carrinha branca de Nuno Marçal navega pela ondulação de pequenos montes e vales pontuados por oliveiras, vinhas e curtas manchas de pinhal que vão dar à aldeia de Estevês, no concelho de Proença-a-Nova. Quando pára à porta da casa de Felismina Rodrigues, a única habitada daquela rua, não demora muito até que a mulher de 62 anos vá ao seu encontro.

Devolve as revistas que o bibliotecário itinerante lhe tinha dado há duas semanas, recebe nova remessa e estabelecem uma breve conversa. Esta é a rotina de Nuno Marçal, que há 17 anos leva este projecto da Biblioteca municipal de Proença às povoações mais isoladas do concelho do distrito de Castelo Branco. O percurso do Bibliomóvel repete-se de duas em duas semanas. Nuno empresta livros, revistas, conversa. Com o tempo, tornou-se uma cara familiar. "Posso deixar alguma coisa, mas trago comigo muito mais", diz. Isto embora vá encontrando cada vez menos pessoas.

A Felismina, que tem a mobilidade condicionada, as revistas de culinária, jardinagem e bordados oferecem outras possibilidades. Dali tira ideias, experimenta receitas, passa um tempo que já foi mais
Ao cimo da rua, uma velha videira insiste em trepar por cima do local que já foi a taberna de Estevês. Era um raro espaço de convívio. A porta de chapa mantém-se fechada e as fitas que serviam para afugentar as moscas são agora fiapos. “De há 40 anos para cá, isto perdeu muita gente mesmo”, comenta a moradora. “Tornou-se isto mais vazio. Habituamo-nos, não é? Mas com alguma tristeza.”


Fala nos mais velhos que vão morrendo, nos jovens que saem para estudar e não voltam. Também não há muito emprego que os segure. Dá como exemplo o encerramento da fábrica de transformação de madeira da Sotima, na viragem do milénio. Atrás dela fecharam serrações, cuja actividade induzia a gestão da floresta. É um efeito em cadeia que agrava as consequências dos incêndios que passam com demasiada frequência por ali.

“Não procuro multidões porque elas não existem”, diz Nuno Marçal, que tem encontrado cada vez menos gente à medida que os anos avançam. “O que viram hoje é o que acontece muitas vezes: aparecem duas e três pessoas por aldeia”, constata, no final de tarde em que PÚBLICO o acompanhou. É para essas que trabalha.

Muitas vezes, serve de único elo de ligação do Estado com a vida de uma população que viu partir comércio e serviços. Não trata apenas de livros, mas leva a possibilidade de fazer pagamentos em multibanco, de renovar cartas de condução, de entregarem a declaração de IRS. É uma biblioteca, mas também uma pequena loja do cidadão. Por vezes, tem companhia do pessoal da unidade móvel de saúde, para fazer rastreios.

Um problema maior

Na última década, Proença-a-Nova perdeu 13,8% da população. Mas nem foi o concelho da região Centro que mais viu descer o número de habitantes. Almeida, na fronteira com Espanha, perdeu 18,71% dos moradores, quase um quinto das suas pessoas. O vizinho concelho de Figueira de Castelo Rodrigo perdeu 17,76% dos habitantes. É o segundo classificado de uma tabela que ninguém queria encabeçar.

Num país que, pela primeira vez desde os anos 1980, inverteu um ciclo de crescimento de população, em território continental, só no Alentejo se verificou um ritmo de declínio populacional mais acelerado do que no Centro (4,32% contra 6,97%). Mas o mapa mostra um indicador preocupante: o Centro é a região mais envelhecida do país. No mapa do despovoamento, as cores mostram uma divisão entre litoral e interior, entre cidades e aldeias. A sangria demográfica é acelerada nos territórios de baixa densidade.

Publicado em 2019, o Programa Nacional da Política do Ordenamento do Território identificava 126 municípios particularmente vulneráveis, estimando que pudessem perder 15% ou mais da população até 2030: 24 desses concelhos atingiram ou ultrapassaram essa percentagem logo em 2021.


“Da esquerda à direita, os autarcas têm feito muito. Mas já não são os autarcas que podem resolver o problema”
Carlos Condesso, presidente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo
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Em 2016, o Governo lançou o Programa Nacional para a Coesão Territorial para combater a “litoralização progressiva do país”. “Foi um programa cheio de boas intenções que não teve qualquer repercussão no interior”, considera Condesso. A administração central poderia dar o exemplo, considera, ao mudar alguns dos organismos para estes territórios. A atractividade do território depende da carga fiscal, do preço das portagens, bem como de outras condições. “Fala-se muito de nómadas digitais, mas como é que alguém se pode mudar para estes municípios se, muitas vezes, não há cobertura [de rede móvel], quanto mais 5G?”, questiona.


Mais estradas, menos pessoas

Quando chega a uma determinada aldeia, Nuno repete um ritual que passa por colocar dois degraus de madeira que ajudam a vencer a altura da carrinha, onde os seus fregueses podem escolher os livros.

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Outro aspecto muito positivo, considera, foi a “pulverização de escolas de ensino superior e universidades em territórios que há 30 anos não conheciam essa realidade”, possibilitando a permanência no território de alguma população qualificada e a atracção de nova. Talvez o cenário de despovoamento fosse ainda mais crítico se isto não tivesse acontecido, aventa.


Mas o gráfico de perda de população mantém o trajecto descendente, numa história contada pelo desencontro entre o que o território tem para oferecer e as expectativas dos mais jovens. Não é só trabalho, mas também oferta de actividades de tempos livres, exemplifica. A catedrática em geografia da saúde dá o exemplo dos médicos: “Os hospitais estão lá, os centros de saúde também, mas o problema é que os jovens médicos não são atraídos para esses territórios. Há oferta, mas não há uma correspondência com as suas expectativas.”

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Fechar portas

Entre todos os que partem, há também quem volte à terra, nota Nuno Marçal, enquanto conduz o Bibliomóvel, acabado de deixar a aldeia de Peral, onde Júlia Tavares, de 80 anos, insiste em manter aberta uma mercearia – a única da aldeia – que é também café. Vende de tudo um pouco, de gás a ração para animais. Mas há pouca gente e o negócio é fraco. Quase a chegar a Vale da Mua, o bibliotecário diz que os retornos de quem ali nasceu são envolvidos numa expectativa que esbate “na dura realidade”: a distância aos serviços, a fraca cobertura de rede móvel, a fraca rede de cuidados de saúde.


Alguns pontos desta lista coincidem com as queixas de Maria Adília Ribeiro, que nasceu em Vale da Mua, deu aulas no Barreiro durante 43 anos e regressou há 15 meses à aldeia. “Há muitas condições que não havia antes”, diz, com um livro de Isabela Figueiredo enfiado no saco. Não havia as estradas que agora há e ainda estudou à luz de um candeeiro de petróleo. Apesar disso, a localidade há-de ter agora um terço da população que tinha antes, estima. Não vê como se possa inverter esta tendência em que os mais novos vão saindo e os mais velhos morrendo. “O futuro destas aldeias é ir fechando as portas”, sentencia.





Atribui a saída dos jovens ao afastamento do mar, ao menor acesso à cultura, à maior dificuldade em viajar para fora do país. “E nestas aldeias, quem não tem um carro está condicionado a uma vida muito fechada”, acrescenta, pelos 30 quilómetros de distância a um supermercado ou a uma farmácia. A segunda geração, não manterá os vínculos à terra, acredita. “Enquanto cá tiverem a sopa, vêm. Depois já não”, comenta Olinda Pires, de 78 anos, vizinha da professora reformada.

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“As pessoas que não foram criadas na aldeia têm dificuldade em aqui viver. Gostam de cá vir oito dias. É tudo muito bonito. Vão às praias fluviais, vão à piscina. Depois vão-se embora”, conta Maria Adília Ribeiro.

Regressou para cuidar da mãe, de 93 anos. A horta e as flores que plantou ajudam-na a manter-se em Vale da Mua, onde “as condições de vida não são muito aliciantes”. Os livros que Nuno traz ajudam a passar o tempo, embora não deixe de matutar sobre o regresso ao Barreiro, onde, enquanto professora, viu pessoas crescer, ouviu muitas histórias e limpou muitas lágrimas. “Isso prende muito as pessoas aos lugares e eu estou lá presa”, diz. Mas tem ali a raiz e, para já, é isso que a faz continuar.


[artigo disponível na íntegra só para assinantes aqui]

25.8.21

Arcebispo de Évora. “Não podemos aceitar que, para tudo, se tenha de emigrar”

Rosário Silva, in RR

Preocupado com o fenómeno do despovoamento, D. Francisco Senra Coelho pede melhores condições para que os jovens não tenham de sair da região ou do país e defende a descentralização de serviços: “Não falo de uma descentralização despesista, falo de uma valorização das regiões, para que Portugal se consolide num só e não viva nesta situação de desequilíbrio.”

“Neste momento se Portugal fosse um barco, viraria totalmente e não se aguentaria a flutuar, porque a população está toda virada para um lado, numa situação marcadamente desequilibrada.” A afirmação é do arcebispo de Évora, preocupado com o despovoamento que assola a região, confirmado, de resto, pelos resultados preliminares dos Censos 2021, divulgados recentemente.

Em período de férias e a pouco mais de um mês de dar início ao novo ano pastoral, D. Francisco Senra Coelho, em entrevista ao semanário “A Defesa”, da diocese que dirige, fala com preocupação das questões que afetam esta região, que perdeu, numa década, 6,9% da sua população.

“A problemática da desertificação no Alentejo é muito grave”, considera o prelado. “Uma terra despovoada, sem presença humana, é uma terra abandonada, e quando se encerra mais um centro de saúde, uma escola ou um jardim de infância, está-se a dizer, simplesmente, que estamos a levantar o acampamento”, sublinha.

Para D. Francisco, são decisões “irrefletidas e desmotivadoras”, que depauperam a região. “Uma política que marca o seu atuar por estes gestos, não pode dizer que quer promover, aí, a renovação da população.”

Motivos que afastam os jovens da sua região e do seu país, onde “não há um desenvolvimento compatível aos seus sonhos, que lhes ofereça um futuro”, levando-os a partir. “Vão ficando os idosos, as pessoas de meia idade que estão ao serviço da região, marcada por alguma indústria e a resistência dos empresários que cá estão”, alude.

A “revolução agrária” e a falta de mão-de-obra

Nesta entrevista ao jornal da arquidiocese, o prelado fala da “grande revolução agrária” que está a acontecer no Alentejo, com a agricultura a beneficiar da grande barragem do Sul, mas alerta para o problema da falta de mão-de-obra.

“Estamos a ver a paisagem do Alentejo a mudar e sabemos que suscita diferentes opiniões”. Contudo, “isso tem trazido a necessidade de mão-de-obra e a região não tem pessoas para este efeito”.

Por isso, recorda, “foi necessário acolher migrantes em larga escala”, o que abriu portas a outros problemas, como a exploração laboral, uma questão para a qual as dioceses de Évora e Beja já chamaram a atenção das entidades competentes, mas “sem respostas concretas.”

Também ao nível do trabalho social, a falta de pessoas para trabalhar no apoio domiciliário, em residências para idosos ou centros de dia é uma “realidade preocupante”, levando o prelado a concluir que o “fenómeno de não termos capacidade de cuidar da nossa terra é grave”, demonstrando que “não foram tomadas, a tempo, determinadas atitudes”, colocando a descoberto “o abandono da região”.
“Como se consegue travar a diminuição da população quando os jovens partem?”

A pergunta é feita pelo próprio arcebispo, logo seguida da resposta: “a única forma é olhar com interesse para o Alentejo.”

D. Francisco Senra Coelho defende a “criação de condições para as novas gerações”, para que não seja necessária a saída da sua própria terra.

“Não podemos aceitar que, para tudo, se tenha de emigrar. Seja para ir para um lar ou para um hospital” e, “muito menos, para se ter um lar e um futuro”, acentua.

Lembrando as palavras do Papa, “o grito da Terra e dos pobres”, o pastor da diocese eborense afirma que “há muitos gritos de pobres no Alentejo”, como “o grito dos avós e dos pais que veem o lugar dos seus netos e filhos, vazios à mesa”, não sendo mais que “o grito de saudade, de um povo muito arreigado à sua terra.”

O arcebispo de Évora considera que “é necessário discriminar pela positiva o Alentejo e o interior de Portugal”, dando como exemplo o que já acontece com as regiões autónomas dos Açores e da Madeira.

“Esta interioridade gera situações que não nos dão as mesmas possibilidades de quem vive num litoral desenvolvido ou numa cidade onde tudo é próximo, onde tudo é acessível”, lembra, apelando a que “Portugal não viva uma centralização” e que sejam trazidos serviços públicos para as capitais de província.

“Não é necessário estar tudo em Lisboa, podemos ter serviços nas diversas regiões com uma razoável e racional forma de aproveitamento de renovação de recursos e de despesas”, defende. “Não falo de uma descentralização despesista, falo de uma valorização das regiões, para que Portugal se consolide num só e não viva nesta situação de desequilíbrio.”

A falta de presença humana “paga-se com a desertificação, com os incêndios ou com o descuido do património”, por isso, D. Francisco pede aos decisores políticos que “o Alentejo seja visto e olhado com cuidado.”